sábado, 27 de fevereiro de 2010

A MALVADA


A MALVADA (All about Eve, 1950, 20th Century Fox, 138min) Direção e roteiro: Joseph L. Manckiewicz. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Barbara McLean. Música: Alfred Newman. Figurino: Edith Head, Charles LeMaire. Produção: Darryl F. Zanuck. Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Thelma Ritter, Hugh Marlowe, Marilyn Monroe. Estreia: 13/10/50

14 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manckiewicz), Atriz (Bette Davis e Anne Baxter), Ator Coadjuvante (George Sanders), Atriz Coadjuvante (Celeste Holm e Thelma Ritter), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joseph L. Manciewicz), Ator Coadjuvante (George Sanders), Roteiro Original, Figurino, Som

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

É fácil entender porque Kim Carnes compôs "Bette Davis eyes", canção de sucesso dos anos 80. Basta assistir a uma única cena de "A malvada" - mesmo porque não querer assistir as demais é tarefa inglória - para compreender o fascínio que o olhar da atriz Bette Davis desperta em sua audiência. Um arquear de sobrancelhas de Davis fala mais do que páginas e páginas de diálogos e já seria argumento suficiente para justificar a influência que o cinema hollywoodiano tem sobre todo o planeta.

Bette Davis fez mais de 100 filmes em sua brilhante carreira, mas não há como negar que, se tivesse feito apenas "A malvada" já teria seu nome marcado de forma indelével no coração dos cinéfilos. Ela pode ter perdido o Oscar para Judy Holiday (o motivo é até hoje um mistério) mas sua Margo Channing é, sem sombra de dúvida, uma de suas mais fortes atuações.

Margo Channing (Bette Davis) é uma diva dos palcos da Broadway. Admirada pelo público e respeitada pela crítica, ela vive cercada por amigos fiéis, como Karen (Celeste Holm), esposa do dramaturgo Lloyd Richards (Hugh Marlowe), a camareira Birdie (Thelma Ritter) e seu noivo, o diretor Bill Simpson (Gary Merrill). Sua vida começa a mudar quando ela dá o emprego de assistente pessoal à jovem e dedicada Eve Harrington (Anne Baxter). Fã confessa da atriz, Eve começa a viver em função de Margo até que, aos poucos a estrela começa a perceber que suas intenções não são exatamente nobres – na verdade, Eve tem o objetivo de tomar o lugar de Margo nos palcos, no coração dos fãs e, pior ainda, na cama de Bill.

A primeira cena de "A malvada" é a entrega de um troféu de interpretação teatral para Eve. Seus fiéis "amigos" estão todos na cerimônia e o cínico crítico vivido por George Sanders (vencedor do Oscar de coadjuvante) começa a contar "tudo sobre Eve"... E esta primeira cena já deveria figurar em qualquer antologia. Em pouquíssimos minutos está estabelecida a história, as personagens e os conflitos. Em poucos momentos a atenção do público já está presa. E a partir daí é aproveitar cada cena, cada fala, cada gesto de Bette Davis e cada ironia e sarcasmo do roteiro.


Aliás, talvez a melhor qualidade de "A malvada" seja o seu frescor. Ao contrário de muitos filmes clássicos, em nenhum momento o roteiro de Joseph L. Manciewickz (considerado um déspota cruel por todos que trabalharam com ele) soa datado, ou empolado ou até mesmo anacrônico. É escrito com uma leveza, uma coloquialidade e uma inteligência ímpares, que o destaca entre seus congêneres. Aliás, não deixa de ser uma feliz coincidência o fato de que o melhor filme sobre os bastidores do cinema da história ("Crepúsculo dos deuses") tenha sido lançado no mesmo ano do melhor filme sobre os bastidores do teatro. No entanto, enquanto o filme de Billy Wilder conta de maneira melancólica a derrocada de um ícone do cinema mudo, a obra de Manciewickz narra a ascensão de um possível mito dos palcos. Enquanto Norma Desmond (a protagonista de "Crepúsculo...") perde a sanidade ao confrontar-se com sua decadência, Eve Harrington ganha fama e prestígio, mesmo sendo obrigada a abdicar de sua alma - algo que ela não parece se importar em perder. É um filme sobre teatro, mas poderia se passar em qualquer outro campo de trabalho que faria o mesmo sentido. Se alguém duvida desta afirmação basta lembrar a sinopse da novela "Celebridade", de Gilberto Braga, onde Cláudia Abreu fazia tudo a seu alcance para conquistar tudo que era da personagem de Malu Mader.

Apesar de Anne Baxter ser, de certa forma, a protagonista de "A malvada" - afinal é a partir dela que a história anda - , é a presença de Bette Davis que domina cada fotograma. Margo Channing não é exatamente uma flor de simpatia - tem momentos de arrogância explícita - mas não deixamos em nenhum momento de admirá-la e torcer para que consiga dar o troco na malévola Eve. Margo é uma mulher dona de si, ciente de seu talento e de seu carisma, mas que vê em Eve - depois de um certo tempo - a ameaça da juventude e da beleza. Margo é acima de tudo, uma mulher, que tem medo de perder tudo que conquistou - inclusive o amor de um homem e admiração dos fãs que até então ela considerava uma "raça inferior" - para alguém que tem a oferecer talvez menos do que ela - mas em uma edição mais fresca. De certa forma tem similaridades com a Norma Desmond criada por Gloria Swanson, mas tem, a seu favor, uma sanidade mental e uma capacidade de raciocínio invejáveis.

Assistir a "A malvada" é como assistir a um duelo de gigantes. Quem sai vitorioso, no entanto, é o público, que tem o privilégio de ver, rever e trever um dos maiores filmes sobre o mundo do teatro. E se existe mais uma razão para se assistir ela se chama Marilyn Monroe, em um papel pequeno que seria o início de sua carreira.

PS - "Tudo sobre minha mãe", a obra-prima do espanhol Pedro Almodovar, tem este título (Todo sobre mi madre) em homenagem a "A malvada". Em uma de suas primeiras cenas, mãe e filho estão assistindo ao filme de Manciewickz e no decorrer da trama a personagem de Cecilia Roth assume no palco o papel da atriz vivida por Marisa Paredes. Uma homenagem triunfante e merecida!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CREPÚSCULO DOS DEUSES


CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset boulevard, 1950, Paramount Pictures, 110min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, D. M. Marshman Jr. Fotografia: John F. Seitz. Montagem: Arthur P. Schmidt, Doane Harrison. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: Charles Brackett. Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim, Nancy Olson, Jack Webb. Estreia: 04/8/50

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (William Holden), Atriz (Gloria Swanson), Ator Coadjuvante (Erich Von Stronheim), Atriz Coadjuvante (Nancy Olson), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 3 Oscar: História e Roteiro Originais, Trilha Sonora Original, Direção de Arte

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Atriz (Gloria Swanson), Trilha Sonora Original

Poucas vezes na história do cinema um título nacional conseguiu atingir tão precisamente a essência de um filme quanto "Crepúsculo dos deuses", a versão brasileira de "Sunset Blvd", uma das várias obras-primas legadas ao mundo pelo cineasta Billy Wilder. Poético, trágico e imponente, o título já dá uma ideia do alcance da obra, que utiliza a trágica história de uma atriz veterana em busca de uma nova chance como metáfora assustadora da inevitabilidade da decadência e da efemeridade da juventude, da beleza e, por que não?, da sanidade mental.

A protagonista de "Crepúsculo dos deuses" é Norma Desmond, uma diva do cinema mudo que não resistiu à transição para os filmes falados. Vivendo isolada em um mundo particular, dentro de uma mansão decadente na Sunset Boulevard (o tal título original) e refugiando-se nas glórias de seu passado, ela sonha em voltar às telas em uma adaptação de "Salomé", de Oscar Wilde, com ela no papel-título (o fato de ter muito mais idade que a personagem não lhe preocupa nem um pouco). Servida fielmente pelo mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stronheim), Desmond vive do passado enquanto sonha por um futuro pouco provável (ao menos para olhos mais racionais). Sua vida sofre uma reviravolta quando ela conhece o aspirante a roteirista Joe Gillis (William Holden), que, foragido dos credores, se esconde na garagem de sua mansão. Apaixonada por ele, a atriz o contrata para ajudá-la a escrever seu retorno ao cinema, que, acredita ela, é um evento esperado ansiosamente por seus fãs. No entanto, o rapaz, que submete-se a sua dominação por estar sem dinheiro e sem possibilidades de trabalho, apaixona-se pela doce namorada de um amigo (Nancy Olson) e, rejeitada, Norma Desmond embarca em um caminho sem volta de rancor e desilusão.

Quando um filme fala sobre cinema corre o sério risco de cair nas armadilhas de auto-referência, narcisismo e pior ainda, metalinguagem (o que, quando usado sem parcimônia pode transformar um filme em uma tortura). Não é qualquer cineasta que tem auto-crítica em quantidade suficiente para realizar um filme sobre os bastidores de sua profissão sem fazer dele um exercício de auto-adoração. Felizmente Billy Wilder não é "qualquer cineasta". Dono de uma visão toda particular da vida e principalmente da sétima arte, ele oferece ao espectador um ângulo poucas vezes visto do mundo do cinema, onde o talento muitas vezes é relevado a melancólicos segundos planos diante da beleza e do "novo". O roteiro - escrito por Wilder com seu habitual colaborador Charles Brackett - é repleto de um cinismo delicioso, mas seco, cruel e a um passo do pessimismo. As cenas entre Desmond e seu mordomo - que já foi seu marido e diretor de alguns filmes seus - são de partir o coração, tamanha a compaixão que a protagonista desperta na audiência. Sim, ela é louca. Sim, ela é arrogante e sim, ela é egocêntrica. Mas a atuação de Gloria Swanson é tão, mas tão perfeita, que fica difícil não ficar fascinado com seus gestos, seus olhares - em determinado momento ela diz, com certa razão: "Não preciso de falas, tenho meus olhos..." - sua grandeza intrínseca. Norma Desmond é, sem dúvida, uma das grandes personagens da história do cinema e Swanson apropriou-se dela de tal maneira que é difícil imaginar outra atriz em seu lugar - e isso que Mae West, Mary Pickford e Pola Negri foram convidadas antes dela, recusando o papel para sorte nossa. Como ela e Bette Davis (por "A malvada") foram preteridas na premiação do Oscar de melhor atriz em nome de Judy Holiday (por "Nascida ontem") ainda é um mistério inexplicável.

Em cena, Swanson é poderosa, frágil, romântica, enlouquecida, uma estrela ou apenas uma sombra da glória de sua personagem. Ao lado de William Holden (que ficou com o papel recusado por Montgomery Clift, por pouco não oferecido a Marlon Brando e que não pôde ficar com Gene Kelly por questões contratuais), ela é uma mulher apaixonada. Diante de seu mordomo, uma diva atemporal. Para os espectadores, uma mulher perdida entre o passado de sucesso e o presente sufocante.

Além da magnífica ambientação soturna do filme (que pode sem medo ser encaixado na categoria de filme noir, ainda que não corresponda a todas as suas regras), do roteiro extraordinário, da direção precisa e do elenco irretocável (Erich Von Strohneim também foi cineasta, assim como seu personagem), "Crepúsculo dos deuses" ainda encontra espaço para homenagear astros que, assim como Norma Desmond, viram seus melhores anos esquecidos pelo advento do som, como Buster Keaton, que faz seu próprio papel em uma breve cena de jogo de cartas. E o cineasta Cecil B. de Mille também dá o ar da graça, interpretando ele mesmo, em uma cena que demonstra como poucas a divisão claramente estabelecida entre a velha e a nova (da época) Hollywood.

"Crepúsculo dos deuses" é um dos melhores filmes da história, digo sem medo de errar. Tudo funciona, tudo está no lugar certo, tudo faz sentido. E quando acaba, mesmo sem querer ser saudosista não há como negar que Norma Desmond está certá quando diz que "os filmes é que ficaram pequenos".

PS - Havia um boato de que o musical da Broadway inspirado em "Sunset Blvd" seria adaptado para o cinema com Glenn Close como Norma Desmond e Ewan McGregor como Joe Gillis. Tem lugar na primeira fila???

PAVOR NOS BASTIDORES


PAVOR NOS BASTIDORES (Stage fright, 1950, Warner Bros, 110min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Whitfield Cook, baseado no romance de Selwyn Jepson. Fotografia: Wilkie Cooper. Montagem: E. B. Jarvis. Música: Leighton Lucas. Elenco: Jane Wyman, Richard Todd, Marlene Dietrich, Michael Wilding, Alistair Sim, Patricia Hitchcock. Estreia: 15/4/50

No definitivo livro de entrevistas "Hitchcock Truffaut" (obra-prima indispensável lançada pela Cia das Letras), o mestre do suspense declara que o filme "Pavor nos bastidores", lançado em 1950, não estava entre seus preferidos, e listava uma série de defeitos que via no resultado final - e nesse rol constava a ausência de um vilão memorável, a falta de entrega da estrela Jane Wyman à sua personagem e a utilização de um artifício que ele desprezava: um flashback mentiroso.

Assistindo-se ao filme - que nem é dos mais conhecidos do cineasta inglês - é impossível negar que ele sabia o que estava falando. Todas as suas críticas em relação à obra procedem. Richard Todd é um vilão absolutamente fraco, Jane Wyman não entusiasma (e isso que vinha de um Oscar de melhor atriz, por "Belinda") e se o flashback mentiroso não chega a incomodar tanto, pelo menos poderia ter sido um pouco menos intrincado. Mas o que Hitch não disse e que fica patente em determinados momentos é a força indescritível de uma coadjuvante que faz toda a diferença. É de ficar de queixo caído sempre que a inesquecível Marlene Dietrich entra em cena. Seu carisma, sua beleza gélida, sua voz grave e suas belas pernas são de fazer com que qualquer pecado do filme atinja o tamanho de um mísero grão de areia.



A história de "Pavor nos bastidores" segue uma linha Agatha Christie de narração. A estudante de teatro Eve Gill (Jane Wyman) é apaixonada pelo misterioso Jonathan Cooper (Richard Todd), que tem um relacionamento clandestino com a famosa atriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich). Quando Jonathan a procura, pedindo ajuda para fugir da polícia, uma vez que ele é o principal suspeito da morte do marido de Charlotte, Eve resolve provar a todos sua inocência. Suspeitando da própria viúva, ela assume a falsa identidade da camareira substituta da atriz para assim desmascará-la. O único problema de seu plano surge quando ela se apaixona pelo detetive do caso, o sensível Wilfred Smith (Michael Wilding).

Hitchcock diz ainda, na entrevista a François Truffaut, que dois motivos o levaram a dirigir "Pavor nos bastidores": a influência de vários críticos literários que haviam lido o romance que deu origem ao roteiro e insistiam que era um material que serviria perfeitamente a seu estilo e a vontade de dirigir um filme que se passasse nos bastidores do teatro. O primeiro motivo ele mesmo reconheceu ter sido um equívoco. O segundo também não é exatamente forte - mesmo porque, no mesmo ano, "A malvada", de Joseph L. Manckiewicz falaria do assunto com muito mais propriedade. Mas "Stage fright", ainda que não seja uma obra-prima como vários dos trabalhos do pai de "Psicose" e "Os pássaros" tem momentos de quase genialidade - um exemplo claro é a armadilha em que a personagem de Marlene cai, já no terço final de projeção.

É inegável que a primeira parte de "Pavor nos bastidores" é bastante superior à sua segunda metade: a definição da trama é interessante e o suspense genuíno, em contrapartida ao final anêmico e anticlimático. Dietrich - mesmo não sendo propriamente uma grande atriz dramática - segura muito bem a audiência, mas o mesmo não pode ser dito de uma indiferente Wyman, um nada simpático Richard Todd e um apático Michael Wilding (que, casado com Elizabeth Taylor à época, logo morreria em um trágico acidente de avião). Ainda assim, assistir a um Alfred Hitchcock "menor" ainda é uma experiência a ser degustada com grande prazer.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CASABLANCA



CASABLANCA (Casablanca, 1942, Warner Bros., 102min) Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Julius G. & Philip G. Epstein, Howard Koch, baseado na peça teatral de Murray Burnet e Joan Alison. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Owen Marks. Música: Max Steiner. Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Peter Lorre, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet. Estreia: 07/12/42

8 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Michael Curtiz), Ator (Humphrey Bogart), Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Curtiz), Roteiro Adaptado


"Este pode ser o início de uma bela amizade." "Nós sempre teremos Paris." "Esse barulho... são canhões ou o meu coração batendo?" "Os alemães estavam vestindo cinza, você azul..." "Eu sou um bêbado. - Então isso faz de você um cidadão do mundo..."
Em quantos filmes escritos hoje em dia você pode fazer uma lista de frases memoráveis como as citadas acima? Pois todas elas fazem parte do roteiro de um único filme, que era escrito conforme as filmagens andavam e que, inspirado em uma peça teatral nunca montada, acabou levando o Oscar da categoria. Diálogos deliciosos, uma história empolgante, um elenco impecável e uma trilha sonora inesquecível e pronto: nascia um clássico, ainda que na época ninguém ousasse considerar outra hipótese que não um fracasso - os Oscar de filme, diretor e roteiro provaram que todos os que previam sua derrocada estavam redondamente enganados. "...E o vento levou" pode ser a epítome dos filmes épicos, mas em termos de romance, nenhum filme bate "Casablanca". Sua atmosfera passional e a química invejável do casal central não encontrou, até hoje, um concorrente à altura. Quer provas? Tente resistir quando Ingrid Bergman - no seu momento mais fascinante da carreira - pede a Sam que toque "As time goes by" e repare na troca de olhares entre ela e Humphrey Bogart. Ainda não achou nada de espetacular? Então vá na locadora e alugue todos os filmes do Chuck Norris, porque não tem mais salvação.

Durante a II Guerra, inúmeros foragidos do III Reich são obrigados a passar por uma cidade chamada Casablanca, localizada no Marrocos francês, em busca de um caminho seguro para permanecerem vivos. Entre esses foragidos está Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência procurado desesperadamente pelas autoridades. Laszlo chega à Casablanca em busca de um par de salvo-condutos que lhe seria vendido pelo ambicioso Ugarte (Peter Lorre), que é preso e morto pouco antes de sua chegada. Só quem sabe o paradeiro dos documentos é Rick Blaine (Humphrey Bogart), um misterioso e cínico americano que já tivera seus dias de idealismo e parou no país depois de uma decepção amorosa. Rick, que no fundo ainda tem uma alma nobre fica tentado a ajudar Laszlo, mas entra em um dilema mortal quando descobre que a esposa do herói de guerra é a mesma Ilsa (Ingrid Bergman) com quem ele teve um romance inesquecível em Paris e que fez dele o homem amargo no qual ele se transformou.


O que faz de "Casablanca" mais do que apenas um filme romântico da era de ouro de Hollywood não é apenas seu roteiro excepcional - como se "apenas" fosse palavra a ser utilizada aqui. A bela fotografia em preto-e-branco (que utiliza o visual dos filmes noir em voga na época, em especial nos produtos da Warner Bros.) deslumbra o mais crítico dos espectadores e a trilha sonora de Max Steiner é de aplaudir de pé. Não bastasse comentar a ação discretamente - que é a função de uma trilha sonora de qualidade - ela ainda conta com a belíssima "As time goes by", que virou símbolo inequívoco de romantismo e não por acaso tornou-se a música de abertura dos filmes da Warner - e o documentário sobre o estúdio não chama-se "You must remember this" à toa.

Não é difícil entender a trama do filme do húngaro Michael Curtiz (que ganhou o Oscar de melhor diretor por seu trabalho). Difícil é escolher a melhor cena de um filme repleto delas. Será a batalha de hinos dentro do Rick's? Ou o flashback contando a história de amor dos protagonistas? Será o reencontro dos dois? Ou a cena final, onde Ilsa tem que escolher entre ficar com Rick ou embarcar com Victor (cena esta copiada no último capítulo da novela "Roque Santeiro")? São tantos momentos mágicos que é tarefa das mais árduas pensar em Ronald Reagan (ele mesmo, que viria a ser presidente dos EUA décadas mais tarde) no papel de Rick Blaine ou qualquer outra atriz como Ilsa. Assim como seus personagens, eles ficarão impressos para sempre nas retinas e nos corações românticos como o casal mais apaixonado da história do cinema. Afinal, "a kiss is still a kiss"...

PS - Em 1999 tive a oportunidade única de assistir a "Casablanca" no cinema, em um pequeno festival em comemoração ao aniversário da Warner Bros. Foi uma experiência indescritível.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SUSPEITA



SUSPEITA (Suspicion, 1941, RKO Pictures, 99min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Alma Reville, Samson Raphaelson, Joan Harrison, baseado no romance "Before the fact", de Frances Iles. Fotografia: Harry Stradling. Montagem: William Hamilton. Música: Franz Waxman. Elenco: Cary Grant, Joan Fontaine, Nigel Bruce, Sir Cedrick Hardwicke. Estreia: 14/11/41

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme e Atriz (Joan Fontaine)
Oscar de Melhor Atriz (Joan Fontaine)


A tímida e delicada Lina MacLaidlaw (Joan Fontaine) é a filha única de um casal que já nem acredita mais em um casamento para ela. Em parte para provar aos pais que é capaz de arrumar alguém e em parte por paixão, ela sobe ao altar com o misterioso e charmoso Johnnie Aysgarth (Cary Grant), que nunca teve um emprego na vida e tem por hobby apostar em corridas de cavalos. Aos poucos, com sua ajuda, o bon-vivant Johnnie tenta mudar de vida, com um ambicioso projeto turístico que envolve seu melhor amigo, o simpático Beacky (Nigel Bruce). No entanto, quando Beacky morre assassinado, Lina começa a desconfiar que o interesse excessivo de seu marido por romances policiais pode na verdade não ser casual e, ao descobrir inúmeras mentiras contadas por ele, passa a ter certeza absoluta de que será sua próxima vítima.

Em 1940, Alfred Hitchcock havia lançado "Rebecca, a mulher inesquecível", que, além de sucesso financeiro levou pra casa o Oscar de melhor filme. Seu filme seguinte, este "Suspeita" utiliza a mesma atriz - a bela Joan Fontaine - para, mais uma vez, brincar com os nervos do espectador com o poder miraculoso da sugestão. Enquanto em "Rebecca" a protagonista tinha de conviver com a lembrança sempre presente da falecida mulher de seu marido, em "Suspeita" a personagem de Fontaine tem como companhia uma outra obsessão: a possibilidade de que seu amado e dedicado cônjuge pode, na verdade, ter a intenção de matá-la para ficar com seu dinheiro.

Joan Fontaine ganhou o Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Suspeita", onde leva mais longe o ar assustado que já vinha usando desde "Rebecca". O prêmio foi justo. É a jovem e apavorada Lina que conduz o espectador rumo às sombras negras de sua imaginação - ou não -, revelando aos poucos para si e para a audiência todas as nuances da personalidade de Johnnie. Afinal, ele é ou não um assassino em potencial?



Hitchcock brinca com a dúvida do princípio ao fim de seu filme. Certezas absolutas vão sendo descartadas cena a cena, e dúvidas aterradoras vão surgindo em cada fotograma - e como não se deslumbrar com a famosa cena em que Johnnie serve um copo de leite à eposa? O leite brilha mais do que o normal, graças a truques do diretor de fotografia Harry Stradling e o público fica na ponta da cadeira...

Mas se Joan Fontaine brilha como a esposa que luta pela vida e pela sanidade mental é Cary Grant quem rouba a cena. O charme do ator, sua personalidade sedutora e sua classe servem como uma luva às intenções do cineasta em lançar as sementes da dúvida na percepção de seu público. Estivesse um outro ator em cena a dubiedade não seria tão eficaz, mas Grant é tão perfeito em seu papel que, assim como Lina, é impossível não apaixonar-se por ele e, conforme a história avança, não duvidar de suas intenções.

"Suspeita" não é um dos filmes mais falados do mestre do suspense. Mas é inegável que precisa ser descoberto e louvado como um dos essenciais terrores psicológicos de sua obra.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

... E O VENTO LEVOU



... E O VENTO LEVOU (Gone with the wind, 1939, Warner Bros., 224min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Sidney Howard, romance de Margareth Mitchell. Fotografia: Ernest Haller, Ray Rennahan. Montagem: Hal C. Kern, James E. Newcomb. Música: Max Steiner. Figurino: Walter Plunkett. Produção: David O. Selznick. Elenco: Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard, Hattie MacDaniel. Estreia: 15/12/39

12 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Ator (Clark Gable), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 10 Oscar: Filme, Diretor (Victor Fleming), Atriz (Vivien Leigh), Atriz Coadjuvante (Hattie McDaniel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, e mais 2 especiais: um para o produtor David O. Selznick e um para o uso da fotografia.


O que ainda não foi falado sobre "... E o vento levou"? Há mais de 70 anos encantando gerações e gerações, a obra-prima de Victor Fleming já foi objeto de estudos, teses, livros, homenagens e continua tão fascinante hoje quanto em 1939. Até poderia ser um desafio tentar entender esse fenômeno, mas basta assistir aos primeiros minutos do filme para que qualquer tentativa de ser razoável torne-se impossível. Assim como em toda e qualquer paixão, "...E o vento levou" foge do racional, conquistando o espectador pelo coração, pelos olhos e pelos ouvidos. Ser fã de cinema e não assistir a "...E o vento levou" é o mesmo que ser fã de futebol e não conhecer Pelé.

"...E o vento levou" é a mais perfeita tradução em imagens do melhor que Hollywood pode proporcionar em termos de espetáculo. A fotografia esplendorosa e a reconstituição de época impecável são referências absolutas até os dias de hoje, quando a palavra épico necessariamente traz à mente suas mais grandiosas cenas: o incêncio de Atlanta, a visão dos soldados feridos, os belíssimos crepúsculos em Technicolor... A trilha sonora imponente de Max Steiner, os figurinos caprichados de Walter Plunkett e o ritmo sem falhas do roteiro adaptado por Sidney Howard do romance de Margareth Mitchell completam o que pode ser chamado sem medo de obra-prima.


Mas nada disso seria suficiente se não fosse dois elementos-chave do sucesso e da perenidade do filme: sua história, forte e melodramática e seu elenco absolutamente perfeito. Com a possível exceção de Leslie Howard, que vive um Ashley Wilkes apático e sensaborão, todos os atores que fazem parte de "...E o vento levou" nunca estão aquém de fabulosos. O galã Clark Gable interpreta um Rhett Butler inesquecível; Olivia de Havilland vive uma Melanie impecável em sua delicadeza quase inumana e as coadjuvantes Hattie McDaniel (primeira negra a levar um Oscar) e Butterly McQueen roubam cada cena em que aparecem. No entanto, não seria equivocado afirmar que o filme pertence a Vivien Leigh. A atriz inglesa suplantou praticamente toda a população artística feminina de Hollywood para ficar com o papel da sulista Scarlett OHara - sem dúvida uma das personagens mais marcantes da história do cinema - e justifica sua escalação em cada um dos fotogramas em que aparece. Além de ser linda, dona de uma beleza clássica mas nunca datada, Leigh imprime a força necessária a sua personagem, uma pré-feminista das mais apaixonantes que se tem notícia.

Para quem ainda não sabe - se é que existe alguém que não sabe - "...E o vento levou" conta a história de Scarlett O'Hara (Leigh), uma jovem mimada e voluntariosa que vê seu mundo desmoronar quando o homem por quem é apaixonada, Ashley Wilkes (Howard) anuncia seu casamento com a meiga Melanie (de Havilland) pouco antes de partir para a Guerra de Secessão americana - que opunha o sul escravocrata contra o norte abolicionista. Mais do que afastá-la de Ashley, a guerra também leva às ruínas a fazenda de sua família - a imponente Tara - e, para salvá-la, Scarlett não hesita em utilizar de quaisquer artifícios, inclusive embarcando em casamentos por interesse. Sua obsessão por Ashley e sua luta pela manutenção de sua propriedade, no entanto, a cegam para a verdade que sempre esteve sua frente: o amor que desperta em Rhett Butler (Gable), que, por trás de um verniz de cínico e amoral, esconde um cavalheiro romântico e apaixonado.

"...E o vento levou" tem de tudo um pouco: é romance, é épico, tem cenas de legítima comédia, retrata os horrores da guerra - que transformam pessoas em animais - e conta uma história de amor que nunca soa falsa. Mas acima de tudo, é um filme que, como poucos, merece o título de "clássico".