sábado, 31 de julho de 2010

VELUDO AZUL


VELUDO AZUL (Blue velvet, 1986, De Laurentiis Entertainment Group, 120min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Edward 'Tantar' LeViseur. Casting: Pat Golden, Johanna Ray. Produção executiva: Richard Roth. Produção: Fred Caruso. Elenco: Isabella Rosselini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, Hope Lange, Brad Dourif. Estreia: 19/9/86

Indicado ao Oscar de Diretor (David Lynch)

O “american way of life”, tão louvado em filmes de diretores como Frank Capra sofreu um duro golpe, pelo menos da maneira como estamos acostumados a vê-lo, em 1986. E quem fez a plateia perceber que por trás de cada cerca branca dos subúrbios americanos pode-se esconder muito mais do que podemos imaginar foi um diretor que concorreu ao Oscar por um filme em preto-e-branco chamado “O homem elefante” e que, ao contrário do que se poderia supor, não se deixou levar pelo mainstream. Em “Veludo azul” David Lynch fez um filme sobre aparências. E parece que sua intenção era apenas desmascará-las.

O jogo de aparências de “Veludo azul” já começa em sua estrutura. Aparentemente, é um filme noir, com mocinhos honestos, vilões crudelíssimos e mulheres fatais. Na verdade, é bem mais complexo em termos de certo e errado do que supõe a vã filosofia do espectador acostumado a maniqueísmos típicos do gênero. O herói da história, Jeffrey Beaumont (vivido por Kyle MacLachlan) é um jovem que chega a cidade onde vive sua família para visitar seu pai, vítima de um enfarte. Por mais bizarro que possa parecer (e bizarro é uma palavra que pode definir “Veludo azul” como um todo), Jeffrey encontra em um terreno baldio uma orelha humana. Essa orelha o levará, com a ajuda de Sandy (Laura Dern), a filha do chefe de polícia do local, até a cantora Dorothy Vallens (a bela Isabella Rossellini, gélida e enlouquecida como convém), cujo relacionamento doentio com o misterioso Frank (Dennis Hopper, em um dos mais assustadores vilões da década de 80) ultrapassa todos os limites da normalidade.

À primeira vista, Jeffrey é o herói do filme. Mas, ao contrário do que normalmente se espera em filmes assim, ele não é exatamente um santo. Enquanto inicia um tímido romance com Sandy, ele também fica fascinado pela beleza misteriosa de Dorothy e por seus traumas psicológicos que a levam a exigir violência durante o ato sexual. E Dorothy, aparentemente uma dama fatal, não deixa de ser a principal vítima de uma rede de obsessões, perversidades e medo.

Em uma cena do filme, Jeffrey diz que o mundo é estranho. Tudo bem, de certa forma ele está certo. Mas é inegável que um mundo dirigido por David Lynch (que recebeu nova indicação ao Oscar por este filme) é ainda mais estranho. Afinal, em que mundo considerado normal alguém (mesmo que seja um exageradamente maquiado Dean Stockwell) começa, do nada a dublar Roy Orbison e um maníaco seja tarado por um pedaço de veludo azul? O mundo de David Lynch é muito estranho... e nós gostamos dele!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CONTA COMIGO


CONTA COMIGO (Stand by me, 1986, Columbia Pictures, 89min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans, conto "The body", de Stephen King. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Robert Leighton. Música: Jack Nietzsche. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Richard D. Kent. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Bruce A. Evans, Raynold Gideon, Andrew Scheinman. Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell, Kiefer Sutherland, John Cusack, Richard Dreyfuss. Estreia: 08/8/86

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

O nome do escritor Stephen King nos créditos de “Conta comigo” não deixa de ser enganador. Ao ver seu nome atrelado a produções de terror normalmente bem abaixo da média, King nunca deixou que seus trabalhos em outros gêneros viessem à tona. Baseado em um conto chamado “The body”, o filme de Rob Reiner sobre a perda da inocência é quase uma pequena obra-prima de sensibilidade e melancolia.

Passado no início dos anos 60, quando os EUA ainda não haviam passado pelos traumas da guerra do Vietnã e do assassinato de Kennedy, o filme conta a aventura de quatro amigos em vias de passar da infância para a pré-adolescência, quase como o país.
Ao embarcar em uma viagem em busca do corpo de um jovem morto por um trem, os amigos embarcam também em uma jornada de auto-conhecimento, em que o objetivo passa ser menos importante do que o caminho.

O criativo Gordie (Will Wheaton) não consegue provar aos pais seu talento, sempre sufocado pela lembrança do irmão mais velho morto tragicamente (vivido em flashback por um jovem John Cusack). O rebelde Chris Chambers (River Phoenix, em uma atuação delicada e inesquecível) também vive à sombra do irmão, mas pelos motivos opostos, uma vez que ele não é exatamente um motivo de orgulho. O traumatizado Teddy (Corey Feldman) sofre de maus-tratos domésticos cometidos por seu pai, veterano da Guerra da Coréia e o gordinho Vern (Jerry O’Connell) tem em sua forma física motivos suficientes para considerar-se à margem. Juntos, os quatro partem em busca de fama e glória ao encontrarem o cadáver de um conterrâneo. Em seu encalço está uma gangue de transviados liderados por Ace Merrill (Kiefer Sutherland iniciando uma carreira de vilões).

Como já foi dito antes, a viagem dos amigos é mais importante que seu destino. Enquanto conversam sobre suas vidas, fogem de cães raivosos e trem desatinados e revelam seus segredos, Gordie e seus companheiros constroem uma amizade forte e perene, mesmo que sem maiores ambições de seguir com ela no final dos seus dias de aventura. O tom melancólico da obra de King atinge um nível emocionante graças ao roteiro indicado ao Oscar, à trilha nostálgica (em especial a bela canção que dá título ao filme) e ao inspirado elenco jovem. E pensar que River Phoenix morreu menos de dez anos depois deixa o ar menos respirável ainda quando o escritor vivido por Richard Dreyfuss, em participação especial termina de contar sua bela e triste história.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

ALIENS, O RESGATE


ALIENS, O RESGATE (Aliens, 1986, 20th Century Fox, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, história de James Cameron, David Giler e Walter Hill, personagens criados por Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Emma Porteous. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Crispian Sallis. Produção executiva: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Lance Henriksen, Paul Reiser, Bill Paxton, William Hoppe. Estreia: 18/7/86

7 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais


Em 1979, o filme "Alien, o oitavo passageiro" empolgou plateias do mundo inteiro ao misturar com equilíbrio perfeito elementos de ficção científica com ingredientes de filmes de terror. O resultado foi uma bilheteria espantosa, sucesso de crítica e um inevitável segundo capítulo. Dirigida por James Cameron - vindo do grande êxito de "O exterminador do futuro" - , a continuação do filme de Ridley Scott abandonou a sensação claustrofóbica do original, substituindo-a pelas melhores cenas de ação que o dinheiro poderia comprar. Perdeu em tensão, mas ganhou em adrenalina. Os fãs do gênero formaram filas enormes, profundamente satisfeitos.

A trama desse segundo filme se passa cerca de 50 anos depois dos acontecimentos que levaram a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) a testemunhar a aniquilação de seus companheiros de tripulação por um alienígena truculento e aparentemente invencível. Encontrada por uma nave de resgate, logo ela fica sabendo que o planeta que originou o monstro está colonizada pela Terra e, quando todo e qualquer contato com os humanos que o habitam é perdido, ela é enviada para descobrir o que aconteceu e, se for necessário, exterminar os algozes dos colonizadores.


Tudo em "Aliens, o resgate", é grande. A duração (mais de duas horas), os efeitos visuais, a violência. Navegando tranquilamente em sua tradicional mania de grandeza, Cameron oferece ao espectador um verdadeiro espetáculo de entretenimento. Seguindo a linha oposta ao trabalho de Ridley Scott - que optou pela sugestão em detrimento do explícito - o futuro vencedor do Oscar por "Titanic" não tem medo de orquestrar sequências de ação eletrizantes e de apavorar o público com criaturas asquerosas em número suficiente para justificar o Oscar de efeitos visuais que acabou conquistando. E além de tudo ainda encontra tempo para sentimentalismos, ao criar uma personagem que dá a Ripley um lado humano que lhe cai muito bem: uma menina órfã que vê na protagonista a figura materna que necessita para manter-se viva e amada.

É fato notável que a relação entre Ripley e sua pequena "filha" dá um gás novo e uma nuance inesperada que permite a "Aliens, o resgate" fugir da maldição das continuações. Humanizar Ripley foi um golpe de mestre de Cameron, que a aproxima mais da plateia antes de fazê-la barbarizar seus antagonistas, além, é claro, de permitir a Sigourney Weaver maiores vôos dramáticos de atuação - não à toa, ela foi surpreendentemente indicada ao Oscar por seu trabalho em um gênero que normalmente não é muito afeito a dramas pessoais.

"Aliens, o resgate" é o mais bem-sucedido comercialmente da série lançada em 1979, mas fica aquém do original no quesito suspense. É um extraordinário filme de ação, realizado com uma competência assustadora e talentos criativos inegáveis, que deixaria o mundo com água na boca, esperando um terceiro capítulo que, lançado em 1992, decepcionou público e crítica mesmo voltando às origens claustrofóbicas de sua origem.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

CURTINDO A VIDA ADOIDADO


CURTINDO A VIDA ADOIDADO (Ferris Bueller's day off, 1986, Paramount Pictures, 103min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Paul Hirsch. Música: Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Casting: Janet Hirshensen, Jane Jenkins. Produção executiva: Michael Chinich. Produção: John Hughes, Tom Jacobson. Elenco: Matthew Broderick, Mia Sara, Alan Ruck, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward. Estreia: 11/6/86

Só mesmo a pessoa mais azeda da face da Terra, que nunca sonhou em matar um dia de aula para divertir-se com os amigos pode não gostar de "Curtindo a vida adoidado", uma hilariante comédia do mestre para filmes para adolescentes dos anos 80, John Hughes. Reprisada à exaustão na televisão, ainda assim é um dos filmes mais queridos daqueles que curtiram a década mais cafona da história através do cinema e da TV. Não é à toa que todos que o assistiram sempre terminam o diálogo com "toda vez que passa na televisão eu assisto...)

Para quem não sabe, o filme conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick, no papel de sua vida), um adolescente comum, mas extremamente carismático, que resolve tirar um dia de folga da escola para aproveitar o sol ao lado do melhor amigo, o angustiado Cameron (Alan Ruck) e da namorada, a bela Sloane (Mia Sara). Para isso, ele finge uma doença, para desespero de sua irmã Jeanie (Jennifer Grey), que o conhece muito bem e sabe da verdade. Nada seria muito grave se Ferris não estivesse pendurado em número de faltas e não passasse a sofrer a perseguição implacável do diretor de alunos da escola, o atrapalhado Ed Rooney (Jeffrey Jones), disposto a tudo para não deixar um aluno lhe enganar.


Com essa história simples, Hughes ganhou a simpatia de milhões de espectadores. Com um humor genial e ingênuo, personagens de extrema empatia e uma edição competente, o filme diverte sem maiores pretensões, o que faz dele um programa perfeito para quem deseja apenas um bom par de horas de bom-humor. Para quem duvida, faça o teste de tentar ficar incólume à cena (já clássica) em que Ferris Bueller sobe em um carro na parada de Chicago para dublar “Twist and shout”, dos Beatles. Tarefa das mais inglórias, uma vez que é impossível não ficar com um sorriso bobo na cara...

O personagem de Ferris Bueller - que desperta em todos os espectadores um lado irresponsável e irreverente - caiu como uma luva em Broderick, ótimo ator, mas que no entanto, até hoje é um escravo do seu sucesso como adolescente. Sua simpatia, seu carisma e seu sorriso cativante fazem com que Ferris Bueller seja o ídolo perfeito de todos aqueles que querem curtir a vida adoidado, mesmo que por uma tarde apenas. Uma obra-prima incontestável!

terça-feira, 27 de julho de 2010

9 1/2 SEMANAS DE AMOR


9 1/2 SEMANAS DE AMOR (9 1/2 weeks, 1986, MGM Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King, Patricia Louisianna Knop, romance de Elizabeth McNeill. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf, Mark Winitsky. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Ken Davis/Christian Kelly. Casting: Nan Dutton, Vicki Huff, Mary Jo Slater, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Keith Barish, Frank Konigsberg. Produção: Mark Damon, Sidney Kimmel, Zalman King, Antony Rufus-Isaacs. Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young. Estreia: 21/02/86

Adrian Lyne é um cineasta que, a julgar por seus filmes, dispensa um bom roteiro se puder contar com um visual interessante. Exemplo disso é "9 1/2 semanas de amor", um dos filmes ícones dos anos 80, que foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas virou cult no resto do mundo, deflagrando o que convencionou-se chamar de “estética de videoclip”, da qual também fazem parte produtos como “Top Gun, ases indomáveis” e “Flashdance, em ritmo de embalo”, este último sintomaticamente comandado pelo mesmo Adrian Lyne.

Na verdade, o fracasso comercial do filme justifica-se plenamente pela fragilidade do roteiro, inspirado em um livro desconhecido de Elizabeth McNeill, que parte de uma premissa quase inacreditável e segue sem rumo certo por duas horas de projeção. Se não vejamos: a bela e sexy Elizabeth (homônima da autora do livro, o que de certa forma sugere um alter-ego mal disfarçado) trabalha numa galeria de arte – uma profissão “cool” - e, tirando seu ex-marido, que ela deselegantemente passa para uma colega, tem uma vida sexual bem pobrezinha. Um dia ela encontra na rua com o misterioso e charmoso John (Mickey Rourke, ainda em forma e em vias de transformar-se em promessa de astro). Depois de relutar um pouco – bem pouco, na verdade – ela acaba entregando-se em uma relação baseada em puro sexo e submissão. Aos poucos, no entanto, ela começa a temer por sua segurança física e emocional, uma vez que seu amante não lhe dá nenhum tipo de segurança fora dos domínios sexuais.


E a história resume-se a isso. Entre as – justiça seja feita – extremamente bem fotografadas e excitantes cenas de sexo, o casal não parece, em momento algum, personagens de um filme romântico e sim de um pornô light e com ambições à clássico. Kim Basinger, que não está particularmente bonita e Mickey Rourke têm uma química invejável, apesar dos boatos de que não se suportaram durante as filmagens - o ator preferia Isabella Rosselini para o papel e nunca fez questão de esconder a preferência. Também não ajudou em nada o fato de Lyne proibir os dois de se falaram fora dos sets de filmagem - se bem que, a julgar pela declaração de Basinger de que beijar Rourke causava a mesma sensação de levar um cinzeiro aos lábios nem mesmo os dois atores faziam questão de um relacionamento social...

Mas a definição de que é um filme que analisa os limites da sexualidade da mulher é balela. Nem adiantou Lyne tentar profundidades subliminares como vestir Elizabeth de roupas escuras quando encontra John, em oposição a suas roupas claras nas outras cenas. O que fica depois de uma sessão de “9 ½ semanas de amor” são as lembranças de sua adequada trilha sonora e de duas ou três cenas quentes e bem coreografadas. Não é muito para um filme que fez a cabeça de muitos casais de sua época. Mas provavelmente os fãs não estão nem aí pra isso...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.


"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

domingo, 18 de julho de 2010

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.


As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

sábado, 17 de julho de 2010

A COR PÚRPURA



A COR PÚRPURA (The color purple, 1985, Warner Bros, 154min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Menno Meyjes, romance de Alice Walker. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: Quincy Jones. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Quincy Jones, Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Margaret Avery, Oprah Winfrey, Willard Pugh, Akosua Busia. Estreia: 16/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Whoopi Goldberg), Atriz Coadjuvante (Margaret Avery, Oprah Winfrey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Canção ("Miss Celie's blues"), Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe: Melhor Atriz/Drama (Whoopi Goldberg)


No mesmo ano em que produziu duas pérolas do entretenimento escapista e comercial – “Os Goonies” e “De volta para o futuro” – Steven Spielberg iniciou também seu namoro com o cinema sério e adulto. Aclamado com 13 indicações ao Oscar, o belo “A cor púrpura” acabou decepcionando quando não levou nenhuma estatueta, dando início também a um esnobismo da Academia em relação ao cineasta, finalmente quebrado com “A lista de Schindler”, nove anos depois.

Baseado no romance homônimo de Alice Walker, premiado com o Pulitzer, o filme de Spielberg - que aqui deixa de lado sua parceria com o músico John Williams pela primeira e até agora única vez na carreira para ter a colaboração do experiente Quincy Jones, um dos produtores da obra – conta a dolorosa e sofrida trajetória de Celie, uma negra que, com apenas 14 anos de idade e mãe de dois filhos tidos com seu próprio pai, é praticamente vendida a um viúvo violento e cruel (vivido com maestria por Danny Glover). Separada dos filhos quando eles ainda estão no berço e de sua irmã, afastada por recusar-se a dividir a cama com o cunhado, Celie passa humilhações e sofrimentos durante mais de 30 anos, sendo obrigada a ver-se como uma mulher feia, burra e inútil. As únicas pessoas que lhe dão valor são justamente duas mulheres que também sofrem o preconceito da sociedade: a cantora Sugar (Margareth Avery, indicada ao Oscar de coadjuvante), amante de seu marido e tratada pela cidade como uma prostituta, e Sofia (Oprah Winfrey, antes da fama e do sucesso, também indicada ao Oscar como coadjuvante), casada com o atrapalhado Harpo, enteado de Celie. Sem papas na língua e com o pensamento libertário, Sofia acaba passando anos na cadeia por ousar manter seu lugar no mundo com honra e dignidade.


Visto à luz dos anos, “A cor púrpura”, ainda que um belo e comovente filme, mostra alguns defeitos que, se não chegam a estragá-lo talvez tenham atrapalhado seu caminho rumo ao Oscar (mesmo que seja melhor e mais marcante do que o vencedor do ano, “Entre dois amores”). A opção do roteirista e do diretor em elevar o espírito feminino é louvável, mesmo porque os sofrimentos que as personagens passam são palpáveis e genuínos. Daí a relegar os homens a papéis pequenos, cruéis e unidimensionais são outros quinhentos. Tirando o personagem de Danny Glover – espetacular, diga-se de passagem -, que de vez em quando deixa transparecer algum sentimento, em especial em relação a Sugar, todos os outros personagens masculinos são maus, manipulados ou indiferentes. Esse maniqueísmo pode ser proposital, mas acaba sendo quase um tiro no pé nas intenções de Spielberg em fazer um filme sério.

A duração excessiva da obra (mais de duas horas e meia) também não ajuda. Mais uma vez a impressão que é passada é a que o filme queria ter a duração de um épico. No entanto, para preencher o tempo, Spielberg coloca em cena situações que, em outros filmes até seriam engraçadas, se não fossem tão fora de propósito em um filme com possibilidades tão nobres e sérias. Uns bons vinte minutos a menos e o ritmo do filme não seria tão prejudicado (e vindo do sujeito que bolou as duas aventuras alucinantes de Indiana Jones isso não deixa de ser irônico).

No entanto, mesmo com seus pequenos defeitos e qualidades inegáveis, “A cor púrpura” tem do seu lado um fator que a maioria esmagadora dos cineastas sonha: uma protagonista repleta de carisma e talento. Ao escalar a estreante Whoopi Goldberg para o papel de Celie dos vinte e poucos aos quarenta e muitos anos, Spielberg tirou a sorte grande. Em nenhuma cena Goldberg está menos do que exemplar, em uma atuação que foi merecidamente indicada ao Oscar. Só a cena em que, depois de muitos anos a sofrida Celie finalmente vê seu sorriso refletido em um espelho já vale as quase três horas de duração. Por Whoopi, pelos méritos da produção e pela vontade de Spielberg de fazer um filme de conteúdo depois de inúmeros sucessos financeiros “A cor púrpura” merece ser assistido. E tente não se comover!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

DE VOLTA PARA O FUTURO


DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future, 1985, Universal Pictures, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, Robert Zemeckis. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Hal Gausman. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Billy Zane. Estreia: 03/7/85

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção ("The power of love"), Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


Comprovando de vez o toque de Midas de Steven Spielberg, capaz de transformar qualquer produto com seu nome em uma máquina de fabricar dinheiro, a comédia de ficção científica “De volta para o futuro” rendeu mais de 200 milhões de dólares nos EUA, tornando-se a maior bilheteria de 1985. E sabe o que é mais surpreendente? Mereceu cada centavo. Ao contrário de dezenas de produções menos inspiradas que aportam nas telas de cinema semanalmente, o filme de Robert Zemeckis – protegido de Spielberg e diretor do hilariante “Febre de juventude” – tem um rasgo de inteligência, bom humor e auto-ironia que o separa quilometricamente de seus congêneres.

Estrelado por Michael J. Fox (saído da série de TV “Caras e caretas” e que substituiu Eric Stoltz a meio caminho), “De volta para o futuro” é um filme de ação delirante, uma comédia engraçadíssima e, por que não?, uma ficção científica com fundo romântico e nostálgico que agrada pais e filhos. É pouco provável que alguém não vá se divertir assistindo a saga de Marty McFly (J. Fox) na sua missão de, em pleno 1955, juntar seus pais em um baile de formatura e assim impedir sua existência em 1985 de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Ok, vamos às explicações: Marty é um adolescente de 17 anos que sonha em tornar-se guitarrista famoso e vive com uma família absolutamente sem-graça. Seus pais vivem discutindo, seus irmãos não têm ambição e sua vida é definitivamente comum. Tudo muda quando seu amigo, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd, em uma atuação siderada) lhe apresenta sua nova invenção: uma máquina do tempo construída em um DeLorean. Por problemas que envolvem terroristas líbios, combustível feito de plutônio e um relógio na torre de um prédio, Marty acaba sem querer indo parar em outubro de 1955, às vésperas do baile de formatura onde seus pais trocaram seu primeiro beijo. Por uma ironia do destino, no entanto, sua mãe, Lorraine (Lea Thompson), nem de longe tão certinha quanto sempre quis parecer ser diante dos filhos, se interessa por ele e Marty tem então que fazê-la apaixonar-se por aquele que virá a ser seu pai, George McFly (o ótimo Crispin Glover). O problema é que George é desengonçado, tímido, atrapalhado e fã de livros de ficção científica, além de ser eternamente humilhado pelo grandalhão Biff (Thomas F. Wilson). A missão do adolescente Marty acaba se tornando de vida ou morte. Se seus pais não se apaixonarem, nem ele nem seus irmãos existirão mais.


O alucinante do roteiro de Zemeckis e Bob Gale (indicado merecidamente ao Oscar) nunca deixa o ritmo cair. De piada em piada (desde o choque de gerações até piadas mais visuais) o filme vai construindo uma trama consistente apesar da premissa um tanto absurda, apesar de engraçada. Colabora para a atemporalidade do filme - que, ao contrário de muitos filmes realizados à mesma época - sua caprichada direção de arte e o cuidado com os detalhes, um padrão de qualidade da "marca" Spielberg. Mas, além do roteiro exemplar e da admirável parte técnica, é o carisma de Michael J. Fox e sua química com seus colegas de elenco que dão sustentação a todo o projeto.

Apesar de já não ser um adolescente durante as filmagens de "De volta para o futuro", Fox convence plenamente na pele de Marty McFly, assim como o fazem Crispin Glover e Lea Thompson como seus pais - Glover inclusive parece ter nascido para o papel, em uma atuação ao mesmo tempo hilariante e patética. E Christopher Lloyd, como o amalucado Doc Brown entrega um dos trabalhos mais populares de sua carreira no cinema, iniciada com o dramático "Um estranho no ninho".

Tudo em "De volta para o futuro" colabora para o clima exato de Sessão da Tarde com pipoca e guaraná pretendido pelo diretor Zemeckis e pelo produtor Spielberg. As aventuras de Marty e Lloyd rendeu duas continuações, nenhuma tão boa quanto a primeira, ainda que longe de serem ruins. É uma diversão inofensiva que resiste bravamente ao tempo, mantendo-se tão deliciosa hoje quanto há 25 anos.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

OS GOONIES


OS GOONIES (The goonies, 1985, Warner Bros, 114min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Chris Columbus, história de Steven Spielberg. Fotografia: Nick McLean. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard LaMotte. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner. Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Ke Huy Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey. Estreia: 07/6/85

Uma das maiores alegrias que o cinema pode proporcionar a uma pessoa é a possibilidade de uma viagem no tempo. Às vezes literalmente, em outras em espírito. E é justamente isso que faz esse “Os Goonies”, uma das mais divertidas brincadeiras criadas pelo mago Steven Spielberg, aqui atuando como autor da história desenvolvida pelo diretor Chris Columbus. Utilizando de sua nostalgia explícita, aqui o criador de ET dá vazão a suas memórias dos filmes de piratas, gênero praticamente inexistente no imaginário popular desde a morte de Errol Flynn - mas que ganhou novo fôlego com a série "Piratas do Caribe", quase vinte anos depois.

Os Goonies do título são um grupo de pré-adolescentes cujas famílias estão às vésperas de ser obrigadas a abandonar seus lares, despejados por tubarões da especulação imobiliária. Tristes e entedidados, eles acabam descobrindo um mapa segundo o qual encontrarão o tesouro de um pirata chamado Willy Caolho. Liderados pelo asmático Mickey (Sean Astin) e por seu irmão mais velho, Brand (Josh Brolin), eles fogem de casa e partem em busca da fortuna que os ajudaria a permanecer em suas casas. Além de armadilhas criadas por Willy, no entanto, eles terão que encarar os Frattelli, uma família de criminosos formada pela despótica Mama (Anne Ramsey) e por dois atrapalhados assaltantes (vividos por Joe Pantoliano e Robert Davi antecipando em alguns anos as piadas visuais que Columbus refinaria em "Esqueceram de mim").


A esperteza do roteiro de Columbus foi a de pôr em cena personagens que agradam em cheio seu público-alvo. Além da delicadeza de Mickey e do ar sedutor de Brand, estão em cena todos os tipos necessários: há o inventor Data (Ke Huy Quan, de “Indiana Jones e o templo da perdição”), o engraçadinho Mouth (Corey Feldman), as donzelas em perigo Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton) e o assustado Chunk (Jeff Cohen, dono das cenas mais engraçadas), que faz amizade com aquele que acaba se tornando o personagem mais carismático e marcante do filme, o deformado Sloth, rejeitado pela família Frattelli devido a sua aparência, mas que se revela uma alma carinhosa e meiga, bem ao gosto do produtor Spielberg.

Dono de um ritmo alucinante, boas piadas e uma trilha sonora irresistível que conta inclusive com uma canção original de Cindy Lauper, “Os Goonies” é um programa para deixar o lado crítico descansando e encarar uma hora e meia de cinema escapista como pouco se faz hoje em dia. Bons tempos que cinema para a pré-adolescência não apelava para vampiros melancólicos...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.


Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

terça-feira, 13 de julho de 2010

CLUBE DOS CINCO


O CLUBE DOS CINCO (The breakfast club, 1985, Universal Pictures, 97min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Dede Allen. Música: Keith Forsey. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Gil Friesen, Andrew Meyer. Produção: John Hughes, Ned Tanen. Elenco: Judd Nelson, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Emilio Estevez, Ally Sheedy, Paul Gleason, John Kapelos. Estreia: 15/02/85

Independente da época onde vivem e/ou como vivem, adolescentes formam um grupo sociológico importante e interessante. Que o diga John Hughes, que, na década de 80 tornou-se uma espécie de especialista em filmes sobre, com e para a faixa etária que vem depois da infância e precede a idade adulta. O mais representativo dessa categoria é “Clube dos cinco”, que, além de virar cult entre seu público alvo ainda criou uma atriz símbolo, a ruiva Molly Ringwald, que chegou a virar capa da revista Time antes de desaparecer com a chegada da idade.

A trama imaginada por Hughes não tem grandes ambições: cinco adolescentes de uma escola de ensino médio de Chicago são obrigados a passar um sábado na detenção, ou seja, presos durante um dia inteiro na biblioteca. Sua missão: pensar nos motivos que os levaram até ali e escrever um ensaio sobre suas verdadeiras personalidades. A princípio aborrecidos com a tarefa designada por seu diretor (o ótimo Michael Gleason), aos poucos o grupo passa a se conhecer melhor, seja por meio de agressões verbais ou físicas ou até mesmo por conversas verdadeiras e sinceras.


A história engendrada pelo cineasta é apenas uma desculpa para que ele ponha em cena alguns estereótipos do adolescente anos 80 – e por que não adolescente e ponto final?. Estão em cena a adorável Claire (vivida com simpatia por Ringwald), a garota mais popular da escola, o saudável Andrew (Emilio Estevez), conhecido por seus dons esportivos, o estudioso Brian (Anthony Michael Hall), que participa de todo e qualquer grupo de estudo possível, a estranha Allison (Ally Sheedy), que passa eternamente despercebida e o rebelde Bender (Judd Nelson), cujo futuro nada alvissareiro pode ser visto a quilômetros de distância por qualquer pessoa com um mínimo de inteligência.

O grande trunfo do roteiro de John Hughes e o que fez cair nas graças da juventude de sua época é o fato de nunca julgar seus personagens, que não são exatamente o que pareciam à primeira vista. Famílias desajustadas, cobranças exageradas e aparências exigidas são moeda corrente entre os adolescentes criados pelo autor. Ecos de “Juventude transviada”, filme-símbolo da rebeldia juvenil podem ser encontrados nos torturados personagens de “Clube dos cinco”. E Hughes nem tenta fugir da tentação de criar romances e cenas que beiram a pieguice. Longe de tentar fazer um filme de arte, ele quer – e consegue – atingir seus maiores objetivos sem fazer muita força.

“Clube dos cinco” contém grandes doses de ingenuidade e em muitos momentos esbarra com a maior cara-de-pau em todos os clichês dos filmes de seu gênero. Mas tem um roteiro inteligente, antenado e sensível, defendido por um elenco que nunca esteve melhor e mais à vontade. Não é um clássico no sentido mais formal da palavra, mas é difícil de não gostar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A TESTEMUNHA


A TESTEMUNHA (Witness, 1985, Paramount Pictures, 112min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Earl W. Wallace, William Kelley, história de William Kelley, Pamela Wallace, Earl W. Wallace. Fotografia: John Seale. Montagem: Thom Noble. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Stan Jolley/John Anderson. Casting: Dianne Crittenden. Produção: Edward S. Feldman. Elenco: Harrison Ford, Kelly McGillis, Lukas Haas, Danny Glover, Josef Sommer, Viggo Mortensen, Patti LuPone. Estreia: 08/02/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Harrison Ford), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Original, Montagem

Em 1985, Harrison Ford estava na crista da onda. Na pele de Han Solo e Indiana Jones, ele lotava cinemas mundo afora e arrancava suspiros da ala feminina do público. O que lhe faltava então, a aceitação da crítica e o respeito de seus pares, chegou até ele através de um policial honesto, sério e dedicado chamado John Book, que, como protagonista do filme "A testemunha", lhe proporcionou inclusive uma inédita - e até hoje única - indicação ao Oscar de melhor ator.

Dirigido pelo australiano Peter Weir, "A testemunha" é um drama policial com toques românticos que conquistou a plateia justamente pelo perfeito equilíbrio entre esses gêneros, além de acrescentar à receita um interesse extra: o modo de vida dos amish, um grupo religioso que vive em um mundo à parte, indiferente aos avanços da tecnologia. Ao contrário de aparecer em cena como coadjuvantes folclóricos e/ou exóticos, eles são parte essencial da narrativa, ao mesmo tempo empolgante e terna concebida pelos roteiristas premiados com o Oscar da categoria.

A história de "A testemunha" começa com um violento assassinato ocorrido no banheiro masculino de uma estação de trens. Dois homens cortam a garganta de um terceiro e o crime tem apenas uma testemunha: o pequeno Samuel (Lukas Haas) assiste ao homicídio escondido e assustado. Quem é escalado para interrogá-lo é justamente o John Book vivido por Harrison Ford, um policial solitário e esforçado que, de caçador passa ao status de caça quando descobre que os responsáveis pelo crime são dois colegas de delegacia corruptos. Para recuperar-se de um tiro e proteger sua pequena testemunha, Book esconde-se em uma comunidade hamish - totalmente isolada da "civilização", sem telefone, televisão ou mesmo luz elétrica - e acaba se envolvendo na rotina de seus moradores. Para complicar ainda mais as coisas, ele se apaixona por Rachel (Kelly McGillis), a bela mãe de Samuel, recentemente viúva.


É fascinante observar a maneira como o roteiro consegue entrelaçar a trama policial com a história de amor entre Book e Rachel, sem jamais deixar de lado o choque entre culturas, que é o que lhe dá o sabor especial. A primeira metade do filme se concentra em estabelecer os perigos que irão perseguir os protagonistas - e para isso conta com as atuações excelentes de Danny Glover e Brent Jennings. A segunda parte se dedica a mostrar as relações de John Book com uma cultura completamente oposta à sua, com a bela Rachel e com o encantador Samuel, que vê nele a figura paterna de que necessita depois da morte do pai. E apesar da história policial ser forte o bastante para justificar um filme inteiro, é o encontro entre o cosmpolita detetive com a comunidade hamish que fica na memória da plateia.

A química entre Harrison Ford e Kelly McGillis é responsável pelo sucesso da história de amor contada em "A testemunha". A tensão sexual existente entre os dois é palpável e jamais chega sequer perto da vulgaridade - apesar de McGillis mostrar os seios em uma bela cena, são os olhares repletos de desejo trocados entre o casal que falam mais forte do que o único beijo que os une, já na reta final da projeção. Também é de destacar-se a sequência em que eles dançam no celeiro, que transmite mais paixão e desejo do que horas e horas de closes de corpos suados e ofegantes.

Dono de um invejável equilíbrio entre todas as suas linhas narrativas e de um casal de protagonistas bonito e talentoso, "A testemunha" mereceu todo o sucesso conquistado - chegou mesmo a concorrer aos Oscar de filme e direção. Pode não ser o melhor filme de Harrison Ford, mas deu a ele a oportunidade de provar que é bem mais do que um arqueólogo galã.

domingo, 11 de julho de 2010

AMOR À PRIMEIRA VISTA


AMOR À PRIMEIRA VISTA (Falling in love, 1984, Paramount Pictures, 106min) Direção: Ulu Grosbard. Roteiro: Michael Cristofer. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Steven Jordan. Produção: Marvin Worth. Elenco: Robert De Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel, Jane Kaczmarek, Dianne Wiest, Jesse Bradford. Estreia: 21/11/84

Um dos erros mais recorrentes dentro da indústria de Hollywood tem a ver com a confiança excessiva dos executivos em relação a determinados astros e estrelas. Nem sempre atores e atrizes consagrados conseguem passar por cima de um roteiro frágil e sem criatividade. E isso é claramente visível em "Amor à primeira vista", um romance açucarado e sem muito conteúdo que apostou suas fichas apenas no talento inquestionável de sua dupla de protagonistas, Robert DeNiro e Meryl Streep. Por melhores que eles sejam, no entanto - e eles o são - mesmo assim não foram capazes de salvar o filme do belga Ulu Grosbard, que naufragou nas bilheterias e não foi feliz nem mesmo nas cerimônias de premiação de 1984. A razão para tamanha decepção? A história fraca e mal desenvolvida, que não permite a dois dos maiores atores do cinema americano a chance de brilharem como devem - e podem.

A história de "Amor à primeira vista" se passa em Nova York e começa em uma véspera de Natal. Atrapalhados com seus inúmeros pacotes e sacolas de compras, o engenheiro Frank Raftis (DeNiro) e a design Molly Gilmore (Streep) se esbarram em uma livraria e, por engano, levam um o presente do cônjuge do outro. Se encontrando no trem algumas ocasiões depois, eles acabam se tornando uma espécie de amigos, até que se descobrem apaixonados um pelo outro. No entanto, ambos são casados e seus relacionamentos são fortes o bastante para impedí-los de consumar seu caso extra-conjugal. Quando ele aceita uma proposta de trabalho em Washington, porém, a urgência de seus sentimentos começa a falar mais alto.


O maior problema de "Amor à primeira vista" é a quase frieza do relacionamento entre seus protagonistas. Grosbard não é feliz em transmitir o sufocamento que a paixão causa em Frank e Molly, que, ao invés de parecerem angustiados com sua situação pouco invejável de amor proibido, soam como um casal quase indiferente ao nascimento de seus sentimentos. Também não convence a solidez de suas relações matrimoniais - especialmente o casamento de Molly, que em nenhum momento justifica sua renúncia à paixão por Frank. Somente no ato final do filme as coisas começam a parecer mais com "Desencanto", de David Lean, do que com qualquer novela de televisão - e mesmo assim, devido ao talento de Streep e DeNiro, que tentam tirar leite de pedra, tornando crível um texto sem maiores lances de criatividade e emoção.

No fim das contas, "Amor à primeira vista" é apenas um romance correto, com pouco sal, mas ainda assim capaz de comover os corações mais sensíveis e apaixonados. Mas de que o casal central de atores - repetindo a parceria de "O franco-atirador" - merecia bem mais que isso, não há dúvida.

sábado, 10 de julho de 2010

O EXTERMINADOR DO FUTURO


O EXTERMINADOR DO FUTURO (The terminator, 1984, Orion Pictures, 108min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, Gale Anne Hurd, diálogos adicionais de William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Brad Fiedel. Figurino: Hilary Wright. Direção de arte/cenários: George Costello/Maria Rebman Caso. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Bihen, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Bill Paxton, Bess Motta. Estreia: 26/10/84

Antes de tornar-se multimilionário com "Titanic" e auto-conceder-se a pecha de visionário com o megalomaníaco "Avatar", James Cameron era um cara legal. A prova cabal dessa afirmação é "O exterminador do futuro", um filme realizado com alguns trocados - cuja primeira ideia foi vendida por um mísero dólar - e que não apenas firmou Arnold Schwarzenegger como astro número 1 do cinema de ação mas também mostrou que em cinema, uma ideia na cabeça é muito mais importante do que efeitos visuais de última ponta na mesa de pós-produção.

E a ideia na cabeça de Cameron quando criou a trama de "O exterminador" não poderia ter sido melhor e mais intrigante. Na Los Angeles de 1984, a garçonete Sarah Connor (Linda Hamilton) é caçada - sem ter a menor ideia do motivo - por um truculento e misterioso homem que ela nunca viu antes na vida. Totalmente perdida e sem saber o que está acontecendo, ela é protegida por outro desconhecido, Kyle Reese (Michael Biehn), que depois de salvá-la diversas vezes da morte, finalmente lhe explica o porquê de tanta violência: ela está sendo perseguida por um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) que tem a missão de matá-la porque, no futuro, ela será a mãe do líder da resistência humana contra o domínio das máquinas. Ele, Kyle Reese, foi enviado, do futuro, pelo próprio John Connor, para protegê-la e evitar assim que seu nascimento seja impedido.

Sem contar com os orçamentos milionários com os quais faria seus filmes seguintes - a começar por "Aliens, o resgate", em 1986 - Cameron demonstra, em "O exterminador do futuro" que é, sim, um cineasta talentoso, inteligente e, mais importante do que tudo, com um senso de ritmo impecável. As cenas de ação de "Exterminador" não tem efeitos visuais mirabolantes, mas são tão empolgantes quanto se tivessem. Por ter menos dinheiro - leia-se um orçamento quase ridículo em comparação com sua sequência rodada em 1991 - Cameron se viu obrigado a ser mais criativo e essa criatividade faz desse primeiro exemplar da série um clássico absoluto da ficção científica, capaz de ser ao mesmo tempo extremamente eficaz como filme de ação e nunca deixar de ser inteligente e intrigante.

É impossível, por exemplo, deixar de relacionar a caça à Sarah Connor com a matança ordenada por Herodes logo após o nascimento de Cristo e essa ressonância religiosa de certa forma eleva "O exterminador do futuro" a um patamar acima de seus congêneres, que normalmente apelam para a violência high-tech como forma de disfarçar sua falta de conteúdo. Aqui, Cameron usa e abusa da violência, aproveitando que ainda não havia em cima do cinema a pressão a favor do "politicamente correto". Schwarzenegger - em um papel oferecido a Sylvester Stallone - destrói uma delegacia de polícia, mata um grupo de punks, extermina meia dúzia de Sarahs Connors e não pensa duas vezes em arrasar o que passa à sua frente. Dá pra imaginar algo assim nos chatíssimos dias de hoje? Nem mesmo o próprio Schwarza quis comprar essa briga: na continuação, ele é o herói do filme, para não manchar sua imagem e estragar seu caminho rumo à política.

Mesmo com seu jeitão de primo pobre de suas continuações hiperbolizadas, o primeiro capítulo das aventuras de Sarah Connor e de seus exterminadores continua sendo uma origem digna e extremamente divertida. Responsabilidade da mistura perfeita entre um roteiro esperto, um diretor talentoso e um elenco perfeitamente escalado - apesar de ser uma atriz bastante limitada, Linda Hamilton segura bem as pontas de sua responsabilidade, a ponto de ter conquistado Cameron: eles se casaram um tempo depois da estreia do filme e mesmo que hoje estejam separados, ninguém tira de Hamilton o fato de ser a eterna Sarah Connor.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM


UM ESPÍRITO BAIXOU EM MIM (All of me, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson, adaptação de Henry Olek, romance de Edwin Davis. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Bud Molin. Música: Patrick Williams. Direção de arte: Edward G. Carfagno. Produção: Stephen J. Friedman. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith. Estreia: 21/9/84

No início dos anos 80, um dos comediantes mais bem-sucedidos era Steve Martin. Oriundo do popular programa de TV "Saturday night live", ele esteve em uma sucessão de comédias que agradaram o público e/ou a crítica, como "O panaca" e "Cliente morto não paga", ambos dirigidos pelo veterano Carl Reiner. No entanto, nenhum de seus filmes anteriores com o cineasta conseguiu atingir o mesmo grau de êxito de "Um espírito baixou em mim", um imenso sucesso de bilheteria que ainda proporciou a ele os prêmio de melhor ator pela associação de críticos de Nova York e pela National Society of Film Critics, o que, levando-se em consideração a resistência da crítica em homenagear comédias em suas escolhas, apenas reitera o respeito com que ele era tratado na época.

"Um espírito baixou em mim" é uma comédia ligeira, sem pretensões outras a não ser fazer o espectador rir sem precisar exigir muito do cérebro - apesar de nunca subestimar a inteligência de seu público. A elegância com que Reiner conduz sua trama, sempre a um passo do nonsense, é uma prova de que fazer rir não necessariamente precisa de piadas sobre fluidos corporais. "Um espírito baixou em mim" mostra que um bom roteiro e um par de atores inspirados podem fazer milagres.

Steve Martin vive Roger Cobb, um advogado pouco feliz com sua profissão. Às vésperas de atuar em um caso que pode fazer sua carreira deslanchar - mesmo que atrapalhe seu noivado com a fútil Peggy (Madolyn Smith) - ele se vê obrigado a comparecer à mansão de Edwina Cutwater (Lily Tomlin), uma milionária arrogante e irascível que, às portas da morte, tem um plano infalível para transmigrar sua alma para o corpo de Terry (Victoria Tennant), filha de um empregado. Nutrindo uma antipatia à primeira vista pela moribunda, Cobb - cujo maior sonho é abandonar o direito e dedicar-se ao jazz - passa a viver os piores dias de sua vida quando, por um incidente na hora do procedimento de transmigração, recebe sua alma e passa a dividir seu corpo com ela. Até mesmo em meio a um julgamento, ele é metade Roger Cobb, metade Edwina Cutwater.

Só mesmo alguém muito mau-humorado é capaz de resistir ao humor de "Um espírito baixou em mim". O trabalho fabuloso de Steve Martin - dono de um raro timing para a comédia física - encontra sua cara-metade em Lily Tomlin, uma atriz especializada em um humor sarcástico e mordaz. A química perfeita entre os dois já é motivo suficiente para conferir o filme, que peca apenas por estender demais seu ato final ao invés de aproveitar o espetáculo-solo de Martin e a nítida adequação de Tomlin a seu papel de mulher ressentida e amargurada.

"Um espírito baixou em mim" não mudou a história do cinema - e nem tinha essa intenção. Mas é uma diversão honesta, inofensiva e extremamente engraçada, que apresenta o melhor trabalho da carreira de Steve Martin, um dos atores mais genuinamente engraçados dos anos 80.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

AMADEUS


AMADEUS (Amadeus, 1984, The Saul Zaentz Company, 160min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Peter Shaffer, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Michael Chandler, Nena Danevic. Figurino: Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Karel Cerny. Produção executiva: Michael Hausman, Bertil Ohlsson. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Hulce, F. Murray Abraham, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Jeffrey Jones, Cynthia Nixon. Estreia: 06/9/84

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham, Tom Hulce), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham), Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (F. Murray Abraham), Roteiro


"Obra-prima" não é um adjetivo que foi criado para ser usado levianamente. Mas não existe definição melhor para o que o tcheco Milos Forman conseguiu fazer com "Amadeus", sua adaptação da peça teatral de Peter Schaffer que foi o merecidíssimo vencedor de 8 Oscar em 1984. Poucas vezes o cinema conseguiu unir com tanta qualidade sucesso de crítica e comercial falando de um assunto teoricamente hermético: música clássica. E talvez a chave de seu êxito seja justamente o fato de que, apesar de falar de música clássica sim, ele centra-se principalmente na relação entre o genial compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e seu arqui-rival, o italiano Salieri. Ao focar sua atenção em tão ricos personagens, Forman e cia se dão ao luxo de utilizar a obra inigualável do músico apenas como pano de fundo - um senhor pano de fundo, que ilustra com maestria a fogueira de vaidades retratada no roteiro.

"Amadeus" é narrado em flashback através da voz de Salieri, que, envelhecido e internado em um hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio, conta a um padre sua relação de admiração/inveja com Mozart. Considerando que o músico austríaco foi escolhido por Deus como seu instrumento na Terra a despeito de seus modos vulgares e da dissipação de sua vida pessoal, ele utiliza de sarcasmo e amargura para mostrar a forma como Mozart tornou-se o compositor mais respeitado e popular de sua época. Surpreendentemente, ele assume inclusive uma parcela de responsabilidade em sua morte.


Se fosse necessário escolher apenas uma das inúmeras qualidades do filme de Forman - e é inegável que ele tem uma quantidade considerável delas - provavelmente a grande vitória seria da atuação de F. Murray Abraham como Salieri. Apesar de defender um papel ingrato e tratado com certo maniqueísmo pelo roteiro (que se dedica a retratá-lo como invejoso e sem o talento que o verdadeiro compositor possuía), Abraham se agiganta a tal ponto de relegar a personagem-título a um quase segundo plano. Na verdade, os reais protagonistas de "Amadeus" são Salieri e seus sentimentos negativos, que impulsionam a narrativa do dramaturgo Peter Shaffer em direção a mais do que simplesmente uma cinebiografia. "Amadeus" é, além de uma sublime história de genialidade, o retrato, em cores vibrantes (e até mesmo em um noir extraordinário), de uma época e uma sociedade.

Fotografado com maestria e utilizando-se apenas de luz natural, é um filme visualmente deslumbrante, capaz de deixar de queixo caído até o mais indiferente espectador. As sequências que apresentam as óperas de Mozart, por exemplo, são exuberantes, viscerais e emocionantes, saindo do espectro limitatório a que sua música erroneamente é imposto. Milos Forman fez questão de filmar "Don Giovanni", por exemplo, no mesmo palco onde a ópera estreou, e esses detalhes acabam sendo a alma de "Amadeus" - só para constar: todos os estudiosos de música afirmam que todos os movimentos musicais apresentados no filme são exatos e sincronizados, um toque de perfeccionismo que, não apenas respeitoso com o público, é um toque de gênio a mais, oportunizando à audiência um espetáculo completo e verdadeiro. Um espetáculo, diga-se de passagem, que encontra em seus dois intérpretes centrais a base para seu impressionante êxito.

Se Murray Abraham hipnotiza com sua atuação impecável, Tom Hulce entrega uma interpretação irreverente e moderna de Mozart, retratado no filme como um homem dono de uma quase imaturidade e de um prazer de viver além de qualquer sucesso e fama. Apesar de não encontrar eco nas descrições do compositor feitas por historiadores, a gargalhada insana do protagonista acabou se tornando a marca registrada do filme, o ponto pelo qual ele é mais frequentemente lembrado. No entanto, os fãs de bom cinema e boa música jamais conseguirão esquecer a majestade de "Amadeus", que merece, mais do que qualquer filme que se pretenda erudito, a classificação de obra-prima!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?


Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..

terça-feira, 6 de julho de 2010

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO


INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (Indiana Jones and the temple of doom, 1984, Paramount Pictures, 118min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz, história de George Lucas. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff, Mary Selway Buckley. Produção executiva: George Lucas, Frank Marshall. Produção: Robert Watts. Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan, Amrish Puri. Estreia: 23/5/84

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


Depois do monumental sucesso de bilheteria de “Caçadores da Arca Perdida” só mesmo uma pessoa extremamente fosse pouco afeito a dar continuidade a suas obras (é bom lembrar que isso foi antes de "Jurassic Park"...) Mas como o personagem central do filme, o arqueólogo Indiana Jones se prestava a novas aventuras por que não utilizá-lo em mais um espetacular passeio de montanha-russa? A partir desse raciocínio bastante esperto surgiu "Indiana Jones e o templo da perdição", que utilizava inclusive ideias deixadas de lado no filme original.

A nova aventura de Jones se passa antes da primeira e como o filme original, começa com uma cena sem ligação direta com a história que vem adiante. A seqüência inicial se passa na Shangai de 1939, onde Spielberg brinca de dirigir um musical e apresenta a personagem feminina da vez, Wllie Scott, vivida por Kate Capshaw, que será não apenas o interesse romântico do herói mas também a responsável pelo alívio cômico de uma obra, que, ao contrário do primeiro filme, tem cenas bastante violentas e tensas, o que acabou prejudicando seu desempenho nas bilheterias, afinal crianças também vão aos cinemas, certo?

E são crianças o centro da trama, dessa vez. Indo parar em um vilarejo indiano graças um de seus vários desafetos, Indiana Jones acaba sendo confundido como um enviado de Deus para recuperar as crianças do local, aprisionadas em um templo, hipnotizadas e maltratadas por um assustador seguidor de uma seita que exige sacrifícios humanos. Acompanhado de Willie e de seu fiel seguidor, o pequeno Short Round (Ke Huy Quan), Jones entra em cena disposto a ajudar no que for preciso e presenteia a platéia com algumas das melhores seqüências que o cinema de entretenimento pode proporcionar. Enquanto “Caçadores da Arca Perdida” tinha um ar mais despretensioso e alma de matiné, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” pega pesado em cenas assustadoras e de uma tensão palpável. Felizmente os momentos de humor são suficientes para aliviar e não tornar uma diversão familiar em um filme de horror.


Criticado por seu tom sombrio, "O templo da perdição" não tem medo em mostrar uma violência que em "Caçadores" era apenas imaginada e mostrada de forma escapista e com censura livre. Aqui, o vilão arranca o coração das vítimas com as próprias mãos, crianças são chicoteadas impiedosamente e todos os perigos que os protagonistas encaram soam realmente arriscados. A fantasia divertida é substituída por uma tensão constante e o que isso acrescenta em qualidade tira em alcance. O próprio Spielberg não gosta muito do resultado final de "Perdição", preferindo lembrar dele como o responsável por seu contato com Kate Capshaw, com quem viria a se casar tempos depois. Capshaw, inclusive, é a responsável por proporcionar o alívio cômico através do qual o público respira entre cenas extremamente empolgantes para os fãs dos filmes de ação.

"Indiana Jones e o templo da perdição" não é tão delicioso de se assistir quanto "Os caçadores da arca perdida" - até mesmo sua fotografia acompanha a escuridão que permeia o roteiro. Mas surpreende pela ousadia em não se deixar levar pela mesmice e não fica nada a dever ao primeiro em termos técnicos. Digamos que é o irmão mais sério de "Os caçadores"...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.


Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.

domingo, 4 de julho de 2010

BROADWAY DANNY ROSE


BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984, Orion Pictures, 84 min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Nick Apollo Forte. Estreia: 27/01/84

2 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original

Depois de ser extremamente elogiado com "Zelig", um dos melhores filmes de sua carreira, Woody Allen resolveu que queria fazer uma comédia italiana ao estilo dos anos 50. Contando com o apoio de seu habitual diretor de fotografia Gordon Willis - que compreendeu exatamente o sentido da coisa toda, em termos pictórios - ele realizou então "Broadway Danny Rose", um feliz encontro entre a latinidade passional dos "carcamanos" com a intelectualidade sarcástica dos nova-iorquinos típicos.

Danny Rose (interpretado por Allen com a costumeira eficácia) é um agente de talentos cujos clientes estão longe de ser superstars: um escultor de balões, um hipnotizador ineficiente e um maestro de passarinhos estão em seu rol de contratados. Sua maior dedicação, no entanto, é ao cantor Lou Canova (Nick Apollo Forte), que teve seu momento de glória no passado e deseja voltar aos holofotes. Justamente na noite em que irá fazer uma apresentação que poderá devolver-lhe ao sucesso, Lou tem uma briga homérica com sua amante, a egoísta Tina Vitale (Mia Farrow) e exige que Danny a convença a assistir ao show, mesmo sabendo que sua mulher estará presente. Na tentativa de convencer a irredutível Tina, o agente acaba sendo confundido como seu amante pela vingativa família italiana de um apaixonado pela moça. Perseguido por gângsters e tentando arrastar a amante de seu agenciado para seu show, ele nem de longe desconfia que está sendo traído por ele, que, por intermédio de Tina, tenciona trocá-lo por um agente mais bem-relacionado.



Apesar de não ser um dos mais brilhantes trabalhos de Woody Allen, "Broadway Danny Rose" seduz por seu humor inteligente e pela imprevisibilidade de seu roteiro. Ao contar duas histórias paralelas - sua aventura com Tina e a traição de Lou - o cineasta/roteirista mistura gêneros com uma familiaridade invejável. Ainda que nem sempre funcione à perfeição - as cenas de ação soam um tanto forçadas - o desenvolvimento da história contada por ele (através da narração de um grupo de agentes que conheceu o protagonista) é suficientemente interessante para não deixar a peteca cair em momento algum - e para isso colabora muito a química perfeita entre ele e Mia Farrow.

Assim como acontecia com Diane Keaton em seus filmes anteriores, Allen encontrou em Farrow a musa perfeita de sua obra. Na pele de Tina Vitale, a atriz entrega um trabalho de composição que foge do seu padrão de atuação até então. Espalhafatosa, vulgar e sem um pingo de classe, sua Tina é uma espécie de mãe da Linda Ash que Mira Sorvino defendeu em "Poderosa Afrodite", dez anos mais tarde. Munida de um indefectível par de óculos escuros e um penteado exagerado, Farrow brilha como nunca e eleva a qualidade do filme, assim como Allen e um surpreendente Nick Apollo Forte - em um papel para o qual o cineasta pensou em Sylvester Stallone.

Dentre tantas obras-primas criadas por Woody Allen, "Broadway Danny Rose" quase se perde. Mas não deixa de ser admirável perceber que mesmo em seus filmes menos brilhantes ele consegue manter um nível de excelência com que a maioria dos cineastas apenas sonha

sábado, 3 de julho de 2010

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.


Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.