quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CRIMES E PECADOS

CRIMES E PECADOS (Crimes and misdemeanors, 1989, Orion Pictures, 104min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Alan Alda, Martin Landau, Anjelica Huston, Claire Bloom, Sam Waterston, Jerry Orbach. Estreia: 13/10/89

3 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Martin Landau), Roteiro Original

Em sua vasta carreira como cineasta, onde comédias sofisticadas dividem espaço com dramas existenciais profundos e densos, Woody Allen criou quase que um universo próprio, facilmente reconhecível dentro de sua filmografia. Mesmo que nem sempre acerte em cheio - ainda que até mesmo seus filmes menores sejam excelentes -, Allen de vez em quando aparece no auge de seu ofício, entregando à plateia filmes tão sensacionais que é difícil não reconhecer sua importância seminal no cinema americano. Um desses exemplos é "Crimes e pecados", um trabalho impecável de roteiro e direção, que é quase que uma reunião do que de melhor ele pode oferecer ao público. Um certo senso de humor melancólico, neuroses urbanas e uma dose de pessimismo (realismo?) fazem do ... do diretor uma de suas obras-primas. E para isso, ele não precisou nem de grandes astros nem de um orçamento estratosférico. Não foi ao Vietnã (como em "Nascido em 4 de julho"), não assumiu nenhum tom paternalista em relação à velhice (como em "Conduzindo Miss Daisy") nem falou de superações pessoais (como em "Em nome do pai"). "Crimes e pecados" fala de pessoas simples, com problemas que lhes atormentam a alma. Talvez por isso não tenha encontrado lugar entre os finalistas ao Oscar principal - ainda que tenha concorrido nas categorias de diretor, roteiro original e ator coadjuvante.

Retomando a ciranda de relacionamentos com que já havia brincado em "Hannah e suas irmãs" - com matizes mais leves e também bem-sucedidos - Allen conta várias histórias paralelas que se encontram sutilmente, graças a um roteiro bem costurado. O próprio diretor interpreta Cliff Stern um documentarista que se vê obrigado a ir contra os próprios ideais ao aceitar conduzir um programa de TV enfocando seu cunhado, o produtor de televisão Lester (Alan Alda, sensacional). Durante o processo, ele se apaixona pela produtora do show, Halley Reed (Mia Farrow), em quem reconhece uma alma parecida com a sua. Além de Lester, Cliff é também cunhado de Ben (Sam Waterston), um rabino sábio e inteligente que está em vias de perder a visão. Por isso, ele frequenta o consultório do renomado Judah Rosentahl (Martin Landau, indicado ao Oscar de coadjuvante), um homem aparentemente em paz com a vida mas que esconde uma terrível angústia: sua amante Delores Paley (Anjelica Huston) está ameaçando revelar seu caso com ele e ainda por cima denunciar uma fraude cometida anos antes.


As personagens de "Crimes e pecados" estão entre as melhores já criadas por Woody Allen. O roteiro investiga, de forma concisa e inteligente, os questionamentos humanos em relação à fé e a justiça divina. A visita de Judah à casa onde passou a infância (homenagem explícita a Ingmar Bergman), por exemplo, é um primor, assim como a conversa imaginária que ele tem com o rabino Ben, quando decide finalmente eliminar seus problemas da maneira menos ética possível, recorrendo a um assassinato. Segundo o filme, "o olho de Deus tudo vê", mas também segundo o roteiro, Deus pode ser apenas uma ideia, o que concede à humanidade e a seus atos uma aleatoriedade triste mas realista. Fugindo do otimismo de "Hannah", Allen é cético e quase cínico em sua abordagem sobre as pessoas e suas relações, o que se retrata na opção de Halley em abandonar seus ideais em nome do sucesso e na escolha de Judah em seguir o caminho mais "fácil" para sentir-se livre das pressões que o afligem.

Poucas vezes o cinema de Woody Allen foi tão contundente quanto em "Crimes e pecados". Infelizmente!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.



Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of love, 1989, Universal Pictures, 112min) Direção: Harold Becker. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: David Bretherton. Música: Trevor Jones. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: John Jay Moore/Gordon Sim. Casting: Mary Colquhoun. Produção: Martin Bregman, Louis A. Stroller. Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman, Richard Jenkins, Michael Rooker, William Hickey, Samuel L. Jackson. Estreia: 15/9/89

Foi preciso 4 anos para que Al Pacino se recuperasse do trauma de "Revolução", lançado em 1985. Fracasso de crítica e de público, o filme  afastou Pacino das telas por um longo período, em que o ator que deu vida a personagens antológicas como Michael Corleone e Serpico, dedicou-se ao teatro, sua maior paixão. Seu retorno, em 1989, pode não ter sido em um filme com potencial de Oscar ou algo parecido, mas provou que seu carisma ainda tinha fãs o suficiente para lotar salas de cinema. "Vítimas de uma paixão", o veículo que o devolveu às telas, é um policial eficiente que adiciona ao gênero um elemento que viraria moeda corrente poucos anos depois: uma alta carga erótica.

Ainda que bem menos explícito do que "Instinto selvagem", por exemplo, "Vítimas de uma paixão" recorre a tórridas cenas entre seus protagonistas, mas, ao contrário do filme que elevou Sharon Stone ao status de musa sexy absoluta dos anos 90, aqui as cenas de sexo funcionam não para estabelecer um estado de dominação física, mas principalmente como um canal para deixar claro as carências de suas personagens centrais, ambos perdidos em um mar não de amor como diz a canção-título, mas de solidão e melancolia. Se não, vejamos.


Frank Keller (vivido por um Pacino menos agressivo e mais sutil) é um policial de Nova York que ainda não aceitou o fato de perder a esposa para um colega de trabalho (Richard Jenkins). Utilizando o álcool como válvula de escape para suas noites tediosas, ele acaba envolvido na investigação de uma série de crimes: homens que publicaram anúncios em jornal procurando mulheres estão sendo assassinados a tiros, enquanto um disco de 48rpm com a canção "Sea of love" jaz no toca-discos. Para pegar a assassina, Keller e seu parceiro tem a ideia de publicar anúncios, também, e assim, de posse das impressões digitais das suspeitas, chegar até a criminosa. No entanto, o policial, solitário e triste, se apaixona por Helen (Ellen Barkin), uma mãe solteira que trabalha como vendedora de sapatos e, no auge de seus sentimentos, passa a negar, inclusive pra si mesmo, que ela pode ser a responsável por todas as mortes.



O mais inteligente do roteiro do escritor Richard Price é a sua opção em não fixar-se única e exclusivamente na investigação policial nem tampouco na relação íntima entre Keller e Helen. Ao equilibrar esses dois polos da ação, ele consegue tanto agradar aos fãs de filmes policiais quanto àqueles que procuram algo mais no gênero - no caso, um estudo, ainda que não exatamente profunda, como convém, da solidão. Os dois protagonistas são pessoas comuns que tentam, cada um a sua maneira, sobreviver em um mundo individualista, com seus problemas pessoais ameaçando perigosamente sua felicidade. Enquanto a plateia acompanha a busca pela violenta assassina de homens solitários, o filme de Harold Becker aproveita para contar uma pungente história de amor e falta de esperança.

"Vítimas de uma paixão" não é - e nem se pretende - um filme para ficar marcado na mente da audiência como uma obra-prima do gênero. Mas ao fugir do feijão-com-arroz básico, atinge um patamar acima dos seus congêneres. E contar com Al Pacino como protagonista é sempre uma ajuda e tanto!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO

HARRY & SALLY, FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry met Sally, 1989, Castle Rock Entertainment, 96min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Nora Ephron. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Jane Musky/George R.Nelson, Sabrina Wright-Basile. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Schneiman. Elenco: Billy Cristal, Meg Ryan, Carrie Fisher, Bruno Kirby. Estreia: 21/7/89

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Não há dúvida de que "Harry e Sally, feitos um para o outro" deve muito a Woody Allen. Por mais que em sua essência o filme de Rob Reiner seja milhares de vezes mais romântico do que qualquer trabalho do veterano diretor nova-iorquino - com a possível exceção do doce "Manhattan" -, suas semelhanças são tão óbvias que só resta ao espectador - mesmo os detratores do cineasta - sorrir frente a essa carinhosa e bem-sucedida homenagem.

Escrito por Nora Ephron - que mais tarde seria a diretora de outras duas comédias românticas estreladas por Meg Ryan, "Sintonia de amor" e "Mensagem para você" - o roteiro de "Harry e Sally" é um perfeito equilíbrio entre uma engraçadíssima comédia de costumes (sociais, sentimentais) e uma doce (mas nunca piegas) história de amor. É um exemplo mais que perfeito de filme destinado a tornar-se clássico e atemporal, principalmente devido a seus diálogos luminosos, seus insights inspirados e à perfeita escalação da dupla central de atores. Em nenhum outro momento de suas carreiras, Meg Ryan e Billy Cristal foram tão felizes quanto aqui. Mais do que qualquer outra coisa, eles são, na memória do público, para sempre, Sally Albright e Harry Burns.

Sally Albright é uma jovem bonita, inteligente e com séria tendência a ser controladora - a ponto de fazer pedidos em restaurantes de forma extremamente detalhista. Harry Burns é um homem também inteligente, mas dado a crises de melancolia e pessimismo - a ponto de ler sempre a última página de um livro logo que o compra, para o caso de morrer antes de chegar ao seu final. Eles se conhecem em 1977, quando viajam no mesmo carro de Chicago a Nova York, para onde estão se mudando. Durante a viagem nenhum deles fica com a melhor das impressões do outro e se despedem sem maiores dramas. Cinco anos depois, já formada em jornalismo a namorada de um assessor político, Sally encontra Harry - de casamento marcado - em uma viagem de avião e novamente eles não se sentem particularmente tristes quando chegam a seu destino. É somente alguns anos depois que eles se reencontram e - contrariando a máxima de Harry que diz que homens e mulheres não podem ser amigos sem que haja sexo no meio - iniciam uma promissora amizade. Apoiando um ao outro em suas relações equivocadas, dividindo noites solitárias e sem querer promovendo casais, eles são os últimos a perceber que estão se apaixonando aos poucos.


Fotografada com uma beleza de tirar o fôlego em uma Nova York iluminada e cercada por uma trilha sonora repleta de standars do jazz cantadas por Harry Connick Jr., a história de amor entre Harry e Sally é contada com bom humor, leveza e as pitadas de sarcasmo e ironia de que a mente aguçada de Nora Ephron é capaz. Ao criar uma Sally bastante calcada em sua própria personalidade - reza a lenda que uma aeromoça perguntou-lhe se ela havia assistido ao filme quando ela começou a detalhar a maneira como queria seu prato durante um vôo - Ephron criou uma personagem cativante, simpaticamente irritante e dotada de uma voz própria, lindamente interpretada por Meg Ryan no auge de seu carisma e beleza. E Harry, do alto de sua auto-suficiência de macho, também é capaz de verter lágrimas pelo amor de uma mulher, o que o aproxima eficazmente do coração da plateia - seja ela masculina ou feminina. A química entre os quatro - personagens e atores - é de ouro, e são esses detalhes - roteiro esperto e um elenco impecável - que fazem com que "Harry e Sally" seja o modelo para todas as comédias românticas feitas desde então.

Dono de pelo menos uma cena antológica - a do falso orgasmo de Sally em um restaurante lotado - e repleto de diálogos que soam como música, "Harry e Sally" é provavelmente a melhor comédia romântica da história.

domingo, 26 de setembro de 2010

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poets Society, 1989, Touchstone Pictures, 128min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Tom Schulman. Fotografia: John Seale. Montagem: William Anderson. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson. Casting: Howard Feuer. Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt, Tony Thomas. Elenco: Robin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard, Josh Charles, Kurtwood Smith, Melora Walters. Estreia: 09/6/89

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Robin Williams), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

É preciso dar a mão à palmatória: de vez em quando o público médio consegue surpreender até o mais cético dos especialistas em mercado. Foi isso que aconteceu com "Sociedade dos poetas mortos". Lançado no mesmo ano - e na mesma temporada competitiva - que "Indiana Jones e a última cruzada" e o marketing agressivo e espalhafatoso do primeiro "Batman" de Tim Burton, o belo filme dirigido pelo australiano Peter Weir não só conseguiu a proeza de concorrer a 4 importantes Oscar - filme, direção, ator e roteiro original - como ainda por cima arrecadou quase 100 milhões de dólares somente nos EUA. Mesmo contando com a protagonização de Robin Williams, então um astro considerável, o sucesso do filme foi uma grande surpresa principalmente devido a uma particularidade: ao contrário de explosões, humor escatológico e sexo selvagem, a trama de Tom Schulman versava sobre poesia, amizade, esperança e sonhos despedaçados. Ou seja, nada que chamasse a atenção do público, pelo menos aparentemente.

Passada em 1959 - portanto, antes de dois maiores traumas norte-americanos da época, o assassinato de Kennedy e a guerra do Vietnã - a história criada por Schulman é um primor de delicadeza e inteligência, nunca abusando desses ingredientes e equilibrando-os com o carisma radiante de Williams (merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator). Na época ainda conhecido por seus papéis em comédias como "Popeye" (o fracassado projeto de Robert Altman), o ator dá um show de sutileza ao interpretar John Keating, um professor de Literatura que transforma a vida de um grupo de alunos em uma escola preparatória para rapazes, a tradicional Welton Academy. Substituindo um mestre aposentado, ele surpreende a todos com métodos heterodoxos de ensino. Logo em sua primeira aula, ele manda que todos arranquem as páginas iniciais de um livro de poesia, afirmando que medir a poesia através de gráficos não é a forma correta de se apreciá-la. A partir daí, declama Shakespeare imitando John Wayne e Marlon Brando, recita Thoreau e Walt Whitman sem empolação e, com isso incentiva os meninos a recriarem um projeto de seus tempos de estudante: a Sociedade dos Poetas Mortos. Inspirado por Keating, o tímido Todd Anderson (Ethan Hawke) tenta fugir de seu medo do mundo, o romântico Knox Overstreet (Josh Charles) vai em busca de conquistar o amor da mulher que ama e o ultraprotegido Neil Perry (Robert Sean Leonard) desafia os pais para lutar por seu sonho de ser ator de teatro.


O impacto emocional de "Sociedade dos poetas mortos" é imenso, graças a uma conjunção de fatores que faz dele um dos mais comoventes dramas "de professor" já realizados por Hollywood. O roteiro preciso, simples e catártico de Tom Schulman levou o Oscar da categoria por merecimento inegável. A belíssima fotografia de John Seale, que retrata as quatro estações do ano com singeleza ímpar é de encher os olhos. A trilha sonora de Maurice Jarre conquista pela mistura perfeita entre composições próprias e música clássica de primeira linha. A direção de arte é primorosa e a direção de Weir é provavelmente a melhor de sua carreira (e isso que falamos do homem por trás de "A testemunha" e o posterior "O show de Truman"). Mas é em seu elenco impecável que "Sociedade dos poetas mortos" marca o maior gol de todos.

Se como John Keating Robin Williams provou sem sombra de dúvida que é um grande ator, são seus coadjuvantes que ficam na memória dos espectadores. Williams é generoso ao abrir espaço para seus colegas de cena, responsáveis por alguns dos momentos mais arrepiantes do longa. Como Todd Anderson, Ethan Hawke demonstra uma maturidade surpreendente e como Neil Perry, o estreante Robert Sean Leonard conquista a audiência cena a cena, até chegar a seu dramático clímax - de deixar qualquer um com o rosto lavado de lágrimas.O que Keating ensina a seus alunos - e por conseguinte ao público - é viver com lealdade a seus ideais, com esperança e com ideias próprias. Incomodou seus superiores. Encantou as plateias.

sábado, 25 de setembro de 2010

INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA


INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (Indiana Jones and the last crusade, 1989, Paramount Pictures, 127min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeffrey Boam, história de George Lucas, Menno Meyjes. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston, Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Casting: Maggie Carter, Mike Fenton, Valorie Massalas, Judy Taylor. Produção executiva: George Lucas, Frank Marshall. Roteiro: Robert Watts. Elenco: Harrison Ford, Sean Connery, Denholm Elliot, Allison Doody, River Phoenix, John Rhys-Davies. Estreia: 24/85/89

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros

Um dos maiores problemas encontrados por Hollywood quando se trata de realizar continuações de seus maiores sucessos de bilheteria chama-se criatividade. Dificilmente sequências de filmes bem-sucedidos encontram equilíbrio entre crítica e público, afundando em auto-referências e o pior de tudo, preguiça. Felizmente Steven Spielberg pode ser considerado tudo, menos sem criatividade e preguiçoso. Talvez por isso "Indiana Jones e a última cruzada", terceiro capítulo da saga do mais famoso arqueólogo do cinema tenha conseguido o feito de agradar a gregos e troianos - diferentemente da segunda parte, que foi considerada violenta demais para o público infanto-juvenil. Desta vez, Spíelberg não errou a mão em nada: a receita tem muita ação, bom humor, um pouco de romance e o melhor de tudo, duas novidades empolgantes no elenco.

Rejeitando a regra que diz que não se mexe em time que está ganhando, o diretor acrescentou à vitoriosa fórmula dos filmes anteriores duas aquisições de gerações diferentes, visando atingir todas as faixas de público: o veterano Sean Connery e o jovem River Phoenix juntam-se a Harrison Ford, Denholm Elliot e John Rhys-Davies em duas horas de um entretenimento saudável, divertido e que não deve absolutamente nada a seus predecessores. "Indiana Jones e a última cruzada" é uma digna exceção à regra que dita que continuações são sempre sofríveis.


A trama de "A última cruzada" se passa três anos depois das aventuras do primeiro filme. O nazismo ainda é uma ameaça à paz mundial e Indiana Jones recebe a missão de encontrar mais um artefato religioso que pode conceder poderes sobrenaturais. Enquanto no primeiro capítulo ele corria atrás da Arca Perdida que continha os Dez Mandamentos, desta vez ele precisa localizar o Cálice Sagrado utilizado por Cristo na última ceia, objeto que, segundo a lenda, pode dar a imortalidade a seu dono. Intrigado com a possibilidade, logo ele se vê praticamente obrigado a embarcar na aventura, ao descobrir que seu pai, Henry Jones (vivido por Connery) desapareceu em vias de saber a exata localização do ambicionado cálice.

Assim como nas aventuras anteriores de Indiana Jones, o público é brindado com um filme que, a despeito de suas sequências de ação ininterruptas, não descuida em momento algum do roteiro, repleto de diálogos saborosos e inteligentes. Ao eleger novamente como vilões os nazistas, Spielberg e cia mais uma vez acertam o alvo - o Mal como entidade não poderia ser melhor representado, afinal. Sem que muito sangue seja derramado - pelo menos em frente às câmeras - o Bem triunfa, como convém ao estilo escapista criado pelo cineasta em "Os caçadores da Arca Perdida" e meio esquecido em "O templo da perdição". Ao resgatar o espírito mais leve da primeira aventura de Jones, "A última cruzada" resgata também o bom-humor que lhe fazia falta. E para isso, a escalação de Sean Connery mostrou-se providencial.

Escalado até mesmo como forma de homenagem aos filmes de 007 que inspiraram a criação da personagem Indiana Jones, Connery rouba as cenas em que aparece, como um pai jovial, conquistador e tão dado a aventuras quanto o filho. O fato dos dois dividirem a atenção da mesma mulher (interpretada por Alisson Doody) é sintomático. Aqui, Indiana Jones não é o centro das atenções: ele divide tudo com seu progenitor.

E é impossível negar também o excelente prólogo criado para explicar alguns detalhes da biografia do protagonista. Na pele de River Phoenix, Jones aos 16 anos sofre o acidente que lhe deixa a cicatriz no queixo, encontra pela primeira vez seu famoso chicote e passa a sofrer de seu conhecido terror de cobras. Como uma espécie de preparação para a série de TV "O jovem Indiana Jones" (injusto fracasso), esses primeiros quinze minutos são a cereja de um bolo saboroso e que deixa um gostinho de quero mais - infelizmente esse mais viria somente quase vinte anos depois...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

ATRAÇÃO MORTAL

ATRAÇÃO MORTAL (Heathers, 1989, New World Pictures, 103min) Direção: Michael Lehmann. Roteiro: Daniel Waters. Fotografia: Francis Kenny. Montagem: Norman Hollyn. Música: David Newman. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte: Jon Hutman. Casting: Sally Dennison. Produção executiva: Christopher Webster. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Christian Slater, Shannen Doherty, Lisanne Falk, Kim Walker. Estreia: 31/3/89

Houve uma época em que Winona Ryder e Christian Slater eram promessas em Hollywood. Ryder até que não foi mal, chegando a ser indicada a dois Oscar e sendo dirigida por nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Woody Allen, antes de começar a figurar mais nas páginas policiais do que no caderno de cultura. Mas Slater nunca chegou a tornar-se um astro de primeira grandeza, apesar de chegar quase lá com filmes como "Entrevista com o vampiro" (em que ficou com o papel de River Phoenix após sua inesperada morte). Quando se assiste a "Atração mortal" fica claro o motivo pelo qual as coisas não correram como o esperado para ele. A comédia adolescente de humor negro dirigida por Michael Lehmann (hoje diretor de vários episódios da bem-sucedida série de TV "True blood") recebeu elogios rasgados em sua estreia, levou um Independent Spirit Award de "Melhor Primeiro Filme" e tornou-se cult. Mas visto com a distância dos anos, é um filme que só vale mesmo pelas intenções e pela presença de Winona.

O filme, escrito por Daniel Waters - que nunca escreveu coisa que prestasse, a julgar pelo roteiro de "Hudson Hawk", com Bruce Willis - se passa em uma escola secundária americana, cenário típico dos filmes de John Hughes. No entanto, ao contrário de "A garota de rosa shocking", por exemplo, a protagonista, Veronica Sawyer (Ryder) não é uma adolescente que sonha passivamente em ser notada e amada. Veronica faz parte da turma das Heathers, três jovens belas, populares e invejadas de sua escola. Sentindo-se mal em aprontar com os colegas considerados inferiores pelas amigas, ela conhece e se apaixona por JD (Slater), um rapaz rebelde e metido a conquistador. Durante uma brincadeira que eles resolvem fazer com a líder do grupo, eles acidentalmente acabam matando-a e para despistar, forjam uma cena de suicídio. A partir daí, JD tenta convencer Veronica a matar todos os seus desafetos escolares, sempre deixando indícios que eles mesmos atentaram contra a própria vida.



Na verdade, a ideia de "Atração mortal" é bastante interessante e inteligente. A trama brinca com o vazio de uma geração regada a Coca-cola e shopping-centers e usa e abusa da ironia para provar seu ponto de vista. O problema é que muitas vezes tudo soa como uma piada extendida demais, com um ritmo prejudicado por uma edição que se pretende modernosa mas que incomoda devido a sua falta de timing. O final também sofre de uma espécie de esquizofrenia, com um tom substancialmente diferente do empregado em seus primeiros dois terços. Se era pra ser irônico, não funcionou.

Mas é Christian Slater quem, definitivamente, incomoda mais. Copiando descaradamente os trejeitos de Jack Nicholson, ele parece esquecer que, além de ter um estilo próprio, Nicholson tem talento e inteligência. Atuando com as sobrancelhas mais do que com o cérebro, Slater criou uma personagem irritantemente cool, que em nenhum momento seduz a plateia ou a convence de seus ideiais. Sua interpretação risível parece até contaminar a deliciosa Winona, que tenta o possível e o impossível para destacar-se em meio a tanto sarcasmo mal direcionado.

"Atração mortal" pode parecer atraente em um primeiro momento e talvez o seja, para quem não se importar com o "charme" trash que carrega em todas as cenas. Tem uma ideia bastante apropriada e uma estrela começando sua ascensão. Mas não merece toda a aura cult que o rodeia.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CEMITÉRIO MALDITO

CEMITÉRIO MALDITO (Pet sematary, 1989, Paramount Pictures, 103min) Direção: Mary Lambert. Roteiro: Stephen King, romance "O cemitério", do mesmo autor. Fotografia: Peter Stein. Montagem: Daniel P. Hanley, Mike Hill. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Michael Z. Hanan/Kathe Klopp. Casting: Pamela Basker, Fern Champion. Produção executiva: Tim Zinnemann. Produção: Richard P. Rubinstein. Elenco: Dale Midkiff, Fred Gwyne, Denise Crosby. Estreia: 21/4/89

Constantemente insatisfeito com as adaptações cinematográficas feitas a partir de seu trabalho - insatisfação que incluía até mesmo sucessos como "O iluminado", de Stanley Kubrick e "Carrie, a estranha", de Brian DePalma- o escritor Stephen King resolveu tomar as rédeas de sua carreira nas telas com a adaptação de seu romance "O cemitério". Dirigido por Mary Lambert, cujo currículo apresentava como ápice o videoclipe "Like a prayer", de Madonna, "Cemitério maldito" não só foi roteirizado por King como ainda mostra o autor em uma participação especial, como um pastor. Lambert não pode ser sequer comparada com Kubrick e DePalma, mas é injusto negar que seu filme tem várias qualidades que agradaram plenamente os fãs do gênero - além de lhe dar a chance de dirigir um segundo e desnecessário capítulo, lançado alguns anos depois. Como é comum acontecer nas versões para o cinema da obra do escritor de terror mais cultuado do século XX,

A história começa quando a família do médico Louis Creed (Dale Midkiff) muda-se para uma cidadezinha do Maine para que ele comece a trabalhar em uma faculdade local. Logo que chegam eles conhecem e fazem amizade com um velho vizinho, o misterioso Jud (Fred Gwyne) e descobrem que atrás de sua propriedade existe um cemitério de animais. Depois que o gato de sua filha pequena morre, Louis fica sabendo que existe também um cemitério indígena, de onde os mortos podem voltar à vida, ainda que transformados pela experiência da morte. Quando uma tragédia se abate sobre a família, com a morte do pequeno Gage, atropelado por um caminhão, o médico toma uma decisão radical para trazer seu filho de volta à vida.


Prejudicado pela falta de empatia do casal central - péssimos atores sem nenhum carisma -, o filme, que tem o visual datado como qualquer produto dos anos 80, peca também por não desenvolver a contento todas as possibilidades da interessante premissa inicial. A discussão sobre vida e morte, que poderia tranqüilamente ser inserida de maneira inteligente e até comovente é passada a largo por um roteiro que prefere deter-se em sustos fáceis (alguns funcionam muito bem, outros nem tanto). O terço final do filme, depois da ressurreição de Gage, por exemplo, é de um superficialismo constrangedor, que enfraquece o conjunto e leva a um desfecho que, ao invés de ser angustiante chega a ser risível.

Nem tudo está perdido, no entanto. Em muitos momentos Lambert consegue transmitir tensão e suspense, o que se espera de um filme do gênero. Fred Gwyne, da série “Família Monstro” tem o visual apropriado a sua misteriosa personagem e os flashbacks que pontuam a trama, ao invés de atrapalhar o ritmo, como normalmente acontece, tornam a história ainda mais interessante (a subtrama que fala sobre a falecida irmã da protagonista, vítima de meningite espinhal é apavorante, por exemplo). Mas é difícil para os espectadores não exatamente apaixonados pelo gênero se envolver a contento com a trama, principalmente por causa do elenco fraquíssimo.

No final das contas, "Cemitério maldito" cumpre o que promete aos fãs, ainda que com uma superficialidade que pode incomodar quem procura algo mais. E para quem gosta de música pesada os créditos finais ainda têm uma surpresa: o hit “Pet sematary”, composto especialmente para o filme pelo grupo Ramones.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CONTOS DE NOVA YORK


CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories, 1989, Touchstone Pictures, 124min) Estreia: 01/3/89

"Lições de vida" (Life lessons) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Thelma Schoonmaker. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Nina F. Ramsey. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara DeFina. Elenco: Nick Nolte, Rosanna Arquette, Steve Buscemi

"A vida sem Zoe" (Life without Zoe") Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola & Sofia Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Barry Malkin. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George DeTitta Jr. Casting: Aleta Chappelle. Produção executiva: Produção: Fred Fuchs, Fred Roos. Elenco: Heather McComb, Talia Shire, Giancarlo Giannini

"Édipo arrasado" (Oedipus wrecks) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel


A ideia parecia genial e infalível: reunir 3 dos maiores cineastas americanos em atividade no mesmo filme, cada um contando uma história curta passada no mesmo cenário natural preferido por 10 entre 10 diretores, a bela Nova York. No entanto, mesmo com o talento inegável dos escolhidos para a empreitada, "Contos de Nova York" sofre do mesmo mal de quase todos os filmes do mesmo formato: irregularidade. E se Francis Ford Copolla e Martin Scorsese tiveram a coragem de afastar-se dos estilos pelos quais ficaram consagrados, é Woody Allen quem se sai melhor, justamente por apresentar mais do mesmo de maneira engraçada e refrescante.


O filme começa bem, com a belíssima canção "A whiter shade of pale", do grupo Procol Harum, tocando durante os créditos de abertura de "Lições de vida", orquestrado por Scorsese. Dessa vez, o nova-iorquino que mostra o lado obscuro da Grande Maçã conta uma história de amor e criatividade: o pintor Lionel Dobie (vivido com garra por Nick Nolte) não consegue superar o fim de seu relacionamento com a aprendiz e assistente (Rosanna Arquette), que o abandonou para ficar com um performer (o ótimo Steve Buscemi). Ainda dividindo com ela o enorme loft que habita, ele trabalha furiosamente como forma de sublimar o despeito e o sofrimento. Contando com a ajuda de uma caprichada trilha sonora (que inclui Rolling Stones, entre outros), Scorsese deixa de lado a violência e a vida marginal de seus protagonistas anteriores para mergulhar na mente de um homem talentoso mas um tanto auto-destrutivo, que vê no amor sua maior inspiração. Apesar da forma elegante com que o diretor conta sua história, no entanto, ela não consegue seduzir a audiência, em parte pela falta de carisma de Lionel Dobie, um anti-herói romântico, que busca conquistar a amada da maneira menos adequada possível. Também não ajuda a quase apatia de Rosanna Arquette, insípida como sempre. É um Scorsese com qualidades, mas bastante aquém do esperado.




Coppola, por sua vez, apela para um tom infanto-juvenil em seu segmento. Em seu roteiro, "A vida sem Zoe", co-escrito por sua filha Sofia - que levaria um Oscar quinze anos depois por "Encontros e desencontros" - ele utiliza elementos de fábula ao contar a história da pré-adolescente Zoe (Heather McComb), que vive confortavelmente em um hotel de Manhattan enquanto seus ocupados e milionários pais - um flautista internacional e uma fotógrafa - vivem em constantes viagens. Quando faz amizade com um novo colega de escola - mais rico ainda do que ela -, Zoe tem a oportunidade de salvar o casamento dos pais. Simplista e quase raso, o desenvolver da trama é sonolento, prejudicado por uma protagonista sem carisma e uma trama sem maiores interesses. O visual também não é exatamente atraente, o que deixa no público a sensação de que falta alguma coisa, quando finalmente os créditos finais aparecem. É, das três histórias a menos bem-sucedida, ainda que não deixe de ser simpática, em certos momentos.

E chegamos a Woody Allen e seu "Édipo arrasado". Desde o início, com os créditos inconfundíveis de seus filmes, percebe-se que Allen não quis inovar em absolutamente nada: temática, elenco e equipe técnicas de seus trabalhos anteriores comparecem fielmente e dão à plateia os melhores momentos do longa. A trama busca o surreal, mas ainda assim, o estilo claro do diretor é facilmente percebível. O próprio Allen interpreta o protagonista, um advogado relativamente bem-sucedido que no entanto não consegue livrar-se do assédio exagerado da mãe (Mae Questel), uma típica mãe judia que o super-protege e lhe causa extremos embaraços. Um dia, em um programa familiar com ela, sua nova namorada (Mia Farrow) e os filhos pequenos desta, ele vê seus sonhos se realizarem: sua mãe desaparece durante um truque de mágica. Mas como nada é perfeito, ela reaparece, nos céus de Nova York, falando com ele e quem quiser ouvir, além de mostrar fotos e contar histórias vergonhosas de sua infância. Só quem parece poder lhe ajudar é uma confusa esotérica (Julie Kavner). Às vésperas de lançar "Crimes e pecados", uma de suas obras-primas um tanto pessimistas, Allen brinca com sua persona cinematográfica, levando a plateia ao riso fácil e descompromissado do início de sua carreira, e dando à ótima Julie Kavner a oportunidade de demonstrar seu grande talento (como já havia feito em "A era do rádio").

No final das contas, "Contos de Nova York" não é exatamente um filme genial, a despeito de seus créditos. Mas é sempre interessante perceber que até mesmo os mais talentosos cineastas do mundo conseguem ser simples e delicados.

sábado, 18 de setembro de 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS


LIGAÇÕES PERIGOSAS (Dangerous liaisons, 1988, Warner Bros, 119min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Christopher Hampton, romance de Choderlos de Laclos, peça teatral de Christopher Hampton. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Mick Audsley. Música: George Fenton. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Gérard James. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Norma Heyman, Hank Moonjean. Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves, Swoosie Kurtz, Mildred Natwick. Estreia: 21/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de arte/cenários


"Crueldade" é a palavra preferida da Marquesa de Merteuil. Uma mulher em um mundo dominado por homens, ela vê na sua possibilidade de manipular aqueles a quem considera inferiores sua vingança contra a humanidade em geral. Com o rosto de Glenn Close, ela é a personificação do mal em "Ligações perigosas", brilhante adaptação do romance epistolar de Choderlos de Laclos dirigida pelo inglês Stephen Frears e que concorreu a merecidos 7 Oscar em 1988. Escrito pelo mesmo Christopher Hampton que fez a transição do livro para os palcos londrinos, o roteiro excepcional (vencedor de uma estatueta dourada) consegue transpor para a tela, com perfeição, a futilidade, a maldade e a falta de escrúpulos de nobres franceses entediados que se divertem às custas do sofrimento alheio.

Na interpretação mais espantosa de sua carreira, Close interpreta uma venal Marquesa que, sentindo-se traída em seus brios por um antigo amante, propõe a seu colega de egocentrismo e vaidade Visconde de Valmont (John Malkovich) um jogo de sedução que ele quase descarta como sendo "fácil demais": levar para a cama a inocente e virginal Cécile de Volanges (Uma Thurman, em um papel para o qual foram testadas Drew Barrymore e Sarah Jessica Parker), que está de casamento marcado com um homem que não apenas abandonou a Marquesa como traiu-a com uma amante do Visconde. Para recuperar sua fama de conquistador, o cínico aristocrata concorda com o plano, mas também se dedica a uma sedução muito mais desafiadora. Encorajado por Merteuil - que lhe promete uma tórrida noite caso ele seja bem-sucedido em seus intentos - ele ambiciona levar para sua alcova a virtuosa Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma mulher casada e religiosa.



Praticamente ao mesmo tempo em que "Ligações perigosas", uma outra versão da obra de Laclos também chegou aos cinemas. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Valmont" não teve a mesma repercussão que o filme de Stephen Frears, apesar do elenco mais jovem (Annette Bening e Colin Firth foram os protagonistas, sendo que Bening substituiu Michelle Pfeiffer, que acertadamente preferiu viver outra personagem da história e foi indicada ao Oscar de coadjuvante por isso). Mas é certo que, mesmo com suas qualidades, a versão de Forman não tem o mesmo peso e a mesma qualidade quase literária e teatral da visão de Frears, injustamente deixado de lado na corrida ao Oscar de direção.

Apesar do roteiro de Hampton (inteligente e sagaz, mas nunca deixando de ser extremamente sexy) ser o sonho de qualquer cineasta que se preze, devido a suas inúmeras possibilidades, é Frears quem conduz com sutileza e elegância uma história calcada basicamente em sexo e suas consequências - quando foi publicado, em 1782, o romance que deu origem ao filme era considerado tão escandaloso que Maria Antonieta o lia às escondidas, com uma capa falsa. Esse conteúdo "picante" de "Ligações perigosas" é que faz, no entanto, que o filme seja tão, mas tão bom que deu origem a um filhote: sua versão modernizada, "Segundas intenções", com elenco adolescente, estreou em 1999 e fez grande sucesso junto a seu público alvo.

"Ligações perigosas" também pode se vangloriar de outras qualidades indispensáveis a um filme com suas pretensões artísticas - e essas qualidades também foram devidamente recompensadas com as estatuetas oferecidas pela Academia. A reconstituição de época é primorosa, tanto em termos visuais quanto quando se trata do comportamento da alta sociedade francesa pré-revolução. O cuidado de Frears em utilizar esses elementos para contribuir com a intrincada trama proposta pelo roteiro faz com que a plateia mergulhe intensamente nos sentimentos dos protagonistas, todos eles enredados em uma teia de luxúria e paixão desesperada.

Mas seria inútil um roteiro coeso e denso e um visual caprichado se Frears não tivesse escalado um elenco tão forte quanto o que escalou. Com exceção de um jovem Keanu Reeves que já mostrava a extrema fragilidade de seus dotes dramáticos, cada ator que surge em cena é de uma excelência a toda prova. Uma Thurman, jovial e ainda bela, apresenta a inocência de sua personagem com delicadeza e sensibilidade. Michelle Pfeiffer, linda como sempre, constrói a decadência amorosa de sua Madame de Tourvel com a firmeza de uma veterana e John Malkovich equilibra com maestria todas as nuances de um Visconde de Valmont venal, ególatra e até mesmo apaixonado. Sua ausência na lista dos indicados ao Oscar de melhor ator do ano ecoa a ausência de Frears na categoria de diretor. Mas é Glenn Close quem rouba descaradamente para si o filme todo, em uma atuação fascinante.

Depois de ter encarnado a psicótica Alex Forrest de "Atração fatal" e ter sido duramente criticada pelo exagero em sua interpretação - apesar da indicação ao Oscar - Close entrega, como a Marquesa de Merteuil uma atuação contida, discreta, quase silenciosa. Seu olhar de ódio, aliado a um tom de voz sussurrante e modos delicados enquanto maquina horrores em sua mente diabólica deram à atriz um dos papéis mais interessantes da história e ela não perde a oportunidade de mostrar seu talento. Em uma das cenais finais, em que ela simplesmente tropeça no salto do sapato diz mais - sem nenhuma palavra - do que páginas e páginas de diálogos seriam capazes. Suas conversas com Malkovich são, sem exagero nenhum, algumas das mais fascinantes que as telas de cinema mostraram ao público.

"Ligações perigosas" é uma aula de como contar uma história utilizando classe, inteligência e sutileza. É o melhor filme de Stephen Frears e injustamente foi preterido no Oscar pelo correto mas não ousado "Rain Man".

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

UMA SECRETÁRIA DE FUTURO


UMA SECRETÁRIA DE FUTURO (Working girl, 1988, 20th Century Fox, 113min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Kevin Wade. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/George DeTitta. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut, Laurence Mark. Produção: Douglas Wick. Elenco: Melanie Griffith, Harrison Ford, Sigourney Weaver, Joan Cusack, Alec Baldwin, Kevin Spacey, Philip Bosco, Oliver Platt, Olympia Dukakis, David Duchovny. Estreia: 20/12/88

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mike Nichols), Atriz (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Joan Cusack, Sigourney Weaver), Canção ("Let the river run")
Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original ("Let the river run")
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Melanie Griffith), Atriz Coadjuvante (Sigourney Weaver), Canção Original ("Let the river run")


Tess McGill é uma trintona que mora em Nova Jersey e trabalha como secretária na ilha de Manhattan. Com dificuldades de manter-se nos empregos que arruma, ela vive um romance fogo brando com o seu eterno namorado Mick (Alec Baldwin) e passa suas noites frequentando festinhas suburbanas ao lado da melhor amiga, Cyn (Joan Cusack). No entanto, sua sorte muda quando ela começa a trabalhar no escritório de Kathryn Parker (Sigourney Weaver), que divide com ela a ambição de subir na vida. Tess McGill não é um exemplo ético. Tess McGill é a protagonista de "Uma secretária de futuro", a mais bem-sucedida comédia romântica do diretor Mike Nichols desde "A primeira noite de um homem". Cotada para ser vivida por Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Carrie Fisher, Kim Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Diane Lane e Sarah Jessica Parker, ela acabou nas mãos de Melanie Griffith, que aproveitou a chance com tudo e acabou finalista ao Oscar de melhor atriz.

Quando "Uma secretária de futuro" começa, Tess McGill está saindo de um emprego insatisfatório e começando a trabalhar como secretária de Kathryn, uma mulher linda e bem-sucedida que não hesita em roubar descaradamente uma ideia de Tess, envolvendo a compra de uma emissora de rádio. Ao descobrir a traição da chefe - quando ela fica fora da cidade devido a um acidente de esqui - a ambiciosa secretária resolve dar a volta por cima. Passando-se por executiva, ela conta com a ajuda do atraente Jack Trainer(Harrison Ford) para conquistar seu lugar ao sol. Sua farsa, no entanto, corre o risco de ser desmascarada quando ela descobre que justamente que o homem por quem está perdidamente apaixonada é também amante de sua patroa.


"Uma secretária de futuro" não é exatamente um filme brilhante, como alguns dos filmes assinados por Mike Nichols (em especial "A primeira noite" e "Closer, perto demais"). Mas tem um charme oitentista que conquista desde os créditos de abertura (ao som da canção de Carly Simon vencedora do Oscar) até o visual exagerado tanto da protagonista em suas primeiras cenas quanto das coadjuvantes - é engraçado reparar na clara divisão entre o kitsch anos 80 do figurino e dos penteados das suburbanas secretárias e do requinte clean da classe "superior". Sigourney Weaver, em especial, esbanja beleza e classe, metida em vestidos caríssimos e vivendo em um apartamento chique, enquanto Tess e suas amigas habitam um mundo quase escuro - matizado apenas pela maquiagem sempre acima do básico.

"Uma secretária de futuro" é também o auge da carreira de Melanie Griffith, uma atriz sem maiores talentos dramáticos que, depois de uma vida regada a drogas e álcool, se reergueu artisticamente aqui. Depois de algumas escolhas equivocadas posteriores - a saber "A fogueira das vaidades", de Brian de Palma e "Uma luz na escuridão", ao lado de Michael Douglas - ela voltou a seu quase anonimato, sendo notícia quase sempre devido a seu casamento com o ator espanhol Antonio Banderas. Na pele de Tess, no entanto, Griffith - filha da atriz Tippi Hedren, de "Os pássaros" - brilha, em uma atuação discreta, eficiente e envolvente. Por incrível que pareça é ela que dá luz ao filme, mesmo dividindo cenas com as sensacionais Weaver e Joan Cusack - ambas indicadas ao Oscar de coadjuvante.

"Uma secretária de futuro" é a cara de seu tempo, pro bem e pro mal. Lançado em um momento em que as mulheres buscavam desesperadamente seu espaço no mercado de trabalho e o movimento yuppie estava em seu apogeu - é dessa época a famosa frase de Gordon Gekko em "Wall Street" que dizia que "ganância é bom!" -, foi o filme certo no momento certo. Daí talvez sua reputação um tanto exagerada - inclusive como finalista ao Oscar de melhor filme. É uma comédia romântica interessante - ainda que não seja exatamente uma comédia rasgada - e que retrata com ironia e condescendência um importante momento social e econômico americano, sem apelar para lições de moral. Divertido e simpático! O que mais se espera de um filme assim?

PS - E de quebra, "Uma secretária de futuro" conta com uma participação pequena de Kevin Spacey, no início de uma brilhante carreira.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

RAIN MAN


RAIN MAN (Rain Man, 1988, United Artists, 133min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Ronald Bass, Barry Morrow. Fotografia: John Seale. Montagem: Stu Linder. Música: Hans Zimmer. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Ida Random/Linda DeScenna. Casting: Louis DiGiaimo. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Mark Johnson. Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Bonnie Hunt. Estreia: 16/12/88

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Barry Levinson), Ator (Dustin Hoffman), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Dustin Hoffman)


Pródiga que é em lançar filmes sobre doenças fatais e/ou raras, Hollywood conta sempre com o apoio da Academia, que adora premiar com seus ambicionados Oscar histórias lacrimosas de superação e dor - se o filme em questão ainda tiver uma mensagem do tipo "DESCOBRI O VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA E ME TORNEI UMA PESSOA MELHOR", então a festa está completa. É este o caso de "Rain Man", grande vencedor da cerimônia de 1988. Vitorioso em 4 categorias importantíssimas - filme, direção, ator e roteiro original - o filme de Barry Levinson tem todas as características que seduzem os eleitores da Academia... e por conseguinte a platéia cativa que obras do gênero possuem. A única coisa que difere "Rain Man" das dezenas de outros títulos que movimentam o mercado de lenços de papel é Dustin Hoffman. Na pele do protagonista Raymond Babbit, Hoffman entrega um dos momentos mais marcantes de sua brilhante carreira, merecidamente premiado com sua segunda estatueta dourada de Melhor Ator.

"Rain Man" começa quando o jovem empresário Charlie Babbitt (Tom Cruise em mais um passo rumo a ser levado a sério como ator) fica sabendo da morte de seu pai, um milionário aparentemente seco e desprovido de maiores afetos por ele. Endividado até a raiz dos cabelos, Charlie espera receber uma polpuda herança, que o aliviaria de seus problemas financeiros. No entanto, para seu choque, descobre que herdou apenas um automóvel raro e algumas roseiras. O restante do patrimônio de sua família, ele descobre estarrecido, ficou para um irmão mais velho que ele sequer sabia existir. Raymond, seu irmão mais velho, vive em um hospital psiquiátrico por ser autista - uma rara condição que faz com que viva em um mundo particular, com regras rígidas e imutáveis. Com a intenção de obrigar a justiça a lhe pagar o que deve, Charlie praticamente sequestra Raymond e no caminho, descobre que ele tem uma inteligência rara, capaz de fazer cálculos complicadíssimos de cabeça, ao mesmo tempo que desconhece por completo (e por pura ironia!) o valor do dinheiro.


Logicamente, no decorrer do filme (que torna-se uma espécie de road movie graças ao terror que Raymond tem de voar) Charlie torna-se uma pessoa melhor, mais humana e menos fria. O convívio com o irmão mais velho faz com que o rapaz redescubra a ternura e o carinho, aproximando-o inclusive da namorada, Susanna (a péssima Valeria Golino). Mesmo que tente fugir dos clichês e do sentimentalismo barato - acrescentando uma bem-vinda dose de bom humor aos diálogos - o roteiro de Ronald Bass e Barry Morrow nem sempre é bem-sucedido em sua empreitada. Em alguns momentos há a séria ameaça de tornar-se extremamente piegas, e é aí que o trabalho fenomenal de Hoffman emerge glorioso.

Em uma composição minuciosa de voz e corpo, Dustin consegue fazer de seu Raymond Babbit não um doente engraçadinho e cativante (como o primeiro esboço do roteiro, recusado por ele, o apresentava) mas como um homem enervante, quase insuportável na rigidez de sua rotina. Escalado para viver Charlie em um primeiro tratamento do projeto (em que os irmãos teriam uma diferença bem menos considerável de idade), Hoffman apaixonou-se pelo papel de Raymond e passou dois anos convivendo com autistas para compor sua personagem, sugerindo modificações no roteiro e realizando exaustivos ensaios com Cruise (que não se sai mal como escada para seu brilho). Para sua sorte, Steven Spielberg, que esteve para dirigir o filme em uma ocasião, o deixou de lado para realizar "Indiana Jones e a última cruzada", caso contrário, a dose de sacarina provavelmente seria bem maior e talvez nem mesmo ele salvasse "Rain Man" de ser mais um exemplar corriqueiro de drama médico/familiar.

Um dos filmes preferidos da Princesa Diana, "Rain Man" emociona, faz rir e ainda consegue ser um bom filme. Não era o melhor filme do ano, mas cumpre o que promete. E tem Dustin Hoffman.

domingo, 12 de setembro de 2010

OS SAFADOS


OS SAFADOS (Dirty rotten scoundrels, 1988, Orion Pictures, 110min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Dale Launer, Stanley Shapiro, Paul Henning. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stephen A. Rotter, William Scharf. Música: Miles Goodman. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Rosalind Shingleton. Casting: Donna Isaacson, John Lyons. Produção executiva: Charles Hirschlorn, Dale Launer. Produção: Bernard Williams. Elenco: Steve Martin, Michael Caine, Glenne Headley, Anton Rodgers, Barbara Harris, Dana Ivey. Estreia: 14/12/88

Uma coisa é certa: para que uma comédia funcione de verdade (o que significa permanecer engraçada mesmo depois de um primeiro contato) é necessário que seu roteiro seja realmente interessante ou que a química entre seus atores esteja além do estritamente corriqueiro. Quando esses dois fatores acontecem simultaneamente, não tem erro: diversão garantida para a plateia. E é exatamente isso que acontece com "Os safados". Dirigida por Frank Oz, essa refilmagem de "Dois farristas irresistíveis", estrelado em 1964 por Marlon Brando e David Niven consegue o feito de ser tão hilariante hoje quanto à época de seu lançamento. Tudo responsabilidade do roteiro impecável e de sua dupla de protagonistas. Juntos pela primeira e até agora única vez, Michael Caine e Steve Martin encantam a audiência da primeira à última cena.

A trama de "Os safados" se passa em um Beaumont Sur Mer, uma paradisíaca cidade litorânea da Riviera francesa. É lá que o inglês Lawrence Jamieson (Michael Caine, se divertindo claramente em cena) vive confortavelmente, às custas dos inúmeros golpes que aplica em milionárias carentes. Seu reinado e sua paz passam a ser ameaçados quando entra em cena Freddy Benson (Steve Martin), um escroque americano nem um pouco sofisticado que chega à cidade para buscar novas vítimas para suas armações. A princípio inimigos declarados, logo eles mudam de status: Benson pede a Jamieson que o ensine a ser mais sofisticado, sutil e elegante. Quando chega à cidade a "Rainha do Sabonete", Janet Colgate (Glenne Headly), eles tem a ideia perfeita para resolver sua rivalidade: uma aposta. Quem conseguir arrancar 50 mil dólares da milionária obriga o outro a ir embora para sempre.

A partir daí, o filme transforma-se em um show de seus protagonistas. Enquanto Michael Caine usa e abusa da fleuma britânica, Steve Martin mostra porque era o ator cômico mais festejado dos anos 80. O choque entre a elegância de Jamieson e a gaiatice de Benson, no entanto, é apenas uma das várias razões que fazem de "Os safados" uma das melhores comédias da década. A essa união entre dois tipos de humor une-se um roteiro inteligente, uma paisagem charmosa e cenas que buscam a graça mais nas situações do que em escatologia ou piadas regadas a sexo ou fluidos corpóreos. Politicamente incorreto, o roteiro brinca com doenças mentais, desigualdades sociais e invalidez física com a mesma desenvoltura com que cativa sua audiência fazendo-a se apaixonar por dois protagonistas totalmente sem caráter.

E talvez seja justamente a absoluta falta de caráter das personagens centrais que faz com que "Os safados" brilhe mais do que seus congêneres (tanto comédias quanto "filmes de golpistas"). A plateia se mantém concentrada em cada minuto da projeção, esperando os novos golpes que fazem com que Jamieson e Benson nunca sejam completamente vítimas ou totalmente vencedores. As incríveis - e surpreendentes - reviravoltas são a cereja de um bolo saboroso, capaz de botar um sorriso no rosto até mesmo dos mais exigentes espectadores.

Planejado para promover o encontro cinematográfico entre Mick Jagger e David Bowie, "Os safados" acabou se beneficiando muito da escalação de seus dois atores centrais. Dificilmente ele seria tão bom e tão memorável com qualquer outro elenco.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

MISSISSIPI EM CHAMAS


MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississippi burning, 1988, Orion Pictures, 128min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Chris Gerolmo. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Philip Harrison, Geoffrey Kirkland/Jim Erickson. Casting: Howard Feuer, Juliet Taylor. Produção: Robert F. Colesberry, Frederick Zollo. Elenco: Gene Hackman, Willem Dafoe, Frances McDormand, Brad Dourif, R. Lee Ermey, Stephen Tobolowski, Michael Rooker, Pruitt Taylor Vince, Tobin Bell. Estreia: 09/12/88

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator (Gene Hackman), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor do Oscar de Fotografia


Alan Parker não é de brincar em serviço. O inglês que chocou o mundo com "O expresso da meia-noite" e depois transformou Robert DeNiro no demônio encarnado, em "Coração satânico" mostra mais uma vez, em "Mississipi em chamas", porque contundência é uma das características mais marcantes de seu trabalho como cineasta. Inspirado em fatos reais - disfarçados ou, como preferem os puristas, distorcidos -, o roteiro de Chris Gerolmo é forte o suficiente para transformar-se em matéria-prima ideal para um diretor inquieto e feroz. Ao tocar o dedo na profunda ferida do racismo no sul dos EUA em plenos efervescentes anos 60, Parker assinou um de seus filmes mais radicais e elogiados, merecidamente indicado a sete Oscar - inclusive filme e diretor.

A trama do filme se passa em 1964 e começa quando três jovens ativistas dos direitos civis - um deles negro - são violentamente assassinados em uma pequena cidade do Mississipi. Tidos como desaparecidos, eles chamam a atenção do FBI, que manda para a localidade dois agentes com diferentes métodos de trabalho. Alan Ward (Willem Dafoe, em papel desejado por Don Johnson) é relativamente jovem, idealista e crente na aproximação pacífica e civilizada. Anderson (Gene Hackman, genial), criado na região e bem mais cínico e experiente, acredita na força física e não dá muita importância a coisas como ética. Tão logo chegam ao local das investigações, os dois policiais passam a testemunhar o aumento exponencial das atividades da Ku Klux Klan, cuja violência é não apenas vista com condescêndia pelas autoridades locais, mas incentivada. Não demora muito para que Ward autorize Anderson a trabalhar como sabe, o que os envolve em uma guerra declarada.



A fotografia de Peter Biziou, vencedora do Oscar, é um primor. Quente e sólida, ela colabora para passar a sensação de claustrofobia almejada pela história contada sem meio-tons por Gerolmo e Parker. A violência do racismo não é enfeitada ou amenizada pelo diretor, que faz questão de esfregar na cara da plateia a fealdade do preconceito - a começar pela eficaz imagem de abertura do filme, que mostra bebedouros diferenciados para brancos e negros. Não faz parte das ideias do cineasta fugir muito do maniqueísmo, ainda que a forma com que Anderson lida com sua missão esteja longe de ser exemplar. No mundo retratado em "Mississipi em chamas", os vilões tem cara de vilões, falam com tal e não hesitam em espancar as próprias esposas (Frances McDormand concorreu a seu primeiro Oscar na pele da mulher do delegado da cidade, vivido por um eficiente Brad Dourif, cujo embate com Hackman em uma barbearia chega a ser quase antológica).

A história de "Mississipi em chamas" pode até não ter sido exatamente como narrada no filme de Alan Parker. Mas sua força reside mais no que ele quer denunciar do que em verdades absolutas, e assim sendo, é construído como um libelo contra o racismo. Como tal, beira a perfeição.

CAMILLE CLAUDEL


CAMILLE CLAUDEL (Camille Claudel, 1988, 158min) Direção: Bruno Nuytten. Roteiro: Bruno Nuytten, Marilyn Goldin, livro de Reine-Marie Paris. Fotografia: Pierre Lhomme. Montagem: Joelle Hache, Jeanne Kef. Música: Gabriel Yared. Figurino: Dominique Borg. Direção de arte: Bernard Vézat. Casting: Shula Siegfried. Produção: Isabelle Adjani, Christian Fechner. Elenco: Isabelle Adjani, Gérard Depardieu, Laurent Grévill, Alain Cuny, Madeleine Robinson, Maxime Leroux. Estreia: 07/12/88

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Atriz (Isabelle Adjani)
Melhor Atriz no Festival de Berlim


"Camille Claudel" é um filme sobre paixão. A paixão desesperada de uma mulher por um homem. E a paixão de uma artista por seu trabalho, por seu dom. É um filme intenso, passional e feito com o amor necessário para se contar uma história de loucura, perda e talento. Uma história real, inacreditável e triste, como toda boa história de amor. E absolutamente verdadeira.

No início de 1885, a jovem aspirante a escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani) é aceita como aprendiz pelo célebre Auguste Rodin (Gerard Depardieu). Famoso por seu temperamento forte e pela beleza de seu trabalho, Rodin também é conhecido como um notório sedutor e não demora muito para que sua nova aluna caia de amores por ele. Envolvidos em um escandaloso romance - o mestre é casado e mais velho do que ela - os dois passam a ser objeto de fofocas por toda Paris, principalmente porque Camille frequenta círculos ilustres - é irmã do escritor Paul Claudel e amiga do compositor Paul Debussy, por exemplo. Quando seu relacionamento com Rodin acaba, a bela escultora, ainda apaixonada por ele, começa a entrar em um perigoso declínio psicológico. Paranoica e agressiva, ela passa a acusar o ex-amante de querer acabar com sua carreira artística.


Como bom todo filme francês pré-Amélie Poulain, "Camille Claudel" tem um ritmo próprio - leia-se um tanto lento -, contando sua história sem pressa, aprofundando-se no contexto histórico da trama (é citada, por exemplo, a morte do escritor Victor Hugo) e fugindo da edição veloz típica do cinema americano. Se perde em agilidade, no entanto, o filme de Bruno Nuytten (na época casado com Adjani) ganha em coerência, em honestidade e no cuidado com os detalhes (a reconstituição de época é deslumbrante, assim como a obra de sua protagonista). Mas é no trabalho de Isabelle Adjani que "Camille Claudel" se sustenta.

Já acostumada a papéis fortes de mulheres enlouquecidas de amor (vide seu trabalho em "A história de Adele H.", de François Truffaut), Adjani apresenta aqui sua interpretação mais passional, entregue absolutamente à sua personagem. Os closes do rosto de porcelana da atriz sujos de barro, seus olhos azuis suplicando amor e o desespero que suas belas feições transmitem são a alma de "Camille Claudel". Merecidamente indicada ao Oscar por sua atuação, a atriz francesa mais destacada da década de 90 demonstra claramente porque amealhou milhares de fãs pelo mundo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ


CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ (The naked gun, 1988, Paramount Pictures, 85min) Direção: David Zucker. Roteiro: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams, Pat Proft. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: Michael Jablow. Música: Ira Newborn. Figurino: Mary E. Vogt. Direção de arte/cenários: John J. Lloyd/Rick T. Gentz. Casting: Pamela Basker, Fern Champion. Produção executiva: Jerry Zucker, David Zucker, Jim Abrahams. Produção: Robert K. Weiss. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Ricardo Montalban, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 02/12/88

Tudo bem que comédias inteligentes, com roteiros repletos de diálogos irônicos e humor sutil fazem a glória do gênero, como bem o sabem fãs de gente como Billy Wilder e Woody Allen. Mas nada como uma grandiosa bobagem para que o público esqueça por uma hora e meia o cérebro e gargalhe à vontade. E é exatamente esse o objetivo de “Corra que a polícia vem aí”, um dos filmes mais engraçados da história do cinema.

Tendo como base a série de TV “Esquadrão de Polícia”, que não vingou nos EUA, o trio ZAZ (responsável também pelos hilários “Apertem os cintos, o piloto sumiu” e “Top secret”) criou uma sucessão de piadas infames, normalmente visuais mas também verbais (o que a tradução por vezes acaba perdendo). O herói (se é que pode ser chamado assim) é o Tenente Frank Drebin (um impagável Leslie Nielsen, no papel de sua vida), que recebe a missão de proteger a Rainha Elizabeth da Inglaterra quando ela chega aos EUA. O que talvez parecesse razoavelmente fácil torna-se complicado quando Drebin descobre um plano para assassinar a monarca durante uma partida de beisebol. Para piorar o policial se apaixona por Jane (Priscilla Presley, a viúva de Elvis, rejuvenescida e igualmente hilária), namorada do mentor do plano (Ricardo Montalban, da “Ilha da Fantasia”).


Em menos de hora e meia de filme, o diretor David Zucker consegue destruir dezenas de clichês que povoam os filmes policiais americanos, mal dando tempo para o público se recuperar de uma gargalhada e logo partindo para outra piada. São tantas bobagens acontencendo, às vezes ao mesmo tempo, que fica difícil sacar todas, o que faz a experiência de rever o filme tão divertida quanto assistí-lo pela primeira vez. Engraçado como poucos, “Corra que a polícia vem aí” é imperdível para quem deseja relaxar e dar boas risadas. E, pro bem e pro mal, marcou indelevelmente a carreira de Leslie Nielsen.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A OUTRA


A OUTRA (Another woman, 1988, Orion Pictures, 81min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Gene Hackman, Blythe Danner Martha Plimpton, Frances Conroy, Sandy Dennis, Philip Bosco, Betty Buckley. Estreia: 18/11/88

Emulando mais uma vez Ingmar Bergman, um de seus ídolos máximos (de quem conseguiu inclusive o diretor de fotografia Sven Nykvist), Woody Allen entrega, em “A outra” um de seus mais interessantes trabalhos de sua fase “séria”. Deixando de lado seu humor paranóico-judeu, o cineasta nova-iorquino criou uma pequena obra-prima (e pequena também é sua duração – meros 81 minutos, pouco menos de duas sessões de tearapia).

É justamente sobre terapia seu filme. A protagonista é Marion Post (uma sensacional Gena Rowlands), uma especialista em filosofia, que vive um segundo casamento estável e leva uma vida tranqüila e sem maiores sobressaltos. Para escrever seu novo livro, ela aluga um pequeno apartamento em uma rua tranqüila de Nova York. Para sua surpresa, no entanto, pelo aparelho de ventilação do apartamento, ela consegue ouvir todas as consultas do psicanalista que trabalha ao lado. A princípio incomodada com o fato, ela logo muda de idéia quando começa a ouvir o trabalho do médico com uma jovem grávida (Mia Farrow, que não poderia faltar), cujos problemas refletem aqueles que ela mesma tem e deixa guardados em seu inconsciente. A partir daí, Marion começa a examinar sua vida atual e pregressa, tentando resolver sua relação com o irmão, com o ex-marido, o pai e principalmente revendo seu casamento e seu acabado caso de amor com o melhor amigo de seu marido (em participação pequena mas marcante de Gene Hackman).

Allen consegue, em menos de hora e meia, levar o espectador para dentro da mente da personagem de Rowlands (ajudado, é claro pela performance espetacular da atriz), utilizando de idéias criativas, como uma peça de teatro e idas e vindas no tempo, bem ao gosto de seu mentor Bergman. Pode parecer difícil e pesado. Certamente, leve e divertido como a maioria dos trabalhos do diretor não é. Mas “A outra” tem uma qualidade redentora, além de seu roteiro brilhante e de seu elenco perfeito – é inteligente, faz pensar e não sai da mente do espectador por um bom tempo, como uma boa consulta ao terapeuta.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

CINEMA PARADISO


CINEMA PARADISO (Nuovo Cinema Paradiso, 1988, Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Giuseppe Tornatore. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte: Andrea Crisanti. Produção: Franco Cristaldi, Giovanna Romagnoli. Elenco: Phillipe Noiret, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Pupella Maggio, Agnese Nano, Jacques Perrin. Estreia: 17/11/88

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro


Enquanto “A rosa púrpura do Cairo”, de Woody Allen, era uma homenagem ao poder do cinema de deixar a vida menos dolorosa, este “Cinema Paradiso”, do italiano Giuseppe Tornatore e merecido vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, fala da sétima arte como o que ela realmente é: inspiração, arte e emoção.

E emoção é o que não falta na história contada por Tornatore, também autor do roteiro, belo, engraçado e comovente como poucos. O filme começa quando um bem-sucedido cineasta italiano (vivido por Jacques Perrin) recebe a notícia da morte de um velho amigo, do tempo em que morava em Giancaldo, um pequeno vilarejo siciliano. Sentindo-se triste e comprometido com seu passado, ele retorna a sua cidade e relembra momentos marcantes de sua vida ao lado deste amigo, Alfredo (o sempre ótimo Phillipe Noiret), que era o projecionista do único cinema de sua infância, o Cinema Paradiso.

Ainda chamado de Totó (e vivido pelo inesquecível Salvatore Cascio), quando criança o cineasta via no programa de ir ao cinema o único escape para sua vida de pobreza ao lado da mãe que esperava a volta do marido da segunda guerra. Capaz de usar o dinheiro das compras para assistir aos filmes, censurados rigidamente pelo pároco local, Totó logo faz amizade com Alfredo, que mesmo contra a vontade, o ensina os macetes da profissão. Quando um incêndio destrói o cinema, Alfredo fica cego e impossibilitado de praticar sua função. No momento em que um morador da cidade, ganhador da loteria, resolve inaugurar um novo Cinema Paradiso, sobra para o pequeno fã de filmes a responsabilidade de divertir seus conterrâneos e dessa vez sem os cortes impostos pela Igreja. Finalmente depois de anos, a população de Giancaldo vê um beijo nas telas e se apaixona por gente como Brigitte Bardot e Claudia Cardinale. Quando torna-se adolescente, Totó (na pele de Marco Leonardi) é apresentado ao primeiro amor, na figura da bela Elena.


A primeira metade de “Cinema Paradiso” é uma obra-prima, inspirada descaradamente no neo-realismo italiano, capaz de cenas enternecedoras e divertidíssimas. O ritmo cai um pouco na segunda parte, quando Totó, já um jovem adulto se apaixona e tenta conquistar sua amada, contando com a ajuda de um Alfredo cego e desiludido. Mesmo assim, Tornatore mantém a atenção, com diálogos inteligentes e sensíveis, além de contar uma história de interesse universal. A bela homenagem prestada pelo cineasta à sétima arte é de enternecer, fazendo com que "Cinema Paradiso" tenha um lugar cativo na lista dos fãs de cinema.

No entanto, nada supera os momentos finais de seu filme, quando um presente de Alfredo a seu antigo pupilo consegue emocionar qualquer pessoa com um coração. Não vale a pena contar para quem nunca assistiu (o que para fãs de cinema é imperdoável), mas ficar impassível durante os minutos derradeiros de “Cinema Paradiso”, ao som da inesquecível trilha sonora do mestre Enio Morricone é tarefa das mais difíceis.

Para quem gosta de cinema como diversão ou como obra de arte, “Cinema Paradiso” não é apenas recomendável. É obrigatório!

sábado, 4 de setembro de 2010

ACUSADOS


ACUSADOS (The accused, 1988, Paramount Pictures, 111min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Tom Topor. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: O. Nicholas Brown, Jerry Greenberg. Música: Brad Fiedel. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Richard Kent Wilcox/Barry W. Brolly. Casting: Sally Dennison, Julie Selzer. Produção: Stanley R. Jaffe, Sherry Lansing. Elenco: Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Carmen Argenziano, Leo Rossi, Ann Hearn. Estreia: 14/10/88

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jodie Foster)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)


Quando assistiu a "Acusados" pela primeira vez, Jodie Foster achou sua atuação tão ruim que considerou seriamente abandonar Hollywood e dedicar-se à carreira acadêmica. Quando, alguns meses depois, ela ganhou o Oscar de melhor atriz por seu trabalho, felizmente mudou de ideia. E até mesmo quem considerava que Glenn Close era imbatível na categoria, por "Ligações perigosas" é obrigado a admitir que Foster é a melhor coisa do filme. Sorte de Foster - que em pouco tempo estrearia como diretora e levaria uma segunda estatueta, por "O silêncio dos inocentes", sorte dos fãs de cinema e sorte principalmente do filme em si, um drama de tribunal formulaico e, não fosse por ela, esquecível. Sem maiores arroubos de criatividade no roteiro e uma direção anêmica, "Acusados" poderia facilmente ser classificado como um telefilme, tamanha é sua falta de energia. Mas Jodie, definitivamente, faz toda a diferença.

A personagem de Foster é Sarah Tobias, uma garçonete de boca suja, chegada em fumar um baseado de vez em quando e sem grandes pudores. Uma noite, ela vai parar em um bar onde trabalha uma amiga. Tencionando um flerte de leve para provocar o namorado, com quem acabou de brigar, ela acaba sendo violentamente estuprada por três homens, enquanto outros os incitavam e encorajavam com aplausos e gritos de incentivo. Humilhada e machucada, ela conta com a ajuda da advogada Kathryn Murphy (Kelly McGillis) para colocar seus agressores atrás das grades. As coisas não correm conforme o esperado e eles são absolvidos depois de um acordo judiciário. Sentindo-se traída, Sarah desconta a raiva na advogada, que, tocada em seus brios de mulher e profissional, tem a idéia de processar os homens que testemunharam o ato de violência.


E é só isso. O filme não faz muito além de contar sua história, sem desenvolver as suas personagens principais, tão frágeis quanto o roteiro, superficial a ponto de não se aprofundar em nenhuma das inúmeras questões que poderia suscitar. O relacionamento e a solidariedade entre as protagonistas principais, por exemplo, não é discutido a contento, nem muito menos o machismo que as leva a unirem-se mesmo quando seu futuro não aponta para algo muito feliz. Kelly McGillis se deixa levar pela apatia de sua personagem e nem está particularmente bela como em “Top Gun” e “A testemunha”, seus dois filmes mais conhecidos - e isso que ela mesma foi vítima de estupro, em 1982, o que a fez trocar, ao menos na tela, o papel de vítima pelo de advogada. Jonathan Kaplan, o diretor, em alguns anos trocaria o cinema pela TV, dirigindo vários episódios de "Plantão médico".

É somente Jodie Foster, com seu imenso talento que faz sua Sarah Tobias tornar-se maior que o roteiro e a direção e salvar “Acusados” da total mediocridade. E isso que foi apenas a quarta opção para o papel... Como diria Alanis Morissette, isn't ironic??

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO


A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (The last temptation of Christ, 1988, Universal Pictures, 164min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Nikos Kazantzakis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Peter Gabriel. Figurino: Jean-Pierre Delifer. Direção de arte/cenários: John Beard/Giorgio Desideri. Casting: Cis Corman. Produção executiva: Harry Ufland. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey, Paul Greco, Verna Bloom, Harry Dean Stanton, David Bowie. Estreia: 12/8/88

Indicado ao Oscar de Diretor (Martin Scorsese)

O cineasta Martin Scorsese foi criado como católico e chegou a freqüentar um seminário, quando teve intenção de tornar-se padre. Talvez esse background inusitado para um diretor de cinema tão chegado a filmes tão violentos e pesados como “Taxi driver” e “Touro indomável” tenha sido o responsável pela gritaria em torno de “A última tentação de Cristo”, adaptação cinematográfica de Scorsese do polêmico livro escrito pelo grego Nikos Kazantzakis, que basicamente criou celeuma ao dar um enfoque humano ao filho de Deus. Anos antes de Mel Gibson encher os bolsos de dinheiro com sua violenta versão da história, em "A paixão de Cristo", Scorsese sofreu para levar às telas a visão filosófico/espiritual de Jesus, que ele compartilhava com o escritor. Tendo lido o livro em 1972 - presente da atriz Barbara Hershey - ele levou mais de quinze anos para finalmente fazê-lo chegar aos cinemas. E ser praticamente apedrejado por isso.

Piquetes em frente aos cinemas, ameaças da Igreja Católica e discussões ao redor do mundo fizeram no entanto que seu filme atingisse uma glória que provavelmente não era de seu interesse. O que o cineasta, um dos mais brilhantes de sua geração, diga-se de passagem, queria – e consegue, a despeito de toda a confusão que desviou do foco principal da produção – era fazer uma obra acima de religiões, teologias e divisões entre crenças. Scorsese queria fazer um filme para reafirmar sua fé e a de quem pudesse ser atingido por sua obra. E saiu-se vitorioso. Há muito que Hollywood devia um filme tão inflamado e apaixonado quanto “A última tentação de Cristo”.


Muito da extrema qualidade do filme vem da energia e da paixão de seus criadores. Indo muito além das belas palavras de Kazantzakis, o roteiro, de autoria do colaborador habitual do diretor, Paul Schrader apresenta, sem ordem cronológica linear, fatos importantes da vida de Jesus Cristo (em uma atuação corajosa de Willem Dafoe) até o momento de Sua crucificação, onde tem a visão do que seria Sua vida se tivesse uma vida de ser humano normal, em um relacionamento carnal com Maria Madalena (Barbara Hershey, bela e sexy),uma família convencional e, heresia das heresias, amantes - sim, no filme Cristo se divide entre duas irmãs, depois da morte da esposa. Justamente esse terço final do filme, o que vem a ser literalmente sua última tentação foi o que incomodou aqueles que têm as Escrituras ao pé da letra e que nem de longe percebeu que, no fim de tudo, ao optar pelo auto-sacríficio, Jesus provou seu amor de forma indelével e salvou a humanidade.

Apesar da beleza de seus momentos finais, onde até o mais renitente cínico pode se emocionar, “A última tentação” é, acima de tudo, cinema da mais alta qualidade. Desde a fotografia de Michael Ballhaus até a trilha sonora de Peter Gabriel, tudo funciona da maneira esperada, inclusive um surpreendente David Bowie como Pilatos - surpreendentemente quem não foi muito feliz em cena foi o veterano Harvey Keitel, que não encontrou o tom certo de seu Judas Iscariotes, dono de algumas das mais emocionais cenas do longa, inclusive o poderoso confronto entre "traidor e traído" na parte final do filme.

Ao contrário de seus detratores mal-informados, a obra de Scorsese devia figurar como obrigatória no ensino de Religião pelos quatro cantos do planeta. Suas discussões legítimas e pertinentes, aliadas ao talento de sua equipe artística - que trabalhou com um orçamento de apenas 7 milhões de dólares - faz de "A última tentação" um dos pontos altos da carreira de seu diretor, que em seguida lançaria um de seus trabalhos mais populares, o suspense "Cabo do medo", feito para agradar à Universal Pictures e que provaria, de forma indubitável que, não importa o gênero, Scorsese é um gênio.