quinta-feira, 28 de julho de 2011

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema, normalmente o adjetivo "épico" vem acompanhado de cenários grandiosos, fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloqunte e personagens heroicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos de ritmo alucinante. Por isso não deixa de ser um choque assistir-se à "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um "épico sobre pessoas comuns". Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares frequentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição e insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E as personagens podem ser consideradas quaisquer coisas, menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em "Magnólia" corresponde ao conceito de "filme épico". E talvez justamente por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

quarta-feira, 27 de julho de 2011

ANNA E O REI

ANNA E O REI (Anna and the king, 1999, Fox 2000 Pictures, 148min) Direção: Andy Tennant. Roteiro: Steve Meerson, Peter Krikes, diários de Anna Leonowens. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Roger Bondelli. Música: George Fenton, Robert Kraft. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Terence Chang. Produção: Lawrence Bender, Ed Elbert. Elenco: Jodie Foster, Chow Yun-Fat, Ling Bai, Tom Felton. Elenco: 15/12/99

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Essa história já foi contada antes pelo cinema - e deu o Oscar de melhor ator a Yull Brinner. No entanto, com a proximidade da virada do milênio, a fantasia dos musicais parecia não mais caber e Hollywood achou por bem optar por um viés mais político na refilmagem de "O rei e eu". Talvez por isso, quando se assiste a "Anna e o rei" pouca coisa faz lembrar a colorida extravagância estrelada por Deborah Kerr em 1956. Não que o filme de Andy Tennant seja político no sentido chato do termo, longe disso, mas o roteiro, baseado nos diários da protagonista, não tem medo de utilizar os conflitos sociais do país onde se passa a ação e, se para isso se faz necessário que o romance seja deixado de lado em alguns momentos, não há a menor hesitação. E isso conta muitos pontos no resultado final.

Recentemente viúva de um oficial britânico, a jovem Anna Leonowens (Jodie Foster), que morava na Índia,  aceita a proposta de ser professora dos filhos de Mongkut (Chow Yun-Fat), o rei do Sião, que está interessado em educar sua vasta prole (de cerca de 60 crianças) de acordo com as regras do mundo ocidental. De mala, cuia e filho pequeno à tiracolo, ela chega ao país onde a aguarda o monarca e dá de cara com uma cultura não apenas diferente da qual está acostumada, mas extremamente machista e, a seu ver, retrógrada. Utilizando seus poderes de educadora, ela passa a tentar modificar, ainda que lentamente, o quadro social do país, encantando o rei a ponto de envolvê-lo em um nível maior do que o apenas profissional.



"Anna e o rei" tem inúmeros méritos que fazem dele um belo programa. A reconstituição de época é primorosa (a direção de arte chegou a ser indicada ao Oscar), a fotografia é deslumbrante (em tons agressivos de vermelho que combinam com a profusão de pores-do-sol), a trilha sonora de George Fenton é marcante e o roteiro - apesar de estender-se desnecessariamente em especial em seu terço final - foge dos clichês com maestria, além de incluir elementos sócio-políticos muito bem-vindos. Mas é a dupla central de atores que merece boa parte dos créditos pelo sucesso da empreitada.

Chow Yun-Fat deixa para trás seus truculentos trabalhos com John Woo e cria um rei ao mesmo tempo rígido e sensível (é exemplar a cena em que sofre uma irreparável perda familiar) e Jodie Foster mostra mais uma vez porque é uma das melhores atrizes de sua geração. Inteligente, ela sempre busca a solução menos fácil em suas cenas, o que dá ao ato de assistir ao filme uma sensação de prazer absoluto. Os embates entre Foster e Yun-Fat são o que há de melhor na obra de Tennant, um diretor cujo mais conhecido título até então era o singelo "Para sempre Cinderela", com Drew Barrymore. Juntos em cena, os dois atores deliciam a plateia com um jogo de cena maduro e sensível - e mais ainda, extremamente crível.

Para quem reclama que os romances cinematográficos são cada vez mais rasos e ligeiros não deixa de ser refrescante saber que Hollywood ainda sabe criar grandes espetáculos com conteúdo. E, ao final da sessão de "Anna e o rei" poucos se lembrarão da versão musicada de Walter Lang. E uma simples valsa substituirá tranquilamente uma agitada polca...

terça-feira, 26 de julho de 2011

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).




Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O TALENTOSO RIPLEY

O TALENTOSO RIPLEY (The talented Mr. Ripley, 1999, Miramax Films/Paramount Pictures, 139min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Patricia Highsmith. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Bruno Cesari. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: William Horberg, Tom Sternberg. Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall, James Rebhorn, Jack Davenport, Celia Weston. Estreia: 25/12/99

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Jude Law), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das características dos filmes noir, que fizeram a glória do cinema de suspense dos anos 30 e 40 era a fotografia envolta em brumas, sombras e uma escuridão construída milimetricamente para criar o efeito pretendido. Com o clima montado a história, repleta de reviravoltas e personagens amorais era contada quase como um apêndice ao visual - e em alguns casos a trama era o que menos importava. Subvertendo as regras tanto visuais quanto temáticas do gênero, o diretor Anthony Minghella faz de “O talentoso Ripley” um noir às avessas, com a luz do sol brilhando majestosa em grande parte de sua metragem e uma trama consistente e intrigante cujo desenvolvimento prende o espectador do início ao fim.

Adaptado do livro de Patrícia Highsmith que já havia gerado o clássico francês “O sol por testemunha”, estrelado por Alain Delon, o roteiro de Minghella, em seu primeiro projeto após o multi-oscarizado “O paciente inglês” criou uma personagem inexistente no romance, a milionária Meredith Logue (interpretada com brilhantismo por Cate Blanchett) mas manteve o suspense da história intacto. O protagonista, Tom Ripley (Matt Damon, talvez uma escolha equivocada para o papel central, mas que se sai relativamente bem) é um pobre-coitado que vive de vários empregos e cujo maior talento, como ele mesmo diz, é falsificar documentos, imitar vozes e dar golpes. Confundido com um ex-aluno de Harvard, ele é enviado pelo milionário Greenleaf (James Rehborn) a uma pequena cidade da Itália com o objetivo de convencer seu filho único a voltar para a América. Chegando na Europa, Ripley se apaixona não só pela boa vida dos milionários como também pelo próprio Dickie Greenleaf (Jude Law), um bom-vivant mimado e mulherengo que engana a namorada Marge (Gwyneth Paltrow) descaradamente. Os dois tornam-se amigos, mas a personalidade extrovertida de Dickie e os segredos de Tom acabam por separando-os. Após uma tragédia que vitima Dickie, Tom Ripley assume sua identidade e passa a levar a vida que sempre sonhou. No entanto, o pai de Dickie manda um detetive à procura do filho, que está sendo acusado de um assassinato cometido pelo próprio Ripley.



A trama intrincada montada por Highsmith em seu romance encontra eco no roteiro inteligente de Minghella, que tranqüilamente consegue escapar do previsível, entregando a seu público um produto superior a seu filme mais famoso e premiado. A fotografia ensolarada de John Seale contrasta com a escuridão da vida de Ripley, cuja alma fragmentada não consegue encontrar uma luz. A trilha sonora, que respira jazz de categoria e a reconstituição de época competente completam um dos filmes mais elegantes do ano, que além de tudo revela o talento de Jude Law, com meros 28 anos e roubando descaradamente as cenas em que aparece.

Na pele de Dickie Greenleaf, o britânico Law consegue eclipsar todos à sua volta, com uma atuação sedutora que envolve não apenas as personagens do filme mas também a audiência. Sua presença luminosa é tão forte que quando ele sai de cena, depois da primeira hora de projeção, a impressão que se tem é que o filme perde sua energia. Felizmente o roteiro rocambolesco de Minghella e o elenco não permitem que "O talentoso Ripley" caia na vala comum dos filmes de suspense que privilegiam o sangue em detrimento da inteligência. Além do mais, é um raro caso de adaptação cinematográfica que não ofende os fãs do livro e nem tampouco decepcionam àqueles que buscam um filme realizado com talento e classe.

Os fãs de "O sol por testemunha" estrilaram, mas "O talentoso Ripley" é um filmaço, feito por quem entende do riscado. Infelizmente não foi tão bem recebido quanto "O paciente inglês" - preconceito ao gênero ou à coragem de Minghella em não ocultar o teor homoerótico da história?? - mas merecia melhor sorte no Oscar (ao menos Jude Law poderia tranquilamente ter levado sua estatueta...)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

REGRAS DA VIDA

REGRAS DA VIDA (The cider house rules, 1999, Miramax Films, 126min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: John Irving, romance de sua autoria. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Rachel Portman. Figurino: Renée Ehrilch Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Beth Rubino. Produção executiva: Bobby Cohen, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Tobey Maguire, Michael Caine, Charlize Theron, Paul Rudd, Delroy Lindo, Erikah Badu, Kate Nelligan, Kathy Baker, Jane Alexander, Kieran Culkin. Estreia: 21/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lasse Halstrom),  Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Roteiro Adaptado

Só Deus sabe porque Michael Caine aceita fazer boa parte dos filmes dos quais participa. Entre dezenas de obras senão execráveis ao menos descartáveis, o ator inglês acerta majestosamente vez ou outra. Quando isso acontece, ele faz coisas como "Hannah e suas irmãs", que lhe rendeu um Oscar de coadjuvante em 1986 e este "Regras da vida", que lhe rendeu uma segunda estatueta na mesma categoria, 13 anos depois.

Dessa vez, ao contrário da primeira, ele não vive um homem de meia-idade canalha e apaixonado pela cunhada mais nova. Agora ele vive Wilbur Larch, um médico obstetra que, em uma cidade pequena do Maine dos anos 40, comanda um orfanato e ajuda jovens a interromper gestações indesejadas, o que causa algumas discussões com seu braço-direito, o jovem Homer Wells (Tobey Maguire), um órfão que aprendeu o ofício de seu mentor mas que hesita tenazmente em seguir sua carreira. A desculpa que Homer precisava para sair do orfanato em busca de uma vida própria surge quando um belo casal pede ajuda ao dr. Larch. Encantado com a deslumbrante Candy (Charlize Theron) e empolgado com a ideia de trabalhar na colheita de maçãs da fazenda do soldado Willy (Paul Rudd), o rapaz abandona seu passado e inicia uma nova fase de sua existência. Tomando contato com outros trabalhadores - e testemunhando histórias bastante tristes, como a do veterado Sr. Rose (Delroy Lindo) e de sua filha (a cantora Erykha Badu estreando como atriz) - Wells acaba se envolvendo romanticamente com Candy, mas uma tragedia envolvendo o namorado da moça ameaça os separar.



O escritor John Irving adaptou seu próprio romance de maneira singular (e levou um merecido Oscar pelo feito). Repleto de uma delicadeza e de uma melancolia únicas, o filme, dirigido pelo sueco Lasse Halstrom, comove justamente por tratar de temas polêmicos - aborto, incesto - de maneira discreta, sem maiores arroubos de criatividade ou buscando a lágrima fácil. O elenco infantil rouba todas as cenas das quais participa (e depois de 40 minutos, quando o orfanato deixa de ser o centro da história dá uma saudade dos pequenos...) e demonstra uma naturalidade que muitos astros adultos dariam um braço para ter. Charlize Theron faz pouco mais do que desfilar sua beleza deslumbrante pela tela. Tobey Maguire segura bem seu primeiro protagonista antes de encarar a série "Homem-aranha", mas é Michael Caine quem emerge brilhante com sua feliz interpretação de um homem vitorioso sentimentalmente e cuja felicidade consiste em dar paz aos outros. É um trabalho sensacional que cobre "Regras da vida" de qualidade e emoção verdadeiras.

Belo e comovente, "Regras da vida" é o perfeito exemplo de um drama honesto e adulto que não precisa apelar para golpes baixos para conquistar o público.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

À ESPERA DE UM MILAGRE

À ESPERA DE UM MILAGRE (The green mile, 1999, Castle Rock Entertainment/Warner Bros., 189min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, romance de Stephen King. Fotografia: David Tattersall. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção: Frank Darabont, David Valdes. Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke-Duncan, David Morse, Barry Pepper, Sam Rockwell, James Cromwell, Bonnie Hunt, Patricia Clarkson, Gary Sinise, Graham Greene, Harry Dean Stanton, Michael Jeter, Doug Hutchinson. Estreia: 10/12/99

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Michael Clarke-Duncan), Roteiro Adaptado, Som

Em 1994, Frank Darabont encantou público e crítica com seu belo “Um sonho de liberdade”, que conquistou indicações ao Oscar de melhor filme, ator e roteiro adaptado e tornou-se, com o tempo, obra de referência quando o assunto é filmes passados em presídios. Em sua segunda incursão atrás das câmeras, o cineasta voltou a buscar na obra do escritor Stephen King a inspiração para seu trabalho. Dessa vez baseado em um romance e não mais em um conto – o que lhe deu ainda mais liberdade para exercitar seu próprio ritmo de contar histórias – Darabont entregou ao público o emocionante “À espera de um milagre”, que, apesar de utilizar o ambiente claustrofóbico de um corredor da morte como cenário para sua trama jamais se deixa resvalar para o monótono. Além disso, utiliza elementos sobrenaturais inexistentes em “Um sonho de liberdade”.  Para sorte do público, porém, ele os usa com parcimônia e inteligência raras. Resultado: uma renda superior a 180 milhões de dólares somente no mercado americano e quatro indicações ao Oscar, inclusive a Melhor Filme (curiosamente, como já havia acontecido com seu filme anterior, o diretor foi preterido em sua categoria...)

O filme começa em um lar de idosos, quando o ancião Paul Edgecomb cai em sentidas lágrimas ao assistir ao filme “O picolino”, estrelado por Fred Astaire. Questionado a respeito, ele resolve contar então a uma colega a trágica e emocionante história que testemunhou em 1935, quando, ainda relativamente jovem (e vivido por Tom Hanks) era o responsável principal pelo Corredor da Morte de seu condado. Justamente na época em que passava por uma séria infecção renal, Edgecomb travou conhecimento com John Coffey (Michael Clarke Duncan), um gigantesco negro com voz de trovão e aparência assustadora que foi condenado à morte pelo assassinato de duas meninas brancas. Coffey chega à Milha Verde – como é conhecido o corredor devido à cor de seu piso – e passa a fazer companhia a outros condenados que aguardam a execução, como o francês Delacroix (Michael Jeter), o descendente indígena Arlen (Graham Greene) e o barra-pesada Billy The Kid (Sam Rockwell), que tem o caráter tão repugnante quanto sua aparência física.

Coffey seria apenas mais um apenado se não fosse uma intrigante particularidade: ele tem o dom de fazer milagres e jura inocência do crime pelo qual foi condenado. Aos poucos, tanto Edgecomb quanto seus colegas Brutal (David Morse) e Dean (Barry Pepper) começam realmente a questionar sua culpa. Depois de testemunharem a cura da infecção de Paul e da grave doença da esposa de seu chefe – além da ressurreição de Mr. Jingles, o ratinho de estimação de um dos prisioneiros – eles passam a perguntar-se se teriam coragem de matar um milagre de Deus. Como o próprio Edgecomb declara, “o que eu vou dizer a Deus quando Ele me perguntar porque eu matei um milagre dEle? Que era meu trabalho?”



Mais uma vez Frank Darabont conta a história em seu próprio tempo e ritmo. Ele não tem pressa em apresentar suas personagens nem tem vergonha de gastar preciosos minutos mostrando sua relação com um ratinho (relação que se mostrará crucial à trama, diga-se de passagem). Novamente todos os diálogos do filme são importantíssimos, todos os detalhes são significativos e todas as personagens estão em cena por motivos bastante fortes. Existe maniqueísmo, sim, senão não seria uma obra de Stephen King (os vilões são poços de crueldade e os mocinhos são puros e inocentes, e o milagroso John Coffey, apesar do tamanho, tem até mesmo medo de escuro!!), mas essa clara divisão entre o bem e o mal é imprescindível ao roteiro. Os efeitos visuais e sonoros são discretos e não chamam mais a atenção do que o desenvolvimento das personagens e o andamento da história, o que sempre é um alívio. E os atores merecem um capítulo à parte.

Tom Hanks demonstra sua maturidade como ator, mantendo-se discreto e generoso em dar espaço a seus colegas de elenco, todos aliás, de se tirar o chapéu. Doug Hutchinson, que vive o cruel guarda Percy – e que trabalha no presídio graças à influência de sua família – é um dos vilões mais odiosos de todos os tempos: mesquinho, rancoroso e ambicioso, ele é capaz de qualquer coisa para satisfazer seus desejos (e acaba sendo o responsável pela execução mais angustiante da história do cinema). Hutchinson – saído de dois episódios da série “Arquivo X”, onde vivia um homem que se alimentava de fígado humano – sai-se muito bem em seu único trabalho realmente marcante nas telas. E tem ótima companhia. Sam Rockwell, na pele do insuportável Billy The Kid, também faz seu trabalho bem além da chamada obrigação profissional. Mas é, sem dúvida, Michael Clarke Duncan quem mais brilha. Ex-guarda-costas de gente como Bruce Willis, ele chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante por sua emocionante atuação como a aparentemente perigoso mas surpreendentemente afável John Coffey, responsável pelos momentos mais comoventes do longa.

E sim, “À espera de um milagre” é um filme bastante longo. São mais de três horas de duração com raros momentos de alívio em uma trama densa, potente e por vezes cruel - e sua introdução e epílogo poderiam ter sido tranqüilamente editados na versão final. Mas ao mesmo tempo, é uma ode à bondade, ao ser humano e a Deus. Pode levar às lágrimas, mas dificilmente pode ser considerado deprimente. E é um espetáculo difícil de esquecer. Mais uma vez Frank Darabont merece aplausos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

TUDO SOBRE MINHA MÃE



TUDO SOBRE MINHA MÃE (Todo sobre mi madre, 1999, El Deseo SA, 101min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beatto. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Bina Daigeler, José Maria de Cossio. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Federico Garcia Cambero. Produção executiva: Agustin Almodovar. Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penelope Cruz, Antonia San Juan, Candela Peña, Rosa Maria Sardá. Estreia: 16/4/99 

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Festival de Cannes - Melhor Diretor (Pedro Almodovar)


As atrizes hollywoodianas adoram reclamar – não sem certa razão - que é difícil encontrar bons e desafiadores papéis femininos. É de imaginar, portanto, seu choque quando assistiram a “Tudo sobre minha mãe”, filme que deu a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes ao espanhol Pedro Almodóvar. Em seu 13º longa-metragem, o cineasta atinge sua maturidade artística em um filme que apresenta ao público não apenas uma ou duas personagens femininas interessantes, mas simplesmente uma boa meia-dúzia delas (com espaço até mesmo para uma transexual). Deixando de lado os machistas protagonistas de seu filme anterior, o bem-sucedido “Carne trêmula”, Almodóvar criou personagens complexas, multidimensionais e fascinantes, donas dos próprios desejos e sofrimentos – e que carregam na pele e na alma as cicatrizes de suas vidas.

No centro dessa mulherada fascinante toda está Manuela (Cecília Roth em uma atuação madura e admirável), uma mulher assombrada pela trágica e precoce morte do filho adolescente, atropelado em plena noite de seu aniversário de 17 anos, quando tentava um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Devastada pela dor, Manuela parte para Barcelona com o objetivo de encontrar o pai do rapaz e dar-lhe a triste notícia. Chegando lá, reencontra-se com uma amiga dos tempos de juventude, a prostituta transexual Agrado (a excelente Antonia San Juan, sempre a ponto de roubar as cenas). Através de Agrado, Manuela conhece Irmã Rosa (Penélope Cruz), uma jovem religiosa que dá assistência social nas ruas da cidade e que, para surpresa de todas, se descobre grávida justamente do ex-marido de Manuela, um conquistador que assumiu o nome de Lola ao passar a travestir-se. Fugindo do jugo da mãe burguesa (Rosa Maria Sardí), Rosa vai morar com Manuela justamente quando esta aceita o emprego como assistente pessoal de Huma Rojo, que chega à cidade acompanhada da amante Nina (Candela Pena), uma atriz viciada em drogas com quem vive uma relação tempestuosa.



A rede de relações criada por Almodóvar, nunca forçada e sim absolutamente orgânica graças ao elenco inspirado, empurra seu filme em uma ciranda de crescimento pessoal de todas as mulheres, que descobrem na amizade e na cumplicidade uma forma de seguir suas vidas, por mais complicadas que sejam ou estejam. Apoiado em uma fotografia belíssima do brasileiro Affonso Beato, que nunca trai as origens quentes do cineasta mas foge da cafonice proposital de seus primeiros filmes, o roteito não tem medo de criar um mundo surreal, onde o conquistador machista é também um travesti e uma religiosa aparentemente virgem está grávida e morrendo de AIDS. A trilha sonora de Alfredo Iglesias colabora com o clima melancólico e ao mesmo tempo otimista do filme, que apela para as emoções mais nobres do ser humano sem em nenhum momento buscar a lágrima fácil ou momentos clichês. Pode-se medir a genialidade e inteligência de um cineasta por sua capacidade de contar histórias fora do comum e com personagens quase à margem da realidade e ainda assim fazer com que seu público não fique a todo momento lembrando que está assistindo a apenas uma obra de ficção. Em "Tudo sobre minha mãe", o espanhol comprova - mais uma vez - seu imenso talento em mergulhar a plateia em um universo extremamente particular.

Repleto de um humor no limiar entre o irônico e o vulgar e citações cinematográficas - o título do filme é uma brincadeira com o nome original do clássico "A malvada" (All about Eve), que é assistido por Manuela e seu filho nas primeiras cenas, além de, em determinado momento da narrativa, a própria Manuela substituir Nina no palco, exatamente como acontece na obra estrela por Bette Davis - e teatrais, o filme ainda é dedicado às atrizes que já interpretaram atrizes, às atrizes que já interpretaram mães e à própria mãe do diretor. Uma delicadeza a mais em uma obra impecável, merecidamente premiada com o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro de melhor diretor do Festival de Cannes 1999. Sem dúvida, o melhor trabalho de Pedro Almodóvar, um cineasta acostumado a ser fenomenal.

terça-feira, 19 de julho de 2011

FIM DE CASO


FIM DE CASO (The end of the affair, 1999, Columbia Pictures, 102min) Direção: Neil Jordan. Roteiro: Neil Jordan, romance de Graham Greene. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Tony Lawson. Música: Michael Nyman. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Anthony Pratt/John Bush, Joanne Woolard. Produção: Neil Jordan, Stephen Wooley. Elenco: Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, Ian Hart, Jason Isaacs. Estreia: 02/12/99

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julianne Moore), Fotografia



Publicado em 1951 e adaptado por Hollywood já em 1955 com Deborah Kerr e Van Johson, com o nome de "Pelo amor de meu amor", o romance "Fim de caso", do inglês Graham Greene é conciso (tem pouco mais de 230 páginas), mas dotado de uma grande força dramática. Quem percebeu isso foi o cineasta irlandês Neil Jordan, que em 1999 lançou sua própria versão cinematográfica da obra. Elogiadíssimo pela crítica e indicado a dois Oscar, o filme não foi bem-sucedido comercialmente, como normalmente acontece com bons filmes direcionados ao público maduro - nem chegou a cobrir, no mercado americano, seu orçamento de 23 milhões de dólares - mas é um espetáculo imperdível. Adaptado pelo próprio Jordan, o filme não é apenas uma pungente e arrasadora história de amor. É também um estudo sobre o ciúme, a fidelidade, a fé e, pode-se dizer sem medo, Deus. Realizado com sensibilidade e inteligência, "Fim de caso" é o tipo de obra que qualquer cineasta de bom gosto adoraria assinar.

A trama começa no final dos anos 40, quando o escritor Maurice Bendrix (Ralph Fiennes em atuação mais do que inspirada) reencontra um amigo, o político Henry Miles (Stephen Rea), em uma noite de chuva torrencial. Miles está plenamente convencido de que sua esposa, a bela Sarah (Julianne Moore, indescritível), o está traindo, e Bendrix, solícito, se oferece para contratar um detetive para seguí-la. Na verdade, o escritor tem seus próprios motivos para o interesse: descobrir o motivo que levou Sarah a abandonar, sem nenhuma razão aparente, o romance secreto que eles mantinham durante a guerra. Quando põe os olhos no diário da mulher que ainda ama desesperadamente, Bendrix descobre que o fim do caso entre eles tem uma razão aparentemente banal, mas extremamente forte em seu íntimo.



Elegante sem ser chato, romântico sem ser piegas, quente sem ser pornográfico e comovente ao extremo sem ser apelativo, “Fim de caso” é um filme feito para quem gosta de uma boa história, contada com categoria e talento. Tudo funciona às mil maravilhas no conjunto. A primorosa fotografia de Roger Pratt, a belíssima música de Michael Nyman, a reconstituição de época impecável e a montagem inteligente de Tony Lawson tecem um quadro tão coeso e admirável que não deixa de ser empolgante e até mesmo chocante. São vários detalhes deixados cuidadosamente por Jordan em cada cena que, em seu final, fazem um sentido avassalador. A bela sequência em que Bendrix finalmente descobre o porquê de ter sido abandonado, por exemplo, é de uma simplicidade tocante, com um diálogo belo porque simples e recitado por um casal de atores em seus melhores dias. Não à toa Julianne Moore foi indicada ao Oscar por sua magnífica performance. Quando o filme assume seu ponto de vista, na segunda metade, a audiência experimenta um dos mais dolorosos romances da década de 90.

A adaptação de Jordan não chega a ser extremamente fiel ao livro de Greene – e algumas diferenças até podem incomodar os fãs da obra literária, ainda que a versão cinematográfica suscite algumas discussões muito interessante sobre fé – mas é impossível ficar indiferente à química explosiva entre Ralph Fiennes e Julianne Moore, em atuações antológicas. O único problema de “Fim de caso” é que raramente produções tão boas chegam às telas e fica difícil assistir aos romances pasteurizados que desfilam pelas telas sem fazer comparações com sua força.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O INFORMANTE

O INFORMANTE (The insider, 1999, Spyglass Entertainment/Touchstone Pictures, 157min) Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann, Eric Roth, artigo "The man who knew too much", de Marie Brenner. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: William Goldenberg, David Rosenbloom, Paul Rubell. Música: Pieter Bourke, Lisa Gerrard. Figurino: Anna Sheppard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Marjorie McShirley. Produção: Pieter Jan Brugge, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Rip Torn. Estreia: 28/10/99

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Mann), Ator (Russell Crowe), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Som

Sem medo de soar machista, pode-se dizer tranqüilamente que Michael Mann é um diretor de filmes de homem. Obras como “O último dos moicanos” (a versão anabolizada com Daniel Day-Lewis) e “Fogo contra fogo” (o primeiro encontro em cena dos monstros Al Pacino e Robert DeNiro) são pistas que levam sem medo à esta afirmação. “O informante” confirma a teoria. Baseado em um fato real, contado em um artigo da revista Vanity Fair, o filme tem uma força masculina que independe de músculos. Estrelado por Al Pacino e Russell Crowe - ambos em um grande momento - o filme de Mann é uma crítica feroz à mídia e a indústria tabagista e sua contundência arrancou elogios unânimes, a ponto de chegar à corrida do Oscar em sete categorias - incluindo as importantíssimas Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Adaptado.

"O informante" começa quando Jeffrey Wingand (Crowe, em uma atuação nervosa que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar), executivo de primeiro escalão de uma indústria de cigarros é demitido e obrigado a assinar um contrato que o proíbe de revelar segredos da empresa. Por mero acaso ele é procurado por Lowell (Pacino, brilhando em cada cena em uma interpretação menos exagerada do que de costume), o produtor do popular programa de TV 60 Minutes, para ser o consultor de um outro programa. Com o seu faro de repórter, Lowell logo descobre que Wingand tem muito a falar e o convence a dar um entrevista exclusiva. A entrevista, que faz sérias revelações sobre mentiras contadas pela indústria do tabaco, acaba sendo gravada, mas impedida de ir ao ar pela alta cúpula da emissora do programa. Enquanto isso, a vida de Wingand se deteriora progressivamente: seu casamento entra em crise e ele passa a ser ameaçado de morte.



Narrando sua história em tom quase documental, para o qual colaboram a sóbria fotografia do veterano Dante Spinotti e a ágil edição de William Goldenberg e Paul Rubell, Mann utiliza sua experiência de forma a nunca julgar os atos nem as personalidades de suas personagens, ambas em seus limites, sejam eles pessoais ou profissionais. Sem a pressa que poderia atabalhoar o desenvolvimento a contento da trama, seu roteiro (escrito a quatro mãos com o oscarizado Eric Roth) é forte e contundente, sem nunca escorregar na denúncia vazia ou no sentimentalismo barato, ainda que essa opção em diminuir o ritmo deixe o filme um tanto quanto arrastado em alguns momentos. Pode-se até dizer que "O informante" é um filme dois em um primeiro conta a história de Lowell em busca de um furo e depois mostra os dramas na vida de Wingand. Felizmente ambos são da mais alta qualidade.

Afinal de contas, é no show de seus atores que reside a força de “O informante”, Russell Crowe à frente. É quase impossível lembrar da truculência de Crowe em “Los Angeles, cidade proibida” quando se assiste à sua espetacular atuação como Jeffrey Wingand, um homem frágil e impotente diante da ruína de tudo que construiu em vida. Seu trabalho é tão consistente que consegue ofuscar um dos melhores desempenhos de Al Pacino, absolutamente generoso em dividir o palco com o colega neo-zelandês. Um grande drama jornalístico sobre ética e verdade!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

QUERO SER JOHN MALKOVICH


QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99

3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original


Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vem à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton - grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de apenas alguns minutos de "Quero ser John Malkovich", o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do então estreante Spike Jonze (egresso dos videoclipes e visto como ator em "Três reis") passa longe do trivial e, se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma das mais alvissareiras estreias do cinema americano de todos os tempos.

John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.


Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou previsível. Desde os diálogos surreais - o documentário sobre a criação do 7 1/2º andar beira a perfeição de um pesadelo - até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que se está diante de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.

"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias simples oferecem a cada lançamento. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

VIVENDO NO LIMITE

VIVENDO NO LIMITE (Bringing out the dead, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 121min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, romance de Joe Connelly. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/William F. Reynolds. Produção executiva: Bruce S. Pustin, Adam Schroeder. Produção: Barbara De Fina, Scott Rudin. Elenco: Nicolas Cage, John Goodman, Tom Sizemore, Patricia Arquette, Marc Anthony, Ving Rhames, Mary Beth Hurt. Estreia: 22/10/99

Se o subestimado “Cassino", filme anterior do diretor Martin Scorsese, tinha ecos de sua obra-prima “Os bons companheiros” tanto em forma quanto em violência, este “Vivendo no limite”, baseado no romance de Joe Connelly emula diretamente um clássico do cineasta, o inesquecível “Taxi driver”, em que o taxista vivido por Robert de Niro se aventurava pelas perigosas e ameaçadoras ruas de Nova York durante as madrugadas. Sintomaticamente ambos os filmes foram escritos por Paul Schrader, colaborador habitual de Scorsese e tratam da solidão em níveis quase doentios.

O solitário em “Vivendo no limite” não é mais um taxista traumatizado pela guerra do Vietnã e sim Frank Pierce (Nicolas Cage), um paramédico que sofre de insônia e tem visões de uma jovem prostituta que morreu em seus braços. Corroído por uma culpa sem sentido, ele começa a buscar a redenção quando conhece (Patrícia Arquette), a jovem filha de um homem em coma, salvo por ele. Em seu caminho atrás de sua sanidade mental, Pierce testemunha um lado obscuro da humanidade e chega a envolver-se em situações de perigo e violência.


Similaridades com “Taxi driver” pipocam a cada cena, assim como gritantes diferenças. A fotografia úmida de Robert Richardson, a montagem quase paranóica de Thelma Schoonmaker e a edição de som colaboram com o clima de pesadelo proposto por Scorsese, bem como a trilha sonora nervosa, que mistura REM, Bob Dylan e Rolling Stones sem medo de errar. Os coadjuvantes também não prejudicam o conjunto, especialmente Tom Sizemore, como um paramédico histérico e revoltado que faz esporádicas parcerias com o protagonista, cuja personalidade atormentada também remete ao Travis Bickle de DeNiro.
Mas é justamente na figura de seu protagonista que "Vivendo no limite" perde dezenas de pontos, especialmente em comparação com a icônica imagem criada por De Niro e o mesmo Scorsese em "Taxi driver". Com sua cara de cachorro perdido, em nenhum momento Nicolas Cage deixa que o público se compadeça ou simpatize com sua situação, o que nas mãos de um ator mais talentoso e menos limitado (como Edward Norton, que era a primeira opção para o papel) poderia render uma atuação brilhante, especialmente sob o comando de um diretor energético e criativo como Marty. Ao equivocar-se justamente em um ponto tão crucial (e escalar a fraca Patricia Arquette em um papel fundamental), o cineasta nova-iorquino perdeu a oportunidade de legar ao mundo uma nova obra-prima, entregando comente um filme forte e depressivo, ainda que otimista em seu final agridoce. É mais do que a maioria dos diretores consegue, mas dele sempre espera-se mais.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS

A HISTÓRIA DE NÓS DOIS (The story of us, 1999, Castle Rock Entertainment, 95min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Alan Zweibel, Jessie Nelson. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Edward Bell, Robert Leighton. Música: Eric Clapton, Marc Shaiman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Sarah Jackson Burt, Kathy Lucas. Produção executiva: Frank Capra III, Jeffrey Stott. Produção: Jessie Nelson, Rob Reiner, Alan Zweibel. Elenco: Bruce Willis, Michelle Pfeiffer, Tim Matheson, Rita Wilson, Rob Reiner, Julie Hagerty, Paul Reiser. Estreia: 15/10/99

Não seria exagerar demais afirmar que, se as personagens de Billy Cristal e Meg Ryan em "Harry & Sally, feitos um para o outro" tivessem se casado, envelhecido alguns anos e tido um casal de filhos seriam mais ou menos como o casal central de "A história de nós dois", dirigido pelo mesmo Rob Reiner. Apesar da falta incomensurável que os diálogos sólidos e bem-humorados da roteirista Nora Ephron faz, pode-se dizer que este filme é uma cria mais madura de sua comédia romântica mais famosa, ainda que, obviamente, não tenha nem metade do charme de seu irmão mais velho.

Bruce Willis (com a carreira devidamente revigorada depois do impressionante êxito de "O sexto sentido") e Michelle Pfeiffer (impressionantemente bela) vivem Ben e Kate Jordan, um casal passando por uma crise quase irremediável. Cansados das infindáveis discussões quase diárias e da falta de romantismo de seu casamento, eles aproveitam a viagem dos filhos para uma colônia de férias para por sua relação na balança e chegarem a uma decisão sobre seu futuro. Enquanto ficam separados - e ela inicia um flerte com um recém-divorciado - eles tentam também descobrir em que momento de suas vidas os motivos que os levaram a se apaixonar um pelo outro tornaram-se o centro de suas frustrações.



O problema do roteiro de "A história de nós dois" é que ele não é engraçado e sardônico e nem ao menos profundo e maduro. Superficial, ele não investiga a contento todos os reveses de uma relação familiar e nem tampouco cria situações verdadeiramente engraçadas - e aqui faz muita falta um elenco de coadjuvantes fortes, como havia, por exemplo, em "Harry & Sally" (a comparação é inevitável, ainda que se tente fugir dela). Os diálogos entre Kate e suas amigas (dentre as quais se inclui Rita Wilson, a sra. Tom Hanks) e as conversas francas entre Ben e seus comparsas não encantam como deveriam. Fica-se claramente perceptível que apesar da ideia central ser muito boa, o desenvolvimento ficou muito aquém do que se pretendia.

Ainda que seja bastante fácil simpatizar com um casal atraente e carismático como o formado por Willis e Pfeiffer (que tem boa química e bom timing cômico), o filme de Rob Reiner nunca decola totalmente e nem atinge plenamente seus objetivos. Apesar de alguns bons momentos, não faz rir como deveria e não comove nas cenas mais emotivas (ainda que Michelle se esforce bastante em fazer de sua personagem algo mais do que uma mulher controladora e chata). Ainda assim - e ainda que pareça mais longo do que realmente é - é impossível não se encantar com seu charme e suas boas intenções.

"A história de nós dois" é um filme perfeito para ser visto a dois, especialmente quando se está passando ou se passou por uma crise semelhante. A despeito de sua falta de criatividade e ousadia, tem um final quase redentos, com uma edição de momentos vividos pelo casal que emociona pela simplicidade e vitalidade. Se o resto do filme tivesse seguido a mesma linha provavelmente seria menos esquecível - e a bela trilha sonora com canções de Eric Clapton tivesse sido mais festejada. Mesmo com todos os seus pecadilhos, porém, é um bom programa para quem sente falta de filmes espertos, feitos para um público adulto, que prescindem de efeitos visuais elaboradíssimos.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

CLUBE DA LUTA

CLUBE DA LUTA (Fight club, 1999, Fox 2000 Pictures, 139min) Direção: David Fincher. Roteiro: Jim Uhls, romance de Chuck Palahniuk. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: James Haygood. Música: The Dust Brothers. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Jay R. Hart. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin, Art Linson. Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Jared Leto, Meat Loaf. Estreia: 15/10/99

Indicado ao Oscar de Efeitos Sonoros

Poucas vezes um filme consegue ser tão fiel à sua origem literária quanto “Clube da luta”, um petardo estilístico dirigido pelo genial David Fincher baseado no livro do ex-mecânico Chuck Palahniuk que deixou meio mundo de queixo caído com suas idéias radicais contra a propriedade, a sociedade e o governo e por essa mesma razão fracassou vergonhosamente nas bilheterias americanas, apesar do apelo do nome Brad Pitt nos cartazes. A vergonha, no caso, não é de Fincher, que forjou uma pequena obra-prima do inconformismo. A vergonha é do público, que mostrou-se medíocre a ponto de deixar passar um dos filmes mais inteligentes dos anos 90, tanto em conteúdo quanto em visual. O filme só não passou totalmente em branco porque acabou sendo acusado de incitar a violência – o que também foi dito de “Laranja mecânica”, no início dos anos 70, diga-se de passagem -, no que não foi ajudado com o fato de que várias pessoas foram assassinadas em um cinema que apresentava o filme. Coincidência ou não, a trágica notícia eclipsou as inúmeras qualidades da obra, de longe um dos melhores trabalhos tanto de Fincher quanto de Brad Pitt.

Na verdade a história é sobre um jovem executivo (vivido com a habitual competência por Edward Norton) que, em crises cada vez mais assustadoras de insônia encontra a solução frequentando sessões de ajuda para doentes (câncer, enfisema e afins). Na mesma época em que conhece outra fraude nas sessões a intrigante Marla Singer (dando um adeus vitorioso aos filmes de época pelos quais ficou conhecida) ele perde seu apartamento, repleto de objetos caros e vai morar com Tyler Durden (um Brad Pitt hilário, sexy e notadamente divertindo-se a cada cena), um misterioso vendedor de sabonetes caseiros que o ensina a não dar valor a coisas materiais. Sua amizade com Durden evolui a ponto de eles juntos criarem o “Clube da Luta”, onde um grupo de homens se reune para brigar entre si. No momento em que o clube toma proporções gigantescas, o rapaz começa a perceber que os planos de Tyler Durden não resumem-se à auto-destruição e podem levar a uma catástrofe econômica e social.



Nada é o que parece em “Clube da luta”. Não é apenas sobre um grupo de homens se espancando mutuamente – pelo menos não é somente sobre isso. Não é a respeito de um homem buscando sua própria identidade – isso é apenas o começo da história. E não fala do amor entre dois seres desajustados, ainda que seja o amor por Marla que balança as estruturas do protagonista. “Clube da luta” é um happening cinematográfico. É um ataque verbal, visual e estilístico contra o establishment – seja ele econômico, cultural ou social. O roteiro de Jim Ulhs, que traduz com precisão cirúrgica a prosa caótica de Palahniuk, não deixa pedra sobre pedra em seu discurso contra a mídia, o governo e Deus. A anarquia controlada de Fincher, que encontra estofo na fotografia de Jeff Cronenweth e na edição espirituosa e criativa de James Haygood, conta ainda com o trabalho mais inspirado da carreira de Brad Pitt, que constrói um Tyler Durden impecável em sua canalhice e falta de respeito com toda e qualquer instituição. Seus diálogos são tão cáusticos, cruéis e por isso mesmo realistas que fica difícil não acreditar neles.

Pode-se dizer, sim, que "Clube da luta" é um filme perigoso. É um filme que faz pensar, que questiona, que choca com sua violência verdadeira. Conectá-lo à crueldade humana é simplificá-lo de maneira burra. Mas um fato é inquestionável: quando as caixas de som começam a tocar Pixies, no final da exibição da história contada por Palanhiuk, Fincher & cia, o público não é o mesmo que era no início da sessão. Ele acaba de testemunhar o cinema em seu melhor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

MENINOS NÃO CHORAM


MENINOS NÃO CHORAM (Boys don't cry, 1999, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção: Kimberly Peirce. Roteiro: Kimberly Peirce, Andy Bienen. Fotografia: Jim Denault. Montagem: Tracy Granger, Lee Percy. Música: Nathan Larson. Figurino: Victoria Farrell. Direção de arte/cenários: MichaelShaw/Shawn Carroll. Produção executiva: Caroline Kaplan, Pamela Koffler, Jonathan Sehring, John Sloss. Produção: John Hart, Eva Kolodner, Jeffrey Sharp, Christine Vachon. Elenco: Hilary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III, Alicia Goranson, Jeanetta Arnette, Matt McGrath. Estreia: 22/10/99


2 indicações ao Oscar: Atriz (Hilary Swank), Atriz Coadjuvante (Chloe Sevigny)
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Hilary Swank)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Hilary Swank)


Às vezes histórias trágicas, brutais e inacreditáveis fazem com que as pessoas acordem de uma letargia, mesmo que seu despertar – oriundo de um baque – não tenha força de mudar coisa alguma. E às vezes essas mesmas histórias sangrentas e desesperançadas podem virar pérola em mãos de talento. É isso que acontece em “Meninos não choram”, uma história trágica, brutal e inacreditável... mas que infelizmente aconteceu de verdade.

A jovem Teena Brandon (vivida com uma visível determinação pela ótima Hilary Swank) sofre de transtornos sexuais. Incapaz de aceitar o fato de que é uma mulher, ela vive sob o pseudônimo de Brandon Teena, um rapaz tímido e sedutor constantemente envolvido em pequenas contravenções. Vivendo nesse seu universo paralelo ela chega a uma cidadezinha qualquer dos EUA e, depois de fazer amizade com uma dupla de ex-presidiários (os assustadores Peter Saarsgard e Brendon Sexton III) se apaixona perdidamente por Lana (Chloe Sevgny), uma jovem ambiciosa e perdida em seus sonhos de abandonar sua vida tediosa. O romance engrena mesmo com a mentira de Teena / Brandon entre as duas. No entanto, uma hora a verdade vem à tona e, sentindo-se enganados e traídos os violentos amigos de Lana partem para uma vingança cruel e estúpida.



“Meninos não choram” saiu do nada para a glória. Estréia da diretora Kimberly Peirce, feito com apenas 2 milhões de dólares e sem nenhum astro em seu elenco, o filme começou a chamar a atenção graças ao espetacular trabalho de Swank, que a despeito de sua participação em filmes constrangedores como “Karatê Kid IV”, mostrou que sabe como poucas agarrar com unhas e dentes uma chance promissora e de quebra levou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz – um prêmio merecido e devidamente louvado. Na pele de Teena Brandon, ela consegue despertar a simpatia até mesmo do público mais conservador e o leva com ela por seu calvário em busca da aceitação e da felicidade ao lado da mulher que ama, vivida com ar blasé por Chloe Sevigny, que faz o que pode com sua personagem igualmente complexa – uma mulher disposta a mentir para si mesma para fugir de uma vida infeliz.

Contra elas, Peter Saarsgard constrói seu Paul de maneira visceral, quase psicótica em seu amor obsessivo. Seu olhar de ódio e desprezo diz mais sobre a maldade intrínseca no ser humano do que milhares de páginas de discursos políticos. Somada à quantidades industriais de cerveja – que parece exalar da tela tamanha a veracidade da seca fotografia, sua raiva e inveja da felicidade alheias causam desgraças como a que vitimou a protagonista do filme, que sim, é trágica, brutal e inacreditável. Mas também um alerta contra a intolerância, tão chocante e cru quanto necessário.

Em um tempo onde a intolerância e a ignorância ainda insistem em se insinuar apesar dos avanços, "Meninos não choram" é um filme obrigatório. É impossível não se impactar com tamanha tragédia, mesmo que, como dito no início do texto essa indignação despertada nunca ultrapasse a janela de nossas casas. Mas só por sacudir e fazer pensar a obra de Pierce já é de vital importância para a discussão dos direitos humanos e para a luta pela igualdade. E ajuda bastante o fato de ser um filme de grande qualidade.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

TRÊS REIS

TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99

Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.

Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.



"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.

Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

BELEZA AMERICANA


BELEZA AMERICANA (American beauty, 1999, DreamWorks SKG, 122min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Alan Ball. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Tariq Anwar, Christopher Greenbury. Música: Thomas Newman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan K. Bergstrom. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Chris Cooper, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula. Estreia: 01/10/99

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Atriz (Annette Bening), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Sam Mendes), Roteiro


No final dos anos 90, desmascarar a aparente normalidade do “american way of life” estava sendo uma obsessão do cinema. Todd Solondz criou “Felicidade” e depois o inglês Sam Mendes deu a sua visão do distorcido núcleo familiar ianque em "Beleza americana", que logo que estreou caiu nas graças da crítica e surpreendentemente do público, que ficou extasiado com sua visão menos crua e mais lúdica, mas extremamente contundente e realista (ainda que revestida de uma plasticidade que a torna mais poética). Vencedor de cinco Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e fotografia), “Beleza americana” mereceu todo o auê com que foi recebido. Investiga, através do olhar irônico e até carinhoso do roteirista Alan Ball, a transformação de uma típica família suburbana, à primeira vista perfeita, mas que, como manda a campanha publicitária, vista de perto não é assim tão normal. Caetano Veloso assinaria embaixo.

Kevin Spacey, em uma atuação irretocável que lhe rendeu um segundo e merecido Oscar, vive Lester Durnham, um homem cuja vida é dar pena. Executivo de uma empresa que não lhe dá a menor possibilidade de um futuro auspicioso, com uma vida sexual letárgica cujo único momento de prazer é a masturbação matinal debaixo do chuveiro e tendo como ideia de diversão um festival de filmes de James Bond na televisão, Lester tem o vislumbre de uma vida mais completa e feliz quando conhece Angela Hayes (Mena Suvari), a amiga gostosona da filha adolescente, a complicada e quase desleixada Jane (Thora Birch). Com os hormônios a mil, Lester resolve dar um jeito na vida: deixa o emprego, passa a fazer exercícios físicos e, em um último lampejo de regresso à juventude, volta a fumar maconha. Quem não gosta nada dessa nova vida do marido é Caroline (Annette Bening), sua obcecada esposa. Corretora imobiliária, Caroline tenta manter seu casamento de aparências, sua família como um porta-retrato feliz e seu visual impecável e caprichado. Sofrendo com a falta de ambição do marido, ela inicia um romance extra-conjugal com seu rival profissional (Peter Gallagher) e nem percebe o romance da filha com o jovem vizinho Ricky (Wes Bentley), que faz bicos como garçom e nas horas vagas ganha dinheiro traficando drogas às escondidas de seu pai, um rígido militar aposentado (vivido por um extraordinário Chris Cooper).



Uma das maiores qualidades do roteiro de Ball (que o produtor Steven Spielberg mandou filmar sem mexer em uma linha) é o fato de que suas personagens são absolutamente humanos, reais e palpáveis - uma característica dos textos de Ball, criador da magnífica série "A sete palmos". Surpreendentes em suas atitudes, elas nunca fazem o que se espera delas, o que leva o público a surpresas constantes no desenrolar criativo da trama, que leva a um desfecho inesquecível e clássico de nascença - afinal, como não se emocionar com um filme que acaba com os quatro rapazes de Liverpool entoando a bela "Because"??

Oriundo dos palcos ingleses - onde dirigiu Nicole Kidman, por exemplo - Sam Mendes nitidamente tem um senso estético apuradíssimo, capaz de, com a ajuda do veterano diretor de fotografia Conrad Hall, dirigir cenas de visual belíssimo, além de contar com a trilha sonora marcante de Thomas Newman e com diálogos cortantes, bem-humorados e melancólicos. Os diálogos, aliás, são a alma do filme, recitados por um elenco sem um elo fraco sequer. Se apenas Spacey - capaz de transmutar-se em questão de segundos de quarentão excitado a pai zeloso sem dizer uma única palavra - levou o Oscar foi porque o ano realmente estava muito forte (e Deus nos proteja de pensar que a primeira opção para o papel era Chevy Chase (??!!)). Annette Bening está sensacional como a patética e sem esperança de salvação Caroline, o até então subaproveitado Chris Cooper tem uma atuação assustadora e antológica - quem duvida que espere a reveladora cena na garagem de Lester - e os adolescentes Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari dão aulas de como comportar-se à altura de seus experientes colegas de cena. Tudo isso, logicamente, envolto em uma acurada percepção da alma humana, com todos os seus deslizes e grandezas.

Irônico, perturbador e extremamente comovente, "Beleza americana" é um dos filmes obrigatórios do final do século XX e um dos essenciais da história do cinema.

terça-feira, 5 de julho de 2011

STIGMATA


STIGMATA (Stigmata, 1999, MGM Pictures, 103min) Direção: Rupert Wainwright. Roteiro: Tom Lazarus, Rick Ramage, história de Tom Lazarus. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael J. Duthie, Michael R. Miller. Música: Elia Cmiral, Billy Corgan. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman, Marco Niro. Produção: Frank Mancuso Jr. Elenco: Patricia Arquette, Gabriel Byrne, Jonathan Pryce, Nia Long, Thomas Kopache, Portia De Rossi. Estreia: 10/9/99

É impressionante como, no mesmo ano em que um filme como "O sexto sentido" consegue tirar o gênero "terror" do limbo das produções requentadas e previsíveis, algo "Stigmata" tenha chegado aos cinemas. Repleto dos mais insuportáveis clichês, o filme do inglês Rupert Wainwright até fez relativo sucesso de bilheteria, mas sua pretensa modernidade (que chamou a atenção da plateia jovem) apenas disfarça mal seus inúmeros defeitos, que começam com a atuação pífia de sua protagonista Patricia Arquette.

Irmã caçula de Rosanna Arquette, Patricia estava em vias de se casar com Nicolas Cage (seu parceiro de cena em "Vivendo no limite") quando estrelou este terror que bebe na fonte de obras memoráveis como "O exorcista", mas que jamais atinge metade de suas pretensões. Fraca como atriz e não particularmente bela, Patricia vive Frankie Paige, uma cabeleireira "descolada" (leia-se com vestuário alternativo, anéis excêntricos e visual pseudo-moderno) que, de uma hora pra outra passa a sofrer violentos ataques que os médicos julgam tratar-se de epilepsia. Ferida fisicamente (o que os amigos acham que é consequência de uma tentativa de suicídio), ela chama a atenção de um padre de vanguarda, Andrew Kiernan (Gabriel Byrne), que passa a desconfiar que ela está sofrendo o que se chama, na religião católica, de "estigmas", idênticos aos sofridos por Cristo na cruz e por São Francisco de Assis. Enquanto espera o desenlace da investigação - que pode culminar com a morte da jovem - ele descobre uma conspiração que envolve os altos escalões do Vaticano, que tentam impedir que evangelhos proibidos venham à luz.



"Stigamata", além de tentar esconder seu roteiro sofrível através de uma fotografia esfumaçada e uma iluminação que se julga criativa, é um poço de preconceitos. Logicamente as origens do sofrimento de Frankie vem de um terço que ela recebe de presente da própria mãe, que o adquiriu em uma viagem ao... Brasil. Além dessa perpetuação da ideia de que somos fontes de tudo que é ruim em termos religiosos (pelo menos não incluiram o candomblé na receita), o filme ainda acha que é inteligente e esperto utilizar uma jovem sem fé e descrente como mensageira de um padre extremamente católico. Os diálogos entre Frankie e o Padre Kiernan chegam a ser constrangedores, em parte devido à ruindade do texto, em parte culpa da apatia de Arquette e de sua absoluta falta de química com Gabriel Byrne. E nunca é demais lembrar: para um filme ter uma edição ágil ele não precisa necessariamente deixar o espectador tonto ou enjoado...

No final da projeção de "Stigmata" - cujo final é tão deprimente quanto o filme como um todo - fica-se a certeza de que modernizar um gênero não significa virá-lo do avesso, acrescentar uma trilha sonora techno e filmá-lo como se fosse um drogado. É preciso uma inteligência e uma sensibilidade que nunca aparecem no filme de Wainwright. Desperdício de tempo!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O SEXTO SENTIDO

O SEXTO SENTIDO (The sixth sense, 1999, Hollywood Pictures/Spyglass Entertainment, 107min) Direção e roteiro: M.Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andrew Mondshein. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Douglas Mowatt. Produção executiva: Sam Mercer. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel. Elenco: Bruce Willis, Olivia Williams, Haley Joel Osment, Toni Colette. Estreia: 06/8/99

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (M.Night Shyamalan), Ator Coadjuvante (Haley Joel Osment), Atriz Coadjuvante (Toni Colette), Roteiro Original, Montagem

Esqueça ectoplasmas arrastando correntes e mansões vitorianas assombradas. Depois de "O sexto sentido", os filmes de fantasmas atingiram um novo patamar de qualidade, deixando de lado os vícios perpetuados pelos filmes clássicos do gênero. Tirando a poeira do estilo e o arejando com uma modernidade que nunca lhe tira a tensão e o medo característicos, o filme de M. Night Shyamalan conquistou o mundo sem fazer muito esforço. Estreando com pouco alarde, o filme estrelado por Bruce Willis arrecadou mais de 600 milhões de dólares pelo mundo, conquistou seis indicações ao Oscar (inclusive as cobiçadas de filme, diretor e roteiro original) e de quebra revelou o garotinho Haley Joel Osment, que depois de ter protagonizado o encontro entre Steven Spielberg e Stanley Kubrick em "Inteligência artificial", desapareceu como a maioria dos atores mirins. Mas mais do que qualquer outra coisa, "O sexto sentido" devolveu ao espectador o prazer inigualável de assistir a uma história bem contada, inteligente e, o mais importante, extremamente humana, a despeito de ter algumas almas penadas como personagens.

O filme já começa com a adrenalina em alta. Voltando para casa depois de ser homenageado pela prefeitura da Filadélfia, onde mora, o psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis, muito eficiente) descobre que ela foi invadida por um ex-cliente, agora um jovem desequilibrado (um irreconhecível e assustador Donnie Wahlberg) que, em desespero lhe dá um tiro e se suicida em seguida. Alguns meses depois, Crowe encontra sua chance de redimir-se do fracasso em lidar com o jovem ao ter a possibilidade de tratar do pequeno Cole Sears (Haley Joel Osmente, nunca aquém de espetacular), um menino de oito anos que enfrenta problemas na escola e em casa. Isolado e solitário, Cole é criado pela mãe Lynn (Toni Colette, de "O casamento de Muriel", bem mais magra, ótima atriz e indicada ao Oscar de coadjuvante) e apresenta hematomas e comportamento arredio. Depois de algumas conversas com o garotinho, Malcolm descobre que seu problema não é doméstico: ele tem o dom (ou a maldição, dependendo do ponto de vista) de ver e falar com fantasmas, que lhe utilizam para resolver situações pendentes. Enquanto tenta ajudar Cole, o médico precisa também recuperar a relação com a esposa (Olivia Williams), abalada desde o atentado.

 

A maior inteligência do roteiro redondinho de Shyamalan - descendente de indianos cujo primeiro filme, "Olhos abertos" foi solenemente ignorado por todo mundo - é a sua opção em sugerir bem mais do que mostrar. Durante toda a sua primeira metade, "O sexto sentido" é lento, discreto, quase contemplativo, contando com uma trilha sonora impactante mas sutil de James Newton Howard. Após a revelação do dom de Cole, a trama atinge níveis de suspense e tensão capazes de arrepiar até o mais cético dos espectadores. É a partir daí que fantasmas cruzam a tela em momentos inesperados (ainda que pistas de sua aparição surjam constantemente) e que, de drama familiar, o filme passe a um terror psicológico dos melhores. A escolha por não exagerar em maquiagem e efeitos visuais também colabora para que o filme não fique datado e esteja tão fresco hoje quando de sua estreia, já há doze anos. Tudo isso somado ao talento do cineasta/roteirista em criar diálogos simples mas profundos e dirigir seus atores com maestria faz com que, mais do que um filme de terror feito para apavorar plateias, "O sexto sentido" atinja um outro nível emocional e artístico. Mesmo quem não gosta de levar sustos é capaz de se perceber chorando ao final da projeção, graças à delicadeza com que tudo se desenrola - e à cena magistral em que Cole finalmente conta seu segredo à sua mãe.

Já em "O sexto sentido" M. Night Shyamalan utilizava-se de algumas de suas marcas registradas (a importância dada à cor vermelha, a trilha sonora de James Newton Howard, a inteligência da edição de som, o cuidado com o desenvolvimento da trama). Criador ainda de uma outra obra-prima ("Corpo fechado"), um filme excelente ("Sinais") e vários filmes que dividiram crítica e público (entre eles o sofrível "A vila" e o subapreciado "A dama da água"), Shyamalan pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ter sido elogiado à toa. "O sexto sentido" mereceu todo o sucesso que fez, por ter devolvido ao público a fé no bom cinema de suspense sem ter que apelar para a violência explícita.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL


UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill, 1999, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 124min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Julia Roberts, Hugh Grant, Rhys Ifans, Richard McCabe, Hugh Bonneville, Alec Baldwin. Estreia: 13/5/99

Nada como uma equipe inglesa para que o público relembre como comédias românticas não precisam necessariamente caprichar na glicose para garantir bilheteria e sucesso de crítica. E nada como uma estrela do porte de Julia Roberts (novamente alçada à maior estrela da América graças ao sucesso de “O casamento do meu melhor amigo”) para conferir glamour a uma história tão fantasiosa e ao mesmo tempo tão real quanto “Um lugar chamado Notting Hill”.

Fantasiosa porque conta a história de amor entre um homem comum – no caso o proprietário de uma pequena livraria de guias de viagem em um bairro tranquilo de Londres – e uma das mulheres mais famosas do mundo – uma atriz hollywoodiana, o que mais poderia ser?. Real porque, ao invés de tratar a história como um romance água-com-açúcar, repleto de glamour e estereótipos, trata seus personagens com carinho e inteligência, entregando a eles diálogos espertos o bastante para trair sua origem britânica e personalidades fascinantes mas verossímeis.



Na pele de Will, o jovem inglês abandonado pela esposa – que o trocou por um homem com a cara de Harrison Ford, segundo suas próprias palavras – que vive cercado pelos amigos fiéis, está Hugh Grant, voltando às boas da crítica e do público que o elevou ao estrelato com “Quatro casamentos e um funeral” em 1994 – sintomaticamente outra comédia romântica escrita pelo mesmo Richard Curtis de “Notting Hill”. Sem carregar nas costas o peso de uma expectativa exagerada que o havia vitimado pós-escândalo com a prostituta Divine Brown, Grant mostra que ainda tem o mesmo talento e carisma de antes, acrescido de uma maturidade bem-vinda. Sua atuação como homem apaixonado por uma diva de cinema e sem certeza de ser correspondido é de uma delicadeza ímpar, que encontra um par perfeito no sorriso inconfundível de Julia Roberts, com a carreira novamente nos trilhos do sucesso.

Também mais madura do que em seus tempos de “Uma linda mulher” – o filme que a lançou como estrela e lhe deu uma indicação ao Oscar – Roberts brilha em uma personagem perigosamente parecida com ela mesma, mas da qual ela inteligentemente extrai detalhes que a transformam, por incrível que pareça, não na Anna Scott atriz bem-sucedida e milionária mas sim na Anna, uma mulher como as outras – e como ela mesma diz em uma frase brilhante, “sou apenas uma garota em frente a um homem, pedindo a ele que a ame.”

Contando ainda com um elenco de coadjuvantes afiadíssimos - em especial o celebrado Rhys Ifans como Spike, o melhor amigo de Will - e com diálogos engraçados e humanos, que brincam com a cultura pop e com suas idiossincrasias – a cena em que Grant participa das entrevistas de lançamento de um filme de Roberts é genial – o filme do desconhecido Roger Mitchell é também vitorioso por fazer crer, em suas duas horas de duração, que uma das mais belas e famosas mulheres do mundo pode tranquilamente se apaixonar por um homem comum. E não é de fantasias que supostamente o cinema é feito?