sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.



O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

MAVERICK


MAVERICK (Maverick, 1994, Warner Bros/Icon Entertainment, 127min) Direção: Richard Donner. Roteiro: William Goldman, personagens criados por Roy Huggins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Stuart Baird, Mike Kelly. Música: Thomas Newman. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean. Produção: Bruce Davey, Richard Donner. Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Graham Greene, Dan Hedaya. Estreia: 20/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino

"Maverick", dirigido pelo mesmo Richard Donner da série "Máquina mortífera" se beneficiou de duas tendências comerciais que estavam em voga no início dos anos 90: os faroestes e as adaptações de séries de TV para o cinema. Tanto "Os imperdoáveis" - western de Clint Eastwood - e "O fugitivo" - estrelado por Harrison Ford - haviam sido grandes sucessos de bilheteria e o primeiro chegou a faturar o Oscar de melhor filme. Aproveitando a onda, Donner juntou-se ao amigo Mel Gibson e correu pro abraço. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano, "Maverick"  fechou as contas com um belo saldo, e de quebra, apesar de não ter chegado nem perto das cerimônias de premiação, parece ter divertido tanto o elenco quanto a plateia.

Criado por Roy Huggins na década de 50 e interpretado na TV por James Garner, Bret Maverick chegou às telas na pele de Mel Gibson, em vias de tornar-se um diretor respeitado e oscarizado pelo épico "Coração valente". No roteiro de William Goldman - que ecoa, guardadas as devidas proporções, seu trabalho em "Golpe de mestre" - Maverick é um conceituado jogador de pôquer que precisa juntar dinheiro suficiente para participar de um torneio milionário que acontecerá em um barco. Disposto a arrecadar a grana necessária, ele vai em busca de alguns credores, encontrando em seu caminho o xerife Cooper (o próprio Garner em participação afetiva) e a trapaceira Annabelle Bransford (Jodie Foster pela primeira vez em um papel menos sério dos que costuma interpretar). Juntos, eles passarão por situações inacreditáveis - diligências desgovernadas, ataques indígenas (em uma participação hilária de Graham Greene), roubos e trapaças, além de um violento rival (Alfred Molina) que, a mando de alguém cuja identidade ninguém conhece, tenta impedí-lo de inscrever-se no torneio.

 

"Maverick" é quase um "Máquina mortífera" no velho-oeste. É impossível dissociar Bret Maverick de Martin Riggs, vivido por Gibson na série do mesmo Richard Donner - e a impagável participação especial de Danny Glover reitera a afirmação. O senso de humor familiar, o talento em dirigir cenas de ação e o controle do ritmo identificam claramente o estilo do cineasta, que iniciou uma brilhante carreira no final dos anos 70 com "Superman, o filme" e depois do quarto capítulo de "Máquina mortífera", em 1998, entrou em uma curva descendente que ainda se mantém. Em "Maverick", Donner brinca com os clichês do velho oeste com um carinho evidente - até mesmo a direção de arte soa um tanto fake, o que lhe dá um certo charme retrô que encontra no elenco escolhido acertadamente um complemento extremamente feliz.

Se Gibson já estava estabelecido como um ator de filmes de ação quando interpretou Bret Maverick o mesmo não pode ser dito de Jodie Foster. Atriz séria, respeitada e especializada em papéis fortes e densos, a vencedora de dois Oscar apresenta, como Annabelle Bransford, uma faceta até então desconhecida para seus inúmeros fãs. Com um perfeito timing cômico e uma feminilidade poucas vezes explorada em seus trabalhos, Foster rouba a cena, principalmente quando atua com Mel Gibson - a química do casal é hilariante e eles aproveitam os diálogos de Goldman com inteligência e frescor. Ver Jodie tão à vontade - na época em que estava em vias de estrear mais um de seus dramas pesados, "Nell", que lhe deu mais uma indicação ao Oscar - é mais um motivo forte para que se assista a Maverick.

Divertido do começo ao fim, "Maverick" é uma sessão da tarde com todas as qualidades que fazem dos filmes de Richard Donner tão agradáveis. Com um humor que não ofende ninguém, um grupo de atores em dias inspirados e um roteiro que nunca cai no marasmo, é uma pedida perfeita para momentos de tédio. Não muda a vida de ninguém, mas diverte.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A RAINHA MARGOT

A RAINHA MARGOT (La reine Margot, 1994, Renn Productions, 144min) Direção: Patrice Chereau. Roteiro: Patrice Chereau, Danielle Thompson, romance de Alexandre Dumas. Fotografia: Phillipe Rousselot. Montagem: François Gédigier, Hélène Viard. Música: Goran Bregovic. Figurno: Moidele Bickel. Direção de arte: Richard Peduzzi, Olivier Radot. Produção executiva: Pierre Grunstein. Produção: Claude Berri. Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Angladé, Pascal Greggory, Miguel Bosé, Thomas Kreschtmann. Estreia: 13/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Virna Lisi)
Vencedor do Prêmio do Júri - Festival de Cannes

Sempre que um filme francês foge de seu tradicional padrão - leia-se ritmo lento, verborragia excessiva e conteúdo existencial/dramático - a imprensa especializada apressa-se em encontrar nele ecos do cinema americano, depreciando suas qualidades próprias. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com a adaptação do romance "A rainha Margot", do escritor Alexandre Dumas. Violento, ágil e principalmente muito caro, o filme de Patrice Chereau encontrou brava resistência junto à crítica, que o acusou de ser derivativo do cinema hollywoodiano. Isso não o impediu, porém, de encontrar seu público - fez enorme sucesso comercial - e de encantar o júri do Festival de Cannes - que deu a Virna Lisi o merecidíssimo prêmio de melhor atriz.

Ainda que seja coadjuvante - a protagonista é vivida por uma deslumbrante Isabelle Adjani - a Catarina de Médicis criada por Lisi é, sem sombra de dúvida, a personagem mais interessante do filme, uma presença maligna e ambiciosa que rouba todas as cenas em que aparece. Espectral como um fantasma e malévola como tal, Catarina manipula todos a seu redor, com o objetivo único de entregar o poder da França a seu filho preferido, o Conde D'Anjou (Pascal Greggory), mesmo que, para isso, tenha que ser a responsável por um dos episódios mais sangrentos da história de seu país.


A trama de Dumas - adaptada a contento por Chereau e Danielle Thompson - se passa na Paris de 1572, quando as brigas entre católicos e protestantes estão a um passo de transformarem-se em uma guerra civil. Para apaziguar ambos os lados, o Rei Charles (o ótimo Jean-Hugues Angladé) acata a ideia de sua mãe, Catarina de Médicis (Virna Lisi) de casar sua irmã católica, Margot (Isabelle Adjani) com Henrique de Navarre (Daniel Auteiuil), um rei protestante. O que era para ser uma ocasião festiva, no entanto, torna-se uma noite sangrenta quando, devido a articulações de Catarina, centenas de protestantes são assassinados violentamente. Refugiando-se da morte no quarto de Margot - casada contra a vontade e não exatamente um exemplo de puritanismo, uma vez que tem dezenas de amantes - o jovem La Môle (Vincent Perez) acaba se apaixonando por ela e sendo correspondido. Para ficarem juntos, eles precisam sobreviver às intrigas do palácio e à violência da ambição de Catarina e seu séquito, capazes de conspirações e assassinatos covardes.

Vendido ao mercado internacional como uma história de amor, na verdade "A rainha Margot" é um épico repleto de suspense, interpretado por alguns dos melhores atores franceses de sua época. Ao lado da impressionante Virna Lisi e da bela Isabelle Adjani estão nomes como Daniel Auteil e Jean-Hugues Angladé, que extraem o melhor possível de seus papéis, em especial o segundo, que, na pele do fraco rei Charles - que tem um filho bastardo mas não a coragem de assumí-lo perante a corte e sua dominadora mãe - dá um show particular. Principal vítima das articulações maldosas de sua progenitora, ele acaba sendo sacrificado por engano, culminando na tragédia do desfecho do filme - que não se deixa seduzir por um falso final feliz.

Fotografado com precisão por Phillipe Rousselot - que amplia a escuridão dos palácios e das ruas de Paris para reiterar as trevas que circundam as personagens - e com uma reconstituição de época caprichada (com ênfase no figurino indicado ao Oscar de Moidele Bickel), "A rainha Margot" conquista justamente pelos motivos que incomodaram os críticos sem abdicar dos elementos próprios de sua cinematografia (nudez frontal masculina ainda é tabu em Hollywood, por exemplo) e absorvendo o melhor do cinema americano, ele é um filme que serve tanto como entretenimento quanto como história (ainda que disfarçada de romance). Não é um típico produto francês, mas é bem mais nutritivo do que filmes de ação americanos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL (Backbeat, 1994, Polygram Filmed Entertainment) Direção: Iain Softley. Roteiro: Iain Softley, Michael Thomas, Stephen Ward. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Martin Walsh. Música: Don Was. Figurino: Sheena Napier. Direção de arte/cenários: Joseph Bennett/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Hanno Huth, Nik Powell. Produção: Finola Dwyer, Stephen Wooley. Elenco: Stephen Dorff, Sheryl Lee, Ian Hart, Gary Bakewell, Chris O'Neill, Scott Williams, Kai Wiesinger. Estreia: 01/4/94

Stuart Sutcliffe nasceu em Edimburgo (Escócia) em 23 de junho de 1940 e morreu de hemorragia cerebral em Hamburgo (Alemanha) em 10 de abril de 1962. Como artista plástico, foi extremamente elogiado, tendo sido influenciado por artistas abstratos expressionistas americanos e exposto em galerias do mundo todo. Apesar de seu inegável talento como pintor, no entanto, Stuart não ficou conhecido através de sua arte e sim por um fato de extrema importância no universo musical - Stuart Sutcliff, ou simplesmente Stu foi o quinto Beatle, antes que Lennon, McCartney & cia dominassem o mundo. E a história da amizade entre ele e John Lennon - e a espécie de triângulo amoroso formado por eles e a fotógrafa Astrid Kircherr - é contada em "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool".

Inspirado pela comoção pública em torno da morte de John Lennon em dezembro de 1980, o britânico Iain Softley demorou mais de uma década para passar da ideia à ação. É difícil dizer com certeza, mas provavelmente nesse caso o tempo foi um belo aliado. Distante do calor do momento e da imaturidade inerente à juventude, o cineasta realizou um filme sóbrio, elegante e sem os exageros de um fã. No roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Stephen Ward e Michael Thomas, as personagens não são astros do rock: são jovens ambiciosos e talentosos em busca do lugar ao sol e completamente entregues à sua vontade de viver.

A trama de "Backbeat" começa quando Lennon (Ian Hart) convence seu melhor amigo, Stu (Stephen Dorff) a utilizar o dinheiro da venda de um quadro na compra de um baixo. Mesmo sem muito talento para a música, o rapaz aceita acompanhar o amigo e os outros integrantes de sua banda a uma viagem a Hamburgo, na Alemanha. Lá, os dois, acompanhados de Paul McCartney (Gary Bakewell) e Pete Best (Chris O'Neill) fazem uma série de shows em bares um tanto decadentes. Tudo sofre uma reviravolta quando entram em cena o artista plástico Klaus (Kai Wiesinger) e a bela fotógrafa Astrid (Sheryl Lee, a Laura Palmer da série de TV "Twin Peaks"), que cria o visual da banda. Apaixonado pela bela alemã, Stu passa a dedicar-se mais à pintura do que à música, o que apressa seus conflitos com a banda e com o melhor amigo, enciumado com a relação entre os dois.



O roteiro de "Backbeat" concentra-se principalmente nas relações entre Lennon/Astrid/Stuart. Dividido entre uma promissora carreira plástica uma medíocre trajetória como músico, Stu não deseja magoar os sentimentos do melhor amigo, a quem a banda é o mais importante de tudo. Mesmo assim, ele sabe, sem dúvida alguma, que ama Astrid, e que não pretende abandoná-la para acompanhar o grupo musical dos amigos. Essa crise existencial de Sutcliffe é a alma do filme de Softley e encontra em Stephen Dorff um intérprete à altura: mesmo que não seja exatamente carismático, Dorff é o ator ideal para encarnar as dúvidas de sua personagem, sempre à beira de um colapso nervoso. Com uma química invejável com Sheryl Lee (linda e etérea), ele também consegue fazer com Ian Hart uma dupla verossímil e afinada. Mesmo que não seja fisicamente ideal para o papel de Lennon, Hart entrega uma atuação visceral e intensa, que conquista o público justamente por sua entrega.

Ao contar a história dos Beatles antes que eles se tornassem os Beatles que todo mundo conhece, "Backbeat" aproveita para apresentar ao público uma trilha sonora vibrante e contagiante. Músicas dos primórdios da banda mais famosa do mundo desfilam pela tela, comentando a ação em cenas que desafiam qualquer um a ficar parado. A musicalidade dos Beatles sempre esteve presente, parece querer dizer o roteiro e as cenas pré-Cavern Club, e as tragédias pessoais pelas quais passou o grupo apenas fomentaram uma das bandas mais sensacionais, criativas e mágicas da história.

"Backbeat" é um filme de fãs para fãs. Mas é também a história de uma amizade, de um amor e de uma tragédia. É simples e sofisticado, assim como as músicas dos Beatles. Delicioso!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TRÊS FORMAS DE AMAR

TRÊS FORMAS DE AMAR (Threesome, 1994, MCPA/TriStar Pictures, 93min) Direção e roteiro: Andrew Fleming. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: William C. Carruth. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Everton. Direção de arte/cenários: Ivo Cristante/Tim Colohan. Produção executiva: Cary Woods. Produção: Brad Krevoy, Steven Stabler. Elenco: Lara Flynn Boyle, Josh Charles, Stephen Baldwin, Alexis Arquette. Estreia: 08/4/94

Stuart é um rapaz mulherengo, metido a conquistador e extrovertido. Eddy é tímido, sensível e estudioso. Completamente diferentes entre si, eles dividem um dormitório na universidade e acabam tornando-se amigos inseparáveis, cada um ajudando o outro em suas dificuldades. Seu equilíbrio sofre um abalo, porém, quando eles são obrigados a conviver com Alex, uma estudante de teatro bela e carente que, confundida com um homem por causa de seu nome, vai parar no mesmo quarto. Fissurado por Alex, Stuart não percebe que ela está apaixonada por Eddy, que, por sua vez, tem uma queda nada discreta pelo melhor amigo.

Com essa premissa simples e sem maiores pretensões artísticas, o diretor e roteirista Andrew Fleming criou "Três formas de amar", considerado pela crítica como um dos principais filmes a retratar a Geração X - aquela nascida entre os anos 60 e 70 e que rompeu com muitos dos padrões comportamentais de seus pais. Ao centrar seu foco nas angústias, dúvidas e medos relativos à sexualidade no início da juventude, o filme de Fleming encontrou eco em seu público-alvo - ainda que não tenha sido um imenso sucesso comercial, o bizarro triângulo amoroso formado por Stuart-Alex-Eddy conquistou fãs incondicionais, talvez principalmente pelo fato de o roteiro jamais julgar ou criticar quaisquer atos de suas personagens. Dono de um humor que não agride ninguém, no entanto, "Três formas de amar" acaba mirando na transgressão e acertando no quase politicamente correto, o que de certa forma enfraquece os ideais libertários de sua concepção.

Na pele de Alex, a bela Lara Flynn Boyle (musa de David Lynch na série "Twin Peaks") tem seu melhor momento nas telas. Com um ótimo timing cômico e uma sensualidade não-óbvia, ela convence plenamente tanto como interesse sexual de Stuart (um Stephen Baldwin que não vingou como galã como esperavam os produtores) quanto como mulher apaixonada (por um Josh Charles encarnando com perfeição um tipo "guy next door"). Flynn Boyle faz o que pode com um roteiro que, apesar de engraçado e aparentemente avançado, não aprofunda a contento nenhuma de suas personagens, preferindo tornar leve uma trama que - a julgar por François Truffaut e seu "Jules & Jim" (citado no filme em uma breve cena) - poderia descambar para a tragédia. No entanto, nouvelle vague não é Hollywood e a ordem em "Três formas de amar" é divertir a plateia. E nesse ponto Andrew Fleming não deixa a desejar.



"Três formas de amar" é, antes de tudo, um típico produto de sua época: antenado, descolado, bem-humorado e com uma trilha sonora das mais adequadas - U2, New Order, Teenage FanClub. Esteticamente agradável e com alguns insights bastante interessantes sobre a juventude anos 90 - eternamente em busca do amor e do prazer em doses proporcionais - o filme de Fleming jamais decepciona seu público-alvo, apesar de esbarrar em um final um tanto moralista e melancólico e não se permitir chegar aos extremos que a relação entre os protagonistas poderiam chegar.

Longe de ser trangressor como a trama pode sugerir, "Três formas de amar" é, no fundo, uma comédia romântica como qualquer outra - excetuando-se, é claro, o fato de não contar uma história de amor açucarada como normalmente acontece nos filmes do gênero. Logicamente não é um filme para todos os públicos - ainda que até mesmo as cenas de sexo sejam pouco explícitas e de bom-gosto, é pouco provável que agrade às fãs mais conservadoras de filmes como "Uma linda mulher" e "Sintonia de amor". Mas é uma das mais corajosas obras direcionadas ao público jovem da década - ainda que a ideia seja mais ousada do que seu desenvolvimento.

domingo, 26 de dezembro de 2010

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

FORREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS (Forrest Gump, 1994, Paramount Pictures, 142min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Eric Roth, romance de Winston Groom. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Scmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Nancy Haigh. Produção: Wendy Finerman, Steve Starskey, Steve Tisch. Elenco: Tom Hanks, Sally Field, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelty Williamson, Haley Joel Osment. Estreia: 06/7/94. Bilheteria nos EUA: U$ 329.691.196

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Ator Coadjuvante (Gary Sinise), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Som, Efeitos Sonoros, Maquiagem
Vencedor de 6Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Zemeckis), Ator (Tom Hanks), Roteiro Adaptado, Montagem, Efeitos Visuais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Zemeckis), Ator/Drama (Tom Hanks)

É engraçado como alguns filmes conseguem um diálogo imediato com a plateia, mesmo que aparentemente nada tenham a ver com ela. Talvez seja culpa do cinismo que assolava o cinema americano dos anos 90, talvez seja porque o público estava precisando de uma espécie de super-herói humano, mas o fato é que "Forrest Gump, o contador de histórias", de Robert Zemeckis simplesmente superou toda e qualquer expectativa de seu estúdio (a Paramount Pictures) e, com uma renda superior a 300 milhões de dólares somente no mercado americano, tornou-se parte do inconsciente coletivo não apenas de uma nação, mas do mundo todo. Com sua mistura perfeita entre comédia, drama e efeitos visuais impecáveis, a adaptação do romance de Winston Groom foi o grande vencedor do Oscar de 1994 em seis categorias - incluindo as principais: filme, diretor e ator (o segundo consecutivo de Tom Hanks). O melhor de tudo é que mereceu o sucesso todo.

"Forrest Gump" é um filme difícil de resumir. O protagonista - vivido magistralmente por Hanks - é um rapaz de QI abaixo da média que, desde a infância traumática (abandonado pelo pai, com problemas nas pernas) contou com a superproteção da mãe (interpretada com gosto por Sally Field, apenas dez anos mais velha do que Hanks na vida real). Graças a ela, Gump estudou em uma escola para crianças normais, onde conheceu e se apaixonou à primeira vista pela doce Jenny (interpretada por Robin Wright na idade adulta). Sem dar importância a suas limitações, o rapaz entra na universidade devido a seu dom como esportista, volta da guerra do Vietnã condecorado (depois de salvar a vida de quase todo o seu pelotão), inicia um bem-sucedido negócio no ramo da pesca de camarão, torna-se ídolo do ping-pong e estampa capas de revistas depois que resolve correr país afora. Nesse ínterim, conhece três presidentes americanos, é testemunha do caso Watergate, trava conhecimento com Elvis Presley e John Lennon e em momento algum esquece ou desiste de proteger a mulher por quem é loucamente apaixonado.

Forrest Gump, o protagonista, é uma das mais carismáticas personagens da história do cinema americano. Ingênuo, simples e amoroso, Gump é uma espécie de alter-ego lúdico de qualquer pessoa da plateia. Homens ou mulheres, adultos ou crianças, todos se envolvem positivamente com sua trajetória: ele não deseja ser herói ou ídolo, ele simplesmente o é, por acaso puro e simples. Presente sempre no lugar certo e no momento exato, Forrest Gump é testemunha ocular da história americana e o fato de não ser nada além de um "caipira" do Alabama faz com que o público se identifique com ele de forma incondicional. Ao contrário do protagonista de "Rain Man", por exemplo, ele não é genial com números ou irritantemente metódico: ele é um homem com inteligência abaixo da média mas com um coração imenso e fiel.



Metódico somente o trabalho de Tom Hanks: em uma atuação consagradora, o único ator a conseguir o feito de arrebatar 2 Oscar consecutivos (o outro foi Spencer Tracy) construiu um Forrest Gump exemplar. Somente seu meticuloso trabalho vocal e corporal já lhe justificaria a estatueta, mas além disso, ele consegue humanizar sua personagem sem nunca escorregar na tentação de transformá-la em uma aberração simpática. Na interpretação de Hanks, Gump é um ser humano e não uma personagem inverossímil e, para isso, ele conta com um elenco coadjuvante de peso. Além de Field - já acostumada a conquistar o público sem muito esforço - a bela Robin Wright e o experiente Gary Sinise não ficam atrás em matéria de intensidade. Wright - na época mais conhecida por ser namorada de Sean Penn - alcança o equilíbrio perfeito entre as insanidades e a melancolia de sua Jenny, uma jovem marcada por uma infância violenta e uma vida adulta sofrida e inconstante. E Sinise - indicado ao Oscar de coadjuvante - vive um Tenente Dan Taylor excepcional (e para isso também conta a perfeição dos efeitos visuais que lhe arrancam as pernas na maior parte do filme).

Os efeitos visuais, aliás, merecem um capítulo à parte: ao misturar com extrema perfeição cenas do filme com imagens de arquivo, Robert Zemeckis atingiu um nível de excelência que é capaz de assombrar mesmo depois de quase 17 anos. Sem deixar que o aspecto técnico sobressaísse em relação ao nível emocional da trama - por si só empolgante o suficiente - o cineasta provou que, mais do que um diretor conectado aos avanços dos efeitos visuais, ele é acima de tudo um real artista, cuja principal preocupação é contar uma boa história. E uma boa história não é o que falta a "Forrest Gump".

O roteiro excepcional de Eric Roth - também vencedor do Oscar - é um primor de inteligência, bom-humor e ritmo. Em nenhum momento "Forrest Gump" é previsível ou carece de ritmo. Equilibra piadas irônicas com cenas de partir o coração. Alterna uma música original belíssima de Alan Silvestri com uma seleção de canções dos anos 60 de encantar os ouvidos. Mas, acima de tudo, jamais subestima a inteligência e a sensibilidade do espectador. Um clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes da história do cinema!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.

A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 33 1/3, O INSULTO FINAL

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 33 1/3, O INSULTO FINAL (The naked gun 33 1/3, the final insult, 1994, Paramount Pictures, 83min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Pat Proft, David Zucker, Robert LoCash. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: James R. Symons. Música: Ira Newborn. Figurino: Mary E. Vogt. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Kathe Klopp. Produção executiva: Jim Abrahams, Gil Netter, Jerry Zucker. Produção: Robert K. Weiss, David Zucker. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, Fred Ward, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 18/3/94

Durante anos Leslie Nielsen - infelizmente falecido no último dia 28 de novembro - tentou ser levado a sério como ator, e até testes para o clássico "Ben-hur" ele fez. Para sorte dos fãs de comédias nonsense, no entanto, foi somente como Frank Drebin, tenente da academia de polícia de Los Angeles na série de filmes "Corra que a polícia vem aí" que ele finalmente chegou ao ápice de sua carreira. Com seu ar abobalhado, Drebin (ou Nielsen) praticava os mais devastadores estragos possíveis, levando a plateia às gargalhadas sem nem ao menos desconfiar que era o responsável por todas as confusões que havia à sua volta. Remodelado a partir da série de TV (fracassada) "Esquadrão de polícia", o tenente apareceu pela primeira vez no filme de 1988, repetiu o sucesso em 1991 e encerrou a trilogia em 1994 com "O insulto final", que, se não teve a mesma bilheteria de seus antecessores, ao menos consegue ser tão engraçado quanto eles.

A primeira sequência do filme - uma sátira à cena mais famosa de  "Os intocáveis", de Brian de Palma - já diz que dessa vez o diretor Peter Segal adicionou um outro bem-vindo ingrediente à receita vencedora: citações descaradas de outros filmes de sucesso. Desfilam, nesse terceiro capítulo, homenagens explícitas  a "Jurassic Park", "Traídos pelo desejo" e "Thelma & Louise" e sarcasmos discretos à onda de produções cujos títulos começam com "atração" ou "fatal". Pode-se dizer, sem medo, que "O insulto final" é muito mais engraçado e divertido para os fãs de cinema, que acompanham muito melhor as inúmeras referências aos filmes e às incoerências do Oscar - retratado com um humor cáustico e com as participações de Raquel Welch, Olympia Dukakis, James Earl Jones, Elliot Gould e Mariel Hemingway.



Quando o filme começa, o tenente Drebin está aposentado. Como um bom dono-de-casa, ele cozinha, lava, passa, limpa e chora assistindo a telenovelas, enquanto sua mulher, Jane (Priscilla Presley) inicia uma promissora carreira de advogada. O casamento dos dois entra em crise devido à insistência de Jane em ser mãe e azeda de vez quando ela descobre que ele, mesmo fora da polícia, ainda faz trabalhos para ajudar seus ex-parceiros Ed (George Kennedy) e Nordberg (O.J.Simpson). Mergulhando no trabalho para esquecer o fim de seu casamento, Drebin se passa por presidiário para descobrir onde o terrorista Rocco Dillon (Fred Ward) planeja plantar uma bomba em Los Angeles. Quando o alvo é descoberto - a cerimônia de entrega do Oscar - o famoso policial resolve impedir o sucesso da missão do criminoso.

Em menos de hora e meia de projeção, Frank Drebin simplesmente acaba com todo e qualquer mau-humor. Seja em piadas de duplo sentido ou em um humor físico, Leslie Nielsen conquista a plateia sem fazer muita força - sua persona desajeitada é comparável ao Mr.Hulot de Jacques Tati ou ao Mr. Bean de Rowan Atkinson, com a diferença que ele pode falar. E fala muita, mas muita besteira. É impressionante como o roteiro não cansa de disparar piadas tão absurdamente tolas que chegam a ser brilhantes. Absolutamente todos os clichês do cinema são enfileirados em "Corra que a polícia vem aí 33 1/3", para serem sistematicamente ridicularizados e/ou homenageados. E a participação especial de R. Lee Ermey como um policial truculento - sua especialidade - apenas reitera o prestígio que as produções do trio ZAZ - David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker - tem (ou tinham) em Hollywood.

Não é de esperar mais do que muitas risadas em "Corra que a polícia vem aí 33 1/3". Mas se for levado em consideração que muitas pretensas comédias não arrancam mais do que tímidos sorrisos de sua audiência, essa terceira parte é um sucesso absoluto. Uma pena que, com a morte de Nielsen, não exista a possibilidade de um 444 1/4.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (Four weddings and a funeral, 1994, Polygram Filmed Entertainment/Channel Four Films/Working Title Films, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Jon Gregory. Música: Richard Rodney-Bennett. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Maggie Gray/Anna Pinnock. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Andie McDowell, Kristin Scott-Thomas, John Hannah, Simon Callow, Rowan Atkinson. Estreia: 04/3/94

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Hugh Grant)

 Para renovar seu elenco de astros e galãs, volta e meia Hollywood vai buscar em outras paragens rostos novos e talentosos. Em 1994 foi a vez de Hugh Grant, um inglês então com 32 anos que tornou-se a sensação do momento graças a uma comédia romântica das mais engraçadas lançadas na década, "Quatro casamentos e um funeral". Dono de uma carreira da qual já faziam parte filmes de prestígio como "Maurice", de James Ivory e "Lua de fel", de Roman Polanski, Grant virou febre nos EUA e no mundo, com sua mistura de galã desajeitado e estilo rapaz da casa ao lado. Antes que um escândalo sexual prejudicasse sua imagem - ele foi flagrado recebendo sexo oral de uma prostituta, em 1995 - Grant era o genro que toda mãe de família sonhava. E "Quatro casamentos" foi o estopim para esse sucesso todo.

Escrito com verve pelo ótimo Richard Curtis - especialista no gênero que mais tarde tornaria-se cineasta com o simpático "Simplesmente amor", de 2003 - "Quatro casamentos" não só foi um dos filmes britânicos de maior bilheteria nos EUA como concorreu a 2 Oscar - melhor filme e roteiro original. Infelizmente bateu de frente com "Forrest Gump" e "Pulp fiction", o que arruinou suas chances. No entanto, seus fãs provavelmente não dão a menor importância a isso, preferindo ver e rever a delicada e hilária história de amor vivida nas telas por Grant e a americana Andie McDowell do que preocupar-se com cerimônias de premiação.
Grant (vencedor do Golden Globe por sua atuação) vive Charles, um mulherengo e solteirão convicto que ignora solenemente todas as investidas femininas em relação a um compromisso mais sério. Durante a festa de casamento de um amigo ele conhece a americana Carrie (McDowell em papel recusado - para sorte de todos - por Melanie Griffith e Brooke Shields), uma mulher atraente, liberada e, melhor que tudo, estrangeira. Depois de passar a noite com ela e despedir-se, no entanto, Charles fica surpreso ao perceber que gostou mais dela do que esperava. Apaixonado pela primeira vez na vida, ele ainda irá demorar mais três cerimônias de casamento e o funeral de um querido amigo para finalmente convencê-la de seu amor.



A grande sacada do roteiro de Curtis foi justamente situar a vasta maioria das cenas do filme nos eventos do título. Meio como que contando crônicas do dia-a-dia festivo de Charles e seus amigos, o roteirista aproveita para criar cenas curtas e bem escritas, que conquistam pelo humor ácido mas nunca vulgar ou agressivo. Com essa estrutura, todas as personagens do filme apresentam ao público somente parte de suas personalidades, mas o texto de Curtis é tão bom que não é preciso muito para que logo todo o grupo de amigos pareçam velhos conhecidos. E eles são de aplaudir de pé, desde Fiona (Kristin Scott-Thomas), a ex-namorada recalcada até o casal gay Gareth (Simon Callow) e Matthew (John Hannah) - responsáveis pela cena mais bonita do filme, onde um poema de W.H. Auden é declamado para a emoção de todo mundo (personagens e audiência).

E se até Auden é citado no filme, o que dizer então de sua trilha sonora? Além da bela "Love is all around" (que virou hit e a cara do filme, interpretada por Wet Wet Wet), somos brindados com Elton John cantando "But not for me" e "Chapel of love" - esta última nos divertidíssimos créditos finais, que brincam até mesmo com o Príncipe Charles - e nem mesmo a Princesa Diana é poupada: na encantadora cena em que Charles e Carrie conversam sobre suas experiências sexuais, ela é citada como exemplo oposto à Madonna. Aliás, a mesma cena comprova a excelente química entre o casal: mesmo apenas sentados em uma mesa e dialogando, Hugh Grant e Andie McDowell fascinam a plateia, que torce por seu esperado final feliz.

Contando até mesmo com Rowan Atkinson - o Mr. Bean em pessoa - como um padre extremamente atrapalhado, "Quatro casamentos e um funeral" é um antídoto perfeito para uma tarde tediosa e uma crise de descrédito no amor. É sensível, é engraçado e é inglês. Melhor é impossível!

domingo, 19 de dezembro de 2010

LUA DE FEL

LUA DE FEL (Lunes de fiel, 1992, Columbia Pictures/Canal +, 139min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, John Brownjohn, romance de Pascal Bruckner. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Vangelis. Figurino: Jackie Burdin. Direção de arte/cenários: Willy Holt, Gerard Viard. Produção executiva: Robert Bernmussa. Produção: Roman Polanski. Elenco: Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas, Emmanuelle Seigner, Stockard Channing. Estreia: 11/3/94

Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.

Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.



Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.

Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.

"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.

sábado, 18 de dezembro de 2010

EM NOME DO PAI

EM NOME DO PAI (In the name of the father, 1993, Universal Pictures, 133min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Terry George, livro "Proved innocent", de Gerry Conlon. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Caroline Amies/Rick Butler. Produção executiva: Gabriel Byrne. Produção: Jim Sheridan. Elenco: Daniel Day-Lewis, Pete Postletwhaite, Emma Thompson, Anthony Brophy, Corin Redgrave. Estreia: 29/12/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day-Lewis), Ator Coadjuvante (Pete Postletwhaite), Atriz Coadjuvante (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim: Melhor Diretor (Jim Sheridan)

Para fins dramáticos, muitas vezes histórias reais são vítimas de alterações das mais variadas em sua transposição para o cinema. Provavelmente "Em nome do pai", filmaço do diretor irlandês Jim Sheridan poderia servir como um dos exemplos máximos disso que é carinhosamente chamado de "licença poética". As diferenças entre os fatos verídicos e os mostrados no filme são tão radicais que nem mesmo seu produtor executivo, o ator Gabriel Byrne, concordou com a visão de Sheridan e afastou-se do projeto. A despeito das discrepâncias entre o real e o filmado, porém, "Em nome do pai" é o melhor trabalho do cineasta e a atuação mais arrasadora de Day-Lewis.

O filme já começa mostrando a que veio quando um pub londrino vai pelos ares e a bela canção-tema (cantada por Bono, do U2) invade os créditos iniciais. Quando os créditos acabam o público fica sabendo  - através de uma fita gravada à advogada Gareth Pierce (Emma Thompson)  - a triste e quase inacreditável história de Gerry Conlon (Day-Lewis), um jovem irlandês condenado à prisão perpétua, acusado de ter planejado o atentado à bomba mostrado na cena inicial. Além de ser inocente - na noite da tragédia ele estava dormindo em um parque ao lado do melhor amigo - Gerry vê uma injustiça ainda maior ser cometida: não só ele e seus amigos são presos, mas também sua tia (acusada de fabricar bombas), seus primos pequenos e seu próprio pai, Giuseppe (Pete Postletwhaite), um homem religioso e correto com quem ele não tem uma relação das mais carinhosas. Forçados a dividir uma cela, pai e filho finalmente começam a criar sentimentos de admiração e amor. Quando Gareth entra em suas vidas - a pedido de um Giuseppe velho e doente - as irregularidades do julgamento começam a aparecer e eles passam a ter esperanças de ver sua sentença anulada.



A maior gritaria a respeito de "Em nome do pai" diz respeito à invenção do roteiro de Sheridan e Terry George - que seria o cineasta de "Hotel Ruanda", de 2004 - de fazer com que Gerry e Giuseppe dividam a mesma cela, fato que jamais ocorreu na história verdadeira. Realmente não é admirar a ira (desculpem o trocadilho infame) dos puristas, mas é impossível negar que, do ponto de vista dramatúrgico, a sacada do roteiro foi de mestre: além de contar uma história forte e revoltante de injustiça jurídica e social (e aí inclui-se preconceito contra hippies e irlandeses em geral), Sheridan também brinda o público com uma trama de alcance emocional de âmbito mais pessoal, que ressoa junto a qualquer espectador mais sensível. Para isso, o cineasta teve a sorte de contar com um elenco de sonhos.

Todos os três atores centrais do filme foram indicados ao Oscar e se premiados tivessem sido, não teria havido injustiça. Então praticamente desconhecido do grande público, Pete Postletwhaite teve aqui o papel mais marcante de sua carreira, criando um Giuseppe estóico e dono de uma fé inabalável. Emma Thompson, ainda que só entre de verdade no filme nos últimos trinta minutos, mostra porque é uma das atrizes britânicas mais competentes de sua geração (e que merece uma ressurreição artística urgente). Mas é Daniel Day-Lewis o corpo e a alma de "Em nome do pai".

Mesmo os detratores do ator são obrigados a tirar o chapéu para seu desempenho impecável. Day-Lewis vive (literalmente) Gerry Conlon, desde sua juventude irresponsável até seus dias de maturidade emocional e racional - passando por uma cena de interrogatório das mais tensas da história. Sem tentar apelar para a compaixão do público, uma vez que a história já é suficientemente revoltante, ele conquista pela inteligência de sua atuação, uma das mais consistentes da década de 90. Day-Lewis pega o público pela mão e o leva a testemunhar seu vasto leque de nuances: debochado, rebelde, revoltado, triste, corajoso. E o faz com a segurança de um grande ator.

Ficar indignado com a história contada em "Em nome do pai" é fácil - e a fotografia de Peter Biziou, a montagem de Gerry Hambling e a música de Trevor Jones apenas colaboram para isso. Difícil é esquecer a monstruosa interpretação de Day-Lewis e a força de sua história.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

FILADÉLFIA

FILADÉLFIA (Philadelphia, 1993, TriStar Pictures, 125min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Carig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Ron Bozman, Gary Goetzman, Kenneth Utt. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Mary Steenburgen, Antonio Banderas, Bradley Whitford, Joanne Woodward. Estreia: 23/12/93

5 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Roteiro Original, Canção Original ("Streets of Philadelphia", "Philadelphia"), Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")
Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Ator (Tom Hanks) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Tom Hanks), Canção Original ("Streets of Philadelphia")

Em 1993, Tom Hanks ainda não era levado muito a sério como ator dramático. Ser o primeiro nome nos créditos de filmes como "Quero ser grande" e "A última festa de solteiro" não lhe ajudavam muito nesse sentido - ainda que tenha sido indicado ao Oscar pelo primeiro. Suas tentativas de provar que seu talento iam além de provocar risadas não tinham obtido muito sucesso, como bem prova a equivocada versão cinematográfica de "A fogueira das vaidades", dirigido por Brian De Palma. Por essa razão não deixou de ser uma enorme surpresa para o público que ele tenha sido o ator mais premiado do ano por seu papel em "Filadélfia". Na pele de um advogado soropositivo que vai aos tribunais contra seus ex-empregadores, o simpático protagonista de "Sintonia de amor" e "Splash, uma sereia em minha vida" deu a virada definitiva em sua carreira, entrando pela porta da frente no rol dos atores respeitados pela crítica e por seus pares.

Levemente inspirado em uma história real, "Filadélfia" é dirigido por Jonathan Demme, cineasta que havia arrumado sérios problemas com a comunidade gay com seu filme anterior, o multi-premiado "O silêncio dos inocentes" - vale lembrar que o serial killer do filme tinha a frustração de não ter conseguido uma operação de mudança de sexo... Inconscientemente ou não, aqui ele tenta remediar a situação, elegendo como protagonista um homossexual bem-sucedido, inteligente e de boa formação familiar. Mesmo que tenha soado um tanto assépticas, as escolhas de Demme ao retratar o modo de vida gay serviu, ao menos, para aproximar das salas de cinema uma parcela do público que provavelmente jamais se interessaria por um assunto não exatamente festivo. Espertamente, o roteiro de Ron Nyswaner - indicado ao Oscar - une dois sub-gêneros de filmes bastante populares entre as audiências; um drama de tribunal junto com um filme sobre doenças terminais. Golpe de mestre para cativar o público e abocanhar prêmios. Sorte de todo mundo que Demme é um diretor talentoso, que foge do melodrama barato.



Andrew Beckett (Tom Hanks se saindo muito bem em um papel difícil e que poderia facilmente escorregar para o kitsch) é um advogado competente que, logo depois de tornar-se sócio da firma de direito em que trabalha, é demitido por alegada negligência em um caso importante. Julgando-se vítima de preconceito - por ser homossexual e portador de AIDS - ele procura um colega de profissão, Joe Miller (Denzel Washington) e lhe pede que o represente no tribunal contra seus antigos patrões. A princípio recusando a causa - por ser assumidamente ignorante em relação aos gays, quase um homofóbico - Miller acaba aceitando processar a tradicional firma.

"Filadélfia", a bem da verdade, não dispensa o uso de vários clichês que assolam os filmes de seus estilos - tanto um quanto o outro. No tribunal, o desenrolar do julgamento é tão interessante quanto as cenas que revelam o lado mais humano dos protagonistas - é quase impossível segurar as lágrimas durante a belíssima sequência ao som de "La Mamma Morta", ária interpretadapor Maria Callas. Não apenas a entrega de Hanks à cena é admirável mas também seu desfecho, onde pela primeira vez Joe Miller demonstra a fragilidade que sempre escondera. Aliás, é seguro dizer que "Filadélfia" apresenta o melhor trabalho da carreira de Washington, antes que ele se tornasse uma cópia de si mesmo. A cena em que ele tem seu primeiro contato com um Beckett doente é um primor de sutileza - bem como a demissão de Andrew, em que ele fica à distância de seus empregadores temerosos de um contágio. A agressividade silenciosa dessa cena dá o tom exato da elegância imposta por Demme a seu trabalho.

Motivos para críticas à visão dos produtores não faltam, em "Filadélfia": o parceiro de Andrew, Miguel (Antonio Banderas) poderia ser taxado de mais uma estereotipagem dos latinos nos EUA; a aceitação incondicional de sua família à sua opção sexual e a resiliência da mesma durante o julgamento soa um tanto cor-de-rosa; e a relação entre os dois amantes é praticamente desprovida de calor. Mas é preciso que se leve em consideração que "Filadélfia" é antes de tudo o produto de um grande estúdio (a TriStar) e, mais do que veracidade absoluta, buscava lucro e precisava atingir um grande público. E fazer com que milhares de pessoas voltasse sua atenção para um dos maiores problemas de saúde da história - ainda que uma década atrasada - já faz com que ele mereça ser admirado.

A LISTA DE SCHINDLER

A LISTA DE SCHINDLER (Schindler's list, 1993, Universal Pictures/Amblin Entertainment, 195min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Thomas Keneally. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anna Biedrzycka-Sheppard. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun. Produção executiva: Kathleen Kennedy. Produção: Branko Lustig, Gerald R. Molen, Steven Spielberg. Elenco: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Embeth Davidtz. Estreia: 30/11/93

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Ator (Liam Neeson), Ator Coadjuvante (Ralph Fiennes), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro 

Em 1975, o suspense "Tubarão" inaugurou a era dos blockbusters e apresentou ao mundo um cineasta jovem, cheio de energia e criatividade chamado Steven Spielberg. Um punhado de grandes sucessos comerciais depois, ele iniciou uma nada discreta caminhada rumo ao mais esperado dos prêmios do cinema, o Oscar. Sendo assim, o pai de Indiana Jones e ET lançou filmes emocionalmente maduros e esteticamente primorosos, como "A cor púrpura" e "Império do sol". Sempre relegado pela Academia - às vezes sem motivo aparente - ele acabou sendo recompensado justamente por um filme através do qual ele fazia as pazes com sua origem judia. Realizado ao custo relativamente baixo de 25 milhões de dólares, "A lista de Schindler" não apenas também se transformou em sucesso de bilheteria apesar do tema pesado - quase 100 milhões de arrecadação nos EUA - como finalmente providenciou a ele sua primeira estatueta de melhor diretor - além de outras seis, inclusive melhor filme. Incensado unanimemente por crítica e público como um dos melhores dramas de guerra da história do cinema, "A lista de Schindler" é mais do que simplesmente uma história contada com o coração: é um exemplo perfeito de um artista no auge de seu talento. É uma obra-prima incontestável!

Baseado no livro de Thomas Kennealy - que romanceou uma história inacreditavelmente real - "A lista de Schindler" começa em 1943, quando o nazismo começava a mostrar seu poder devastador. Sentindo que a guerra pode lhe beneficiar financeiramente, o industrial tcheco Oskar Schindler (o papel definitivo de Liam Neeson) passa a utilizar mão-de-obra judaica em sua fábrica de esmaltados. Oportunista e mulherengo, ele só começa a perceber o tamanho da ameaça do III Reich em relação aos guetos judeus através de seu contador, Itzhak Stern (Ben Kingsley), que o alerta a respeito da violência indescritível que está sendo cometida nos campos de concentração. Testemunhando pessoalmente algumas das atrocidades cometidas em especial pelo frio comandante Amon Goeth (Ralph Fiennes, espetacular), Schindler resolve fazer uma lista de "funcionários indispensáveis" a seu negócio, pagando de seu próprio bolso por eles - e assim evitando sua transferência para os campos.

Por mais que a história real seja um pouco enfeitada para melhor servir aos objetivos dramáticos de Spielberg - o verdadeiro protagonista não era tão altruísta como mostrado no filme, dizem as más línguas - é inegável que "A lista de Schindler" é um espetáculo de primeira grandeza. Apesar do tema doloroso e profundamente chocante - mostrado sem subterfúgios por uma câmera nervosa e onipresente - é um filme obrigatório para qualquer fã de cinema ou de história. Acusado por alguns detratores de exagerar na sacarina em seus momentos finais e de buscar o choque fácil, ele mantém-se poderoso e inesquecível, principalmente devido à paixão imposta por seu diretor em cada momento de seus longos 195 minutos de duração - que passam sem que o público sinta.



Cada detalhe, em "A lista de Schindler" é digno de nota. O cuidado da produção é gritante - e é de admirar-se que um filme desse porte tenha custado tão pouco. A reconstituição de época é impecável - a direção de arte levou um merecido Oscar - e a fotografia de Janusz Kaminski - então casado com a atriz Holly Hunter - é um primor: em um preto-e-branco deslumbrante, Kaminski revela os horrores do holocausto revestindo-o de uma beleza plástica sem precedentes. Talvez tenha sido justamente esse senso estético em relação a um capítulo tão sangrento que tenha incomodado alguns, mas negar-se a admitir sua competência não é nada mais do que inveja.

E é de invejar-se também o trabalho excepcional do inglês Ralph Fiennes, no papel que o consagrou e que quase lhe deu um Oscar - que ele perdeu inexplicavelmente para Tommy Lee Jones, em "O fugitivo". Na pele de Amon Goeth, o mal em pessoa, Fiennes consegue transmitir pavor apenas com seu sorriso forçado e seu olhar diabólico. Suas cenas com Liam Neeson - com diálogos repletos de intenções mascaradas - são dirigidas com extremo cuidado, o que derruba a teoria de que Spielberg não é um bom diretor de atores. Isso também se aplica a Ben Kingsley, dono de algumas das sequências mais tristes do longa. Cercado por Fiennes e Kingsley, Liam Neeson, um ator eficiente mas pouco carismático entrega a atuação de sua carreira, pela qual recebeu sua até agora única indicação ao Oscar. Herdando um papel que Harrison Ford declinou - acertadamente, ele achava que sua presença desviaria a atenção da força da história - Neeson criou um Schindler falível, mas humano, o que torna mais fácil sua identificação com a plateia. Sua expressão horrorizada ao assistir de longe a evacuação de um gueto é, provavelmente, a mesma da audiência.

Uma das sequências mais fascinantes - porque triste e inacreditavelmente verdadeira - mostra os soldados alemães acabando com o gueto de Varsóvia, talvez um dos primeiros sinais da tragédia que se avizinhava aos judeus. Centenas de anos de história seriam apagadas, como bem cita Amon Goeth, em poucas horas: o público assiste, horrorizado (mas presenteado com imagens belas e uma música impecável de John Williams), a maneira cruel e abjeta com que seres humanos foram destituídos de suas posses, de suas dignidades, de seu amor-próprio, de sua idelogia. Spielberg não tenta disfarçar nada com sua câmera: tiros são disparados à queima-roupa, sangue jorra aos borbotões, e monstruosidades são registradas da forma mais neutra possível. Como se fosse um documentário - ou um inventário de atrocidades - "A lista de Schindler" é um documento dos mais avassaladores que o cinema criou.

Em uma época em que muita gente apoia inúmeros tipos de fascismo - e onde a crueldade muitas vezes é perdoada ou incentivada - é fundamental que filmes como "A lista de Schindler" sejam resgatados e discutidos. Artisticamente impecável e socialmente indispensável!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.



Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

KIKA

KIKA (Kika, 1993, El Deseo, 114min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Alfredo Mayo. Montagem: José Salcedo. Figurino: José María Cossio, Gianni Versace. Direção de arte: Alain Bainée, Javier Fernandez. Produção: Agustin Almodovar. Elenco: Veronica Forqué, Peter Coyote, Victoria Abril, Àlex Casanovas, Rossy de Palma, Santiago Lajusticia. Elenco: 29/10/93

Dono de uma das mais criativas mentes do cinema europeu, o cineasta e roteirista Pedro Almodovar tem uma séria tendência ao melodrama. Reviravoltas mirabolantes, crimes misteriosos e passionais e amores obsessivos são moeda corrente em sua filmografia. Normalmente pródigo em equilibrar elementos dramáticos com as mais absurdas e surreais situações, o espanhol também é especialista em criar memoráveis personagens femininas. Por isso, não é nenhuma surpresa o fato de o maior destaque de "Kika" seja justamente uma bizarra jornalista chamada Andrea Caracortada. Sensacionalista e fria a ponto de filmar impassível um assassinato - para aumentar os índices de audiência de programa de TV chamado "O pior do dia" - ela é vestida por Jean-Paul Gautier, pilota uma motocicleta com um capacete munido de uma câmera e abusa de imagens do mundo-cão para sobressair em sua profissão - além, é claro, de ostentar uma cicatriz na face direita. A surpresa aqui é que Andrea Caracortada, apesar de roubar todas as cenas em que aparece, não é a protagonista do filme.

Vivida por Veronica Forqué, a personagem-título é uma maquiadora dotada de grande otimismo que, mesmo morando com o namorado fotógrafo, Ramon (Alex Casanova), mantém um tórrido romance com o padrasto dele, o escritor americano Nicholas (Peter Coyote). A volta de Nicholas à Espanha abala o relacionamento um tanto frio de Kika e Ramon, especialmente porque o rapaz desconfia que a morte de sua mãe não foi o suicídio oficial e sim um assassinato. O triângulo amoroso cruza o caminho de Andrea - novamente, já que ela foi amante de Ramon em outros tempos - quando o ator pornô Pablo (Santiago Lajusticia), irmão da empregada lésbica de Kika, Juana (Rossy de Palma), invade o apartamento da esteticista e a estupra repetidas vezes.

Apesar de brincar com temas sérios - violência sexual, adultério, homicídios - Almodovar não consegue, em "Kika" repetir o mesmo nível de sucesso de seu filme mais famoso até então, "Mulheres à beira de um ataque de nervos". Indeciso entre narrar uma história policial ou debochar dos excessos com que o gênero se mantém, ele não atinge aqui o delicado equilíbrio entre o drama e a comédia de seus trabalhos anteriores. Prejudicado pela falta de carisma de sua atriz principal - que substituiu Maria Barranco (a amante do terrorista de "Mulheres...") na última hora - o décimo longa-metragem de Almodovar esbarra na falta de interesse da história, não particularmente empolgante. No entanto, espertamente, seu maior trunfo acaba se tornando também a prova da fragilidade de sua protagonista.



Na pele de Andrea Caracortada - e se divertindo notadamente em cena - Victoria Abril tem os diálogos mais "almodovarianos" do filme, repletos de um humor surreal  (a entrevista que faz com a mãe de um acusado de homicídio, por exemplo, é uma pérola de humor negro). Ainda que sua personagem não tenha uma profundidade maior - uma deficiência que o diretor curou majestosamente em seus trabalhos posteriores - Abril deita e rola, em uma das atuações mais fascinantes de sua carreira. Sempre que ela sai de cena o filme enfraquece, mesmo contando com a participação da também hilária Rossy de Palma. De Palma, aliás, um dos rostos mais estranhos do cinema europeu da época, também não fica atrás em termos de aproveitamento: todas as suas cenas nunca são menos do que engraçadíssimas. E isso inclui a polêmica sequência do estupro de sua patroa.

Em uma longa cena - mais de dez minutos - Almodovar mostra Kika sendo estuprada pelo irmão de sua empregada, um ator pornô foragido da cadeia que tenciona bater o recorde de gozar quatro vezes sem tirar. Em uma prova inconteste do humor sui generis do cineasta, ao invés de chocar ou indignar, a cena é uma das mais hilárias do filme - e isso inclui a participação de dois policiais bastante incomuns e um misterioso voyeur, que assiste a tudo de sua janela. Enquanto é estuprada, Kika não chora nem dramatiza: conversa com seu agressor e até mesmo tenta ajudá-lo em sua missão, ao simular o orgasmo mais falso da história do cinema...

Talvez "Kika" seja o filme menos brilhante de Almodovar - uma espécie de transição entre seu lado marginal e seu status de autor que se firmaria em pouco tempo. Mas é divertido, diferente e jamais comum, o que, convenhamos, é bom o suficiente.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

A ÉPOCA DA INOCÊNCIA (The age of innocence, 1993, Columbia Pictures, 139min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Martin Scorsese, Jay Cocks, romance de Edith Wharton. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Robert J. Franco, Amy Marshall. Casting: Ellen Lewis. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder, Alexis Smith, Jonathan Pryce, Geraldine Chaplin, Robert Sean Leonard, Joanne Woodward. Estreia: 17/9/93

5 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Winona Ryder), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Figurino
Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Winona Ryder)

Em 1920, a escritora Edith Wharton publicou seu romance "A era da inocência", que a fez tornar-se a primeira mulher a ser premiada com o Pulitzer. Sessenta anos depois, o crítico da revista Time, Jay Cocks deu um exemplar do livro a seu amigo Martin Scorsese afirmando que, se um dia o cineasta quisesse realizar um drama romântico, ali estava a sua trama. Cocks sabia o que estava falando. Realizador de filmes densos e com alto teor de violência, Scorsese declarou, à época do lançamento de "A época da inocência" - um ano atrasado em relação ao cronograma original - que a história de amor contada por Wharton é seu filme mais violento. Logicamente quem assistiu a obras impactantes como "Touro indomável", "Os bons companheiros" e "Cabo do medo" - todas extremamente agressivas - pode não concordar com a afirmação em um primeiro momento. Basta, porém, olhar com mais cuidado todas as nuances de "A época da inocência" para que se perceba que ele está absolutamente certo. Sem que uma única gota de sangue seja derramada, o romance proibido entre o advogado Newland Archer e a condessa Ellen Olenska consegue ser mais cruel e beligerante do que qualquer taxista neurótico, mafioso ambicioso ou ex-presidiário vingativo.


Nos anos 1870, a Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer, belíssima e excelente atriz) retorna à sua Nova York natal depois do fracasso de seu casamento com um conde europeu. Acolhida com carinho pela família, ela no entanto, sofre com a rejeição da alta sociedade da cidade, que, fiel a suas regras de conduta, lhe vira as costas inclementemente. Solitária, ela recebe o apoio de um conhecido de infância, Newland Archer (Daniel Day-Lewis), por quem acaba se apaixonando perdidamente. O problema é que ele acaba de ficar noivo de May Welland (Winona Ryder, delicada e meiga como convém), a prima de Ellen. Com seu romance proibido pelas rígidas normas sociais, eles tentam conviver com um amor devastador que não tem o direito de vir à luz.


A violência em "A época da inocência" não é física e sim emocional. Scorsese retrata as convenções sociais com a mesma paixão e força com que filma assassinatos e lutas de boxe. Em sua visão de gênio ele equipara as regras da alta sociedade com os códigos de honra dos mafiosos - é fascinante como os virulentos guarda-costas de seus filmes anteriores são substituídos aqui por mulheres delicadas e homens de modos refinados que, no entanto, tem a mesma função vil de acabar com vidas alheias - se não literal, ao menos metaforicamente. Newland e Ellen são vítimas de uma sociedade preconceituosa e egoísta, que não permite a felicidade se ela, para existir, necessite abdicar de preceitos há muito arraigados. A condessa é uma mulher à frente do seu tempo, que tenta desesperadamente respirar em um mundo sufocado por etiquetas caducas. Archer é um homem romântico, íntegro, mas sem maiores arroubos de coragem de desafiar a família e os outros - o inferno de Sartre. Juntos, eles caminham rumo a um final melancólico que Scorsese orquestra como ninguém.



"A época da inocência" é um espetáculo em todos os sentidos. O roteiro - co-escrito pelo diretor e por seu amigo Jay Cocks - é extremamente fiel ao livro que lhe deu origem, discorrendo abundandemente sobre os sentimentos escondidos de suas personagens sem que lhes seja preciso vastos diálogos. Ao contrário dos filmes anteriores do diretor, onde o improviso era palavra de ordem, aqui cada movimento de câmera, cada enquadramento, cada frase proferida pelos protagonistas e seus coadjuvantes são precisos e meticulosamente estudados. É de deixar sem fôlego, por exemplo, a longa sequência em que Archer chega em um dos bailes mostrados no filme: sem apelar para cortes, Scorsese acompanha Day-Lewis em seu caminho em direção à festa, levando a audiência a acompanhá-lo passo a passo. Apoiado por uma música nunca aquém de espetacular do maestro Elmer Bernstein, o travelling do diretor é uma aula de cinema - e o fato de acontecer lentamente apenas aumenta ainda mais o prazer.

E prazer é o que não falta quando se assiste a "A época da inocência", que foi praticamente ignorado pelo Oscar - recebeu uma estatueta apenas, por seu estupendo figurino e foi deixado de lado nas categorias principais. A reconstituição de época é magnífica - e o próprio cineasta se deixa arrebatar por ela, em determinados momentos - e o luxo e a pompa que cercam suas personagens são quase tão importantes quanto elas mesmas. Jantares suntuosos, bailes grandiosos e propriedades de cair o queixo são mostrados em detalhes, fotografados com perfeição por Michael Ballhaus - é especialmente deslumbrante a cena em que Pfeiffer está de costas mirando o mar enquanto Day-Lewis espera que ela vire para encontrá-lo. É poesia em forma de cinema. De extasiar qualquer espectador sensível.


Ainda que perca um pouco o ritmo em sua segunda metade - um pecadilho que nem sequer chega a ser percebido pelos olhos encantados da plateia - Scorsese fez de "A época da inocência" um dos filmes mais sensacionais da década de 90. Pode não agradar aos fãs ocasionais, mas definitivamente conquista aqueles que realmente conhecem bom cinema e o consideram realmente uma arte.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O FUGITIVO

O FUGITIVO (The fugitive, 1993, Warner Bros, 130min) Direção: Andrew Davis. Roteiro: Jeb Stuart, David Twohy, história de David Twohy, personagens criadas por Roy Huggins. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Don Brochu, David Finfer, Dean Goodhill, Dov Hoenig, Richard Nord, Dennis Virkler. Música: James Newton Howard. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Rick Gentz. Casting: Amanda Mackey, Cathy Sandrich. Produção executiva: Keith Barish, Roy Huggins. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Sela Ward, Julianne Moore, Joe Pantoliano, Andreas Katsulas, Jeroen Krabbe. Estreia: 06/8/93

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones)

Dentre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de 1993, um estranho no ninho disputava a estatueta contra dramas sérios e socialmente relevantes, como "A lista de Schindler" e "Em nome do pai". Inspirado em uma série transmitida pela TV americana nos anos 60, "O fugitivo" era o representante, no ano, dos filmes-entretenimento que tanto faziam sorrir os produtores hollywoodianos - vale lembrar que "Jurassic Park" não teria muitas chances na categoria principal. Estrelado pelo "astro do século" Harrison Ford e dirigido pelo pouco conhecido Andrew Davis, "O fugitivo" não só concorreu ao Oscar e rendeu mais de 180 milhões de dólares nas bilheterias, mas foi também o pontapé inicial de uma tendência da segunda metade da década: as adaptações para o cinema de seriados televisivos - tendência esta que originou, entre outros, o bem-sucedido "Missão impossível".

"O fugitivo" já começa bem, sem muita enrolação. Nos primeiros minutos de filme, enquanto se desenrolam os créditos iniciais, Richard Kimble (intepretado com a habitual falta de emoção de Harrison Ford), um médico respeitado de Chicago, é acusado do assassinato da esposa (Sela Ward), julgado e condenado à morte. No caminho para o presídio, um acidente com o ônibus que o transportava (e a outros presos) lhe possibilita uma fuga espetacular. Enquanto foge do obstinado agente federal Sam Gerard (Tommy Lee Jones), ele tenta provar sua inocência, procurando descobrir o paradeiro do real criminoso, um homem com uma prótese no lugar de um dos braços.

Diretor de filmes de ação descerebrados como "Nico, acima da lei" e "Força em alerta", ambos estrelados por Steven Seagal, Andrew Davis encontrou em "O fugitivo" o material ideal para carimbar seu passaporte em direção ao respeito crítico. Mesmo que não se detenha em trabalhar psicologicamente suas personagens - o que, no caso, não faz muita diferença - ele consegue ser eficiente a ponto de não permitir descanso à plateia. Do primeiro ao último minuto de projeção não há um único momento fraco ou dispensável. Todas as cenas de ação apresentadas por Davies são fabulosas e excepcionalmente dirigidas, equilibrando com maestria ação e suspense. E, ao contrário de muitos filmes do gênero, que utilizam de sequências repletas de adrenalina com o intuito único de disfarçar a fragilidade de sua história, aqui a coisa é bem diferente: cada passo dado por Kimble impulsiona a trama em direção a uma resolução que agrada pela coerência e pela surpresa.


E as cenas orquestradas por Davis são de tirar o chapéu: do acidente do ônibus que transportava Kimble até o tiroteio final - passando por um inacreditável salto em uma barragem e por perseguições em uma parada e dentro de uma delegacia - tudo é realizado com grande competência, empolgando até mesmo o mais cético dos espectadores. Logicamente a presença de Ford no papel central colabora muito para isso: dono de uma persona icônica e inconfundível, o eterno Indiana Jones conquista a simpatia de todos logo no início do filme - o que, levando-se em consideração a quase preguiça dramática do ator é algo surpreeendente. O público acredita em qualquer exagero que o filme possa cometer, desde que o herói seja Ford. Por isso, não deixa de ter sido um golpe de sorte o fato de as primeiras escolhas para o papel terem desistido do projeto: provavelmente Kevin Costner, Alec Baldwin ou Andy Garcia não teriam feito o filme ter tido o mesmo desempenho comercial...



Também interessante - e inteligente da parte do roteiro - foi ter criado um carismático antagonista: Sam Gerard não é apenas um policial correndo atrás de um foragido da justiça. É um homem obstinado, dono de uma tenacidade a toda prova e que acredita, mais do que tudo, em fazer bem feito o seu serviço. A ele não importa se Kimble é culpado ou não - e ele o diz textualmente em um de seus encontros com o protagonista: ele tem como missão capturá-lo e levá-lo de volta à prisão, só isso. E para tal, não mede esforços, chegando a disfarçar-se de mendigo em determinado ponto do filme. São sensacionais os momentos em que Kimble e Gerard ficam frente a frente - e ver o policial chegar tão perto de executar sua missão sem conseguí-lo é igualmente divertido. No entanto, a interpretação de Tommy Lee Jones, ainda que correta, não justifica todo o auê que causou. O Oscar de ator coadjuvante que ele abocanhou - em um ano em que Ralph Fiennes e John Malkovich eram seus rivais, pelos filmes "A lista de Schindler" e "Na linha de fogo", respectivamente - possivelmente se deve à popularidade de sua personagem, que inclusive protagonizou uma espécie de sequência realizada alguns anos depois, "U.S. Marshals, os federais".

Resumindo, "O fugitivo" foi o filme certo na hora certa - um fator determinante para o sucesso de qualquer projeto. Divertido e empolgante, é tecnicamente perfeito - a edição, a trilha sonora e os efeitos sonoros são estupendos - e um dos melhores filmes policiais dos anos 90. Para assistir com um balde de pipocas nas mãos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

NA LINHA DE FOGO

NA LINHA DE FOGO (In the line of fire,1993, Columbia Pictures, 128min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Jeff Maguire. Fotografia: John Bailey. Montagem: Anne V. Coates. Música: Ennio Morricone. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Kara Lindstrom. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Gail Katz, Wolfgang Petersen, David Valdes. Produção: Jeff Apple. Elenco: Clint Eastwood, Rene Russo, John Malkovich, Dylan McDermott, Gary Cole, John Mahoney, Tobin Bell, John Heard. Estreia: 09/7/93

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Malkovich), Roteiro Original, Montagem

Quando fez o filme "Na linha de fogo", dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, o ator/diretor/produtor Clint Eastwood já tinha 62 anos, ao contrário de sua personagem, o agente do Serviço Secreto americano Frank Horrigan, de cinquenta e poucos. Explica-se: quando o projeto do filme surgiu entre os estúdios de Hollywood (depois de o roteiro passar cerca de uma década flutuando entre um e outro), Robert Redford era o mais cotado para o papel de protagonista. Depois que nomes como Dustin Hoffman e Sean Connery também saíram de cena, o veterano Eastwood embarcou no projeto, levando o diretor Petersen a tiracolo. A entrada dos dois não poderia ter sido mais providencial: com quaisquer outros nomes em seus créditos, é pouco provável que "Na linha de fogo" ficasse melhor do que está. 

Como já dizia Hitchcock, um filme é tão bom quanto seu vilão. E o vilão aqui não está para brincadeiras: vivido por um genial John Malkovich (merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), Mitch Leary é um dos mais interessantes bandidos do cinema americano dos anos 90, roubando descaradamente todas as cenas em que aparece. Leary é um vingativo ex-funcionário do governo americano que tem como missão de vida assassinar o presidente dos EUA. Para isso - e para sua maior diversão - ele precisa entrar em um jogo de gato e rato com Frank Horrigan (Eastwood), que, em 1963, era responsável pela segurança de John Kennedy. Sentindo-se pessoalmente atacado pelas ameaças de Leary, Horrigan solicita sua volta à equipe de proteção do líder máximo do país, contando com o apoio da bela agente Lilly Raines (Rene Russo).

 

O roteiro de Jeff Maguire - que perdeu o Oscar para o prestigiado "O piano" - é esperto o bastante para jamais subestimar a inteligência da plateia. Horrigan é um homem de idade, e isso é frequentemente lembrado, impedindo-o de assumir o papel de um herói infalível. Até mesmo seu romance com Lilly é plenamente aceitável, uma vez que não é empurrado garganta abaixo do espectador - e a beleza de Rene Russo apenas colabora em seduzir a audiência (em um papel recusado por Glenn Close e Sharon Stone). Mas é seu relacionamento com Mitch Leary quem impulsiona "Na linha de fogo": os diálogos entre os dois protagonistas são tensos e mantem o nível de suspense em alta, até o clímax interessante e eficiente.

John Malkovich - especializado em papéis de vilões - tem em Mitch Leary o papel de sua vida. Mesmo que tenha brilhado intensamente como o Visconde de Valmont em "Ligações perigosas", é na pele do psicótico assassino de "Na linha de fogo" que ele tem a oportunidade de demonstrar toda a extensão do seu talento: irônico, debochado e perigoso - com a ajuda dos vários disfarces proporcionados pela maquiagem - ele transmite toda sua crueldade e a frieza em poucas (mas muito bem declamadas) palavras. Seu olhar desequilibrado encontra na serenidade e na paciência de Clint Eastwood um contraponto perfeito, que empolga o público como poucos policiais - e a renda de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico apenas comprova este fato óbvio.

Quem gosta de filmes policiais não pode perder "Na linha de fogo". É inteligente, interessante e tenso, intercalando cenas de ação bem dirigidas com diálogos bem escritos e convincentes. Além de tudo, ainda conta com Clint Eastwood - um dos mais confiáveis atores de Hollywood - e John Malkovich na melhor atuação de sua carreira.