quarta-feira, 31 de março de 2010

RASTROS DE ÓDIO


RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956, 119min) Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan LeMay. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Max Steiner. Produção executiva: Merian C. Cooper. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Henry Brandon. Estreia: 13/3/56

Gênero americano por excelência, o western tinha no cineasta John Ford seu representante máximo e no ator John Wayne sua imagem absoluta. Apesar de terem trabalhado juntos por diversas vezes, é "Rastros de ódio", lançado em 1956, que mantém-se como a obra máxima de sua colaboração. Acusado de racista à época de seu lançamento, é hoje considerado a obra-prima de Ford, o diretor mais vezes premiado com o Oscar da categoria (quatro vitórias, nem todas por faroestes, mas todas por filmes unanimemente incensados por crítica e público).

"Rastros de ódio" já começa antológico. A porta de um rancho se abre, a silhueta de uma mulher é recortada contra um belo pôr-do-sol e Ethan Edwards (John Wayne) entra em cena. Estamos no Texas em 1868 e apesar da Guerra de Secessão já ter acabado uns bons anos antes recém o soldado da Confederação está regressando para a família. A família, no caso, é seu irmão, Aaron (Walter Coy), a cunhada Martha (Dorothy Jordan, esposa do produtor Merian C. Cooper), as duas sobrinhas Debbie e Lucy e Martin Pawley (Jeffrey Hunter), um mestiço cherokee que ele mesmo salvou depois do massacre de sua tribo. Logo depois de seu retorno, no entanto, uma tragédia acontece: a casa de seu irmão é incendiada, suas sobrinhas sequestradas e o casal violentamente morto. Ele tem certeza de que foram índios comanches que perpetraram tamanha desgraça e resolve partir em busca de vingança. A princípio junto com um grupo de soldados e depois contando apenas com Pawley, ele passa anos em busca da única sobrevivente da chacina, sua sobrinha Debbie. Seu objetivo, no entanto, não é resgatá-la e sim, matá-la, por considerar que ela já assumiu a personalidade de uma índia.


Levando em consideração as intenções de Ethan e seus pensamentos bastante preconceituosos, se vistos com os olhos de hoje, as acusações de racismo até fazem certo sentido. Mas quem há de negar que o ranço politicamente correto que hoje contamina a produção cinematográfica vem emburrecendo e deixando de tocar em assuntos pertinentes por medo de ser crucificada pelo povo médio? Em 1868, ano em que a história do filme começa (logo após a Guerra de Secessão que opôs o norte abolicionista e o sul escravagista) não havia melindres de nenhum tipo - negros eram negros, índios eram índios e os conceitos de masculinidade eram bem definidos (taí a imagem intocada de Wayne como exemplo de uma virilidade talvez anacrônica hoje em dia, mas extremamente valorizada em um Oeste selvagem e violento).

É inegável o cuidado de Ford com o visual de sua obra. A fotografia espetacular de Winton C. Hoch (ajudada pela beleza natural do famoso Monument Valley e pelas paisagens de Alberta, no Canadá) é quase uma personagem a mais da trama, acompanhando a odisséia de Ethan e Pawley em sua busca desenfreada por justiça (ou vingança, qualquer adjetivo aqui é acertado). O uso exemplar de tomadas à distância e da música grandiloquente de Max Steiner colaboram em criar o clima de épico que "Rastros" esbanja em cada fotograma. E o roteiro, adaptado de um romance de Alan LeMay, ainda encontra espaço para aliviar a tensão da caçada, com uma subtrama que envolve um namoro à distância entre o jovem Pawley e a bela Laurie (Vera Miles). Apesar de engraçado no início, esse desvio do rumo principal é o responsável pela única quebra de ritmo do filme (a briga entre Pawley e seu rival toma diversos e preciosos minutos, em uma desnecessariamente longa sequência).

"Rastros de ódio" é a quintessência do western, a fórmula do gênero em seu máximo grau de qualidade e forma. É também um perfeito exemplo de entretenimento sério e, a despeito das suas hoje equivocadas maneiras de ver os índios e as mulheres, o maior legado da dupla Ford/Wayne ao cinema.

terça-feira, 30 de março de 2010

JUVENTUDE TRANSVIADA


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel without a cause, 1955, Warner Bros., 111min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Stewart Stern, baseado em uma ideia de Nicholas Ray adaptada por Irving Schulman. Fotografia: Ernest Haller. Montagem: William Ziegler. Música: Leonard Rosenman. Figurino: Moss Mabry. Produção: David Weisbert. Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Edward Platt, Corey Allen, Frank Mazzolla, Dennis Hopper, Marietta Canty. Estreia: 27/10/55

3 indicações ao Oscar: Ator coadjuvante (Sal Mineo), Atriz Coadjuvante (Natalie Wood), História Original

No início de 1955, James Dean ainda não era James Dean, pelo menos na concepção de sua imagem que temos hoje em dia. "Vidas amargas", seu primeiro filme, ainda não havia estreado e tudo o que se sabia dele é que era mais um adepto do "método" do Actors Studio (ainda que o tenha abandonado depois de poucas aulas), que era um obcecado por Marlon Brando e que havia enervado seu diretor Elia Kazan e seu co-astro Raymond Massey durante as filmagens de "Vidas". No final de outubro do mesmo ano, quando seu filme seguinte, "Juventude transviada" estreou, James Dean já era James Dean. Louvado como ator e idolatrado como símbolo de uma juventude rebelde, ele tinha mais um filme pronto para estrear (ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor) e já tinha deixado sua marca na história do cinema. Tinha 24 anos. E estava morto.

James Dean morreu em um acidente de carro em 30 de setembro de 1955 e não pode aproveitar todo o sucesso que fez. Talvez nem mesmo quisesse. Dono de uma personalidade que, segundo aqueles que o conheceram, poderia ir da doçura à agressividade em questão de segundos, ele era a antítese do astro de cinema (talvez inspirado por Brando, talvez por escolha própria). Um tanto excêntrico, um bocado desregrado e pouco disposto a seguir os caminhos que os estúdios insistiam em lhe mostrar, Dean era a voz que os jovens queriam ouvir naquela época pré-nuclear, onde o rock ainda engatinhava e os adolescentes não tinham um espelho onde mirar-se. Nada mais natural que ele fosse o protagonista do filme que mudaria para sempre a maneira com que Hollywood via seus jovens. Influente até hoje, 55 anos depois de seu lançamento, "Juventude transviada" fixou a imagem de James Dean como símbolo máximo da rebeldia juvenil e, mesmo visto nos cínicos dias atuais, ainda mantém intacta sua aura de transgressor. Agradeça a seu diretor Nicholas Ray.

Incensado na década de 60 pela revista francesa "Cahiers du Cinèma" como um cineasta autoral, Ray mostrou, durante a feitura de "Juventude" que mereceu carregar esse título. Lutando incansavelmente contra a Warner para manter seus pontos de vista e batalhando contra o calendário (e o amadorismo de seu elenco de jovens), o cineasta é o maior responsável pelo resultado final do filme, cujas origens remontam a uma luta pessoal consigo mesmo. Segundo o livro "Live fast, die young: the wild ride of making Rebel without a cause", de Lawrence Frascella e Al Weisel (que dissecam cada aspecto da realização do filme), a primordial intenção de Ray ao iniciar a produção era tentar um contato com a geração imediatamente posterior à sua (que incluia principalmente seu filho mais velho, com quem ele cortou relações ao flagrá-lo dormindo com sua mulher...). Ao assistir-se ao filme percebe-se claramente que ele o conseguiu.


"Juventude transviada" começa quando o jovem Jim Stark (vivido com naturalidade e garra por Dean) vai preso por bebedeira, logo que chega a Los Angeles, para onde mudou-se com os pais disfuncionais (Jim Backus e Ann Doran). Na delegacia, ele tem seu primeiro contato com a problemática Judy (Natalie Wood), que vive uma relação de conflito com o pai (vivido pelo filho da colunista de fofocas Hedda Hopper) e com o carente Plato (Sal Mineo), praticamente criado pela empregada doméstica (Marietta Canty). Os três estudam na mesma escola, Dawson High (cujo nome inspirou Kevin Williamson a batizar seu seriado "Dawson's Creek"), mas são tão distantes quanto semelhantes. Logo que chega à escola, Jim arruma briga com o valentão Buzz (Corey Allen), líder de uma gangue de jovens delinquentes e, em consequência disso, acaba aceitando o desafio de participar de uma "chickie run". Em outras palavras, ele topa participar de uma espécie de racha, onde perde quem saltar por último de um carro em movimento, rumo a um precipício. Um trágico acidente mata Buzz e, temendo que Jim os denuncie à polícia, o grupo de rebeldes passa a perseguir o novato, que se esconde, junto a Judy e Plato, em uma mansão abandonada. Perseguidos pela gangue e pela polícia, os três descobrem uma nova forma de família enquanto tentam escapar de um destino trágico.

Aparentemente, em uma análise superficial, "Juventude transviada" pode parecer apenas mais um filme feito para adolescentes (ainda que seja muito superior em temática e resultado final aos seus congêneres da época). Mas basta uma olhada mais atenta para que certos aspectos sejam percebidos e admirados. Não deixa de ser absolutamente inovador (e corajoso) unir Jim, Judy e Plato como um novo núcleo familiar (hoje em dia todos sabem que os adolescentes tem seus amigos como uma nova família). Também é surpreendente como, em plenos repressores anos 50, um filme tenha tido a coragem de colocar, como um de seus protagonistas, um adolescente cuja sexualidade é evidentemente dúbia, em uma atuação marcante de Sal Mineo, que carregou o peso do papel pelo resto de sua carreira encerrada violentamente em 1976. E até mesmo a relação entre Judy e seu pai tem ecos freudianos, mais uma prova da tentativa de Ray em empurrar ao máximo os limites impostos pela mesmice dos produtos dirigidos ao público jovem da época. Nem mesmo aquelas consideradas suas falhas (a pretensa superficialidade das personagens mais velhas, por exemplo) chegam a incomodar, uma vez que o show aqui é da juventude, em um elenco escolhido a dedo pelo diretor.

Analisar todos os aspectos de "Juventude transviada" é tarefa inglória, especialmente depois da leitura do livro de Frascella e Weisel. Cada cena do filme tem tantas nuances, tantas camadas e tantas leituras que fica difícil escolher uma vertente para comentá-las. O jeito é assisti-lo e admirar-se com seu CinemaScope grandioso, com sua coragem em lidar com alguns temas espinhosos, com a química impressionante entre Dean, Natalie Wood e Sal Mineo e com seu final melancólico e por isso mesmo inesquecível. E suspirar pela grande perda ocorrida no dia 30 de setembro de 1955, quando Dean saiu da vida pra entrar na história.

PS - Assim como aconteceu com "Casablanca" também tive a oportunidade de assistir a "Juventude transviada" no cinema, em tela grande... Experiência inesquecível! Me senti, eu juro, como se estivesse em 1955...

segunda-feira, 29 de março de 2010

LADRÃO DE CASACA


LADRÃO DE CASACA (To catch a thief, 1955, Paramount Pictures, 106min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um romance de David Dodge. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Lyn Murray. Figurino: Edith Head. Elenco: Cary Grant, Grace Kelly, Jessie Royce Landis, John Williams, Brigitte Aubert. Estreia: 03/8/55

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Direção de Arte e Figurino
Vencedor do Oscar de Fotografia (Cores)


Em uma cena de "Ladrão de casaca", de Alfred Hitchcock, a atriz francesa Brigitte Aubert, na pele de sua personagem Danielle Foussard, em um ataque de ciúmes em relação ao homem por quem é apaixonada, faz piadas em relação ao fato de ser bem mais jovem do que sua rival (a estonteante Grace Kelly). A grande ironia da cena nem advém do fato de que seu objeto de desejo, Cary Grant, tinha 50 anos quando fez a personagem (que tinha 35) mas sim da verdadeira idade de Aubert durante as filmagens: apesar de sua aparência jovial, ela era mais velha que Kelly. Pouco mais velha, é verdade (pouco mais de um ano), mas o suficiente para que essa pequena anedota de bastidores ficasse registrada como mais uma das ironias que marcaram a última colaboração de Kelly com o cineasta inglês.

Baseado em um romance de David Dodge, "Ladrão de casaca" é talvez um dos filmes mais leves e inconsequentes de Hitchcock, deixando de lado implicações psicológicas e /ou religiosas que o cineasta vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Provavelmente o fato de ter sido filmado nas belíssimas paisagens da Riviera Francesa (lindamente fotografadas pelo habitual colaborador do diretor Robert Burks, que levou o Oscar da categoria) tenha ajudado no objetivo de sair dos claustrofóbicos "Disque M para matar" e "Janela indiscreta" para algo mais arejado, divertido e quase fútil. "Ladrão de casaca", ao contrário do que normalmente se esperaria de uma obra de Hitchcock, é menos um filme de suspense e mais uma aventura romântica com toques de mistério. Não é por acaso que suas melhores cenas sejam justamente aquelas em que Cary Grant e Grace Kelly estão juntos, com uma química invejável, a despeito de sua considerável diferença de idade.


Quando fez "Ladrão de casaca", Grant estava voltando ao cinema, depois de um voluntário exílio (em parte por achar-se anacrônico em um panorama cinematográfico que estava maravilhado com o "método" de atores como Marlon Brando e em parte por sentir-se ultrajado pela maneira com que Hollywood havia tratado Charlie Chaplin - este havia sido praticamente expulso dos EUA por suspeitas de simpatia ao comunismo). No filme, ele vive John Robie, também conhecido pela alcunha de "O Gato", um ladrão de jóias aposentado que volta a sofrer pressão da polícia depois que vários outros roubos cometidos com seu "modus operandi" voltam a acontecer. Para provar sua inocência ele decide investigar por conta própria, antecipando-se ao criminoso e contando com a ajuda de H.H. Hughson (John Williams, sempre ótimo), que, no papel de investigador de uma companhia de seguros, tem uma lista dos mais prováveis alvos do gatuno. Em Cannes, Robie conhece uma dessas potenciais vítimas, a excêntrica americana Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e sua jovem filha Frances (Grace Kelly). Enquanto tenta descobrir a identidade do ladrão, ele é assediado tanto pela bela Frances quanto por Danielle Foussard (Brigitte Aubert), filha de um de seus antigos comparsas.

Assim como normalmente acontece na filmografia de Hitchcock, a história - ou a identidade verdadeira do criminoso - é o que menos conta. O que interessa é a maneira como se chega até o final da história. Aqui, o mestre opta por um tom bem menos sombrio e grave, possibilitando ao espectador deliciar-se com a beleza natural de Cannes e de Kelly, com os diálogos saborosos de John Michael Hayes, com o charme imbatível de Cary Grant e com 106 minutos de uma diversão despretensiosa e ligeira. Isso não o impede, no entanto, de proporcionar algumas cenas que beiram o genial. Um exemplo? Na cena em que as personagens de Kelly e Grant estão assistindo a uma explosão de fogos de artifício pela janela do hotel onde estão hospedados, só o que é iluminado na atriz é seu pescoço, ornado por um enorme colar de diamantes. Enquanto ela fala, fica impossível desviar os olhos da jóia, como se o público estivesse vendo através de John Robie. Golpe de mestre!

"Ladrão de casaca" pode não ser tão bom quanto "Janela indiscreta" - ou alguns de seus filmes posteriores - mas é difícil resistir ao apelo de tantos ingredientes sofisticados. É, sem dúvida, o mais chique dentre todos os Hitchcocks.

PS - Outra das ironias presentes no histórico de "Ladrão de casaca" não deixa de ser trágica: a estrada onde foi rodada a perseguição automobilística em que Robie e Frances escapam da polícia é a mesma estrada onde, em 1982, a atriz sofreu seu fatal acidente de carro. E foi durante as filmagens de "Ladrão" que ela conheceu o Príncipe Rainier de Mônaco, com quem se casaria em breve, abandonando o cinema.

sábado, 27 de março de 2010

O PECADO MORA AO LADO


O PECADO MORA AO LADO (The seven year itch, 1955, 20th Century Fox, 105min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder e George Axelrod, baseado na peça de teatro homônima de George Axelrod. Fotografia: Milton Krasner. Montagem: Hugh S. Fowler. Música: Alfred Newman. Produção: Billy Wilder e Charles K. Feldman. Elenco: Tom Ewell, Marilyn Monroe, Evelyn Keyes. Estreia: 01/6/55

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Ewell)

Em uma cena de "Sabrina", lançado em 1954, o protagonista Linus Larrabee, vivido por Humphrey Bogart pede a sua secretária que compre dois ingressos para o teatro, onde irá acompanhado da personagem-título, interpretada por Audrey Hepburn. A peça que ele assiste (ainda que seja apenas mencionada) é "The seven year itch", então um grande êxito de bilheteria nos palcos da Broadway. O que parecia apenas uma menção ocasional a um sucesso do momento era na verdade um marketing esperto e criativo do diretor do filme, Billy Wilder. Seu próximo projeto era justamente a adaptação para o cinema da peça, que, ao estrear, em 1955, forjaria definitivamente a imagem de Marilyn Monroe como o maior símbolo sexual feminino da história do cinema.

Batizado no Brasil como "O pecado mora ao lado", o filme do austríaco Wilder (que já havia inclusive ganho um Oscar de direção por "Farrapo humano", em 1945) foi definido, na época de seu lançamento, como uma "comédia sexual", apelando principalmente para o apelo erótico de sua estrela, Marilyn Monroe, então com 28 anos de idade e no auge de sua fama. Recém-casada com o esportista Joe DiMaggio (um casamento que durou apenas 9 meses e azedou de vez durante as filmagens), a atriz acabou tornando-se, graças a seu carisma, o centro do filme, mesmo que sua personagem seja secundária.

O real protagonista de "O pecado mora ao lado" (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que no filme o "pecado" não exatamente mora ao lado e sim no andar de cima...) é Richard Sherman, executivo de uma editora de livros de bolso que, assim como centenas de outros homens comuns, fica sozinho no período de verão, quando manda a esposa (Evelyn Keyes) e o filho pequeno para o litoral. Casado há sete anos (período em que, segundo um dos livros que estuda para publicar, acontece a temida "coceira"), ele passa a sentir uma irresistível atração pela jovem que está passando uma temporada no apartamento acima do seu, pertencente a um casal de amigos. Sentindo-se culpado por seus pensamentos pecaminosos, ele deixa sua imaginação atingir altos níveis, enquanto se divide entre a tentação do adultério com sua deliciosa vizinha e a manutenção de seu casamento. Na pele de Tom Ewell (que defendeu o papel nos palcos e por isso teve a chance de ficar com ele também nas telas, ainda que Wilder preferisse o novato Walter Matthau), Sherman é o típico homem comum, o que o aproxima mais facilmente do espectador (conseguindo o efeito desejado pela produção, que rejeitou Gary Cooper para o papel por ele ser bonito demais). Falando diretamente para o público, Sherman o tem como cúmplice (mas, pensando bem, quem não teria, tendo Marilyn Monroe como nada obscuro objeto do desejo?).

Na verdade, a adaptação do texto de George Axelrod (feita por ele mesmo ao lado de Wilder) sofreu com a censura ferrenha do Código Hayes, que freava toda e qualquer manifestação que pudesse macular a moral e os bons costumes. No palco, o adultério de Sherman é consumado e é justamente seu sentimento de culpa pela traição que motivava a maior parte das piadas criadas pelo autor. No momento em que, por imposição do estúdio (a 20th Century Fox para onde o diretor foi após o término de seu contrato com a Paramount), não há traição na história, Wilder e Axelrod tiveram que suar a camisa para que a trama não ficasse vazia a ponto de desaparecer. Levando em consideração tal dificuldade, é impossível não louvar o resultado final, que consegue ser engraçado sem ser vulgar e, de quebra, apresenta a atuação mais "quente" de Monroe. E quente aqui serve para várias interpretações.

A interpretação mais óbvia e fácil é a da temperatura, mesmo: a história se passa em um escaldante verão nova-iorquino, o que justifica algumas passagens clássicas do mito Monroe: sua personagem (sem nome) afirma guardar as calcinhas no congelador, toma banho de banheira, dorme no apartamento do vizinho que tem ar-condicionado e, se não fosse o calor, provavelmente ela não seria protagonista de uma das cenas mais imitadas, citadas, homenageadas e conhecidas de sua trajetória (e de qualquer outra atriz): atire a primeira pedra quem não conhece a famosa imagem de Marilyn tendo sua saia levantada pelo vento que sai do bueiro, causado pela passagem do metrô. Essa cena, filmada na rua (mas que teve que ser refeita em estúdio, uma vez que ficou inutilizada pelo barulho causado pelos felizardos espectadores) foi, provavelmente, a pá de cal no relacionamento da estrela com DiMaggio, que não ficou particularmente feliz em ver sua esposa (que ele sonhava ver como dona-de-casa, dá pra imaginar??) sendo objeto de desejo de todo o planeta. Se o jogador não gostou, problema dele. O mundo adorou e transformou a antiga Norma Jean Baker no mais duradouro mito sexual da história. Tem como julgar o pobre Richard Sherman?

"O pecado mora ao lado" não é, nem de longe, o melhor filme de Billy Wilder (sua próxima colaboração com Marilyn, no sensacional "Quanto mais quente melhor" é mil vezes mais divertido e transgressor). Visto hoje, é de uma inocência quase pueril. Mas só o fato de ter criado a icônica e definitiva imagem de Monroe como símbolo sexual (pro bem e pro mal) já o torna mais que obrigatório.

quinta-feira, 25 de março de 2010

VIDAS AMARGAS


VIDAS AMARGAS (East of Eden, 1955, Warner Bros., 115min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Paul Osborn, baseado no romance de John Steinbeck. Fotografia: Ted McCord. Montagem: Owen Marks. Música: Leonard Rosenman. Elenco: James Dean, Julie Harris, Raymond Massey, Jo Van Fleet, Richard Davalos. Estreia: 09/3/55

4 indicações ao Oscar: Diretor (Elia Kazan), Ator (James Dean), Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jo Van Fleet)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Reza a lenda - e não há porque ser apenas uma lenda - que o escritor John Steinbeck, quando conheceu James Dean, antes do início das filmagens da adaptação de sua obra-prima "A leste do Éden" por Elia Kazan, disse para quem quisesse ouvir: "Este É Cal!", referindo-se a um dos protagonistas da obra. E se o próprio criador da personagem o afirmou com tanta segurança, discordar quem há de? Mesmo porque, basta se assistir aos primeiros minutos de "Vidas amargas" (como foi batizado em português o filme de Kazan) para que qualquer dúvida a respeito da certeza do escritor se dissipe rapidamente. Até mesmo aqueles que nunca leram o livro no qual o filme é baseado (o que não deixa de ser um pecado, uma vez que o livro é FABULOSO!!!!) não podem deixar de concordar que poucas vezes um ator e sua personagem tiveram um casamento tão perfeito. James Dean realmente É Cal Trask. Duvida?

"Vidas amargas" se passa em 1917, às vésperas da I Guerra Mundial, na pequena cidade agrícola de Salinas. Lá, vive o religioso e rígido Adam Trask (Raymond Massey), que criou sozinho os dois filhos depois da morte da esposa, por quem era loucamente apaixonado. Seu alto grau de exigência em relação aos filhos acaba sempre colocando-o em rota de colisão com o caçula, Caleb (James Dean), cuja relação com preceitos religiosos e regras pré-estabelecidas não é das melhores. O eterno conflito entre os dois naturalmente faz com que Adam tenha uma afinidade muito maior com o mais velho, Aron (Richard Davalos), um rapaz sério, trabalhador e ciente de seus deveres familiares, religiosos e sociais. Sentindo-se sempre rejeitado (não sem uma certa razão), Cal busca desesperadamente conquistar a admiração e o amor do pai, nem sempre utilizando de métodos ortodoxos para isso. O ápice de sua luta pelo carinho paterno acontece quando ele descobre que sua mãe na verdade não morreu - ela abandonou a família e montou um bem-sucedido bordel na cidade vizinha - e pede a ela dinheiro emprestado para repor a pequena fortuna que seu pai perdeu em um negócio equivocado. Incompreendido por todos à sua volta, resta a Cal apenas a amizade (amor?compreensão?) de Abra (Julie Harris), a noiva de seu irmão.

Por que James Dean É Cal Trask? Biógrafos e psicanalistas de plantão poderiam dar mil razões (todas elas provavelmente acertadas), mas o que mais salta aos olhos é a similaridade entre a relação pai/filho entre Cal e Adam e Dean e seu próprio genitor. Praticamente abandonado por Winston Dean depois da morte da mulher, o pequeno Jimmy foi criado por tios e nunca teve um relacionamento feliz e estável com seu pai, a quem tentava agradar mais do que a todos no mundo. Winston queria que James seguisse uma carreira mais "séria" e em nenhum momento se deixou orgulhar-se do filho (pelo menos enquanto este estava vivo). Sabendo desse detalhe da vida do jovem ator fica difícil não emocionar-se ainda mais com suas cenas ao lado de Raymond Massey. O que está em cena não é apenas uma personagem batalhando pela aceitação e admiração do pai: é James Dean (pouco) disfarçado buscando o amor de seu familiar mais próximo e ao mesmo tempo mais distante.


Hoje sabe-se que Elia Kazan - que não tornou-se um dos maiores fãs de Dean depois de trabalhar com ele - incentivava, nos bastidores, a discórdia entre o iniciante ator e o veterano Raymond Massey, que não gostava do "método" com que Dean trabalhava. Dean, fã de Marlon Brando quase às raias da obsessão, tentava imitar-lhe (ou seja, falava com uma dicção quase ininteligível, improvisava, buscava mais a emoção do que a técnica) e incomodava Massey. Kazan não tentava apaziguar os ânimos, utilizando a hostilidade entre eles como matéria-prima de suas cenas mais emocionais. Quem pode dizer que não deu certo? Alguém pode reclamar de algumas das melhores cenas da carreira do diretor, como a discussão à mesa de jantar quando Cal recusa-se a ler a Bíblia da maneira com que Adam deseja ou a decepção do rapaz ao ver seu presente de aniversário rejeitado? James Dean e Raymond Massey em cena soltavam faíscas. E quem ganhou foi o público.

Mas "Vidas amargas" não é somente James Dean. Ainda que seja praticamente impossível tirar os olhos do ator quando ele está em cena (assim como acontecia com seu ídolo Marlon Brando), o filme de Elia Kazan tem méritos que seriam suficientes para fazê-lo sobreviver ao tempo mesmo que seu elenco fosse outro (e quase foi!! Marlon Brando mesmo foi cotado para o papel de Cal, ao lado de Montgomery Clift como Aron). O próprio John Steinbeck supervisionou o processo de filmagem, e aprovou o resultado final - vale lembrar que o filme adaptou apenas a segunda parte do extenso (644 páginas na edição mais recente pela Record) romance do autor, centrando-se na disputa dos dois irmãos pelo amor do pai (uma clara alusão à história de Caim e Abel). A bela fotografia em Technicolor de Ted McCord e a música de Leonard Rosenman contribuem lindamente para o resultado final e Jo Van Fleet, como Kate, a mãe de Cal e Aron, levou um Oscar de atriz coadjuvante por sua atuação (ainda que apareça bem pouco, suas cenas são cruciais para o desenvolvimento da ação).

"Vidas amargas" não é o melhor filme de Elia Kazan nem tampouco de James Dean. Kazan é dono de obras-primas como "Sindicato de ladrões" e "Uma rua chamada pecado" e Dean, mesmo morrendo seis meses após a estreia do filme ainda deixaria sua marca em dois outros grandes clássicos: "Juventude transviada" (que firmaria sua imagem icônica de rebeldia) e "Assim caminha a humanidade" (que daria um respeito póstumo a seu trabalho como ator). Mas é um filme dramaticamente forte e realizado com o brilhantismo habitual de Kazan. Ainda que esbarre em alguns pequenos problemas de ritmo e tenha um elenco coadjuvante um tanto quanto anêmico (Julie Harris e Richard Davalos são o melhor exemplo), "Vidas amargas" é a respeitável adaptação de um dos maiores romances do século. Convenhamos que não é pouca coisa!

segunda-feira, 22 de março de 2010

SABRINA


SABRINA (Sabrina, 1954, Paramount Pictures, 113min) Direção e produção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Samuel Taylor e Ernest Lehman, baseado na peça teatral "Sabrina fair", de Samuel Taylor. Fotografia: Charles Lang Jr. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Friedericj Hollander. Figurino: Edith Head. Elenco: Humphrey Bogart, Audrey Hepburn, William Holden, John Williams, Walter Hampden. Estreia: Outubro de 1954

6 indicações ao Oscar: Diretor (Billy Wilder), Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Adaptado, Fotografia em P&B, Figurino e Direção de arte.
Vencedor do Oscar de Figurino

Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro

Em 1973 o autor Lauro César Muniz lançou, no horário das 19h da Rede Globo, a novela "Carinhoso", estrelada pela dupla mais popular de então - Regina Duarte e Cláudio Marzo. Apesar do sucesso momentâneo, a novela não ficou na memória dos espectadores (chegou a ser encurtada devido à gravidez de Regina, que deu à luz em 1974 a hoje atriz Gabriela). O que pouca gente deve ter notado na época - e tampouco importa hoje, quando a novela nem mais é lembrada - é que sua trama principal era descaradamente inspirada em "Sabrina", filme de Billy Wilder por sua vez inspirado em uma peça de teatro de Samuel Taylor. Lançado em 1954, o filme foi o trabalho de Audrey Hepburn seguinte a seu Oscar por "A princesa e o plebeu" e comprova seu carisma, talento e classe. Unida a um texto ácido de Wilder (que, ao lado de Ernest Lehman e do próprio autor da peça nunca deixa que seu romantismo caia na vala do piegas ou do lugar-comum), Hepburn mais uma vez brilha em um papel feito sob medida - mas que quase foi parar nas mãos de Lauren Bacall, que era a primeira escolha do ator principal do filme, Humphrey Bogart (não por acaso, seu marido).

Na verdade, o próprio Bogart não foi o primeiro ator escolhido para viver o sério, sisudo e impenetrável Linus Larrabee, um homem que vive do trabalho burocrático nas milionárias empresas da família. Cary Grant foi o primeiro nome a ser cotado para o papel, mas acabou saindo do filme, sendo substituído por um Bogart que não suportava nem Hepburn (a quem considerava má atriz) nem seu colega de cena William Holden (que se apaixonou por Hepburn durante as filmagens, em um romance que terminou quando ela descobriu que ele não queria ter mais filhos).

A Sabrina do título é uma jovem doce, romântica e sonhadora apaixonada por David Larrabee (Holden), um playboy irresponsável, três vezes divorciado e mulherengo. O grande problema dessa paixão é que ele não faz a menor ideia da existência da moça, filha de seu motorista (vivido com delicadeza pelo ótimo John Williams). No início do filme, desiludida de amor, Sabrina pensa em suicídio, mas é impedida por Linus, o irmão mais velho de David, que, conforme dito acima, é sério, sisudo e impenetrável, vivendo em função de números e contratos. Sem esperanças de conquistar o amor de David, Sabrina viaja a Paris para fazer um curso de gastronomia. Dois anos depois, ela retorna ao quarto de empregada onde morava com o pai, mas, belíssima, elegante e cosmopolita, não passa mais incólume ao sedutor David, que se apaixona por ela, arriscando uma negociata de milhares de dólares vinculada a seu iminente casamento com uma socialite. Para impedir que o casal fique junto e estrague os planos milionários da empresa, Linus se aproveita de um pequeno acidente de David para separá-los. O que ele não contava, no entanto, era se apaixonar também por Sabrina.


É impossível negar que o maior mérito de "Sabrina" é o talento enorme de Billy Wilder em transformar até mesmo uma história de amor sem maiores novidades em um filme inesquecível. Apesar da trama do filme não ser das mais geniais ou surpreendentes, seu roteiro esperto e divertido conquista pela sutileza, pelo humor suave e pelo romantismo na medida certa. O timing cômico de Wilder é evidente em pequenos detalhes - em especial nas cenas com o hilário Walter Hampden, como o patriarca Larrabee - mas o cineasta, espertamente, nunca deixa que o romantismo da trama principal deixe de ser o centro do interesse do espectador. Seu uso exemplar do humor serve apenas como um alívio cômico para uma trama quase banal, ainda que contada com tanto zelo e cuidado que chega a arrebatar em seus momentos mais sentimentais.

Uma das críticas mais frequentes a "Sabrina" é o fato de Humphrey Bogart ser muito mais velho do que Hepburn, e realmente a química entre os dois não é das mais fascinantes. No entanto, é fácil acreditar no amor que nasce entre os dois, em parte devido ao talento dos dois atores, em parte devido ao clima proporcionado pela bela fotografia de Charles Lang Jr. (indicada ao Oscar). A trilha sonora (que inclui a própria atriz entoando uma versão de "La vie en rose") colabora com o ritmo suave que envolve o espectador sem exigir dele mais do que o desejo de ser entretido com categoria e inteligência.

Mas, sem sombra de dúvida, além do roteiro eficaz, do clima contagiante e do elenco de astros, o que sobressai de "Sabrina" é Audrey Hepburn. Pelo seu talento e pela sua postura elegante (apesar do Oscar de figurino ter ficado nas mãos de Edith Head as roupas usadas pela atriz são do estilista Givenchy - que confundiu-a primeiramente com Katharine Hepburn e depois tornou-se grande amigo e colaborador), Audrey é o rosto e a alma do filme. Tanto sua estampa tornou-se a imagem máxima do filme que, quando Sydney Pollack fez um desnecessário remake do filme, em 1995, colocou a sem-sal Julia Ormond no papel-título e amargou um merecido fracasso. "Sabrina" É Audrey Hepburn.

sexta-feira, 19 de março de 2010

JANELA INDISCRETA



JANELA INDISCRETA (Rear window, 1954, Paramount Pictures, 112min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes, baseado em um conto de Cornell Woolrich. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr. Estreia: 01/8/54

4 indicações ao Oscar: Diretor (Alfred Hitchcock), Roteiro Adaptado, Fotografia em cores, Som

Se o cinema é a arte do voyeurismo, então "Janela indiscreta" é cinema em sua mais pura essência. Baseado em um conto de Cornell Woolrich (recentemente republicado no Brasil pela Cia das Letras), um dos clássicos mais famosos de Alfred Hitchcock (e um dos poucos que o mestre do suspense não renega fervorosamente, como várias de suas criações) é também um dos filmes seminais do gênero, utilizando elegância, ironia e até mesmo um certo olhar carinhoso sobre as pessoas em geral para contar uma história de assassinato onde o crime, no final das contas, é o que menos interessa.

A primeira cena de "Janela indiscreta" já é um primor de concisão e uma prova do talento inconteste de Hitchcock em falar muito em pouco tempo: um único movimento de câmera e o espectador já percebe que a ação se passará em um verão bastante quente e que seu protagonista é um fotógrafo profissional que sofreu um acidente durante um trabalho e está com uma das pernas engessadas. O tal fotógrafo é L.B. Jefferies (James Stewart), que, entedidado com sua falta de opções de lazer passa os dias bisbilhotando as vidas dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Munido de um binóculo e de uma luneta, ele acompanha as aventuras românticas de uma mulher solitária, a lua-de-mel de um jovem casal, as noites animadas de uma bela dançarina, etc. As únicas exceções a seu programa solitário são as visitas de sua tagarela massagista/enfermeira Stella (Thelma Ritter) e de sua namorada, a bela socialite Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), que tenta convencê-lo, inutilmente, a abandonar a vida de solteiro para casar-se com ela. Sua pasmaceira é sacudida, no entanto, quando ele passa a desconfiar que um de seus vizinhos, Lars Thornwald (Raymond Burr), matou a esposa e esquartejou o corpo para escondê-lo da polícia. A princípio desacreditado inclusive por seu amigo policial (Wendell Corey), logo Jefferies passa a convencer a todos de sua certeza, uma vez que inúmeras evidências apontam para a culpa de Thornwald.


"Janela indiscreta" é uma aula de cinema. Conciso e direto, o roteiro de John Michael Hayes não perde tempo com cenas desnecessárias à estória que conta: tudo que é mostrado através da lente de Jefferies é extremamente importante para o desenrolar de alguma ramificação da trama - se não para levar adiante as desconfianças do protagonista em relação ao assassinato, ao menos para convidar o público a acompanhar os inúmeros dramas humanos mostrados pelo cineasta. O prédio observado pela personagem de James Stewart não deixa de ser um microcosmo da vida - pelo menos em seu lado mais humano, sentimental e sensível. Enquanto renega um envolvimento mais sério com a namorada, o fotógrafo tem à sua vista inúmeros exemplos de relações bem ou mal resolvidas - e logicamente a mais extrema (que resulta em homicídio) é a que mais lhe interessa.

No entanto, por mais que a trama principal seja justamente a que envolve sangue e violência, são as pequenas histórias cotidianas contadas praticamente sem diálogos por Hitchcock e sua equipe que conquistam pela simplicidade e delicadeza: o casal sem filhos que transmite todo o amor a um cachorro, a solteirona que é salva do suicídio pela música composta pelo vizinho compositor e a bela mulher que é casada com um soldado nada atraente são, entre outros, protagonistas de sua própria história, cada uma delas coadjuvante de uma trama maior, tecida com a ironia e a elegância do mestre inglês.

E por falar em elegância, seria injusto não citar a presença grandiosa de Grace Kelly. Vestida por Edith Head, a futura princesa de Mônaco brilha intensamente em cada cena em que está (sua primeira aparição - em um close quando se inclina para beijar seu namorado adormecido - merece figurar em qualquer antologia dos momentos mais sexies do cinema). E não deixa de ser irônico que ela desperte a paixão do protagonista justamente quando sai de sua vida "cor-de-rosa" das colunas sociais para enfrentar o monstro assassino, transformando-se, assim, de mocinha indefesa e fútil em mulher determinada e corajosa.

Uma das melhores obras da carreira de Alfred Hitchcock, "Janela indiscreta" é o tipo de filme que quanto mais vezes é assistido melhor fica. Graças ao número imenso de pequenos detalhes lançados pelo cineasta em cena (que aparece arrumando um relógio no apartamento do compositor) é praticamente impossível não descobrir mais qualidades a cada revisão. Uma obra-prima indiscutível!

quinta-feira, 18 de março de 2010

SINDICATO DE LADRÕES


SINDICATO DE LADRÕES (On the waterfront, 1954, Columbia Pictures, 108min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Budd Schulberg, história de Malcolm Johnson. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Gene Milford. Música: Leonard Bernstein. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint, Lee J. Cobb, Rod Steiger. Estreia: 28/7/54

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), Ator Coadjuvante (Lee J. Cobb, Karl Malden, Rod Steiger), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 8 Oscar: Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), História e Roteiro Originais, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de Arte

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Drama, Diretor (Elia Kazan), Ator/Drama (Marlon Brando), Fotografia em preto-e-branco

No início dos anos 50, o cineasta Elia Kazan estava em maus-lençóis. Rechaçado pelos colegas que o consideravam um delator por ter citado nomes nos malfadados depoimentos ao senador Joseph McCarthy na chamada "caça às bruxas" anti-comunista cuja paranóia atingia seu ápice nos anos 50, ele dirigiu "Sindicato de ladrões" quase como uma explicação para seus atos. Julgamentos éticos à parte, a única certeza que fica no final dos 108 minutos do filme é a seguinte: se todas as justificativas de atos moralmente dúbios fossem iguais a esta seria muito mais fácil perdoar os erros de quem quer que fosse. Mesmo visto hoje, mais de cinquenta anos depois de seu lançamento, "Sindicato de ladrões" ainda mantém o mesmo vigor estético, a mesma força dramática e continua tão relevante quanto antes.

A história se passa nas docas de Nova York, cujos trabalhadores - escolhidos diariamente, a dedo - são dominados pelo poderoso Johnny Friendly (Lee J. Cobb), que de amigável tem apenas o nome: corrupto, violento e amoral, ele não aceita ser desafiado ou questionado e quem tem a coragem de ir contra suas regras acaba invariavelmente mal. Quando o filme começa uma de suas vítimas acaba de ser jogado do alto de um prédio por ter ido à justiça testemunhar contra seus desmandos. Sentindo-se culpado pela tragédia - por ter virtualmente levado o rapaz ao encontro de seus algozes - o ex-lutador de boxe Terry Malloy (Marlon Brando) passa a questionar os métodos de Friendly, especialmente porque se apaixona por Edie (Eva Marie Saint), a irmã do rapaz assassinado. Incentivado pelo padre Barry (Karl Malden), que pretende ajudar os trabalhadores das docas, pelo amor que sente por Edie e pelo sentimento de culpa, Malloy acaba enfrentando seu irmão Charley (Rod Steiger), braço-direito do chefão, e é obrigado, por sua consciência, a ir ao banco das testemunhas, mesmo arriscando sua vida, suas amizades e suas possibilidades de trabalho.


O que mais impressiona em "Sindicato de ladrões" é a forma apaixonada com que Kazan conta sua história, dando o mesmo peso ao drama político-social que envolve os trabalhadores quanto ao romance entre as personagens de Brando e Marie-Saint (ambos premiados com o Oscar de 1954). Na verdade é o excelente roteiro que contrabalança as duas tramas com equilíbrio magistral, dando estofo a suas personagens, extremamente bem construídas e inteligentemente interpretadas. Nem mesmo as personagens secundárias são deixadas de lado, sendo sempre tratadas com cuidado e verossimilhança. O elenco de apoio escolhido por Kazan também merece louvores: não há um rosto dentre todos os que aparecem em cena que não sejam expressivos, fortes, reais, dando um tom quase documental àquele que é provavelmente seu trabalho mais maduro. As cenas em que os trabalhadores lutam pela possibilidade de um dia de salário são um retrato realista de uma época bastante dura para a economia americana do pós-guerra e são filmadas com uma sobriedade que foge do piegas. A bela fotografia em preto-e-branco de Boris Kaufman (também vencedora de um Oscar) acentua a atmosfera enovoada que circunda as personagens (e provavelmente suas consciências). E nem mesmo a mais dramática das cenas do filme (uma conversa emocionante entre Terry e Charley no banco traseiro de uma limousine onde Brando larga sua famosa "Eu poderia ter sido alguém!") apela para as lágrimas fáceis, comprovando o talento de Kazan de arrancar belas atuações sem cair nas armadilhas de atuações exageradas de seus atores.

A julgar pelos 8 Oscar conquistados por "Sindicato de ladrões" (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro, fotografia, montagem e direção de arte) a Academia de Hollywood entendeu e perdoou os atos considerados "de traição" do cineasta. No entanto, na cerimônia de entrega dos prêmios em 1999, Kazan foi homenageado pela Academia e arrancou tantos aplausos quanto silêncios de muitos espectadores, ainda ultrajados por suas ações. Se o que ele fez - dar o nome de alguns colegas investigados à comissão de McCarthy - foi certo ou não é uma discussão muito mais séria que merece muito mais espaço e considerações mais elaboradas. O que é inegável é que, tendo bom ou mau caráter, era, sem sombra de dúvida, um cineasta dos maiores de sua época, como bem o comprova a perenidade de boa parte de sua obra.

domingo, 14 de março de 2010

DISQUE M PARA MATAR


DISQUE M PARA MATAR (Dial M for murder, 1954, Warner Bros., 105min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Frederick Knott, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams. Estreia: 29/5/54

Quase sessenta anos antes de "Avatar" quebrar recordes de bilheteria e revolucionar o modo de fazer cinema (mas não de melhorá-lo qualitativamente), o mestre do suspense já brincava com a tecnologia de 3D. Em 1954 estreava "Disque M para matar", que, baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, utilizava - com bastante parcimônia - efeitos poucas vezes vistos nas telas de cinema na época. A crucial diferença entre sua ambição no momento e o que acontece atualmente nos multiplexes é que antes de focar-se em "revoluções visuais", Alfred Hitchcock concentrava-se na história de seus filmes, em trabalhar o suspense de suas cenas e dar verossimilhança a seus protagonistas, por mais ambíguos que eles fossem.

A personagem central de "Disque M" é Tony Wendice (Ray Milland), um ex-tenista profissional que abandonou a carreira em prol de um vantajoso casamento com a bela Margot (Grace Kelly na primeira de suas três colaborações com o cineasta). Sabendo-se traído por ela, que mantém um romance com o escritor de livros policiais Mark Halliday (Robert Cummings), ele tece um mirabolante plano para livrar-se dela e consequentemente ficar com sua herança. Para tal, ele contrata um antigo colega de escola com uma longa ficha de processos por estelionato. Na hora marcada para o crime, no entanto, as coisas não saem como o esperado e quando Grace passa de vítima a algoz seu marido aproveita para mudar seus planos, acusando-a de assassinato.


O mais interessante em "Disque M para matar" nem é a tentativa de Hitchcock em utilizar-se de recursos óticos "modernos" para contar sua história e sim a maneira com que ele conduz a trama, repleta de surpresas e reviravoltas. Por ser baseado em um texto teatral - uma origem que necessariamente prende a ação em poucos cenários - o filme não apresenta cenas de ação ou externas muito elaboradas (pelo contrário, sempre que aparece a rua é de maneira um tanto artificial). O diretor se contenta em mostrar à audiência apenas o que está acontecendo no momento, sem apelar para flashbacks ou outros recursos que desviariam a atenção. Essa opção em ser extremamente econômico em malabarismos de câmera propicia ao público um sentimento de voyeurismo que o mantém ligado na história mesmo quando ela descamba para um ato final um tanto forçado.

É inegável que "Disque M para matar" perde o pique no seu terceiro ato, quando Tony Wendice está prestes a ser desmascarado. Talvez por não contar com a presença luminosa de Grace Kelly ou por contar apenas com uma conclusão pouco satisfatória em termos de suspense, não se tem, em seus últimos vinte minutos, a concisão e o ritmo de seu princípio - em especial as cenas que antecedem o crime propriamente dito. Ainda assim, como sempre na obra do cineasta, é imperdível por ser de uma elegância rara, em que até mesmo um assassinato é filmado, segundo palavras do francês François Truffaut "como uma cena de amor".

PS - Em 1998, o diretor Andrew Davis (de "O fugitivo") realizou uma nova versão de "Disque M para matar", intitulada "Um crime perfeito", estrelada por Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen, mais fiel ao texto teatral e surpreendentemente interessante.

sábado, 13 de março de 2010

A TORTURA DO SILÊNCIO


A TORTURA DO SILÊNCIO (I confess, 1953, Warner Bros., 95min) Direção e produção: Alfred Hithcock. Roteiro: George Tabori, William Archibald, baseado em uma peça teatral de Paul Anthelme. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, O.E. Hasse, Dolly Haas. Estreia: 22/3/53

As primeiras imagens de "A tortura do silêncio" mostram placas sinalizadoras em Quebec. São todas setas indicando um caminho em linha reta. E retidão é a palavra mais correta para definir a personalidade do Padre Michael Logan (Montgomery Clift), protagonista do único filme de Alfred Hitchcock filmado no Canadá. Honesto e íntegro, Logan é mais um dos protagonistas do mestre do suspense que se vê envolvido em situações extremas sem que as tenha chamado para si. No caso do filme em questão, ele é acusado de um crime que não cometeu, correndo o risco de ser condenado à morte.

A primeira cena de "A tortura do silêncio" mostra o corpo de um homem, assassinado em casa, enquanto o culpado, vestido de padre, abandona o local do crime e é visto por duas adolescentes. O assassino é Otto Keller (O.E. Hasse), um refugiado alemão que trabalha como faz-tudo na casa paroquial onde vive Logan. Sentindo-se culpado pelo homicídio, Keller confessa o crime ao padre, que não pode trair um segredo de confissão. Estaria tudo relativamente bem se a vítima do assassinato não fosse, no entanto, um advogado mau-caráter que estava fazendo chantagem com Ruth Grandfort (Anne Baxter), antiga namorada de Logan antes de sua ordenação. Vilette, o chantagista, agora morto, ameaçava contar sobre o relacionamento do padre com uma mulher casada (uma relação que na verdade não mais existia) e quando o Inspetor Larrue (Karl Malden) fica sabendo do detalhe escabroso, junta a pista aos fatos do assassino estar vestindo uma batina e de Logan não ter um álibi concreto e o indicia pelo crime. Para salvar sua pele, Logan tem apenas a opção de revelar um segredo que não pode, por ética, ser revelado.


A bem da verdade é necessário que o público entenda o dilema de Logan, ou seja, é crucial que a audiência acredite que um homem, mesmo na situação extrema do protagonista, seja capaz de manter em segredo o que pode lhe salvar a vida. Talvez esse seja o motivo pelo qual "A tortura" não está entre os mais festejados filmes de Hitchcock. Baseado em uma peça de teatro francesa, de Paul Anthelme (que o próprio diretor considerava ruim), o filme é talvez a obra mais carregada de simbolismos católicos de sua filmografia (cruzes, imagens e principalmente a temática são explícitos sinais de uma religiosidade bastante forte no cineasta, que estudou em colégio jesuíta). Filmado nas montanhas do Canadá - e portanto fugindo de seus tradicionais locais de filmagens - "A tortura do silêncio" apresenta também uma grande atuação - mais uma - de Montgomery Clift, que novamente aproveita sua própria personalidade torturada para criar o angustiante retrato de um homem a caminho de seu calvário pessoal por manter intactos seus ideais religiosos e éticos.

"A tortura do silêncio" não é dos melhores Hitchcocks. Tem um final anti-climático, um par romântico que não tem uma química das melhores (Anne Baxter não era a primeira escolha do cineasta e, por melhor atriz que fosse, não estava em seus melhores dias) e um conflito central que exige do público bem mais do que o corriqueiro. Ainda assim, é dono de belas cenas, tem uma história interessante - apesar de forçar algumas coincidências - e conta com Montgomery Clift no papel principal, o que já lhe confere uma força acima da média.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CANTANDO NA CHUVA


CANTANDO NA CHUVA (Singin' in the rain, 1952, MGM, 103min) Direção: Gene Kelly, Stanley Donen. Roteiro: Adolph Green, Betty Comden. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Adrienne Fazan. Figurino: Walter Plunkett. Produção: Arthur Freed. Elenco: Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O'Connor, Jean Hagen, Cyd Charisse, Rita Moreno. Estreia: 27/3/52

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Donald O'Connor)

Se é que existe uma imagem icônica dentre todos os musicais produzidos por Hollywood - em especial nos áureos tempos do gênero (a saber, anos 40 e 50) - ninguém há de discordar que essa imagem é a de Gene Kelly, no auge de seu vigor, dançando encharcado, feliz e realizado de amor em "Cantando na chuva". A cena, realizada com Kelly queimando em febre e feita com uma chuva que misturava leite com água, é até hoje o símbolo maior de um período mágico para os musicais e uma das mais contagiantes manifestações de felicidade já mostradas pelo cinema. E apesar de muita gente só lembrar do filme por causa dessa cena, é preciso lembrar que, antes e depois dela, "Cantando na chuva" é uma engraçadíssima narrativa sobre os bastidores do mundo do cinema.

O período retratado no filme co-dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen - a transição do cinema mudo para o falado - já havia sido parte do combustível para o genial "Crepúsculo dos deuses", mas, ao contrário do mostrado no filme de Billy Wilder - onde a mudança leva atores admirados a um ostracismo que beira a crueldade - aqui o tom é bem outro. Irônico na medida certa e carinhoso sem soar nostálgico em demasia, o roteiro de Adolph Green e Betty Comden - escrito para encaixar-se às músicas, o contrário do que normalmente é feito - conta uma história de amor ingênua e simples que usa o mundo da sétima arte como pano de fundo.

O ano é 1927. Astro do cinema mudo, o ator e galã Don Lockwood (Gene Kelly) começa a perceber que filmes falados são o futuro de sua carreira. Ao lado de sua constante companheira de cena, a bela mas fútil Lina Lamont (Jean Hagen) ele planeja transformar seu fracassado projeto, "O cavaleiro andante" em um musical, uma vez que a primeira versão do filme resultou em um desastre técnico. No entanto, ele e seu melhor amigo, Cosmo Brown (Donald O'Connor), esbarram em um grande problema: a voz estridente de Lina, que funciona como atriz de cinema mudo, mas é um desastre falando. Para resolver o impasse, eles chamam a nova namorada de Lockwood, a aspirante a atriz e bailarina Kathy Selden (Debbie Reynolds) para dublar a famosa estrela. Logicamente, quando o filme estreia e torna-se um grande sucesso, a veterana atriz recusa-se a permitir que a verdade venha à tona.


A bem da verdade a história de amor entre Don Lockwood e Kathy Selden (vivida por uma Debbie Reynolds com apenas 17 anos de idade que sofreu horrores nas mãos do tirano Gene Kelly) é apenas um pretexto para números musicais que, ao contrário do que muitos espectadores avessos ao gênero alegam, são divertidos, funcionais e dinâmicos. Donald O'Connor está brilhante em "Make 'em laugh", assim como, ao lado de Kelly e Reynolds, em "Good morning". É belíssima também a cena em que o apaixonado Lockwood se declara à jovem Selden, cantando "You were meant for me" (regravada por Sting no final dos anos 90 para o filme "A razão do meu afeto") em um set cinematográfico, revelando ao público alguns dos truques que fazem a ilusão do cinema. E nem precisamos falar novamente de "Singin' in the rain", uma das músicas mais famosas das telas (reutilizada anos depois no pesadelo kubrikiano "Laranja mecânica", mas em contexto bastante diferente).

"Cantando na chuva" é, além de um musical que não aborrece em momento algum - a possível exceção talvez seja o número "Melodia na Broadway", que conta com a presença de Cyd Charisse e, por ser um tanto longo, com mais de 12 minutos, pode incomodar aos menos pacientes - é uma comédia divertidíssima, com diálogos inteligentes e repletos de auto-ironia. Sendo assim, um casal de Hollywood, dentro do filme, "é um exemplo: são casados há dois meses e ainda são felizes..." e Lina Lamont, em um acesso de estrelismo, se descreve, usando palavras de um jornalista, como "não uma pessoa, mas sim uma brilhante estrela no firmamento do entretenimento..."

São esses pequenos detalhes que fazem de "Cantando na chuva" bem mais do que um musical clássico, daqueles que passam de madrugada na TV na época do Natal e do Ano-novo. Ver e rever Gene Kelly dançando na chuva é e sempre será uma imagem imortal.

sexta-feira, 5 de março de 2010

UMA RUA CHAMADA PECADO


UMA RUA CHAMADA PECADO (A streetcar named desire, 1951, Warner Bros., 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Tennessee Williams, baseado em sua peça de teatro homônima. Fotografia: Harry Stradling. Música: Alex North. Produção: Charles K. Feldman. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Estreia: 18/9/51

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Direção de Arte

Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Hunter)

Adaptações de peças de teatro para o cinema sempre correm o grande risco de tornarem-se aborrecidos exercícios de overactings. É preciso muito talento e/ou experiência para transformar uma bem-sucedida montagem teatral em um igualmente bem-sucedido produto cinematográfico. E talento e experiência são qualidades que não faltam a Elia Kazan e já não faltavam quando ele lançou "Uma rua chamada pecado", em 1951. Ao levar para as telas a obra-prima de Tennessee Williams que ele mesmo havia dirigido na Broadway, o polêmico cineasta não só conseguiu a proeza de criar um novo parâmetro para adaptações teatrais como ainda lançou oficialmente um ator que se tornaria um ícone absoluto do cinema: Marlon Brando. Tudo bem que "Uma rua" não é o primeiro filme de Brando (o título pertence a "Espíritos indômitos", do ano anterior) mas é inegável que foi a partir de sua interpretação vulcânica como Stanley Kowalski que Brando iniciou seu caminho rumo a tornar-se um dos mitos mais duradouros do planeta Hollywood.

"Uma rua chamada pecado" (título fantasioso menos interessante do que o original "Um bonde chamado desejo") se passa em uma espécie de cortiço em Nova Orleans, onde vive a dona de casa Stella (Kim Hunter) e seu marido, o truculento Stanley (Brando). Sua vida sem maiores emoções além de noitadas de pôquer e boliche - temperadas com algumas brigas bastante violentas - se transforma com a chegada de sua irmã mais velha, a misteriosa Blanche DuBois (Vivien Leigh, loura e aparentemente à beira de um ataque de nervos). Blanche chega para passar alguns dias com a irmã e o cunhado, mas esconde as verdadeiras razões pelas quais abandonou a propriedade da família e o emprego de professora. Seus modos delicados logo batem de frente com a falta de polidez de Kowalski, que de imediato não simpatiza com aquela mulher cheia de histórias mal-contadas e que parece ter prazer em jogar sua esposa contra ele. A tensão sexual entre os dois aumenta ainda mais quando Blanche conhece um amigo de Stanley, o tímido Mitch (Karl Malden), que ainda vive com a mãe e busca a companhia de uma mulher que divida com ele suas rígidas regras morais. O passado de Blanche, no entanto, acaba vindo à tona, abalando sua frágil estrutura mental e emocional.


É impossível ficar impassível a "Uma rua chamada pecado". Seja pela atmosfera sexual que envolve cada cena ou seja pela complexidade psicológica de suas personagens, o texto de Williams tem a inteligência de nunca deixar nada óbvio a sua audiência. Tudo é revelado nas entrelinhas - em sons do passado, em olhares assustados, em silêncios reveladores -, de maneira a proporcionar ao público o prazer extra de descobrir junto com as personagens todos os desdobramentos de sua história, por si só bastante intensa e adulta. O roteiro não tem medo de tocar em assuntos controversos - sedução de menores, estupro, violência doméstica - e é defendido por garra por um elenco espetacular.

Apesar de não ser a primeira opção para o papel de Blanche Dubois (foi escolhida apenas por ser mais popular do que Jessica Tandy, que defendeu a personagem nos palcos), Vivien Leigh toma posse de sua personalidade quase de forma espírita, deixando para trás a imagem mundialmente conhecida de Scarlett O'Hara. Seu olhar quase psicótico, seus trejeitos de mulher presa em um mundo particular, sua maneira de enganar a si mesma são brilhantes. Sua química com Brando é palpável: é impossível não reconhecer a tensão sexual entre os dois, que culmina em uma das cenas mais fortes do filme.
Kim Hunter e Karl Malden pontuam com sutileza o embate entre Leigh e Brando, repetindo na tela seus trabalhos na Broadway. Como Stella e Mitch, eles acabam sendo as vítimas inocentes do bonde chamado desejo, que, sem freio, atropela os quatro protagonistas e os arrasta em um caminho sem volta rumo à tragédia.

Curiosamente, dos quatro atores principais do filme apenas Marlon Brando não levou o Oscar (que ficou com Humphrey Bogart, por "Uma aventura na África"). Mas não há espectador que não concorde que é seu Stanley Kowalski, com sua sexualidade à flor da pele - reiterada em constantes imagens de seu musculoso corpo suado e em suas atitudes de macho primata - quem se apropria de todo o filme. Basta Brando entrar em cena para que tudo pareça gravitar à sua volta, tamanha a força de sua atuação. O ator até pode ter ganho dois Oscar em seu caminho posterior (nos espetaculares "Sindicato de ladrões" e "O poderoso chefão"), mas é aqui, nos primórdios de sua carreira que ele marca, a ferro e fogo, seu nome na história do cinema.

quinta-feira, 4 de março de 2010

UM LUGAR AO SOL


UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951, Paramount Pictures, 122min) Direção: George Stevens. Roteiro: Michael Wilson, Harry Brown, baseado no romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser. Fotografia: William C. Mellor. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: George Stevens. Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Keefe Brasselle, Raymond Burr. Estreia: 14/8/51

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (Montgomery Clift), Atriz (Shelley Winters), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Este é o filme que o mestre Charles Chaplin descreveu como "o melhor filme já feito em toda a história!". Este é o filme que inspirou Janete Clair a escrever a novela "Selva de pedra", um de seus maiore sucessos. Este é o filme que apresentou Elizabeth Taylor a Montgomery Clift, que se tornaram grandes amigos até a morte do ator, em 1966. E este filme também é mais uma das inúmeras injustiças que a Academia de Hollywood cometeu em suas premiações. Tudo bem que levou 6 estatuetas pra casa (diretor, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora e figurino em preto-e-branco), mas perdeu a principal para o insosso "Sinfonia de Paris" (e isso em um ano que tinha entre seus concorrentes o igualmente fenomenal "Uma rua chamada pecado", de Elia Kazan).

"Um lugar ao sol" é uma brilhante adaptação do extenso romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser, que originalmente se passa nos anos 20. Ao transferir a ação para os anos 50, Stevens criou não só um belo melodrama romântico mas também um retrato feroz e nada delicado de um mundo em constante desequilíbrio social, que empurra os indivíduos além de seus códigos de ética e conduta. Seu protagonista, o jovem e ambicioso George Eastman não é apenas um anti-herói que se torna vítima de seu desejo de ascensão social: ele é também e principalmente a imagem do americano médio, que, nos primeiros anos do pós-guerra se vê dividido entre o que é certo moralmente e o que é necessário para se atingir um nível decente de vida.

George Eastman (vivido magistralmente por Montgomery Clift em seu mais icônico papel) é um jovem pobre que, fugindo de uma vida sem recursos ao lado da mãe, uma mulher religiosa ao extremo, vai trabalhar na empresa de confecções de seu tio. Lá, ele conhece e começa a namorar uma colega de trabalho, a simplória Alice (Shelley Winters). A proximidade com a família milionária de seu tio, cercada de luxo e glamour, logo passa a despertar seu desejo de ascensão social, que fica ainda mais acentuado quando ele se apaixona pela bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor). Milionária, ela representa,para o rapaz acostumado com a mediocridade de uma vida sem maiores recursos, o brilho de uma existência sem preocupações financeiras. As coisas se complicam quando Alice revela que está grávida e passa então, por sua cabeça, livrar-se dela e consequentemente de seus problemas.

Ao contrário do que faria cinco anos depois com seu grandiloquente "Assim caminha a humanidade", que fotografava a vasta amplidão do Texas quase como um personagem a mais, em "Um lugar ao sol" George Stevens usa e abusa dos closes, criando tanto uma atmosfera claustrofóbica quanto extremamente calorosa. É impressionante como a mesma técnica funciona de maneiras tão distintas no filme. Quando George está com Angela a proximidade da câmera sublinha de forma inequívoca um sentimento inebriante de paixão, de amor, de urgência (e ajuda muito a beleza impressionante de Taylor, aos 17 anos e em seu primeiro papel adulto). Quando as cenas do protagonista são com Alice a mesma distância quase inexistente da câmera dá a plena sensação de sufoco, de falta de ar, de escuridão, como se estivéssemos assistindo tudo através dos olhos torturados de Eastman. Não é à toa que a fotografia de William C. Mellor arrebanhou o Oscar, tal é a sua importância em transmitir em imagens os pensamentos de seu protagonista.


O protagonista, aliás, merece um parágrafo à parte. Que belo personagem é George Eastman! Dividido entre a responsabilidade de uma paternidade indesejada - e a consequente mediocridade de uma vida da qual deseja fugir desesperadamente - e a possibilidade de uma vida longe de seu passado miserável - ao lado da mulher que verdadeiramente ama - ele é sem dúvida um dos mais complexos protagonistas do cinema dos anos 50. A escolha de Montgomery Clift para interpretá-lo foi uma jogada de gênio. Com seu belo rosto a serviço de uma personalidade torturada, Clift (um dos atores mais subapreciados de Hollywood, sempre sendo relegado a segundo plano em comparações com Marlon Brando e James Dean) oferece ao público um trabalho primoroso, onde transmite com igual competência assombro, paixão, desespero e angústia, sem nunca deixar de ser, nas cenas finais, o mesmo homem simplório e deslumbrado das primeiras. Uma tour de force das mais inspiradas do cinema, fascinante e de partir o coração.

"Um lugar ao sol" merece seu status de um dos melhores filmes de todos os tempos. Além do roteiro preciso, da fotografia perfeita e da sublime direção de George Stevens, contar com duas atrizes como Elizabeth Taylor e Shelley Winters para coadjuvar Montgomery Clift não é pra qualquer um. Cada uma dentro do seu estilo, elas representam os diferentes mundos que disputam a alma do protagonista. Linda, etérea e fascinante, Taylor veste Edith Head (figurinista de quem tornou-se grande amiga) com uma naturalidade invejável. E como imagem da mediocridade, Winters é insuperável, chegando a justificar o desejo homicida de George.

Obrigatório em todos os sentidos, "Um lugar ao sol" é uma influência ainda nos dias de hoje, como bem o comprova Woody Allen que o emula com maestria em "Match point". Feito há quase 60 anos, a obra de George Stevens se mantém tão atual hoje em dia quanto na época de seu lançamento, tamanha a genialidade que grita em cada fotograma.

PACTO SINISTRO



PACTO SINISTRO (Strangers on a train, 1951, Warner Bros, 101min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, Ben Hetch, baseado no romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Robert Burks. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Patricia Hitchcock. Estreia: 03/7/51

Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia em P&B

"Quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme." Essa regra primordial ditada pelo cineasta inglês Alfred Hitchcock encontra em "Pacto sinistro" uma prova irrefutável. Bruno Anthony, o vilão do filme, vivido com gosto por Robert Walker, é um dos mais interessantes antagonistas da vasta obra do cineasta e por causa dele - e da direção inspirada do mestre do suspense, é claro - o filme deixa de ser uma obra banal para tornar-se um grande entretenimento.

Baseado em um romance de Patricia Highsmith (autora também da série de livros com a personagem Tom Ripley, e que ficou possessa com a quantia irrisória paga pelos direitos de filmagem - dizem que apenas U$ 750), o filme começa no vagão de um trem onde o playboy Bruno Anthony conhece o tenista profissional Guy Haines (Farley Granger), de quem é fã incondicional. Sabendo que o jogador anda tendo problemas em conseguir o divórcio de sua primeira mulher (que o traiu e mudou de ideia quanto à separação por puro interesse financeiro), o misterioso Anthony explica a seu novo amigo seu plano para um assassinato perfeito: troca de crimes. Atônito, Guy o escuta sem acreditar, dizer que ele poderia matar sua mulher se ele matasse seu pai, que o mantém sob uma rígida proteção monetária. Tudo não passaria de teoria se Anthony não cometesse o primeiro homicídio e passasse a perseguir o jovem tenista, cobrando que ele cumpra sua parte no plano. Constantemente vigiado pela polícia, Guy tem que se livrar de seu perseguidor, provar sua inocência e não perder o amor da noiva, Ann Morton (a fraca Ruth Roman), filha de um influente senador de Washington.


Apesar da premissa original ser extremamente forte e instigante, "Pacto sinistro" é muito mais do que um jogo de gato e rato. O autor de romances policiais Raymond Chandler foi o primeiro contratado para roteirizar o filme, mas diferenças artísticas com Hitchcock o afastaram do projeto. Seria de imaginar se o resultado ficaria ainda melhor, mas do jeito que está, o filme já é um espetáculo de suspense da maior qualidade. Assim como em grande parte de sua vasta filmografia, Hitchcock usa e abusa de detalhes visuais para reiterar suas ideias. Cada cena, cada fotograma, cada close é importante para sua narrativa. Transitando com propriedade entre a tensão suprema e a ironia sutil, Hitchcock dá uma aula de como manter o espectador grudado na cadeira do início ao fim de sua história. Ideias geniais de enquadramento abundam em "Pacto sinistro" (o primeiro assassinato, por exemplo, é visto pela audiência através das lentes do óculos da vítima, caído no chão) e o diretor se diverte tanto quanto o público, dando vida a cenas que muitos "autores" do cinema atual morreriam para criar.

Exemplos? Quando Guy está em Washington, ele vê, em uma escadaria totalmente branca, o vulto de Bruno Anthony, como uma sombra maligna. Durante uma partida de tênis, Anthony é o único espectador que não mexe a cabeça acompanhando a bola. Antes de assassinar a mulher do tenista, o vilão explode o balão de uma criança com o cigarro e depois do crime cometido, ajuda um cego a atravessar a rua, como um bom cidadão. O mestre não tem medo nem mesmo de arriscar uma perigosa cena de ação no clímax do filme, passado em um carrossel de parque de diversões.

"Pacto sinistro" trata de um dos temas preferidos do diretor: a transferência de culpa. Assim como em toda a sua obra, o clima claustrofóbico permeia toda a narrativa, levando ao público a angústia de Guy, mesmo que ele seja interpretado por um Farley Granger aquém do papel (o diretor preferia William Holden em seu lugar, especialmente por seu porte físico). O subtexto homoerótico passou despercebido quando o filme estreou, mas é bastante claro quando assistido nos dias de hoje. Bruno Anthony é logicamente apaixonado por Guy Haines - e é dominado, ainda que discretamente, pela mãe, assim como Norman Bates de "Psicose". Aliás, é Robert Walker quem se destaca gritantemente do resto do elenco do filme.

O Bruno Anthony de Walker é um dos vilões mais memoráveis da filmografia de Hitchcock. Delicado, quase cínico, bem-educado e discreto, ele foge do estereótipo do bandido óbvio e é tão bem construído que em certos momentos quase se tem a vontade de torcer por ele, pra que ele consiga finalmente se livrar do jugo de seu pai. Infelizmente "Pacto sinistro" foi o penúltimo filme do ator (que foi casado com Jennifer Jones antes dela casar-se com David O. Selznick), que morreu de reação alérgica a um medicamento durante as filmagens de seu projeto seguinte. Em todo caso seu trabalho como o psicótico Bruno Anthony felizmente está registrado em celulóide, para que as devidas homenagens sejam prestadas sempre que necessário.

PS - O ator Danny de Vito fez sua estreia como cineasta dirigindo a comédia de humor negro "Joga a mamãe do trem" em homenagem explícita a "Pacto sinistro". No filme, ele vive um aspirante a escritor que tenta convencer seu professor (Billy Cristal) a matar sua mãe despótica (Anne Ramsey, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e em troca, se oferece para assassinar sua ex-mulher, que roubou os manuscritos de seu livro. Vale a pena conferir!