quinta-feira, 31 de março de 2011

NA COMPANHIA DE HOMENS

NA COMPANHIA DE HOMENS (In the company of men, 1997, Alliance Atlantis Communications/Fair and Square Productions, 97min) Direção e roteiro: Neil LaBute. Fotografia: Tony Hettinger. Montagem: Joel Plotch. Música: Karel Roessingn, Ken Williams. Direção de arte: Julia Henkel. Produção executiva: Toby Gaff, Mark Hart, Matt Malloy. Produção: Mark Archer, Stephen Pevner. Elenco: Aaron Eckhart, Matt Malloy, Stacy Edwards. Estreia: 01/8/97

"Não confio em um bicho que sangra sete dias sem morrer." Essa polêmica declaração do executivo Chad dá o tom exato de "Na companhia de homens", comédia de humor negro que causou controvérsia em sua estreia - e continua deixando as feministas e os politicamente corretos de cabelos em pé. Vencedor de inúmeros prêmios em festivais de cinema independente - e até mesmo do prestigioso círculo de críticos de Nova York - o filme de estreia do roteirista e diretor Neil LaBute se beneficia de sua coragem extrema em não utilizar de meias-palavras para contar sua história e, ainda mais importante, de contar com o ótimo Aaron Eckhart em um dos papéis centrais. É Aaron, com seu charme e talento naturais que comanda o espetáculo de misoginia orquestrado com concisão por LaBute.

Eckhart interpreta Chad, um jovem e ambicioso executivo que, em uma viagem de negócios, propõe a seu amigo e colega de escola e trabalho Howard (Matt Malloy) um plano diabólico que poderá lhes devolver o amor-próprio e o orgulho feridos por seus relacionamentos fracassados. Chad e Howard, aproveitando que estão longe de casa, resolvem seduzir e abandonar a mesma mulher, para que ela sofra com a rejeição e lhes restitua a sensação de superioridade do macho. A escolhida para ser a vítima do golpe é Christine (Stacy Edwards), uma secretária de sua empresa que, apesar de bela, é surda desde a infância. Excitada com o fato de estar sendo cortejada por dois homens, Christine nem de longe imagina o que lhe espera, e acaba se apaixonando perdidamente por Chad, sem perceber que Howard, carente depois de ter sido abandonado pela noiva, está caindo de amores por ela.


Contando a história de forma suscinta e direta, LaBute não tem medo de ir fundo em seu desejo de mandar às favas todas as normas da elegância. Chad é uma das personagens mais desprezíveis já criadas pelo cinema americano - capaz de disparar atrocidades verbais sem a menor sutileza - e ainda assim conquista a audiência devido ao charme cafajeste de seu intérprete. Mesmo um tanto chocado com a forma atroz com que Chad trata Catherine e até mesmo seus colegas de trabalho - ele chega a humilhar um funcionário negro com intenções de promoção - o público é levado a ter uma espécie de fascínio por ele. Se a intenção do roteiro era fazer com que a plateia tomasse contato com seu lado mais podre - e não o achasse assim tão ruim - é preciso dizer que teve muito sucesso. Mas qualquer um com um mínimo de suscetibilidade é bem capaz de ficar sem palavras diante da coragem do roteiro em ir até o fim em seus objetivos.

Talvez o fato de concentrar seus trunfos nos diálogos, repletos de um humor que não agradam a qualquer público, faça com que "Na companhia dos homens" não seja um produto de consumo fácil e digestão rápida. Até mesmo sua reviravolta final não é exatamente do tipo que faz a audiência vibrar, deixando, ao invés disso, um gosto amargo na boca e no estômago. Mas é um exemplo de roteiro e um sopro de criatividade em uma filmografia tão afeita a clichês quanto a americana.

quarta-feira, 30 de março de 2011

CONTATO

CONTATO (Contact, 1997, Warner Bros, 150min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: James V. Hart, Michael Goldenberg, romance de Carl Sagan, história de Carl Sagan, Ann Druyan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Michael J. Taylor. Produção executiva: Joan Bradshaw, Lynda Obst. Produção: Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Jodie Foster, Matthew McConaughey, David Morse, Jena Malone, William Fichtner, Rob Lowe, Tom Skerritt, Angela Bassett, John Hurt. Estreia: 11/7/97

Indicado ao Oscar de Som

Um dos mais populares escritores e astrônomos do mundo, Carl Sagan, autor da famosa série "Cosmos", morreu no final de 1996, quando as filmagens de um de seus mais estimados projetos ainda em andamento. Concebido no início dos anos 80 já em formato de filme e posteriormente transformado em romance, "Contato" chegou às telas alguns meses depois da morte de Sagan, arrancando elogios unânimes da crítica e amealhando nada desprezíveis 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico americano. Levando-se em consideração que seu diretor é Robert Zemeckis - que fez com que "Forrest Gump", a história simples de um rapaz com problemas mentais se tornasse uma das maiores bilheterias da história - não chega a ser surpresa o sucesso do filme. Surpresa é o fato de o filme ter alcançado tamanho êxito sem apelar para efeitos visuais desnecessários nem tampouco descaracterizar a trama criada por Sagan. Apesar de classificar-se, sim, como uma ficção científica, "Contato" expande os limites do gênero ao tratar a busca por vida em outros planetas de uma maneira completamente diferente do mostrado até então.

A principal preocupação do roteiro de "Contato" não é levar o espectador à Marte ou planetas outros ao lado de personagens engraçadinhos e forjados sem a menor sutileza. A conversa aqui é bem outra, graças à inteligência da história criada por Sagan. A protagonista do filme é Ellie Arroway (vivida por uma Jodie Foster madura e sempre competente), uma astrônoma dedicada a sua busca por provas de vida fora da Terra. Lutando contra seus financiadores, que acreditam que ela está perdendo dinheiro com suas pesquisas, ela conta com a ajuda de seus colegas para manter viva a esperança de fazer a grande descoberta de sua vida. Um dia, finalmente ela ouve ruídos em seu rádio e descobre, sem sombra de dúvida, que tais sons são a prova da existência de alienígenas inteligentes. Ainda através de contatos sonoros, tais seres enviam  instruções para a construção de uma máquina que permitirá a um terráqueo viajar até eles. Quando tal nave fica pronta, porém, uma dúvida surge: quem é realmente digno de representar o planeta?



É a partir desse questionamento filosófico/religioso que "Contato" sai do lugar-comum dos filmes de ficção científica e penetra em um nível bem mais superior de entretenimento. Sem nunca descuidar do desenvolvimento dramático da história - que inclui a interessante relação entre a intelectual Ellie e o teólogo Joss Palmer (Matthew McConaughey) - o roteiro dá ao público um vasto material para discussões sem, por causa disso, confundí-lo com complexidades inúteis. Está tudo acomodado de forma sutil e convincente, principalmente porque, além de tudo, Zemeckis tem o dom de sempre escalar um elenco preciso. Logicamente, a dona da festa é Jodie Foster, que conduz toda a história com a majestade de sempre, mas seus coadjuvantes não podem jamais ser acusados de ficarem eclipsados por seu enorme talento.

Enquanto Matthew McConaughey aproveita seu status de "novo galã da hora em Hollywood" - foi seu primeiro trabalho após o sucesso de "Tempo de matar" - William Fichtner tem a maior chance de sua carreira ao interpretar o braço direito de Ellie, Kent, um cientista cego de importância fundamental na narrativa e John Hurt quase rouba a cena na pele de S.R. Hadden, o excêntrico milionário que possibilita à protagonista realizar seu sonho - em uma sequência belíssima realizada com extremo bom-gosto. Não bastasse isso, ainda fazem pequenas participações Tom Skerritt, Angela Bassett, Rob Lowe e até mesmo o presidente Bill Clinton, cujo discurso foi utilizado sem prévia permissão e causou controvérsia. E é inadmissível não lembrar das ótimas participações de Jena Malone e David Morse nas cenas iniciais, como a menina Ellie e seu pai, cuja morte tem ressonância em todo o filme.

"Contato" é, portanto, uma ficção científica com os dois pés na realidade. Não é um filme para o público que lotou as salas de cinema para assistir a bobagens indescritíveis como "Independence Day", mas para aquela plateia que gosta de ter seu cérebro bem tratado por duas horas e meia.

terça-feira, 29 de março de 2011

A OUTRA FACE


A OUTRA FACE (Face/Off, 1997, Touchstone Pictures/Paramount Pictures, 138min) Direção: John Woo. Roteiro: Mike Werb, Michael Colleary. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Steven Kemper, Christian Wagner. Música: John Powell. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Garrett Lewis. Produção executiva: Michael Douglas, Jonathan D. Krane, Steven Reuther. Produção: Terence Chang, Christopher Godsick, Barrie M. Osborne, David Permut. Elenco: John Travolta, Nicolas Cage, Joan Allen, Alessandro Nivola, Gina Gershon, Dominique Swain, Nick Cassavettes, Harve Pressnell, Colm Feore, John Carroll Lynch, CCH Pounder, Thomas Jane. Estreia: 27/6/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

O normal para um ator depois de ter ganho um Oscar e o respeito de seus pares é dedicar-se a uma carreira sólida, de preferência em filmes sérios e dramaticamente desafiadores. Comprovando sua aversão à normalidade, no entanto, Nicolas Cage resolveu seguir o caminho inverso. Premiado e elogiado por sua atuação no peso-pesado "Despedida em Las Vegas", o sobrinho de Francis Ford Coppola entrou de corpo e alma (mais corpo do que alma) em uma série de filmes de ação, frequentemente considerado pelos intelectuais como um gênero menor. Associando-se profissionalmente ao diretor Michael Bay e emprestando seu prestígio a filmes como o interessante "A rocha" e o óvio "Con Air, a rota da fuga", Cage completou seu ciclo de herói de filmes de ação com o melhor de todos eles, um filmaço capaz de deixar de queixo caído até o mais blasé dos espectadores: "A outra face", dirigido pelo chinês John Woo.

Considerado o mestre dos filmes de ação asiáticos, Woo chegou aos EUA pelas mãos do ator Jean-Claude Van Damme, para quem dirigiu "O alvo", um dos melhores filmes do belga que tencionava ameaçar a hegemonia de Stallone e Schwarzenegger no início dos anos 90. Admirado por nomes como Martin Scorsese e Quentin Tarantino, o cineasta já chegou à América com um respeitável currículo de nada menos que  25 filmes, dentre os quais algumas pérolas do gênero. Aqueles que assistiram a "O alvo" e gostaram não tinham nem ideia do que os esperava. Com um roteiro estupendo nas mãos - ainda que inverossímil em sua ideia central - Woo construiu uma verdadeira sinfonia onde até mesmo a extrema violência é revestida por uma poesia visual sem precedentes. Um exemplo dessa afirmação? Um longo tiroteio, perto do clímax do filme, quando, ao invés do barulho ensurdecedor de tiros e gritos, ouve-se a versão de Olivia Newton-John para "Over the rainbow". Assim é John Woo!

A trama de "A outra face" - aquela que é inverossímil mas ainda assim não incomoda o público por ser contada com sinceridade e seriedade - é rocambolesca e empolgante. Tendo seu filho assassinado em um atentado contra a sua própria vida, o policial Sean Archer (John Travolta) passa a dedicar-se obsessivamente à caça do criminoso, Castor Troy (Nicolas Cage), estudando cada movimento seu. Quando finalmente consegue alcançá-lo vê seu rival entrar em coma após uma violenta perseguição. Acontece que, antes de ir parar no hospital, Troy plantou uma bomba em um lugar cuja localização só quem sabe é seu irmão, Pollux (Alessandro Nivola). Para tentar impedir a explosão da bomba, a polícia propõe um perigoso jogo a Archer: fazer uma complexa cirurgia de transplante de rosto e, assumindo o lugar de seu inimigo, fazer com que Pollux entregue os detalhes do plano. Mesmo contra a vontade da esposa, Eve (Joan Allen), o detetive aceita a missão quase impossível e vai parar em uma prisão de segurança máxima. Enquanto está lá, porém, o impensável acontece: Troy acorda do coma e, ao saber dos planos da polícia, mata todos os envolvidos na trama e assume o lugar de Sean Archer.


O roteiro de "A outra face" é um primor de ritmo, mal deixando o público respirar entre uma sequência de ação e outra e surpreendendo-o com reviravoltas e surpresas realmente imprevisíveis. Mas o que chama a atenção daquela parcela da audiência que exige algo mais do que simplesmente injeções de adrenalina a cada quinze minutos é a maneira carinhosa com que John Woo trata suas personagens, dando a elas um senso de humanismo raro no gênero. Castor Troy, apesar de ser um criminoso sanguinário, quase pedófilo e debochado, nutre um verdadeiro afeto por Pollux e pelo filho pequeno - a maneira como amarra o cordão de seus sapatos, por exemplo, fala muito sobre sua personalidade. Sean Archer, apesar de ser um ótimo profissional e pai de família exemplar, lida de maneira quase fria e distante com a esposa e a filha Jamie (Dominique Swain, a Lolita da versão de Adrian Lyne), incapaz de lidar com o sentimento de culpa pela morte do filho pequeno. E a forma como John Woo orquestra a relação entre Eve e seu falso marido daria muito pano pra manga em discussões psicológicas. Ao contrário de frear o ritmo alucinante do roteiro, as pausas na correria apenas demonstram o cuidado com que tudo é tratado nas competentes mãos do diretor.

Idealizado como um projeto para a dupla Stallone/Schwarzenegger e posteriormente tendo o produtor Michael Douglas e Harrison Ford como prováveis protagonistas, "A outra face" encontrou em Nicolas Cage e John Travolta a dupla perfeita, especialmente Travolta. Usufruindo do respeito amealhado por seu trabalho em "Pulp fiction", o ator se diverte às pampas, principalmente quando adquire a personalidade do vilão Castor Troy e pode fazer uso de suas expressões canalhas e mau-caráter. Enquanto isso, Cage não tem medo de explorar toda a sua veia de canastrão, abusando das caras e bocas. No meio deles, sobressai mais uma vez a atuação sensível de Joan Allen e da revelação Alessandro Nivola, que constrói um Pollux cheio de sutilezas e olhares discretos. Sensível a seus atores, John Woo jamais os deixa de lado para construir ambiciosas cenas de explosões ou perseguições automobilísticas. E isso faz toda a diferença.

Mesmo com tantos filmes de aventura sendo lançados anualmente - e cada vez com uma quantidade maior de efeitos visuais e sonoros - "A outra face" se mantém como um dos seus exemplares mais perfeitos. Bem escrito, bem dirigido e com dois atores no auge de sua fama nos papéis centrais, é tão excitante em uma revisão quanto o foi em sua estreia.

segunda-feira, 28 de março de 2011

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.

Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.

Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.


E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.

Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.

"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.

sábado, 26 de março de 2011

PROCURA-SE AMY

PROCURA-SE AMY (Chasing Amy, 1997, View Askew Productions, 113min) Direção e roteiro: Kevin Smith. Fotografia: David Klein. Montagem: Scott Mosier, Kevin Smith. Música: David Pirner. Figurino: Christopher Del Coro. Direção de arte/cenários: Robert 'Ratface' Holtzman/John Carlucci, Susannah McCarthy. Produção executiva: John Pierson. Produção: Scott Mosier. Elenco: Ben Affleck, Jason Lee, Joey Lauren Adams, Dwight Ewell, Kevin Smith, Jason Mewes. Estreia: 04/4/97

Não se deixe enganar pela singeleza da frase de efeito do cartaz, que diz "Não importa quem ama, mas sim como você ama." Apesar de levantar questões bastante interessantes e ser claramente simpático à causa gay, "Procura-se Amy" não tenta dar lições de moral ou soar como dono da verdade. A comédia romântica do diretor independente Kevin Smith - realizada com uns trocados e relativamente bem-sucedida comercialmente - tem como objetivo simplesmente contar uma história de amor diferente e, de quebra, tentar jogar uma luz nos relacionamentos homem/mulher dos anos 90. Utilizando-se de sua característica ironia e de seu humor calcado nitidamente na cultura pop, o cineasta de Nova Jersey conseguiu criar seu melhor e mais bem acabado filme antes de ingressar de vez no mainstream com o polêmico "Dogma", de 1997.


Conhecido como diretor dos cultuados "O balconista" e "Barrados no shopping", Kevin Smith - uma figura bizarra, tipicamente nerd e também ator em seus projetos - caiu nas graças da crítica justamente por conseguir fazer filmes ridiculamente baratos e donos de uma personalidade própria. Em "Procura-se Amy" ele atinge o perfeito equilíbrio entre seus diálogos engraçadíssimos, suas referências culturais (quadrinhos, filmes e música) e sua alma de cineasta independente. Deixando de lado sua tendência a piadas escatológicas, ele criou um retrato acurado sobre as relações amorosas da juventude classe média anos 90, com todas a sua diversidade sexual. Longe de ser um filme cujo público-alvo seja a plateia gay, "Amy" é a prova perfeita de que um bom roteiro pode fazer milagres. Até mesmo arrancar uma atuação decente de Ben Affleck.



Ainda antes de tornar-se um astro conhecido, vencedor do Oscar - de roteiro, por "Gênio indomável" - e cineasta, Affleck até convencia como ator. Pelo menos em "Procura-se Amy" ele dá o melhor de si, em uma interpretação senão espetacular, ao menos bastante convincente. Ele vive Holden McNeil, autor de uma popular revista em quadrinhos chamada "Bluntman and Chronic" que tem uma relação de amizade e confiança há mais de vinte anos com seu sócio Banky Edwards (Jason Lee). A estreita relação entre os dois sofre um abalo quando ele se apaixona por outra quadrinista, Alyssa Jones (Joey Lauren Adams), que além de jovem, bela e talentosa, é lésbica. Banky não acredita que a relação entre o novo casal vai dar certo - por pelo menos uma boa razão - e isso acaba atrapalhando inclusive o equilíbrio profissional entre os dois. As coisas se complicam quando seu medo de ver Holden machucado torna-se real: compreensivo a respeito das aventuras gays da namorada, o rapaz tem a incapacidade de aceitar seu passado heterossexual.

Kevin Smith tem um rasgo de inteligência ao colocar como maior empecilho à felicidade entre Holden e Alyssa não sua preferência sexual, e sim seu passado. É como se ele dissesse que em toda relação sempre existe algo imperdoável, seja essa relação hetero ou homossexual, e que cabe aos maiores interessados a decisão de relevar ou não tais "erros". O roteiro, recheado de diálogos saborosos a respeito de sexo (alguns até mesmo bastante contundentes) consegue manter-se neutro, sem julgar Holden e seus preconceitos, levando a plateia a entender suas dúvidas - mesmo que provavelmente vá achá-las um tanto exageradas. São nessas horas que Ben Affleck demonstra que, quando bem dirigido, pode ser um ator razoável. É exemplar a cena em que seu Holden declara-se à Alyssa, quando fica claro até ao mais otimista espectador que relacionamentos não são exatamente fáceis e que seres humanos são mais do que simplesmente gays ou heteros. Aliás, é preciso destacar também o trabalho do ótimo Dwight Ewell, que, em suas poucas interferências na trama, dispara as melhores e mais cáusticas piadas, normalmente a respeito de homossexualidade e racismo, citando inclusive a saga "Star Wars" (o que trai a influência nerd na carreira de Smith).

De certa forma valorizado pelo ótimo timing cômico de Jason Lee e prejudicado pela voz irritante de sua protagonista Joey Laurel Adams - namorada do cineasta à época das filmagens - "Procura-se Amy" é, no entanto, uma pérola a ser descoberta. Hilariante e romântico, é recomendável a qualquer público que estiver disposto a fugir dos lugares-comuns das comédias românticas e dar boas risadas. Ao quebrar a certeza de que "gay é gay e hetero é hetero", o diretor embaralha as cartas da sexualidade humana sem pretender dar nenhuma palavra final. O que ele quer dizer mesmo é que todos, independente de quem leva para a cama, procura sua cara-metade (e a longa e brilhante fala de Alyssa a respeito disso reitera essa afirmação). De quebra, tem uma discreta profundidade que seu diretor nunca mais conseguiu atingir - com a possível exceção do já citado "Dogma". Um filme com aura de cult!

quinta-feira, 24 de março de 2011

O POVO CONTRA LARRY FLYNT

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (The People vs. Larry Flynt, 1996, Columbia Pictures, 129min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Thomas Newman. Figurino: Arianne Philipps, Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria A. Nay, Amy Wells. Produção: Michael Hausman, Oliver Stone, Janet Yang. Elenco: Woody Harrelson, Edward Norton, James Cromwell, Courtney Love, Brett Harrelson, Crispin Glover. Estreia: 25/12/96


2 indicações ao Oscar: Diretor (Milos Forman), Ator (Woody Harrelson)
Vencedor de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Diretor (Milos Forman), Roteiro

Apesar de ter seu nome no título o verdadeiro protagonista de "O povo contra Larry Flynt" não é o editor da "Hustler", uma das revistas pornográficas mais populares dos EUA. Quem realmente é a personagem principal do filme do tcheco Milos Forman é uma entidade abstrata chamada "liberdade de expressão". É esse conceito, tão valorizado mas tão seriamente ameaçado até mesmo nas mais liberais democracias, o verdadeiro astro do filme que deu a Woody Harrelson sua primeira indicação ao Oscar. É o direito a essa tal liberdade, garantida na Constituição americana, o santo graal perseguido por Larry Flynt e seu advogado, o jovem Alan Isaacman. E é justamente por lutar por esse direito sagrado a todos que o filme do diretor de "Um estranho no ninho" conquista até mesmo a mais conservadora das plateias.

Até mesmo Oliver Stone, chegado que é em uma polêmica, declinou da ideia de dirigir "O povo contra Larry Flynt", preferindo manter-se no menos ostensivo papel de produtor. O explosivo material, escrito pela mesma dupla que deu a Tim Burton o belo roteiro de "Ed Wood", provocou controvérsia antes mesmo de estrear, tendo seu cartaz banido e severamente criticado: no criativo poster, o protagonista tinha o corpo em formato de Jesus crucificado, mas no corpo de uma mulher. Substituído por uma outra propaganda mais comportada, foi apenas o princípio de uma gritaria dos setores conservadores da pudica América do Norte, que não aceitavam de bom grado a ideia de ter um pornógrafo como herói de um filme. Escandalizados ou não, o fato é que os detratores de Larry Flynt não conseguiram ofuscar o brilho do resultado final. Dirigido com uma ironia deliciosa e interpretado por um excelente Woody Harrelson, "O povo contra Larry Flynt" é um dos melhores filmes de 1996 - e poderia muito bem ter ficado com uma vaga entre os indicados ao Oscar principal, já que tanto Harrelson quanto Milos Forman conseguiram ficar entre os finalistas em suas respectivas categorias.

"O povo contra Larry Flynt" começa mostrando a origem do império do protagonista, desde suas ambições infantis até a criação de um boletim (repleto de fotos de mulheres nuas) a ser distribuído aos frequentadores de seu bar de striptease chamado Hustler. Aos poucos, sentindo-se traído pela sutileza e pela delicadeza das fotos de sua rival "Playboy" transforma seu boletim em uma revista mensal, com um grande diferencial: nas páginas da "Hustler" os leitores não encontrariam matérias de interesse geral e sim uma boa e velha pornografia explícita. Chocando a ala conservadora dos EUA, Flynt torna-se figurinha fácil nos tribunais, acusado de incitar a pornografia e principalmente processado por difamação e danos morais pelo respeitável Reverendo Jerry Falwell (Richard Paul), vítima de uma de suas piadas de incrível mau-gosto. Quem o defende em seus julgamentos é seu jovem advogado, Alan Isaacman (Edward Norton), recém-formado e que, apesar de ter aversão às publicações do cliente, jamais deixa de estar ao seu lado.



O ritmo é uma das maiores qualidades em "O povo contra Larry Flynt". Mesmo quando o filme corre o risco de tornar-se repetitivo devido às idas e vindas do protagonista aos tribunais, o roteiro jamais cai na armadilha de deixar-se levar pelos fatos históricos puros e simples, além de presentear o público com um humor cruel extremamente engraçado. O Larry Flynt criado por Scott Alexander e Larry Karazsewski é um anti-herói absoluto, escória da sociedade, mas dotado de uma personalidade e um carisma inegáveis, além de um senso de humor irresistível. Nem mesmo depois de ficar paraplégico devido a um atentado contra sua vida - um evento nunca devidamente esclarecido - ele deixou-se levar pelo negativismo e a depressão, praticamente usando suas limitações como uma medalha de honra. Sua defesa ferrenha pela liberdade de expressão é também a defesa de um direito inalienável de qualquer cidadão. Como ele mesmo declara em determinado momento, "se a Primeira Emenda pode proteger a um lixo como eu, poderá proteger a todos vocês." É fascinante seu discurso quando compara a pornografia com a guerra e a violência e deixa na cabeça de todos a pergunta que jamais quer calar: o que é mais ofensivo, um corpo feminino ou uma criança morta???

Woody Harrelson tem, aqui, um dos ápices de sua carreira desigual. Elevando à máxima potência a promessa com que acenava desde seu Mickey Knox de "Assassinos por natureza", ele transcende sua personagem, transformando-se em Larry Flynt de forma arrebatadora. Ao acrescentar ao papel sua própria personalidade anárquica e controversa, Harrelson mereceu a indicação ao Oscar e não teria sido injusta sua vitória. Ele está tão bem que consegue ofuscar até mesmo ao ótimo Edward Norton, que não tem muito o que fazer como Isaacman a não ser pontuar com correção o show do colega de cena. Em compensação, não dá para acreditar em todos os prêmios arrebatados por Courtney Love. A roqueira - viúva de Kurt Cobain e então líder da banda Hole - recebeu elogios rasgados da crítica e chegou a vencer disputas importantes, como dos críticos de Nova York e Boston por sua atuação como Althea, a esposa e musa de Flynt, que morreu de AIDS depois de ter se viciado em morfina. Péssima e sem nenhum carisma, Love tem a seu favor apenas o visual bagaceiro que combina com a personagem, mas está longe de ser uma atriz de respeito. Não é exagero afirmar que seu trabalho é o único ponto fraco do filme...

As discussões suscitadas por "O povo contra Larry Flynt" são legítimas e relevantes, o que faz do filme de Milos Forman politicamente indispensável. Mas, acima de tudo, seu trabalho é cinema da mais alta qualidade. Forman está nitidamente à vontade contando a trajetória de Flynt, ecoando a busca de liberdade de seu mais famoso protagonista - o falso desequilibrado mental vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho". Fascinado por personagens que fogem do convencional, Forman mais uma vez brinda seu público com uma obra cuja importância ressonará por muito tempo. Cinema e política andando juntos sem panfletarismo barato! Genial!

quarta-feira, 23 de março de 2011

EVITA

EVITA (Evita, 1996, Hollywood Pictures/Cinergi Pictures Entertainment/Dirty Hands Productions, 135min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, Oliver Stone, musical homônimo de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Gerry Hambling. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Philippe Turlure. Produção: Alan Parker, Robert Stigwood, Andrew G. Vajna. Elenco: Madonna, Antonio Banderas, Jonathan Pryce, Jimmy Nail. Estreia: 25/12/96

5 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Canção ("You must love me"), Som
Vencedor do Oscar de Melhor Canção ("You must love me")
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Madonna), Canção ("You must love me")

Praticamente vinte anos separam a estreia na Broadway do musical "Evita", de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice do lançamento de sua adaptação cinematográfica, dirigida pelo inglês Alan Parker e estrelado pela diva pop Madonna. Nesse vácuo de quase duas décadas, a ópera-rock de Webber e Rice - que teve montagem até mesmo no Brasil - tornou-se parte do inconsciente coletivo e sua transição para as telas mostrou-se mais complicada do que parecia a princípio. A demora, porém, foi providencial. Com a defecção de Oliver Stone do projeto, também foram deixadas de lado Barbra Streisand, Liza Minnelli, Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. Por melhores atrizes que todas elas sejam, ninguém conseguiria ser Evita tão bem quanto Madonna. Arrebatadora em cena, ela apaga da memória de todos seus fiascos anteriores. Levou o merecido Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical e segura lindamente a barra de protagonizar um filme quase 100% cantado.


Madonna fala meras 140 palavras em "Evita". Antonio Banderas - na melhor atuação de sua carreira em Hollywood - fala ainda menos (cerca de 18). A música fala por eles e por Jonathan Pryce, o terceiro protagonista de uma ousada e cara produção filmada em Londres, Budapeste e Buenos Aires e que despertou polêmica antes mesmo de ter sua primeira cena rodada: logicamente os argentinos, que veem Eva Perón como quase uma santa não gostaram nem um pouco de vê-la interpretada por Madonna, cuja imagem pública cabe em qualquer definição exceto às relacionadas a qualquer tipo de santidade. Furiosos com a produção do filme, eles chegaram a lançar a sua versão da história, estrelada por Esther Goris, que de certa forma complementa a visão artística e quase onírica de Rice e Lloys Webber, dirigida por maestria por um Alan Parker acostumado a musicais - afinal, foi ele quem assinou "Fama", "Pink Floyd - The Wall" e "The Commitments, loucos pela fama".


A escolha de Parker para comandar "Evita" foi um golpe de mestre. Inteligente e irônico, o cineasta imprime um ritmo espetacular a um roteiro que, em mãos menos hábeis, poderia se tornar um exercício enfadonho de paciência. Editado com precisão por seu colaborador habitual, Gerry Hambling e fotografado brilhantemente pelo iraniano Darius Khondji, "Evita" é tecnicamente impecável, repleto de toda a pompa e circunstância que exige. A impressionante sequência que mostra o funeral da primeira-dama mais amada da história da Argentina é de encher os olhos e basta uma olhada nas fotos do real evento para que se perceba o cuidado da direção de arte em reconstituir com detalhes toda a trajetória da protagonista. Àqueles que reclamaram da superficialidade do roteiro, é preciso lembrar que trata-se de um musical hollywoodiano baseado em um espetáculo da Broadway, ou seja, longe de ser um documentário com objetivos maiores do que entreter e encantar visualmente.



E visualmente "Evita" é um deslumbre. Não há uma única cena em que Alan Parker não tenha impresso seu extremo bom-gosto. Madonna troca de roupa 85 vezes em cena - batendo o recorde de Elizabeth Taylor em "Cleópatra" - e se entrega de corpo e alma à personagem, mesmo tendo que, em certos momentos, esconder a barriguinha de grávida. A estrela maior da música pop canta, dança e representa como se de sua atuação dependesse toda sua carreira - e a julgar pela carta desesperada que escreveu ao diretor implorando pelo papel, de certa forma considerava sua escalação para o filme como seu ápice. Seria injusto dizer que ela não atingiu seu objetivo de conquistar o respeito da crítica e da indústria, ainda que o tenha perdido pouco depois com mais escolhas equivocadas que acrescentou a seu currículo. Mesmo assim, é impossível dissociar, ao final do filme, a imagem de Madonna da imagem de Eva Perón.


Mas, como canta a personagem de Antonio Banderas no início do filme, quem é essa Santa Evita? O musical criado por Lloyd Webber e Tim Rice tenta responder essa questão da maneira mais lírica possível. A sequência inicial mostra a comoção argentina com a morte de sua "líder espiritual". A partir daí, a trama volta no tempo para apresentar a trajetória de uma menina bastarda que chegou ao cargo de primeira-dama da Argentina em uma época de grave crise econômica e de baixa auto-estima do país. O filme conta sua história de amor com o político Juan Peron (Jonathan Pryce, bastante eficiente), sua batalha contra a classe dominante (o que lhe causou grandes problemas de aceitação junto ao high society) e seu trágico final, vítima de um câncer que lhe tirou a vida aos 33 anos de idade. Tudo é narrado através do ponto de vista de um integrante da classe popular, vivido por um surpreendentemente capaz Antonio Banderas - e que, apesar do nome, não tem nenhuma relação com o revolucionário Che Guevara, como foi dito à época. Através de seus olhos, a ironia de toda a trama tem lugar sem nunca prejudicar seu desenvolvimento. E vale lembrar que em seu documentário "Na cama com Madonna", a cantora declarou ter grande interesse sexual no ator... uma fofoquinha de bastidor que dá um gosto ainda mais saboroso ao filme...


Enfim, "Evita", falem o que quiserem, é um grande filme. É dirigido com brilho, interpretado com garra e tem um ritmo invejável, onde as canções, ao invés de atrapalhar a ação, a empurram adiante. Uma obra-prima do gênero e o único trabalho de Madonna em que ela pode realmente ser chamada de atriz.


PS - Aproveito o momento para afirmar minha tristeza com a morte de Elizabeth Taylor, a última diva dos áureos tempos do cinema. É clichê dizer isso, mas sua obra sobreviverá junto àqueles que amam o cinema de qualidade.

terça-feira, 22 de março de 2011

UM DIA ESPECIAL

UM DIA ESPECIAL (One fine day, 1996, Fox 2000 Pictures/20th Century Fox, 108min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Terrel Seltzer, Ellen Simon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: David Gropman/Anne Kuljian. Produção executiva: Kate Guinzburg, Michelle Pfeiffer. Produção: Lynda Obst. Elenco: Michelle Pfeiffer, George Clooney, Mae Whitman, Alex D. Linz, Charles Durning, Amanda Peet, Ellen Greene. Estreia: 20/12/96

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("For the first time")

Em 1996, o ator George Clooney estava começando sua escalada rumo ao sucesso no cinema. Na TV ele já era ídolo: sua participação como Doug Ross, o pediatra don juan da série "Plantão médico" o colocava como símbolo sexual inquestionável entre o público feminino, que suspirava todas as semanas frente ao aparelho de televisão. Em sua ambição de tornar-se também um astro de cinema, nada mais natural do que não mexer em time que está ganhando. Depois de experimentar um pouco de ousadia com sua estreia nas telas - o terror "Um drink no inferno", roteirizado por Quentin Tarantino e dirigido por Robert Rodriguez - Clooney presenteou as fãs com "Um dia especial", uma comédia romântica que pode ser definida por todos os adjetivos que filmes do gênero comportam: agradável, engraçadinha, fofa... e previsível.

Não que o público que tenha ido acorrido aos cinemas para ver George Clooney seja muito exigente - e foi um público razoável, a julgar pela bilheteria bem razoável de quase 50 milhões de dólares. Mas o fato é que, apesar de não apresentar nenhuma novidade, "Um dia especial" serviu perfeitamente aos objetivos do ator, que, ao lado de uma inspirada Michelle Pfeiffer - também produtora executiva - conquista a plateia sem precisar fazer muito esforço. E são os dois, belos e talentosos, que fazem com que o filme de Michael Hoffman seja um entretenimento inofensivo e divertido. Fotografado com capricho pelo veterano Oliver Stapleton, "Um dia especial" não é inesquecível, mas tem um charme que o diferencia de muitos outros exemplares do gênero.


Michelle Pfeiffer, linda como sempre e com um timing cômico na medida certa, vive Melanie Parker, uma arquiteta que divide seu tempo entre tentar uma promoção profissional e cuidar de Sammy (Alex D. Linz), seu filho com um músico itinerante que aparece apenas de vez em quando na vida do filho. Clooney interpreta Jack Taylor, conhecido jornalista que, além de procurar furos de reportagem, tenta provar à ex-mulher que sabe cuidar da filha pequena, Maggie (Mae Whitman). Justamente no dia em que Melanie tem uma apresentação importantíssima que pode lhe dar a sonhada promoção e Jack precisa comprovar os fatos de uma polêmica reportagem cujas consequências podem lhe tirar o emprego, seus filhos perdem o passeio de barco da escola e os dois adultos - de personalidades opostas e que nutrem uma antipatia à primeira vista em relação um ao outro - são obrigados a criar uma forma de resolver a situação e, é claro, acabam o dia apaixonados.

E é só isso. Com esse fiapo de história, Hoffman mantém a atenção da plateia usando a abusando dos clichês que fazem a glória das comédias românticas sem, no entanto, incomodar ou aborrecer. O ritmo mantido pelo cinesta combina com a bela trilha sonora de James Newton Howard e com a coloração de uma Nova York chuvosa em dias de uma beleza rara. As personagens secundárias não roubam a atenção da dupla central, surgindo em cena apenas quando o necessário para o desenvolvimento da trama - e são interpretados por gente boa, como o veterano Charles Durning e a bela Amanda Peet. Michael Hoffman concentra o foco de seu filme totalmente em Pfeiffer e Clooney, e acerta em fugir das tramas paralelas. A química entre o ótimo casal de protagonistas e as crianças que interpretam seus filhos é outro ponto alto do filme, uma sessão da tarde das mais encantadoras.

Logicamente o futuro de Clooney no cinema preparava voos maiores - inclusive uma carreira de diretor e um Oscar de coadjuvante - mas é impossível negar que "Um dia especial" jamais será uma mancha em seu currículo. Afinal, é um filme, como dito anteriormente, agradável, encantador e fofo. E tem Michelle Pfeiffer no elenco!

segunda-feira, 21 de março de 2011

JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA


JERRY MAGUIRE, A GRANDE VIRADA (Jerry Maguire, 1996, TriStar Pictures, 139min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Joe Hutsching. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Stephen Lineweaver/Clay A. Griffith. Produção executiva: Bridget Johnson. Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark, Richard Sakai. Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zelwegger, Kelly Preston, Bonnie Hunt, Regina King, Jonathan Lipnicki, Beau Bridges, Jay Mohr, Jerry O'Connell, Todd Louiso. Estreia: 13/12/96

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Cruise), Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Cruise)
Vencedor do Screen Actors Guild Award de Ator Coadjuvante (Cuba Gooding Jr.)

Estivesse Frank Capra vivo e em atividade em 1996 certamente ele assinaria com prazer a comédia romântica "Jerry Maguire, a grande virada". Repleto do otimismo e do humanismo que eram suas marcas registradas, o filme escrito e dirigido por Cameron Crowe nadou contra a corrente dos filmes encharcados de cinismo da década de 90 ao contar uma história de amor e redenção com um protagonista que caberia facilmente no currículo de James Stewart. Não à toa, Tom Hanks - a encarnação atual do ator preferido de Capra - foi cotado para o papel de Maguire, um agente esportivo que, depois de uma crise de consciência, toma contato com uma nova forma de enxergar a vida e os relacionamentos. Quinto filme consecutivo de Tom Cruise a ultrapassar a marca de cem milhões de dólares de arrecadação, provou, além disso, que o galã preferido da época também sabia atuar longe dos filmes de guerra e dos dramas de tribunal: o então ainda marido de Nicole Kidman arrebatou sua segunda indicação ao Oscar.


O Jerry Maguire do título é um bem-sucedido agente de esportistas, que mede seu sucesso pelo número de telefonemas que atende diariamente e pelos contratos milionários que assina para seus clientes. Um belo dia, sentindo-se culpado e ganancioso, ele escreve uma declaração de metas onde sugere que todos os seus colegas (ele inclusive) passem a dedicar-se a menos clientes, dando-lhes a devida atenção. Aplaudido pela frente e criticado pelas costas (afinal sua ideia significa menos dinheiro à empresa onde trabalha), ele é demitido por Bob Sugar (Jay Mohr), que o tinha como mentor. Não se deixando desesperançar, ele conta com a ajuda da contadora Dorothy Boyd (René Zelwegger) para recomeçar do zero, Mãe solteira e apaixonada por Jerry, Dorothy entra de cabeça na nova agência do rapaz, que conta com apenas um cliente, o falastrão e encrenqueiro Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que tem talento tanto para jogar futebol quanto para reclamar de seus péssimos contratos.



"Jerry Maguire" é delicioso. Tem um roteiro impecável, recheado de diálogos brilhantes por sua simplicidade e verdade. Tem uma trilha sonora agradável que inclui Paul McCartney, Tom Petty e Bruce Springsteen - cuja belíssima "Secret garden" embala o romance central de maneira comovente. E conta com um elenco que, apesar de não ser formado de primeiras escolhas, não só dá conta do recado como conquista a audiência desde seus primeiros momentos. Para o papel título, nomes como os de Tom Hanks e John Travolta foram sondados. Para interpretar Rod Tidwell foi testado Jamie Foxx. Para o papel de Avery, a ambiciosa noiva do protagonista (vivida por Kelly Preston) foram pensadas Diane Lane, Jennifer Connely e Meg Ryan. E para o papel da romântica Dorothy Boyd, o diretor Cameron Crowe considerou atrizes que iam de Winona Ryder e Mira Sorvino a Janeane Garofalo a Courtney Love. Sorte da texana Rene Zelwegger, que não apenas conquistou o papel mas também o coração da audiência, com uma atuação doce e engraçada.


A química entre Cruise e Zelwegger, aliás, é outro ponto alto do filme. Dificilmente a história de amor entre Jerry e Dorothy emocionaria tanto o público se outros atores estivessem em seus lugares. Se Cruise até exagera em certos momentos - não a ponto de incomodar, mas o suficiente para ser notado - a quase novata Zelwegger está absolutamente impecável com sua estóica contadora: suas cenas com Bonnie Hunt (como sua irmã Laurel) e com o pequeno Jonathan Lipnicki (na pele do encantador Ray) são dotadas de uma veracidade delicada e tocante. Transitando entre o dramático e o cômico com segurança ímpar, a futura Bridget Jones apresenta uma das melhores interpretações de sua carreira. Merecia muito mais o Oscar de coadjuvante feminina do que Cuba Gooding Jr. merecia o de masculino. Gooding Jr. - que saiu vitorioso no ano em que Edward Norton causou impacto com sua estreia em "As duas faces de um crime" - tem uma atuação histérica e bastante irritante, que destoa da sutileza do restante do elenco. E é de se imaginar como seria se Billy Wilder (ele mesmo, o diretor de "Quanto mais quente melhor") tivesse aceito interpretar o mentor de Maguire, cujas inserções durante o filme dão o tom e a "moral" da história.


Em última análise, "Jerry Maguire" é uma pequena obra-prima de seu gênero. Romântico sem ser bobo, engraçado sem ser pateta e com uma certa dose de ingenuidade e otimismo que sempre faz bem ao coração, é também o filme que revelou Rene Zelwegger ao grande público. Imperdível para quem ainda acredita no ser humano!

sábado, 19 de março de 2011

TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

quinta-feira, 17 de março de 2011

AS BRUXAS DE SALEM

AS BRUXAS DE SALEM (The crucible, 1996, 20th Century Fox, 124min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Arthur Miller, peça teatral homônima de Arthur Miller. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: Bob Crowley. Direção de arte/cenários: Lily Kilvert/Gretchen Rau. Produção: Robert A. Miller, David V. Picker. Elenco: Daniel Day-Lewis, Winona Ryder, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Frances Conroy. Estreia: 27/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Joan Allen), Roteiro Adaptado

Em 1953 os EUA estavam passando por um de seus períodos mais negros: fomentadas pelo famigerado senador Joseph McCarthy, denúncias a respeito de supostos atos comunistas cometidos pelos membros da indústria do cinema pipocavam por todo lado, destruindo carreiras importantes e minando amizades até então tidas como eternas. Qualquer mero ato considerado suspeito era o bastante para que artistas de talento inquestionável perdessem as oportunidades de trabalho - Elia Kazan, por exemplo, colaborou com o governo delatando inúmeros colegas, o que lhe custou o respeito que havia adquirido como cineasta (e ele tentou limpar a barra com o espetacular "Sindicato de ladrões"). Com uma dose admirável de oportunismo (no bom sentido), o dramaturgo Arthur Miller escreveu "As bruxas de Salem", uma de suas obras-primas. Ao contar a história da vingança de uma mulher abandonada, Miller usou-a como um disfarce para uma trama que, nem tão por debaixo dos panos assim, é na verdade uma história sobre a paranoia que tomou conta da capital do cinema.

Adaptada para o cinema em 1957 - em uma versão estrelada por Simone Signoret e falada em francês para fugir da censura norte-americana - a peça de Miller ganhou uma nova versão para as telas em 1996, adaptada por seu próprio autor e dirigida por Nicholas Hytner - que tinha em seu currículo o prestigiado "As loucuras do Rei George". Ao ter sua ação estendida para fora dos limites impostos por um palco, o texto teve a sorte de manter sua força original, contrariando a regra que faz com que adaptações teatrais mantenham seu ranço verborrágico e estático. Em sua vigorosa adaptação para as telas, "As bruxas de Salem" é um avassalador conto sobre o poder destruidor da mentira, e conta com atuações impressionantes de seus atores centrais.

Tudo começa quando o Reverendo Parris (Bruce Davison), pároco da pequena cidade de Salem, Massachussets, flagra sua sobrinha Abigail Williams (Winona Ryder) e outras adolescentes do lugar, dançando em volta de uma fogueira durante a noite. Para fugir de um castigo, Abigail inventa que estava possuída por um espírito demoníaco invocado por sua empregada oriunda de Barbados, Tituba (Charlayne Woodard). Aproveitando a onda de histeria que toma conta do lugar - quando atos inocentes são julgados como provas de bruxaria - ela convence até mesmo o rígido Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield, sensacional em cada cena) de que a esposa de Proctor, Elizabeth (a impecável Joan Allen, indicada ao Oscar de coadjuvante) também está envolvida em atos anti-cristãos. Aos poucos, a cidade divide-se entre quem está do seu lado e aqueles que não acreditam em suas mentiras, mas fingir acaba sendo sua última alternativa para evitar a forca.



"As bruxas de Salem" lembra, em sua estrutura, a comédia "O alienista", escrita por Machado de Assis em 1882, onde um médico que chega a uma pequena cidade do interior acaba internando praticamente a população inteira, diagnosticados como loucos. Aqui, Miller dá ênfase à histeria que toma conta de pessoas até então pacatas no momento em que precisam lutar por suas vidas ou integridade física. Abigail Williams ilustra com perfeição a máxima de Nietzsche que diz que "o mundo não conhece fúria maior do que a de uma mulher abandonada". Interpretada visceralmente por Winona Ryder - certamente no melhor papel de sua carreira - Abby é uma jovem que toma consciência tardiamente das consequências de suas mentiras mas mesmo assim não desiste de mantê-las. Na peça original de Miller, a personagem tinha meros 12 anos de idade enquanto John Proctor era quase sexagenário - mudança providencial no roteiro cinematográfico para evitar menções à pedofilia. No filme de Hytner, Proctor é menos vil, quase heróico em sua tentativa de manter-se íntegro e ético mesmo quando vê sua vida desmoronar. E Elizabeth é uma vítima inocente do furacão provocado pela ex-amante do marido, em uma interpretação quase silenciosa de Joan Allen, demonstrando seu imenso talento.

"As bruxas de Salem" é uma metáfora poderosa sobre um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema americano. Mas é, acima disso, um filme dotado de uma força própria e de uma inteligência ímpar. Um dos melhores filmes da safra 1996 de Hollywood, infelizmente esquecida pelo Oscar e ignorada pelo público. Merece ser descoberto!

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.

 

Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

terça-feira, 15 de março de 2011

O ESPELHO TEM DUAS FACES

O ESPELHO TEM DUAS FACES (The mirror has two faces, 1996, TriStar Pictures, 126min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Richard LaGravenese, roteiro original de "Le miroir a deux faces", de André Cayatte, Gérard Oury. Fotografia: Andrzej Bartkowiak, Dante Spinotti. Montagem: Jeff Werner. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Tom John/John Alan Hicks. Produção executiva: Cis Corman. Produção: Arnon Milchan, Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Jeff Bridges, Lauren Bacall, Pierce Brosnan, Mimi Rogers, George Segal, Brenda Vaccaro, Elle Macpherson. Estreia: 16/11/96

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall), Canção Original ("I finally found someone")
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Lauren Bacall)

Todo mundo em Hollywood - e até mesmo muita gente fora de lá - sabe que Barbra Streisand não é uma pessoa exatamente fácil de lidar. Histórias a respeito de seu egocentrismo e de seu perfeccionismo não faltam a quem teve a oportunidade de trabalhar com ela (e até mesmo seu ex-marido e pai de seu filho, o ator Elliot Gould, quando indagado a respeito do pior emprego que tivera respondeu prontamente: "fui casado com Barbra Streisand!"). Em 1996, o diretor de fotografia Dante Spinotti foi mais uma vítima da atriz/cantora/diretora/produtora: em meio às filmagens de "O espelho tem duas faces", foi demitido (devido às famosas divergências artísticas) e substituído por Andrzej Bartkowiak, assim como já havia acontecido com o ator Dudley Moore, que perdeu seu lugar no elenco para George Segal.

Levando em consideração toda essa dança das cadeiras, é de admirar que "O espelho tem duas faces" funcione tão bem. Apesar de não ser nem de longe o melhor momento das carreiras de Streisand e seu galã Jeff Bridges, é uma comédia romântica que tem na inteligência seu maior trunfo e que, nadando contra a corrente da eterna obsessão de Hollywood pela juventude eterna, aposta em um casal de protagonistas maduros, interpretados por atores de verdade e não por símbolos sexuais inexpressivos. Bridges - que ficou com o papel para o qual Harrison Ford foi pensado - e Barbra Streisand, segundo reza a lenda desmentida por eles mesmos, tiveram rusgas nos bastidores, mas isso não transparece no resultado final. O filme seguinte de Streisand após sua tentativa frustrada de ganhar um Oscar como diretora - o drama "O príncipe das marés" - é engraçado, romântico e dono de brilhantes diálogos. E isso é mais do que é oferecido normalmente aos fiéis fãs do gênero.

Gregory Larkin (Jeff Bridges exercitando seu timing cômico com razoável sucesso) é um professor de Matemática que, a despeito de seu charme junto às mulheres, passou por repetidas frustrações amorosas. Buscando uma companhia feminina que não atrapalhe o funcionamento de sua rígida rotina (ou seja, uma mulher sem atrativos sexuais que o desviem de seus objetivos profissionais), ele publica um anúncio em uma revista. Quem responde o anúncio é Claire Morgan (Mimi Rogers), que acredita que Larkin é o par perfeito para sua irmã mais velha, Rose (Barbra Streisand exagerando um tantinho em sua performance). Dona de uma baixíssima auto-estima - principalmente devido às críticas de sua mãe Hannah (Lauren Bacall), uma ex-beldade - Rose dá aulas de Literatura na Universidade de Columbia e seu discurso sobre as falsas esperanças criadas em relação ao amor romântico convence Larkin de que é ela quem ele procura. Depois de um tempo como amigos, eles se casam, mas tem expectativas diferentes em relação ao casamento: enquanto Gregory realmente deseja apenas uma companhia, Rose anseia por amor e paixão, justamente o que ele repudia. Quandoa situação torna-se insustentável, o improvável casal precisa saber o que fazer com seu relacionamento.



Streisand não é uma diretora genial ou mesmo inventiva. A forma como conduz a narrativa de seu filme é clássica, privilegiando enquadramentos que lhe favoreçam esteticamente ou até mesmo apelando para alguns exageros dramáticos (a cena em que cobre um espelho depois da rejeição de Larkin é um exemplo dessa afirmação, com a música de Marvin Hamlisch soando fora de propósito). Mas não há como elogiar sua segurança em comandar seu elenco, dos protagonistas aos coadjuvantes: Lauren Bacall dá um show como Hannah, a mãe que vê sua beleza esvair-se com o tempo e se vinga destruindo o amor-próprio da filha (suas falas são as melhores e a viúva de Humphrey Bogart conquistou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho) e Mimi Rogers nunca esteve tão radiante e engraçada. Dando apoio a um Jeff Bridges leve como poucas vezes se viu nas telas e uma Streisand menos eficiente do que em "O príncipe das marés" mas ainda assim uma atriz competente e sensível, os atores secundários do filme pontuam com correção um roteiro que diverte e emociona na medida certa. É um filme romântico para adultos que preferem finais felizes.

Inspirado em um pouco conhecido filme francês, o roteiro de Richard LaGravenese (que também adaptou "As pontes de Madison" para as telas) conquista pelos diálogos espertos e pelo romantismo assumido. Mesmo que sua cena final de certa forma desminta propositalmente o discurso de Rose em uma de suas aulas (com Puccini tocando em alto e bom som na noite nova-iorquina) é impossível ficar imune ao charme da história contada por Barbra Streisand, que, pelo jeito, sabe exatamente o que quer de seus colaboradores. Se todos os que agem com essa certeza quase ditatorial assinassem filmes com a qualidade de "O espelho tem duas faces", seria bem mais fácil perdoá-los.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.



Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).

domingo, 13 de março de 2011

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"