sexta-feira, 20 de julho de 2012

MÁ EDUCAÇÃO


MÁ EDUCAÇÃO (La mala educacion, 2004, El Deseo S.A., 106min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Maria Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: AlfredoIglesias. Figurino: Paco Delgado, Jean-Paul Gautier. Direção de arte/cenários: Antxon Gomez/Pilar Revuelta. Produção executiva: Esther Garcia. Produção: Agustín Almodovar, Pedro Almodovar. Elenco: Gael García Bernal, Fele Martinez, Lluis Homar, Javier Camara, Francisco Boira. Estreia: 19/3/04

Depois de três obras-primas consecutivas - "Carne trêmula", "Tudo sobre minha mãe" e "Fale com ela" - o cineasta espanhol Pedro Almodovar sofreu seu primeiro revés artístico com este "Má educação", que dividiu a crítica e até mesmo seu público fiel, que recuou um tanto assustado diante do tom quase pessimista impresso pelo diretor. No entanto, ao conseguir fugir gloriosamente das amarras de um gênero tradicionalmente fechado em si mesmo - o suspense - Almodovar na verdade entregou mais um de seus inquietantes trabalhos, com um roteiro impecável e atuações memoráveis, que merecem desde já figurar entre seus grandes momentos.

Na verdade “Má educação” é difícil de classificar e até mesmo de resumir, bem como seus trabalhos anteriores. A ação começa em 1980 quando o cineasta Enrique Gaded (Fele Martinez) recebe a visita de um jovem ator chamado Angel Andrade (Gael Garcia Bernal). Na verdade, Angel se chama Ignácio Rodriguez e foi colega de Enrique nos anos 60, quando ambos eram crianças e estudavam em um internato para meninos dirigido por um padre pedófilo chamado Manolo. Ignacio procura Enrique para oferecer-lhe os direitos de um conto baseado em sua história de amor interrompida pelo antigo padre, que largou a batina. Enrique resolve filmar a estória de Ignacio, mas uma investigação o leva a descobrir que o jovem ator não é exatamente quem diz ser, e a partir daí a trama se reparte em três: as filmagens do longa de Enrique, a história escrita por Ignacio e a verdade sobre o que realmente aconteceu na vida dos protagonistas.

        

Trabalhando em um roteiro repleto de camadas, em que nada é o que parece ser no primeiro momento, Almodovar construiu uma trama capaz de confundir e fascinar na mesma medida. Mesmo sem a intenção consciente de deixar a sua audiência perdida, o cineasta vai e volta no tempo, mistura personagens e entrega detalhes de seus personagens aos poucos, permitindo ao público descobrir lentamente as motivações que empurram todos em direção a um final melancólico, sim, mas coerente e realista. Tudo isso sem deixar de lado suas características visuais que o firmaram como referência no cinema europeu.

Erroneamente divulgado como um filme anticlerical e que versaria tão somente sobre abuso sexual entre padres e coroinhas, a obra de Almodovar - que é muito mais complexa do que esse rótulo moralista e reducionista faz pensar - caiu no limbo entre o que se esperava dele e o que ele realmente é. Mas, ao apresentar um roteiro dos mais inteligentes, uma trilha sonora que é puro Bernard Herrman dos filmes de Hitchcock e uma atuação consagradora do mexicano Gael Garcia Bernal (dividido entre três personagens completamente diferentes em atos e pensamentos), o espanhol firmou-se como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de seu tempo. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA


EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (Finding Neverland, 2004, Miramax Films, 106min) Direção: Marc Foster. Roteiro: David Magee, peça teatral "The man who was Peter Pan", de Allan Knee. Fotografia: Robert Schaefer. Montagem: Matt Cheesee. Música: Jon A. P. Kaczmarek. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Trisha Edwards. Produção executiva: Gary Binkow, Neal Israel, Michelle Shy, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Nellie Bellflower, Richard N. Gladstein. Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell, Freddie Highmore, Kelly McDonald, Ian Hart. Estreia: 04/9/04 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Johnny Depp), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

É fácil emocionar a plateia quando se fala de temas comoventes como fantasia, doenças fatais e crianças em busca da felicidade e inocência eternas. Mas é difícil tocar nesses assuntos sem escorregar rumo à pieguice e ao sentimentalismo barato. Por isso não deixa de ser louvável o fato de Marc Foster – do econômico “A última ceia” – ter transformado “Em busca da Terra do Nunca”, um roteiro repleto de armadilhas emocionais, em um filme delicado sem exageros e em uma obra ingênua sem ser simplória. Indicado a sete Oscar – inclusive de Melhor Filme – a adaptação da peça teatral de Allan Knee levou apenas a estatueta de Trilha Sonora, mas ganhou audiências do mundo inteiro graças a suas qualidades inegáveis.

A trama se passa em Londres, em 1903, quando o dramaturgo James Barrie (um Johnny Depp controlado mas inexplicavelmente indicado ao Oscar de melhor ator) está amargando um grande fracasso de crítica e público. Pressionado por seu empresário (uma simpática participação de Dustin Hoffman) e por sua esposa Mary (Radha Mitchell), ele passa horas de seu dia em um parque da cidade, aguardando por inspiração. Ela surge de maneira imprevisível quando ele conhece a bela viúva Sylvia Llewelyn Davies (Kate Winslet excelente como sempre) e seus quatro filhos pequenos. Fascinado pela família que luta contra suas dificuldades financeiras, Barrie começa a escrever uma peça de teatro em que conta a história de um menino que se recusa a crescer, unindo a suas idéias elementos bastante diferentes como fadas, piratas e crocodilos. Quando a estréia está prestes a acontecer, o escritor tem que lidar com a doença fatal de Sylvia e de como esse fato irá repercutir junto ao pequeno Peter (a revelação Freddie Highmore), o mais sensível e carente de seus filhos.

         

É quase impossível não render-se à simpatia de “Em busca da Terra do Nunca”. O roteiro equilibrado de David Magee conquista pelo humor, pela delicadeza e até mesmo pela emoção, passando perto de tornar-se lacrimoso. Graças à engenhosidade do diretor e do editor Matt Chesse, as histórias de Barrie e sua esposa e de sua relação com a família Davies nunca chegam a se atropelar, e o mundo de fantasia criado pelo escritor junto às crianças serve como metáfora de uma forma de escape do mundo injusto e triste a que elas são obrigadas a submeter-se. Ancorado em um elenco em plena sintonia, o roteiro prende a atenção do público, para então entregar-lhe um final arrasador, de arrancar lágrimas do mais empedernido ser humano.

Pode até parecer bobinho, superficial e sentimentaloide, mas "Em busca da Terra do Nunca" é muito mais do que isso: é uma obra centrada em pessoas, seres humanos buscando fugir de uma realidade triste e acinzentada em busca de um lugar colorido, onde fadas convivem harmoniosamente com crianças que não querem nunca crescer e descobrir sua finitude. Uma pequena obra-prima!

terça-feira, 17 de julho de 2012

ELEFANTE

ELEFANTE (Elephant, 2003, HBO Films, 81min) Direção e roteiro: Gus Van Sant. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Gus Van Sant. Figurino: Marychris Mass. Direção de arte: Benjamin Hayden. Produção executiva: Diane Keaton, Bill Robinson. Produção: Danny Wolf. Elenco: Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor, Carrie Finklea. Estreia: 18/5/03 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Ouro (Festival de Cannes): Melhor Filme e Melhor Diretor (Gus Van Sant)

Uma das mais trágicas tendências entre a adolescência norte-americana no final do século XX dizia respeito a massacres cometidos em escolas secundárias: por motivos às vezes inexplicáveis - e às vezes inacreditáveis em sua simplicidade - alunos invadiam as instituições e abriam fogo contra colegas, funcionários e professores. A mais conhecida dessas tragédias deu origem ao extraordinário documentário "Tiros em Columbine" - que deu a Michael Moore um merecido Oscar - e inspirou "Elefante", com o qual o cineasta Gus Van Sant conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2003. Optando por um viés fictício - e portanto tendo mais liberdade para desenvolver suas ideias a respeito do tema - o diretor (que ficou conhecido por obras polêmicas como "Drugstore cowboy" e "Garotos de programa" mas enfrentou um período de pouca criatividade em Hollywood, comandando filmes quadradinhos como "Gênio indomável") mostra os bastidores do desastre, acompanhando, através de uma edição inteligente, a manhã de um grupo de estudantes que (com exceção dos perpetradores da barbárie) não tinham a menor ideia de que estavam vivendo seus últimos momentos de vida.

Em sua narrativa fragmentada, "Elefante" - cujo título se refere, segundo o cineasta, aos problemas óbvios que as pessoas insistem em ignorar - lembra os melhores momentos de Van Sant. Fotografado em tons naturalistas por Harris Savides, o filme assume um tom semi-documental, enquanto apresenta - sem apelar para os tradicionais clichês - um retrato nada agradável e nem um pouco saudável da juventude ianque. Enquanto os "vilões" são mostrados de forma isenta de julgamentos, suas vítimas assumem papéis nada lisonjeiros. O diretor e roteirista aponta sua câmera para nerds, jovens bulímicas e para um casal apaixonado como uma testemunha silenciosa de um grupo desfuncional de estudantes, perdidos em suas ambições e sonhos. A edição (também a cargo de Van Sant) é essencial nessa proposta, encaixando todas as suas peças como um enorme quebra-cabeças, onde a imagem final - a tragédia - faz todo o sentido do mundo.



Batizando suas personagens com os mesmos nomes de seus atores, o roteiro também aproxima o público de seus pensamentos mais tenebrosos, fazendo as vezes de confessor involuntário. São as câmeras de Van Sant que registram, de forma despojada a ponto de parecer desleixo, conversas aparentemente banais que desvendam a falta de consciência social e a quase futilidade da adolescência americana. Mesmo que force a barra em alguns momentos - o beijo gay entre os protagonistas é absolutamente desnecessário - "Elefante" é um documento forte e interessante de uma das mais assustadoras faces da juventude dos EUA. É diferente, é surpreendente e é quase incômodo. Mas é um grande filme.