sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de Thomas Harris. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Gary Goetzman. Produção: Ron Bozman, Edward Saxon, Kenneth Utt. Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine, Brooke Smith, Anthony Heald. Estreia: 30/01/91

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado, Montagem, Som

Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jonathan Demme), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jodie Foster)

Urso de Ouro Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jonathan Demme)

Em Hollywood, uma regra não escrita dita que filmes lançados no início do ano tem poucas - ou nenhuma - chances nas cerimônias de premiação que acontecem no ano seguinte. Levando-se em consideração a quantidade de produtos que chegam às telas durante o período de um ano e o fato de que os estúdios deixam suas apostas para estrearem na época de maior visibilidade para as premiações - a saber, entre o feriado de Ação de Graças e o Natal - não é de se duvidar da afirmação. Mas toda regra tem exceções e, vez ou outra, os normalmente bitolados eleitores da Academia, por exemplo, descobrem que alguns filmes são tão bons que sobrevivem ao tempo e merecem sua homenagem. É o caso de "O silêncio dos inocentes", filmaço de Jonathan Demme que estreou em fevereiro de 1991 e mais de um ano depois arrebatou não só o Oscar de Melhor Filme do ano como reuniu no pacote as estatuetas de diretor, ator, atriz e roteiro adaptado, feito só conquistado antes em duas ocasiões em 1935, com "Aconteceu naquela noite", de Frank Capra, e em 1975 com "Um estranho no ninho", dirigido por Milos Forman. Além de ter superado a barreira cronológica e entrar no seleto grupo vencedor do Big Five, porém, "O silêncio dos inocentes" alcançou outro destaque - até hoje é o único filme de suspense/horror a abiscoitar o prêmio máximo do cinema.

Publicado em 1988, como uma espécie de sequência de "Dragão vermelho" - que por sua vez foi adaptado para o cinema em duas ocasiões, em 1986 (um fracasso) e em 2002 (um sucesso) - o livro de Thomas Harris logo chamou a atenção da atriz Jodie Foster, que apressou-se em comprar os direitos de adaptação. Porém, o ator Gene Hackman havia chegado na frente, pretendendo dirigir o filme e possivelmente estrelá-lo. Quando Hackman desistiu da ideia por não sentir-me mais à vontade participando de filmes violentos e Jonathan Demme - dono de um currículo que incluía mais claramente comédias como "Totalmente selvagem" e "De caso com a máfia" - assumiu o comando do projeto, Foster ofereceu-se para interpretar a protagonista, mas foi deixada de lado Demme queria Michelle Pfeiffer no papel. Depois que Pfeiffer, Meg Ryan e Melanie Griffith (!!!) também pularam fora devido ao tema um tanto quanto pesado do material, finalmente Jodie convenceu o cineasta de que era a atriz séria para viver Clarice Starling. Com o ator inglês Anthony Hopkins a bordo, na pele do vilão mais carismático da história do cinema, "O silêncio dos inocentes" estava pronto para estrear. O resto é história.



Pronto para estrear no outono de 1990, "O silêncio dos inocentes" teve sua estreia adiada pelo próprio estúdio - o já capenga Orion Pictures -, que preferiu focar seus esforços em promover o soporífero "Dança com lobos" junto aos eleitores da Academia. A estratégia funcionou - o filme de Kevin Costner levou 7 Oscar pra casa, a despeito de sua chatice - e a obra de Demme só foi ver a luz dos projetores no início de 1991. Mal sabia o estúdio que um ano depois estaria comemorando um bicampeonato - dessa vez muito mais justo - graças a um filme forte, tenso e sem concessões ao público médio. Um filme quase doentio e talvez justamente por isso, sensacional!

A aspirante a agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) - cujo pai policial morreu quando ela ainda era criança - é chamada à sala de seu supervisor Jack Crawford (Scott Glenn) para que receba uma missão aparentemente banal e corriqueira entrevistar o famoso sociopata Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), conhecido pela alcunha de Canibal, por degustar suas vítimas. A versão oficial é a de que a agência precisa de alguns dados dele para uma pesquisa, mas logo a jovem descobre que os interesses em Hannibal são bem outros cientes do brilhantismo do prisioneiro - um psiquiatra de QI muito acima da média - os membros do FBI querem que ele ajude na captura de um outro assassino serial que vem atacando mulheres e arrancando suas peles, apelidado de Buffalo Bill. Fascinado pela inteligência de Starling, Lecter aceita ajudá-la em sua missão, desde que ela compartilhe com ele seus pensamentos mais pessoais, como em uma espécie de sessão de terapia. Mesmo alertada dos perigos que corre aceitando a proposta de Lecter, ela aceita o desafio, iniciando um perigoso duelo mental.
Apedrejado por instituições de direitos aos gays, que viram nele mais um incitador ao preconceito - uma vez que seu vilão é um transexual violento - "O silêncio dos inocentes" acabou se beneficiando das polêmicas. Com mais de 130 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias americanas, o filme de Demme arrancou elogios entusiasmados da crítica desde sua estreia e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 1991 apenas reiterou as loas. Quando finalmente saiu da noite do Oscar multi-premiado (e já disponível no mercado de vídeo há um bom tempo), a história da fascinante relação entre uma agente do FBI com um psicopata canibal cimentou de vez sua importância na história do cinema.

Seguindo o material de origem com uma fidelidade quase canina, o roteiro de Ted Tally - merecidamente premiado com o Oscar - é um perfeito exemplo de como transportar um livro para as telas de cinema sem perder a sua essência. O clima de tensão constante que perpassa todo o romance de Thomas Harris nunca deixa de estar presente em sua versão cinematográfica. A direção firme e inteligente de Jonathan Demme respeita a história a as personagens acima de qualquer interesse em demonstrar versatilidade ou inovações. Ao confiar na trama e em seu desenrolar angustiante e excitante, Demme deixa que sua câmera discreta observe o embate entre Clarice e Hannibal - e posteriormente entre o FBI e Buffalo Bill - de forma seca, mas nunca indiferente. Jodie Foster entrega uma atuação arrebatadora, madura e corajosa como uma mulher sofrendo por demônios interiores enquanto caça os exteriores. Seu olhar expressivo consegue mixar terror, saudade e angústia na medida certa, sem exageros ou minimalismos estilísticos. Os olhos de Clarice são os olhos do público e como tal, são curiosos, nervosos, indagadores e se deixam hipnotizar por Lecter, em uma sublime interpretação de Anthony Hopkins, que teve sua carreira ressuscitada com seu Oscar, mas que depois de vários filmes repetindo a personagem acabou perdendo um pouco de seu fascínio. Na pele de Buffalo Bill, o ator Ted Levine - injustamente esquecido em todas as premiações do ano - consegue despertar pavor e asco, ainda que tenha que defender uma personagem praticamente indefensável. Somados à extraordinária trilha sonora de Howard Shore e à edição esperta de Craig McKay, a direção de Demme, o roteiro de Tally e o elenco impecável transformam "O silêncio dos inocentes" em um clássico moderno.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

DORMINDO COM O INIMIGO

DORMINDO COM O INIMIGO (Sleeping with the enemy, 1991, 20th Century Fox, 99min) Direção: Joseph Ruben. Roteiro: Ronald Bass, romance de Nancy Price. Fotografia: John W. Lindley. Montagem: George Bowers. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Doug Kraner/Lee Poll. Casting: Karen Rea. Produção executiva: Jeffrey Chernov. Produção: Leonard Goldberg. Elenco: Julia Roberts, Patrick Bergin, Kevin Anderson, Elizabeth Lawrence. Estreia: 08/02/91

Não há como duvidar do poder de uma estrela. Só mesmo o carisma imenso e o belo sorriso de Julia Roberts para explicar o grande êxito de bilheteria de "Dormindo com o inimigo", um suspense mediano e esquemático que estreou nos EUA ainda aproveitando o sucesso inicial de Julia, após o estrondo de "Uma linda mulher". Baseado em um romance de Nancy Price, o filme dirigido por um desconhecido Joseph Reuben nada acrescenta ao gênero nem tampouco à carreira de sua atriz principal, iniciando uma fase de escolhas equivocadas que a levaria a um desagradável limbo comercial pouquíssimo tempo depois. Ainda assim, apesar de sua falta de novidades, Dormindo com o inimigo rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas, comprovando a teoria de que um nome poderoso estampando os cartazes faz mais por um filme - ao menos em termos financeiros - do que criatividade e inteligência.

As multidões que lotaram as salas de cinema em busca do largo sorriso de Roberts, porém, tomaram um susto em "Dormindo com o inimigo", ela nada tem de leve ou solar como a prostituta Vivian Ward. Laura Byrnes, a protagonista do filme, é uma mulher triste, tensa e traumatizada que foge do amor como o diabo da cruz, graças a um passado de violência e abuso por conta do ex-marido. Com o nome de Sara Waters, em outra cidade e outro estado, ela busca apagar de sua vida todo o sofrimento pelo qual passou durante os mais de três anos em que esteve casada com Martin Byrnes (Patrick Bergin, fazendo o possível para dar veracidade a uma personagem unidimensional). Aparentemente um marido exemplar e carinhoso, ele a espancava sem piedade pelos motivos mais banais - desde toalhas dispostas assimetricamente no banheiro até crises infundadas de ciúme. Depois de planejar passo a passo uma fuga literalmente cinematográfica, Laura assume uma nova personalidade, forjando a própria morte. Iniciando um romance discreto com o professor de teatro Ben (Kevin Anderson), ela nem imagina que sua farsa foi descoberta e que sua liberdade está com os dias contados.



Para os espectadores menos exigentes, "Dormindo com o inimigo" funciona até que razoavelmente bem. Há alguns sustos, um clima interessante e um vilão ameaçador (ainda que extremamente mal escrito). Mas não é difícil perceber o quão preguiçoso e cheio de furos é o roteiro de Ronald Bass (surpreendentemente o oscarizado autor de "Rain Man") que simplifica a trama do livro a ponto de transformar a heroína em uma mulher capaz de atos tão burros quanto inexplicáveis como jogar a aliança de casamento no vaso sanitário da casa do marido. Ao invés de aproveitar a ocasião para discutir temas controversos como a violência contra a mulher, o texto se resume a estabelecer uma história maniqueísta que não se aprofunda em nenhuma das questões levantadas. Mas será que os fãs de Julia Roberts que correram aos cinemas procuravam isso, afinal?

"Dormindo com o inimigo" é um suspense derivativo, sem maiores rasgos de inventividade - culpa do roteiro comum e da direção burocrática, que o iguala a dezenas de outros filmes que abarrotam as videolocadoras e fazem a festa dos programadores dos Supercine da vida. Não fosse o nome de Julia Roberts nos créditos de abertura provavelmente teria sido esquecido já em seu lançamento. E se provavelmente é o trabalho mais famoso de Patrick Bergin, é um dos menos marcantes da atriz.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

SIMPLESMENTE ALICE

SIMPLESMENTE ALICE (Alice, 1990, Orion Pictures, 102min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Alec Baldwin, Blythe Danner, Judy Davis, William Hurt, Joe Mantegna, Cybill Sheperd, Gwen Verdon, Julie Kavner. Estreia: 25/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é um cineasta autoral, independente e criativo todo mundo sabe! Dono de uma carreira que, a despeito de não ter nenhum êxito comercial retumbante é absolutamente respeitada pela integridade, ele é capaz de equilibrar pequenas obras-primas como "Crimes e pecados" com filmes que não obtiveram o mesmo sucesso entre a crítica e o público, como é o caso de "Simplesmente Alice". Mesmo tendo sido indicado ao Oscar de roteiro original, o 21º longa-metragem de Allen não tem o mesmo frescor que a maioria de seus trabalhos, utilizando elementos de outros filmes com a sua assinatura ao lado de um elemento novo:a fantasia.

Mia Farrow é novamente a protagonista em "Simplesmente Alice". Ela vive Alice Tate, uma mulher que vive dividida entre compromissos sociais, visitas ao shopping e aos salões de beleza e um casamento morno com o bem-sucedido Doug (William Hurt). Sofrendo de constantes dores nas costas, ela visita o afamado Dr. Yang (Keye Luke), acunpunturista recomendado por todas as suas amigas. Surpreendida pelo tratamento do médico oriental, que lhe oferece os mais variados tipos de ervas naturais - que permitem que ela fique invisível, que fale com um ex-namorado morto (Alec Baldwin) e que se torne menos tímida - ela aproveita o momento para levar adiante um hesitante romance com Joe Ruffalo (Joe Mantegna), músico divorciado, pai de uma colega de seus filhos pequenos. Além disso, passa a questionar suas escolhas em abandonar tudo para tornar-se esposa e mãe.



A trama lembra "A outra", filme bastante superior dirigido por Allen em 1988. No entanto, o cineasta não é feliz em lançar mão de alguns artifícios que não combinam com seu estilo. Ver Alice voando sobre Nova York ao lado do falecido namorado não encanta como deveria e sim torna-se bobo. Até mesmo o fato de conseguir ficar invisível para espionar a vida do amante, das melhores amigas e do marido infiel soa como uma solução fácil e sem imaginação. Suas dúvidas a respeito de seguir uma nova carreira como escritora e sua relação mal-resolvida com a irmã advogada (Blythe Danner, mãe da atriz Gwyneth Paltrow) são extremamente semelhantes às questões levantadas por Gena Rowlands em "A outra", mas sem o peso e a densidade do filme anterior.

Sendo assim, "Simplesmente Alice" é um filme ruim? De jeito nenhum. Woody Allen é incapaz de criar alguma coisa que seja menos do que interessante. Mia Farrow novamente entrega uma atuação consistente, mesmo quando sua personagem passa por situações quase inverossímeis. O elenco coadjuvante também não atrapalha nem um pouco - até mesmo Joe Mantegna consegue apagar sua imagem de "gângster" e William Hurt, apesar de não ter muito o que fazer, pontua com correção mais uma grande interpretação de Mia. Nem mesmo o final um tanto abrupto consegue esconder o fato, no entanto, de que Allen tem o que dizer em qualquer trabalho que assine.

"Simplesmente Alice" não é um dos mais populares trabalhos de Woody Allen. Ao assistí-lo logo se vê os motivos. Não é particularmente engraçado nem especialmente sério. Mas é Woody Allen é sempre Woody Allen, quer seja para o bem ou para o mal.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (The godfather, part III, 1990, Paramount Pictures/American Zoetrope Studios, 169min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Lisa Fruchtman, Barry Malkin, Walter Murch. Música: Carmine Coppola. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins, Roger Mussenden. Produção executiva: Fred Fuchs, Nicholas Gage. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire, Andy Garcia, Eli Wallach, Joe Mantegna, George Hamilton, Bridget Fonda, Sofia Coppola, John Savage. Estreia: 25/12/90

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários

Uma obra-prima com falhas ainda pode ser considerada uma obra-prima? Essa é a grande pergunta que fica no ar depois dos créditos de encerramento de "O poderoso chefão parte III", o final da saga da família Corleone, realizado dezesseis anos depois do segundo capítulo e dirigido pelo mesmo Francis Ford Coppola. Feito para sanar as dificuldades financeiras da produtora do cineasta - dificuldades recorrentes, aliás, em sua genial carreira - o encerramento da história de Michael Corleone dividiu a crítica, não fez o mesmo sucesso de bilheteria de seus antecessores e falhou em conquistar os Oscar a que foi indicado - incluindo Melhor Filme e diretor. Mas mesmo que não repita o brilhantismo dos dois primeiros filmes é um capítulo final emocionalmente poderoso e inesquecível. Tem falhas - principalmente uma que atende pelo nome de Sofia Coppola - mas fascina, envolve e surpreende como toda boa obra-prima.

A trama de "O poderoso chefão parte III" se passa em 1979 e começa quando Michael Corleone (Al Pacino, no auge do talento), envelhecido, tenta apagar seu passado sangrento iniciando uma relação de negócios com o Vaticano. Buscando fugir da vida repleta de violência em que viveu até então, ele almeja limpar o nome da família, deixando assim um legado de respeitabilidade aos filhos - o rebelde Anthony (Franc D'Ambrosio), que abandona a faculdade de Direito para tornar-se cantor lírico e a delicada Mary (Sofia Coppola, o nêmesis do filme). No entanto, o rastro de sangue deixado por seu passado não o deixa seguir tranquilamente seus planos quando Vincent Mancini (Andy Garcia), filho bastardo de seu irmão mais velho, Sonny, assume o posto como seu segurança pessoal. Temperamental e impulsivo como o pai, Vincent se apaixona por Mary e, com a fragilidade cada vez maior da saúde de Michael, começa a comandar uma feroz vingança contra os traidores da família. Para isso, conta com a ajuda da até então neutra Connie (Talia Shire).

É impressionante como "O poderoso chefão parte III" não se utiliza de meias-palavras. Enquanto o primeiro filme não mencionava a palavra máfia e jamais ousava sair do circuito familiar dos negócios dos Corleone, aqui Coppola e Mario Puzo vão até Wall Street e o Vaticano para deixar bem claras as implicações e as conexões entre a Igreja, as finanças e os negócios escusos da família. O cineasta não tem medo de explicitar a hipocrisia do catolicismo - dinheiro em troca de perdão incondicional - nem tampouco de especular sobre a morte do Papa então no poder. As sequências religiosas do filme, aliás, estão entre as mais espetaculares do filme, em especial a emocionante confissão de Michael, arrependido e cheio de remorsos pelas mortes que carrega nas costas, em especial a do irmão Fredo - é arrepiante quando, em uma de suas crises de saúde, ele grita seu nome, em uma espécie de delírio que somente um ator do porte de Pacino é capaz de transmitir sem soar patético ou forçado. Absolutamente ciente de seu poder como intérprete, ele é, inclusive, a razão de ser de todo o filme, uma força catalisadora que transforma tudo em um espetáculo de encher a alma e os olhos.

Visualmente, o terceiro capítulo da saga dos Corleone é o mais bem-acabado. Lindamente fotografado por Gordon Willis e com uma direção de arte impecável, o filme de Coppola seduz com seus enquadramentos meticulosamente planejados, realizados com uma competência ímpar - coisa de quem sabe o que faz! A estética chiaroscuro de algumas cenas casa com perfeição às incoerências do coração de Michael - um homem torturado por um passado negro que não o deixa vislumbrar um futuro brilhante, uma personagem de Shakespeare perdida em algum canto da Sicília. E é na Sicília, inclusive, que Coppola encerra sua história, em quarenta minutos dos mais excitantes que o cinema pode produzir.
 
Ao reunir todos os protagonistas de seu filme na apresentação da ópera "Cavalleria Rusticana", de Mascagni - que versa basicamente sobre vendetta - Coppola e Puzo praticamente montaram um ato final que beira à perfeição cinematográfica e emocional. A edição excepcional, a música poderosa e os desdobramentos de toda uma vida dedicada ao crime, ao sangue e à vingança são apresentados à plateia de forma arrebatadora, culminando na provavelmente mais angustiante cena de desespero de toda a série (e mais uma vez é Al Pacino o responsável por tamanho show). Poucas vezes foi visto no cinema uma conjunção de fatores tão alinhada quanto nessa derradeira meia-hora, em que fica patente o talento descomunal de Coppola de transformar em arte uma necessidade financeira. E quando o filme acaba, ao som da melancólica música de Nino Rota, até mesmo os pecados cometidos por ele acabam sendo perdoados, inclusive a escalação de sua filha Sofia no crucial papel de Mary Corleone. Mas, afinal, ela mereceu toda essa malhação plena, geral e irrestrita? A resposta é uma só: SIM.
 
Ao assumir o papel que até às vésperas do início das filmagens era de Winona Ryder - que teria sua chance de trabalhar com Coppola em "Drácula de Bram Stoker", dois anos depois - a filha do diretor colocou em risco toda a credibilidade do projeto e de um trabalho árduo, minucioso e adorado tanto por crítica quanto por público - a própria série "O poderoso chefão". E mesmo que, justiça seja feita, hoje em dia ela seja uma cineasta sensível e competente - "As virgens suicidas" e "Encontros e desencontros" estão aí para comprovar a afirmação - como atriz Sofia é um fiasco. Ela é o único elo perigosamente fraco do filme, e levando-se em conta que sua personagem é vital para o desenrolar da trama, ela quase compromete todo o resultado final. Suas cenas românticas com Andy Garcia e dramáticas com Al Pacino são constrangedoras e é difícil não ficar pensando em como as coisas poderiam ter sido bem melhores se Winona não tivesse se afastado do projeto. Sofia é, sim, a pior coisa de "O poderoso chefão parte III". Felizmente o resto é tão bom que não nos resta alternativa a não ser perdoar Francis por tamanho erro.

Contemplativo, triste, melancólico e saudosista, "O poderoso chefão parte III" encerra com coerência e pompa um dos trabalhos mais sensacionais produzidos pela história de Hollywood. Ainda bem que filmes duram para sempre!

domingo, 24 de outubro de 2010

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR

GREEN CARD, PASSAPORTE PARA O AMOR (Green card, 1990, Touchstone Pictures, 107min) Direção e roteiro: Peter Weir. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: William Anderson. Música: Hans Zimmer. Direção de arte/cenários: Wendy Stites/John Anderson, Ted Glass. Casting: Dianne Crittenden. Elenco: Gerard Depardieu, Andie MacDowell, Bebe Neuwirth, Gregg Edelman, Robert Prosky, Lois Smith. Estreia: 23/12/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Melhor Ator Comédia/Musical (Gerard Depardieu)

Apesar de contar em seu currículo com filmes densos como "O ano em que vivemos em perigo", "A testemunha" e "Sociedade dos poetas mortos" - todos eles merecidamente incensados pela crítica - o australiano Peter Weir sabe ser leve e divertido. Uma prova disso é "Green card, passaporte para o amor", uma saborosa comédia romântica que foge dos padrões do gênero ao acrescentar a eles uma inteligência rara. Não à toa, o filme de Weir recebeu uma merecida indicação ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o blockbuster "Ghost, do outro lado da vida". Escrito pelo próprio diretor para ser a estreia em Hollywood de Gerard Depardieu, "Green Card "consegue ser doce, esperto e, mais do que qualquer outra coisa, consegue se desvencilhar das armadilhas que tramas como a sua normalmente possui. Pode não ser o filme dos sonhos para um público que gosta de romances tradicionais, mas entrega mais à audiência do que paisagens fotogênicas, piadas engraçadinhas e rostos bonitos dá a ela um roteiro consistente, coerência e um casal de atores acima da média interpretando personagens críveis e humanos.

Bronte Parrish (Andie MacDowell) é uma ambientalista que precisa de um marido para que consiga alugar um apartamento que tem uma estufa que é seu sonho de consumo. Georges Faure (Gerard Depardieu) é um francês que precisa de uma esposa americana para que possa conseguir seu visto definitivo de permanência nos EUA. Unidos por suas necessidades, eles se casam no papel e se afastam. No entanto, quando agentes da Imigração desconfiam que há algo de errado no relacionamento entre os dois, a vegetariana, politicamente ativa e discreta Bronte e o carnívoro, fumante e exuberante Georges são obrigados a passar um tempo juntos, descobrindo mais um sobre o outro. O que antes não passava de uma relação de interesse mútuo acaba se transformando em uma grande paixão.



É óbvio que a estrutura do roteiro de "Green card" - e os caminhos que ele segue rumo a seu final - não tem nada de novo e qualquer fã de cinema enxerga suas engrenagens. Mas o texto de Weir não deixa espaço para epifanias repentinas ou cenas dramática e forçadamente construídas para atingir seus objetivos de cativar a plateia. Ao invés de artifícios narrativos, ele apenas apresenta seus protagonistas como eles são, através de atos e não de palavras. Bronte não se diz ambientalista - ela o prova em diversas cenas. Georges não é apenas um estrangeiro em busca de seu espaço - ele é um homem um tanto perdido querendo provar seu valor como compositor. Separados eles são duas pessoas normais. Juntos, eles descobrem coisas a seu respeito que jamais poderiam descobrir sozinhos - ela, a tolerância; ele, a delicadeza. Transitando por uma Nova York fotografada longe dos cartões postais - e onde mais poderia se passar um filme que tanto valoriza o multiculturalismo? - eles são mais do que apenas personagens: soam reais, e isso faz toda a diferença.

Além do mais, Peter Weir não poderia ter escolhido melhor elenco para seu romance. Depardieu faz sua estreia hollywoodiana em grande estilo, demonstrando que por trás do ator sério consagrado na Europa esconde-se um ator versátil com bom timing para comédia - o que seu Golden Globe comprovou - e Andie MacDowell - uma escolha nada convencional - transmite a placidez e a sofisticação de sua personagem sem aparentar muito esforço. A química entre o casal é das melhores e não é preciso longas cenas de beijo ou sexo para comprovar isso. A torcida do público por seu final feliz é inevitável. E até nisso Weir consegue ser original.

Ao contrário do que se poderia esperar, o caminho de Bronte e Georges em direção à felicidade não acontece conforme a cartilha do cinema mainstream. Espertamente o cineasta não tenta subverter radicalmente as regras do jogo a que se propõe. Ele tenta - e consegue com louvor - escapar do previsível, do dèja-vu e do humor fácil, mas jamais nega ao espectador o prazer de assistir a uma história bem contada. No final das contas, é isso que "Green Card" é: uma história de amor que conquista pela simplicidade e pela inteligência.

sábado, 23 de outubro de 2010

TEMPO DE DESPERTAR

TEMPO DE DESPERTAR (Awakenings, 1990, Columbia Pictures, 121min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Oliver Sacks. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Battle Davis, Jerry Greenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Anton Furst/George De Titta Jr. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Eliott Abbott, Penny Marshall, Arne Schmidt. Produção: Lawrence Lasker, Walter F. Parkes. Elenco: Robert DeNiro, Robin Williams, Penelope Ann Miller, Julie Kavner, John Heard, Bradley Whitford, Max Von Sydow, Peter Stormare. Estreia: 20/12/90

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado

Emocionar sem apelar para o piegas - ou ao menos não exagerar demais no sentimentalismo - não é tarefa das mais fáceis. Conquistar a plateia pela emoção sem obrigá-la a catarses sufocantes não é pra qualquer um. Por isso talvez " Tempo de despertar" tenha arrebatado 3 importantes indicações ao Oscar que premiou os melhores de 1990 - melhor filme, ator e roteiro adaptado. Inspirado no livro do médico Oliver Sacks, o filme de Penny Marshall é conciso e sóbrio ao narrar uma história extraordinária - que, por incrível que pareça, aconteceu de verdade.

Em 1969, o doutor Malcolm Sayer (um Robin Williams discreto e na melhor fase de sua carreira) consegue um emprego em uma clínica neurológica do Bronx, a despeito de sua parca experiência com doentes. Logo em seus primeiros dias, ele toma contato com um mundo à parte, formado por pacientes crônicos e sem esperança de cura ou melhora, contando com o apoio da enfermeira Eleanor (Julie Kavner). Atento aos seres humanos com que lida, ele descobre que boa parte deles entrou em seu estado de isolamento em relação ao mundo que os cerca depois de uma epidemia de febre acontecida em NY nos anos 20. Depois de algumas pesquisas, Sayer resolve tentar uma nova forma de tratamento: com a autorização da mãe de um dos pacientes, Leonard Lowe (Robert DeNiro), ele utiliza nos doentes o mesmo remédio que ajuda aqueles acometidos com mal de Alzheimer. As pesquisas dão certo e Lowe, que ficou mais de 30 anos em estato catatônico, volta à vida. Aos poucos, seus colegas de hospital também começam a reagir à medicação.

"Tempo de despertar" pode ser dividido em duas partes distintas. No início, Robin Williams demonstra que a sutileza demonstrada em "Sociedade dos poetas mortos" não era mero acaso. Na pele de Malcolm Sayer - uma espécie de alter-ego de Oliver Sacks - ele é forte e decidido, mas sensível às necessidades das pessoas com as quais lida diariamente. Até mesmo seu romance hesitante com a enfermeira foge do óbvio graças a ele e à sempre competente Julie Kavner. Mas se Williams é dono da primeira metade do filme, sua segunda e última parte deve tudo ao mestre Robert De Niro.

Indicado ao Oscar por sua atuação, o veterano De Niro mostra porque é considerado um dos melhores atores de sua geração. Detalhista e perfeccionista, ele constrói com delicadeza e minúcia um Leonard Lowe que vai do silêncio catatônico à rebeldia contra o hospital; dos primeiros gestos titubeantes de sua volta à vida aos tiques angustiantes de seu retorno à doença. Quando o tratamento proposto por Sayer se prova paliativo e Lowe regride ao que era anteriormente, De Niro impressiona a audiência com uma interpretação arrebatadora. Apaixonado pela jovem Paula (Penelope Ann Miller) - filha de um paciente - ele sente a volta de seus sintomas com o terror e o desespero de quem prevê a própria morte, e leva o público junto em sua tristeza. Pode fazer chorar, mas não o faz de maneira apelativa e/ou fácil.

Juntos, Robert De Niro e Robin Williams fazem de "Tempo de despertar" um belo drama, sensível e delicado, que se distancia muito dos tradicionais "Doença da semana". Provavelmente com outros atores nos papéis centrais, seria de difícil digestão. Com eles, é um belo exemplo de como bons atores conseguem fazer de um filme uma experiência gratificante.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

MINHA MÃE É UMA SEREIA

MINHA MÃE É UMA SEREIA (Mermaids, 1990, MGM Pictures, 110min) Direção: Richard Benjamin. Roteiro: June Roberts. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Jacqueline Cambas. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Casting: Margery Simkin. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Winona Ryder, Bob Hoskins, Christina Ricci, Michael Schoeffling. Estreia: 14/12/90

No final da década de 80, Cher era uma das atrizes mais poderosas da indústria, graças a seu Oscar por "Feitiço da lua", um prêmio que lhe deu um invejável respeito entre seus colegas. Uma das maiores provas de seu poder está em "Minha mãe é uma sereia" - além de ser a protagonista do filme, ela foi a responsável pela substituição do primeiro diretor escolhido - Frank Oz por Richard Benjamin - e pela escalação da então queridinha de Hollywood, Winona Ryder no lugar da promissora Emily Lloyd. A razão alegada por Cher até fazia sentido - ela achava que Winona, por ser morena, era mais verossímil como sua filha do que a loira Lloyd - mas o fato é que, graças a suas escolhas artísticas, "Minha mãe é uma sereia" acabou se transformando em uma deliciosa e simpática comédia dramática. Não muda a vida de ninguém, mas diverte na medida certa.


A trama de "Minha mãe é uma sereia" se passa em 1963, quando a excêntrica Sra. Flax (vivida com gosto por Cher) chega a uma pacata cidade do interior dos EUA acompanhada das duas filhas, a tímida Charlotte (Winona Ryder) e a pequena Kate (Christina Ricci). Solteira e independente, a jovem senhora muda de cidade toda vez que vê um relacionamento falir, o que atrapalha ainda mais a adolescência complexa de Charlotte, que, apesar da origem judaica, sonha em tornar-se freira. Sua fascinação por histórias de santos é deixada de lado, no entanto, quando ela conhece o jovem Joe (Michael Schoeffling), que trabalha na igreja da cidade e que se apaixona por ela. Seu titubeante romance acontece concomitantemente com a nascente relação entre sua mãe e Lou Landsky (Bob Hoskins), dono de uma loja de sapatos.



"Minha mãe é uma sereia" não tem uma história mirabolante ou grandes lances dramáticos. O roteiro de June Roberts se concentra em retratar o clima ainda ingênuo da América pré-assassinato de Kennedy através da relação entre uma mãe à frente de seu tempo e suas filhas tentando descobrir seu lugar no mundo - e nas relações interpessoais. É interessante notar o equilíbrio entre as personalidades de Charlotte (extremamente madura em alguns aspectos e pateticamente ingênua em outros, a ponto de achar-se grávida depois de um simples beijo) e sua mãe (que foge dos relacionamentos que julga fadados ao fracasso, mas tem uma relação de extremo carinho com a família). O contraponto entre a exuberante Cher e o simpático Bob Hoskins funciona à perfeição, assim como a química perfeita entre a atriz/cantora com Winona Ryder e uma adorável Christina Ricci.
 
Contando com uma trilha sonora cuidadosamente escolhida - na qual até mesmo uma divertida canção de Cher tem espaço - e um clima de sessão da tarde, "Minha mãe é uma sereia" consegue agradar sem fazer muito esforço, principalmente devido ao carisma de suas protagonistas.

domingo, 17 de outubro de 2010

EDWARD MÃOS DE TESOURA

EDWARD MÃOS DE TESOURA (Edward Scissorhands, 1990, 20th Century Fox, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, história de Tim Burton e Caroline Thompson. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Richard Halsey. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Richard Hashimoto. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price. Estreia: 14/12/90

Indicado ao Oscar de Maquiagem

O que David Lynch e Tim Burton tem em comum? Aparentemente nada, diriam os mais apressados. Mas basta um olhar mais atento em "Edward Mãos de Tesoura" para perceber que ambos os cineastas tem visões críticas e irônicas em relação à sociedade em que vivem. Mas enquanto Lynch brinca de forma ácida e cruel em relação a isso, Burton prefere um viés mais romântico e delicado, ainda que bastante contundente. Em tom de fábula, "Edward" é o melhor filme do diretor, um trabalho que agrada tanto pelo impressionante visual quanto por sua história, ingênua e delicada como raramente se vê em tempos de efeitos visuais utilizados para mostrar apenas violência e destruição.


A história criada por Burton e sua roteirista Caroline Thompson é simples e eficiente: no fim de um exaustivo dia de trabalho como revendedora de cosméticos, a dona-de-casa Peggy Boggs (Dianne Wiset) chega a um castelo aparentemente abandonado. Lá dentro, encontra o tímido Edward (Johnny Depp), que vive sozinho e isolado desde a morte de seu criador (o veterano Vincent Price em seu último trabalho), um cientista que criou-o com todas as características humanas mas que morreu antes de dar-lhe mãos, substituídas por tesouras. Penalizada com a situação do rapaz, ela o leva para casa, no subúrbio de uma cidadezinha americana. Lá, Edward toma contato com as vizinhas de Peggy - tornando-se atração da região -, sua família e principalmente com sua filha adolescente, Kim (Winona Ryder), por quem se apaixona. No entanto, nem tudo são flores, e o fascínio que ele inicialmente causava transforma-se em preconceito, especialmente quando ele se envolve em um assalto imaginado pelo namorado marginal de Kim (Anthony Michael Hall).




A primeira parceria entre Burton e Johnny Depp (que fala menos de 200 palavras o filme inteiro) é uma fábula deslumbrantemente concebida, tanto em termos visuais quanto emocionais. Narrada em tom de conto de fadas, a história de Edward - variação do bom selvagem - e sua paixão por Kim, é comovente, engraçada e graças principalmente à trilha sonora inspirada de Danny Elfman, tem ares de eterna. Tem cenas hilariantes, momentos de uma ternura palpável e um visual estarrecedor, cortesia principalmente da fotografia de Stefan Czapsky. A direção de arte de Bo Welch também colabora para criar a atmosfera de fantasia imaginada pelo diretor, um artista criativo e que aproveitou o sucesso absoluto de seu "Batman" para legar à plateia uma história de amor e pureza. 

Johnny Depp começou aqui sua fama como ator de personagens excêntricos, em sua mais marcante e memorável caracterização (ajudado pela ótima maquiagem de Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria). Winona Ryder - que apaixonou-se por ele durante as filmagens - está bela e etérea, um contraponto perfeito a seu trabalho, em uma atuação delicada e sensível. E além de tudo, "Edward Mãos de Tesoura" faz pensar e seu roteiro é uma pouco disfarçada metáfora sobre os males que a sociedade é capaz de fazer à inocência.

Simbolismos e metáforas de lado, "Edward Mãos de Tesoura" é um belo filme, um oásis de inteligência em meio a um deserto de boas ideias. Emocionante e delicado, é a obra-prima de Tim Burton, capaz de conquistar o mais empedernido dos corações.

LOUCA OBSESSÃO

LOUCA OBSESSÃO (Misery, 1990, Castle Rock Entertainment, 107min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: William Goldman, novella de Stephen King. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Rob Reiner, Andrew Scheinman. Elenco: James Caan, Kathy Bates, Lauren Bacall, Richard Farsnworth, Frances Sterngahen. Estreia: 30/11/90

Oscar de Melhor Atriz (Kathy Bates)
Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Kathy Bates) 

Em 1986 o cineasta Rob Reiner provou, no singelo "Conta comigo", que Stephen King não é apenas um escritor de histórias de terror. Quatro anos depois, no entanto, ele voltou a adaptar o mais famoso autor do gênero, dessa vez aproveitando seu talento em provocar medo e aflição no excepcional "Louca obsessão". Baseado em uma novela de King, o filme de Reiner não é apenas um exercício de angústia e medo: é antes de tudo um show de Kathy Bates, entregando a interpretação de sua vida em um trabalho que lhe rendeu um merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz.

Primeira atriz a levar uma estatueta por um filme de terror/suspense, Bates é a principal razão para se assistir a "Louca obsessão", ainda que o filme seja um ótimo trabalho de direção e adaptação. Na época uma atriz desconhecida, ela despontou para a fama graças à sua meticulosa atuação como Annie Wilkes, uma enfermeira aposentada - por motivos que o filme revela em seu terço final - que, apaixonada pela obra do famoso escritor Paul Sheldon (James Caan), vê a chance de sua vida quando presencia um acidente de carro sofrido por ele durante uma nevascaLevando-o para sua fazenda isolada e cuidando dele com toda a dedicação, ela sofre um grande golpe quando descobre que Misery Chastain, a personagem criada pelo autor - e venerada por ela - morre no capítulo final de seu último livro. Possessa, ela tranca o escritor em seu quarto e o obriga a escrever um novo romance, ressuscitando sua heroína. A princípio recusando-se a ceder à chantagem, Sheldon logo percebe que sua vida corre grande perigo e resolve acatar as ordens de sua "fã número 1" enquanto pensa em uma maneira de salvar a própria pele.

"Louca obsessão" é uma pequena obra-prima do gênero. O roteiro enxuto de William Goldman segue ao máximo a trama de Stephen King - apenas atenuando um pouco a violência original em uma cena - sem buscar inovações desnecessárias. Concentrando-se basicamente na relação entre Wilkes e Sheldon - com poucas e interessantes cenas à disposição dos ótimos coadjuvantes Richard Fansworth e Frances Sternhagen - Goldman estabelece o conflito entre eles de maneira extremamente satisfatória, dando aos dois atores a chance de trabalhos fascinantes. Mas ainda que James Caan esteja corretíssimo como Paul Sheldon, é Kathy Bates quem comanda o espetáculo, em uma atuação consagradora. Não foi à toa que vários atores recusaram o papel de Sheldon (entre eles Warren Beatty) por perceberem claramente que o papel de Annie Wilkes era extremamente mais passível de uma grande interpretação. Ficando com um papel que interessava a Anjelica Huston e foi oferecido a Bette Midler, Bates tornou-se uma das atrizes mais requisitadas e respeitadas do cinema hollywoodiano. Não era para menos.


Bates dá a Annie Wilkes uma vida e uma alma que poucas intérpretes conseguiriam dar. Em algumas cenas, ela consegue até mesmo ficar bonita, delicada e meiga, enquanto em outras torna-se o mal encarnado. As oscilações de humor de Wilkes são, aliás, o grande trunfo de Rob Reiner, que conduz o espectador a uma viagem assustadora e imprevisível como a própria personalidade de sua protagonista. Sua dualidade anjo/demônio é que seduz o espectador, que dificilmente acaba o filme sem admirar incondicionalmente o talento imenso de Bates.


"Louca obsessão" não é um filme de terror comum. É um trabalho exemplar de direção e interpretação, capaz de manter-se na memória do espectador por um bom tempo. E só por ter revelado Kathy Bates ao mundo já merece todos os aplausos que obteve.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

HENRY & JUNE

HENRY & JUNE (Henry & June, 1990, Walrus & Associates, 136min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, Rose Kaufman, livro de Anais Nin. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Dede Allen, Vivien Hillgrove Gilliam, William S. Scharf. Figurino: Yvone Sassinot de Nesle. Direção de arte: Guy-Claude François. Produção: Peter Kaufman. Elenco: Maria de Medeiros, Fred Ward, Uma Thurman, Richard E. Grant, Kevin Spacey. Estreia: 05/10/90

Indicado ao Oscar de Fotografia

Em 1934, Henry Miller publicou "Trópico de câncer", um dos livros mais influentes da literatura norte-americana do século XX. Proibido nos países de língua inglesa até 1961 e acusado de pornografia e obscenidade, o romance, narrado em primeira pessoa, é hoje considerado uma obra-prima incontestável. Em "Henry & June", adaptação das memórias da escritora Anais Nin - que viveu um romance tanto com Miller quanto com sua esposa, June, durante o processo de escrita do livro - "Trópico de câncer" é uma personagem a mais em uma história de amor, sedução, literatura e mais importante que tudo, a história de uma mulher em busca de sua sexualidade.


Dirigido por Philip Kaufman - experiente em histórias calcadas no erotismo, haja visto "A insustentável leveza do ser" - com seu habitual bom-gosto, "Henry & June" é um filme americano com cara de europeu; é ousado, é elegante, é inteligente e acerta em dar ênfase mais em seu clima e em seu elenco bem-escalado do que nos escândalos que o tema poderia suscitar - e suscitou! Lançado em 1990, o filme causou polêmica ao receber um selo "X" do órgão censor americano, o que o colocava no mesmo patamar de filmes pornográficos. Desnecessário dizer que a decisão deflagrou um movimento de artistas, todos em prol do filme de Kaufman. A grita toda em torno do assunto obrigou a criação de um selo um pouco menos agressivo, que permitia que menores de 17 anos pudessem assistir ao filme, desde que acompanhados por pais ou responsáveis - uma classificação que persiste ainda hoje.



Mas afinal de contas, o que "Henry & June" tem que tanto incomodou os pruridos da melindrosa moral americana? Além da aura de maldito que a obra de Henry Miller ainda tem nos EUA, é inegável que o filme de Kaufman tem um alto teor erótico. Não faltam corpos nus nas mais de duas horas de filme, assim como também sua atmosfera sensual vibra de forma quase palpável. A Paris do início dos anos 30 é vista através da lente caprichada de Philippe Rousselot - que obteve uma merecida indicação ao Oscar por seu trabalho - com mulheres e homens em constante busca pelo prazer. A câmera de Kaufman vasculha bares do submundo, casas de tolerância e becos mal iluminados com a mesma familiaridade com que flutua entre paisagens sofisticadas, e a impecável reconstituição de época contribui para o efeito quase onírico das memórias de Anais, uma mulher normal - apesar dos interesses incomuns, como defender a obra de DH Lawrence em um livro - que tem sua vida transformada através do encontro com um escritor grosseiro e rude, bem diferente dos modos suaves de seu marido, um banqueiro que, apesar de amoroso, não lhe desperta os instintos mais, digamos assim, básicos.

Vivida pela expressiva atriz portuguesa Maria de Medeiros, Anais Nin é apresentada como alguém que busca emoções em sua vida e que, apesar de não se chocar com escritos ditos pornográficos, como "O amante de Lady Chatterley", vive uma vida cômoda e sexualmente quase tediosa com o marido (interpretado por Richard E. Grant). Ao conhecer Henry Miller, já um homem maduro e sem o verniz de uma boa educação (retratado com quase perfeição por Fred Ward, um ator subaproveitado em Hollywood) e posteriormente sua sedutora mulher June (Uma Thurman possivelmente na melhor atuação de sua carreira pré-Quentin Tarantino), Anais passa a transitar em um mundo onde o hedonismo e a literatura convivem lado a lado. Liberta das amarras que a prendiam em um casamento aparentemente feliz, ela incentiva a publicação do livro de Miller e de quebra escreve o seu próprio, também retratando a misteriosa June.

É irônico perceber como uma plateia acostumada a violências gratuitas e sexo totalmente desprovido de sutileza como a americana consegue ser tão tacanha em casos como o de "Henry & June". As cenas de sexo entre Maria de Medeiros e Uma Thurman - dirigidas com competência e sensibilidade - chocaram a audiência que dois anos depois lotaria sessões e mais sessões de "Instinto selvagem", onde Sharon Stone se atracava com homens e mulheres com a mesma energia, mas sem a mesma sutileza. Talvez "Henry & June" toque em pontos mais sensíveis e de maneira mais contundente, ainda que jamais seja desprovido de beleza plástica e delicadeza. É um filme a ser louvado pelo que pretendia ser e pelo que se tornou - um libelo a favor da liberdade sexual e de expressão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

OS BONS COMPANHEIROS

OS BONS COMPANHEIROS (Goodfellas, 1990, Warner Bros, 146min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Martin Scorsese, Nicholas Pileggi, livro de Nicholas Pileggi. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker, James Kwei. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Les Bloom. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Robert DeNiro, Joe Pesci, Ray Liotta, Lorraine Bracco, Paul Sorvino, Ileana Douglas, Samuel L. Jackson. Estreia: 19/9/90

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator Coadjuvante (Joe Pesci), Atriz Coadjuvante (Lorraine Bracco), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Joe Pesci)

Martin Scorsese É gênio! E se ainda havia alguma dúvida a esse respeito - mesmo depois de "Taxi driver" e "Touro indomável" - ela provavelmente foi dissipada com "Os bons companheiros", adaptado do livro de Nicholas Pileggi, por sua vez baseado em fatos reais. Poucas vezes o cinema americano foi tão fascinante, vigoroso e realista quanto aqui, uma verdadeira obra-prima de Hollywood, comandada por um cineasta em estado de graça absoluta e capaz de devolver a fé em bom cinema até ao mais renitente espectador. Deixado de lado na cerimônia do Oscar que premiou o soporífero "Dança com lobos" - devido à mania insuportável do politicamente correto -, "Os bons companheiros" viu o tempo lhe fazer a justiça que merece. Hoje é considerado um dos melhores filmes de gângsters da história. Mas relegá-lo a um nicho tão pequeno é pouco. "Os bons companheiros" merece figurar entre os melhores filmes da história e ponto.

O protagonista de "Os bons companheiros" é Henry Hill, que contou sua história ao escritor Nicholas Pileggi depois de anos escondido sob o manto do Serviço de Proteção à Testemunha americano. Metade italiano metade irlandês - o que o impede de subir aos degraus mais altos da organização mafiosa em que trabalha -, Hill narra sua história desde a adolescência - quando começou a fazer pequenos trabalhos para seus "patrões" - até o momento em que aderiu ao programa da polícia que lhe possibilitou escapar de uma morte quase certa. Vivido com ferocidade por um Ray Liotta que nunca mais conseguiu repetir o mesmo sucesso, Hill é o anti-herói perfeito para Scorsese. Amoral, adúltero, violento e ambicioso, o protagonista de "Os bons companheiros" narra sua trajetória sem meias-palavras e apresenta sua turma de "colaboradores" e "amigos" com uma desenvoltura que encontra na direção do cineasta e na edição genial de Thelma Schoonmaker ecos perfeitos.

A montagem de Schoonmaker, aliás, é provavelmente a maior estrela de "Os bons companheiros". Enxuta, ágil e inteligente, ela conta a história de Henry Hill com um toque de realismo irônico que torna a experiência de assistir ao filme inesquecível. E o cuidado de Scorsese com os detalhes é admirável: nada em seu filme é gratuito, desde o figurino até as sensacionais tomadas de câmera - como um excepcional plano-sequência em que o protagonista leva sua amada Karen (Lorraine Bracco) para conhecer o restaurante onde ele é tratado como um rei: poucos são os cineastas que conseguem, em poucos minutos, dar a sensação de poder que Marty consegue aqui. E se já não bastasse a técnica perfeita, o elenco de "Os bons companheiros" é de tirar o chapéu.

Não é de admirar que Liotta - normalmente um ator bastante limitado - tenha apresentado uma atuação tão brilhante, considerando que seus colegas de elenco são quem são. Robert DeNiro dispensa apresentações e seu trabalho como Jimmy Conway, um dos mentores de Hill, mostra porque ele é um dos atores mais conceituados de sua geração. Paul Sorvino, na pele de Paul Cicero - o ícone máximo de poder visualizado pelo protagonista - exala segurança e amedronta com um simples olhar. Lorraine Bracco - que ficou com um papel que quase foi de Madonna (meu Deus!!) - concorreu ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho impressionante como Karen, a alma-gêmea de Henry. E Joe Pesci... é uma tarefa inglória assistir às cenas de Pesci como o beligerante Tommy DeVito sem ficar estarrecido com a força que o ator imprime à sua interpretação, premiada com um Oscar - e que marcou sua carreira pra sempre.

É difícil explicar porque "Os bons companheiros" é tão bom! Dono de um roteiro esperto, com uma direção que beira a perfeição e um elenco nunca aquém do espetacular - além de uma história chocantemente verdadeira - é um filme para ser visto e revisto sempre com um olhar de admiração! Legítima obra-prima.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CORAÇÃO SELVAGEM

CORAÇÃO SELVAGEM (Wild at heart, 1990, Polygram Filmed Entertainment, 125min) Direção e roteiro: David Lynch, romance de Barry Gifford. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Amy Stofsky. Direção de arte: Patricia Norris. Casting: Johanna Ray. Produção executiva: Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Mony Montgomery, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Nicolas Cage, Laura Dern, Diane Ladd, Willem Dafoe, Isabella Rossellini, J.E. Freeman, Crispin Glover, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Sheryl Lee, Sherilyn Fenn, Pruitt Taylor Vince. Estreia: 17/8/90

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Diane Ladd)
Palma de Ouro Melhor Filme Festival de Cannes

Dando seguimento à sua obsessão em devassar o espírito americano em filmes que unem o sublime e o bizarro, o corriqueiro com o exagerado, David Lynch surpreendeu o mundo em 1990, levando a Palma de Ouro do Festival de Cannes com "Coração selvagem", em que ele vai ainda mais fundo em seu objetivo, ao subverter um gênero caro ao imaginário cinematográfico: as histórias de amor.

Sim, "Coração selvagem" É uma história de amor. Mas antes que alguém acuse Lynch de ter ficado sensível e apaixonado, é preciso que se olhe com atenção seu filme: nunca um casal esteve tão longe das convenções quanto Sailor Ripley (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern, em seu segudo filme com o diretor). Na primeira cena do filme, Sailor arrebenta a cabeça de um desafeto, com uma violência poucas vezes vista no cinema. Preso por homicídio, ele sai da cadeia alguns anos depois e reencontra sua amada, para que enfim possam ser felizes juntos. O que o alegre casal não pode imaginar é que a mãe de Lula (uma enlouquecida Dianne Ladd, mãe de Laura Dern também na vida real), apaixonada por Sailor, não tem a menor intenção de deixar que eles sejam felizes e, para isso, contrata matadores de aluguel para acabar com seu idílio amoroso.

 


Só mesmo a mente doentia de David Lynch seria capaz de homenagear o singelo "O mágico de Oz" da maneira como o faz. Shery Lee, a Laura Palmer de sua famosa série "Twin Peaks", surge como uma fada boa, que aconselha Sailor a não abandonar a sua meta de ficar com Lula e no meio de seu caminho surgem personagens e cenas que fazem sentido apenas no universo todo particular do diretor. O público é brindado com uma Isabella Rossellini desleixada no meio do deserto, Sherylin Fenn morrendo em um acidente de carro e preocupada com o cabelo e um Willem Dafoe com a dentadura mais asquerosa da história do cinema tentando seduzir Laura Dern em um quarto de hotel cheirando a vômito. Sim, é uma estética desagradável, mas é ao mesmo tempo hipnotizante e coerente com a carreira sui-generis do cineasta.

"Coração selvagem" não é para qualquer estômago. Mas se até a normalmente sisuda Academia de Hollywood rendeu-se à excêntrica atuação de Dianne Ladd, indicando-a ao Oscar de atriz coadjuvante, é sinal de que de vez em quando seus membros conseguem surpreender. Até mesmo o extremismo do cinema de Lynch - que não poupa o espectador de personagens bizarros, violentos e idiossincráticos - é fascinante, em "Coração selvagem". Nicolas Cage, do alto de sua canastrice e Laura Dern - uma atriz bem distante dos padrões de beleza hollywoodianos - formam um dos casais mais estranhos a cruzar as telas e Ladd se entrega de forma corajosa a uma personagem difícil e ingrata. Nem mesmo a imagem de Cage cantando "Love me tender" vestindo uma jaqueta de couro de jacaré - símbolo de sua liberdade pessoal - é capaz de tirar da mente a viagem fora do comum comandada por David Lynch.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

LINHA MORTAL

LINHA MORTAL (Flatliners, 1990, Columbia Pictures, 115min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Peter Filardi. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Robert Brown. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Anne L. Kuljian. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Peter Filardi, Michael Rachmil, Scott Rudin. Produção: Rick Bieber, Michael Douglas. Elenco: Kiefer Sutherland, Kevin Bacon, Julia Roberts, William Baldwin, Oliver Platt, Hope Davis. Estreia: 10/8/90

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

No mesmo ano em que "Ghost, do outro lado da vida" rendeu milhões e milhões de dólares pelos cinemas mundo afora, um suspense estiloso, com uma ideia instigante sobre a vida após a morte e um elenco de jovens astros em ascensão - em especial a linda mulher Julia Roberts - não poderia dar errado, mesmo com a direção do irregular Joel Schumacher. E não deu. "Linha mortal", co-produzido pelo ator Michael Douglas, fez sucesso de crítica e bilheteria, mesmo não cumprindo tudo que promete em seu início intrigante.

Liderados pelo brilhante Nelson (Kiefer Sutherland), um grupo de talentosos estudantes de Medicina resolve investigar o que acontece após a morte física, causando em si mesmo a morte por alguns minutos. Testando cada vez mais seus próprios limites, o rebelde David Labraccio (Kevin Bacon), o don-juan Hurley (William Baldwin) e a reservada Rachel Mannus (Julia Roberts, em uma personagem distante anos-luz de sua prostituta sedutora de "Uma linda mulher", o que comprova seu talento), acompanhados do tímido Steckle (Oliver Platt), chegam cada vez mais longe da vida, buscando as respostas que podem fazê-los famosos e/ou mais conscientes de sua finitude. Acontece que, em como todo bom suspense, as coisas não saem exatamente como esperadas. Cada um deles, de volta à vida, traz junto consigo algo mal-resolvido de seu passado. Assim, Nelson traz um amigo de infância que morreu devido à sua perseguição, Labraccio passa a ter visões de uma colega de classe que era humilhada por ele, Hurley começa a sentir-se ameaçado por imagens de mulheres que ele filmou durante o ato sexual e Rachel volta a ver o pai, que ela julga ter cometido suicídio por sua causa.

A trama de "Linha mortal" é, sem dúvida, extremamente interessante e surgiu no momento certo. O clima mórbido é acentuado pela ótima fotografia de Jan De Bont, e a música de James Newton Howard funciona espetacularmente, em especial em seu casamento perfeito com a criativa direção de arte de Eugenio Zanetti. O problema é que algumas pontas soltas incomodam - menos que as piadinhas de Oliver Platt, no entanto - e, se não chegam a estragar a diversão impedem de transformar o filme em um dos melhores suspenses de sua época.

Ao fugir de discussões filosóficas/existencialistas que a trama implora em suscitar, o roteiro de Peter Filardi opta por contar apenas uma boa história. É bem mais do que normalmente acontece, mas deixa no ar um gostinho de quero-mais. Com bom clima, inteligência e o talento de Kiefer Sutherland e Julia Roberts - na época um casal dos mais promissores -, no entanto, é diversão garantida.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA (Presumed innocent, 1990, Warner Bros, 127min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Frank Pierson, Alan J. Pakula, romance de Scott Turow. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Evan Lottman. Música: John Williams. Figurino: John Boxer. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Carol Joffe. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Susan Solt. Produção: Sydney Pollack, Mark Rosenberg. Elenco: Harrison Ford, Brian Dennehy, Raul Julia, Bonnie Bedelia, Greta Scacchi, Paul Winfield, Bradley Whitford, Jesse Bradford, Joseph Mazzello, Jeffrey Wright. Estreia: 27/7/90

Publicado em 1988, o livro "Acima de qualquer suspeita", escrito pelo advogado Scott Turow, transformou-se imediatamente em um fenômeno de vendas. Sua prosa inteligente, que desvendava os meandros da justiça americana, aliada a uma intrigante história policial, encantou milhares de leitores e não demorou para que vários estúdios de Hollywood disputassem seus direitos a peso de ouro. A Warner Bros foi quem se deu melhor na guerra e, com o veterano Alan J. Pakula - de "Todos os homens do presidente" - no comando e Harrison Ford no papel principal, não tinha como dar errado. Mas, ao assistir-se à adaptação cinematográfica do best-seller de Turow, fica-se com a clara impressão de que certo também não deu.

"Acima de qualquer suspeita" tem todos os ingredientes de que um bom filme policial precisa para conquistar a audiência: uma trama coerente e recheada de pistas falsas, suspeitos interessantes e um final surpreendente, além de um algo a mais que sempre faz a diferença em termos comerciais: um grande astro. No entanto, a interpretação apática de Harrison Ford como o protagonista Rusty Sabitch, em vez de ajudar, apenas atrapalha o que já não é tão bom como poderia. Somado à direção anêmica de Pakula, o trabalho de Ford deixa bastante claras suas deficiências como ator em um papel que poderia render muito mais nas mãos de um Michael Douglas, por exemplo.

Rusty Sabitch (vivido no piloto-automático por Ford) é um bem-sucedido promotor público de Nova York que tem sua vida transformada quando é escalado por seu mentor (Brian Dennehy) para investigar o violento assassinato de Carolyn Polhemus (Greta Scaachi), sua colega de promotoria. Bela, ambiciosa e pouco afeita a coisas como ética e sentimentalismos, Carolyn foi estuprada e morta a golpes na cabeça e Rusty, em sua investigação, começa a descobrir as sujeiras por trás dos cargos públicos de sua profissão - além de particularidades pouco lisonjeiras sobre a vítima, com quem teve um tórrido e obsessivo caso extra-conjugal. As investigações sofrem uma reviravolta, no entanto, quando todas as pistas levam a um principal suspeito do crime: o próprio Rusty. Sem o apoio de seus superiores, ele conta apenas com a ajuda do talentoso advogado Sandy Stern (Raul Julia) e da esposa, Barbara (Bonnie Bedelia).

É difícil acreditar que um cineasta competente como Alan J. Pakula pôde ter errado a mão de maneira tão errônea quanto aqui. "Acima de qualquer suspeita" é um filme policial preguiçoso, que não dá à sua audiência o gostinho de brincar de detetive nem ao menos conta com consistência a história de seu protagonista, envolvido em uma trama rocambolesca e um caso de amor frustrado. Nem mesmo a chocante (para quem não leu o livro) revelação final consegue empolgar o público, em parte graças à absoluta falta de vontade do elenco. Com a gloriosa exceção de Raul Julia - que faz o que pode com o pouco que lhe dá o roteiro mal adaptado - ninguém no filme está além de corriqueiro ou banal - quando não está simplesmente péssimo, como é o caso de Greta Scaachi, que, de posse de um papel crucial, não faz mais do que piscar os olhos para mostrar que está interessada romanticamente em alguém ou fechar a cara para dizer o contrário.

É uma pena que "Acima de qualquer suspeita" - um belo livro policial, bem escrito e com coerência rara - não tenha tido uma adaptação mais bem-sucedida. Frustrante para os fãs do livro e para os entusiastas do gênero, é um pálido exemplar, se comparado à sua origem literária e ao currículo de seu diretor.

domingo, 10 de outubro de 2010

GHOST - DO OUTRO LADO DA VIDA

GHOST, DO OUTRO LADO DA VIDA (Ghost, 1990, Paramount Pictures, 127min) Direção: Jerry Zucker. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Walter Murch. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Joe D. Mitchell. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Steven-Charles Jaffe. Produção: Lisa Weinstein. Elenco: Patrick Swayze, Demi Moore, Whoopi Goldberg, Sam Goldwin. Estreia: 13/7/90

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Roteiro Original
Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg)

Não é exatamente difícil explicar os motivos que fizeram o público gostar tanto de "Ghost, do outro lado da vida". Sua história de amor é comovente e a química entre seus protagonistas é genuína e fotogênica; seu lado cômico tem momentos verdadeiramente hilariantes; sua trama policial consegue ser interessante na medida certa; e seu tema espírita não poderia ter sido mais adequado a um final de século. O que realmente faz pensar é por que seu sucesso foi tão, mas tão grande. Indicado inclusive a um exagerado Oscar de Melhor Filme - além de levar duas estatuetas (o questionável prêmio de roteiro original) e o mais que merecido de atriz coadjuvante para a sempre ótima Whoopi Goldberg - a obra de Jerry Zucker (mais conhecido por ser parte do trio de cineastas responsáveis por comédias amalucadas como "Apertem os cintos, o piloto sumiu!") é apenas mais uma história de amor como tantas que chegam às telas semanalmente, mas que teve a sorte de contar com uma equipe mais talentosa do que o normal.

Senão vejamos: o casal Sam Wheat (Patrick Swyze) e Molly Jensen (a bela Demi Moore) está no auge da paixão e da ascensão social. Acabaram de comprar um excelente apartamento, são bem-sucedidos em suas profissões - ele bancário, ela artista plástica - e, lindos e jovens, tem de repente seus sonhos destruídos quanto, em um assalto, Sam morre assassinado. Desesperada, Molly nem percebe que o melhor amigo de seu marido, o ambicioso Carl (Tony Goldwin) está apaixonado por ela e pior ainda, é o responsável pelo crime. Em espírito, Sam descobre a verdade e, através de Oda Mae Brown (Whoopi Goldberg), uma medium que se julgava charlatã, tenta contar-lhe a verdade.



E a bem da verdade é só isso. A trama escrita por Bruce Joel Rubin mistura os ingredientes de diversos gêneros e, justiça seja feita, é feliz em nunca atropelá-los. Os momentos cômicos, cortesia da fantástica Whoopi Golberg, são engraçadíssimos e as cenas românticas aproveitam ao máximo a química entre Swayze (péssimo ator de grande carisma) e Demi Moore e da bela trilha sonora de Maurice Jarre (que inclusive ressuscita a linda "Unchained melody", dos Righteous Brothers, que tocou à exaustão à época do filme...) A trama policial não chega a empolgar, mas de certa forma também não atrapalha o andamento do filme, dono de um ritmo exemplar, que nunca deixa o espectador cansado e/ou entediado. É tudo tão milimetricamente planejado no roteiro de  "Ghost" que o público nem percebe que o filme só fica realmente bom depois de mais de meia-hora de projeção, quando entra em cena seu maior trunfo: a excelente Whoopi.

Em um papel absolutamente distante da sofrida Celie de "A cor púrpura" - filme que a lançou e demonstrou seu imenso talento - Goldberg rouba descaradamente todas as cenas das quais participa, colocando o filme de Zucker no bolso. Dona de um timing perfeito e repleta de nuances, Whoopi é uma atriz tão competente que quando não está em cena faz uma falta danada. Poucas vezes o Oscar e o Golden Globe de atriz coadjuvantes foram tão merecidos.

Mas o grande problema de "Ghost" é um só: ele já havia sido feito antes e, para sua sorte, seu irmão mais velho não empolgou nem um pouco nas bilheterias. Lançado em 1989, "Além da eternidade", de Steven Spielberg, não fez o sucesso esperado, mas conta praticamente a mesma história - sem os lances cômicos e policiais - com a diferença que seus protagonistas Richard Dreyfuss e Holly Hunter são atores muito mais talentosos, ainda que menos atraentes. "Ghost" é divertido, sim. Emociona os mais sensíveis e ficou na mente e no coração de muita gente mundo afora. Mas está longe de ser a obra-prima que tanto se apregoou.

sábado, 9 de outubro de 2010

O VINGADOR DO FUTURO

O VINGADOR DO FUTURO (Total recall, 1990, Carolco International, 113min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ronald Shusett, Dan O'Bannon, Gary Goldman, conto "We can remember if you wholesale", de Philip K. Dick. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Carlos Puente, Frank J. Urioste. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Mike Fenton, Valorie Messalas, Judy Taylor. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Buzz Feitshans, Ronald Shusett. Elenco: Arnold Schwarzennegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside. Estreia: 01/6/90

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros
Oscar especial de Efeitos Visuais

Uma das mais famosas obras do escritor Philip K. Dick deu origem ao clássico "Blade Runner, o caçador de andróides", que é lembrado bem mais por sua inteligência do que por seu teor adrenalínico. Um dos mais bem-sucedidos filmes do cineasta holandês Paul Verhoeven é "Robocop, o policial do futuro", blockbuster que usou e abusou de ação, violência e efeitos visuais para atingir seu público. O que resulta na união entre esses dois estilos tão diferentes de se contar uma história  é justamente "O vingador do futuro", um filme de ficção científica quase cerebral, caríssimo e estrelado pelo astro-mor do gênero "pancadaria": Arnold Schwarzenegger. E é justamente essa diferença de estilos que ajuda - e também atrapalha um pouco - no resultado final.

Anos-luz à frente de outros filmes de aventura que são lançados nos verões americanos, "O vingador do futuro" tem a seu favor uma história bem mais interessante e intrigante do que o normal: em 2084, Marte é uma colônia da Terra, governada pelo déspota Connhagen (Ronny Cox) e em vias de eclodir em uma guerra civil. Praticamente escravizados e sem direito nem mesmo à quantidade básica de oxigênio, os rebeldes são liderados por um misterioso líder, que vive escondido. Schwarzenegger vive Doug Quaid, um operário da construção civil que, intrigado por constantes pesadelos que os colocam em Marte acompanhado de uma morena desconhecida, resolve implantar em seu cérebro - através de uma agência de viagens virtuais - , lembranças de uma viagem de férias ao planeta. Acontece que, durante o processo, algo dá muito errado e Quaid descobre que na verdade ele não só já esteve em Marte como também teve sua memória apagada po razões que ele terá que descobrir antes que seja executado. E nem mesmo sua bela esposa, a misteriosa Lori (uma Sharon Stone pré-"Instinto selvagem") parece ser totalmente inocente.

A trama de "O vingador do futuro" é intrincada mesmo, assim como parece. E é essa complexidade em sua história que faz com que o filme de Verhoeven saia da vala comum dos filmes de verão descerebrados. As cenas repletas de violência e ação comandadas pelo cineasta dividem um espaço generoso com um roteiro repleto de pistas falsas, reviravoltas e até mesmo uma espécie de metáfora a respeito do fascismo - sim, Schwarzenegger, futuro governador da Califórnia, fez um filme onde o fascismo, ainda que mal disfarçado, era o vilão. A violência, aliás, é outra qualidade de "Total recall": enquanto hoje em dia qualquer cena mais forte logo vira motivo de gritaria, o filme de Schwarza e companhia não tem medo de pegar pesado, já que até mesmo um cadáver é utilizado como escudo humano. Tudo bem que o filme recebeu cortes e até a temível ameaça de um selo "X" da censura americana, mas é corajoso o bastante para ser elogiado.

O problema de "O vingador do futuro", no entanto, começa em seu terço final. A impressão nítida que se tem é que Verhoeven deixou de pensar nas implicações político/sociais da trama para concentrar-se  em cenas de ação de cair o queixo, violência desmedida e efeitos visuais caprichados - ainda que muito datados hoje em dia (e não pode-se deixar de falar do visual extremamente cafona...) Essa decisão enfraquece o que poderia ser ainda o melhor filme da carreira de Schwarzenegger (título que "O exterminador do futuro 2" mantém com louvor). Como está, é uma ficção científica bem acima da média, mas muito aquém do que poderia ter sido e muito longe de tornar-se um clássico como o já citado "Blade Runner".

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ATAME!

ATAME! (Atame!, 1990, El Deseo S/A, 111min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Ennio Morricone. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Pepón Sigler. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Enrique Posner. Elenco: Victoria Abril, Antonio Banderas, Loles Leon, Francisco Rabal, Julieta Serrano. Estreia: 22/01/90

"Tenho 23 anos, 50 mil pesetas e serei um bom marido para ti e um bom pai para os teus filhos."  Assim se apresenta à atriz Marina Osório o jovem Ric, recém-saído de uma instituição psiquiátrica e que, para chamar-lhe a atenção, sequestrou-a em seu próprio apartamento e a amarrou e amordaçou. Ele é apaixonado por ela desde que, em uma de suas várias fugas do hospital onde morava, encontrou-a em uma boate e fez sexo com ela. Esse amor, obcecado, cego e até um tanto ingênuo é o cerne de "Atame!", uma bizarra e excitante história de amor dirigida pelo mais apropriado cineasta possível: o espanhol Pedro Almodovar.

Alçado à glória depois do espetacular sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos", Almodovar conseguiu surpreender meio mundo com sua visão particular (doentia/debochada/sexy) de "O colecionador" , filme de suspense dirigido por William Wyler em 1965 e estrelado por Terence Stamp e Samantha Eggar. Ao acrescentar altas doses de erotismo à sua já idiossincrática visão de mundo - que inclui um amor exagerado ao kitsch, um humor politicamente incorreto e seu alto teor iconoclasta - Almodovar encantou os fãs de bom cinema, mas incomodou a ala mais conservadora do público. Os exibidores americanos, por exemplo, não gostaram nadinha da longa cena de sexo entre os protagonistas e liberou-o para as salas de exibição com um selo de filme pornográfico. A gritaria em torno desse absurdo, inclusive - assim como aconteceu com o belo "Henry & June", de Philip Kaufman - foi o estopim para que a famigerada classificação X desse lugar, junto à censura americana, ao menos assustador NR-17 (menores de 17 anos entram no cinema somente acompanhados dos pais...) Mas o fato é que "Atame!" é bem mais do que  um filme despudorado (no bom sentido) dirigido por um espanhol fora de controle (no melhor sentido) e rebelde às convenções morais (num sentido ainda melhor). "Atame!" é uma espécie de comédia romântica à base de anfetaminas. E é absurdamente delicioso!

Quando "Atame!" começa, o jovem Ric (vivido com gosto e uma alta dose de ingenuidade malandra por Antonio Banderas em seu melhor momento) está saindo de uma instituição onde passou a maior parte de sua vida - e onde aprendeu vários ofícios, além de ter dormido com todas as enfermeiras que lhe passaram pela frente. Seu maior objetivo, ao encarar novamente o mundo com liberdade, é conquistar a mulher que ama, Marina Osório (Victoria Abril), uma atriz pronô que está tentando abandonar o vício em drogas e começar uma carreira como intérprete séria ao fazer um filme com um veterano diretor (Francisco Rabal). Mas para convencer Marina que ele é o homem certo para ela, ele precisa apelar para seu plano B - raptá-la.



"Atame!" é Almodovar em seu melhor. A trilha sonora rasgada de Ennio Morricone casa com perfeição com as personalidades histéricas das personagens, com as corres berrantes da direção de arte característica da obra do cineasta - onde imagens de santos dividem espaço com vibradores em forma de mergulhadores - e com a história, por si só absurda e apaixonante. Assim como acontece com a maioria das criações de Almodovar, o amor de Ric não é um amor tradicional - ele não tenta conquistar Marina com poemas ou serenatas (até tenta com uma caixa de chocolate), mas sequestrando-a. Não é um beijo que ele lhe dá no primeiro encontro na casa dela - é uma cabeçada... Ric é a quintessência do amor na obra de Almodovar - erótico, compulsivo, passional, mas ainda assim absolutamente sincero.

E a tão falada cena de sexo de "Atame!" - elogiada até mesmo por Elia Kazan e que não acaba onde normalmente acontece quando um filme é pudicamente hollywoodiano - é, sem sombra de dúvida, uma das mais quentes, reais e excitantes da história do cinema. Almodóvar é mestre!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

UMA LINDA MULHER

UMA LINDA MULHER (Pretty woman, 1990, Touchstone Pictures, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: J.F. Lawton. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Garrett Lewis. Casting: Dianne Crittenden. Produção executiva: Laura Ziskin. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Richard Gere, Julia Roberts, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Ralph Bellamy. Estreia: 23/3/90

Indicado ao Oscar de Atriz (Julia Roberts)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Julia Roberts)

Alguns filmes tem a sorte de ser feitos na hora certa, com o elenco certo e do jeito certo. "Uma linda mulher", uma das comédias românticas mais bem-sucedidas da história pode ser considerado como um deles. Escrito primeiramente como uma sombria comédia sobre o triste mundo da prostituição, o roteiro de J.F. Lawton transformou-se em uma história de amor que é, até hoje, um dos maiores sonhos de consumo do público feminino. Ao transportar a história de Cinderela para o Hollywood Boulevard, "Uma linda mulher" não apenas ganhou em bom humor, glamour e alto-astral, mas também revelou ao mundo aquela que se tornaria a atriz mais bem paga das décadas seguintes e uma das mais duradouras estrelas na voraz fogueira das vaidades que é o mundo do cinema: Julia Roberts.

Dando continuidade à mais bem-sucedida fase de sua carreira - que iniciou-se como símbolo sexual no final dos anos 70 e passou por um ostracismo duradouro que começou a ir embora com o sucesso comercial do policial "Justiça cega" - Richard Gere vive, em "Uma linda mulher", aquele que talvez seja sua personagem mais marcante, o empresário Edward Lewis, um multimilionário incapaz de demonstrar sentimentos, mas que é um expert na hora de comprar empresas em dificuldades financeiras e depois vendê-las em partes. Viajando a Los Angeles a negócios, Lewis acaba se perdendo nas ruas da cidade e, ao solicitar informações, conhece a bela prostituta Vivian Ward (Julia Roberts). Um tanto encantado com os modos vibrantes e autênticos da moçoila, ele faz a ela uma proposta irrecusável; ser sua acompanhante durante a semana em que ele será obrigado a permanecer na cidade, comparecendo com ele a eventos sociais - e o que é ainda melhor, com direito a ficar com todas as roupas compradas para isso, além de polpudos três mil dólares. Frequentando restaurantes sofisticados, indo à ópera e vivendo uma vida de princesa - em contraste com a violência e as necessidades financeiras com que estava acostumada - não demora para que Vivian se apaixone por Edward, mesmo tendo plena convicção da impossibilidade de seu romance.



Um sucesso tanto ensurdecedor quanto surpreendente à época de seu lançamento, "Uma linda mulher" acabou tornando-se cult por excelência. Adorado pela parcela de público que prefere diversão inofensiva à elocubrações filosóficas dentro de uma sala de cinema, o filme de Garry Marshall é um conjunto de qualidades certeiras para o êxito de um exemplar do gênero. A química entre o casal central é espetacular (ainda que sua reunião no apenas razoável "Noiva em fuga", dez anos depois, não tenha repetido o mesmo frisson), a trilha sonora é uma delícia - com resgate inclusive da ótima canção-título de Roy Orbison -, as piadas são engraçadas na medida certa, o romance - apesar de tudo - é verossímil e, por que negar?, até mesmo o tom um tanto fútil - precursor da série "Sex and the city" - funciona às mil maravilhas. Então por que tanta gente adora falar mal de Uma linda mulher?

Críticos pretensamente sérios não se permitem gostar de "Uma linda mulher". O acusam de ser vazio, de ser apenas mais uma comédia romântica igual a dezenas de outras e, quando não tem mais argumentos, até mesmo repudiam sua ideologia - sim, há quem acuse o final feliz de Vivian Ward de ser responsável por jogar meninas de família nas calçadas... É sério!!! Mas "Uma linda mulher" é uma divertida história de amor, capaz de alegrar qualquer tarde chuvosa, com um balde de pipocas e uma garrafa de Coca-cola em mãos - ou champagne e morangos, se você tiver sorte...