quinta-feira, 30 de junho de 2011

ELEIÇÃO


ELEIÇÃO (Election, 1999, MTV Films/Paramount Pictures, 103min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Tom Perrotta. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Renee Davenport. Produção executiva: Van Toffler. Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa. Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein, Jessica Campbell, Molly Hagan. Estreia: 23/4/99

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

É engraçado como o povo americano tem uma obsessão quase indecente com o desejo de vencer a qualquer custo. Uma prova de que essa obsessão surge cada vez mais cedo ultimamente é a história – hilária, irônica e por que não apavorante – contada em “Eleição”, uma das comédias mais cáusticas de 1999.

Reese Witherspoon, em uma atuação nunca aquém de impecável, vive Tracy Flick, um aluna exemplar que dedica sua vida à perfeição. Integrante de todo e qualquer grupo extra-curricular de sua escola, ela vê como o ápice de sua vida estudantil a eleição para a presidência do Conselho Estudantil. Como sua vida social não é das melhores – sua única relação amorosa, por exemplo, foi com um professor cuja carreira ela destruiu – ela constrói uma campanha eleitoral com tudo que tem direito e parece não ter rivais. Sua ambição desmedida, no entanto, incomoda profundamente o professor Jim McAllister (Matthew Broderick, ótimo), que tem a idéia de lançar a candidatura de outro aluno, o bobalhão mas popular Paul Metzler (Chris Klein). Sua guerra não declarada à Tracy acaba trazendo dramáticas consequências à sua carreira.

        

É difícil dizer o que funciona melhor em “Eleição”. O roteiro, baseado no romance de Tom Perrota (também autor do livro que deu origem ao filme "Pecados íntimos") e co-escrito pelo diretor Alexander Payne e Jim Taylor, foi indicado ao Oscar e é de uma riqueza de detalhes e ironias que impressiona principalmente devido ao fato de ser de um gênero que normalmente ignora coisas tais como sutilezas. Ao fazer um estudo sobre um assunto tão sério de maneira tão leve e divertida, Payne não se preocupa em exagerar no realismo, dando importância principalmente às consequências dos atos de seus personagens, que mesmo sem querer dão partida em acontecimentos que não podem ser consertados. O professor vivido por Broderick – deixando para trás sua criação mais famosa, o Ferris Bueller de “Curtindo a vida adoidado” – é um exemplo perfeito. Apesar de ser bem sucedido em sua carreira, é considerado como perdedor dentro dos conceitos de Flick, que almeja coisas grandiosas em seu futuro. Ao cometer dois erros impulsivos – se apaixonar pela ex-esposa do melhor amigo e tentar destruir os planos de sua ambiciosa aluna – ele próprio entra em um caminho sem volta que pode acabar com sua profissão e seu casamento. O roteiro não perdoa seus personagens, mas, benevolente, lhes dá segundas e terceiras chances.

Imperdível devido à suas qualidades como comédia – que nunca arranca gargalhadas e sim sorrisos cúmplices – e importantíssimo graças às discussões que suscita, “Eleição” ainda conta com o trabalho de alto nível de Reese Witherspoon, que criou uma das personagens mais complexas de sua carreira ainda curta sem apelar para armadilhas maniqueístas. Sua batalha com Matthew Broderick merece ser conferida e admirada como um dos filmes mais inteligentes da categoria.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

VAMOS NESSA


VAMOS NESSA (Go, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Doug Liman. Roteiro: John August. Fotografia: Doug Liman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: BT. Figurino: Genevieve Tyrrell. Direção de arte/cenários: Thomas P. Wilkins/Fontaine Beauchamp Hebb. Produção: Matt Freeman, Mickey Liddell, Paul Rosenberg. Elenco: Sarah Polley, Katie Holmes, Scott Wolf, Jay Mohr, Timothy Olyphant, Desmond Askew, William Fichtner, Jane Krakowski, Taye Diggs, Breckin Meyer, J.E. Freeman. Estreia: 09/4/99

Nada como um filme despretensioso para provar aos descrentes que ainda existe criatividade e energia no mundo hollywoodiano. Feito com parcos 6 milhões e meio de dólares, a comédia “Vamos nessa” é a perfeita prova de que é possível contar uma história com poucos recursos desde que a receita inclua inteligência e talento. Além de tudo, comprova que o sucesso de crítica que o diretor Doug Liman obteve com seu primeiro filme, “Swingers, curtindo a noite” não era apenas sorte de principiante.

“Vamos nessa” é composto de várias histórias que se interligam, a exemplo de inúmeros outros filmes que exploraram o formato. No entanto, ao invés de utilizar a fórmula perigosamente corriqueira como subterfúgio para esconder um roteiro sem consistência, a maneira com que as tramas se desenrolam se completam, como um quebra-cabeças bem-humorado e descolado, contado com ritmo próprio, bom-humor e uma energia contagiante.

        

A trama de “Vamos nessa” se desenrola às vésperas de Natal, quando o inglês Simon (o ótimo estreante Desmond Askew) resolve aproveitar uma oportunidade única e viajar para Las Vegas com um grupo de amigos. Enquanto ele passa por poucas e boas na capital mundial do jogo, nem imagina a confusão que deixou para trás. Sua colega de trabalho, a jovem Ronna (a revelação de “O doce amanhã” Sarah Polley), à beira de uma ação de despejo, aceita vender êcstase para um casal de atores, Zack e Adam (Scott Wolf e Jay Mohr), mas ao descobrir que tudo é uma armadilha armada por um policial muito suspeito (William Fichtner) dá fim à mercadoria. Fazendo isso, ela passa a perna em Todd Gaines (Timothy Olyphant), um traficante pouco afeito a amizades por quem sua melhor amiga Claire (Katie Holmes) sente uma mal-disfarçada atração. Entrando na lista negra do jovem, ela acaba indo parar em uma rave, para onde vários conflitos irão confluir e até mesmo a desgastada relação entre os astros de TV irá se resolver.

O que é melhor, em "Vamos nessa" é sua sinceridade em dialogar com seu público-alvo. É evidente que não existe a intenção de ser denso ou dramaticamente relevante, é apenas uma história contada de maneira a jamais deixar o ritmo cair e, nesse quesito, é memorável. Todas as subtramas são interessantes e repletas de referências pop (a citação a "Barrados no baile" quase passa despercebida, inclusive) e piadas inteligentes, e não sobra nenhum laço solto em seu produto final, nada é esquecido pelo roteirista John August (nem ao menos aquelas personagens que nem mesmo o público lembrava...)  Recheado de delicios diálogos e uma agilidade a toda prova, "Vamos nessa" ainda conquista por sua modernidade nata. Nada no filme, nem o roteiro, nem a edição nem muito menos o elenco - repleto de nomes promissores - parecem forçados e/ou equivocados. Até mesmo Katie Holmes está relativamente bem, ainda que repita os trejeitos de sua personahem mais conhecida, a chatinha Joey Potter da série "Dawson's Creek" e a química entre Jay Mohr e Scott Wolf é impagável. No entanto, é o inglês Desmond Askew quem mais se destaca, na pele do alucinado Simon, dono de algumas das melhores cenas do filme.

E a trilha sonora, aliás, é quase uma personagem à parte: cumpre seu papel com louvor, comentando a ação sem interferir exageradamente nela. De techno a pop - passando por "Macarena" em uma cena bizarra e uma canção inédita da banda No Doubt) - a lista de canções é das mais variadas e enche os ouvidos da plateia, feliz em ser tratada com uma boa dose de humor esperto e descolado. Quando acabam as aventuras do grupo de jovens retratados por August, fica a sensação de que Doug Liman estava no caminho certo em sua habilidade de contar histórias rápidas. Seu filme é o programa perfeito para um sábado à noite antes de uma balada.

terça-feira, 28 de junho de 2011

NUNCA FUI BEIJADA


NUNCA FUI BEIJADA (Never been kissed, 1999, Fox 2000 Pictures, 107min) Direção: Raja Gosnell. Roteiro: Abby Kohn, Marc Silverstein. Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: Debra Chiate, Marcelo Sansevieri. Música: David Newman. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Steven J. Jordan/Suzette Sheets. Produção executiva: Drew Barrymore. Produção: Sandy Isaac, Nancy Juvonen. Elenco: Drew Barrymore, Michael Vartan, David Arquette, John C. Reilly, Molly Shanon, Garry Marshall, Leelee Sobieski, Jessica Alba, James Franco. Estreia: 09/4/99
 
Drew Barrymore, a garotinha Gertie de “ET, o extra-terrestre” cresceu e apareceu. Em “Nunca fui beijada” ela não só é a protagonista absoluta como ainda aparece como produtora executiva, através de sua produtora, a Flower Films. E dando mostras de que sabe muito bem de suas limitações como atriz, ela não quis buscar profundos dramas existenciais para voltar às telas. “Nunca fui beijada” é uma comédia romântica sem maiores novidades e talvez por isso mesmo funcione e cumpra tão bem seus objetivos de divertir sem exigir muito exercício da massa cinzenta. E é bastante engraçado, especialmente para aqueles que já conseguiram superar os traumas de uma adolescência conturbada.

No filme, dirigido por Raja Gosnell (que depois cometeria a versão live action de "Scooby Doo"), Drew – deixando pra trás um sério problema com vícios em drogas e álcool e uma tentativa de ressuscitar a carreira como símbolo sexual em filmes sofríveis – vive Josie Geller, a competente revisora de um jornal de Chicago que torce desesperadamente pela chance de virar repórter. Essa chance chega quando recebe de seu chefe (um surpreendente Garry Marshall, o diretor de “Uma linda mulher”) a incumbência de disfarçar-se de estudante secundarista para escrever uma reportagem sobre a juventude contemporânea. Mesmo desestimulada por seu amigo e editor Gus (John C. Reilly), Josie matricula-se em uma escola, e tão logo chega começa a lembrar-se de que seu período como adolescente não foi dos melhores. Renegada pelas patricinhas e ridicularizada pelos galãs de plantão, ela encontra amizade apenas com uma nerd, Aldys (Leelee Sobieski) - com quem se identifica de imediato - e com o professor de literatura Sam Coulson (Michael Vartan), por quem se apaixona perdidamente. As coisas começam a melhorar quando seu irmão Rob (David Arquette) também entra na escola e, popular como em seu tempo de estudante, a ajuda a galgar posições mais altas no status estudantil.

        

Nada em “Nunca fui beijada” é novidade. Quando Josie encontra-se pela primeira vez com seu professor, é óbvio que irá apaixonar-se por ele. Quando começam os preparativos para o Baile de Formatura, é claro que ele será o palco do clímax, quando as verdades virão à tona. E quando a jovem jornalista marca um encontro com seu amado em pleno campo de futebol todos sabem o que acontecerá. Mas a simpatia e o timing cômico de Barrymore, a trilha sonora recheada de bons nomes (John Lennon, REM, The Smiths, Cardigans), as citações pop (que vão de “Negócio arriscado”, com Tom Cruise a “Carrie, a estranha”, de Brian de Palma, passando por Shakespeare e Barbie), o elenco de apoio (que conta com a ótima Molly Shannon) e alguns bons momentos de humor compensam a falta de criatividade.

No final das contas, esse primeiro filme de Drew Barrymore como produtora executiva é uma deliciosa e bobinha sessão da tarde, que diverte sem fazer esforço e traz algumas cenas destinadas a clássicas do gênero (a protagonista em sua versão anos 80, ao som de "Like a prayer", de Madonna é hilária). Pode não ter mudado a história do cinema, mas é pop de qualidade, além de contar com as participações de Jessica Alba e James Franco em início de carreira. E é, acima de tudo, extremamente romântico para aqueles que acreditam em contos de fada!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

MATRIX

MATRIX (The Matrix, 1999, Warner Bros, 136min) Direção e roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Zach Staenberg. Música: Don Davis. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Lisa Brennan, Tim Ferrier, Marta McElroy. Produção executiva: Bruce Berman, Andrew Mason, Barrie M. Osborne, Erwin Stoff, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Produção: Joel Silver. Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Gloria Foster, Marcus Chong, Julian Arahanga. Estreia: 31/3/99

Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais

Quando “Matrix” estreou, em março de 1999 nada se sabia sobre seus diretores (os misteriosos Irmãos Wachowski) nem tampouco havia muita clareza sobre o assunto do filme em si. Depois de sua estreia – e de uma renda de mais de 170 milhões só nos cinemas americanos – a obra estrelada por Keanu Reeves virou mania, marco inicial de uma trilogia e uma das ficções científicas mais bem-sucedidas da história do cinema. Isso sem mencionar o status de cult que adquiriu, ao misturar em seu roteiro extraordinárias cenas de ação com efeitos visuais de cair o queixo (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) e uma história com toques de filosofia, destino e críticas não muito veladas à sociedade de sua época e ao conformismo em geral.

Keanu Reeves, no papel da sua vida, vive Neo, um trabalhador burocrático durante o dia e um hacker talentosíssimo à noite, que é procurado por um misterioso grupo liderado pelo sinistro Morpheus (Laurence Fishburne, excelente) para assumir seu lugar como o líder escolhido para lutar contra a Matrix, que mantém o povo como escravo, vivendo das aparências de um passado menos opressor e depressivo. Para isso, Neo precisa lutar contra um exército comandado pelo temível Agente Smith (Hugo Weaving) e conta com a ajuda da bela Trinity (Carrie-Anne Moss), por quem se apaixona.


A trama de “Matrix” é complicada, mesmo, especialmente contada sem as imagens espetaculares criadas pelos cineastas, que contam com a ajuda da fotografia estilosa de Bill Pope, o figurino de Kym Barrett (que virou moda) e os efeitos visuais,  surpreendentes e copiados à exaustão após seu sucesso. No entanto, depois que o filme acaba, deixando o público salivando por mais produtos com sua qualidade e inteligência, o que fica na cabeça da plateia não são as ruidosas cenas de destruição nem o visual que enche os olhos. O que diferencia “Matrix” das dezenas de congêneres é a profundidade que seus criadores foram capazes de inserir em meio aos tiroteios e às piruetas que abundam em suas duas horas de duração.

Muito se discutiu à sua época a trama bem construída pelos irmãos roteiristas - que incluía uma complexa teoria de que o mundo em que vivemos é apenas uma ilusão criada por um governo ditatorial e violento. Ao contrário do que dizia José Wilker - que como crítico de cinema é um ator apenas razoável - o filme não conta a história de um homem que aprende a lutar karatê rapidamente. É um filme de inteligência rara e de qualidade técnica invejável, que deu ao normalmente fraco Keanu Reeves a chance (mais uma) de tornar-se um ícone do cinema de ação. Ao lado de Laurence Fishburne e Carrie-Anne Moss, Reeves estampou as principais publicações do gênero e voltou a ser (cinco anos após "Velocidade máxima") uma aposta quente para os executivos dos estúdios hollywoodianos. Como ator não é dos melhores, mas funciona muito bem em filmes como "Matrix".

"Matrix" originou ainda mais dois filmes que deram continuidade à sua história e que, apesar do sucesso de bilheteria não atingiram a qualidade e originalidade de seu primeiro capítulo. Mais uma vez a vontade de ganhar dinheiro foi mais forte do que a de manter a integridade artística. Uma pena.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ

10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (10 things I hate about you, 1999, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Gil Junger. Roteiro: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, peça teatral "A megera domada", de William Shakespeare. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Richard Gibbs. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Carol Winstead Wood/Charles Graffeo. Produção executiva: Jeffrey Chernov, Seth Jaret. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larisa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Allison Janney. Estreia: 31/3/99

A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.

O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.



O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.

Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SEGUNDAS INTENÇÕES


SEGUNDAS INTENÇÕES (Cruel intentions, 1999, Columbia TriStar Pictures, 97min) Direção: Roger Kumble. Roteiro: Roger Kumble, romance "As relações perigosas", de Choderlos de Laclos. Fotografia: Theo van de Sande. Montagem: Jeff Freeman. Música: Edward Shearmur. Figurino: Denise Wingate. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Michael Fottrell. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: Sarah Michelle Gellar, Ryan Philippe, Reese Witherspoon, Selma Blair, Louise Fletcher, Joshua Jackson, Eric Mabius, Sean Patrick Thomas, Swoosie Kurtz, Christine Baranski, Tara Reid. Estreia: 05/3/99

A história de “Segundas intenções” já frequentou as telas de cinema algumas vezes, sendo a mais notável a adaptação de Stephen  Frears de 1988 chamada adequadamente de “Ligações perigosas” e vencedora de 3 Oscar. No entanto, como é bem pouco provável que o público mais jovem – diga-se recém saído da adolescência – tenha sido atraído por uma trama passada na França pré-revolução, não deixa de ser interessante e oportunista – no bom sentido – que o roteirista e diretor Roger Kumble tenha tido a ideia de transferir a história de sexo, intrigas e vingança do escritor Choderlos de Laclos para a Los Angeles do final do século XX, com pequenas alterações e poucas ambições.

Sarah Michelle Gelar (da série de TV “Buffy, a caça-vampiros”) vive Catherine, uma jovem milionária, viciada em cocaína e sexo, e hipócrita em todos os sentidos que não se conforma de ter sido abandonada pelo namorado, que agora está apaixonado por Cecile (Selma Blair, bela mas um tanto exagerada em sua caracterização), uma moça de família recém-saída de uma escola de freiras. Com a intenção de desmoralizá-la, Catherine conta com a ajuda de Sebastian (Ryan Phillipe, nitidamente se divertindo com o papel), filho de seu padastro e com quem mantém uma relação quase incestuosa. Famoso por sua agitada e promíscua vida romântica, Sebastian acaba aceitando o desafio de seduzir Cecile, mas dedica mais atenção a uma missão que considera muito mais importante: convencer a virginal Anette (Reese Witherspoon) a entregar sua pureza a ele.



Utilizando de maneira exemplar uma trilha sonora moderna (Blur, Fatboy Slim, The Verve, Counting Crows, Placebo) e um elenco com nomes promissores e carismáticos, Kumble faz de seu “Segundas intenções” um filme ideal para seu público, ainda que corra o risco de desagradar os mais puristas, principalmente ao alterar o final da história, ainda que mantenha o tom de crítica à uma parcela da sociedade como acontece no livro e no filme de Frears. Enquanto no original a nobreza da França era o alvo da pena de Choderlos de Laclos, em sua versão século XXI a juventude elitista, vazia e fútil da geração de grifes e marcas famosas é que é posta na berlinda, ainda que dificilmente seja reconhecida por sua plateia, ansiosa por uma história sem maior profundidade.

Profundidade, aliás, é algo que o roteiro nem tenta atingir. Roger Kumble fez de seu filme uma história de desejo e vingança com doses de sexo (nada muito ousado, mas suficientemente atrativo) e bom humor, apesar do desfecho trágico e da seriedade com que Reese Witherspoon encara um papel difícil, em contraponto às atuações de Ryan Philippe (em seu melhor trabalho) e Sarah Michelle Gelar, que não precisam muito para deixarem claro sua satisfação em viver personagens tão cruéis. Eles ainda precisam comer muito feijão com arroz para chegarem aos pés de John Malkovich e Glenn Close - de quem herdaram seus papéis - mas colaboram bastante para o sucesso com que "Segundas intenções" atinge seus objetivos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

CORAÇÕES APAIXONADOS

CORAÇÕES APAIXONADOS (Playing by heart, 1998, Miramax Films, 121min) Direção e roteiro: Willard Carroll. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Barry. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Cindy Carr. Produção executiva: Guy East, Paul Feldsher, Nigel Sinclair, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Willard Carroll, Meg Liberman, Tom Wilhite. Elenco: Sean Connery, Gena Rowlands, Angelina Jolie, Ryan Philippe, Madeleine Stowe, Dennis Quaid, Gillian Anderson, Ellen Burstyn, Jay Mohr, Anthony Edwards, Jon Stewart, Patricia Clarkson. Estreia: 18/12/98

Filmes com várias estórias aparentemente independentes que se cruzam no final já fazem parte de quase um sub-gênero em Hollywood. De Robert Altman a Quentin Tarantino, vários diretores já se aventuraram, com resultados os mais variados, a assinar filmes assim. Por isso não deixa de ser surpreendente quando um exemplar do estilo consegue ultrapassar as expectativas e conquistar o espectador. Mesmo sendo escrito e dirigido pelo praticamente desconhecido Willard Carroll, o drama romântico "Corações apaixonados" é bom o suficiente para prender a atenção do público, contando para isso com uma equipe de causar inveja a qualquer veterano.

Por não ser exatamente um nome de peso, o cineasta cercou-se de um time de colaboradores de primeira linha. Do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond (Oscar por "Contatos imediatos de terceiro grau") ao editor Pietro Scalia (Oscar por "JFK" e "Falcão negro em perigo"), passando pelo maestro John Barry e os experientes atores Sean Connery, Ellen Burstyn e Gena Rowlands, os créditos do filme são um desfile dos mais talentosos profissionais da sétima arte. No entanto, nada disso adiantaria se Carroll não tivesse em mãos um belo trunfo: o roteiro esperto e ágil. Inteligentemente, ele não criou um petardo emocional como "Magnólia" ou um besteirol ralo como "Pret-a-porter": dosando muito bem elementos comoventes com cenas de uma graça sincera e leve, o diretor conseguiu um equilíbrio raro, fazendo com que todas as estórias que conta sejam dignas de interesse, mesmo porque o elenco estava em dias inspirados.



Os veteranos Sean Connery e Gena Rowlands vivem Hannah e Paul, um casal que, às vésperas de completar 40 anos de casamento, se envolvem em uma crise quando a esposa, apresentadora de um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga descobre a foto de uma antiga paixão do marido. A química entre os atores é orgânica, e o texto é divertido e caloroso (poucas vezes se viu o James Bond mais famoso das telas tão à vontade). Angelina Jolie (pré-Oscar, pré-Brad Pitt e pré-símbolo sexual absoluto) e Ryan Philippe são Joan e Keenan, dois jovens que se conhecem em uma danceteria e passam a viver um romance titubeante graças à resistência do rapaz, oriunda de um traumatizante relacionamento anterior. Jolie é pura alegria de viver e carisma, em um papel feito sob medida, e Philippe se sai relativamente bem, sem precisar explorar o corpo, como fez em "Studio 54".

Madeleine Stowe e Anthony Edwards (da série "Plantão Médico") são os amantes Gracie e Roger, cuja relação nunca sai dos quartos de hotel, apesar dos apelos dele (talvez seja a trama menos interessante, ainda que revele uma pequena surpresa nas cenas finais). Gillian Anderson (da série "Arquivo X") interpreta a diretora de teatro Meredith, que tenta afastar o pretendente Trent (Jon Stewart) por medo de sofrer (e Anderson tem um insuspeito timing cômico). Dennis Quaid é Hugh, aparentemente um mentiroso contumaz que tenta seduzir mulheres em bares contando as mais absurdas histórias de tristeza (e o então marido de Meg Ryan deita e rola no papel, demonstrando um talento que viria a crescer ainda mais nos anos seguintes). E finalmente Ellen Burstyn é Mildred, uma mulher que acompanha os últimos momentos do filho Mark (Jay Mohr), vítima da AIDS. É a história mais triste do filme, mas contada com delicadeza e com a excelência de Burstyn.

Tentar adivinhar como essas estórias irão se cruzar é apenas um dos prazeres que se tem ao assistir a “Corações apaixonados”. Engraçado, comovente, romântico, é uma pequena pérola em meio às explosões e tiroteios que povoam as telas de cinema. Para ser descoberto!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

LADO A LADO

LADO A LADO (Stepmom, 1998, Columbia Pictures, 124min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Gigi Levangie, Jessie Nelson, Steven Rogers, Karen Leigh Hopkins, Ron Bass. Fotografia: Donald M. McAlpine. Montagem: Neil Travis. Música: John Williams. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr. Produção executiva: Ron Bass, Margaret French-Isaac, Patrick McCormick, Pliny Porter, Julia Roberts, Susan Sarandon. Produção: Chris Columbus, Mark Radcliffe, Wendy Finerman. Elenco: Julia Roberts, Susan Sarandon, Ed Harris, Jena Malone, Liam Aiken. Estreia: 25/12/98

De um lado uma das maiores estrelas de Hollywood. De outro, uma atriz de prestígio, vencedora do Oscar. Entre elas, um ator respeitado por seu talento e sua personalidade. Comandando a todos, um cineasta experiente em dialogar de forma direta com seu público, sem firulas e maneirismos. Não tinha como dar errado. E não deu. "Lado a lado", dirigido pelo mesmo Chris Columbus do megasucesso "Esqueceram de mim", reuniu Julia Roberts, Susan Sarandon e Ed Harris em um drama familiar que, apesar de contar com uma doença terminal entre suas tramas, jamais escorrega para o sentimentalismo barato. Pode até ser acusado de ser superficial (e de certo modo o é), mas sua opção em não buscar a lágrima exagerada do público mostrou-se acertada, o que sua bilheteria de quase 160 milhões de dólares apenas comprovou em números.

A trama é simples: a bem-sucedida fotógrafa de moda Isabel Kelly (Julia Roberts, linda) vive um relacionamento estável e caloroso com Luke Harrison (Ed Harris), um homem mais velho mas apaixonado e dedicado. A relação tranquila entre os dois só é atrapalhada pela resistência dos dois filhos de seu primeiro casamento, a pré-adolescente Anna (Jena Malone) e o pequeno Ben (Liam Aiken), que tem verdadeira adoração pela mãe, Jackie (Susan Sarandon). Uma mulher que abandonou a carreira de editora para dedicar-se ao casamento e à família, Jackie não aceita o novo romance do ex-marido com Isabel e incentiva os filhos a sabotarem todas as tentativas da jovem de aproximar-se deles. A relação conflituosa entre todos sofre uma reviravolta quando Jackie descobre sofrer de um câncer intratável. A partir daí, ela começa a trabalhar uma forma de fazer com que seus filhos não apenas aceitem a nova mulher de seu pai, mas que também a respeitem como uma nova mãe.



O roteiro de "Lado a lado" é bastante leve, apesar de ter uma segunda metade que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Columbus não exagera na sacarina, sempre cuidando em tratar com delicadeza até mesmo as cenas mais emocionantes, defendidas com garra por suas duas atrizes centrais, também produtoras executivas do filme. São elas, do alto de seu carisma, que sustentam as pequenas falhas do roteiro, um tanto superficial mas adequado a suas pretensões comerciais. Logicamente não era do interesse do estúdio mostrar Sarandon definhando em cena - o que afugentaria a audiência - e, levando-se isso em consideração, o resultado final cumpre o que promete: é ágil, comovente e por vezes até caloroso. O fato de ser plasticamente asséptico - as casas são lindas, a doença é apenas mencionada e nunca mostrada em todas as suas proporções, não há ninguém que não seja lindo ou carismático - atrapalha um pouco em fazê-lo ser levado a sério, mas mais uma vez surge a pergunta: o público-alvo tem esse tipo de preocupação estética?

"Lado a lado" é um filme estritamente comercial e dentro dessa restrição é um produto de grande qualidade. Fotografado luminosamente, com uma trilha sonora moderna e vibrante e um elenco irretocável (onde destaca-se também a pequena grande atriz Jena Malone), é um filme feito para emocionar. E, mesmo que poupe a audiência de um vale de lágrimas (como "Laços de ternura", por exemplo), atinge seus objetivos com extrema eficácia.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MENSAGEM PARA VOCÊ

MENSAGEM PARA VOCÊ (You've got mail, 1998, Warner Bros,) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, Delia Ephron, peça teatral "Parfumerie", de Miklós László. Fotografia: John Lindley. Montagem: Richard Marks. Música: George Fenton. Figurino: Albert Wolsky.  Direção de arte/cenários: Dan Davis/Susan Bode, Ellen Christiansen. Produção executiva: G. Mac Brown, Julie Durk, Delia Ephron. Produção: Nora Ephron, Lauren Schuler Donner. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Greg Kinnear, Parker Posey, Steve Zahn, Dabney Coleman, Jean Stapleton. Estreia: 18/12/98

Levando-se em consideração o enorme sucesso de "Sintonia de amor", em que Tom Hanks e Meg Ryan foram dirigidos por Nora Ephron - e que rendeu mais de 220 milhões de dólares pelo mundo - até que demorou para que os três nomes voltassem a enfeitar o mesmo cartaz. Cinco anos separam "Sintonia" de "Mensagem para você", mais uma deliciosa comédia romântica comandada pela roteirista do já clássico "Harry & Sally, feitos um para o outro". Nesse meio-tempo, Hanks passou de comediante simpático a ator sério e respeitado - e dono de dois Oscar consecutivos - e Ryan tentou fugir da armadilha de tornar-se atriz de um papel único, chegando a ponto de encarar um filme de guerra - "Coragem sob fogo" - e um papel de alcóolatra - em "Quando um homem ama uma mulher". O que fica claro em "Mensagem para você" é que a química entre os dois não se alterou um mílimetro sequer: são eles, aliados ao texto sempre irônico e ágil de Ephron, que fazem do filme um programa sem contra-indicações.

Refilmagem livre e modernizada do clássico "A loja da esquina", que Ernst Lubitsch dirigiu em 1940 e onde James Stewart e Margaret Sullavan trocavam calorosas cartas amorosas enquanto se odiavam como colegas de trabalho, "Mensagem para você" mais uma vez usa o charme natural de Nova York como cenário de um romance capaz de afastar todo e qualquer cinismo e conquistar o público sem fazer esforço. Seguindo a receita vitoriosa de "Sintonia de amor", o filme de Ephron também se aproveita de uma deliciosa trilha sonora e da simpatia dos coadjuvantes: além de uma dupla central imbatível, desfilam pela tela Greg Kinnear, Parker Posey e Steve Zahn em atuações extremamente simpáticas e eficientes.




Kathleen Kelly (Meg Ryan adorável mas repetindo os trejeitos de sempre) é a brava dona de uma pequena livraria infantil localizada em uma zona valorizada de Nova York. Com um público fiel que conhecem o estabelecimento desde que era de sua mãe, a livraria chamada "A loja da esquina" começa a sofrer a concorrência desleal da filial de uma enorme cadeia de megastores de propriedade de Joe Fox (Tom Hanks). Furiosa com a possibilidade de ir à falência, Kathleen conta com o apoio do namorado, o jornalista Frank Navasky (Greg Kinnear) e dos funcionários, mas é somente pela Internet que ela realmente se sente à vontade para ser ela mesma. Assumindo o apelido de Shopgirl, ela se apaixona virtualmente por NY152, sem nem de longe desconfiar que ele é, na verdade, seu maior rival.

O roteiro de "Mensagem para você" se desenvolve sem maiores surpresas ao espectador, mas o faz de maneira tão honesta que fica difícil não compactuar com seu humor romântico e quase ingênuo. Juntos em cena, Meg Ryan e Tom Hanks são o perfeito exemplo de atores carismáticos e devidamente aproveitados. É principalmente devido a eles que a audiência acredita piamente que dois estranhos completos podem se apaixonar perdidamente através da Internet sem ao menos ver o rosto um do outro. E é lógico que, caminhar nas ruas arborizadas e coloridas de Manhattan e ao som de Cranberries, Sinnead O'Connor, Roy Orbison e Louis Armstrong não atrapalha em nada nessa missão.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

CELEBRIDADES

CELEBRIDADES (Celebrity, 1998, Sweetland Films/Magnolia Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benziger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Kenneth Branagh, Winona Ryder, Judy Davis, Charlize Theron, Leonardo DiCaprio, Famke Janssen, Dylan Baker, Gretchen Moll, Sam Rockwell, Michael Lerner, Dylan Baker, Debra Messing, Adrian Grenier, Hank Azaria. Estreia: 20/11/98

Alguém já disse que é possível analisar uma sociedade através das pessoas que ela escolhe como celebridades. Exagero ou não, foi seguindo exatamente essa afirmação que Woody Allen teve a ideia para "Celebridades", longa-metragem que é uma homenagem pouco disfarçada a "A doce vida", de Fellini. Assim como o protagonista do filme do cineasta italiano, o jornalista vivido aqui por Kenneth Branagh se vê envolvido em uma roda-viva de pessoas famosas, festas, coquetéis e acontecimentos sociais de todo tipo enquanto tenta manter o centro de sua própria vida. Assim como na mais famosa colaboração de Marcello Mastroiani com o pai de "Amarcord", a fotografia é em preto-e-branco (aqui cortesia de Sven Nykvist, habitual parceiro de Ingmar Bergman, outra influência de Allen). E, bem como no vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 1960, são principalmente as mulheres que transformarão a vida da personagem central em um misto de inferno e paraíso.

Lee Simon (vivido com competência pelo irlandês Branagh, famoso por suas adaptações shakesperianas) é um jornalista que, em sua tentativa de vender um roteiro de cinema, se aproxima da atriz Nicole Oliver (Melanie Griffith) e do rebelde Brandon Narrow (Leonardo DiCaprio). Em sua luta para ser reconhecido como escritor, ele se envolve também com a editora Bonnie (Famke Janssen), apesar de estar atraído por Nola (Winona Ryder), uma aspirante a atriz. Sua ex-mulher, Robin (Judy Davis), inconsolável com o fim do casamento, acaba se tornando uma apresentadora de TV, apoiada pelo novo namorado, o produtor Tony Gardella (Joe Mantegna) e os caminhos dos dois acaba se cruzando em mais de uma ocasião.


"Celebridades" é um filme irregular, mas como é normal nas obras de Allen, tem momentos de pura inspiração, em especial em relação a alguns diálogos engraçadíssimos e de extrema ironia. Robin Simon, por exemplo (em grande atuação de Judy Davis) dispara em determinado momento: "estou me tornando uma daquelas pessoas que sempre desprezei. E estou adorando!" Charlize Theron, em rápida aparição, quase rouba a cena como uma modelo que atinge o orgasmo com qualquer toque e Winona Ryder tem o tom ideal de delicadeza e independência que o papel exige. Kenneth Branagh se sai como uma espécie de alterego do cineasta (ainda que o mesmo se recuse a admitir, os trejeitos do ator são inegavelmente woodyallenianos). Somente Leonardo DiCaprio em seu primeiro papel pós-"Titanic" é que não convence com sua interpretação desleixada do problemático astro de cinema inspirado em Johnny Depp e afins. Até mesmo Melanie Griffith se sai melhor, com um timing cômico bastante apropriado.

"Celebridades" não é dos melhores Woody Allen. É mais longo do que de costume em seu currículo, vez ou outra perde o foco e não atinge a maturidade de suas obras-primas. Mas quem gosta do seu estilo certamente vai adorar.

terça-feira, 14 de junho de 2011

VELVET GOLDMINE

VELVET GOLDMINE (Velvet Goldmine, 1998, Channel Four Films/Goldywn Films/Killer Films/Miramax Films, 124min) Direção e roteiro: Todd Haynes. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: James Lyons. Música: Carter Burwell, Craig Wedren. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Christopher Hobbs. Produção executiva: Scott Meeks, Sandy Stern, Michael Stipe, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Christine Vachon. Elenco: Ewan McGregor, Christian Bale, Toni Colette, Jonathan Rhys-Meyers. Estreia: 06/11/98

Indicado ao Oscar de Figurino

Houve uma época em que o rock - baluarte da rebeldia e da transgressão social/sexual/musical - deixou de ser apenas diversão para exibir sua tendência revolucionária. Espalhafatoso, andrógino e influente, o movimento que convencionou-se chamar de "glam rock" legou ao mundo nomes indispensáveis para o mundo pop, como David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed. Esse efervescente período, cuja influência é sentida até hoje nas apresentações de Lady Gaga, por exemplo, é o pano de fundo para um dos mais criativos e excêntricos filmes ingleses dos anos 90. Dirigido pelo ousado Todd Haynes, o misto de drama e musical "Velvet goldmine" disfarça as trajetórias de Bowie, Pop e Reed em um roteiro que mistura rock, liberdade sexual e Oscar Wilde no mesmo pacote. Pode parecer estranho - e é - mas é também fascinante.

Em 1984, Arthur Stuart, um repórter inglês vivido por Christian Bale antes de tornar-se astro, é escalado por seus superiores para descobrir o paradeiro de um antigo astro de rock chamado Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers), que caiu em desgraça no início dos anos 70 depois de forjar a própria morte no palco. A missão aparentemente fútil que o jovem recebe, porém, o faz lembrar de sua adolescência, quando, fã absoluto de Slade, descobriu através dele a sexualidade e a liberdade de expressão e vida. Fascinado com a possibilidade de reviver esse período de sua vida, ele parte atrás das pessoas que podem saber algo sobre o cantor (que desapareceu desde sua falsa morte). Em sua lista estão principalmente Mandy (Toni Colette), a ex-mulher de Slade, e o roqueiro Curt Wild (Ewan McGregor), que teve um tumultuado e criativo relacionamento com ele.

Contando sua história dividindo o presente (1984) com o passado (década de 70), Haynes construiu uma espécie de quebra-cabeça não apenas para seu protagonista mas também para o público, que aos poucos vai descobrindo os acontecimentos que uniram Slade, Mandy e Curt em uma relação tão complexa. Misturando uma estética fake de videoclip (com números musicais excêntricos e sexualmente chamativos) com um drama a respeito da busca pela personalidade, "Velvet goldmine" usa e abusa de seu direito de ser extravagante, embaralhando suas cartas de modo quase anárquico, para o que colabora a engenhosa edição de James Lyons. É somente em sua reta final que a audiência fica realmente sabendo a razão de todo o interesse de Arthur pelo paradeiro de Slade - e o final um tanto ambíguo talvez incomode alguma parcela do público, ainda que desde o início fique claro de que não se trata de um filme convencional.


E convencional é o último adjetivo que pode ser aplicado a "Velvet goldmine". Desde suas primeiras cenas a plateia é convidada a fazer parte da viagem quase surreal proposta pelo cineasta, que começa a contar sua história mostrando a infância de Oscar Wilde (cujos textos estão espalhados pelo roteiro) e depois dando um salto de cem anos à frente. E se Haynes teve coragem de criar um espetáculo tão reluzente teve também a sorte de contar com uma equipe de profissionais acima de qualquer crítica, a começar pelo produtor executivo Michael Stipe, líder e vocalista da banda de rock REM. O figurino genial de Sandy Powell é espalhafatoso como convém (e concorreu merecidamente ao Oscar), a trilha sonora celebra com exatidão o som de sua época e o elenco se entrega com coragem e tesão na brincadeira. Se Toni Colette dá um banho como a complacente e posteriormente amargurada Mandy Slade e Jonathan Rhys-Meyers se sai muito bem em seu primeiro papel de destaque (em uma atuação tão afetada que tem ecos até hoje), são Ewan McGregor e Christian Bale quem se destacam. Bale vive com perfeição as duas fases de sua personagem (de adolescente deslumbrado com as potencialidades de seus desejos ao jornalista quase tímido) e McGregor canta e encanta como o polêmico e sexy Curt Wild. Sem medo algum, o ator de "Trainspotting" se desnuda fisicamente, solta a voz e dá profundidade a uma personagem complexa e controversa.

"Velvet goldmine" definitivamente não é para qualquer público. É necessário interesse no tema, no período retratado, no elenco ou em suas qualidades artísticas para que seja possível admirar todo o conjunto. Mas é um filme que merece ser conhecido nem que seja para não gostar.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ENCONTRO MARCADO

ENCONTRO MARCADO (Meet Joe Black, 1998, Universal Pictures, 178min) Direção: Martin Brest. Roteiro: Ron Osborn, Jeff Reno, Kevin Wade, Bo Goldman. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Joe Hutsching, Michael Tronick. Música: Thomas Newman. Figurino: Aude Bronson-Howard, David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Leslie Bloom. Produção executiva: Ronald L. Schwary. Produção: Martin Brest. Elenco: Brad Pitt, Anthony Hopkins, Claire Forlani, Marcia Gay Harden, Jake Weber. Estreia: 13/11/98

Alguém deveria matricular Martin Brest em algum curso que ensine a ser conciso. Em "Perfume de mulher", seu filme mais famoso - e que concorreu ao Oscar de melhor filme, além de ter premiado Al Pacino com a estatueta - ele estendeu a história central da relação entre seu protagonista cego com um jovem estudante ao máximo, acrescentando ao filme uma desnecessária trama paralela que só se justifica por sua vontade de dar ao veterano ator mais um momento de brilho. Em "Encontro marcado", seu filme seguinte, ele novamente comete o mesmo erro de estender-se em demasia, dando importância exagerada a cenas que poderiam facilmente ter sido limadas na edição. Ao contrário de "Perfume", porém, nessa refilmagem livre de um clássico dos anos 40 as coisas não funcionaram tão bem. Nem em termos críticos - foi ignorado nas cerimônias de premiação - nem tampouco perante o público: custou quase 100 milhões de dólares e rendeu menos da metade, apesar do apelo do nome de Brad Pitt nos cartazes.

É fácil entender os motivos que levaram "Encontro marcado" a bombar nas bilheterias. É sabido que o público médio americano não é chegado a filmes com duração excessiva - e quase três horas de duração sem que haja necessidade para isso testa a paciência de qualquer um - e além do mais, desta vez Brest realmente errou a mão. Apesar da presença sempre carismática de Pitt e Anthony Hopkins, a refilmagem de "Uma sombra que passa" (estrelado por Fredric March em 1934) é arrastada, pouco emocionante e o que é ainda pior: não explora nem a metade do talento de seus atores principais (que voltam a contracenar depois do sucesso de "Lendas da paixão"). Tudo bem, é visualmente lindo, mas nem mesmo a beleza de Pitt e de Claire Forlani consegue evitar que a audiência boceje a cada vez que a história central se desvia para a desnecessária subtrama envolvendo os negócios de William Parrish (o magnata vivido por Hopkins no piloto automático).


William Parrish é um multimilionário que, às vésperas de completar 65 anos, recebe a visita da morte. Na pele de um jovem galante e sedutor - que se apresenta como Joe Black - a morte deseja levá-lo, mas adia o desfecho de sua missão quando se apaixona pela filha caçula do empresário, a bela Susan (Claire Forlani). Enquanto o dia da morte de Parrish se aproxima, o romance entre Joe e Susan assume ares de amor impossível e, antes de ir embora, Joe ajuda o milionário a perceber os reais interesses de seu braço-direito Drew (Jake Weber), que quer casar-se com Susan para assumir o controle de suas empresas de comunicação (a tal história paralela que não precisava estar no roteiro).

"Encontro marcado" tem uma direção de arte esplendorosa, que retrata com exatidão todo o glamour e o luxo que cerca os Parrish e uma fotografia deslumbrante de Emmanuel Lubezki (em especial em sua sequência final, de tirar o fôlego). A trilha sonora imponente de Thomas Newman dá o clima romântico necessário às cenas entre Joe e Susan - que, justiça seja feita, formam um lindo casal. E a trama central é interessante e adequada a esses tempos "espiritualizados" (além de alguns diálogos realmente bem escritos). Mas quando o filme acaba - aparentemente muito tempo depois de ter começado - a impressão que fica é que poderia ter sido muito mais bem-sucedido. Agrada aos mais românticos, mas perde a oportunidade de ser um belíssimo e inesquecível drama romântico.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA

A OUTRA HISTÓRIA AMERICANA (American History X, 1998, New Line Cinema, 119min) Direção: Tony Kaye. Roteiro: David McKenna. Fotografia: Tony Kaye. Montagem: Jerry Greenberg, Alan Heim. Música: Anne Dudley. Figurino: Doug Hall. Direção de arte/cenários: Jon Gary Steele/Tessa Posnansky. Produção executiva: Bill Carraro, Keari Peak, Steve Tisch, Lawrence Turman. Produção: John Morrissey. Elenco: Edward Norton, Edward Furlong, Beverly D'Angelo, Elliot Gould, Fairuza Balk, Avery Brooks, Ethan Suplee, Stacy Keach, Guy Torry. Estreia: 30/10/98

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Edward Norton)

Os verdadeiros fãs de cinema - aqueles que realmente gostam de bons filmes, histórias bem contadas e atuações poderosas - ainda devem ter a esperança de que um dia a Academia venha à público revelar que sua cerimônia de entrega do Oscar de 1999 não passou de uma grande brincadeira de mau-gosto. Afinal de contas, não é possível que no mesmo ano em que Gwyneth Paltrow tenha levado seu prêmio de melhor atriz (batendo as superiores Cate Blanchett, Fernanda Montenegro, Meryl Streep e Emily Watson) a estatueta de melhor ator tenha ficado com Roberto Benigni, a versão italiana de Renato Aragão. Não só Benigni é constrangedor (como comprovou sua exagerada e patética reação ao anúncio de seu nome) como sua vitória deixou de lado duas interpretações masculinas extraordinárias da disputa: Ian McKellen como o cineasta Frank Whaley de "Deuses e monstros" e Edward Norton por seu assombroso Derek Vinyard de "A outra história americana", um dos filmes mais chocantes e socialmente relevantes do ano.

Talvez tenha sido exatamente essa característica polêmica que tenha deixado "A outra história americana" no limbo onde se encontram os pequenos grandes filmes que são quase ignorados por um público que prefere passar os finais de semana lotando salas para assistir a coisas como "A múmia". Forte e impactante, o filme de Tony Kaye - que praticamente recusou-se a assinar o filme depois de uma rusga bastante grave com o ator central - é, acima de tudo, um entretenimento que faz pensar e levanta discussões que vão muito mais além do que o tradicional bate-papo em mesas de bares. É pouco provável que seus espectadores consigam esquecer facilmente tudo que o filme transmite, seja através de cenas de grande impacto visual, seja por diálogos que - surpreendentemente em se tratando de um trabalho de cunho tão social - tocam em feridas e pensamentos que muita gente prefere esconder atrás de piadas ou apatia.


Derek Vinyard, o protagonista, vivido impecavelmente por um Edward Norton repleto de nuances, é uma das personagens mais complexas que o cinema americano criou em muito tempo. Apesar de vituperar impropérios e destilar discriminação durante praticamente toda a projeção, Derek tem sua própria verdade, cultivada por anos de exposição às ideias racistas do pai e pelas tragédias da vida. Ainda que seja desagradável testemunhar alguns absurdos que ele comete, é inegável que, em sua mente distorcida, tudo faz sentido. E é preciso aplaudir de pé os diálogos brilhantes de David McKenna, que questiona os preconceitos mesmo de uma plateia politicamente correta - é exemplar a cena em que Derek desafia o namorado judeu de sua mãe em pleno jantar, utilizando o caso de Rodney King (um homem negro espancado pela polícia em um epísódio infame acontecido nos EUA) como base para suas teorias racistas. Mesmo que seja assustador, seu pensamento faz um sentido amedrontador.

A trama de "A outra história americana" é forte por si mesma. Depois de anos preso pelo assassinato de dois jovens negros que tentavam arrombar seu carro (em uma cena impressionante), o jovem Derek Vinyard é solto e volta para o lar de sua família. Seu retorno acontece justamente no momento em que seu irmão menor, Daniel (Edward Furlong, bastante eficiente) está seguindo seus passos, tornando-se parte de um grupo cada vez maior de skinheads, liderado por Cameron Alexander (Stacy Keach). Apavorado com a ideia de que o rapaz se transforme em um homem dominado por ódios irracionais, ele chega à conclusão que precisa revelar a ele tudo porque passou em seu tempo na prisão. A seu lado, está o inspetor de sua antiga escola, o professor Bob Sweeney (Avery Brooks) e sua mãe, Doris (Beverly D'Angelo, provando que consegue ir bem mais além do que em seu papel como a mulher de Chevy Chase na série "Férias frustradas").

Segundo fofocas de bastidores, o diretor Tony Kaye praticamente abandonou o filme em sua fase de edição, contrariado com as intervenções de Norton - descrito por ele como "babaca egocêntrico". Seja verdade ou não, é fato consumado que o ator é o destaque absoluto de "A outra história americana", entregando a ele uma interpretação poucas vezes vista no cinema. Norton consegue viver três Dereks diferentes - o adolescente ainda ingênuo em busca de influências, o skinhead raivoso e o ex-presidiário arrasado com sua experiência - com a desenvoltura dos grandes atores. É ele quem comanda o baile de dor e desespero que atinge o público como um soco no estômago. E é seu rosto transfigurado (de ódio e de pânico) que ficará na mente do espectador por um bom tempo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O APRENDIZ

O APRENDIZ (Apt pupil, 1998, Phoenix Pictures, 111min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Brandon Boyce, conto de Stephen King. Roteiro: Newton Thomas Siegel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Jennifer Herwitt. Produção executiva: Tim Harpert. Produção: Bryan Synger, Jane Hamsher, Don Murphy. Elenco: Ian McKellen, Brad Renfro, Elias Koteas, Bruce Davison, David Schwimmer, Joshua Jackson. Estreia: 23/10/98

O cartaz de "O aprendiz" já diz muito a respeito do que é falado em seus 111 minutos de duração: "Se você não acredita na existência do mal, você tem muito o que aprender." Baseado em uma novela de Stephen King - publicada no livro "As quatro estações", que também contém as histórias que deram origem aos filmes "Conta comigo" e "Um sonho de liberdade" - o filme de Bryan Singer provou mais uma vez que as tramas de King que fogem do sobrenatural são muito mais fortes e interessantes do que suas obras que versam sobre alienígenas, mortos-vivos e poderes sobrenaturais. Ao ter como protagonistas pessoas de carne e osso, suas histórias mais realistas comovem (e assustam, em alguns casos) muito mais do que tiros n'água como "O apanhador de sonhos". E "O aprendiz" é uma pequena pérola do suspense, ainda que em nenhum momento apele para o grotesco.

Aluno exemplar e filho dedicado, o adolescente Todd Bowden (Brad Renfro) descobre, quase sem querer, que seu idoso vizinho Arthur Denker (Ian McKellen), que vive isolado em uma casa afastada, é, na verdade Kurt Dussander, um criminoso de guerra procurado pelo governo de Israel para ser julgado por seus abomináveis crimes contra os judeus. Fascinado pela II Guerra Mundial, o jovem procura o nazista e, sob ameaça de denunciá-lo, o obriga a relembrar e descrever-lhe seus atos de violência durante o conflito. Em um misto de repugnância e fascinação, Bowden começa a sentir os efeitos da amizade com o velho quando a crueldade passa a se revelar em seu dia-a-dia. Consequentemente, o pacato Arthur Denker volta a sentir o prazer perverso de tirar vidas e torturar seres vivos.


Quando assumiu a cadeira de direção de "O aprendiz", o jovem cineasta Bryan Singer estava vindo do inesperado (e merecido) sucesso de "Os suspeitos", cultuado e elogiado pela crítica e pelo público. Contando com a aprovação do próprio Stephen King - que vendeu os direitos da história por apenas um dólar em sinal de confiança - Singer cercou-se de profissionais de sua confiança (o editor e músico John Ottman e o diretor de fotografia Newton Thomas Siegel entre eles) para construir um drama de suspense que abre mão de truques sujos que tanto infestam o gênero para abraçar um clima de tensão crescente e imprevisibilidade (até mesmo quem leu o texto do escritor pode se surpreender, uma vez que o final foi ligeiramente alterado pelo roteirista Brandon Boyce). Sem pressa, Singer vai inserindo os dados da trama aos poucos, dando tempo ao espectador de envolver-se delicadamente na doentia relação entre Todd e seu idoso vizinho.

Provando que seu talento não era fogo de palha, o cineasta demonstrou uma segurança invejável e um grande domínio sobre a arte da narrativa, apresentando um thriller sufocante, adulto e poderoso, sem espaço para gracinhas desnecessárias e julgamentos morais. Não há heróis em "O aprendiz" e, ao contrário do que se poderia esperar, eles não fazem a mínima falta. Tanto Arthur Denker com sua alma viciada em crueldade quanto Todd Bowden com seu fascínio pela maldade são personagens de grande complexidade, defendidos por atores de imenso talento. O veterano Ian McKellen (aos 57 anos vivendo um homem de 75) presenteou o público com uma atuação exemplar no mesmo ano em que concorreu ao Oscar por sua interpretação como cineasta gay James Whale em "Deuses e monstros". Com uma competência assustadora, ele mostrou todas as nuances de sua quase imperdoável personagem, manipulando com maestria os sentimentos da plateia. E o jovem Brad Renfro - elogiado por sua performance em "O cliente" e "Sleepers, a vingança adormecida" - confirmou que era uma das maiores promessas de sua geração (promessa essa que encerrou-se com sua morte prematura aos 25 anos, em 2008). Assumindo o difícil e complicado papel de um protagonista tão longe dos ideais comerciais, Renfro atuou como gente grande, não se deixando intimidar pelo gigantismo do talento de McKellen.

Mesmo sem ser um filme de terror, "O aprendiz" é um dos filmes mais arrepiantes do final da década de 90. Inteligente, claustrofóbico e perigosamente realista, é também um dos mais sensacionais trabalhos do grande Ian McKellen.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

FELICIDADE

FELICIDADE (Happiness, 1998, Good Machine, 134min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Alan Oxman. Música: Robbie Kondor. Figurino: Kathryn Nixon. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Nick Evans. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ted Hope, Christine Vachon. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Lara Flynn Boyle, Jane Adams, Dylan Baker, Ben Gazzarra, Cynthia Stevenson, Camryn Manheim, Jon Lovitz, Molly Shannon. Estreia: 16/10/98

Um ano antes que Sam Mendes conquistasse o Oscar pelo excepcional "Beleza americana", um cineasta americano independente e corajoso havia ousado retratar os podres da tradicional família ianque em uma comédia de humor negro que abismou a crítica e chocou sua (pequena) audiência. Ao se enfronhar por debaixo da aparente normalidade dos subúrbios e da instituição familiar em "Felicidade", Todd Solondz foi ainda mais longe do que Mendes e o roteiro premiado de Alan Ball, narrando sem nenhuma espécie de julgamento um grupo de personagens cuja "amoralidade" tem apenas um objetivo: a luta pela felicidade do título. Mais do que um inventário de desvios sexuais, o filme de Solondz é um poderoso estudo sobre a solidão humana.

Solondz utiliza a estrutura em voga no final dos anos 90 (narrar várias histórias aparentemente independentes que se entrecruzam) para analisar a maneira com que pessoas de diferentes estilos de vida lidam com a falta de sentido e amor em suas existências. De certa forma, se existe uma protagonista, ela é a frágil e sensível Joy (nome cuja tradução é "alegria", em uma das várias ironias do roteiro). Vivida com delicadeza quase patética por Jane Adams, Joy é uma música frustrada, solteira e infeliz que é o principal centro de preocupações de sua família. Tímida, ela tenta encontrar um sentido para sua vida começando a trabalhar como professora de inglês para estrangeiros e se apaixona por um aluno russo não exatamente honesto. Sua irmã do meio, Helen (Lara Flynn Boyle) é uma escritora bem-sucedida que reclama do fato de não ter problemas sérios o bastante para inspirá-la em seus novos livros e, sem saber, desperta o intenso desejo do vizinho Allen (Phillip Seymour Hoffman), que vive de passar trotes de enfoque sexual para mulheres desconhecidas e se envolve em uma amizade triste com Kristina (Camryn Manheim), que mora em seu prédio e tem um segredo a respeito da morte do porteiro. E seus pais, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Ben Gazzarra) estão passando por uma grave crise no casamento, o que acarreta um início de depressão em sua mãe, que não sabe como ter uma vida sem o marido e as filhas.


E a irmã mais velha de Joy é Trish (Cynthia Stevenson), bem-casada com o terapeuta Bill Maplewood (Dylan Baker) e mãe de uma família de comercial de margarina. No entanto, é na casa de Trish (em meio a uma decoração típica de classe média) que a trama de "Felicidade" enconde seu maior trunfo polêmico. Pai de família exemplar, Bill é um pedófilo que não hesita em violentar os amigos do filho mais velho, envolvendo a audiência em seu drama sem jamais parecer um tarado psicopata. É o trabalho excepcional de Baker, aliado ao roteiro cru mas nunca apelativo do diretor que afasta essa subtrama tão controversa de ser apenas mais uma tentativa de Hollywood em discutir o de maneira paternal ou permissiva. Logicamente Solondz não quer justificar as atitudes da personagem, mas tampouco o crucifica ou o trata de forma maniqueísta. Perigosamente, inclusive, a audiência chega a simpatizar com ele (mas sem, porém, torcer para que seus intentos sejam atingidos).

"Felicidade" é, também, um retrato delicado sobre as relações interpessoais tão frias e distantes em uma época tão afoita a tecnologias e tão indiferente aos problemas da casa ao lado. Suas personagens são tão bem construídas e soam tão verdadeiras que é difícil não simpatizar e/ou torcer pela resolução de seus problemas (com a possível exceção de Helen, cujos dramas não parecem tão interessantes em comparação com os demais). Jane Adams está perfeita como Joy, transmitindo com exatidão todas as nuances de sua personagem, assim como o fazem Philip Seymour Hoffman e Camryn Manheim, donos de uma das cenas mais tocantes do filme, quando dançam em um bar de quinta categoria e depois dormem ao lado um do outro sem nenhuma intenção sexual. Retrato mais acurado da solidão no fim do milênio é impossível.

Longe de tentar ser um filme edificante ou comovente - nem muito menos uma comédia rasgada ou histérica - "Felicidade" é um dos mais consistentes dramas humanos dos anos 90. Pode ser desagradável e chocante em alguns momentos, mas jamais apela para o mau-gosto (sua direção de arte propositalmente plástica é outro destaque) para atingir sua audiência. É um programa obrigatório para todos aqueles que se encantam com dramas psicológicos que desmascaram as alegrias de aparência. E ainda acaba com Michael Stipe (da banda REM) entoando a inédita canção "Happiness".... Excelente!

terça-feira, 7 de junho de 2011

ELIZABETH

ELIZABETH (Elizabeth, the Virgin Queen, 1998, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Productions, 124min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasian. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: John Myhre/Peter Howitt. Produção: Tim Beavan, Eric Fellner, Alison Owen. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Joseph Fiennes, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassell, Daniel Craig, Kelly MacDonald, Emily Mortimer, Eric Cantona, Kathy Burke. Estreia: 13/10/98

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Cate Blanchett), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett)

É impressionante a capacidade que Hollywood tem de surpreender os fãs de cinema e apresentar astros e estrelas (ou ainda melhor, atores e atrizes de verdade) que surgem aparentemente do nada e se revelam a partir de então indispensáveis. Em 1999 isso aconteceu com uma irlandesa de nome Cate Blanchett. Protagonista de filmes pouco vistos pelo grande público - como "Oscar & Lucinda", com Ralph Fiennes - ela assombrou as plateias com sua impecável atuação em "Elizabeth", dirigido pelo indiano Shekhar Kapur. Na pele de uma das mais conhecidas monarcas do mundo, ela arrebatou um Golden Globe de melhor atriz dramática e deve estar até hoje se perguntando como é que foi perder o Oscar para Gwyneth Paltrow em "Shakespeare apaixonado". Dona de uma beleza não particularmente óbvia, Blanchett é o corpo e a alma do trabalho de Kapur, que, com um roteiro ágil de Michael Hirst, injeta adrenalina e sensualidade em um gênero que sofre grande preconceito da plateia mais jovem: os filmes de época.

Em 1558, a Inglaterra está em um período de grave crise econômica e religiosa, com a divisão violenta entre católicos e protestante. Quando a rainha Mary (Kathy Burke), católica, morre, ela deixa o trono nas mãos de sua irmã bastarda, Elizabeth (Cate Blanchett), filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Protestante e portanto considerada herege, a jovem monarca passa a sofrer pressões para casar-se e ter filhos, para afirmar-se como líder de país em vias de entrar em conflito armado. Contando com o apoio do misterioso Sir Francis Walsingham (Geoffrey Rush) e a inimizade declarada do cruel Duque de Norfolk (Christopher Eccleston), ela desdenha da ideia de tornar-se esposa de qualquer homem que não seja aquele por quem é apaixonada, Robert Dudley (Joseph Fiennes).


O roteiro de Hirst acerta em concentrar seu foco nas intrigas palacianas mais do que nos problemas políticos da Inglaterra do período, o que poderia tornar tudo muito enfadonho para quem não tem domínio do assunto. Enquanto Norfolk trama sangrentas campanhas para destituir Elizabeth do trono, ela se deixa fragilizar pelo amor que sente por Dudley, um amor que será fundamental para que ela consiga perceber a importância da lealdade e da fidelidade. A transformação de Elizabeth - de jovem quase ingênua a uma das mulheres mais poderosas do mundo - é o grande trunfo do filme, e essa transição é interpretada com uma segurança ímpar por Blanchett, que lidera um elenco espetacular com desenvoltura e paixão. Ao lado de um discreto Geoffrey Rush (cuja personagem se mantém interessantemente dúbia por boa parte da projeção), de um sedutor Joseph Fiennes e de um assustador Christopher Eccleston, ela comanda um show de história e boa dramaturgia.

A caprichada reconstituição de época de "Elizabeth" é outro destaque do filme. O figurino impecável de Alexandra Byrne e a direção de arte de John Myhre (ambos indicados ao Oscar) não chamam a atenção para si mesmos, o que sempre é bastante elogiável, uma vez que filmes de época em muitas ocasiões dão mais atenção ao visual do que à trama. O castelo da rainha, os calabouços e todos os demais cenários são brilhantes exatamente porque parecem reais e não apenas construções artificiais. E a força da música original de David Hirschfelder dá o tom perfeito para a força da história desde as cenas iniciais que mostram os efeitos da Inquisição até seu desenlace, quando acontece definitivamente o nascimento da Rainha Elizabeth que liderou a Inglaterra até seu áureo período, chamado de "A era de ouro" - e que deu origem a uma sequência, realizada em 2007 sem a mesma qualidade do primeiro capítulo.

"Elizabeth" é um filme adulto, que trata a plateia com respeito e inteligência, sem romancear excessivamente o lado romântico da história e, ao mesmo tempo, buscando a aprovação de um público mais exigente. E é também um dos mais interessantes retratos de uma época fascinante em termos históricos e sociais. Contando ainda com uma avassaladora atuação da grandiosa Cate Blanchett, é programa obrigatório para os fãs do bom cinema histórico.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

AMOR ALÉM DA VIDA

AMOR ALÉM DA VIDA (What dreams may come, 1998, Polygram Filmed Entertainment, 113min) Direção: Vincent Ward. Roteiro: Ron Bass, romance de Richard Matheson. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: David Brenner, Maysie Hay. Música: Michael Kamen. Figurino: Yvonne Blake. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Cindy Carr, Josh Fifarek. Produção executiva: Ted Field, Erica Huggins, Scott Kroopf. Produção: Barnet Bain, Stephen Simon. Elenco: Robin Williams, Annabella Sciorra, Cuba Gooding Jr., Max Von Sydow. Estreia: 28/9/98

2 indicações ao Oscar: Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais

 Normalmente, quando um filme leva o Oscar de efeitos visuais logo se imagina que seja uma obra de ação recheada de explosões, alienígenas ou monstros assustadores. No entanto, felizmente os recursos com que o cinema brinda seus espectadores também podem servir a histórias com alto teor humano. É o que acontece com "Amor além da vida", belíssima história de amor, com toques espirituais dirigida com extrema sensibilidade pelo neozelandês Vincent Ward. Baseado em um romance de Richard Matheson - mesmo autor de "Em algum lugar do passado" - o filme é uma viagem pictória e emocional valorizado pela atuação delicada de Robin Williams, pelo visual arrebatador e pelo teor espiritualista capaz de emocionar qualquer espectador.

Williams, contido e carismático, vive o médico Chris Nelson, que vive uma felicidade de cartão postal com a esposa Annie (Annabella Sciorra), uma dedicada marchand. A harmonia da família é brutalmente interrompida quando eles perdem o casal de filhos pequenos em um acidente de carro. Depois de anos tentando fazer com que a esposa pare de se culpar pelo acidente, ele mesmo acaba se tornando vítima de um desastre automobilístico. Assim que chega no paraíso, que ele descobre ser particular (ou seja, criado por sua própria mente), ele reconhece um antigo mentor na pele de um jovem negro (Cuba Gooding Jr.), que lhe serve como cicerone. Enquanto encanta-se com a vida após a morte apresentada a ele, Chris fica sabendo de uma tragédia: não conseguindo sobreviver à falta que sente da família, Annie cometeu suicídio e, como consequência, não pode sair do inferno. Contando com a ajuda de um velho bibliotecário (Max Von Sydow), ele resolve buscar a mulher que ama, desafiando as regras estabelecidas. Em seu caminho à procura de Annie, novas e dramáticas revelações serão feitas e mais reencontros acontecerão.



O roteiro, escrito pelo mesmo Ronald Bass que levou o Oscar por "Rain Man" pode até ser descrita como piegas e um tanto exagerada. As tragédias que rondam a família Nelson soam um tanto forçadas, mas não há como negar que a maneira com que o roteirista desenvolve a odisséia do protagonista encontra um respaldo mais do que suficiente nos espetaculares efeitos criados para o filme. Poucas vezes se viu no cinema um visual tão deslumbrante e criativo (ainda que um pouco brega em determinados momentos). No filme de Ward, cada pessoa escolhe seu próprio paraíso, e Chris, ligado à arte e à pintura, tem um Éden majestoso, delicado e colorido. O destino de Annie, porém, bem mais trágico e pesado, dá lugar a um assustador inferno, que remete diretamente à "Divina Comédia", de Dante. O paraíso de sua filha, por sua vez, repete uma maquete que ela adorava quando criança, e assim por diante.

Tudo bem que o dramalhão corre solto em boa parte do filme, mas o esforço de Robin Williams em fugir de seu estereótipo de palhaço de plantão, os efeitos visuais inesquecíveis, o belíssimo desfecho e a atuação sensível de Annabella Sciorra (que ficou com um papel cobiçado por Annette Bening) compensam os escorregões e levam às lágrimas. Sem dúvida "Amor além da vida" é uma alternativa bem mais consistente ao xaroposo "Ghost, do outro lado da vida", que também trata do tema de vida após a morte mas sem o mesmo grau de sofisticação e inteligência.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

QUEM VAI FICAR COM MARY?


QUEM VAI FICAR COM MARY? (There's something about Mary, 1998, 20th Century Fox, 119min) Direção: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Roteiro: Peter Farrelly, Bob Farrelly, Ed Decter, John J. Strauss, história de Ed Decter, John J. Strauss. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Jonathan Richman. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Arlan Jay Vetter/Scott Jacobson. Produção executiva: Peter Farrelly, Bob Farrelly. Produção: Frank Beddor, Michael Steinberg, Bradley Thomas, Charles B. Wessler. Elenco: Cameron Diaz, Matt Dillon, Ben Stiller, Richard Jenkins. Estreia: 15/7/98

Às vezes, para se divertir no escurinho do cinema, é preciso abdicar de um senso crítico mais severo e de qualquer resquício de pudores. É o caso de "Quem vai ficar com Mary?", uma comédia tão despudorada e politicamente incorreta que chega a ser difícil de acreditar que tenha rendido mais de 170 milhões de verdinhas nos EUA, um país merecidamente famoso por seus hipócritas pruridos morais. Ao fazer piada com qualquer ser humano que não seja branco, anglo-saxão, protestante, heterossexual ou com uma saúde perfeita, o filme dos irmãos Farrelly não deixa pedra sobre pedra. E é um dos mais divertidos da década de 90.

O filme começa nos anos 80, quando o tímido estudante Ted (Ben Stiller) finalmente consegue realizar seu maior sonho: levar a bela Mary (Cameron Diaz) ao baile de formatura. Porém, depois de um constrangedor acidente no banheiro da casa da garota, ele perde notícias da beldade. Anos depois, ainda sofrendo de saudade e paixão recolhidas, ele tem a ideia de contratar um detetive particular para encontrá-la. O escolhido é o mau-caráter Healy (Matt Dillon), que também se apaixona pela moça, um doce de pessoa que não tem sorte no amor. Aos poucos, Ted tenta reconquistá-la, lutando contra o atrapalhado detetive e inúmeros outros fãs da jovem.

Na verdade, a pífia história de "Quem vai ficar com Mary?" serve apenas de pano de fundo para uma sucessão de piadas engraçadíssimas, que variam do sofisticado humor irônico ao mais deslavado pastelão. Ao apelar para praticamente todo tipo de piada, o roteiro dos irmãos Farrelly não deixa absolutamente nada escapar, com tiradas visuais hilárias e diálogos espirituosos e sem o menor temor em ofender as minorias - que, a julgar pelo enorme sucesso do filme, também lotaram as salas de cinema. No entanto, é preciso afirmar que, mesmo que tivesse um roteiro genial, o filme não teria sido tão bem-sucedido se não contasse com o ótimo elenco escolhido pelos cineastas.

 Enquanto Ben Stiller exercita seu humor já demonstrado em outras ocasiões, são Cameron Diaz e Matt Dillon (então um casal fora das telas) que surpreendem, exibindo um senso de humor insuspeitos. Dillon, brincando com sua imagem de galã, é quem mais se destaca, utilizando um charme canastrão que conquista o público logo em sua primeira cena. Suas cenas com o cãozinho de Mary são de chorar de rir, assim como seus diálogos absurdos. E que atire a primeira pedra quem nunca riu com a infame sequência do "gel de cabelo" de Mary, destinada a antológica desde sempre. Recomendado para curar qualquer mau-humor, "Quem vai ficar com Mary?" é o antídoto perfeito para a insuportável onda do politicamente correto que tomou conta do planeta nos anos 90.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

CARTAS NA MESA

CARTAS NA MESA (Rounders, 1998, Miramax Films, 121min) Direção: John Dahl. Roteiro: David Levien, Brian Koppelman. Fotografia: Jean-Yves Escoffier. Montagem: Scott Chestnut. Música: Christopher Young. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Rob Pearson/Beth Kushnick. Produção executiva: Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ted Demme, Joel Sttilerman. Elenco: Matt Damon, Edward Norton, Gretchen Mol, John Turturro, John Malkovich, Martin Landau, Famke Janssen. Estreia: 11/9/98

Em 1994, o cineasta americano John Dahl recebeu os maiores elogios de sua carreira graças a um filme cuja estreia na televisão o impediu de percorrer as cerimônias de premiação. "O poder da sedução", além de dar um impulso à carreira da atriz Linda Fiorentino (carreira essa que não correspondeu às expectativas), mostrou que Dahl tinha um grande potencial para conduzir tramas rocambolescas com estilo noir. Depois de assinar o suspense "Inesquecível" - estrelado pela mesma Linda Fiorentino e Ray Liotta - ele assumiu a direção de "Cartas na mesa", um drama de suspense passado no mundo do pôquer que teve a sorte suprema de contar com dois atores em franca ascensão: Matt Damon e Edward Norton. São os dois, em atuações inspiradas, que transformaram um filme de interesse limitado em um relativo sucesso.

Mike McDermott (vivido por um Matt Damon dando seguimento a  uma carreira consistente) é um jovem estudante de Direito que, após perder fortunas em mesas de pôquer, deixou o jogo de lado e leva uma vida regrada ao lado da namorada Jo (Gretchen Moll), que sabe de seu passado e o incentiva a manter-se na linha. Tudo corre bem em sua vida tranquila até que ele reencontra seu amigo Lester "Worm" Murphy (Edward Norton), que sai da cadeia já completamente endividado e enrascado com o assustador Teddy KGB (John Malkovich), integrante da máfia russa. Para ajudar o amigo, Mike volta às rodas de jogo, redescobrindo seu prazer e sua tensão.


Belamente fotografado por Jean-Yves Escoffier, "Cartas na mesa" sofre do mesmo problema de todos os filmes cujo tema é algo muito específico - a falta de interesse do resto do público - mas tem a seu favor o talento de Dahl e de sua dupla central de atores (além de um elenco coadjuvante que por pouco não rouba a cena). Mesmo que em vários momentos seja atrapalhado por sua lentidão, é um filme que foge das tradicionais reviravoltas do gênero, preferindo contar sua história aos poucos. Se ganha em consistência dramática, perde em ritmo. No entanto, apresenta atuações tão inteligentes que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Se Matt Damon segura muito bem seu papel principal, ele é amparado por um elenco notável. Martin Landau e John Turturro estão irretocáveis em suas participações, mas são as interpretações de Edward Norton e John Malkovich que fascinam a audiência. Aparentemente dono de um talento inesgotável, o jovem Norton cria um Lester Murphy que mescla a arrogância da juventude com o desespero de um ex-presidiário e Malkovich utiliza de detalhes cênicos para construir um vilão apavorante, ainda que bastante verossímil. Seu sotaque russo e seus olhares são o que há de mais marcante no filme, a despeito da qualidade de seus colegas de cena.

"Cartas na mesa" não é um filme genial (e mesmo que não seja crucial o conhecimento das regras de pôquer ele ocupa um lugar de muito destaque no roteiro), mas é entretenimento de qualidade, em especial devido a seu elenco bem dirigido e ao cuidado em não afastar o público para quem jogos de carta não significam absolutamente nada. Ainda que seja razoavelmente previsível em seu terço final, é um belo exemplo de como um cineasta eficiente e atores inspirados podem fazer toda a diferença.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

STUDIO 54

STUDIO 54 (54, 1998, Miramax Films, 100min) Direção e roteiro: Mark Cristopher. Fotografia: Alexander Gruszynski. Montagem: Lee Percy. Música: Marco Beltrami. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Karen Wiesel. Produção executiva: Don Carmody, Bobby Cohen, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Ira Deutchman, Richard N. Gladstein, Dolly Hall. Elenco: Ryan Phillipe, Salma Hayek, Mike Myers, Neve Campbell, Breckin Meyer, Mark Ruffalo, Heather Matarazzo, Sela Ward. Estreia: 20/8/98

Entre 1977 e o início dos anos 80, nenhum lugar era mais quente e badalado em Nova York do que o Studio 54. Criada por Steve Rubell, ex-dono de restaurantes, era a discoteca mais cobiçada por todo mundo que sonhava com glamour, fama e diversão sem fim. Frequentada pelos grandes nomes do entretenimento, das artes e do esporte, misturava a "realeza" americana com a plebe, formada por todos aqueles desconhecidos que tinham a sorte de ser belos e/ou interessantes e passar pelo crivo de Rubell, que ficava em pessoa na porta do local, escolhendo quem merecia dançar até o amanhecer. Um dos mais interessantes e lendários locais da era disco, o Studio 54 deu origem também a um filme que, perto do que poderia ter sido, decepcionou crítica e público. Mas será que o diabo é tão ruim como pintam?

Em termos dramáticos, não se pode dizer que "Studio 54" - o filme - seja bom. O roteiro do também diretor Mark Cristopher é superficial ao extremo, não dando espaço para que suas personagens se desenvolvam a contento. Tudo é muito maniqueísta e quase tosco no desenho dos protagonistas, e suas atitudes nunca soam como verdadeiras e sim como estratégias dramáticas para que a história vá pra frente. Não dá para acreditar, por exemplo, no romance entre Shane (Ryan Philippe, bonito mas péssimo ator) e a atriz Julie Black (a sempre artificial Neve Campbell) nem tampouco na amizade entre ele e o casal Anita (Salma Hayek, linda mas limitada a uma personagem quase caricata) e Greg (Breckin Meyer, que faz o possível com o que tem em mãos). Apenas o Steve Rubell de Mike Myers convence, provando que o humorista é bem melhor ator dramático do que suspeitavam os fãs de "Austin Powers", sua criação mais conhecida.

Mas, se não dá pra acreditar muito na trama proposta por Cristopher, ao menos dá pra se divertir com o clima com que o diretor envolve seu projeto. Tudo, desde a trilha sonora dançante e repleta de clássicos da disco até o figurino caprichado de Ellen Lutter, convida a plateia a uma viagem no tempo, até uma época em que a permissividade sexual e comportamental estava em seu auge. É difícil não se ter uma nostalgia de um período em que, sim, a AIDS começava a pairar sobre a sociedade e as drogas iniciavam seu avassalador domínio sobre qualquer desavisado, mas que, ao mesmo tempo, concedia à população momentos de extrema alegria e diversão (ainda que depois tenha cobrado seu preço). O diretor é feliz em conseguir transmitir o clima de eterna festa da época (em especial quando recria as noitadas regadas a álcool e tóxicos da boate) na mesma medida em que falha em construir uma história mais consistente.


Mas, afinal, qual é a história de "Studio 54"? O protagonista é Shane O'Shea, um jovem morador de Nova Jersey que tem o sonho de tornar-se "alguém" em Nova York, assim como sua conterrânea, a atriz Julie Black (que, apesar de aparentar sucesso, também tenta se dar bem na carreira, nem que tenha que dormir com quem passar pelo seu caminho). Em seu caminho para o topo, ele chega até a famosa boate e, protegido pelo proprietário Steve Rubell e dono de um belo corpo e um belo rosto, torna-se conhecido dentro das altas rodas sociais e artísticas da cidade. Ambicioso, ele acaba entrando em rota de colisão com seus melhores amigos, o bartender Greg e sua mulher Anita (que sonha em ser uma cantora disco) e descobre, quase tarde demais, que existem coisas mais importantes do que fama e prestígio.

Sim, "Studio 54" também tem uma lição de moral, o que dá um certo gostinho de desmancha-prazeres. Cristopher não tem a coragem necessária de ir fundo em alguns temas que poderiam ter transformado o filme em uma experiência mais bem-sucedida (a sexualidade dúbia de Rubell, por exemplo, ou até mesmo a decadência moral e psicológica de seu protagonista). Também não explora a contento todo o sex-appeal de Ryan Philippe no auge de sua beleza ou o talento histriônico de Mike Myers - que mesmo assim, esquiva-se gloriosamente de todos os problemas do roteiro.

Em resumo, "Studio 54" é um daqueles filmes ruins que conquistam mais pelo que pretendia ser do que pelo que realmente é. Sem maiores expectativas dá pra assistir inúmeras vezes (principalmente para quem é fã do período retratado). Mas não é tão bom quanto poderia.