terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 18 - MELHOR ANIMAÇÃO

Eu confesso que não sou chegado a desenhos animados. Mais de trinta minutos de um filme animado já é o suficiente pra me deixar impaciente. Mas quem tem sobrinhos precisa, de vez em quando, dar uma olhadinha no que está acontecendo no mundo do cinema sem atores de carne-e-osso. Por mais que eu ache "O Rei Leão" um belo filme e tenha boas lembranças dos desenhos de Walt Disney que marcaram a minha infância, acho que o melhor de todos é uma trilogia: "Toy story" é uma delícia. Engraçado, emocionante e com uma história excelente, é, sem dúvida, meu preferido. Os três filmes são os únicos desenhos animados que eu consigo assistir mais de uma vez sem cair no sono... E sem falar que as personagens são encantadoras e a mensagem é de comover qualquer um...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

AOS TREZE

AOS TREZE (Thirteen, 2003, Fox Searchlight Pictures, 100min) Direção: Catherine Hardwicke. Roteiro: Catherine Hardwicke, Nikki Reed. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Nancy Richardson. Música: Mark Mothersbaugh, Brian Zarate. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Carol Strober/Dorit Oberman. Produção executiva: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Holly Hunter. Produção: Jeffrey Levy-Hinte, Michael London. Elenco: Evan Rachel Wood, Nikki Reed, Holly Hunter, Jeremy Sisto, Deborah Kara Unger. Estreia: 12/6/03

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Holly Hunter)

Ao contrário de “Kids”, de Larry Clark, que em 1994 mostrou-se mais marketing do que cinema, este “Aos treze” é um chocante retrato da adolescência média não só americana, mas ocidental. Sem perder tempo com julgamentos morais, a câmera da diretora Catherine Hardwicke - que depois perderia o respeito assinando o primeiro filme da série "Crepúsculo" - percorre a trilha de suas protagonistas como uma testemunha muda, vacilante e talvez até chocada, para o que contribui a inspirada fotografia de Elliot Davis, estourada em certos momentos para dar o clima quase claustrofóbico que se instala em determinados momentos da ação.
          
Aos treze anos de idade, a sensível Tracey (Evan Rachel-Wood) é um exemplo de dedicação aos estudos e é o orgulho de sua mãe, Melanie (Holly Hunter), uma cabeleireira ex-alcóolatra que vive um romance com um rapaz mais jovem (Jeremy Sisto) com problemas com drogas. Sentindo-se rejeitada pelas colegas mais descoladas, Tracey faz amizade com Evie (Nikki Reed), a garota mais popular da escola. Acontece que Evie não é nenhuma flor que se cheire. Sexy e independente, ela consome e vende drogas, usa o sexo como argumento em todas as ocasiões possíveis, bebe e não é exatamente um exemplo a ser seguido. Mas é ela que Tracey escolhe como modelo de vida, o que a acaba levando para um caminho aparentemente sem volta.
      

O roteiro do filme, feito a quatro mãos pela diretora e pela atriz Nikki Reed, que interpreta a má companhia Evie, não tenta buscar explicações para o que acontece, não justifica os atos das personagens e nem força um final feliz. Foi escrito com veracidade, força e energia, elementos que transparecem em cada cena. E, se o roteiro é marcante, muito mais são as atuações do elenco. Se Evan Rachel Wood aparece como uma refrescante atriz adolescente a surgir em Hollywood, é a também produtora executiva do filme, Holly Hunter (indicada ao Oscar por sua irrepreensível interpretação) que brilha a cada vez que aparece em cena, demonstrando que seu talento é inversamente proporcional a sua baixa estatura.
      
Para quem quer assistir a um filme importante mas sem o ranço politicamente correto que assola o cinema americano, “Aos treze” é garantia de 100 minutos de qualidade artística e relevância social. Imperdível.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 17 - BRASILEIRÃO

É possível reunir um roteiro decente, atuações inesquecíveis, um tema relevante e um nível técnico de primeiro mundo em um filme nacional? Até há poucos anos a resposta seria um inequívoco NÃO. Mas aos poucos o cinema brazuca anda dando mostras de um amadurecimento inconteste. E, para cada "As mães de Chico Xavier" que somos obrigados a engolir, surge um candidato a obra-prima. Mas, por mais que "Tropa de elite 2" seja merecidamente a maior bilheteria do nosso cinema até hoje, seria injusto não homenagear aquele filme que abriu definitivamente as portas para que o Brasil passasse a ser reconhecido como potencial pólo cinematográfico. Dirigido por Fernando Meirelles (hoje já em pagos hollywoodianos), "Cidade de Deus" conseguiu o que parecia impossível: agradou o público (um imenso público, diga-se de passagem), a crítica, os membros da Academia de Hollywood e todo mundo que é fã de bom cinema - além de ter legado à história um dos mais apavorantes vilões que se tem notícia, o temido Zé Pequeno...

Quanto mais eu assisto a "Cidade de Deus", mais eu gosto! Obra-prima inquestionável!

AS INVASÕES BÁRBARAS

AS INVASÕES BÁRBARAS (Les invasions barbares, 2003, Canadá, 99min) Direção e roteiro: Denys Arcand. Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Isabelle Dedieu. Música: Pierre Aviat. Figurino: Denis Sperdouklis. Direção de arte/cenários: François Séguin/Patrice Bengle, Annika Krausz. Produção: Daniel Louis, Denise Robert. Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Marie-Josée Croze, Marina Hands, Yves Jacques. Estreia: 21/5/03 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Festival de Cannes: Melhor Atriz (Marie-Josée Croze), Melhor Roteiro

Normalmente, quando vai escolher o vencedor do Oscar na categoria de Melhor Produção Estrangeira a Academia de Hollywood gosta de praticar a política de boa vizinhança ou optar por filmes de países cuja relevância política e/ou social esteja em voga no momento. Felizmente quando este “As invasões bárbaras” estava no páreo não houve nenhum tipo de polêmica. Um dos mais belos produtos cinematográficos do ano, o filme do canadense Denys Arcand emociona e faz pensar sem apelar para sentimentalismos baratos, graças a um roteiro equilibrado e atuações acima de quaisquer críticas.

Espécie de continuação de “O declínio do império americano”, realizado por Arcand em 1986 – cujos personagens retornam aqui, mais velhos e um tanto mais cínicos – o filme que ganhou dois prêmios em Cannes – roteiro e atriz (Marie-Josée Croze) – conta uma história triste e melancólica, mas com um senso de esperança raramente visto em produções comerciais, sejam elas de que país forem. E talvez justamente por tratar de temas tão universais como amor entre amigos, família e aos ideais, “As invasões bárbaras” tenha conquistado tanta atenção e provocado tantas lágrimas.

 

A trama começa quando o bem-sucedido empresário Sebastien (Stephane Rousseau), que trabalha no mercado financeiro de Londres, é chamado de volta ao Canadá por sua mãe, que o avisa que seu pai está seriamente doente, precisando de um tratamento para seus últimos momentos. O pai de Sebastien é Remy (o extraordinário Remy Girard), um professor universitário socialista que já teve seus dias de conquistador e que agora vive um casamento quase de aparência com sua nem tão compreensiva mulher. Mesmo sentindo que seus dias estão no fim, ele reluta em aceitar a ajuda do filho – que em sua concepção não passa de um materialista colonizador - em pagar seu tratamento. No entanto, as coisas começam a mudar quando recebe a visita de seu grupo de antigos amigos, todos intelectuais tentando lidar com a passagem do tempo e com a destruição de seus sonhos políticos e sociais. Entre lembranças divertidas com seus amigos e discussões ferrenhas com o filho, Remy ainda faz duas amizades no hospital: uma enfermeira paciente e dedicada e a filha de uma amiga, uma jovem viciada em heroína que encontra nele a inspiração para deixar as drogas.

O roteiro de “As invasões bárbaras” é um primor de delicadeza, inteligência e de um eruditismo que nem de longe soa como pedante. Ao confrontar suas personagens – mais maduras e consequentementes com suas próprias cargas de perdas pessoais e espirituais – com a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte, Denys Arcand de uma certa forma faz o inventário de uma geração, sem precisar apelar para lágrimas fáceis. Nem mesmo as cenas entre pai e filho, de uma beleza pungente, consegue tirar a sensação de uma pequena obra-prima sobre as coisas boas da vida. Um filme para ver e rever sempre!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ABAIXO O AMOR

ABAIXO O AMOR (Down with love, 2003, Fox 2000 Pictures, 101min) Direção: Peyton Reed. Roteiro: Eve Ahlert, Dennis Drake. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Larry Bock. Música: Marc Shaiman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Don Diers. Produção executiva: Paddy Cullen, Arnon Milchan. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Renee Zellweger, Ewan McGregor, Sarah Paulson, David Hyde Pierce, Tony Randall. Estreia: 09/5/03

Nova York, década de 60. O feminismo ainda é um ideal para a maioria das mulheres americanas, esmagadas pelo machismo latente e nada velado. É nesse ambiente um tanto em combustão que chega a escritora Barbara Novak (Renée Zellwegger), vinda do interior do país para lançar seu livro “Abaixo o amor”, onde incentiva as mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas amorosas, profissionais e – por que não? – sexuais. Contando com o apoio de sua editora e amiga Vikki Hiller (Sarah Paulson), ela quase que imediatamente vira sensação na cidade que nunca dorme, principalmente quando vai a uma rede de televisão e dá o nome de um exemplo a ser combatido pela raça fêmea: o repórter, playboy e conquistador Catcher Block (Ewan McGregor). Sentindo-se pessoalmente atingido, uma vez que sua taxa de sedução cai astronomicamente depois da declaração de Barbara, Catcher resolve então virar o jogo: assumindo o nome e a personalidade do astronauta Zip Martin, ele tenta seduzir a escritora, para assim desmascará-la como mais uma mulher que, no fundo, busca o que todas buscam: a felicidade nos braços de um homem.
     
Uma pena que esta divertida comédia romântica tenha se dado tão mal nas bilheterias americanas. Engraçada, criativa e inteligente, ela não conquistou o público ianque, tão mal acostumado a besteiras como as estreladas por rappers e afins. O filme, dirigido pelo pouco conhecido Peyton Reed, na verdade é uma bela e justa homenagem às comédias estreladas por Rock Hudson e Doris Day, nos anos 50, em que uma história de amor quase boba disfarçava, às vezes bem mal, piadas de duplo sentido embaladas em um visual exagerado e que beirava o kitsch. Está tudo isso em “Abaixo o amor”. O roteiro, com ótimos diálogos e situações rocambolescas , a direção de arte cafona e over, o figurino extremamente espirituoso, o visual retrô (a tela dividida em duas quando os personagens estão no telefone, por exemplo), a trilha sonora com standards do jazz da época (em que até Astrud Gilberto dá uma canja, cantando “Fly me to the moon”), os coadjuvantes engraçadinhos (a dupla de amigos, vivida por David Hyde Pierce e Sarah Paulson tem ótimos momentos) e a dupla central, entrosada e com boa química, divertindo-se notadamente com suas atuações afetadas (Renee ainda não havia ganho o Oscar de coadjuvante por “Cold Mountain”, mas já era uma queridinha da crítica americana), além inclusive do logotipo da Fox com seu visual anos 60 e a presença do ator Tony Randall, companheiro fixo de Day e Hudson em seus filmes do gênero.


O que não deu certo, então? Novamente, a falta de boa vontade do público, que não entrou no espírito da brincadeira, não comprou a idéia de um romance aparentemente ingênuo e com sabor de sessão da tarde das antigas. Nem mesmo o capricho da produção (com o figurino confecionado especialmente para o filme e a direção de arte espirituosa) conseguiu chamar a atenção, relegando o trabalho de Reed ao indesejável rol dos injustos fracassos comerciais. Tudo culpa de uma plateia mal-acostumada a produções formulaicas que não ousam com medo de perder público.
Afinal, só mesmo em um filme como “Abaixo o amor”, que não se preocupa com verossimilhança e bobagens do tipo, o final feliz pode ser tão debochado, irônico e até nostálgico. Um filme que merece ser descoberto e apreciado! É só entrar no clima nostálgico e se deliciar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

X-MEN 2

X-MEN 2 (X2, 2003, 20th Century Fox, 133min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter, estória de Zak Penn, David Hayter, Bryan Singer. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem e Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Avi Arad, Tom DeSanto, Stan Lee, Bryan Singer. Produção: Lauren Shuler Donner, Ralph Winter. Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Hale Berry, Famke Janssen, James Marsden, Brian Cox, Rebecca Romjin-Stamos, Anna Paquin, Ellen Page, Alan Cumming, Aaron Stanford, Shawn Ashmore. Estreia: 28/4/03

Nada como um sucesso arrebatador de crítica e público pra dar confiança a um diretor ainda hesitante. Quando dirigiu o primeiro “X-Men” Bryan Singer ainda titubeava em sua busca de agradar aos fãs – fanáticos seria uma palavra mais adequada – dos quadrinhos e atingir a uma plateia maior, cujo acesso às histórias publicadas em revistas é mais restrito. O resultado foi elogiado por gregos e troianos, rendeu milhares de dólares e deu ao cineasta – cujo talento já havia sido reconhecido massivamente com “Os suspeitos” – a confiança necessária para que, na continuação inevitável ele realmente fizesse o filme que sonhava. Da maneira que está, “X-Men 2” não é apenas o filme que ELE sonhava e sim o filme que todos os fãs esperavam ansiosamente.

Sem a necessidade de apresentar seus personagens, já conhecidos e aprovados em seus respectivos intérpretes, a trama já começa a todo vapor. A invasão da Casa Branca por um novo mutante – vivido por Alan Cumming – empurra a narrativa em várias direções, todas absolutamente bem dosadas e equilibradas pelo roteiro extraordinário. Graças a este roteiro, várias histórias paralelas começam e terminam – algumas de maneira bastante instigantes – sem que nunca nenhuma delas perca o interesse do público. Sendo assim, vemos desde o início da transformação de Jean Grey (Famke Jansen) em Fênix até a união efêmera mas crucial entre os mutantes do mal, liderados por Magneto (o esplêndido Ian McKellen) com a turma pacífica do Professor Xavier (Patrick Stewart) para impedir que as ideias malévolas do cientista William Striker (Brian Cox) os destruam. Striker, aliás, é uma das personagens mais importantes do novo longa, uma vez que tem ligação com a origem de Wolverine (Hugh Jackman, ainda roubando a cena), que finalmente tem a oportunidade de mostrar toda a sua raiva contida em cenas de mais absoluta adrenalina.




Adrenalina, aliás, é o que não falta em “X-Men 2”. Repleto de cenas espetaculares de ação – incluindo uma luta entre Wolverine e a bela e fatal Lady Letal e um clímax extremamente mais potente do que o mostrado no primeiro filme –, a obra de Singer não decepciona nem aos mais afoitos fãs do material original. E se não bastasse corrigir tudo que não era perfeito no primeiro capítulo – efeitos mais elaborados, uma duração maior, mais cenas de ação – o roteiro da segunda parte ainda se dá ao luxo de criar cenas de relevância muito maior do que poderia se esperar, dando ressonância àquele que é provavelmente o subtema mais importante de toda a série: a tolerância às diferenças, tão perfeitamente representadas pelos mutantes e de forma tão divertida.

Mostrando-se uma gloriosa exceção à regra, “X-Men 2” consegue ser ainda melhor que sua primeira parte e escancarou as portas para uma nova continuação. Um filme de ação absolutamente perfeito!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 16 - MELHOR-DURÃO-QUE-NO-FUNDO--É-CORAÇÃO-MOLE

Ele passou por western-spaghettis, por policiais setentistas e até viveu o cineasta John Huston em busca de um elefante em "Coração de caçador". Mas é como um homem sensível que Clint Eastwood atinge seu ápice como ator e personalidade. Na pele de Robert Kincaid, fotógrafo da National Geographic que entontence a dona-de-casa Meryl Streep em "As pontes de Madison", o velho e bom Eastwood já dava mostras de que por debaixo de toda aquela frieza aparente existia um coração. Mas foi como o treinador de Hilary Swank em "Menina de ouro" - que lhe deu seu segundo Oscar de direção - que ele provou que - mais que tiros - ele consegue arrancar lágrimas de esguicho de qualquer espectador com um mínimo de sensibilidade.

Eastwood é bom como durão! Mas é melhor ainda como um homem que chora!

IDENTIDADE

IDENTIDADE (Identity, 2003, Columbia Pictures, 90min) Direção: James Mangold. Roteiro: Michael Cooney. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: David Brenner. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ariane Phillips. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cindy Carr. Produção executiva: Stuart Besser. Produção: Cathy Konrad. Elenco: John Cusack, Ray Liotta, Amanda Peet, Rebecca de Mornay, John Hawkes, Alfred Molina, Clea DuVall, John C. McGinley, William Lee Scott, Jake Busey. Estreia: 25/4/03

Como fazer para transformar o que potencialmente seria mais um filme de terror ao estilo da série “Pânico”, em que pessoas morrem violentamente atacadas por um assassino misterioso, em um produto com alcance mais amplo – ou seja, um público acima de 16 anos, que normalmente lota esse tipo de produção? A resposta parece vir em “Identidade”, que, a mortes bem encenadas e um clima de puro suspense, acrescenta um elenco interessante e um roteiro que foge das resoluções fáceis que são o tiro de misericórdia do gênero.

As escolhas não óbvias de “Identidade” já começam pela escalação de seus atores. Liderando uma equipe de bons atores – ao contrário do pastiches de terror recheado de adolescentes sarados e sem conteúdo dramático – está o sempre confiável John Cusack. Na pele de Edward, o chofer de Caroline Suzanne (Rebecca de Mornay, em uma atuação auto-paródica), uma atriz decadente atrás de um novo sucesso, ele mantém a discrição, deixando que a trama, forte e assutadora o bastante, seja o principal elemento de atenção do filme. No roteiro bem orquestrado de Michael Cooney, ele e sua patroa são obrigados a parar em um hotel de beira de estrada durante uma tempestade que não arrefece. No hotel, eles travam conhecimento com um grupo de pessoas bastante diferentes em si: estão lá um jovem casal recém-casado, Giny e Louis (Cléa Duvall e William Lee Scott), a prostituta Paris (Amanda Peet), o gerente falastrão Larry (John Hawkes), um policial escoltando um criminoso (Ray Liotta e Gary Busey) e uma família cuja mãe está ferida devido a um acidente automobilístico na estrada (John C. McGinley, Leila Kenzle e o garoto Bret Loher). Presos no hotel por causa do mau tempo, eles começam a morrer misteriosamente, enquanto passam a descobrir que na verdade podem não estar ali reunidos por coincidência.

 

A atmosfera de “Identidade”, que busca surpreender a plateia não com mortes criativas e sim com viradas realmente empolgantes, é em boa parte cortesia de um visual úmido criado com cuidado pelo diretor James Mangold, que a julgar por seu currículo – ele dirigiu também o drama “Garota, interrompida” e o romance “Kate & Leopold” – transita facilmente entre os mais variados gêneros. E a criação de uma misteriosa trama paralela – onde um assassino condenado à morte (vivido pelo sempre assustador Pruitt Taylor Vince) tenta provar sua insanidade para escapar da execução – apenas soma ainda mais à tensão já existente, uma vez que tentar adivinhar como essa história aparentemente desconexa tem ligação à principal é outro exercício a que a complexa narrativa obriga a plateia, que chega aos créditos finais agradecida por ter sido tratada com um mínimo de inteligência sem que os padrões estéticos do gênero tenham sido agredidos.

Aliás, o respeito com que Mangold trata o gênero suspense é uma das maiores qualidades de "Identidade". Mesmo que seja mais inteligente do que a média, o filme não tem medo de abusar dos clichês, mas sempre tratando-os com cuidado e prendendo a atenção do público. Se a presença de John Cusack no elenco pode sugerir que ele é o herói da trama (o que não é exatamente verdade, uma vez que não há personagens 100% puros na história), o roteiro consegue surpreender com uma reviravolta bastante surpreendente (e que dá espaço para um final impactante mas um tanto forçado). Em "Identidade" nada é exatamente o que parece. E isso é que faz dele um produto capaz de agradar aos fãs do gênero e a quem gosta de um bom entretenimento.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 15 - MELHOR HORIZONTE (FOTOGRAFIA INESQUECÍVEL)

Contar uma história em imagens é uma arte. E alguns dos mais impactantes e inesquecíveis filmes contam com um diretor de fotografia como profissional essencial. Como esquecer o glorioso technicolor de "E o vento levou", por exemplo? E os coloridos gritantes dos filmes de Pedro Almodovar? E os horizontes dos westerns de John Ford?

Mas confesso que tenho uma queda por filmes em preto-e-branco, sejam eles clássicos ou contemporâneos. E uma das fotografias que mais me deslumbraram (deslumbram, deslumbrarão) é aquela que Janusz Kaminski criou em "A lista de Schindler". Parte integrante e essencial da narrativa de Steven Spielberg, ela é chocante, poética, realista mas nunca deixa de ser deslumbrante. Merecidamente premiada com o Oscar, é uma aula para qualquer diretor de fotografia. Impecável!

A VIDA DE DAVID GALE

A VIDA DE DAVID GALE (The life of David Gale, 2003, Universal Pictures, 130min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Charles Randolph. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Alex Parker, Jake Parker. Figurino: Jennifer Williams. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Renee Ehrlich Kalfus. Produção executiva: Moritz Borman, Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Cage, Alan Parker. Elenco: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney, Cleo King, Gabriel Mann, Matt Craven. Estreia: 21/02/03

Em seu currículo, o cineasta inglês Alan Parker conta com o raivoso “Expresso da meia-noite” (1978), que bradava contra o sistema jurídico e penal da Turquia e gerou controvérsias variadas na época de sua exibição. De lá pra cá, Parker novamente criou obras polêmicas (“Mississipi em chamas”), flertou com o musical (“Fama”, The Commitments, loucos pela fama" e “Evita”) e assinou um dos mais assustadores filmes de terror da história (“Coração satânico”). Dono de um talento inquestionável, ele no entanto amargou um fracasso crítico e de bilheteria com “A vida de David Gale”, que se pretendia um libelo poderoso contra a pena de morte mas acabou morrendo na praia de suas boas intenções. Com menos de 20 milhões de dólares de arrecadação nos EUA, o filme também foi ignorado nas cerimônias de premiações, apesar do elenco estelar, do tema forte e de suas qualidades, praticamente relevadas por seus detratores. 

O David Gale do título é um brilhante e respeitado professor de filosofia vivido por Kevin Spacey que vê sua vida virar de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Traído pela esposa e acusado de estupro por uma aluna mal-intencionada, ele perde o emprego e o casamento, deixando-se levar pelo desespero e por problemas com bebidas alcóolicas. Fragilizado, ele acaba se envolvendo com Constance Harraway (Laura Linney), que junto com ele faz parte de um comitê ativo contra a pena de morte. Quando Constance aparece estuprada e morta, Gale é considerado culpado e condenado à morte. Quatro dias antes da execução, ele pede para dar uma entrevista à ambiciosa Bitsey Bloom (Kate Winslet) e a jovem repórter começa a desconfiar que sua certeza acerca da culpa do professor pode estar completamente equivocada e que um inocente pode estar às vésperas de morrer por um crime que não cometeu.

 

Longe de ser um petardo emocional como “Os últimos passos de um homem”, que mexe com mais paixão no assunto da pena capital, “A vida de David Gale” deixa a emoção de lado por um bom tempo, concentrando-se nos mecanismos que levaram o protagonista à delicada situação em que se encontra. Para isso não hesita em apelar para alguns clichês do gênero policial, com reviravoltas finais e um suspense que funciona bastante bem em alguns momentos mas que carece de força em outros. É inegável, no entanto, que o seu final consegue surpreender, principalmente por não ser previsível – apesar de soar um tanto inverossímil em um primeiro olhar.
 
Também é inegável que a maior força de “A vida de David Gale” vem de seu elenco, liderado por atores há muito consagrados e admirados. Kevin Spacey nem precisa se esforçar muito pra mostrar porque é um dos melhores atores de sua geração, principalmente quando interpreta personagens pouco heróicos e bastante comuns. Laura Linney compõe sua Constance com medidas exatas entre lucidez, estoicismo e delicadeza, o que é fundamental para a compreensão de seu destino trágico. Mas é Kate Winslet quem rouba a cena. Na pele da ambiciosa repórter Bitsey Bloom, a atriz inglesa demonstra uma variedade de nuances em sua atuação, tornando crível a sua mudança de atitudes e pensamentos do início ao final do filme, o que talvez Nicole Kidman (a escolha inicial para o papel) não conseguisse com tanta facilidade.
 
“A vida de David Gale” está longe de ser uma obra-prima e nem perto de ser o melhor trabalho da carreira de Alan Parker, mas merece uma segunda chance de ser descoberto e apreciado por suas inúmeras qualidades. Produzido por Nicolas Cage, que acabou deixando o papel principal de lado (assim como o fez George Clooney), é um filme sério e adulto, que mexe com as certezas arraigadas da plateia. Não é todo mundo que faz isso!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS

COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS (How to lose a guy in 10 days, 2003, Paramount Pictures, 116min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers, livro de Michele Alexander, Jeannie Long. Fotografia: John Bailey. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: David Newman. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez. Produção executiva: Richard Vane. Produção: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst. Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth, Celia Weston, Thomas Lennon, Michael Michele, Shalom Harlow. Estreia: 07/02/03

Uma das maiores dores-de-cabeça dos produtores de comédias românticas deve ser encontrar material que pareça novidade, uma vez que é raro, dentro do gênero, que uma história já não tenha sido contada uma infinidade de vezes, mesmo que de formas variadas. Por isso, não deixa de ser compreensível que a origem de “Como perder um homem em 10 dias” seja um bem-humorado livro de auto-ajuda escrito pelas jornalistas Michelle Alexander e Jeannie Long, que analisa os erros mais graves cometidos pelas mulheres quando iniciam um relacionamento amoroso. Adaptado com um senso de humor impecável e dirigido com relativo bom-gosto por Donald Petrie, o filme fez um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 100 milhões de dólares somente nos EUA, comprovando a tese de que comédias românticas – em especial as de qualidade – têm um público cativo.

A protagonista do filme é a jornalista Andie Anderson (Kate Hudson, a eterna Penny Lane de “Quase famosos”, substituindo a primeira escolha, Gwyneth Paltrow), que sonha escrever sobre assuntos socialmente relevantes mas que não consegue convencer sua chefe (a ótima Bebe Neuwirth) a liberá-la de seus artigos fúteis na revista feminina onde trabalha. Sua chance vem quando ela recebe a promessa de escolher o tema de seu próximo texto desde que consiga, com sucesso, escrever um artigo chamado “Como perder um homem em dez dias”. Para dar veracidade a sua dissertação, Andie resolve escolher um homem ao acaso, cometer as atrocidades que as mulheres de sua geração costumam cometer e afastá-lo no prazo de pouco mais de uma semana. A vítima escolhida, no entanto, não é o que parece à primeira vista. Benjamin Barry (Matthew McConaughey) é um publicitário que tenciona dar um salto na carreira, deixando pra trás os comerciais de produtos esportivos e assumindo a conta de uma joalheria sofisticada. Para isso ele precisa provar que é capaz de manter uma relação estável por no mínimo dez dias, o prazo proposto por seu chefe para que ele demonstre a capacidade de se envolver com uma mulher. Quando conhece Andie, ele acha que seus desejos se realizaram, mas logo descobre que por trás da carinha de anjo da jovem se esconde um monstro inseguro e obsessivo.
         

Uma das grandes sacadas do filme – e elas são muitas – é deixar com que o público saiba de antemão os objetivos de seus protagonistas, fazendo com que todo mundo se divirta ao máximo com os exageros de Andie e a paciência hercúlea de Benjamin, que, logicamente, se apaixonarão perdidamente durante o percurso para atingir suas expectativas profissionais. Sendo assim, os homens se identificarão com o desespero de Benjamin em perder suas partidas de basquete e suas noites com os amigos e as mulheres rirão de si mesmas ao perceber nas atitudes tresloucadas de Andie o quanto alguns erros são praticamente imperceptíveis em se tratanto de amor.
        
Mas sem dúvida nenhuma o grande trunfo de “Como perder um homem em 10 dias” é seu casal central. Mesmo que o visual moderno e atraente conferido pelo diretor seja extremamente responsável pelo clima romântico de sessão da tarde, é a química entre McConaughey – brilhando como no início de sua carreira – e Kate Hudson – que usa e abusa de seu carisma, improvisando em muitas cenas – que faz com que o filme decole com elegância e requinte. As cenas entre os dois – tanto as românticas quanto as cômicas, em que o timing de Hudson é absolutamente perfeito – são tão deliciosas que fica difícil tirar os olhos da tela. Uma das comédias românticas mais divertidas da última década, que ainda consegue brincar com propriedade com a famosa "You're so vain", de Carly Simon (composta como indireta ao ex Warren Beatty, segundo as más línguas).

PS - Pena que o casal protagonista se empolgou tanto com o sucesso desse filme que alguns anos depois realizou o tenebroso "Um amor de tesouro"...

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 14 - BATENDO PAPO (MELHOR DIÁLOGO)

Não há como deixar Woody Allen de fora de uma lista dessas, principalmente se a questão for "melhor diálogo". Mestre das palavras, Allen sabe como ninguém fazer rir com piadas inteligentes e partir o coração como acontece na cena abaixo. O filme? "Manhattan", um dos melhores trabalhos do diretor/roteirista. E um dos meus favoritos, disparado.

Tem como não se encantar com a sequência final dessa obra-prima? Dentre tantos diálogos saborosos e poéticos, como não se emocionar com "Nem todo mundo se corrompe... Você tem que ter mais fé nas pessoas!"?

Infelizmente não consegui achar um vídeo com a cena legendada... Mas vale a pena, confiem em mim...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PREMONIÇÃO 2

PREMONIÇÃO 2 (Final destination 2, 2003, New Line Cinema, 90min) Direção: David R. Ellis. Roteiro: J. Mackye Gruber, Eric Bress, estória de J. Mackye Gruber, Eric Bress, Jeffrey Reddick, personagens criados por Jeffrey Reddick. Fotografia: Gary Capo. Montagem: Eric Sears. Música: Shirley Walker. Figurino: Jori Woodman. Direção de arte/cenários: Michael Bolton/Louise Roper. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Matt Moore, Jeffrey Reddick. Produção: Craig Perry, Warren Zide. Elenco: A.J. Cook, Michael Landes, Ali Larter, Jonathan Cherry, Keegan Connor Tracy, Justina Machado. Estreia: 31/01/03

Um dos maiores problemas de um filme original e criativo ser bem-sucedido nas bilheterias é o fato de que em seguida, obrigatoriamente, ele é seguido por uma ou mais sequências que nem sempre cumprem sua premissa original e o que é ainda pior, consegue humilhar a primeira ideia e torná-la tão estúpida quanto qualquer outra. “Premonição 2”, que dá continuidade ao sucesso do primeiro filme, lançado em 2000, não chega a destruir a reputação de seu antecessor graças a alguns bons momentos, mas poderia tranquilamente ser menos clichê e mais apavorante.

A história da continuação se passa exatamente um ano depois do início do primeiro filme. Junto a um grupo de amigos, a jovem Kimberly Corman (a fraca A.J. Cook) está indo passar um final de semana no campo quando tem a visão de um enorme engavetamento em uma rodovia expressa, que causará a sua morte e de seus companheiros. Tentando impedir a tragédia, ela apenas consegue salvar a si mesma e algumas pessoas que estavam bloqueadas por sua van, que escapam de um violento acidente que ocorre frente aos olhos de todos. Apavorados e desconcertados, os sobreviventes começam a desesperar-se, no entanto, quando eles passam a morrer em acidentes bizarros e surge a teoria de que, se eles enganaram a morte uma vez, isso não se repetirá e todos irão encontrar um final trágico muito em breve.

         

Em suma, a história de “Premonição 2” apenas repete a obra original. O que faz com que sua qualidade seja inferior é a necessidade quase adolescente do diretor e dos produtores em transformar o que era o diferencial – clima sombrio, tensão constante – em lembrança, dedicando-se quase exclusivamente em criar mortes violentas e bem mais gráficas, em detrimento de um roteiro consistente e verossímil. Apesar de contar com algumas cenas de grande impacto e suspense – apelando para medos primais como dentista e viagens em rodovias – o roteiro conta com alguns diálogos que beiram o medíocre e atuações abaixo da média. A própria conexão com o primeiro da série é bastante fraca, existindo quase que somente para justificar a volta de Clear Rivers (a tenebrosa Ali Larter). Nem mesmo o diálogo em que todas as personagens descobrem seus vínculos com a tragédia do avião mostrado no filme original consegue ser empolgante, já que não há desdobramentos nas cenas seguintes.

No final das contas, “Premonição 2” cumpre o que promete. Tem bastante sangue, muita violência, tensão à vontade e sustos nas horas certas. Mas que fica bem longe da qualidade do primeiro não há a menor dúvida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 13 - MAIOR ROUBADA CINEMATOGRÁFICA

Quem vai ao cinema com frequência sabe que assistir a filmes ruins é uma coisa da qual ninguém está livre. Nem mesmo aqueles elogiados e premiados ficam de fora dessa lista. Para ilustrar minha teoria, o meu escolhido para ser a maior roubada cinematográfica ganhou Oscar de melhor filme, diretor, ator e roteiro original, mas, a meu ver, é uma das maiores bombas dos últimos anos. Sim, estou falando de "O discurso do rei".

Festival de clichês, o filme de Tom Hopper parece ter sido feito sob medida para encantar os membros mais conservadores e preguiçosos da Academia, que o prefereriam a obras inovadoras e muito mais inteligentes, como "Cisne negro" e "A origem". Chato, previsível, visualmente pobre e exageradamente "autoajuda", é daqueles filmes que me despertaram uma única vontade na sala de cinema: sair correndo dela o quanto antes.

Me desculpem os fãs, mas pra mim, foi uma roubada tremenda.

O NOVATO

O NOVATO (The recruit, 2003, Touchstone Pictures, 115min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Roger Towne, Kurt Wimmer, Mitch Glazer. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: David Rosenbloom. Música: Klaus Badelt. Figurino: Beatrix Pasztor. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Jonathan Glickman, Ric Kidney. Produção: Jeff Apple, Gary Barber, Roger Birnbaum. Elenco: Al Pacino, Colin Farrell, Bridget Moynahan, Gabriel Macht. Estreia: 28/01/03

Revelado por Joel Schumacher no injustamente ignorado “Tigerland – A caminho da guerra”, o irlandês Colin Farrell tornou-se uma das promessas mais quentes de Hollywood. Dirigido por Steven Spielberg em “Minority Report – A nova lei” – onde atuou ao lado de ninguém menos que Tom Cruise – e co-astro de Bruce Willis no drama de guerra militar “A guerra de Hart”, Farrell contracena, em “O novato”, com um dos maiores monstros sagrados do cinema,  Al Pacino. Demonstrando uma segurança ímpar, o jovem ator faz de seu duelo com o veterano astro a maior razão para se assistir a um filme que, a despeito de não ser o filmaço que poderia, cumpre bastante bem seu objetivo de entreter. Assinado pelo mesmo Roger Donaldson do surpreendente "Sem saída" (com um Kevin Costner pré-superapreciação), "O novato" é quase formulaico, mas envolve.

No roteiro, escrito por Robert Towne, Kurt Wimmer e Mitch Glazer, Farrell vive o jovem James Douglas Clayton, um gênio da informática que complementa a renda trabalhando como bartender. Sua vida começa a mudar quando ele é procurado por Walter Burke (um Al Pacino à vontade, mas repleto dos tiques e cacoetes que o vem acompanhando há alguns anos), um chefão da CIA que o recruta para um treinamento na agência. A princípio relutante em aceitar a proposta, Clayton topa o convite quando percebe que ele pode ser a sua chance de desvendar os segredos que cobrem a morte misteriosa de seu pai, que ele acredita ter sido também agente secreto.



Levado para o campo de treinamento da agência, conhecido como “A Fazenda”,  Clayton conhece e se envolve com uma colega, a misteriosa Layla Moore (a insípida Bridget Moynahan), enquanto toma conhecimento dos esquemas e das regras que são impostas pela CIA. Depois de ter falhado em uma missão de ensaio, ele volta a sua vida normal, até que Burke mais uma vez o procura, lhe oferecendo uma missão verdadeira, mas potencialmente perigosa: descobrir o nome de um agente duplo que anda contrabandeando informações sigilosas. Entrando no jogo, o rapaz descobre que a principal suspeita é justamente a mulher por quem está apaixonado. 

A bem da verdade, “O novato” começa muito bem, com um empolgante clima de espionagem e uma edição primorosa. O treinamento dos aspirantes a agentes são de deixar qualquer um grudado na poltrona, com diálogos interessantes e atuações hipnotizantes. A segunda metade do filme, no entanto, cai na besteira de tentar surpreender a audiência, com reviravoltas nem sempre bem sucedidas e um final bastante previsível. No entanto, o carisma de Pacino e a estrela ascendente de Farrell (esbanjando charme antes de começar a se perder em inúmeras escolhas equivocadas) seguram com dignidade o rojão e transformam um policial corriqueiro em um filme acima da média.

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA

CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA (Confessions of a dangerous mind, 2002, Miramax, 113min) Direção: George Clooney. Roteiro: Charlie Kaufman, livro de Chuck Barris. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alex Wurman. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Louis Dandonneau, Anne Galléa, Robert Greenfield. Produção executiva: Stephen Evans, Jonathan Gordon, Rand Ravich, Steven Soderbergh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Sam Rockwell, George Clooney, Julia Roberts, Drew Barrymore, Maggie Gyllenhaal, Rutger Hauer. Estreia: 31/12/02

Urso de Ouro Melhor Ator (Festival de Berlim): Sam Rockwell

Normalmente o que leva um ator a assumir a cadeira de diretor é a vaidade. Somada à megalomania, ela pode levar a obras como "Dança com lobos" - que encantou milhares de pessoas e os votantes do Oscar de 1991, que o escolheram em detrimento do extremamente superior "Os bons companheiros" - ou "Coração valente" - que supreendeu todo mundo mostrando que Mel Gibson tinha mais talento como cineasta do que como ator dramático. Em 2003 um outro ator uniu-se à galeria de novos diretores - que inclui também Robert Redford, Danny DeVito, Robert DeNiro, Sean Penn, Edward Norton, Orson Welles e inúmeros outros menos cotados - e, para alívio geral, saiu-se muito melhor do que a encomenda. Já famoso como ator e galã, George Clooney assumiu as rédeas de "Confissões de uma mente perigosa", alucinante (e alucinada) versão para o cinema das memórias de Chuck Barris, um produtor de TV americano que, nas horas vagas, trabalhava como agente secreto da CIA. Brilhantemente escrito pelo demente (no bom sentido) Charlie Kaufman e apresentando um trabalho excepcional de Sam Rockwell no papel central, o filme colecionou elogios e prêmios - melhor ator no Festival de Berlim, melhor roteiro pelo National Board of Review - e confirmou Clooney como um diretor extremamente talentoso.

Dono de um apurado senso de humor, Clooney encontrou no tom sarcástico do script de Kaufman o material perfeito para sua estreia. Mesmo contando uma história séria, com toques de violência e até mesmo lances de grande dramaticidade, ele transformou seu filme em uma comédia original, criativa e imprevisível, que em nenhum momento dá pistas de tratar-se da obra de um iniciante. O ex-galã (que arrumou ainda espaço para uma participação como ator, talvez como chamariz de bilheteria) se utiliza de soluções bastante inteligentes no desenvolvimento da trama, demonstrando uma segurança ímpar. Contando ainda com a edição do experiente Stephen Mirrione (colaborador de seu amigo Steven Soderbergh), ele faz de "Confissões de uma mente perigosa" um divertido filme de espionagem onde a espionagem é quase uma coadjuvante de luxo. Nada é exatamente o que parece em seu filme, e é justamente aí que está toda a graça.



Sam Rockweel deita e rola como Chuck, um produtor de programas de televisão (criador do famoso "Namoro na TV") que é recrutado pelo misterioso Jim Byrd (Clooney) para trabalhar na CIA. A princípio pensando tratar-se de uma brincadeira, logo ele começa a perceber que está realmente envolvido em violentos trabalhos em várias partes do mundo, sempre acompanhado da bela Patricia Watson (Julia Roberts, se divertindo perceptivelmente no papel) e do sinistro Keeler (Rutger Hauer). Ao tentar equilibrar suas duas personalidades - empresário do show business e matador a serviço do governo - ele acaba entrando em um surto psicótico que o afasta da mulher que ama, Penny (Drew Barrymore).

Contando a coisa parece muito séria, mas não é. Realizado com um senso de ritmo invejável - para o que o roteiro magistral de Kaufman (que não gostou da maneira com que o cineasta tratou seu trabalho no corte final) colabora lindamente - "Confissões" não deixa a peteca cair em momento algum, surpreendendo a plateia constantemente (seja nas reviravoltas da trama ou na participação afetiva de Matt Damon e Brad Pitt em uma sequência hilariante). Fotografado com discrição por Newton Thomas Sigel (que assina a fotografia dos filmes de Bryan Singer) em tons pastéis que contrastam com o colorido exagerado dos cenários televisivos dos programas de Barris, o filme só peca em um detalhe: não é histericamente engraçado nem tampouco é um policial tradicional, e essa indecisão (ou transgressão das regras, o que soa mais apropriado) acabou lhe custando caro. Ao custo de quase 30 milhões de dólares, sua renda doméstica mal chegou aos 16. Felizmente o fracasso comercial não abalou o George Clooney diretor, que depois presentearia a plateia com filmes mais sérios e ainda mais elogiados, como "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011).

No final das contas, "Confissões de uma mente perigosa" é um dos mais empolgantes filmes de estreia que se tem notícia, que cresce a cada revisão. Quem não conhece não pode perder tempo! E, além do mais... quem pode resistir ao carinho do ator tornado diretor com a família, ao escolher uma canção de sua tia Rosemary Clooney para encerrar a projeção?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 12 - MELHOR ANO DA HISTÓRIA DO CINEMA

Já virou uma espécie de lugar-comum dizer que 1939 foi o ano de ouro de Hollywood, graças a filmes como "...E o vento levou" e "O mágico de Oz" e qualquer cinéfilo é obrigado a concordar com essa afirmação. Mas sessenta anos depois outro ano também foi de alegrar qualquer fã da sétima arte. Quem duvida que 1999 foi um ano muito especial só precisa dar uma refrescada na memória. Vamos lá?

No ano de 1999 cineastas de grande prestígio visitaram as telas: Milos Forman com sua cinebio "O mundo de Andy", com grande atuação de Jim Carrey; Paul Thomas Anderson com sua obra-prima "Magnólia"; Woody Allen com "Poucas e boas"; Pedro Almodovar com "Tudo sobre minha mãe"; Martin Scorsese com "Vivendo no limite"; David Fincher com "Clube da luta" e David Lynch com "História real".

O Oscar teve concorrentes sensacionais, como "Beleza americana" - estreia genial de Sam Mendes -, "O sexto sentido" - que revelou M. Night Shyamalan -, "O talentoso Ripley", de Anthony Minghella, "O informante", de Michael Mann, "Meninos não choram", de Kimberly Pierce, "Fim de caso", de Neil Jordan, "À espera de um milagre", de Frank Darabont e "Quero ser John Malkovich", de Spike Jonze.

Convenhamos, quantos anos tiveram a sorte de contar com tanta coisa boa???

AS HORAS

AS HORAS (The hours, 2002, Paramount Pictures, 114min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare, romance de Michael Cunningham. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Peter Boyle. Música: Philip Glass. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Philippa Hart. Produção executiva: Mark Huffam. Produção: Robert Fox, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore, Ed Harris, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Colette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Claire Danes, Allison Janney. Estreia: 25/12/02

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stephen Daldry), Atriz (Nicole Kidman), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Atriz/Drama (Nicole Kidman)

O livro pareceia infilmável. Com uma prosa densa e intimista e utilizando-se frequentemente do famigerado fluxo de consciência que torna qualquer adaptação literária para o cinema um pesadelo para os roteiristas, o romance "As horas", escrito por Michael Cunningham corria o sério risco de virar um filme hermético e pseudointelectual, daqueles que agradam à crítica mas que jamais ultrapassam seu potencial dramático. Felizmente, para a felicidade geral dos fãs, "As horas" não apenas manteve a qualidade arrasadora do romance vencedor do Pulitzer como atingiu um patamar altíssimo em termos de adaptações literárias. Dirigida por Stephen Daldry - elogiadíssimo por sua estreia no belo "Billy Elliot" - e com um elenco formado pelo melhor do melhor em Hollywood, a transposição do livro de Cunningham para as telas não poderia ter sido mais feliz.

Na verdade, o filme é tão bom que vale por três. São três histórias, sobre três mulheres em momentos cruciais de suas vidas, interligadas por sentimentos de melancolia, solidão acompanhada e insatisfação. São três existências que muitas vezes não demonstram todo o turbilhão que lhes machuca a alma. E são três atrizes espetaculares em momentos mágicos de suas carreiras, entregando atuações tão avassaladoras quanto as personagens que interpretam. Somente Nicole Kidman levou um Oscar, mas não seria nada injusto que dividisse a estatueta com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore. E alguém tem dúvidas de que, apesar de suas qualidades, o vencedor do ano, "Chicago" não tem 1/10 de seu impacto emocional e artístico?

 

"As horas" conta um dia de três mulheres divididas pelo tempo mas unidas por detalhes coincidentes (mostrados com maestria pela edição inteligente de Peter Boyle). Em 1923, em uma pequena cidade do interior para onde foi para tratar de uma forte depressão, a escritora Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível) começa a escrever seu novo romance, intitulado "Mrs. Dalloway", que conta a história de uma mulher de aparente controle emocional que está organizando uma grande festa. Quem tem aparente controle emocional e está preparando um bolo para o marido aniversariante em 1951, em Los Angeles, é a dona de casa Laura Brown (Julianne Moore, que disputou um polêmico Oscar de coadjuvante mesmo sendo tão protagonista quanto Kidman). Grávida do segundo filho, ela está lendo e se identificando com o livro deWoolf e com sua personagem-título, a tal ponto de planejar o suicídio em um quarto de hotel. E em 2001, em Nova York, a editora Clarissa Vaughan (Meryl Streep, espetacular como sempre), que vive confortavelmente com a esposa Sally (Allison Janney) - e que ganhou na juventude a alcunha de Mrs. Dalloway por causa do romance de Virginia - também está em vias de homenagear o melhor amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta e escritor premiado por sua obra. A partir dessa similaridade dramática, o roteiro delicado de David Hare tece uma teia de sutilezas comentada pela trilha sonora impiedosa de Philip Glass e por coadjuvantes nunca menos que brilhantes.

Ed Harris chegou perto de ganhar seu Oscar de coadjuvante por seu trabalho como o poeta soropositivo e com tendências suicidas que abala a estrutura de sua amiga Clarissa - "Você, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silêncio!", ele afirma em determinado momento. Claire Danes vive a filha de Clarissa, Julia, que, apesar de ter uma história mais interessante no livro tem a função de situar a mãe em um momento de crise. E Jeff Daniels brilha como Louis Waters, que envolveu-se com ele na juventude e tenta recuperar sua jovialidade iniciando um caso com um jovem aluno. No núcleo de Laura Brown, John C. Reilly exercita seu estilo cool de interpretação como o marido paciente e amoroso e Toni Collette deita e rola em uma única cena que mostra todo o seu talento, na pele de Kitty, a vizinha cuja doença aciona os mecanismos de tristeza da protagonista. E Nicole Kidman tem a valiosa companhia luxuosa de Stephen Dillane e Miranda Richardson, como o marido e a irmã de Virginia, que a tiram de seu transe criativo para mudar os rumos de sua obra-prima.

 


Na verdade, a versão cinematográfica de "As horas" é tão repleta de acertos que é difícil escolher um destaque. O roteiro conciso, poético e construído com linhas de ouro pelo dramaturgo David Hare é fiel ao estilo intelectual de Cunningham sem nunca deixar de ser também extremamente emocional. A música de Philip Glass é arrepiante, dando sustentação aos silêncios doloridos. Os diálogos são fascinantes, assim como a ideia por trás de toda a trama - que envolve assuntos tabu como suicídio, AIDS, homossexualidade sem fazer julgamentos morais. E a direção de Daldry é, talvez, uma das mais injustiçadas da história do Oscar: perder para Roman Polanski por "O pianista" chega a ser quase piada - ainda mais se pensarmos que o filme também tirou sua estatueta de roteiro adaptado.

Falar de "As horas" e de todas as suas implicações dramáticas e ideológicas - além dos elogios infindos que merecem suas atrizes centrais - nunca seria demais. Mas é fato indiscutível que é uma das melhores e mais sensacionais adaptações literárias já feitas por Hollywood. Um filme raro e inesquecível, que fica para sempre na alma do espectador.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 11 - MELHOR DRAMA

Para quem gosta, como eu, de assistir a filmes que mexam com o emocional, é difícil escolher apenas um drama para eleger como favorito. Afinal de contas, o próprio gênero já se presta a inúmeras subdivisões (drama romântico, drama de guerra, drama familiar, drama histórico, enfim....) Porém, para fazer a escolha eu levei em consideração que um bom drama não precisa necessariamente fazer chorar, mas sim permanecer na cabeça e no coração do espectador, fazendo-o adquirir uma nova visão a respeito de algum assunto ou então dizendo com melhores palavras e imagens coisas que precisam ser ditas.

Sendo assim, vou novamente ceder à contemporaneidade, ao invés de apelar aos clássicos. E mais uma vez vou citar Meryl Streep nesse meme. Afinal, ela foi a minha atriz preferida e participa do "filme mais triste". Pois é, Meryl, fazer o que se você sabe conduzir sua carreira? Dessa vez o escolhido é "As horas" (oi, Alan Raspante...)

Baseado em um romance aparentemente infilmável de Michael Cunningham (o cara é gênio, todos os seus livros são fabulosos), "As horas" se passa dentro do pensamento melancólico de três mulheres separadas pelos anos mas unidas pela insatisfação que nutrem por algo que nem mesmo elas conseguem expressar a contento (e isso que uma delas é a escritora Virginia Woolf, vivida com delicadeza pela merecida vencedora do Oscar, Nicole Kidman).

A trilha de Philip Glass é um arraso, a edição é perfeita, o roteiro é brilhante e o elenco nem precisa comentar. É obra-prima absoluta. E de acabar com qualquer cidadão com um mínimo de sensibilidade. Mora no fundo do meu coração.

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 10 - GUILTY PLEASURE

Antes que venham me apedrejar, dizendo coisas como: "Mas como é que pode, alguém que gosta de cinema clássico, Hitchcock, Billy Wilder, Visconti, etc e tal, gostar de uma bobagem dessas?" eu já me defendo: cinema não precisa ser sempre sério e revolucionário. Uma abobrinha vez ou outra é até bom, para que a gente valorize cada vez mais nomes como Woody Allen, Almodovar, David Fincher e Scorsese.

Tendo dito isso, assumo: eu adoro "As patricinhas de Beverly Hills". Sei lá, acho engraçado... e, pra quem não sabe, o roteiro tem pedigree: é uma adaptação livre de "Emma", de Jane Austen, transposto para as escolas de ensino médio americanas. Alicia Silverstone está no auge da beleza e do carisma na pele de Cher, uma adolescente mimada que, enquanto não decide para quem vai entregar sua virgindade, tenta ajudar romanticamente as pessoas à sua volta.

No elenco, além de Alicia, está a saudosa Brittany Murphy, o versátil Dan Hedaya (como seu pai) e Paul Rudd, que hoje encontrou sua turma na nova comédia americana, ao lado de gente como Seth Rogen. E a trilha sonora, por si só, já é um achado: David Bowie, No Doubt, Supergrass, Radiohead, The Cranberries e Counting Crows passam pela tela, tornando a diversão ainda mais agradável.

Ok, já podem me crucificar....

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch me if you can, 2002, Dreamworks SKG, 141min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathanson, livro de Frank Abgnale Jr., Stan Redding. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Claudette Didul, Leslie A. Pope. Produção executiva: Barry Kemp, Laurie MacDonald, Tony Romano, Michael Shane. Produção: Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, James Brolin. Estreia: 25/12/02

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original

Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.

Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.

 

Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.

É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.

"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.