quinta-feira, 29 de setembro de 2011

PEARL HARBOR



PEARL HARBOR (Pearl Harbor, 2001, Touchstone Pictures, 183min) Direção: Michael Bay. Roteiro: Randall Wallace. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Roger Barton, Mark Goldblatt, Chris Lebenzon, Steven Rosenblum. Música: Hans Zimmer. Figurino: Mitzi Haralson, Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Nigel Phelps/Jennifer Williams. Produção executiva: Bruce Hendricks, Chad Oman, Mike Stenson, Barry Waldman, Randall Wallace. Produção: Michael Bay, Jerry Bruckheimer. Elenco: Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Becksinsale, Alec Baldwin, Ewen Bremner, Jennifer Garner, Jon Voight, Cuba Gooding Jr., Michael Shannon, Dan Ayckroyd, Colm Feore, William Fichtner, Tom Sizemore. Estreia: 21/5/01

4 indicações ao Oscar: Canção Original ("There you'll be"), Som, Edição de Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Edição de Som

“Titanic” faz escola. Inspirado no sucesso de bilheteria e de crítica de James Cameron, o diretor Michael Bay resolveu comandar seu próprio “projeto dos sonhos”, mirando nos cobiçados prêmios da Academia. No entanto, falta a ele e a seu produto final um elemento que Cameron provou ter: talento. “Pearl Harbor”, o tal filme com que Bay, mais conhecido por petardos de adrenalina como “A rocha” e “Con Air” quis fazer sua transição para o rol dos cineastas sérios é assustadoramente competente em termos técnicos, mas uma nulidade dramática poucas vezes vista em produções com suas ambições.

Assim como em “Titanic”, seu irmão mais velho e bem-sucedido, o filme conta uma história de amor tendo como pano de fundo um acontecimento marcante da história americana. O naufrágio ocorrido no início do século dá lugar aqui à invasão japonesa ocorrida na ilha de Pearl Harbor, em 1942, que obrigou os EUA a entrarem na II Guerra Mundial. Amigos desde a infância, os aviadores Raffe (Ben Affleck) e Danny (Josh Hartnett) seguem caminhos quase opostos durante a Guerra. Raffe vai voar na Inglaterra, voluntariamente, e é obrigado a deixar para trás a enfermeira por quem é apaixonado (a bela e apática Kate Beckinsale). Depois que ele é dado como morto em combate, Danny acaba se aproximando da inconsolável namorada do melhor amigo e eles iniciam um idílico romance, interrompido por dois fatos inesperados: o retorno de Raffe e a invasão japonesa à ilha onde todos estão trabalhando.


É inegável a qualidade da produção de “Pearl Harbor”. Da deslumbrante fotografia de John Schwartzman à trilha grandiloquente de Hans Zimmer, tudo funciona à perfeição, com o clima épico pretendido pelo diretor sendo atingido a cada fotograma. As cenas de batalha, especialmente o clímax do filme – a invasão que ocorre depois de uma hora e meia de projeção – são de encher os olhos e os ouvidos, com uma qualidade de som espetacular. Tudo caríssimo e bem cuidado. Mas Michael Bay demonstra seus maiores defeitos onde James Cameron soube sobressair-se inteligentemente: na direção de atores. A cada cena roubada por um ótimo Jon Voigt como Roosevelt existem no mínimo cinco constrangedoras envolvendo justamente aqueles em quem a trama se apóia. É quase inacreditável a falta de talento dos dois protagonistas masculinos do filme, que não emocionam nem em cenas construídas especialmente para arrancar lágrimas do espectador.

No final das três horas de duração do filme - que, em mais uma comparação com "Titanic" passam demoradamente frente aos olhos do público - fica uma sensação clara e contundente: "Titanic" pode ter seus detratores, mas pelo tinha um diretor visionário e um par romântico formado por atores de talento. Felizmente a Academia percebeu esse detalhe e ignorou "Pearl Harbor" em sua premiação. Qualidade técnica não significa qualidade emocional e isso fica provado em cada minuto do elefante branco de Michael Bay.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)

Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.

Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).



Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.

Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NA TEIA DA ARANHA

NA TEIA DA ARANHA (Along came a spider, 2001, Paramount Pictures, 104min) Direção: Lee Tamahori. Roteiro: Marc Moss, romance de James Patterson. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Neil Travis. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Sanja Milkovich Hays. Direção de arte/cenários: Ida Random/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Morgan Freeman, Marty Hornstein. Produção: David Brown, Joe Wizan. Elenco: Morgan Freeman, Monica Potter, Michael Wincott, Dylan Baker, Penelope Ann Miller, Mika Boorem, Anton Yelchin. Estreia: 06/4/01

O surpreendente sucesso do filme “Beijos que matam”, um suspense mediano valorizado pela presença do ator Morgan Freeman rendeu frutos. Novamente baseado em um romance policial escrito por James Patterson e com o mesmo personagem principal, “Na teia da aranha” foi mais um êxito, o que comprova antes de qualquer coisa o carisma de Freeman, um dos mais talentosos atores negros de sua geração, sempre discreto e sutil, mas igualmente sempre competente.

 Desta vez sua personagem, o policial Alex Cross, está aposentado da polícia depois da morte trágica de sua parceira. Disposto a ficar para sempre longe de qualquer tipo de violência, ele logo vê que seus planos não serão respeitados. O sequestrador (Michael Moriarty) da filha pequena de um senador, roubada nas barbas do serviço secreto, o desafia a frustrar  seus planos de cometer o crime do século. Contando com a ajuda de uma agente do governo, Jezzie Flannigan (Monica Potter, fraca como ela só), ele tenta pegar o criminoso, mas acaba se envolvendo em uma trama com muito mais complicações do que ele poderia imaginar.



Dirigido pelo neozelandês Lee Tamahori, "Na teia da aranha" sofreu inúmeras alterações até chegar às telas - a principal delas dizendo respeito à idade do protagonista. Enquanto no romance de James Patterson Alex Cross tinha 38 anos de idade e era casado, aqui ele é vivido por Morgan Freeman, umas boas duas décadas mais velho - fato este que deve ter contado para limar do roteiro o romance entre ele e Jezzie, que, aliás, também tem um final substancialmente diferente no livro. Essas mudanças, porém, não chegam a atrapalhar a diversão daqueles que procuram um bom filme policial, principalmente porque a trama tem reviravoltas em número suficiente para deixar todo mundo ligado do início ao fim da sessão.

No entanto, a bem da verdade, “Na teia da aranha” não apresenta nenhuma novidade ao gênero. Apesar das reviravoltas bastante surpreendentes e o trabalho de Freeman, sempre eficaz, o final chega a ser anti-climático, depois de hora e meia de uma trama construída com cuidado e clima por Tamahori - e isso que o final foi refilmado depois da rejeição de uma exibição-teste nos EUA. Ainda assim, é um entretenimento de extrema competência, que atinge seu objetivo de prender a atenção do público e entregar um trabalho de qualidade acima da média. Mas Morgan Freeman merece coisa melhor para demonstrar seu talento.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CÍRCULO DE FOGO

CÍRCULO DE FOGO (Enemy at the gates, 2001, Paramount Pictures, 131min) Direção: Jean-Jacques Annaud. Roteiro: Jean-Jacques Annaud, Alain Godard. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: Noelle Boisson, Humprhey Dixon. Música: James Horner. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Simon Wakefield. Produção executiva: Alain Godard, Roland Pellegrino, Jorg Reichl, Alisa Tager. Produção: Jean-Jacques Annaud, John D. Schofield. Elenco: Jude Law, Joseph Fiennes, Rachel Weisz, Ed Harris, Bob Hoskins, Ron Pearlman. Estreia: 07/02/01 (Festival de Berlim)

Acostumado que está a ver a II Guerra Mundial pelos olhos de seus cineastas, o público americano não ficou exatamente empolgado com a recriação do diretor francês Jean-Jacques Annaud de uma parte importante da história do conflito, passada na Rússia. Dono de um orçamento de quase 70 milhões de dólares - o mais caro filme europeu até então - "Círculo de fogo" nem chegou a se pagar no mercado ianque (e foi praticamente ignorado no Festival de Berlim, onde os alemães não gostaram nem um pouco de se verem como os vilões da trama). No entanto, é inegável que é um dos mais excitantes e inteligentes filmes de guerra da história.

A ação se passa em 1942, quando a cidade de Stalingrado é a última resistência contra a invasão nazista. Espertamente sabendo que os cidadãos precisam de um incentivo para continuar sua luta, o jornalista Danilov (Joseph Fiennes) passa a descrever, em seus artigos, os feitos heróicos de seu melhor amigo, o atirador Vassili Zaitsev (Jude Law), que vem matando atiradores nazistas um a um de forma sistemática. Quando a fama de Vassili atinge os ouvidos alemães, eles não demoram a mandar seu melhor artilheiro, o Major Konig (Ed Harris) para detê-lo. Enquanto os dois homens passam a caçar um ao outro, Danilov tenta seduzir a bela Tania (Rachel Weisz), uma ativista militar apaixonada por Vassili.



Ao situar sua trama em um momento crucial da história da II Guerra Mundial, o diretor Annaud e seu co-roteirista Alain Godard teceram um rico painel sobre classes sociais e paixões de vários tipos - pela pátria, pelos amigos, por ideiais. Em suas duas horas de duração o filme conta várias histórias, todas interessantes e muito bem resolvidas. A amizade entre Danilov e Vassili, ameaçada pela paixão de ambos por Tania é a ponta romântica do roteiro (ainda que alguns insistam em ver algo homoerótico na admiração do jornalista pelo atirador). A iminência da invasão da Rússia pelas tropas de Hitler cumpre a parte de ação do projeto. Mas é a disputa de vaidade e idealismo entre Vassili e Konig que leva "Círculo de fogo" - mais um título nacional inexplicável, diga-se de passagem - a um nível de inteligência e qualidade que o separa dos filmes de guerra mais corriqueiros.

O que o roteiro faz, na verdade, é reduzir uma guerra de proporções gigantescas a uma batalha entre dois homens, ambos capazes, talentosos e certos de seus ideais. É uma metáfora talvez óbvia, mas que funciona à perfeição graças aos talentos envolvidos. Com frequentes closes nos olhos azuis de Ed Harris e Jude Law, a fotografia impressionante de Robert Fraisse tem mais sucesso em jogar o espectador dentro do campo de batalha do que os enquadramentos épicos de filmes como "Coração valente" e "Gladiador", competentíssimos mas um tanto quanto distantes dos sentidos do público. No filme de Annaud, a impressão que se tem é que se está ao lado de Vassili em seu jogo de gato e rato com Konig, impressão tornada ainda mais forte devido ao trabalho espetacular dos dois atores, em atuações irretocáveis - que fazem da interpretação rasa de Rachel Weisz ainda mais gritante.

"Círculo de fogo" tem todas as qualidades de um épicp hollywoodiano e consegue fugir com esperteza dos defeitos de seus congêneres. Enxuto (tem pouco mais de duas horas, enquanto a regra do cinema americano para filmes desse porte manda a duração chegar a três), conciso e quase minimalista, é um filme forte e honesto, que merece ser descoberto e louvado como um dos melhores de seu estilo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AMORES POSSÍVEIS

AMORES POSSÍVEIS (Amores possíveis, 2001, Brasil, 98min) Direção: Sandra Werneck. Roteiro: Paulo Halm, estória de Maya Werneck Da-Rin. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Isabelle Rathery. Música: João Nabuco. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Claudio Amaral Peixoto. Produção: Sandra Werneck. Elenco: Murilo Benício, Carolina Ferraz, Emílio de Mello, Irene Ravache, Drica Moraes, Christine Fernandes, Beth Goulart. Estreia: 30/3/01

Em 1997 a cineasta Sandra Werneck lançou “Pequeno dicionário amoroso”, uma delicada comédia romântica que investigava as vicissitudes do amor e contava com a sorte de ter a excelente Andréa Beltrão como protagonista feminina. Quatro anos depois, ela volta a falar do fogo que arde sem se ver em “Amores possíveis”, novamente uma comédia romântica, mas dessa vez seguindo um roteiro que lembra, em alguns momentos, o drama “De caso com o acaso”, estrelado por Gwyneth Paltrow em 1998. Ao brincar com as possibilidades que o destino apresenta na vida das pessoas, a diretora apresenta a seu público um filme simpático e surpreendente, ainda que superficial em determinados momentos.

Quando o filme começa, o jovem Carlos Eduardo (Murilo Benício) está esperando, ansioso, em uma noite de chuva, pela chegada da namorada em um cinema do Rio de Janeiro. Quinze anos depois, três possibilidades de desfecho para esse encontro frustrado podem acontecer. Na primeira história, Carlos é um empresário que vive um casamento morno com Maria (Beth Goulart), reencontra Júlia (Carolina Ferraz), seu antigo amor, que formou-se em História da Arte e inicia com ela um romance extra-conjugal. Na segunda possível relação, Carlos abandonou Júlia e seu filho pequeno, Lucas, para viver com outro homem, Pedro (Emílio de Mello), seu amigo do futebol. E na terceira chance, o rapaz é um bon vivant que ainda mora com a mãe (Irene Ravache) e, ao recorrer a um serviço de “almas gêmeas” dá de cara com Júlia, uma tresloucada versão de sua antiga namorada.


Ao utilizar elementos em comum nas três histórias (além do casal central a personagem de Emílio de Mello aparece em todas elas, em graus variados de homossexualidade assumida), o roteiro versa sobre o dia-a-dia com bom humor, uma dose de veracidade e muito romantismo, sem apelar para o piegas ou o exagerado. Porém, enquanto Murilo Benício se mostra desenvolto nas três faces de sua personagem, sua parceira de cena deixa a desejar como atriz. Carolina Ferraz desfila sua beleza clássica pela tela, mas demonstra sem dúvida sua fragilidade como atriz, ainda que isso não seja catastrófico a ponto de destruir o filme, mesmo porque Irene Ravache brilha em cada cena em que aparece como a supermãe dedicada e escandalizada com a vida desregrada do filho. Sua participação é a mais engraçada (ainda que a pequena aparição de Drica Moraes também empolgue), contrabalançando a razoável polêmica da história de amor gay (cujos diálogos são bastante fortes, em especial quando declamados por Júlia) e da seriedade do romance adúltero do primeiro Carlos Eduardo.

“Amores possíveis” é um interessante produto do cinema nacional do início do século XX, quando ainda se procurava um caminho para as bilheterias. É feito com competência, seriedade, inteligência e talento. E ainda por cima começa com a bela “Dueto” – interpretada por Chico Buarque e Zizi Possi – ou seja, já ganha a audiência na abertura. Vale a pena conhecer!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

AMORES BRUTOS

AMORES BRUTOS (Amores perros, 2001, México, 154min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Luis Carballar, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Fernando Perez Unda. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Gabriela Diaque. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Julieta Alvarez. Produção executiva: Francisco Gonzalez Compeán, Martha Sosa Elizondo. Produção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarria, Goya Toledo, Adriana Barraza, Alvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Humberto Busto. Estreia: 14/5/00 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Impressionante como poucos filmes de estreia, o mexicano “Amores brutos” marca como uma cicatriz profunda. Sem preocupar-se a fazer concessões a uma estética americanizada e com uma forte história – ou seriam três? – a ser contada, o filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é um dos melhores produtos cinematográficos do México e nem precisou de um astro internacional ou um orçamento milionário pra isso – vale lembrar que em 2000 Gael García Bernal ainda não era tão famoso como é hoje

Conforme sugere o título original do filme – “Amores perros” – são cães que unem, sutil e habilmente as histórias contadas no genial roteiro de Guillermo Arriaga. Genial porque não tenta forçar a união entre as histórias e mais genial ainda ao contar histórias fortes, com personagens polidimensionais e humanos enfrentando momentos cruciais de suas vidas. Tudo começa com um violento acidente de carro – filmado magistralmente pelas câmeras de Rodrigo Prieto. A partir daí as histórias são contadas, através de um engenhoso flashback que mostra como elas chegaram até ali. A primeira trama a ser mostrada envolve o jovem Octavio (o ótimo Gael García Bernal), um rapaz apaixonado pela cunhada maltratada pelo marido e que utiliza seu cachorro em lutas de cães para arrumar dinheiro e poder fugir com ela. A segunda história é a da bela modelo Valeria (Vanessa Bauche), que ao finalmente conseguir casar-se com o homem que ama, que abandona a esposa para ficar com ela, sofre o tal acidente do início do filme. Sua única companhia em seus momentos de solidão é seu cãozinho de estimação que, ao ficar preso sob seu apartamento causa um acidente ainda mais grave à sua dona. E por fim, mas não menos importante, o ex-guerrilheiro Chivo (Emilio Echeverria), que salva o cão de Octavio de morrer no acidente automobilístico resolve abandonar a vida de mendigo e matador de aluguel para buscar reencontrar a filha que abandonou ainda criança.   


Ao contrário de muitos filmes que se utilizam de histórias fracionadas para exibir um quebra-cabeças frágil e sem substância, “Amores brutos” acredita em seu roteiro e em seus personagens, tão completos e complexos que sustentariam tranqüilamente um filme inteiro. A maneira como personagens aparentemente tão díspares são ligados acaba sendo apenas um mero detalhe em um filme repleto deles, todos tão fascinantes quanto as personalidades retratadas por Arriaga, um observador acurado de seres antes de mais nada extremamente humanos. O paradoxo de utilizar animais como elementos de ligação entre humanos em momentos tão extremos é só mais um artifício utilizado com inteligência pelo roteirista, que em conjunto com o diretor Iñarritu e os editores realizou um dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo mexicano, que revela talentos crus e viscerais.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

UM AMOR QUASE PERFEITO

UM AMOR QUASE PERFEITO (Le fate ignoranti, 2001, Medusa Distribuzione, 106min) Direção: Ferzan Ozpetek. Roteiro: Ferzan Ozpetek, Gianni Romoli. Fotografia: Pasquale Mari. Montagem: Patrizio Marone. Música: Andrea Guerra. Figurino: Catia Dottori. Direção de arte/cenários: Bruno Cesari. Produção: Tilde Corsi, Gianni Romoli. Elenco: Margherita Buy, Stefano Accorsi, Serra Yilmaz, Gabriel Garko, Erika Blanc, Andrea Renzi. Estreia: 08/02/01 (Festival de Berlim)

A médica infectologista Antonia (Margherita Buy) leva um casamento de sonhos com seu marido, Mássimo, apesar de ter deixado para trás desejos como o de ter filhos e de ter se afastado dos amigos para dedicar-se à relação. Quando Mássimo morre repentinamente, vítima de um atropelamento, ela descobre abismada que ele tinha um caso extra-conjugal há sete anos. A busca por sua rival a leva até o jovem Michele (Stefano Accorsi) e, ainda mais atônita, a médica percebe que seu marido mantinha um relacionamento com o próprio rapaz. A princípio arrasada com a notívia, Antonia acaba se tornando responsável por Ernesto (Gabriel Garko), um jovem soropositivo amigo de Michele e, aos poucos, começa a notar que, ao lado dele Massimo era outra pessoa e que vivia com os amigos do amante como se fizessem todos parte de uma grande família. Ela e Michele passam, então, a conviver como amigos, vendo um no outro a lembrança do seu amor perdido.

Grande sucesso de bilheteria na Itália, seu país natal, “Um amor quase perfeito”, belo drama de Ferzan Ozpetek tem como principal qualidade a forma de apresentar e tratar de um assunto tabu: a bissexualidade. Ao introduzir a Antonia o mundo escondido de seu marido, o cineasta também mostra ao público uma nova maneira de ver um universo normalmente relegado ao estereótipo e ao humor exagerado. A família de amigos de Michele (uma uma interpretação excelente do galã Stefano Accorsi), por exemplo, é um núcleo familiar que foge ao padrão pré-estabelecido, mas é amorosa, leal e solidária. Há a mãezona (vivida pela ótima Serra Yilmaz), o casal bem-sucedido, o transexual fugido da verdadeira família, etc. Todos, no entanto, são personagens bem escritos, sem o ranço politicamente correto e preconceituoso que povoa o cinema comercial de modo geral.


Sem apelar para emoções fáceis ou sentimentos pasteurizados, Ozpetek criou um universo repleto de calor humano e personagens dicotômicos: ninguém é totalmente bom e ingênuo, todos tem seu passado e esperam seu futuro com maior ou menor esperança. Para isso é essencial o talento de seus dois protagonistas, Margherita Buy e Stefano Accorsi, que vive um gay longe das afetações comuns. Com um texto forte, uma trama atual (que encontra um espacinho para uma crítica de leve ao governo turco) e um elenco homogêneo e absolutamente à vontade em suas personagens únicas em suas personalidades e ordinárias em suas grandezas, “Um amor quase perfeito” (um título nacional mais uma vez totalmente sem sentido) é um legítimo representante do ótimo cinema italiano do começo do século.

Em tempo: as “fadas ignorantes” do título original são as pessoas que, mesmo sem o saber, transformam a vida de outras. E é o nome do quadro que Michele manda para Mássimo e que acaba sendo a pista que o revela à Antonia. Uma sutileza a mais em um filme simpático e realista.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

AMNÉSIA

AMNÉSIA (Memento, 2000, Newmarket Films, 113min) Direção: Christopher Nolan, conto de Jonathan Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Doddy Dorn. Música: David Julyan. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Danielle Berman. Produção executiva: Aaron Ryder. Produção: Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Jorja Fox, Stephen Tobolowski, Mark Boone Jr.. Elenco: 20/01/01 (Sundance Festival)

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Montagem

Uns bons dez anos antes de dar um nó nas cabeças dos espectadores com “A origem”, o cineasta Christopher Nolan já havia demonstrado, da maneira mais feliz possível, seu fetiche em confundir a plateia. Adaptando um conto nunca publicado de autoria de seu irmão, ele escreveu e dirigiu “Amnésia”, um dos mais criativos filmes policiais da história – e por conseguinte, uma das mais bem-sucedidas produções independentes do cinema americano até hoje. Além de alçar à fama imediata seu diretor – que em seguida embalaria uma carreira das mais íntegras no cinemão mainstrean – “Amnésia” também confirmou o talento deu seu protagonista, o australiano Guy Pearce (que fez uma drag-queen em “Priscilla, a rainha do deserto” e um policial almofadinha em “Los Angeles, cidade proibida”). Sucesso absoluto de público e crítica, o filme de Nolan teve motivos de sobra para tamanho alvoroço.

A história de “Amnésia” até parece fácil: depois de um grave incidente que causou a morte de sua esposa, o investigador de seguros de saúde Leonard Shelby (vivido por um Guy Pearce loiríssimo e melhor ator do que nunca) perdeu a capacidade de manter na memória qualquer fato recente. Uma conversa, um rosto, um acontecimento, por mais importantes que possam ser, são esquecidos minutos depois de seu primeiro contato. Esse problema – já desagradável por si mesmo – não seria tão inconveniente se a intenção de Leonard não fosse tão séria: ele planeja vingar-se do homem que causou sua desgraça, um homem cujo nome ele tem certeza de ser John ou James G., segundo a tatuagem em sua perna. Sim, para não esquecer as pistas que coleta em seu caminho, Leonard tatua-as em seu corpo, além de contar com a ajuda de uma providencial máquina polaróide. Em seu caminho em busca de vingança, ele cruza com o aparentemente bem-intencionado Teddy (Joe Pantoliano) e a misteriosa Natalie (Carrie-Anne Moss), nunca deixando de lembrar-se da triste história de um antigo cliente, Sammy Jankins (Stephen Tobolowski).


O que parece fácil em “Amnésia” na verdade não é. Ao contar a angustiante história de Shelby de trás pra frente, o roteiro de Nolan (merecidamente indicado ao Oscar) acerta justamente em proporcionar ao público a possibilidade de extirpar o que mais o incomoda nas dezenas de filmes policiais que chegam às telas anualmente: é absolutamente impossível – ao menos na primeira sessão – adivinhar os caminhos que a trama irá seguir. Sua imprevisibilidade é tamanha que aqui não se tenta adivinhar o que irá acontecer e sim o que aconteceu, como e porque. Além de criativo, o roteiro ainda se dá ao luxo de reservar uma surpresa até mesmo ao mais atento espectador. E o público, que em certos momentos fica tão perdido quanto seu protagonista, chega ao final da sessão com a sensação de que, sim, é preciso revê-lo. E mais uma vez, e outra e outra.... São necessárias incontáveis sessões de “Amnésia” para que toda a sua complexidade seja absorvida. E mesmo assim, uma única resposta nunca será o bastante.

Provando cabalmente que uma boa ideia e uma equipe competente são muito mais importantes do que orçamentos milionários, Christopher Nolan começou, com “Amnésia”, uma lista de produções absolutamente imperdíveis com sua assinatura. É um dos filmes indispensáveis do começo do século XXI. E um dos melhores policiais já realizados.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O ÚLTIMO BEIJO

O ÚLTIMO BEIJO (L'ultimo bacio, 2001, Fandango, 115min) Direção e roteiro: Gabriele Mucino. Fotografia: Marcello Montarsi. Montagem: Claudio Di Mauro. Música: Paolo Buonvino. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte: Eugenia F. Di Napoli. Produção: Domenico Procacci. Elenco: Stefano Accorsi, Giovanna Mezzogiorno, Stefania Sandrelli, Claudio Santamaria, Giorgio Pasotti, Marco Cocci. Estreia: 02/02/01

Quando Hollywood resolve falar sobre crises geracionais sempre acaba esbarrando em generalizações rasas, talvez por querer agradar a todos os tipos de público. Foi preciso que um cineasta italiano chamado Gabriele Muccino mostrasse aos produtores americanos o caminho das pedras. Seu filme “O último beijo” agradou tanto aos executivos ianques que mereceu um remake, lançado em 2006, dirigido por Tony Goldwin e estrelado por Zach Braff. Não é preciso dizer, no entanto, que o original, como sempre acontece nesses casos, é muito melhor, principalmente porque conta, no papel central, um dos atores italianos mais requisitados de sua época, o ótimo Stefano Accorsi.

Tendo atuado, no mesmo ano, no belo “Um amor quase perfeito”, Accorsi tem, em “O último beijo”, um trabalho bastante diferente e maduro. Na pele de Carlo, o protagonista, ele representa todas as dúvidas de uma geração inteira de homens que, tendo passado a vida inteira sem maiores responsabilidades, se veem repentinamente obrigados a tomar atitudes adultas, apesar de sua mentalidade ainda adolescente. Com um roteiro bem escrito e equilibrado entre as histórias que conta, além de atuações bastante convincentes (ainda que um tanto exageradas, às vezes, culpa talvez do sangue italiano que corre nas veias do filme), a obra de Muccino é engraçado, comovente e realista, além de ter também um lado bastante romântico.



Às vésperas de completar 30 anos, o publicitário Carlo (Stefano Accorsi) descobre que vai ser pai, depois de três anos de relacionamento com a bela Giulia (Giovanna Mezzogiorno). Sentindo-se pressionado, ele passa a imaginar como será a sua vida sem o acréscimo de responsabilidade que uma paternidade fatalmente trará. Seus amigos também não são exemplos a ser seguidos. Seu colega de trabalho, Adriano (Giorgio Pasotti) tem um filho de seis meses, o que destruiu a paixão de sua relação com a esposa, Lívia (Sabrina Impaciatore). Paolo (Cláudio Santamaría) foi abandonado pela namorada, e, além de não conseguir recuperar-se do fato, tenta fugir de um futuro opaco na loja de sua família fazendo planos de viajar pelo mundo em um trailer. Alberto (Marco Cocci) foge de qualquer tipo de responsabilidade ficando com uma mulher diferente por dia. E Marco (Pierfrancesco Favino) é sua única fonte de calma e felicidade, uma vez que recém casou-se. E até mesmo a sogra de Carlo, Anna (Stefania Sandrelli) entra em crise com a ideia de ser avó e resolve separar-se do marido. Com tantas informações desencontradas à sua volta, Carlo acaba tentado a ceder à atração que sente pela adolescente Francesca (Martina Stella).

“O último beijo” é tudo que um filme sobre uma geração precisa ser sem parecer superficial ou genérico. Suas personagens não parecem personagens e sim pessoas reais, com problemas reais e atos nem sempre heróicos ou louváveis. Difícil é não identificar-se com pelo menos uma das histórias contadas pelo belo roteiro, escrito pelo próprio diretor e com um toque de sentimentalismo agridoce que deve agradar principalmente aos homens carentes de um filme leve e que os retrate com tanta precisão – e o que é ainda melhor, sem julgamentos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ATÉ O FIM


ATÉ O FIM (The deep end, 2001, 20th Century Fox, 101min) Direção: Scott McGeehe, David Siegel. Roteiro: Scott McGeehe, David Siegel, romance "The blank wall", de Elisabeth Sanxay Holding. Fotografia: Giles Nutgens. Montagem: Lauren Zuckerman. Música: Peter Nashel. Figurino: Sabrina Rosen. Direção de arte/cenários: Kelly McGeehe, Christopher Tandon/Nancy Wenz. Produção executiva: Robert H.Nathan. Produção: Scott McGeehe, David Siegel. Elenco: Tilda Swinton, Goran Visjnic, Jonathan Tucker, Peter Donat, Josh Lucas, Raymond J. Barry. Estreia: 21/01/01 (Sundance Festival)

Todos sabem do que é capaz uma mãe para proteger sua cria, e o cinema é pródigo em provar essa teoria em dezenas de filmes. Mais um exemplo dessa afirmação surge em "Até o fim", produção independente dirigida pela dupla Scott McGeehe e David Siegel. Sucesso nos festivais de Sundance e Cannes, o filme dos dois cineastas aborda o tema com uma alta dose de suspense e é embalado por uma inspiradíssima atuação da sempre ótima Tilda Swinton quase uma década antes de seu Oscar de coadjuvante por "Conduta de risco". Australiana revelada ao mundo na adaptação cinematográfica de "Orlando", de Virginia Woolf, Swinton é dona de um rosto anguloso e uma voz grave que a distanciam da beleza de plástico das estrelas hollywoodianas. Por esse motivo - e por seu enorme talento - sua escolha como protagonista de "Até o fim" mostrou-se um tremendo golpe de sorte. Poucas atrizes seriam tão perfeitas no papel principal quanto ela.

Margaret Hall, sua personagem, é uma mulher comum, dona-de-casa dedicada à família, cujo marido está viajando a trabalho e que se vê, repentinamente, às voltas com um problema que é um pesadelo para qualquer mãe. Ao descobrir uma relação homossexual de seu filho Beau (o péssimo Jonathan Tucker) com um homem mais velho e de péssima reputação, o cafajeste Darby Reese (vivido com gosto e cinismo por Josh Lucas), ela tenta separá-los oferecendo dinheiro para isso. Quando o gigolô aparece morto em sua propriedade - depois de um acidente - Margaret entra em pânico e tenta dar um fim ao corpo, julgando que seu filho é o responsável pela morte. As coisas começam a dar ainda mais errado, porém, quando uma fita que mostra o rapaz e a vítima fazendo sexo cai nas mãos de uma dupla de chantagistas que exige 50 mil dólares para não entregá-la à polícia. Enquanto tenta arrumar o dinheiro, ela ainda precisa lidar com a inesperada doença do sogro e com a rotina cotidiana de uma mãe que finge levar uma vida normal. Sua atitude corajosa acaba despertando a simpatia de um dos chantagista, Alek (o galã croata Goran Visnjic), o que acaba os direcionando à mais uma tragédia.



"Até o fim" é um filme de suspense atípico. Evita a violência gráfica o máximo possível, amparando-se basicamente no drama psicológico de sua protagonista, vivida com maestria e sutileza por sua intérprete. Ao utilizar recorrentemente a água - como uma marca registrada da elogiada fotografia azulada de Giles Nuttgens - os diretores imprimem uma assinatura visual que também dá ao filme uma atmosfera onírica e claustrofóbica. O final, agridoce e verossímil, encerra com maturidade um produto que merecia mais sorte do que apenas os elogios que recebeu em festivais de cinema. Para isso, no entanto, teria que apelar para os exageros necessários a um êxito comercial maior. Como está, é apenas um biscoito fino para alguns sortudos que esperam mais de um filme do que apenas sustos ocos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

TRAFFIC

TRAFFIC (Traffic, 2000, USA Films, 147min) Direção: Steven Soderbergh. Roteiro: Stephen Gaghan, minissérie escrita por Simon Moore. Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews). Montagem: Stephen Mirrione. Música: Cliff Martinez. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Cameron Jones, Graham King, Andreas Klein, Mike Newell, Richard Solomon. Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz, Edward Zwick. Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Dennis Quaid, Steven Bauer, Miguel Ferrer, Albert Finney, Clifton Collins Jr., Jacob Vargas, Erika Christensen, Amy Irving, Topher Grace, Salma Hayek, Luiz Guzman, Don Cheadle, James Brolin. Estreia: 27/12/00

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 4 Oscar:Diretor (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado, Montagem 
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro

Concorrer consigo mesmo na disputa pelo Oscar não é trabalho para qualquer cineasta, mas Steven Soderbergh não pode ser considerado um qualquer. No mesmo ano em que entregou ao público e à crítica o correto e quadradinho (mas ainda assim bom) “Erin Brockovich”, ele voltou às origens independentes de seu promissor início – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “sexo, mentiras e videotape” – com “Traffic”, um trabalho ousado, corajoso e ambicioso, que tinha como objetivo traçar um painel sobre o tráfico de drogas nos EUA e na sua fronteira com o México. Com base em uma minissérie de TV, adapatada com sucesso por Steve Gaghan, Soderbergh levou aos cinemas uma obra de impacto, que relembra seu inegável talento como cineasta visceral. Não à toa, venceu a si mesmo na disputa do Oscar de diretor – categoria na qual também concorria por “Erin Brockovich”.

A grande sacada do diretor foi a de contar três histórias diferentes, interligadas por pequenos detalhes mas que nunca chegam a se cruzar diretamente, como em outros filmes de sua época. Para não confundir a plateia com tantas personagens que passam pela tela, ele conta cada uma das histórias com um visual diferente, com uma fotografia em cores distintas. A trama que se passa no México, onde o policial Javier Rodriguez Rodriguez (Benicio Del Toro impecável e merecido vencedor do Oscar de ator coadjuvante) tenta resistir ao mar de corrupção que o cerca tem uma tonalidade quente, sufocante, quase em sépia. A luta de Robert Wakefield (um Michael Douglas sério e compenetrado) - juiz da Suprema Corte americana nomeado chefe do combate às drogas - em salvar sua própria filha adolescente do vício (a estreante Érika Christensen) é fotografada em tons azulados. E o drama da socialite Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones grávida de verdade durante as filmagens), que tem seu marido – um influente traficante de drogas vivido por Steven Bauer – preso, é narrado sob uma fotografia naturalista. Com uma edição arrojada de Stephen Mirrione (também premiada com uma estatueta da Academia) e um roteiro que em nenhum momento se deixa tornar confuso e/ou redundante, o panorama traçado por Soderbergh choca, angustia e faz pensar.



“Traffic” faz parte de uma estirpe rara de produções cinematográficas. Inteligente, forte e com muito a contar, o filme de Steven Soderbergh e companhia é um entretenimento adulto, para um público sofisticado, que procura substância em meio a um cinema cada vez mais superficial e cínico. Ao expor a enorme teia de interesses escusos que move o tráfico de drogas – e por meio da família do juiz vivido por Michael Douglas aproximá-la do cotidiano da plateia – o roteiro de Gaghan foge do tradicional modelo de contrapor vilões e mocinhos. No mundo retratado pelo filme, cada atitude das personagens é movida por molas outras que não apenas um caráter estereotipado. O juiz que vira czar anti-drogas não consegue deixar que o tóxico entre em sua casa pela porta da frente. O policial incorruptível se deixa amolecer para garantir um futuro menos trágico para os seus. E a socialite fútil torna-se uma mulher forte e ferina para defender seus interesses e de sua família, mesmo que isso a obrigue a ir contra a lei.

“Traffic” é um grande filme. Perdeu o Oscar principal para “Gladiador”, um super-espetáculo grandioso e perfeito em seu objetivo de entreter pura e simplesmente, mas as personagens escritos por Steve Gaghan – dolorosamente reais e humanas – vão permanecer na mente dos espectadores por muito tempo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O TIGRE E O DRAGÃO

O TIGRE E O DRAGÃO (Crouching tiger, hidden dragon, 2000, Sony Pictures Classic, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, romance de Du Lu Wang. Fotografia: Peter Pau. Montagem: Tim Squyres. Música: Tan Dun. Figurino: Tim Yip. Direção de arte/cenários: Tim Yip/Jian-Quo Wang. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ang Lee. Elenco: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang, Sihung Lung. Estreia: 09/10/00

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("A love before time"), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Diretor (Ang Lee)

Foi preciso um diretor de Taiwan para devolver aos fãs de cinema a magia com que a sétima arte sempre brindou seu público. Depois de bem sucedidas incursões ao cinema de Hollywood - em especial os belos "Razão e sensibilidade" e "Tempestade de gelo", que captaram com inteligência as culturas inglesa e americana, respectivamente - o cineasta Ang Lee não foi feliz com o pouco visto e muito criticado "Cavalgada com o diabo" e resolveu retornar às origens. Para isso, assumiu as rédeas da adaptação do quarto volume de uma pentalogia chamada Crane/Iron, escrita por Du Lu Wang, um conhecido mestre chinês de kung-fu. Tendo seu habitual parceiro James Schamus entre os roteiristas, Lee construiu uma fábula majestosa e emocionante que recebeu o título ocidental de "Crouching tiger, hidden dragon", ou, como conhecido no Brasil, "O tigre e o dragão".

Não é difícil compreender o porquê da comoção em torno do filme de Lee desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2000, quando foi ovacionado por uma legião de críticos deslumbrados. Sua obra simplesmente tira o espectador de sua zona de conforto, jogando-o em um universo particular, em que personagens ignoram a lei da gravidade e onde todas as excepcionalmente bem coreografadas lutas não são apenas desnecessários desvios da ação e sim parte integrante e indispensável da narrativa, repleta de poesia visual - cortesia da magnífica fotografia de Peter Pau, vencedor do Oscar da categoria. Não foi à toa que "O tigre e o dragão" tornou-se o primeiro filme de língua não-inglesa a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação em território americano, além de sair vitorioso em 4 categorias na festa do Oscar de 2001. O filme de Ang Lee é uma festa para os olhos e um admirável espetáculo para todos que consideram o cinema como um refúgio.




Passado em uma China antiga, "O tigre e o dragão" começa com o retorno do famoso guerreiro Li Mui Bai (Chow Yun-Fat) à terra de seus antepassados. Aposentado, ele dá de presente a um velho amigo sua poderosa espada, a Destino Verde, que logo em seguida é roubada. Enquanto tenta recuperá-la, ele não consegue deixar de lado o desejo de vingar a morte de seu mestre pelas mãos da temida Jade Fox (Pei-pei Cheng). Contando com a ajuda da mulher que ama em segredo, Shu Lien (Michelle Yeoh), ele também encontra, em seu caminho, a bela Jiao Long Yu (Ziyi Zhang), filha de uma respeitada família e que, mesmo em vias de casar-se, mantém um amor explosivo por um cigano do deserto.

Dirigido com maestria por um Ang Lee extremamente à vontade e no auge de sua criatividade como cineasta, "O tigre e o dragão" tem a seu favor, além de tudo, uma equipe que transmite paixão a cada polegada de celulóide. O elenco é impecável - com destaque para Michelle Yeoh, cujo rosto expressivo casa com naturalidade com uma força física impressionante - e é impossível não admirar a belíssima trilha sonora (composta em apenas duas semanas por Tin Dau, que acabou com uma estatueta do Oscar), a fotografia etérea e a direção de arte caprichada. No fundo uma bela história de amor emoldurada por uma trama que envolve sentimentos como honra, lealdade e amizade à toda prova - e um discreto discurso feminista - "O tigre e o dragão" é uma obra-prima incontestável e um dos melhores filmes já produzidos fora de Hollywood.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O DOM DA PREMONIÇÃO

O DOM DA PREMONIÇÃO (The gift, 2000, Paramount Classics, 112min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Billy Bob Thornton, Tom Epperson. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Arthur Coburn, Bob Murawski. Música: Christopher Young. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Marthe Pineau. Produção executiva: Sean Daniel, Gregory Goodman, Ted Tannebaum, Rob Talpert. Produção: James Jacks, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Cate Blanchett, Greg Kinnear, Katie Holmes, Giovanni Ribisi, Keanu Reeves, Hilary Swank, J. K. Simmons, Rosemary Harris, Michael Jeter, Kim Dickens. Estreia: 22/12/00

Certas atrizes têm o dom de transformar o que poderia ser apenas um produto rotineiro de entretenimento em algo acima da média. Uma dessas atrizes é Cate Blanchett. Mesmo em papéis ingratos em filmes menores, a australiana consegue sobressair-se incólume e em alguns casos até mesmo salva produções que sem ela mal seriam lembradas pela maioria dos espectadores. É o caso de “O dom da premonição”, um suspense interessante e bem realizado, mas que, sem sua presença luminosa, seria apenas mais um exemplar de um gênero pouco dado a apresentar obras-primas

À frente de um elenco de astros de grandezas variadas – a oscarizada Hilary Swank em um papel inadequado, o péssimo Keanu Reeves surpreendendo positivamente, o desajeitado Giovanni Ribisi com um personagem carismático, a jovem Katie Holmes em papel ousado e diferente do que fez até então e o simpático canastrão Greg Kinnear tentando dar veracidade a um personagem ingrato – Blanchett sobressai-se sem precisar de muito esforço. No filme de Sam Raimi – às vésperas de encarar sua primeira grande super produção, o blockbuster “Homem-aranha” – ela vive Annie Wilson, uma dona-de-casa, viúva e mãe de três filhos que complementa a renda familiar dando consultas como vidente em uma pequena cidade pantanosa do interior dos EUA. Ajudando seus vizinhos e amigos, principalmente o traumatizado mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), ela ainda sofre ameaças de Donnie Barksdeale, um violento marido de uma cliente, Valerie (vividos por Keanu Reeves e Hilary Swank). Sua vida sofre uma reviravolta quando uma jovem da alta classe da cidade, Jessica King (a sempre insossa Katie Holmes) desaparece misteriosamente. Procurada por Wayne Collins, o noivo da moça (papel de Greg Kinnear), que é o diretor da escola onde estudam seus filhos, Annie não consegue negar ajuda, mas acaba colocando sua própria vida em risco.



Co-escrito pelo ator Billy Bob Thornton, o roteiro do filme de Raimi não apresenta grandes novidades, principalmente aos aficcionados do gênero. Nem mesmo a surpresa final chega a ser impactante, apesar do final reservado à personagem de Giovanni Ribisi chegar a ser interessante e emocionante. No entanto, graças à direção criativa de Raimi, que tenta fugir sempre que possível do previsível – apesar de nem sempre conseguir -, ao trabalho superlativo de Blanchett e à trilha sonora de Christopher Young, mantém a atenção até o minuto final, o que não pode ser dito de todos seus congêneres.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CORPO FECHADO

CORPO FECHADO (Unbreakable, 2000, Touchstone Pictures, 106min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Eduardo Serra. Montagem: Dylan Tichenor. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright-Penn, Spencer Treat Clark. Estreia: 14/11/00


O pior fardo que um filme pode carregar é uma expectativa errônea a seu respeito. E o pior que pode acontecer à carreira de um cineasta cujo primeiro real filme rendeu mais de 600 milhões de dólares mundo afora é justamente frustrar essas expectativas - ainda que o faça com as melhores intenções. Pois foi exatamente isso que aconteceu a M. Night Shyamalan. Depois do impressionante êxito comercial e crítico de "O sexto sentido", todos esperavam que o cineasta fosse dar continuidade a seu estilo e fazer uma réplica de seu enorme sucesso. Para surpresa de todos, porém, ele lançou "Corpo fechado", no qual ele se reinventou brilhantemente. Contando com o mesmo Bruce Willis no papel principal, o filme estreou com uma pesadíssima carga nas costas e o resultado decepcionou aos mais afoitos, em termos de bilheteria. Com menos de 100 milhões arrecadados em território americano, não chegou nem perto do impacto causado pela história do menino que via gente morta. No entanto, apesar dos pesares, "Corpo fechado" ganhou fãs incondicionais ao redor do planeta. E se não for lembrado como o melhor filme de Shyamalan é por um simples motivo comercial: um marketing equivocado.

Vendido pelo estúdio quase como se fosse uma continuação de "O sexto sentido" - o mesmo diretor, o mesmo astro, o mesmo clima de suspense - "Corpo fechado" é, na verdade, um excelente filme de super-heroi, que conta as origens do mocinho e do bandido como qualquer boa história baseada em quadrinhos. Sim, não se vê Bruce Willis voando em uniformes berrantes e nem tampouco o vilão tem planos megalomaníacos de dominar o mundo - ainda que seja doentio o bastante para tentar manipular o destino. Mas, ao gerar suas personagens sobre-humanas em um universo cotidiano, o cineasta criou uma das tramas mais instigantes e fascinantes do gênero (e de quebra imprimiu a ele seu estilo particular e intrigante). Bruce Willis (em ótima fase) vive David Dunn, um homem aparentemente normal que realiza a façanha de ser o único sobrevivente de um desastre de trem carregado de centenas de passageiros. Mais impressionante ainda é o fato de ter saído do acidente sem um arranhão sequer. Tentando reconstruir a vida ao lado da esposa Audrey (Robin Wright-Penn em papel oferecido a Julianne Moore) e do filho pequeno, ele conhece o milionário Elijah Price (mais um extraordinário desempenho de Samuel L. Jackson), um empresário fanático por histórias em quadrinhos que o procura com uma séria questão: por que somente ele sobreviveu ao acidente? Buscando a resposta em seu passado, Dunn - que trabalha como segurança em um estádio de futebol - relembra que nunca ficou doente na vida e que talvez tenha uma missão muito importante no mundo.



Apesar da premissa um tanto nerd, "Corpo fechado" é, sem dúvida, um trabalho criativo e inteligente de Shyamalan, mais uma vez utilizando seu talento para construir climas e personagens verossímeis apesar de sua natureza fora do normal. O Elijah vivido por Jackson, por exemplo, é chamado de Mr.Glass devido a uma rara doença que lhe quebra facilmente os ossos do corpo - e que dá origem a uma das cenas de abertura mais impressionantes da década e culmina com um final surpresa coerente e empolgante. A construção visual de Jackson (e do filme como um todo) reitera de forma inequívoca o cuidado do cineasta com cada detalhe do filme, o que lembra mais uma vez o refinamento e a sutileza de Alfred Hitchcock - de quem o diretor rouba inclusive a notória característica de fazer uma ponta em seus trabalhos (aqui ele aparece como um traficante de drogas).

"Corpo fechado" é um típico exemplo de filme que foi injustamente criticado por ter despertado as tais expectativas errôneas. Com o tempo fica mais fácil perceber suas inúmeras qualidades dramáticas e admirá-lo pelo que ele realmente é: um produto pop com uma inteligência muito acima da média.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

CONTE COMIGO

CONTE COMIGO (You can count on me, 2000, Paramount Classics, 111min) Direção e roteiro: Kenneth Lonergan. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Anne McCabe. Música: Lesley Barber. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Lydia Marks. Produção executiva: Steve Carlis, Donald C. Carter, Martin Scorsese. Produção: Barbara De Fina, Larry Meistrich, Jeffrey Sharp. Elenco: Laura Linney, Matthew Broderick, Mark Ruffalo, Josh Lucas, Rory Culkin, Jon Tenney, Gaby Hoffman, Amy Ryan. Estreia: 17/11/00

2 indicações ao Oscar: Atriz (Laura Linney), Roteiro Original

Em meio a tantos filmes barulhentos e caros que são empurrados garganta abaixo dos espectadores em busca de duas horas de entretenimento, obras como “Conte comigo”, do independente Kenneth Lonergan normalmente são ignorados pelo grande público, ficando restritos àqueles que buscam qualidade indepententemente do orçamento do projeto. Felizmente festivais de cinema, como o Sundance, criado por Robert Redford existem para isso, para chamar a atenção para pequenas pérolas. Graças aos prêmios de Melhor Filme e Roteiro em Sundance 2000 e as indicações para o Oscar de Melhor Atriz e Roteiro Original a bela história familiar criada por Lonergan obteve uma mínima repercussão, que permitiu que fosse descoberto por uma audiência um pouco maior. As poucas pessoas que assistiram a “Conte comigo”, no entanto, foram brindadas com um roteiro inteligente e de emoções reais, sem apelos melodramáticos e com personagens tão polidimensionais que parecem gente de verdade e não criações de um roteirista com preocupações comerciais e concessões absurdas.

A história de “Conte comigo” começa quando um acidente de carro tira a vida de um casal, pai de dois filhos pequenos. Anos depois, a irmã mais velha, Sammy (Laura Linney na melhor atuação de sua carreira) vive sozinha com o filho único (Rory Culkin, outro irmão de Macaulay) e tem uma vida quase tediosa, o que a leva a se envolver sexualmente com seu novo chefe, Brian (Matthew Broderick) mesmo tendo um relacionamento com outro homem, o apaixonado Bob (John Tenney). Sua vida sofre uma mudança quando ela reencontra seu problemático irmão, o rebelde Terry (Mark Ruffalo em surpreendente trabalho), que, saindo da cadeia, precisa de dinheiro e mesmo que não saiba, do carinho de uma família. As coisas, que pareciam tranquilas começam a dar errado quando Terry faz amizade com o filho de Sammy e acaba o levando a conhecer seu pai (Josh Lucas), um mau-caráter que abandonou Sammy durante a gravidez.



Quem procura um filme repleto de reviravoltas dramáticas, cenas de impacto emocionais e finais redentores não deve experimentar “Conte comigo”. Kenneth Lonergan, inteligentemente passa longe das fórmulas e dos clichês que povoam dramas familiares, preferindo expor as emoções de suas personagens através de seus atos incoerentes e nem sempre acertados – como fazem pessoas de verdade, diga-se de passagem. As cenas entre Laura Linney e Mark Ruffalo – com uma química invejável – comprovam o fato, com uma tensão intrínseca que nem mesmo o amor difícil entre os dois consegue esconder - e que a bela trilha sonora apenas sublinha. A cena em que o próprio diretor, na pele de um pastor tenta ajudar o rebelde Terry em sua busca pela felicidade é um primor de sensibilidade com seu diálogo encantador e comovente que encontra em Mark Ruffalo o ator ideal. Sua atuação como Terry é comovente, mostrando ao público um ator em vias de tornar-se um dos coadjuvantes mais subestimados de Hollywood.

Aplausos a Laura Linney, a Mark Ruffalo e ao produtor executivo Martin Scorsese, que não permitiu interferências supérfulas no trabalho de Lonergan. E, se ao final de "Conte comigo" é possível derramar algumas lágrimas, elas são verdadeiras, vertidas por motivos reais e por pessoas que, mesmo não existindo em carne e osso, existem em alma.