sexta-feira, 30 de março de 2012

O AMOR CUSTA CARO

O AMOR CUSTA CARO (Intolerable cruelty, 2003, Universal Pictures, 100min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Robert Ramsey, Matthew Stone, estória de Robert Ramsey, Matthew Stone, John Romano. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Joel e Ethan Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Nancy Haigh. Produção executiva: Sean Daniel, James Jacks. Produção: Ethan Coen, Brian Grazer. Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Billy Bob Thornton, Geoffrey Rush, Cedric the Entertainer, Richard Jenkins. Estreia: 30/9/03

O advogado Miles Massey (George Clooney) é famoso por nunca ter perdido um único caso em sua especialidade: divórcios. Criador do mais popular pacto pré-nupcial conhecido, Massey consegue o impossível sem maiores esforços, e contando com sua defesa, os homens podem ficar tranqüilos em relação a seus bens, mesmo em ruidosas separações. A vida boa e pacata de Massey começa a dar pra trás, no entanto, quando ele tem que enfrentar no tribunal a bela Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones), que busca uma compensação financeira coerente com a humilhação de ter sido traída por seu marido. Assim que os dois se vêem, saltam fagulhas, mas Massey ainda é um profissional e ganha a causa. Sentindo-se traída, a estonteante e ambiciosa Marilyn promete vingança e usar o fascínio que ela desperta no advogado não parece estar fora de seus planos

É difícil acreditar que este filme, tão linear, simples e sem maiores arroubos de criatividade visual e de edição é um produto dos irmãos Coen. Quase nada do que fez a fama dos diretores de “Fargo” e “Arizona nunca mais” está aqui. Mas veja bem, quase nada. Ainda dá pra entrever seus delírios em detalhes, como a extraordinária seqüência em que o personagem de Clooney (claramente se divertindo em seu papel de arrogante e presunçoso advogado sedutor) impede um assassinato – uma cena, aliás, com um final irônico típico dos seus criadores. Outro detalhe nitidamente do estilo Coen de cinema: o personagem do advogado mentor de Clooney, que vive sem intestino (!!).

         

Mas o fato é que desta vez os diretores, especializados em tipos bizarros e em demolir tradicionais gêneros hollywoodianos, pegaram leve e acertadamente preferiram contar a divertida história de amor e ódio entre Miles e Marilyn sem maiores arroubos de criatividade, que poderiam desviar a atenção da vingança urdida pela vítima (uma vingança de deixar qualquer um com um baita sorriso no rosto). Outro acerto da dupla foi na escolha dos protagonistas: Clooney nunca esteve tão à vontade em cena, brincando com sua própria imagem de galã e Zeta-Jones, recém saída do Oscar de coadjuvante por “Chicago” cala a boca de qualquer detrator com uma atuação cínica, debochada e mais do que tudo, extremamente sensual. A química entre os dois é excepcional, e amparados por um roteiro engraçado e surpreendente, eles fazem de “O amor custa caro” um exemplar muitos níveis acima de seus congêneres. Bravo!

SOBRE MENINOS E LOBOS

SOBRE MENINOS E LOBOS (Mystic River, 2003, Warner Bros, 138min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Brian Elgeland, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Roger Furse (Deborah Hopper). Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard C. Goddard. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Clint Eastwood, Judy G. Hoyt, Robert Lorenz. Elenco: Sean Penn, Kevin Bacon, Tim Robbins, Laurence Fishburne, Laura Linney, Marcia Gay Harden, Eli Wallach, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark. Estreia: 23/5/03 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Clint Eastwood), Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins), Atriz Coadjuvante (Marcia Gay Harden), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Sean Penn), Ator Coadjuvante (Tim Robbins)


Às vezes Clint Eastwood mira, mira e erra feio quando resolve dirigir adaptações literárias para as telas de cinema. Foi assim com "Poder absoluto", baseado em David Baldacci e "Meia-noite no jardim do bem e do mal", que nem Kevin Spacey, John Cusack e Jude Law conseguiram salvar. No entanto, quando acerta, o veterano ator e diretor se dá muitíssimo bem. Foi assim com o belo "As pontes de Madison", inspirado no romance de Robert James Waller. E é assim também com "Sobre meninos e lobos", uma história forte e poderosa criada pelo escritor Dennis Lehane.

Ao contrário do que muitas vezes acontece em adaptações para o cinema, onde o clima e os detalhes do livro muitas vezes são sacrificados a favor de ritmo e convenções comerciais, o filme de Eastwood é bastante fiel ao estilo seco de Lehane, não se importando nem mesmo com o possível pessimismo do final. Provavelmente isso se deva bastante ao roteiro de Brian Helgeland, que já havia assumido a hercúlea tarefa de transformar as mais de 500 páginas de “Los Angeles, Cidade Proibida”, de James Ellroy em um palatável e brilhante filme de duas horas, em 1997 (pelo qual ganhou um merecido Oscar). Aqui, Helgeland teve menos trabalho, uma vez que a prosa de Lehane é seca, direta e mesmo que fuja em vários momentos da tradição do cinema policial – a construção psicológica das personagens é muito mais rica do que o comum – se presta facilmente a uma adaptação menos complexa e bem mais fiel do que normalmente se espera nesses dias em que as páginas de um livro são apenas a idéia para filmes completamente diferentes. Quem leu o livro pode esperar uma adaptação quase literal, o que, levando-se em consideração a trama formidável criada por Lehane, é uma bênção.

 

O filme começa quando três adolescentes são abordados por dois homens que se apresentam como policiais. Um dos meninos é levado por eles e é submetido por vários dias a espancamentos e abusos sexuais. Logicamente a amizade dos três rapazes sofre um abalo e eles acabam por distanciar-se. Quase trinta anos depois, no entanto, eles são obrigados a se reencontrar quando a filha adolescente de um deles, Jimmy Markum (um espetacular Sean Penn) é violentamente assassinada. Markum, que deixou uma vida de crimes pra trás para virar um pai de família, entra em desespero e deseja vingar a morte da filha. O detetive encarregado do caso é  Sean Devine (Kevin Bacon), seu amigo de infância cuja esposa o abandonou em uma crise de depressão pós-parto, e investigações feitas pelas vizinhanças do crime acabam levando tanto a polícia quanto Markum e seus violentos companheiros de farra ao nome de Dave Boyle (Tim Robbins), que superou o trauma que lhe marcou a infância casando com Celeste (Márcia Gay Harden), a prima da segunda esposa de Markum, Annabeth (Laura Linney). Julgando que Boyle é o assassino, resta a Sean impedir que Markum cometa um ato de vingança com as próprias mãos.
        
O grande diferencial de “Sobre meninos e lobos” é sem dúvida o teor psicológico de suas personagens. Ao invés de dedicar-se somente à investigação do asssassinato da jovem Katie (Emmy Rossum) – cujo desfecho chocante só confirma o alto nível de verossimilhança da trama – o roteiro de Helgeland trata de temas como amizade, confiança, traumas de infância e destino com uma precisão cirúrgica. Não há cenas desnecessárias nem personagens descartáveis em suas mais de duas horas de duração. Cada peça no jogo proposto por Eastwood tem sua devida importância, nem que ela seja revelada apenas em suas dramáticas cenas finais, cujo peso conta com a ajuda da edição eficaz de Joel Cox e da atuação de seus (grandes) atores.
        
Apesar de Laura Linney estar mal-aproveitada (culpa do papel pequeno) e Marcia Gay Harden exagerar um pouco na performance como a catalisadora da tragédia final (mesmo tendo sendo indicada ao Oscar de coadjuvante), “Sobre meninos e lobos” é sobretudo um filme de personagens fortes, defendido por atores de talento inquestionável. Kevin Bacon foi injustamente deixado de lado nas premiações, mas tanto Tim Robbins quanto Sean Penn levaram merecidos Oscar por seus desempenhos. O embate final entre os dois, quando Markum confronta Boyle sobre a morte de sua filha é dolorosamente real e cruel, digno de figurar entre as cenas antológicas da carreira de ambos.
        
Um poderoso estudo sobre o poder do destino e das conseqüências de atos aparentemente insignificantes, “Sobre meninos e lobos” é um dos melhores filmes de Clint Eastwood e um dos policiais mais inteligentes e sérios já realizados. É triste e é pesado, mas é um inesquecível trabalho de um grande diretor cercado por grandes atores e trabalhando sobre um roteiro espetacular.

quarta-feira, 28 de março de 2012

SOB O SOL DA TOSCANA

SOB O SOL DA TOSCANA (Under the Tuscan sun, 2003, Touchstone Pictures, 113min) Direção: Audrey Wells. Roteiro: Audrey Wells, livro de Frances Mayes. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Arthur Coburn, Andrew Marcus, Todd E. Miller. Música: Christophe Beck. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte/cenários: Stephen McCabe/Nick Evans, Mauro Passi, Cinzia Sleiter. Produção executiva: Laura Fattori, Mark Gill, Sandy Kroopf. Produção: Tom Sternberg, Audrey Wells. Elenco: Diane Lane, Raoul Bova, Sandra Oh, Lindsay Duncan, Mario Monicelli, Pawel Szadja. Estreia: 26/9/03

Filmes de mulheres. Talvez um gênero, talvez um preconceito, talvez uma classificação justa. Mas o fato é que filmes como “Sob o sol da Toscana” parecem ter sido feitos para encaixar-se nesse rótulo um tanto limitatório. Afinal, quem, além de mulheres podem se interessar por filmes cuja protagonista é uma mulher abandonada que tenta reconstruir sua vida em outro país, com paisagens deslumbrantes como cenário? A resposta não é tão óbvia assim. O filme de Audrey Wells pode ter apelo ao público feminino, sim, mas quem gosta de uma boa história contada com certa dose de humor e não tem medo de parecer “sensível demais” pode encantar-se com ele.

Estrelado por uma Diane Lane cada vez mais bonita e melhor atriz, “Sob o sol da Toscana” é baseado no livro de Frances Mayes, que utilizou sua experiência de vida para contar a sua história, adaptada com carinho e sensibilidade pela diretora do filme. Lane vive a própria Frances, uma escritora de 35 anos que tem sua vida virada de cabeça pra baixo quando descobre um caso extra-conjugal do marido. Divorciada e contando apenas com a sua parte em dinheiro do apartamento que possuía com ele, Frances fica arrasada, mas é praticamente obrigada por duas amigas a fazer uma viagem à Toscana em uma excursão gay. Assim que chega à Itália, no entanto, a triste e derrotada Frances toma uma decisão surpreendente: compra uma pequena villa, a reforma e recomeça uma nova vida, tentando esquecer seu casamento fracassado. Em pouco tempo, a deprimida Frances faz novos amigos – inclusive os homens que a ajudam a reformar sua casa e um casal de jovens que se descobre apaixonado – e descobre que o tempo é um santo remédio para curar desastres amorosos. Quando ela se apaixona pelo sedutor Marcello (Raoul Bova) seus problemas, que pareciam encerrados, iniciam um novo capítulo, no entanto.
         

Tudo bem que a história encorajadora contada no livro e no filme soe como auto-ajuda e que o tema seja água-com-açúcar na maior parte do tempo. Mas o fato é que “Sob o sol da Toscana” nunca é exagerado. O sofrimento de Frances não exige lágrimas apesar de ser palpável, graças ao excelente trabalho de Diane Lane. As cenas românticas nunca caem no clichê de mãos entrelaçadas e meia-luz. Nem mesmo o final é exatamente o que poderia se esperar, ainda que seja esperançoso e feliz como se deseja de um filme do gênero. E as tramas paralelas nunca tiram o foco da protagonista, que encanta a todos e é encantada por eles – em especial a ótima personagem de Claudia Gerini, que insiste em dizer que trabalhou com Federico Fellini.
 
Fotografado com generosidade por Geoffrey Simpson – que nem teve muito trabalho, a julgar pelos belíssimos cenários naturais da Toscana – e dirigido com leveza por Audrey Wells – talvez se fosse dirigido por um homem fosse menos delicado e menos interessante – “Sob o sol da Toscana” é um filme apaixonante de verdade e que ainda conta com a participação especialíssima do veterano Mario Monicelli.

terça-feira, 27 de março de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 23 - MELHOR DR

Poucos cineastas conseguem conduzir tão bem cenas de diálogos afiados quanto Mike Nichols. Em 1966, deu o Oscar a Elizabeth Taylor pelo ácido "Quem tem medo de Virginia Woolf?", onde ela atua ao lado do então marido Richard Burton (e ambos soltam cobras e lagartos um para o outro). Em 2004, Nichols voltou à carga com a adaptação cinematográfica de outra peça de teatro genial por seu texto cruel: "Closer, perto demais" teve a sorte de contar com um elenco impecável - Julia Roberts, Jude Law e os vencedores do Golden Globe Clive Owen e Natalie Portman - para narrar as entranhas de dois relacionamentos complicados (ou seriam quatro?)

É impossível não ficar com a respiração suspensa na cena mais sensacional do filme, quando tanto Anna (Roberts) e Larry (Owen) quanto Dan (Law) e Alice (Portman) tentam resolver suas vidas na base da conversa (ou da briga, ou das lágrimas). É uma cena dirigida habilmente que nunca mais sai da cabeça do espectador.

MINHA VIDA SEM MIM

MINHA VIDA SEM MIM (My life without me, 2003, El Deseo S/A, 106min) Direção: Isabel Coixet. Roteiro: Isabel Coixet, romance "Pretending the bed is a raft", de Nanci Kincaid. Fotografia: Jean-Claude Larrieu. Montagem: Lisa Robison. Música: Alfonso Vilallonga. Figurino: Katia Stano. Direção de arte/cenários: Carol Lavallee/Shelley Bolton. Produção executiva: Agustin Almodovar, Pedro Almodovar, Ogden Gavanski. Produção: Esther García, Gordon McLennan. Elenco: Sarah Polley, Scott Speedman, Mark Ruffalo, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Alfred Molina, Leonor Watling, Deborah Harry. Estreia: 10/02/03 (Festival de Berlim)

Se você fosse uma jovem de 23 anos com um sub-emprego, um marido amoroso mas sem maiores ambições, duas filhas pequenas, morasse em um trailer e descobrisse que tem uma doença que a matará em poucos meses, o que você faria? Contar à família e aproveitar os últimos momentos com as pessoas que ama? Entregar-se ao destino com uma boa dose de auto-indulgência? Não se seu nome for Ann e você for a protagonista de “Minha vida sem mim”, belo drama dirigido pela espanhola Isabel Coixet e produzido pela El Deseo, dos irmãos Almodovar. Vivida por Sarah Polley, a personagem central do filme, baseado em um conto de Nanci Kincaid não apenas esconde sua doença da famíllia como decide resolver as vidas das pessoas a sua volta antes do fim da sua própria. No meio do caminho, claro, também tem como objetivos experimentar o que nunca teve a oportunidade de viver.

Além de fravar fitas para serem entregues a suas filhas até que completem 18 anos, Ann ainda quer reencontrar o pai presidiário (Alfred Molina em participação pequena mas importante), resolver seu problemático relacionamento com a mãe (a ótima Deborah Harris, vocalista da banda oitentista Blonde), consertar a autoestima de sua colega de trabalho (Amanda Plummer fantástica) e arrumar uma subsituta para as filhas e o marido, o esforçado Don (Scott Speedman) - tarefa que lhe parece simples quando conhece a enfermeira que vai morar ao lado de seu trailer (Leonor Watling, de "Fale com ela", dona de uma cena avassaladora). No meio tempo em que vai trabalhando para alcançar seus objetivos, ela se envolve com o romântico Lee (Mark Ruffalo, em um trabalho doce e delicado), mesmo sabendo que seu caso de amor tem data marcada para acabar.

 

Se “Minha vida sem mim” foge do padrão lacrimoso dos filmes sobre doença deve muito à direção segura e criativa de Isabel Coixet. Ao intercalar cenas do mais absoluto nonsense em meio a outras de partir o coração, Coixet dá tempo ao espectador para que ele se recupere das lágrimas enquanto se envolve e entende os sentimentos da protagonista, que teve a juventude interrompida por um casamento precoce e a criação de uma família feliz mas longe da idealizada. Nem mesmo o seu questionável romance extra-conjugal consegue atrapalhar a empatia do público, principalmente porque a atuação sensível da canadense Sarah Polley - revelando-se uma atriz de grande alcance – torna seus atos aceitáveis e compreensíveis.

Não dá para fugir das inevitáveis lágrimas ao final de "Minha vida sem mim". Mas ao menos elas são provocadas por sentimentos realmente humanos e viscerais, sem o apelo de uma trilha sonora exagerada ou um roteiro forçado. O choro que o filme de Isabel Coixet desperta é devido à beleza da história e de suas personagens, tão reais quanto a vida. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 22 - SO YOU THINK YOU CAN DANCE (MELHOR MUSICAL)

Que me perdoem Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rogers e todos aqueles verdadeiramente artistas que fizeram a glória dos musicais clássicos, mas se existe um representante do gênero que nunca me cansa e sempre me empolga/excita/emociona é "Moulin Rouge", do australiano Baz Luhrmann. Ok, os puristas podem urrar de desgosto com a cornucópia de cores, movimentos de câmera e barulho, mas a versão século XXI do gênero é realmente exagerada e cafona como quer seu diretor - que já havia desafiado os conservadores com sua visão lisérgica de "Romeu e Julieta" cinco anos antes.

Misturando Madonna, Nirvana, Elton John, Paul McCartney, David Bowie com espartilhos, coreografias divetidas e um tom de vaudeville, "Moulin Rouge" é brega e emocionante como o amor em si. E Ewan McGregor e Nicole Kidman nunca estiveram tão encantadores...

IGUAL A TUDO NA VIDA

IGUAL A TUDO NA VIDA (Anything else, 2003, Dreamworks SKG, 108min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Benny Medina, Jack Rollins, Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Jason Biggs, Christina Ricci, Danny DeVito, Stockard Channing, Jimmy Fallon, Adrian Grenier. Estreia: 16/9/03

Woody Allen pode ser acusado de tudo, menos de ser desatento às novas gerações de atores que frequentam as telas de cinema. Um belo exemplo dessa afirmação é "Igual a tudo na vida", uma comédia romântica deliciosa e bastante engraçada na qual ele cede o espaço de protagonista ao até então limitado Jason Biggs, reservando para si um papel de simples coadjuvante - ainda que, no entanto, ele seja o dono das melhores e mais divertidas linhas de diálogo de um filme repleto de tiradas irresistíveis.

Biggs, mais conhecido por seu papel como protagonista do popular mas apelativo "American pie" teve a chance de sua carreira como Jerry, um jovem comediante que está com o relacionamento em crise (ecos dos antigos papéis de Allen?). Sua namorada é a aspirante a atriz Amanda (vivida por uma excelente Christina Ricci), bela e desequilibrada e que não consegue mais ter prazer sexual com o namorado. Pressionado por seu agente (Danny De Vito vivendo ele mesmo novamente, mas sempre bem) para encontrar o caminho certo para o sucesso, Jerry ainda precisa lidar com a visita da sogra (Stockard Channing roubando a cena), que resolve se mudar de mala e piano para seu minúsculo apartamento, com a intenção de pedir-lhe que a ajude a voltar aos palcos em um show musical. Desesperado com todas essas situações quase calamitosas à sua volta, o rapaz ainda ouve os conselhos de um roteirista mais experiente, David Gobel (o próprio Allen), que tem uma visão toda própria do mundo em que vive.     
 


Pouco compreendido tanto pela crítica quanto pelo público, "Igual a tudo na vida" é um dos trabalhos mais característicos do diretor nova-iorquino. Com diálogos hilariantes - especialmente aqueles entre Christina Ricci e Jason Biggs e deste com Allen - e insights divertidíssimos e inteligentes sobre a vida e o amor, o roteiro é dos mais equilibrados do cineasta, fugindo do estigma de diretor hermético e elitista. Ao centrar-se em poucas personagens, ele consegue ser sucinto e dar uma visão humana e delicada das relações amorosas, sem, no entanto, deixar de fazer rir nas horas certas.

Mas, apesar do texto engraçadíssimo, é mais uma vez na escalação do elenco que Allen surpreende. Se Jason Biggs não brilha como poderia, ao menos não compromete - e depois voltou a ser ator de um papel só. E Christina Ricci simplesmente rouba descaradamente todas as cenas em que aparece. Tudo bem que sua personagem é rica e dona de frases perfeitas, mas é a atuação da ex-menina prodígio que eleva Amanda a um patamar acima de mais uma garota neurotica, transformando-a em uma cativante e humana personagem que seduz a todos à sua volta. Uma atriz brilhante em um papel sob medida, que bem merecia ter sido lembrada pelo Oscar.

domingo, 25 de março de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 21 - PRETO NO BRANCO (MELHOR NOIR)

Billy Wilder na direção, trama escrita por James Cain e roteirizada por Raymond Chandler, Barbara Stanwyck e Fred McMurray liderando o elenco, uma fotografia extraordinária de John Seitz e sete indicações ao Oscar. Parece de "Pacto de sangue" nasceu para ser o noir por excelência e é impossível citar o gênero sem que seu nome venha imediatamente à cabeça. Nem a versão um tanto mais eurótica que John Hustou lançou no início da década de 80 - estrelada por Jack Nicholson e Jessica Lange - chega aos pés dessa verdadeira aula de cinema.

Quando menos se souber sobre sua estória, melhor, acreditem em mim. Basta dizer que suas reviravoltas são empolgantes, sua direção impecável e sua fotografia das melhores dos anos 40 - e provavelmente da história do cinema americano. Imperdível!

ENCONTROS E DESENCONTROS

ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in translation, 2003, Focus Features, 104min) Direção e roteiro: Sofia Coppola. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Sarah Flack. Música: Kevin Shields. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett, Anne Ross/Mayumi Tomita. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Fred Roos. Produção: Sofia Coppola, Ross Katz. Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris. Estreia: 29/8/03 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sofia Coppola), Ator (Bill Murray), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Bill Murray), Roteiro

Filmes sobre pessoas solitárias que se encontram em determinado momento de suas vidas e passam por transformações são moeda corrente dentro dos clichês dramáticos hollywoodianos. Por que então um filme pequeno, discreto e tão sutil quanto “Encontros e desencontros” causou tanto auê entre a crítica e o público de bom gosto? A resposta mais óbvia poderia acusar a nobreza do sangue de sua diretora – Sofia Coppola é filha do veterano Francis Ford, aqui atuando como produtor executivo. Mas o fato é que nem mesmo o prestígio do velho e bom Coppola seria capaz de sobrepujar-se à delicadeza, inteligência e humor melancólico do segundo filme de sua filha. Ao falar da natureza inerentemente solitária dos seres humanos e de que como pessoas tão diferentes podem cruzar nossas vidas e fazê-las menos comuns, a pequena obra-prima de Sofia comove, faz rir e de quebra apresenta um trabalho de atuação irrepreensível de Bill Murray, merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator.


Murray abandona – pero no mucho – a persona de palhaço que forjou em quase toda a sua carreira no papel de Bob Harris, um ator decadente e em crise de meia-idade que vai ao Japão para gravar um comercial de whisky. Sozinho e incapaz de lidar com as diferenças culturais do país do sol nascente, ele entra em uma fase de isolamento total até que conhece, no hotel onde está hospedado, a jovem Charlotte (Scarlett Johansson), mulher de John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo profissional que dedica-se mais ao trabalho que ao casamento. Recém-formada em Filosofia, Charlotte sente-se abandonada em Tóquio e logo ela e Bob iniciam uma amizade baseada unicamente no fato de serem dois seres humanos totalmente fora de seus universos particulares. Conhecendo a noite da cidade eles passam também a conhecer um ao outro e surge um relacionamento forte e honesto entre eles.



Dificilmente “Encontros e desencontros” pode ser considerado um drama romântico, uma vez que o relacionamento entre Bob e Charlotte passa longe do romantismo barato e recheado de lugares-comuns dos filmes do gênero. O amor que surge entre eles não é um amor que necessite de consumação física – mesmo quando passam a noite juntos, eles apenas dormem, comprovando a intimidade entre eles acima de qualquer noite tórrida de sexo. O amor que sentem um pelo outro é um amor entre duas pessoas conectadas por algo mais do que simplesmente carne. Talvez por isso, por essa delicadeza de sentimentos, o filme de Sofia tenha incomodado tanta gente e encantado outro tanto. Não há diálogos forçados no roteiro premiado com o Oscar, ainda que muitos deles sejam engraçados. E é aí que entra em cena outra qualidade do filme.

Os diálogos repletos de frescor e simplicidade escritos por Sofia Coppola soam verdadeiros e não como frases de efeito. Recitados por Johansson e um Bill Murray inspiradíssimo, eles são como música para ouvidos tão mal acostumados a cenas escritas com petulância e má-vontade. E nem mesmo as sequências cômicas parecem exageradas ou descartáveis, permitindo a Murray que ria de si mesmo com a melancolia que seu personagem exige. Uma melancolia, aliás, que perpassa todo o filme, que ainda permite ao espectador uma visão ampla de um país que mistura com precisão a tecnologia e a modernidade com o orgulho às tradições mais ancestrais.
  
Uma pérola delicada e sutil, “Encontros e desencontros” ainda tem a coragem de encerrar sua história com um misterioso adeus entre seus protagonistas ao som da bela “Just like honey”, da banda Jesus & Mary Chain. A frase que Bob Harris sussurra ao ouvido de sua querida Charlotte pode não ser ouvida pelo público, mas fica ressoando por um bom tempo depois do final da obra-prima de Sofia Coppola.

sábado, 24 de março de 2012

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 20 - MELHOR COMÉDIA ROMÂNTICA

Quais são os ingredientes essenciais para que se tenha uma boa comédia romântica, daquelas que extrapolam as limitações do gênero para tornarem-se clássicas por si mesmas? Um casal com boa química, é claro. Um roteiro romântico e engraçado ao mesmo tempo, para dar equilíbrio. Cenários naturais deslumbrantes sempre ajudam, e se for Nova York melhor ainda. Personagens verossímeis também são importantes, para que as pessoas consigam se identificar. Uma trilha sonora atemporal também ajuda. E, at last but no least... uma cena destinada a antologias de cinema.

Todos os ingredientes acima fazem parte da receita de "Harry & Sally, feitos um para o outro", uma das mais deliciosas comédias românticas da história de Hollywood. Um texto afiado de Nora Ephron, uma direção sensível de Rob Reiner, uma dupla central acima de quaisquer dúvidas - Meg Ryan tornando-se expert no assunto e Billy Cristal em seu melhor papel até hoje -, uma trilha sonora de standards do jazz (influência de Woody Allen) e uma Manhattan deslumbrante batem ponto no filme que é referência absoluta ao gênero.

A cena antológica? O falso orgasmo no restaurante lotado, ora essa...

SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA

SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA (Freaky friday, 2003, Walt Disney Pictures, 97min) Direção: Mark Waters. Roteiro: Heather Hach, Leslie Dixon, romance de Mary Rodgers. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Bruce Green. Música: Rolfe Kent. Figurino: Genevieve Tyrrell. Direção de arte/cenários: Cary White/Barbara Haberecht. Produção executiva: Mario Iscovich. Produção: Andrew Gunn. Elenco: Jamie Lee Curtis, Lindsay Lohan, Mark Harmon, Harold Gould, Chad Michael Murphy, Stephen Tobolowski, Ryan Malgarini, Willie Garson. Estreia: 06/8/03

Essa história já foi contada e recontada tantas vezes que é difícil entender como algum estúdio tem a coragem de insistir em apresentá-la de tempos em tempos. Muda-se o diretor, o elenco e algum elemento da trama central, mas o essencial, de tão conhecido do grande público já é uma espécie de domínio público. O que levou, então, essa enésima versão da troca de corpos entre mãe e filha a arrecadar mais de 160 milhões de dólares no mercado americano? Levando-se em consideração o ano de  lançamento de "Sexta-feira muito louca" - 2003 - só um nome explica o sucesso: Lindsay Lohan.

Antes de tornar-se um problema para os estúdios, envolvendo-se em escândalos que pouco a pouco foram minando a sua carreira, a jovem Lindsay Lohan parecia ter um futuro brilhante em terras hollywoodianas. Aos 11 anos estrelou a versão anos 90 de "Operação cupido" (na pele de duas irmãs gêmeas criadas separadamente que resolvem juntar seus pais) e o sucesso do filme serviu para que os estúdios Disney passassem a considerá-la a nova Jodie Foster (que não por acaso também começou a carreira no mesmo tipo de filme, estrelou uma versão de "Sexta-feira muito louca" nos anos 70 e recusou o papel de mãe nessa versão século XXI). O apelo de Lohan junto ao público jovem foi comprovado com a enorme bilheteria do filme de Mark Waters (com quem voltaria a reunir-se em seguida em outro êxito, "Meninas malvadas"), que acabou até mesmo rendendo à Jamie Lee Curtis uma indicação ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical do ano.



Na verdade, apesar de Lohan ser talentosa e carismática, é Lee Curtis quem realmente faz de "Sexta-feira muito louca" um programa divertido e agradável. Mesmo que nunca almeje mais do que ser uma sessão da tarde descerebrada, o filme de Waters proporciona à filha de Tony Curtis e Janet Leigh mais uma possibilidade de mostrar que quando tem um bom papel nas mãos é capaz de transformar qualquer bobagem em um produto palatável e acima da média. Foi assim em "Um peixe chamado Wanda" e em "True lies", onde roubou a cena de Arnold Schwarzenegger e faturou um merecidíssimo Golden Globe. É assim também aqui, onde ela demonstra divertir-se como nunca na pele de Tess Coleman, uma workaholic que, às vésperas de seu segundo casamento, acorda no corpo de Anna, sua filha adolescente.

Como acontece a troca de corpos que dá início à ação é o de menos: naquele tipo de situação que ocorre somente em filmes hollywoodianos, mãe e filha discutem em um restaurante chinês e, graças a um biscoito da sorte oferecido a elas pela velha proprietária do lugar, transmutam-se uma na outra justamente em um dia crucial de suas vidas: não apenas Tess vai casar-se com o charmoso Ryan (Mark Harmon) como Anna tem a grande chance de classificar sua banda de rock para um concurso de grandes proporções - além de justamente nesse dia seu grande amor, Jake (Chad Michael Murray), resolver procurá-la.

"Sexta-feira muito louca" não oferece nada mais do que um bom par de horas de divertimento saudável e com o carimbo Disney. É uma sessão da tarde típica, para assistir-se deitado no sofá, com um balde de pipocas e uma lata de refrigerante nas mãos. A química entre Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan é perfeita, há piadas realmente engraçadas e nada é muito crível. Mas nem sempre é necessário ser sério, não é verdade?

UM MÊS, 31 FILMES - DIA 19 - MELHOR FAROESTE

Gênero americano por natureza, o western tem seu panteão de heróis próprios, onde pairam soberanos nomes como John Wayne, John Ford e o Clint Eastwood, que tornou-se respeitado como cineasta ao forjar o réquiem definitivo do estilo, "Os imperdoáveis" - cujo sucesso deflagrou, por pura ironia, uma nova onda de interesse por histórias que exigem descampados fotografados com precisão, cavalos e heróis acima do bem e do mal (ainda que a partir da década de 90 o revisionismo do gênero mudou muito as coisas... pra pior).

Mas, por mais que Eastwood mereça todo o respeito, western, pra mim remete diretamente à dupla John Ford/John Wayne. E a quintessência do gênero é "Rastros de ódio", que apresenta todos os clichês possíveis (que ainda eram apenas elementos narrativos). Estão no filme de Ford a violência, a beleza do Monument Valley, o maniqueísmo que sobrepujava os índios em detrimento dos brancos e o próprio John Wayne em papel ícônico.

E além de tudo, é um baita filme, daqueles que prendem a atenção até o final (apesar de alguns elementos cômicos que poderiam ter sido deixados de lado).

LISBELA E O PRISIONEIRO

LISBELA E O PRISIONEIRO (Brasil, 2003, Globo Filmes,106min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Pedro Cardoso, Jorge Furtado, peça teatral de Osman Lins. Fotografia: Uli Burtin. Montagem: Paulo Henrique Farias. Música: João Falcão, André Moraes. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte: Claudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Tereza Gonzalez, Mauro Lima, Ivan Teixeira. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Selton Mello, Débora Falabella, Marco Nanini, Virginia Cavendish, Bruno Garcia, Tadeu Mello, André Mattos, Lívia Falcão. Estreia: 22/8/03

Empolgado com a gigantesca receptividade de seu “O auto da Compadecida” – que nasceu como minissérie de TV e foi parar nas telas de cinema com igual sucesso – o diretor Guel Arraes não quis se arriscar em seu trabalho seguinte. Utilizando-se dos mesmos elementos que consagraram “Compadecida”, a comédia romântica “Lisbela e o prisioneiro” atinge um grau bastante louvável de acertos, ainda que seu diretor não tenha conseguido livrar-se totalmente dos tiques que traem sua inconfundível origem televisiva.

Baseado em uma peça de teatro escrita por Osman Lins – e que Arraes já havia adaptado para a TV na década de 90 em formato de especial – “Lisbela e o prisioneiro” conta a divertida história de amor entre Leléu (o sempre ótimo Selton Mello) e Lisbela (a bela e delicada Débora Falabella) no Nordeste brasileiro. Ele é um mascate que freqüenta cidades do interior enganando moradores e seduzindo esposas alheias. Ela é a filha única de um delegado viúvo (vivido com graça por André Mattos) e que sonha em viver um grande amor como os dos filmes a que assiste no cinema ao lado do noivo, o arrogante Douglas (Bruno Garcia, impagável). Quando os dois se encontram logo caem de amores um pelo outro, mas terão muitos obstáculos pela frente até poderem viver felizes para sempre.



Na verdade, gostar de “Lisbela e o prisioneiro” não é difícil. O roteiro – co-escrito pelo diretor, pelo cineasta Jorge Furtado e pelo ator Pedro Cardoso – é engraçado, ágil e esperto, valorizando sempre o que há de mais divertido em cada cena; a trilha sonora é uma personagem à parte, ainda que Arraes exagere em sua utilização em determinados momentos – a bela “Você não me ensinou a te esquecer”, gravada por Caetano Veloso tornou-se hit – e Guel é, sem dúvida, um diretor criativo e inteligente, que explora com sabedoria um elenco exemplar. Enquanto Selton Mello mais uma vez se mostra um dos melhores atores de sua geração e Débora Falabella encanta com a meiguice de sua personagem, a galeria de coadjuvantes ameaça roubar a qualquer cena em que aparecem, e isso serve tanto para intérpretes de papéis verdadeiramente pequenos – como Tadeu Mello, engraçadíssimo como um guarda em vias de consumar seu casamento fajuto – quanto para monstros sagrados como Marco Nanini, que engole tudo à sua volta na pele do matador Frederico Evandro, que busca limpar sua honra assassinando Leléu.

O problema de “Lisbela e o prisioneiro” – e pode-se dizer que é o único, ainda que bastante grande – é que ele ainda se demonstra muito preso à estética da televisão. Em inúmeros momentos, a impressão que se dá é que o público está diante de um especial global, tal a sucessão de assinaturas do veículo, como o excesso de closes e a trilha sonora que, apesar de bem produzida, acentua a impressão de ter sido criada apenas com a intenção de vender CDS. O exagero em tramas paralelas – o que inclui a desnecessária personagem de Virginia Cavendish como uma apaixonada por Leléu – tampouco ajuda o filme, trancando o desenvolvimento da história central e estendendo a duração sem que haja necessidade para tanto.

“Lisbela e o prisioneiro” é um típico produto de seu diretor. Para bem ou para o mal, Guel Arraes consolida uma maneira de filmar que aproxima o Brasil dos brasileiros de forma leve, engraçada e leve, sem o peso – necessário, por vezes – de obras sisudas e aclamadas como “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”. É uma vertente das mais populares da retomada do cinema nacional, mas corre o risco de repetir-se indefinidamente.