segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

DIABOLIQUE

DIABOLIQUE (Diabolique, 1996, Morgan Creek Productions, 107min) Direção: Jeremiah Chechik. Roteiro: Don Roos, roteiro francês de Henri-Georges Clouzot, romance "Celle qui n'etait plus", de Pierre Boileau, Thomas Narcejac. Fotografia: Peter James. Montagem: Carol Littleton. Música: Randy Edelman. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Michael Seirton. Produção executiva: Gary Barber, Chuck Binder, Jerry Offsay, Bill Todman Jr. Produção: James G. Robinson. Elenco: Sharon Stone, Isabelle Adjani, Kathy Bates, Chazz Palminteri, Shirley Knight, Adam Hann-Byrd. Estreia: 22/3/96

Quer destruir um clássico do cinema? Primeiro, decida refilmá-lo, de preferência em outro idioma. Depois, escolha um diretor medíocre sem nada de marcante no currículo. Por fim, escale um elenco com o único objetivo de chamar a atenção da mídia: um símbolo sexual tentando ser levado a sério é uma boa opção. Junte a isso um visual desleixado e voilá, sua missão está cumprida. Pelo menos foi seguindo essa receita que os gananciosos executivos de Hollywood transformaram o aterrador "As diabólicas", de Henri-Georges Clozout, lançado em 1955 com Simone Signoret em um dos papéis principais, em "Diabolique", um suspense anêmico e esquecível estrelado por uma Sharon Stone em vias de receber uma indicação ao Oscar por "Cassino".

O filme original foi baseado em um romance cujos direitos foram cobiçados por ninguém menos que Alfred Hitchcock - que depois realizou "Um corpo que cai" baseado em outra história escrita pelos mesmos autores, Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Incensado pela crítica e vencedor do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro pela Associação de Críticos de Nova York, é um autêntico suspense psicológico, capaz de grudar o espectador na poltrona do início ao fim, graças à trama bem bolada e à direção inteligente e criativa - sem falar no trabalho da ótima Signoret. Sua versão americana, realizada quatro décadas depois, deixa de lado qualquer sutileza e elegância para atingir um público acostumado com doses excessivas de violência e efeitos especiais. Dirigido por Jeremiah Chechik (que depois assinaria o tenebroso "Os vingadores", antes de mudar-se de mala e cuia para a TV), "Diabolique" tem a seu favor a história interessante, mas deixa escapar a chance de ser uma obra de personalidade própria.



As protagonistas do filme são Nicole Horner (Sharon Stone) e Mia Baran (Isabelle Adjani), duas professoras de uma escola para meninos no interior dos EUA. Baran, que é uma das donas da instituição, é casada com seu sócio, o mesquinho e sórdido Guy (Chazz Palminteri), que a humilha e destrata diante de qualquer pessoa e que tem um caso tórrido com Nicole, que também sente-se menosprezada por ele. Cansadas de tanto sofrimento, as duas planejam sua morte, mas, depois de concretizá-la, passam a sofrer o assédio da detetive Shirley Vogel (Kathy Bates), uma mulher determinada a encontrar o desaparecido diretor da escola. Enquanto tentam lidar com a pressão, Nicole e Mia começam também a desconfiar que alguém sabe do que elas fizeram: o cadáver desaparece de onde deveria estar e suas roupas e objetos pessoais passam a surgir nos momentos mais imprevisíveis.

É impossível deixar de pensar em como a trama criada por Boileau e Narcejac poderia se prestar a um filme interessante mesmo sendo uma refilmagem. O desenvolvimento da história e seu final inesperado são realmente empolgantes, mas Chechik não parece desfrutar do mesmo entusiasmo: seus enquadramentos são burocráticos, suas tentativas de criar suspense são pífias e sua direção de atores é no mínimo sofrível. Apesar de ser uma boa atriz - e Scorsese provou isso pouco antes - Sharon Stone faz caras e bocas o tempo todo, num esforço desnecessário para parecer sexy e forte (verdade seja dita, nem mesmo com o figurino vulgar de sua personagem ela deixa de estar deslumbrante). Isabelle Adjani, por sua vez, está no pior momento de sua carreira, mantendo a mesma expressão assustada durante todo o filme - culpa da direção ou da falta de empenho da atriz? E se até mesmo o futuro criador da série "Lost", J.J. Abrahms faz uma pequena participação - como um documentarista - é de se estranhar apenas a presença de Kathy Bates em um elenco tão desigual: na pele da detetive que toma para si o encargo de resolver todo o caso do desaparecimento de Baran, a oscarizada atriz de "Louca obsessão" faz o possível para dar veracidade e dignidade ao filme.

"Diabolique" até serve como sessão noturna de um dia cansativo. Mas é uma vergonha quando comparado ao original, infelizmente indisponível para o grande público. Quem tiver a oportunidade, veja o primeiro. Quem não tiver e desejar apenas acompanhar uma história surpreendente pode até gostar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS

FARGO, UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 98min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel & Ethan Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Lauri Gaffin. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Ethan Coen. Elenco: Frances McDormand, William H. Macy, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell, John Carroll Lynch. Estreia: 08/3/96

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Joel Coen), Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (William H. Macy), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Frances McDormand), Roteiro Original
Palma de Ouro Festival de Cannes: Melhor Diretor (Joel Coen)

Afinal de contas, a que gênero cinematográfico pertence o filme "Fargo, uma comédia de erros"? Ora uma comédia de humor negro, ora um policial repleto de surpresas, ora uma mordaz crítica ao modo de vida dos "caipiras" americanos, o 6º longa dos irmãos Coen - queridinhos da crítica desde a década de 80 - aprimorou seu estilo mezzo anárquico mezzo subsersivo de forma a finalmente conquistar a sisuda Academia. Indicado a sete estatuetas do Oscar, levou duas - roteiro original e atriz - provando que, de vez em quando, boas ideias e inteligência são mais importantes que efeitos mirabolantes e orçamentos inchados. Desde que surgiram no cenário artístico americano - com o noir tardio "Gosto de sangue", de 1984 - Joel e Etan Coen nunca fizeram nada que não merecesse elogios rasgados da crítica. Roteiristas, diretores, produtores e até mesmo editores (sob o pseudônimo de Roderick Jaynes), eles são uma indústria de dois homens. E "Fargo" é uma de suas obras-primas.


Fargo é uma pequena cidade do interior de Dakota do Norte, onde acontece o encontro que dá o pontapé inicial à trama criada pelos Coen - falsamente indicada como uma história real nos créditos de abertura. É em um bar esfumaçado de Fargo que o Jerry Lundegaard (William H. Macy) conhece os mal-encarados  Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), recomendados por um colega de trabalho. Gerente de uma concessionária de automóveis, Jerry tem um plano aparentemente infalível para arrumar o dinheiro que lhe dará a oportunidade de investir em um negócio próprio: ele contrata os dois desconhecidos para que sequestrem sua esposa e peçam resgate a seu rude e seco sogro (Harve Presnell). Quando as coisas saem do controle - e corpos começam a se acumular - entra em cena Marge Gunderson (Frances McDormand), uma policial grávida de muitos meses que, detalhista e dedicada, tem como missão resolver o caso dos assassinatos ocorridos em sua jurisdição.


A recepção calorosa dos membros da Academia a "Fargo" é fácil de entender. Apesar de manter intactas as principais características de seu cinema - e até exagerá-las em determinadas sequências - Joel e Ethan Coen atingem, aqui, um equilíbrio raro entre a subversão e o mainstream. O visual apurado - cortesia de uma fotografia gélida de Roger Deakins - está um passo acima de seus trabalhos anteriores, e é brilhante a forma como o roteiro escrito a quatro mãos é conciso e assertivo. Sem apelar para as complicações de "Ajuste final", por exemplo, os irmãos contam sua história de forma direta, evitando ao máximo desviar a atenção da audiência para tramas paralelas. E, ao contrário da regra não escrita que dita que um filme policial precisa ser levado a sério e uma comédia não deve recorrer à violência, embaralham as cartas de maneira a surpreender o público a cada nova cena. E para isso, contam com personagens quase inacreditáveis vividos por um elenco nunca aquém de brilhante.


O humor nos filmes dos irmãos Coen é absolutamente particular. Não desperta gargalhadas histéricas nem tampouco é fácil ou comum, surgindo sempre da ironia, e isso nunca foi tão óbvio quanto em "Fargo". Os cadenciados diálogos que movem a história de morte e violência encontram em atores sensacionais sua voz perfeita. William H. Macy começa aqui uma galeria de homens fracassados que encontraria o auge em sua parceria com o diretor Paul Thomas Anderson, nos filmes "Boogie nights" e "Magnólia", onde viveria respectivamente um marido traído e um ex-gênio precoce decadente. Sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante foi justíssima e um prêmio não seria imerecido - principalmente se for levado em conta que perdeu a estatueta para o exagerado Cuba Gooding Jr.. Steve Buscemi e Peter Stormare formam uma dupla impecável em suas diferenças cruciais - e Stormare consegue ser apavorante nos momentos mais fortes do filme. Mas é Frances McDormand quem rouba descaradamente a cena, em uma interpretação genial, felizmente reconhecida com uma estatueta dourada.


Falando com um sotaque absurdo - e com uma naturalidade impressionante - McDormand faz de sua Marge uma personagem multidimensional, alternando sua personalidade metódica de policial com a doçura de uma futura mãe. É McDormand, com suas inflexões vocais e físicas (seu rosto é excepcional para comunicar-se com o público mesmo sem uma palavra dita) que parece dar um sentido de ordem à bagunça orquestrada pelos realizadores. Suas cenas com John Carroll Lynch - que vive seu marido dono-de-casa - são tranquilas, quase tediosas, como forma de demonstrar sua vida doméstica. Quando contracena com William H. Macy transforma-se em uma mulher forte que esconde sua inteligência atrás do barrigão de gestante. Com seus interrogados ela transmuta-se no que for preciso para arrancar informações. Como atriz, McDormand - esposa de Joel Coen - é digna de arrancar os maiores elogios possíveis.


"Fargo" é uma pequena pérola do cinema independente americano. Realizado com meros 7 milhões de dólares, é uma prova cabal de que pouco dinheiro nunca foi desculpa para falta de talento. Mesmo não agradando a todos os tipos de público - cuja maioria prefere assistir sempre a filmes mais "comuns" - é uma obra que une a ousadia do cinema de autor com a qualidade técnica da indústria hollywoodiana.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

TORMENTA

TORMENTA (White squall, 1996, Hollywood Pictures/Largo Entertainment, 129min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Todd Robinson, livro "The last voyage of the Albatross", de Charles Gieg Jr., Felix Sutton. Fotografia: Hugh Johnson. Montagem: Gerry Hambling. Música: Jeff Rona. Figurino: Rand Sagers. Direção de arte/cenários: Peter J. Hampton, Leslie Tomkins/Rand Sagers. Produção executiva: Ridley Scott. Produção: Mimi Polk Gitlin, Rocky Lang. Elenco: Jeff Bridges, Caroline Goodall, John Savage, Scott Wolf, Jeremy Sisto, Ryan Phillippe, Balthazar Getty, Ethan Embry, James Rebhorn. Estreia: 02/02/96

Não é querer fazer nenhum tipo de piada infame, mas "Sociedade dos poetas mortos" fez escola. Desde que o belo filme de Peter Weir lotou cinemas em 1989 um novo tipo de super-herói, sem poderes extra-terrenos ganhou o imaginário popular: professores dispostos a inspirar seu grupo de alunos. Em 1996, até mesmo o bem-sucedido Ridley Scott aderiu à tendência e realizou um de seus trabalhos menos conhecidos pelo grande público. Apesar do fracasso de bilheteria e das críticas apáticas, "Tormenta", baseado em uma história real, é um filme com uma qualidade acima da média, ainda que escorregue em alguns lugares-comuns e soe como uma espécie de cópia da obra-prima estrelada por Robin Williams.

O maior atrativo de "Tormenta" é Jeff Bridges. Bom ator como nunca, ele dá vida e substância a Skipper Sheldon, o capitão do Albatross, um barco-escola que, no ano de 1960, sai de Miami em direção ao Caribe com o objetivo de, no caminho, ensinar a seus oito tripulantes/alunos bem mais do que disciplinas acadêmicas: os adolescentes que embarcam na viagem liderada por ele tem por objetivo forjar seu caráter. Ajudado por sua esposa Alice (Caroline Goodall) - professora de Matemática e Ciências ,  seu companheiro de viagem McCrea (John Savage) - que dá aulas de Inglês e declama Shakespeare no café-da-manhã - e do jovem Shay Jennings (Jason Marsden), seu imediato, Skipper dá a seus oito discípulos lições de hombridade e integridade. A história, contada em off por um dos alunos, Chuck Gieg (Scott Wolf), sofre uma reviravolta quando um trágico acidente provocado por uma tormenta - a "white squall" do título original - faz vítimas fatais e o capitão é levado a julgamento por negligência.



A bem da verdade, a direção de Ridley Scott está longe do brilhantismo de seus melhores filmes, como "Blade Runner" e "Thelma & Louise". Quase burocrático, Scott ainda assim mantém o domínio narrativo, nunca permitindo que o tédio se manifeste. Em forma de anedotas cotidianas, a primeira parte do filme apresenta suas personagens de forma dinâmica e até carinhosa. Mesmo sendo mais estereótipos do que personagens multidimensionais, o traumatizado Gil Martin (Ryan Phillipe em início de carreira), o garoto-problema Dean Preston (Eric Michael Cole), o mimado Frank Beaumont (Jeremy Sisto) e até mesmo o sensível Chuck conquistam a plateia sem muito esforço. Sua segunda parte - cujo clímax é a apavorante tormenta, em uma sequência que dura angustiantes quinze minutos - perde um pouco a força: o julgamento de Skipper não é muito convincente, talvez por lembrar demais o filme de Peter Weir, com direito inclusive à catarse emocional, que, aliás, mostra a fragilidade de Scott Wolf como ator.

Revelado na série televisiva "O quinteto", Wolf foi louvado, na segunda metade da década de 90, como um novo Tom Cruise, mas sem o carisma do galã dos anos 80 e tampouco sem seu talento em escolher os projetos mais adequados, se perdeu no meio do caminho. Em "Tormenta" ele se esforça visivelmente, mas, mesmo tendo o papel mais importante dentre os jovens do elenco, se deixa eclipsar por colegas com personagens de menor destaque, como Ryan Phillipe e Jeremy Sisto. Quando contracena com Jeff Bridges, então, praticamente desaparece diante de sua presença maciça e dominante. Bridges, aliás, é o motivo primordial para que se assista ao filme, em mais uma interpretação sensacional.

Não é difícil entender porque "Tormenta" foi praticamente ignorado em seu lançamento. A trama é um tanto derivativa, o roteiro não apela para pieguices exageradas e Jeff Bridges, por melhor ator que seja, não é um chamariz de público. Nem mesmo o nome de Ridley Scott nos créditos foi capaz de lhe dar uma sorte maior. Mas é um entretenimento honesto, realizado com o capricho técnico que se espera do cineasta e tem uma história interessante e bem contada. Vale a pena uma espiada sem maiores expectativas.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Dead Man Walking, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 122min) Direção: Tim Robbins. Roteiro: Tim Robbins, livro de Helen Prejean. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: David Robbins. Figurino: Renée Ehrlich Kaifus. Direção de arte/cenários: Richard Hoover. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Jon Kilik, Tim Robbins, Rudd Simmons. Elenco: Susan Sarandon, Sean Penn, Raymond J. Barry, Robert Prosky, R. Lee Ermey, Celia Weston, Lois Smith, Clancy Brown, Margo Martindale, Peter Sarsgaard, Jack Black, Jon Abrahams. Estreia: 29/12/95

4 indicações ao Oscar: Diretor (Tim Robbins), Ator (Sean Penn), Atriz (Susan Sarandon), Canção Original ("Dead Man Walking")
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)
Urso de Prata no Festival de Berlim: Melhor Ator (Sean Penn)

Militância política - não a partidária preconizada por Arnold Schwarzenegger, entenda-se - não é exatamente vista como uma qualidade pelos conservadores olhos de Hollywood, e que o digam Susan Sarandon e Tim Robbins: um dos casais mais politicamente ativos da indústria, eles despertaram a ira da Academia quando, no Oscar de 1993, fizeram um discurso criticando a maneira com que o governo do Haiti lidava com os imigrantes soropositivos. Banidos da cerimônia por dois anos consecutivos, eles, no entanto, voltaram por cima, com o poderoso "Os últimos passos de um homem", escrito, produzido e dirigido por Robbins e estrelado por Sarandon. Aclamado pela crítica e premiado no Festival de Berlim, a crítica nada velada à pena de morte saiu da festa de 1995 com a estatueta de melhor atriz para Susan, além de ter concorrido a outros três importantes prêmios. Quem ri por último ri melhor.

"Os últimos passos de um homem" é uma história real, adaptada de um livro escrito pela religiosa Helen Prejean, vivida no filme por uma Sarandon desprovida de qualquer elemento sexual ou romântico. Sua personagem é uma mulher que abandonou as regalias de uma classe social privilegiada para seguir sua vocação e trabalhar com crianças de comunidades carentes. Sua vida pacífica e sem sobressaltos sofre um abalo quando ela recebe a carta de um homem condenado à morte, acusado por estupro e duplo homicídio. Orientada por seu superior, Helen procura o presidiário, Matthew Poncelet (Sean Penn), que lhe pede ajuda para reverter sua sentença, alegando inocência. Racista, misógino, anti-semita e nem um pouco dado a sutilezas, Poncelet não é um exemplo de réu, e aos poucos a religiosa percebe que qualquer súplica às autoridades competentes será inútil para trasmutar a pena de morte em prisão perpétua. Oferencendo-se para ser sua conselheira espiritual em seus últimos dias, ela acaba despertando a revolta nos pais de suas vítimas, que não conseguem entender como ela é capaz de ficar ao lado de "um animal que merece a morte".


Apesar de ser abertamente contra a pena capital, Tim Robbins toma o cuidado muito bem-vindo de jamais deixar que seu filme assuma um tom de sermão ou discurso. Seu roteiro, equilibrado e inteligente, discute com propriedade todos os lados da questão levantada e o faz com parcimônia e bom gosto. Helen Prejean faz as vezes de espectador, sendo questionada frequentemente a respeito de sua escolha em colaborar com o homicida cruel vivido por Penn. Seus diálogos com os pais das vítimas são comoventes e jamais soam artificiais, em especial ao cuidado de Robbins na direção de atores: em especial R. Lee Ermey e Raymond J. Barry vão muito além do chamado do dever em suas cenas, o mesmo podendo ser dito de Roberta Maxwell, que não precisa falar muito para roubar a cena como a mãe de Poncelet. Coadjuvantes preciosos, eles pontuam o show inesquecível de seu par de atores centrais.

Se Susan Sarandon levou um Oscar que já lhe era devido no mínimo desde "Thelma & Louise", Sean Penn contruiu um Matthew Poncelet irretocável. Asqueroso em sua arrogância inicial, ele faz com que o público se compadeça aos poucos de sua personagem, sem jamais perder sua essência. A mudança que ocorre com Poncelet em seus últimos passos não parece forçada ou anti-natural e sim uma consequência do amor que finalmente recebeu. Por sua capacidade de transmitir os contraditórios sentimentos do condenado, Penn foi indicado ao Oscar e levou o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim. Nada mais merecido!

Mas e quanto à ideologia contida em "Os últimos passos de um homem"? Talvez o filme de Robbins não mude a ideia de nenhum espectador, ainda que consiga no mínimo levantar uma discussão válida e sempre pertinente - é chocante ver, por exemplo, como a execução é tratada, com sanduíches sendo distribuídos à plateia e a frieza com que tudo é tratado. Essa frieza, no entanto, não consegue impedir que o clímax do filme seja poderoso a ponto de provocar lágrimas de emoção até mesmo no mais cínico espectador. E mesmo aqueles que acham que todo o arrependimento do protagonista não teria acontecido se ele não tivesse sido também vitimado por um homícidio (ainda que legalizado) não conseguirão tirar tão cedo da mente as belas interpretações de Sarandon e Penn, sonorizadas pela bela canção final de Bruce Springsteen.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

NIXON

NIXON (Nixon, 1995, Cinergi Pictures/Hollywood Pictures, 192min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: John Williams. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção: Oliver Stone, Clayton Townsend, Andrew G. Vajna. Elenco: Anthony Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Ed Harris, Bob Hoskins, E.G. Marshall, David Paymer, Paul Sorvino, Mary Steenburgen, David Hyde Pierce, J.T.Walsh, James Woods, Dan Hedaya, Saul Rubinek. Estreia: 20/12/95

4 indicações ao Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Original, Trilha Sonora Original

Oliver Stone tem a obsessão de dissecar a alma ianque através de seus ídolos ("The Doors"), seus traumas ("Platoon" e "Nascido em 4 de julho") e - a julgar pelo recente "W" e por "Nixon", lançado em 1995 - de seus líderes. Polêmico como sempre, o cineasta vencedor de dois Oscar de direção encontrou na história do mais controverso dos presidentes norte-americanos o material ideal para exercitar seus radicais pontos de vista. Apedrejado pelos puristas - que o acusaram de distorcer fatos históricos em prol de suas teorias - o filme tampouco encontrou seu público, não rendendo nem metade de seu orçamento e dividindo a crítica. Apesar disso - e da sua duração excessiva - é um importante e interessante documento sobre uma das figuras mais complexas da história dos EUA, que comandou seu país durante alguns de seus mais sombrios momentos.

O roteiro do filme, indicado ao Oscar por sua complexa estrutura - que apresenta acontecimentos verídicos mesclados com uma grande parcela de licenças poéticas - começa às vésperas da renúncia do presidente Richard Nixon (Anthony Hopkins), consequência direta do malfadado escândalo Watergate. Enquanto fica remoendo suas culpas e tentando encontrar uma maneira de sair intacto do processo de impeachment pelo qual está passando, Nixon passa em revista toda a sua vida, desde a infância pobre - e a perda precoce dos dois irmãos - até a reeleição para presidente da República, passando pelos inúmeros fracassos políticos e pelo relacionamento com seu porto seguro, a esposa Pat (Joan Allen). Extremamente talentoso como orador, Nixon sofria, no entanto, de uma rejeição grande por parte do eleitorado. Como diz um de seus assessores em determinado momento, "é de se imaginar o quão grande ele seria se as pessoas gostassem dele."

O retrato que Oliver Stone faz de seu biografado não é exatamente agradável, ainda que tente, em certas ocasiões, fugir da crítica explícita. O que provavelmente desagradou aos fãs do ex-presidente foi sua caracterização como um homem inseguro, egocêntrico e por vezes até mesmo covarde. Como um Narciso às avessas, Nixon, apesar de considerar-se (e ser) o homem mais poderoso do mundo jamais conseguiu desvencilhar-se do misto de admiração e inveja que sentia por John Kennedy. Em uma sintomática afirmação, ele declara a um quadro do mais querido líder da história americana: "Quando eles olham pra você, eles veem o que querem ser. Quando olham para mim, veem o que eles são." Na voz poderosa e na atuação inacreditável de Anthony Hopkins, essa talvez seja a frase que melhor define a personalidade dúbia do homem que, mesmo depois de ter sido praticamente escorraçado da Casa Branca, foi enterrado com pompas de grande estadista.



Usando e abusando de seu estilo próprio de contar uma história - estilo este que tem tantos fãs ardorosos quanto detratores aguerridos - Oliver Stone transforma "Nixon" em um exercício de paciência. São mais de três horas de duração que, ao contrário de "JFK", não passam voando. A trajetória de Nixon é tão repleta de acontecimentos importantes que fez-se necessário ao roteiro um número infindo de detalhes que, para quem não é especialista em história dos EUA (ou seja, a maioria esmagadora da audiência) soam como grego. Ao fugir do didatismo, Stone esbarra justamente nesse grande senão: são tantos nomes, tantas personagens e tantas datas que fica difícil ao público médio acompanhar tudo da maneira ideal. Enquanto o filme trata da vida pessoal do protagonista - em um belo preto-e-branco - não há maiores problemas, mas toda vez que o roteiro se concentra nas reuniões políticas entre o presidente e seus correligionários a coisa começa a ficar lenta demais, mesmo com a edição ágil e a trilha sonora impecável de John Williams ajudando o máximo possível. Dirigindo o filme como se fosse um suspense, Stone mais uma vez acerta na técnica, mas peca no excesso de informações.

Para sua sorte - e da plateia - novamente o cineasta escalou um elenco acima de qualquer crítica. Joan Allen foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu retrato de Pat Nixon, mesmo que, segundo pessoas próximas da real primeira-dama tenham discordado da forma com que o roteiro a tratou. Paul Sorvino - irreconhecível sob pesada maquiagem - vive com absurda propriedade Henry Kissinger e Bob Hoskins rouba a cena na pele do chefão do FBI J. Edgar Hoover. Mas nada é mais impressionante do que a interpretação extraordinária de Hopkins no papel-título. Mesmo sendo britânico - o que causou uma onda de protestos - Hopkins deixou pra trás americanos típicos para ficar com o papel central e não apenas conquistou elogios rasgados como também concorreu ao Oscar. Dificilmente Jack Nicholson, John Malkovich, Tom Hanks, Robin Williams e Warren Beatty, por melhores atores que sejam, seriam capazes da entrega que Hopkins apresenta em cena. As sequências em que, tal como uma trágica personagem shakespereana, o presidente sente-se traído, solitário e abandonado mostram um dos grandes atores do mundo em um de seus trabalhos mais ricos.

"Nixon" talvez não interesse à grande maioria do público, aquela que lota as salas de cinema em busca de divertimento. É um filme forte, realizado com um senso estético apurado e um tema relevante e controverso. Pode não dialogar o tempo todo com a verdade, mas até mesmo essa dubiedade combina com a personalidade que retrata.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR

MR. HOLLAND, ADORÁVEL PROFESSOR (Mr. Holland's Opus, 1995, Hollywood Pictures/Polygram Filmed Entertainment, 143min) Direção: Stephen Hereck. Roteiro: Patrick Sheane Duncan. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Trudy Ship. Música: Michael Kamen. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: David Nichols/Jan Bergstrom. Produção executiva: Patrick Sheane Duncan, Scott Kroopf. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Michael Nolin. Elenco: Richard Dreyfuss, Glenne Headly, Jay Thomas, Olympia Dukakis, William H. Macy, Alicia Witt, Terrence Howard, Forest Whitaker, Joanna Gleason, Joseph Anderson. Estreia: 29/12/95

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Dreyfuss)

Não há como subestimar o poder de um grande ator. Mesmo muito tempo depois de ser um dos mais populares astros de Hollywood - o que aconteceu nos anos 70, quando trabalhou com Steven Spielberg em "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau" - Richard Dreyfuss é a principal razão pela qual o drama "Mr. Holland, adorável professor" fez o sucesso que fez nas bilheterias americanas. Mesmo sem ter a seu favor uma beleza estonteante ou fazer parte de qualquer franquia milionária, Dreyfuss tem carisma o bastante para fazer com que o filme de Stephen Herek tenha rendido mais de 80 milhões de dólares somente no mercado americano. Indicado ao Oscar por seu precioso trabalho, ele teve o azar de bater de frente com o ultra-premiado Nicolas Cage. Caso contrário, era bem possível que também tivesse conquistado os eleitores da Academia mais uma vez, quase vinte anos depois de sua primeira vitória, por "A garota do adeus".

Quando a história de "Mr. Holland" começa, em 1965, o protagonista tem 30 anos de idade, enquanto Dreyfuss já estava perto dos cinquenta. Basta alguns minutos, porém, para que esse pequeno problema matemático seja abstraído, graças à atuação gigantesca do ator. Ele vive Glenn Holland, que tem como maior sonho de sua vida compor uma sinfonia para deixá-lo rico e famoso. Buscando tempo suficiente para atingir seu objetivo, ele arruma um trabalho como professor de Apreciação Musical em uma tradicional escola do interior dos EUA. A princípio frustrado com sua falta de vocação, logo ele descobre uma maneira pouco tradicional de conquistar seus alunos: misturando Bach com rock'n'roll, ele choca seus superiores, mas seduz seus estudantes, que passam a admirá-lo incondicionalmente. A cada dia mais e mais empurrado para longe da realização de seu sonho - principalmente por compromissos financeiros domésticos - ele não percebe a passagem dos anos, até que, trinta anos depois, quando a escola decide fechar o departamento de música, ele nota que sua vida girou em torno de influenciar todos os que passaram por suas aulas.



O roteiro de Patrick Sheane Duncan - indicado ao Golden Globe - faz milagres ao compactar trinta anos de movimentos sociais e musicais em pouco mais de duas horas de duração sem soar apressado ou superficial. Seu maior toque de inteligência foi utilizar um sub-gênero hollywoodiano - o filme de professor - para contar uma trama que alterna momentos puramente emocionais com uma disfarçada crítica às instituições de ensino americanas, bem como sua história. Traumas como a guerra do Vietnã e a morte de John Lennon são o pano de fundo para a trajetória de um homem comum, que precisa lidar com problemas pessoais - como a surdez do único filho - ao mesmo tempo em que precisa ser a inspiração para adolescentes em ebulição. E é comovente como ele ajuda a tímida Gertrude Lang (Alicia Witt) a levantar a auto-estima, o problemático Louis Russ (Terrence Howard) a manter-se na escola e a talentosa Rowena Morgan (Jean Louisa Kelly) a buscar suas aspirações - e com quem tem um perigoso flerte. Seus alunos, como bem diz uma personagem na sequência final, são sua sinfonia. E entre eles, em participações não creditadas, estão atores como Forest Whitaker e Balthazar Getty.

E a música é elemento fundamental em "Mr. Holland, adorável professor". Ao acompanhar a evolução rítmica do mundo ocidental, da década de 60 - quando o rock ainda estava em seu período áureo - até a metade dos anos 90, o público é brindado com um apanhado de belas canções, que vão de Gershwin a Beatles. E é justamente a morte de John Lennon a responsável pela mais bela cena do filme, quando Holland faz uma singela homenagem ao filho cantando "Beautiful boy", que o ex-Beatle compôs para o herdeiro Sean. São esses momentos de absoluta ternura que conquistam a plateia, a despeito de estarem perigosamente perto do piegas. E é aí que o talento de seus protagonistas faz toda a diferença.

Richard Dreyfuss é um dos atores mais sensacionais do cinema americano e demonstra isso em cada momento de "Mr. Holland". Dos 30 aos 60 anos de idade, ele convence plenamente, seja como professor dedicado, como compositor frustrado ou marido em crise de meia-idade. Capaz de emocionar e fazer rir, ele encontra em Glenne Headly uma parceira ideal. Na pele de Iris, sua esposa fiel e companheira, a atriz não deixa o astro eclipsar um trabalho sutil e delicado, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação do ano de 1995. Juntos, o casal conduz o público por um caminho emocionante, agradável e pontuado por uma trilha sonora deliciosa.

O único problema de "Mr. Holland, adorável professor" é que ele é capaz de despertar lágrimas até mesmo no mais empedernido espectador. E nem todo mundo gosta de assumir seu lado sensível...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

OS 12 MACACOS

OS DOZE MACACOS (Twelve monkeys, 1995, Universal Pictures, 129min) Direção: Terry Gilliam. Roteiro: David Peoples, Janet Peoples, roteiro original de Chris Marker. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Mick Audsley. Música: Paul Buckmaster. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Crispian Sallis. Produção executiva: Robert Cavallo, Robert Kosberg, Gary Levinsohn. Produção: Charles Roven. Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Christopher Meloni. Estreia: 27/12/95

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Brad Pitt)

Quando os estúdios de Hollywood passam por crises criativas - e isso ocorre com uma frequência alarmante - o jeito é apelar a qualquer ideia que possa transformar-se em um filme razoavelmente interessante. Refilmar obras estrangeiras, então, passou a ser uma opção recorrente para sanar os bloqueios artísticos ianques. Foi assim com "Sommersby, o retorno de um estranho", que diluiu o impacto do original com Gerard Depardieu e com "True lies", que melhorou bastante o original francês, adicionando muito mais humor e ação à sua trama original. Em 1995, o prestigiado Terry Gilliam provou que até mesmo cineastas mais conhecidos por sua ojeriza ao sistema também fazer concessões ao comercial. "Os doze macacos" é a releitura do curta-metragem francês "La jetèe", lançado em 1962, mas sob a ótica de um dos fundadores do Monthy Phyton - e realizador do onírico "Brazil, o filme" - apenas a ideia central do original se mantém intacta.

Gilliam nem mesmo assistiu ao curta francês, dando atenção exclusiva ao roteiro distópico de David e Janet Peoples, que amplia a ideia complexa de viagens no tempo. Livre das amarras de ter que realizar uma refilmagem no sentido mais pleno do termo, o cineasta encontra espaço o bastante para suas excentricidades visuais - que encontra a expressão exata na direção de arte claustrófica e no figurino de Julie Weiss, indicado merecidamente ao Oscar. Explorando com perfeição a fotografia expressionista de Roger Pratt e a trilha sonora vibrante de Paul Buckmaster - que conquista a plateia já nos créditos iniciais, com um tango arrebatador que retorna sempre nos momentos mais emocionantes -  Gilliam faz mais do que apenas divertir sua audiência: ele a faz exercitar o cérebro, deixando-a com um ponto de interrogação até suas (tensas) cenas finais.



De acordo com a trama do filme, a população da Terra será dizimada por um vírus fatal, que vitimará mais de 5 bilhões de pessoas no ano de 1996. Em um futuro não determinado, um grupo de cientistas resolve enviar um apenado para alguns meses antes da pandemia, para que ele colete dados que possibilitem uma reversão da tragédia. O escolhido é o violento James Cole (Bruce Willis), que, mesmo sem saber direito em que consiste sua missão, vai parar em Baltimore, Atlanta, no ano de 1990 por um erro de cálculo. Preso como indigente, ele trava conhecimento com a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e, no hospital onde é internado, com o alucinado Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho de um conhecido virólogo. Depois de um retorno antecipado a seu período de origem, logo Cole volta à Terra, dessa vez realmente para o ano correto. Ao lado de Kathryn, Cole tentará impedir que o exército de ecoterroristas liderados por Goines - chamado de 12 macacos - libere o vírus que destruirá a humanidade.

Propositalmente confuso - talvez como forma de identificar a plaeia com seu protagonista atônito e quase impotente diante de um cataclisma de proporções gigantescas - "Os 12 macacos" força o espectador a estar atento durante toda a sua duração, uma vez que dá detalhes visuais, auditivos e verbais de seu desfecho a cada instante. Cada linha de díálogo e cada imagem são importantíssimos para que a experiência seja compreendida de todo. E é bem possível que essa necessidade de comprometimento extra com o cérebro que tenha sido a responsável pela bilheteria abaixo do esperado no mercado norte-americano. Para um filme que unia Bruce Willis com o ascendente Brad Pitt - vindo de sucessos consecutivos - uma renda de menos de 60 milhões, ainda que respeitável, soou como um pequeno fracasso comercial. Fazer o que se o público prefere filmes-pipoca com roteiro qualquer nota?

"Os 12 macacos" é uma aventura de ficção científica que foge dos padrões a que todos estamos acostumados. Não busca a aprovação da plateia com sequências de tirar o fôlego nem tampouco a confunde com termos absurdos inventados por fãs de "Star Trek" ou "Star Wars". É um suspense aterrador, que, apesar do tom negativista que imprime em quase toda a sua duração - graças ao visual feio proposto pelo desenhista de produção - termina com uma lufada de otimismo e e alívio. E ainda mostrou que, além de um galã feito sob medida para o século XXI, Brad Pitt é também um ator seguro e competente, que não se importa em abdicar de sua beleza para construir uma personagem forte e marcante.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

RAZÃO E SENSIBILIDADE

RAZÃO E SENSIBILIDADE (Sense and sensibility, 1995, Columbia Pictures, 136min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Emma Thompson, romance de Jane Austen. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva. Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet, Alan Rickman, Greg Wise, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Emilie François, Imelda Staunton, Hugh Laurie, Imogen Stubbs. Estreia: 13/12/95

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Emma Thompson), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Roteiro


Exatos 184 anos separam a data da publicação do romance "Razão e sensibilidade", da inglesa Jane Austen, da estreia de sua bem-sucedida adaptação cinematográfica, lançada em 1995 e dirigida por um (pasmem!) taiuanês. Nesse meio tempo, a história de duas irmãs de personalidades opostas que buscavam a felicidade do amor teve uma versão para a televisão britância, mas somente com o filme dirigido pelo talentoso Ang Lee a trama tornou-se popular em todo o mundo, dando o pontapé inicial em uma série de vários filmes e minisséries adaptadas da obra da autora - que já havia sido lembrada por Amy Heckerling em "As patricinhas de Beverly Hills", uma mal-disfarçada adaptação de "Emma".

Escrito no longo período de quatro anos e meio, o roteiro de Thompson mantém intactos o romantismo e a ironia da obra de Austen, dando extremo valor à fidelidade ao original literário. Sarcástica como o texto que adaptou, Emma Thompson imprime leveza e modernidade a uma trama que poderia soar anacrônica ou poeirenta a uma plateia acostumada a invasões alienígenas e dinossauros em CGI. Ainda que não tenha chegado nem perto de ser um estrondoso sucesso de bilheteria - rendeu pouco menos de 43 milhões nos EUA - "Razão e sensibilidade" encontrou um lugar cativo junto aos fãs de boas histórias contadas com inteligência e delicadeza. Agradou também a crítica e os membros da Academia, que lhe deram 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Por razões que até hoje soam absolutamente idiossincráticas - e que vitimaram Christopher Nolan em 2011 - Ang Lee ficou de fora da briga pela estatueta de Melhor Diretor. Injustiça pura, pois é Lee, com seu olhar estrangeiro, que dá ainda mais consistência ao resultado final de um filme que, utilizando elementos do mais puro folhetim, faz uma crítica ao modo de vida de uma parcela considerável de ingleses vitorianos.

A história criada por Jane Austen - escritora que foi descoberta pelo cinema no final dos anos 90 - começa quando a Sra. Dashwood (Gemma Jones) fica viúva e vê, de uma hora pra outra, seu status social sofrer uma considerável queda. Obrigada a abandonar a propriedade onde morava com as três filhas, ela vai morar em um chalé no interior, sentindo-se humilhada principalmente por Fanny (Harriet Walter), a antipática esposa de seu enteado. Quem mais sofre com essa repentina mudança de classe social são suas filhas, que vêem suas possibilidades de arrumar um bom casamento seriamente ameaçadas. A mais velha, Elinor (Emma Thompson) é uma mulher racional, de bom-senso e discreta, que se apaixona, ao seu estilo calado, por Edward Ferrars (Hugh Grant), irmão de Fanny, sem saber que ele mantém um noivado secreto há alguns anos. A filha do meio, Marianne (Kate Winslet) é o oposto da irmã: passional e calorosa, ela não esconde de ninguém o amor avassalador que sente pelo jovem Wilhougby (Greg Wise), um rapaz de ética duvidosa, e não percebe que desperta sentimentos profundos no sério Coronel Brandon (Alan Rickman).
 
Ainda que a Taiwan do século XX e a Inglaterra do século XIX sejam tão semelhantes quanto água e vinho, Ang Lee - diretor do espetacular "O banquete de casamento", indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro - conseguiu um feito e tanto. É quase impossível acreditar que por trás de "Razão e sensibilidade" não esteja um inglês rigoroso, ao estilo James Ivory, tamanho o grau de verdade e conhecimento de causa impresso em cada cena do filme. Mergulhando sem medo na cultura inglesa da época de Austen, Ang Lee demonstra um absurdo senso de observação e crítica, ainda que carinhoso, das tradições e idiossincrasias de uma sociedade muito distante de sua realidade. E o faz contando com a ajuda de uma equipe de sonhos. A bela fotografia de Michael Coulter deslumbra a plateia mostrando uma Inglaterra bucólica e romântica, com vastos campos verdejantes servindo de cenário aos espirituosos diálogos. A trilha sonora discreta de Patrick Doyle comenta a ação sem roubar a atenção da trama e a reconstituição de época é primorosa - é de chamar a atenção a forma com que Ang Lee comenta, visualmente, a diferença entre as classes sociais do período em um baile de gala. É sutil, mas brilhante, assim como o elenco, escalado com perfeição.


Ainda que não esteja excepcional como costuma estar, Emma Thompson foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação como Elinor, a sensata irmã mais velha - saiu premiada da cerimônia, mas devido a seu roteiro impecável. Hugh Grant e Alan Rickman estão no tom exato de suas personagens, ainda que os homens nas histórias de Austen sejam apenas coadjuvantes de luxo (ou troféus disputados sofregamente). E até mesmo atores que mais tarde se tornariam importantes peças dentro de Hollywood - Hugh Laurie, Tom Wilkinson e Imelda Staunton - dão o ar da graça, em intervenções que vão do dramático ao cômico sem nunca soar exagerado. Mas é Kate Winslet quem se sobressai, dando vida a uma Marianne passional, apaixonada pela vida e incapaz de manter em fogo brando seus sentimentos, mesmo que isso ameaçe seu bem-estar e a maneira com que é vista pela preconceituosa sociedade que a rodeia. Merecidamente indicada à estatueta de atriz coadjuvante - que perdeu para Mira Sorvino, em "Poderosa Afrodite" - Winslet já demonstrava, aos 21 anos, todo o talento que viria a transformar-lhe em uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

"Razão e sensibilidade" é um filme de classe, realizado com capricho e delicadeza. É provavelmente a melhor adaptação de um romance de Jane Austen feita em Hollywood até hoje.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

CASSINO

CASSINO (Casino, 1995, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese, livro de Nicholas Pileggi. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Dunn, Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Rick Simpson. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Kevin Pollak. Estreia: 22/11/95

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Sharon Stone)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sharon Stone)

A filmografia de Martin Scorsese é, mais do que qualquer outra do cinema americano contemporâneo, uma filmografia que é melhor descrita por uma profusão de adjetivos. Depois do belo, romântico, devastador e opulento "A época da inocência", em que o cineasta exercitou seu lado menos violento - fisicamente falando - ele entregou à plateia o visceral, vigoroso, arrebatador e tenso "Cassino", em que volta a seu habitat natural com a mesma força que imprimiu em "Os bons companheiros", com quem, aliás, este seu filme dialoga em inúmeros momentos de estilo. Pode-se dizer que "Cassino" é o irmão mais velho e mais tranquilo de "Os bons companheiros", ainda que seja tão violento e amoral quanto.

Mais uma vez, como é costume em sua obra, Scorsese conta a história de um homem cercado de inimigos por todos os lados. No entanto, se em "Taxi driver" os rivais de Travis Bickle estavam em sua mente distorcida e em "Touro indomável" a paranoia de Jake LaMotta mostrava-se injustificada, em "Cassino" as ameaças contra o protagonista Sam Rothstein são bem concretas e tem a forma das pessoas que ele mais ama: a esposa - ex-prostituta e viciada em drogas e o melhor amigo - um gângster beligerante e temperamental. Tal como uma personagem de tragédias shakespereanas, Rothstein vive em constante tensão e medo... e pessoas com medo tendem a ser perigosas, como todo mundo sabe.

Baseado em um livro do escritor Nicholas Pileggi - cujos direitos foram comprados para o cinema antes mesmo do lançamento - "Cassino" é tudo que se espera de um filme com a assinatura de Martin Scorsese (e lá veem de novo mais adjetivos): é cruel, é ágil, é tecnicamente impecável, excitante e chocante, com direito a algumas das cenas mais violentas do cinema ianque nos anos 90. Dirigido com uma energia e uma paixão explícitas, é também um exercício de estilo e a prova inconteste de que, sob o comando de um diretor de verdade, Sharon Stone, além de linda e sexy é uma atriz de grande garra e talento. Premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela consegue um feito raro: ofuscar Robert DeNiro e  Joe Pesci (repetindo trejeitos de seu trabalho oscarizado de "Os bons companheiros".



Belíssima, elegante e chique mesmo cheirando carreiras e mais carreiras de cocaína, Stone vive (de corpo e alma) Ginger McKenna, uma prostituta de luxo que cai nas graças de Sam Rothstein (Robert DeNiro em um de seus últimos bons momentos nos últimos 15 anos), o gângster judeu que controla o Tangiers, um dos maiores cassinos de Las Vegas. Incapaz de manter-se fiel ao marido - em especial porque é dependente do ex-cafetão Lester Diamond (James Woods, sensacional) - ela acaba sendo a maior responsável, junto com Nicky Santoro (Joe Pesci), pela derrocada moral e financeira do marido. Mesmo que não seja a protagonista absoluta do filme - é quase uma coadjuvante, ainda que de bastante peso - Stone é o catalisador de todas as ações e reações da trama. Mesmo que incontáveis crimes aconteçam a seu redor - e Scorsese faz questão de mostrá-los em detalhes - é em Ginger que Sam Rothstein foca sua vida. E talvez justamente aí resida seu maior erro.

"Cassino" usa e abusa de cortes e movimentos de câmera ousados e complexos. Levando ao ápice a estrutura testada com propriedade em "Os bons companheiros", o cineasta e sua editora Thelma Schoonmaker exigem atenção extrema da plateia, ao alternar não apenas uma narração em off, mas duas: a história é contada sob os diferentes pontos de vista tanto de Rothstein quanto de Nicky Santoro, o que faz com que cada pequeno detalhe seja de importância sumária para o entendimento da história contada. Nunca Scorsese foi tão visual quanto em "Cassino": os cenários, os figurinos exuberantes, a edição e o uso exemplar da trilha sonora são elementos de uma orquestra regida com maestria por um cineasta no auge de sua maturidade artística. É de se questionar apenas por que a Academia praticamente ignorou mais essa obra-prima sua em detrimento de bobagens sentimentalóides como "Apollo 13". Apenas Sharon Stone foi indicada ao Oscar mas, apesar de ser quase uma favorita, perdeu a estatueta para Susan Sarandon.

"Cassino" é uma tour de force de um cineasta acostumado a presentear seu público com filmes no mínimo imperdíveis. É longo, mas ágil o bastante para jamais cansar o espectador. É violento, mas nunca chocante demais para afugentar os mais sensíveis. E é, acima de tudo, uma história contada com absoluto domínio da técnica cinematográfica.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

PODEROSA AFRODITE

PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995, Miramax Films/Magnolia Pictures/Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Helena Bonham-Carter, Mira Sorvino, Peter Weller, Michael Rapaport, F. Murray Abraham, Olympia Dukakis, Jack Warden, Paul Giamatti. Estreia: 27/10/95


2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)

Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.

O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.



Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!

E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.

"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

DESPEDIDA EM LAS VEGAS

DESPEDIDA EM LAS VEGAS (Leaving Las Vegas, 1995, Initial Productions/Lumière Productions, 111min) Direção: Mike Figgis. Roteiro: Mike Figgis, romance de John O'Brien. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: John Smith. Música: Mike Figgis. Figurino: Laura Goldsmith. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Stuart Regen, Paige Simpson. Produção: Lila Cazès, Annie Stewart. Elenco: Nicolas Cage, Elisabeth Shue, Julian Sands, Steven Weber, Valeria Golino, Xander Berkeley. Estreia: 27/10/95

4 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Figgis), Ator (Nicolas Cage), Atriz (Elisabeth Shue), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Nicolas Cage)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Nicolas Cage)

Em um de seus grandes contos, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu afirmou: "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." Não se pode dizer com certeza se "especial" é o adjetivo mais adequado para definir as almas de Ben Sanderson e Sera, os protagonistas do filme "Despedida em Las Vegas", mas uma coisa é certa: no meio de todo o exagero de luzes neon e a energia pesada da cidade do jogo, eles se encontraram, se reconheceram e se apaixonaram. Talvez a paixão avassaladora que os uniu tenha sido uma válvula de escape de suas vidas desesperançadas, mas ela existiu. E, sob um depressivo som de blues, nasceu e morreu com a velocidade de uma rodada de blackjack.

Baseado em um romance do escritor americano John O'Brien - que cometeu suicídio logo que o filme começou a ser produzido, o que dá uma ideia do teor baixo-astral da trama - "Despedida em Las Vegas" é o filme mais importante da carreira do cineasta Mike Figgis, também autor do roteiro e da música original. Indicado em 4 importantes categorias do Oscar de 1995, deu a Nicolas Cage quase todos os prêmios possíveis do ano, graças a sua inspirada atuação, além de ter ressuscitado (ainda que por pouco tempo) a carreira da atriz Elisabeth Shue. Organicamente triste, deprê e barra-pesada, é também mais uma prova de que pouco dinheiro não é desculpa para mediocridade: feito a um custo inferior a 4 milhões de dólares, rendeu mais de 30 milhões nos EUA e foi uma das mais premiadas obras do ano. Paradoxalmente, porém, sua maior qualidade é também seu maior problema: o tom de decadência física e moral que perpassa o filme, ainda que fascine a crítica, afasta o público médio. Azar do público médio, que prefere Nicolas Cage bancando o super-herói em tramas risíveis.

Em "Despedida em Las Vegas", o sobrinho de Francis Ford Coppola se entrega de corpo e alma a uma personagem doente, decadente e cuja existência carece de maior razão de ser do que litros e litros de álcool. Abandonado pela mulher - segundo suas palavras, não sabe se a perdeu por beber ou bebe por tê-la perdido - demitido do emprego de roteirista de Hollywood e sem vontade de seguir uma vida que não lhe parece nem um pouco atraente, Ben Sanderson resolve sair de Los Angeles e ir para Las Vegas com o único objetivo de beber até morrer. Lá, ele conhece a bela Sera (Elisabeth Shue), uma prostituta linda e explorada por um cafetão lituano (Julian Sands), que desabafa com um analista nunca mostrado. Maltratada pela vida e extremamente solitária, ela acaba se envolvendo com Ben mesmo sabendo de sua propensão à auto-destruição.


É impressionante a entrega de Nicolas Cage ao papel de Ben. Ator de tipos excêntricos, ele encontra no anti-herói criado por O'Brien o papel de sua vida e o interpreta com uma dedicação comovente, fazendo dele um ser humano real, com qualidades e defeitos. Em nenhum momento ele busca a aprovação ou a compaixão da audiência, nem procura ser artificialmente carismático. Fotografado cruamente por Declan Quinn - que dá uma certa beleza malcólica à decadência de quartos de hotéis baratos e sarjetas - seu caminho em direção à morte anunciada é pontuado por canções de Sting e as luzes que fazem da capital americana do jogo um paraíso artificial - aliás, o cenário escolhido para o capítulo final de sua jornada não poderia ser mais adequado.

E se Cage fez por merecer todos os elogios e prêmios que levou por sua atuação - que lhe dão crédito o bastante para que se tente ignorar 90% dos filmes que ele fez a partir de então - ele encontra em Elisabeth Shue a parceira ideal. Mais lembrada como a namoradinha de Michael J. Fox nas duas últimas aventuras de "De volta para o futuro" e de Tom Cruise em "Cocktail", Shue surpreende com a segurança que imprime em uma personagem difícil e complexa. Linda e sedutora, ela também consegue ser frágil, como mostra a angustiante sequência em que é violentada por clientes adolescentes. Seu olhar desiludido frente à falta de expectativas de sua vida solitária já justifica a indicação ao Oscar - que perdeu para a veterana Susan Sarandon. Sua arrasadora cena de sexo com Ben, nos últimos minutos de projeção é tudo que cineastas metidos a cult gostariam de fazer e não conseguem.

Não dá para recomendar "Despedida em Las Vegas" para qualquer público. É sentido demais, triste demais, tudo demais. Retrata o desespero humano em seu expoente máximo, ainda que silencioso e/ou agressivo. E isso definitivamente não é palatável a todo mundo.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

COPYCAT, A VIDA IMITA A MORTE

COPYCAT, A VIDA IMITA A MORTE (Copycat, 1995, Regency Enterprises, 123min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Ann Biderman, David Madsen. Fotografia: Láslzló Kovács. Montagem: Jim Clark, Alan Heim. Música: Christopher Young. Figurino: Claudia Brown. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Catherine Davis. Produção executiva: John Fiedler, Michael Nathanson. Produção: Arnon Milchan, Mark Tarlov. Elenco: Sigourney Weaver, Holly Hunter, Dermot Mulroney, William MacNamara, Harry Connick Jr., J.E. Freeman, Will Patton. Estreia: 27/10/95

O mais curioso em se assistir a "Copycat, a vida imita a morte" nem é o fato de Sigourney Weaver interpretar, do alto de seu 1,80m, uma mulher frágil e indefesa. O que foge do comum no filme de Jon Amiel - uma trama policial abertamente com pretensões puramente comerciais - é a presença de Holly Hunter, uma atriz acostumada a estar nos créditos de filmes independentes e vencedora do Oscar e da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Liderando o elenco de um produto derivativo - ainda que razoavelmente interessante em alguns momentos - as duas atrizes, donas de talentos inquestionáveis, são a principal razão de ser do filme do mesmo diretor do romântico "Sommersby, o retorno de um estranho".

Helen Hudson (Sigourney Weaver) é uma especialista em traçar perfis psicológicos de serial killers que, atacada por um deles, Darryll Lee Cullum (Harry Connick Jr.), fica traumatizada a ponto de isolar-se dentro de seu apartamento. Sofrendo de agorafobia - medo patológico de sair à rua - ela utiliza a Internet para ter contato com o mundo exterior, mas sem esperar, mais de um ano depois de ter sofrido o ataque ela se vê novamente envolvida com a polícia. Procurada pela detetive M.J. Monahan (Holly Hunter) e seu parceiro  Reuben Goetz (Dermot Mulroney), ela fica sabendo que um psicopata anda fazendo suas vítimas de forma a imitar assassinos famosos, como Jeffrey Dahmer, Ted Bundy, o Filho de Sam e o Zodíaco. O próprio criminoso, através de emails e bilhetes, convida Helen a unir-se a seu jogo macabro.




Apesar de bastante correto, "Copycat" carece basicamente de ousadia, um fator que transformou seu contemporâneo "Seven, os sete crimes capitais" em um dos maiores êxitos do gênero. A direção de Amiel é burocrática, mas a culpa também é do roteiro, indeciso entre contar uma história policial nos moldes clássicos - com um clímax derivativo e sem grandes emoções - ou investigar a personalidade do vilão (vivido sem chame por William McNamara). Todas as cenas em que Hudson e Monahan dão passos em direção a solucionar o crime - através do estudo dos crimes do passado - são extremamente envolventes, embarcando a audiência em uma viagem por dentro dos meandros de uma caçada policial. Quando o filme se dedica a cenas de ação, no entanto, ele perde seu diferencial e une-se à vala comum das produções do estilo. Nem mesmo existe tensão o suficiente nos ataques do criminoso: Amiel deveria espelhar-se em Hitchcock, David Fincher e até no Jonathan Demme de "O silêncio dos inocentes" para criar o envolvimento do público. Aqui, essas sequências servem apenas para desviar a atenção do que é realmente empolgante.


Mas realmente é o elenco que transforma a experiência de se assistir a "Copycat" em algo mais do que um Supercine. Tanto Weaver quanto Hunter dão o máximo em suas atuações, ainda que suas personagens - mesmo a torturada criminologista de Weaver - não lhe deem muito material sobre o qual trabalhar. E não há dúvida de que insinuar um interesse romântico entre Helen e o policial Reuben é completamente desnecessário e improvável. Quem se sai melhor de toda a confusão é, por incrível que pareça, o cantor/ator Harry Connick Jr., que, mesmo em poucas aparições, rouba a cena descaradamente.

"Copycat" é um bom filme, mas que não é muito diferente de dezenas de outros similares. Não fosse seu elenco classe A estaria relegado a ser apenas mais um dos produtos a ser exibidos semanalmente nas televisões abertas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

SEVEN, OS SETE CRIMES CAPITAIS

SEVEN, OS SETE CRIMES CAPITAIS (Seven, 1995, New Line Cinema, 127min) Direção: David Fincher. Roteiro: Andrew Kevin Walker. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Clay A. Griffith. Produção executiva: Dan Kolsrud, Anne Kopelson, Gianni Nunnari. Produção: Phylis Carlyle, Arnold Kopelson. Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, Kevin Spacey, R. Lee Ermey, Mark Boone Jr. Estreia: 22/9/95

Indicado ao Oscar de Montagem

Os créditos iniciais já dão o tom do que vem pela frente: com a trilha sonora distorcida de Howard Shore por trás, imagens estremecidas e quase indistinguíveis mostram imagens desagradáveis e escuras, opressivas e angustiantes. É um aviso de David Fincher de que seu segundo filme - o primeiro desde as polêmicas reações a seu "Alien 3" - não é para qualquer estômago e, mais ainda, não tem a menor intenção de poupar ninguém, nem na plateia nem na tela. Um dos filmes mais corajosos dos anos 90 - e talvez por isso mesmo um dos momentos inesquecíveis do cinema policial em todos os tempos - o chocante "Seven, os sete crimes capitais" arrastou multidões às salas de exibição, com sua mistura perfeita entre clima sombrio, roteiro inteligente e um final avassalador. E é claro que contar com Brad Pitt encabeçando o elenco não atrapalhou em nada!!

Em plena ascensão à época do lançamento do filme, Pitt demonstrou que, ao contrário de vários colegas de profissão, se preocupava com os projetos nos quais investia. Sucessos seguidos como "Entrevista com o vampiro", "Lendas da paixão" e o posterior "Os 12 macacos" - que lhe garantiu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - provaram que, além de bonito e sexy, ele também é um excelente ator, em especial nas mãos de um bom diretor. E bom é pouco quando se trata de David Fincher. Oriundo do universo dos videoclipes, Fincher aliou, em sua carreira como cineasta, o extremo bom-gosto estético à ousadia em escolher seus roteiros. Escrito por Andrew Kevin Walker em um momento de extrema inspiração, "Seven" é dos poucos filmes que conseguem encantar igualmente público e crítica e manter, mesmo passados quinze anos de sua estreia, o mesmo sabor de novidade. É impossível passar incólume à seu pessimismo e sua extraordinária força narrativa, reforçada pela fotografia soturna de Darius Khondji, um dos mais talentosos profissionais de sua área, que depois assinaria os belos enquadramentos de "Beleza roubada" e "Evita", por exemplo.

Passada em uma cidade não identificada - mas logicamente uma metrópole violenta e caótica - a história criada por Walker começa às vésperas da aposentadoria do metódico e dedicado detetive de homicídios William Sommerset (Morgan Freeman). Em sua última semana profissional ele torna-se parceiro do jovem e energético David Mills (Brad Pitt), recém chegado na cidade com a esposa Tracy (Gwyneth Paltrow). Juntos, eles começam a investigar uma série de homicídios que, descobrem, é cometida por um serial killer inspirado nos sete pecados capitais: gula, cobiça, preguiça, vaidade, luxúria, inveja e ira. Meticuloso, paciente e crudelíssimo, o assassino desafia os detetives até que, inesperadamente, se entrega, para apresentar a todos o clímax de seu diabólico plano.


É impressionante a maneira com que Fincher apresenta sua história, tanto pictoriamente quanto em termos narrativos. A escuridão e a umidade que a fotografia de Khondji transmite ao espectador é palpável e serve com perfeição às intenções negras do roteiro, pessimista e corajoso como poucos. Não deixa de ser irônico, no entanto, que justamente o terço final do filme - e seu inesquecível clímax - se passe em um ambiente ensolarado e espaçoso. Esse aparente paradoxo apenas confirma a vocação de Fincher em fugir do óbvio e surpreender a audiência. O diálogo travado entre o psicótico John Doe e David Mills na viatura policial, a caminho do desfecho genial do filme mostra bem essa dubiedade proposta pelo roteiro: em falas marcantes, Doe questiona se realmente as suas vítimas eram tão inocentes e até que ponto ele não estava apenas limpando uma sujeira que denegria a humanidade. É um texto forte, impactante e recitado por um Kevin Spacey em sua melhor forma.

Aliás, "Seven" também deve muitíssimo a seu elenco. Brad Pitt faz muito mais do que enfeitar a tela, entregando uma atuação visceral. Morgan Freeman tem uma presença silenciosa, precisa e apaziguadora. E Kevin Spacey prova - mais uma vez, como se fosse preciso - que é um dos atores mais espetaculares de Hollywood. No mesmo ano em que levou o Oscar por seu inacreditável Verbal Kint de "Os suspeitos", ele criou um estarrecedor John Doe, um dos vilões mais fascinantes da história do cinema. Seu olhar apático e seu tom de voz quase monocórdio estão na medida certa, compondo um monstro real e por isso mesmo assustador. Basta meia-hora em cena para Spacey botar todo mundo no bolso...

Um dos filmes mais sensacionais da história do cinema americano, "Seven" deu novo fôlego à carreira de David Fincher, confirmou Brad Pitt como o nome mais promissor dos anos 90, deu a Morgan Freeman um dos melhores papéis de sua carreira e marcou a ferro e fogo no imaginário mundial o trabalho impecável de Kevin Spacey. Inteligente, surpreendente e chocante, é uma das maiores obras-primas da sétima arte.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O QUATRILHO

O QUATRILHO (O quatrilho, 1995, Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 92min) Direção: Fábio Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, adaptação de Antonio Calmon, romance de José Clemente Pozenato. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Karen Harley, Mair Tavares. Música: Jaques Morelenbaum, Caetano Veloso. Figurino: Isabel Paranhos. Direção de arte: Paulo Flaksman, Sérgio Silveira. Produção executiva: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Glória Pires, Patrícia Pillar, Alexandre Paternost, Bruno Campos, Cecil Thiré, Gianfrancesco Guarnieri, José Lewgoy. Estreia: 20/10/95

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Em 1995, os fãs de cinema brasileiro, que ainda estavam em êxtase com o inesperado sucesso de "Carlota Joaquina, princesa do Brazil", de Carla Camuratti - o marco inicial da retomada de nossa filmografia - tiveram um motivo a mais para sentir orgulho. "O quatrilho", adaptado do romance do escritor gaúcho José Clemente Pozenato e produzido pelo mesmo Luiz Carlos Barreto do mega-sucesso "Dona Flor e seus dois maridos", foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mais de trinta anos depois de "O pagador de promessas", de Anselmo Duarte, ter conseguido a mesma distinção. A euforia do momento era tanta que pouca gente percebeu que, a despeito de suas qualidades, o filme de Fábio Barreto não era exatamente um competidor muito forte. Dono de uma linguagem excessivamente televisiva, "O quatrilho" morreu na praia, perdendo a estatueta para o holandês "A excêntrica família de Antonia" - mesmo contando com uma espécie de apadrinhamento do poderoso Steven Spielberg.

Impressionado com o trabalho de Glória Pires - com quem manifestou interesse de trabalhar, dizem as más línguas - Spielberg até tentou fazer uma espécie de campanha a favor do filme brasileiro, mas esbarrou em um grave problema: apesar da história interessante e do brilho de suas atrizes centrais, a direção de Fábio Barreto é burocrática e sem inspiração, que o impede de ser grande cinema e o aproxima perigosamente de filmes feitos para a televisão. Nem mesmo a caprichada direção de arte e a fotografia conseguem fazer com que "O quatrilho" levante maiores voos. É um filme que promete muito mas jamais chega a encantar por completo sua audiência, sendo altamente prejudicado também pela absoluta apatia de seus dois atores principais.

A trama de "O quatrilho" se passa em Santa Corona, na serra gaúcha, e começa em 1910, com o casamento do pacato Angelo Gardone (Alexandre Paternost) com a bela Teresa (Patrícia Pillar). Devido a tradições culturais, logo após o matrimônio eles são obrigados a deixar a propriedade da família e, ambicioso, o rapaz resolve começar um negócio próprio, contando para isso com a ajuda de Mássimo (Bruno Campos), marido da prima de Teresa, a calada Pierina (Glória Pires). Enquanto as finanças prosperam, no entanto, o casamento de Angelo e Teresa não segue o rumo certo. Frustrada em suas aspirações românticas e sensuais, a bela jovem acaba encontrando no marido da prima um espelho de seus desejos e, em um rompante, foge com ele e a filha. A príncipio prostrados com a dupla traição, aos poucos Angelo e Pierina começam a reconstruir a vida e, mais por motivos práticos do que românticos, assumem uma relação, que irá chocar a conservadora sociedade católico/italiana em que vivem.



Não há dúvida de que a trama de Pozenato - que faz uma ponta no filme, como um fotógrafo - serve muito bem a um belo filme, a ponto de sua adaptação ser praticamente literal. Inspirada em um caso real, a troca de casais remete a um tradicional jogo de cartas dos italianos - em que a cada rodada é feita uma troca de parceiros - mas todas as inúmeras possibilidades da história acabam sendo desperdiçadas pelo roteiro preguiçoso e sem maiores aprofundamentos psicológicos ou dramáticos. Não fosse o talento superlativo de Glória Pires e Patrícia Pillar - capazes de transformar qualquer cena em um espetáculo à parte - "O quatrilho" correria o sério risco de tornar-se um poderoso soporífero.

Patrícia Pillar brilha intensamente na primeira parte do filme. Linda, carismática e provando-se uma excelente atriz, ela dá consistência a uma personagem que em outras mãos menos capazes poderia soar como leviana ou mau-caráter. Na interpretação de Patrícia, Teresa é uma Madame Bovary italiana, uma mulher presa em um casamento que oprime seus desejos e sonhos até o ponto de não suportar mais e, ao contrário da personagem de Flaubert, partir em busca da realização deles, mesmo sem ter exata consciência das consequências de seu ato. Quando ela sai de cena, boa parte dos encantos do filme vai com ela. Felizmente é aí que se abre espaço para Glória Pires mostrar porque é considerada uma das grandes atrizes do país.

Interpretando uma Pierina calada, taciturna, séria e ciente de seus deveres de esposa e mãe - apenas para explodir dramaticamente em uma cena inesquecível em que desafia um padre diante de uma paróquia lotada - Glória utiliza toda sua experiência para construir uma personagem que se comunica basicamente através de olhares baixos, de gestos comedidos e de um tom de voz sussurrante que escondem uma personalidade forte, prática e batalhadora. Se Patrícia é o corpo de "O quatrilho", Glória é sua alma. E consegue ser boa até mesmo contracenando com um tenebroso Bruno Campos, que, inexplicavelmente, fez relativo sucesso em uma carreira internacional. Com sua absoluta inexpressividade em cena - em um papel crucial - Campos atrapalha ainda mais as intenções do filme de ter qualidade de primeiro mundo.

Ufanismos à parte, "O quatrilho" é apenas um filme que, abdicando de palavrões e nudez gratuita - um avanço em relação ao que criou toda a aura de preconceito contra filmes brasileiros que somente anos depois seria parcialmente derrubado - conquistou um público considerável antes que isso se tornasse razoavelmente comum. Está a anos luz de distância de "Cidade de Deus", mas é infinitamente superior às obras cometidas por seu diretor pouco depois, como o sofrível "A paixão de Jacobina". E ouvir a doce voz de Caetano Veloso nos créditos iniciais e finais sempre será um deleite.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

OS SUSPEITOS

OS SUSPEITOS (The usual suspects, 1995, Polygram Filmed Entertainment, 106min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Christopher McQuarrie. Fotografia: Thomas Newton Sigel. Montagem e música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Howard Cummings/Sara Andrews. Produção executiva: Hans Brockmann, François Duplat, Art Horan, Robert Jones. Produção: Michael McDonnell, Bryan Singer. Elenco: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollack, Chazz Palminteri, Benicio Del Toro, Pete Postletwhaite, Suzy Amis, Dan Hedaya, Giancarlo Esposito. Estreia: 16/8/95

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Kevin Spacey), Roteiro Original

"O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe". A máxima do poeta francês Charles Baudelaire nunca foi usada com tanta propriedade e conveniência quanto em "Os suspeitos", filmaço de 1995 que levou os merecidos Oscar de roteiro original e ator coadjuvante (um Kevin Spacey absolutamente impecável) e colocou seu jovem diretor Bryan Singer na lista dos cineastas mais promissores da década - ele ainda faria o sufocante "O aprendiz" antes de aderir de vez ao mainstream com os dois primeiros capítulos da série "X-Men". Inteligente, dono de um clima de suspense irresistível e interpretado por um elenco nunca aquém de fascinante, "Os suspeitos" foi um cartão de visitas e tanto para um diretor que assinava recém seu segundo trabalho.

É impossível negar que o brilhante roteiro de Christopher McQuarrie seja talvez o maior responsável pelo burburinho todo em relação ao filme, que, assim como "Traídos pelo desejo" havia feito dois anos antes, exigia uma espécie de pacto de silêncio em relação a seu final inesperado. Contada de forma criativa, a busca pela identidade do famigerado criminoso húngaro Keyser Soze - o demônio em pessoa segundo uma testemunha ocular de seus feitos violentos - pega a plateia pelo cérebro e não a larga mais. No final de seus 106 minutos de projeção, fica impraticável não admirar a engenhosidade de uma trama que, mais do que surpreender, conquista pela absoluta simplicidade. Sim, todas as pistas estão aos olhos do público, que, intrigado, não resiste a uma segunda espiada. E se surpreende novamente.

Tudo começa quando uma chacina no porto de Los Angeles deixa apenas dois sobreviventes. Um deles está com a maior parte do corpo queimada e não fala inglês. O outro é Verbal Kint (Kevin Spacey), um bandido pé-de-chinelo aleijado e falante como seu apelido evidencia. Interrogado pelo detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri), responsável pela investigação da tragédia, Kint conta como foi parar no cais, iniciando sua história seis semanas antes, quando conheceu quatro homens em uma ação policial. Dean Keaton (Gabriel Byrne), Fred Fenster (Benicio Del Toro), Todd Hockney (Kevin Pollak), Michael McManus (Stephen Baldwin) e ele foram reunidos em uma delegacia, uniram-se para dar um golpe na polícia e depois descobriram que sua união fora planejada por Keyser Soze, um mafioso húngaro a quem todos deviam alguma coisa. Chantageados a cumprirem uma missão para o misterioso chefe, eles acabam vítimas de uma emboscada e cabe a Kujan desenredar o nó da história contada em detalhes por Kint.


É preciso assistir a "Os suspeitos" com olhos muito atentos. Cada cena, cada detalhe, cada linha de diálogo ajuda a montar o quebra-cabeças montado pelo roteiro, que vai e vem cronologicamente - influência de "Pulp fiction"? - e ainda consegue manter seu clima de absoluto suspense até os minutos finais. A segunda metade do filme - quando a audiência toma contato com o passado trágico de Soze - é tão sufocante, tão empolgante e tão elétrica que é não é difícil entender porque ele está em uma invejável 25ª colocação entre os 250 melhores filmes do site IMDB. A edição de John Ottman - também autor da climática trilha sonora - é ágil, complexa e jamais se perde em seus descaminhos e, mais do que tudo, o elenco fantástico escalado por Singer dá conta do recado mais do que lindamente.

Por incrível que pareça, o elenco de "Os suspeitos" consegue ser homogeneamente brilhante. Mesmo unindo nomes que seriam posteriormente consagrados - como Benicio Del Toro - com galãs buscando o respeito artístico - Stephen Baldwin - não há desníveis no casting do filme. O veterano Gabriel Byrne assume o papel do mais perseguido dos criminosos, mas é discreto o bastante para não tentar ofuscar seus colegas de cena - e entre os coadjuvantes estão dois indicados ao Oscar por papéis outros, Pete Postletwhaite e Chazz Palminteri. E talvez justamente por esse alto nível de atuações é que fica ainda mais patente o trabalho excepcional e acima de qualquer crítica de Kevin Spacey no crucial papel de Verbal Kint.

Coroando um ano que iniciaria sua consagração como um dos melhores atores americanos de sua geração - ele ainda estaria no elenco do inesquecível "Seven" - Spacey levou o Oscar de ator coadjuvante por um trabalho irretocável. Compondo uma personagem repleta de nuances físicas e emocionais, Spacey rouba o filme todo para si, mesmo que pareça não fazer muita força para isso - e talvez o segredo esteja exatamente aí. Ele é um ator tão fabuloso que sua simples presença em cena já convence a plateia de qualquer coisa, o que é essencial para sua personagem, que revela, aos poucos, toda a teia de mentiras, pistas falsas e armações espalhadas pelo caminho. É Verbal Kint - e consequentemente Kevin Spacey - que dá sentido e unidade a "Os suspeitos".

Hoje em dia é pouco provável que ainda haja pessoas no mundo que não conheçam a identidade de Kayser Soze. Mas mesmo de posse dessa informação desde os créditos iniciais de "Os suspeitos" é impossível não se deixar enredar pela genial obra de Singer, que fica melhor a cada revisão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

MENTES PERIGOSAS

MENTES PERIGOSAS (Dangerous minds, 1995, Hollywood Pictures, 99min) Direção: John N. Smith. Roteiro: Ronald Bass, livro "My posse don't do homework", de LouAnne Johnson. Fotografia: Pierre Letarte. Montagem: Tom Rolf. Música: Wendy & Lisa. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Catherine Mann. Produção executiva: Lucas Foster, Kate Guinzburg, Sandra Rabins. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Dzunza, Courtney B. Vance, John Neville, Robin Bartlett, Renoly Santiago, Wade Dominguez. Estreia: 11/8/95

Filmes sobre professores - praticamente um sub-gênero dentro da indústria hollywoodiana - correm sempre o risco de tentar o sublime - como o belo "Sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir - e chegar apenas ao ridículo - por exemplo, o patético "O substituto", com Tom Berenger. "Mentes perigosas", dirigido pelo pouco conhecido John N. Smith, fica no meio-termo. Munido de excelentes intenções, ele esbarra espetacularmente em dezenas de clichês e acaba se prejudicando justamente por evitar discutir com propriedade os temas que mais interessam ao público. Da forma que está, o filme - produzido pela dupla Don Simpson/Jerry Bruckheimer - é apenas uma sessão de sábado facilmente esquecível que encontra em Michelle Pfeiffer seu único real destaque. Ainda assim, pode agradar aos menos exigentes.


O filme começa relativamente bem, com a poderosa canção "Gangsta's paradise" dando o clima exato do local onde se passará a história a ser contada nas próximas duas horas. Baseado em uma história real escrita pela própria protagonista, "Mentes perigosas" se passa em uma escola localizada em uma área pobre e violenta de Nova York, onde a bela e delicada Louanne Johnson (Pfeiffer, bela e delicada como a personagem) vai lecionar. Seus alunos são ainda mais difíceis do que a maioria dos estudantes da escola, e ela percebe isso logo no primeiro dia, apesar da ajuda do amigo e colega Hal (George Dzunza). Marinheira reservista - o que em tese lhe dá uma força emocional maior do que o corriqueiro - ela sente-se violentamente rejeitada por seus alunos, todos eles membros de famílias paupérrimas e problemáticas. Conforme passa a conquistá-los - ensinando golpes de caratê e letras de músicas de Bob Dylan e utilizando de métodos pouco convencionais de incentivo - Louanne passa também a ter contato com os dramas pessoais de ao menos três estudantes. A esperta Callie (Bruklin Harris) está grávida e se vê pressionada a mudar de instituição de ensino; o esforçado Raul (Renoly Santiago) vem de uma família numerosa e precisa trabalhar para ajudá-los; e Emilio Ramirez (Wade Dominguez) está envolvido com gente perigosa que ameaça sua vida.


"Mentes perigosas" é clichê em cima de clichê. Todos os alunos de Louanne são aparentemente perigosos e cruéis mas no fundo se revelam boas pessoas, vítimas de uma sociedade injusta, como convém a todo e qualquer roteiro maniqueísta que se preze. Louanne é uma mulher linda, independente e culta que não faz outra coisa na vida a não ser preocupar-se com os alunos. E o final, quando ela finalmente consegue conquistar de vez todo mundo, a sensação que fica é a de que o filme já foi visto dezenas de outras vezes. E o pior é que foi. E das outras vezes, ainda que Michelle Pfeiffer não estivesse no elenco embelezando cada quadro, provavelmente as experiências foram melhores.

Não que "Mentes perigosas" seja um lixo. Pelo contrário, apesar de sua enxurrada de clichês, ele ainda consegue conquistar a audiência justamente por não fugir de tudo que se espera dele. Tudo que um filme do seu estilo promete ao público ele cumpre: uma protagonista carismática, alunos com problemas que descobrem novos sentidos para suas vidas dramáticas e um final esperançoso. É tão simples e tão pouco ambicioso que, apesar de não encantar e tornar-se inesquecível também não incomoda o bastante para ser considerado de todo ruim. Talvez com um diretor mais criativo e um roteiro menos burocrático para trabalhar, Michelle Pfeiffer pudesse ter sido mais reconhecida por seu belo esforço como atriz.

Sim, Michelle Pfeiffer é uma boa atriz e prova isso segurando com firmeza o papel principal de "Mentes perigosas". Para quem gosta do gênero, o filme é um prato cheio. Para os mais exigentes, talvez seja apenas mais um Supercine qualquer, com a bela Michelle enfeitando cada cena.