segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

SOLDADO ANÔNIMO

SOLDADO ANÔNIMO (Jarhead, 2005, Universal Pictures, 125min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: William Broyles Jr., livro de Anthony Swofford. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Walter Murch. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Bobby Cohen, Sam Mercer. Produção: Lucy Fisher, Douglas Wick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Chris Cooper, Dennis Haysbert, Lucas Black. Estreia: 04/11/05

Depois de dissecar o que se escondia nos subúrbios da classe média ianque em "Beleza americana" - e levar um Oscar por isso - e revigorar os filmes de gângster com a poesia em forma de celulóide chamada "Estrada para Perdição" - último papel do grande Paul Newman - o inglês Sam Mendes mostrou mais uma vez que não gosta de se repetir. Em "Soldado anônimo" mira sua visão crítica na guerra do Iraque, baseado em nas memórias do jovem soldado Anthony Swofford, um jarhead - como são chamados os soldados rasos - que viu, na versão cinematográfica de sua obra o desaparecimento de boa parte de seu teor político. Optando por contar sua trama sem um viés político ainda mais crítico - principalmente por pressão do estúdio - Mendes focou sua trama na relação entre o protagonista (vivido por um Jake Gyllenhaal prestes a concorrer ao Oscar por "O segredo de Brokeback Mountain") e seus colegas de exército. Se por um lado perdeu uma boa chance de fazer o seu "Apocalypse now" ao menos conseguiu realizar um filme de guerra que abdica de sangue e oferece em seu lugar muita areia e suor.

Narrado em primeira pessoa pelo recruta Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal), "Soldado anônimo" não apresenta cenas de batalha épicas ou chocantes. Quase contemplativo - mas longe do tédio de "Além da linha vermelha" - o filme de Mendes acompanha o dia-a-dia de um grupo de soldados que, no início dos anos 90, é mandado para o Iraque e descobre que a guerra está longe de ser como eles imaginavam devido a filmes como "Apocalypse now" (citado em imagens e música). Entedidados, resta a eles inventarem brincadeiras, apelarem para a constante masturbação e, vez ou outra, encarar o duro treinamento comandado pelo Sargento Sykes (Jamie Foxx). Sentindo-se solitário, Swofford faz amizade com outro fuzileiro, o rebelde Alan Troy (Peter Sarsgaard), que vê no exército a única saída de uma vida medíocre.

 

Injustamente ignorada pelo Oscar, a magistral fotografia de Roger Deakins reflete com perfeição as cores quentes e secas do deserto iraquiano, se tornando quase uma personagem a mais na narrativa enxuta de Sam Mendes - que não hesita em intercalar momentos de angústia dos soldados com cenas de um insuspeito humor. Contado quase de forma episódica - mostrando acontecimentos que vão do bizarro ao melancólico - "Soldado anônimo" leva o espectador para dentro da guerra, mesmo que ela apenas ameace chegar junto das personagens. Essa ameaça velada - que surge em sons e histórias mas que nunca mostra sua real face - só chega realmente perto no terço final do filme, em uma sequência potente que revela o desequilíbrio que a situação tensa de meses a fio causa em alguns homens (no caso, em Troy, o que permite a Peter Sarsgaard uma cena de grande força emocional).

"Soldado anônimo" é um filme de guerra para quem não gosta de filmes de guerra. Não há vítimas, não há vilões, não há heróis. É apenas o retrato de uma situação extrema narrado com sobriedade e talento por um cineasta dos melhores de seu tempo. Merecia ter tido mais sorte na temporada de premiações.

domingo, 30 de dezembro de 2012

A PASSAGEM

A PASSAGEM (Stay, 2005, 20th Century Fox, 99min) Direção: Marc Forster. Roteiro: David Benioff. Fotografia: Roberto Schaefer. Montagem: Matt Chesse. Música: Asche & Spencer. Figurino: Frank L. Fleming. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr. Produção executiva: Bill Carraro, Guymon Casady. Produção: Eric Kopeloff, Tom Lassally, Arnon Milchan. Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Ryan Gosling, Janeane Garofalo, Bob Hoskins. Estreia: 21/10/05

Hollywood é um lugar muito estranho. Filmes de suspense onde roteiros servem apenas para indicar às personagens em que hora gritar e bater no vilão clichê levam multidões às salas de cinema, e obras interessantes e criativas como "A passagem" - título nacional meio bobo - são praticamente ignoradas, apesar do elenco com nomes populares. Dirigido pelo mesmo Marc Forster que comandou os celebrados "A última ceia" e "Em busca da Terra do Nunca", o filme estrelado por Ewan McGregor e Naomi Watts - além de um ainda desconhecido Ryan Gosling - é um suspense inteligente e intrigante, que mantém o público preso em sua trama até os minutos finais. E se Forster consegue fazer do roteiro do escritor David Benioff um belíssimo filme é de se imaginar as misérias que David Fincher - primeiro nome a ser cotado para a direção - conseguiria fazer.

Diretor competente mas jamais brilhante, Forster extrapola todos os seus limites em "A passagem", que lhe dá base para fugir do naturalismo e do academicismo de seus trabalhos anteriores ao contar uma história que, a princípio, soa absolutamente surreal - mas que faz todo sentido do mundo em seus minutos finais. Brincando de David Lynch (porém sem a profundidade psicológica de suas personagens), Forster mergulha sem medo em um mundo bizarro e esquisito que embaralha realidade e alucinação na medida certa - e que conta com o mais apurado visual de seu currículo até então.

 

O filme começa quando o terapeuta Sam Foster (Ewan McGregor) é chamado para substituir uma colega que está em depressão e atender ao jovem Henry Letham (Ryan Gosling já mostrando o monstro de ator que se revelaria em poucos anos), um rapaz melancólico e problemático que lhe promete cometer suicídio em poucos dias. Na tentativa de evitar tal desenlace - que lhe remete à tentativa feita por sua namorada (Naomi Watts) - Foster corre para investigar a vida e a rotina de Letham, que utiliza seu talento como pintor para expressar sua tristeza e suas dúvidas existenciais. Conforme o tempo vai passando - e a data da morte programada do jovem se aproximando - o psiquiatra começa a questionar sua própria sanidade mental.

O melhor a se fazer em relação a "A passagem" é saber o menos possível a seu respeito antes do início da projeção. As pistas deixadas pelo roteiro de Benioff - e que serão encaixadas mais tarde em uma sequência editada com perfeição - parecem confusas e sem sentido a maior parte do tempo, lembrando muito os pesadelos em forma de celulóide perpetrados por David Lynch, mas permitem a Marc Forster demonstrar que ainda é um exímio diretor de atores. Se Ewan McGregor e Naomi Watts não precisam mais provar nada a ninguém - mesmo que dela pouco seja exigido no filme - Ryan Gosling rouba a cena como o desajustado Henry Letham e as participações pequenas mas cruciais de Bob Hoskins e Janeane Garofalo deixam tudo ainda mais intrigante e tenso - isso sem falar na angustiante sequência em que Sam precisa lidar com a mãe e o cachorro de Letham.

"A passagem" é um filme que não fez o barulho que merecia. Mas que precisa ser descoberto como um dos suspenses mais criativos e inteligentes de sua época.

sábado, 29 de dezembro de 2012

BOA NOITE E BOA SORTE

BOA NOITE, E BOA SORTE (Good night, and good luck, 2005, Warner Independent Pictures, 93min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Jim Papoulis. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jim Bissell/Jan Mascale. Produção executiva: Marc Butan, Ben Cosgrove, Mark Cuban, Jennifer Fox, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Steven Soderbergh, Todd Wagner. Produção: Grant Heslov. Elenco: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Frank Langella, Ray Wise, Tate Donovan. Estreia: 23/9/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Clooney), Ator (David Strathairn), Roteiro Original, Fotografia, Direção de arte/cenários

Ser um dos mais populares atores de Hollywood tem suas vantagens e George Clooney sabe disso muito bem. Depois de ter conseguido sair incólume até mesmo do estrago geral causado pelo fracasso monumental de "Batman & Robin " o ex-galã de "Plantão médico" estreou na direção com o elogiado "Confissões de uma mente perigosa" , deu gordas bilheterias à Warner Bros com seus divertidos filmes como Danny Ocean e quando todo mundo achava que ele estava confortável em seu título de astro eis que ele resolve inovar novamente. Com o custo de apenas 7 milhões de dólares - o que não paga nem um terço de seu salário habitual - ele realizou uma pequena obra-prima que revelou suas preocupações políticas e sociais. Baseado em uma história real - e lançado em preto-e-branco - "Boa noite, e boa sorte" conquistou a crítica, o público (arrecadou uma bilheteria de mais de 30 milhões) e a Academia, conquistando seis indicações ao Oscar, incluindo filme, diretor, ator e roteiro original.

Assim como fez em seu primeiro filme como diretor - que contava a história do produtor de TV e agente da CIA Chuck Barris, mesmo que de forma anárquica - em "Boa noite, e boa sorte" Clooney optou por narrar uma história real, que não apenas mostra os bastidores da TV americana dos anos 50 como também lança luz sobre um dos períodos mais negros da política ianque: o macarthismo - quando o senador Joseph McCarthy comandou uma verdadeira caça às bruxas contra o comunismo ou uma simples suspeita relacionada a ele. O protagonista dessa vez é Edward R. Morrow (David Strathairn), apresentador de um dos programas jornalísticos mais populares da CBS que, em 1953 - no auge da histeria liderada pelo senador - resolve tomar partido contra ele, contando com o apoio de seu produtor, Fred Friendly (vivido pelo próprio ator/diretor). Mesmo sabendo que estão lutando contra uma causa perigosa que pode lhes custar os empregos e a liberdade, os dois batem de frente com McCarthy, com o objetivo de mostrar à população o enorme manancial de erros e ilegalidades que o político utiliza em sua cruzada.



Lançado em um período em que o governo americano não estava exatamente em seus melhores dias - com a rejeição aos desmandos de George W. Bush - "Boa noite, e boa sorte" recupera, em sua atmosfera e em seu roteiro enxuto e contundente, a importância de filmes engajados e de temática política (ainda que, felizmente, nunca tenha a intenção de soar didático ou panfletário). Inspirado em sua figura paterna (que era âncora de um telejornal da CBS), Clooney construiu um filme que vai se montando aos poucos, delicadamente, para dar à audiência uma visão ampla e fidedigna dos acontecimentos. A bela fotografia de Robert Elswit (indicada merecidamente ao Oscar) compõe o clima da obra, assim como a impecável reconstituição de época e os números de jazz simetricamente espalhados pela projeção. Dono também de um roteiro que confia na inteligência do seu público, o filme conta ainda com um elenco absolutamente excepcional, em que cada ator - por menos tempo que apareça em cena - colabora intensamente para o resultado final.

Além do próprio George Clooney em papel coadjuvante, "Boa noite, e boa sorte" apresenta em seus créditos nomes consagrados como Robert Downey Jr., Jeff Daniels, Frank Langella e Patricia Clarkson, além de uma interpretação espetacular de David Strathairn no papel de Edward R. Morrow. Sutil, econômico e no controle absoluto de seu desempenho, o vilão de "Los Angeles, cidade proibida" dá um show em sua primeira real oportunidade como protagonista - desde que não se contem seus trabalhos com o independente John Sayles, praticamente desconhecidos pelo grande público. Sua interpretação só não foi premiada com o Oscar porque esbarrou justamente em Philip Seymour Hoffman com seu desempenho espírita em "Capote" - e demonstra que mesmo sendo apenas uma atuação, ainda consegue ser mais crível do que as imagens do senador McCarthy: vários espectadores reclamaram que "o ator" que intrepretava o político era muito canastrão, ignorando se tratar de imagens de arquivo. E viva a arte!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CAPOTE

CAPOTE (Capote, 2005, Columbia TriStar, 114min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Dan Futterman, livro de Gerald Clarke. Figurino: Adam Kimmel. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Maryam Decter, Scott Rossell. Produção executiva: Dan Futterman, Philip Seymour Hoffman, Kerry Rock, Danny Rosett. Produção: Caroline Baron, Michael Ohoven, William Vince. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Bob Balaban. Estreia: 30/9/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bennett Miller), Ator (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Adaptado

 Em 30 de setembro de 2005, dia em que o escritor Truman Capote completaria 81 anos, estreou nas telas americanas aquele que provavelmente poderia ser um de seus maiores presentes. Com base na extensa biografia escrita por Gerald Clarke - porém limitando sua trama ao período em que ele envolveu-se de forma quase insana na criação de sua mais famosa obra, o livro "À sangue frio" - estreou o filme "Capote", que encontrou no ator Philip Seymour Hoffman sua encarnação mais perfeita. Também produtor executivo do filme, Hoffman simplesmente encarnou a personalidade polêmica do escritor/jornalista mais célebre de seu tempo, provocando um verdadeiro arrastão na temporada de premiações - que culminou com um merecido Oscar de melhor ator.

Realizado praticamente ao mesmo tempo que "Confidencial" - onde o ator Toby Jones encarnou o protagonista e Sandra Bullock desfilou sua apatia como Harper Lee - "Capote" é um filme repleto de qualidades, a começar pela direção sensível de Bennett Miller e o roteiro conciso e inteligente do também ator Dan Futterman (que depois viveria o jornalista Daniel Pearl em "O preço da coragem", ao lado de Angelina Jolie). O filme começa com o assassinato de uma família no Kansas, cometido sem motivo aparente. Subitamente interessado pela notícia, o jornalista - afeminado, excêntrico e dotado de um senso de humor muitas vezes agressivo - parte para a pequena cidade de Holcomb acompanhado da amiga escritora Harper Lee (Catherine Keener, discreta e inexplicavelmente indicada a um Oscar por seu trabalho) com o objetivo de escrever uma matéria sobre o caso. Fascinado com a tragédia, Capote fica ainda mais entusiasmado quando conhece os assassinos, em especial Perry Smith (Clifton Collins Jr., ótimo), com quem sente uma estranha conexão. Mergulhando cada vez em suas pesquisas, ele acaba decidindo escrever não mais uma matéria e sim um livro sobre o caso. O que seria apenas alguns dias de trabalho acaba se tornando quase uma obsessão de anos.



O roteiro de Futterman concentra-se bastante na relação entre Capote e Perry, o que lhe dá a chance de explorar a contento a personalidade conflitante de seu protagonista e, ao mesmo tempo, criar um paralelo interessante entre ele e um assassino que, à primeira vista, nada tem em comum com ele. A forma com que tanto o roteiro quanto a direção conduzem a narrativa é um primor de sutileza e discrição, valorizado pelo desempenho formidável de Philip Seymour Hoffman e pela surpreendentemente emotiva atuação de Clifton Collins Jr., que dá à sua personagem uma textura ainda mais contundente do que no clássico "À sangue-frio", realizado nos anos 60, com os fatos ainda quentinhos no inconsciente americano. O distanciamento temporal também ajuda à plateia a ter uma visão menos passional do tema do filme e analisar "Capote" não como um semi-documentário (como o magnífico trabalho de Richard Brooks), mas como um filme que poderia tranquilamente ser uma obra de ficção - mistura essa que o próprio escritor inaugurou na literatura, criando o gênero "romance de não-ficção".

Equilibrando-se admiravelmente entre os bastidores da realização de uma das mais importantes obras literárias americanas do século XX e o estudo da personalidade festiva e melancólica de um dos autores essenciais de sua época, "Capote" é um filme que cresce a cada revisão, graças a sua seriedade em tratar de temas complexos e à interpretação assombrosa de Phillip Seymour Hoffman, no grande papel de sua vida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

EM SEU LUGAR

EM SEU LUGAR (In her shoes, 2005, 20th Century Fox, 130min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Susannah Grant, romance de Jennifer Weiner. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Lisa Zeno Churgin, Craig Kitson. Música: Mark Isham. Figurino: Sophie De Rakoff. Direção de arte/cenários: John Warnke/Teresa Visinare. Produção executiva: Tony Scott. Produção: Lisa Ellzey, Carol Fenelon, Curtis Hanson, Ridley Scott. Elenco: Cameron Diaz, Toni Collette, Shirley MacLaine, Mark Feuerstein, Eric Balfour, Richard Burgi. Estreia: 14/9/05 (Festival de Toronto)

Definitivamente Curtis Hanson não é um cineasta que gosta de se repetir. Depois do merecido sucesso de crítica e público de sua obra-prima "Los Angeles, cidade proibida" - pelo qual chegou a concorrer ao Oscar - ele enveredou pela comédia dramática "Garotos incríveis" - adaptado de um romance de Michael Chabon e estrelado por grande elenco encabeçado por Michael Douglas - e pelo drama musical "8 mile, rua das ilusões", responsável pela estreia do rapper Eminem no cinema. E quem achava que sua versatilidade tinha chegado a seu ápice deve ter ficado de queixo caído com seu projeto seguinte: a adaptação de "Em seu lugar", livro de Jennifer Weiner que obteve grande êxito de vendas nos EUA e que, para surpresa de todos, é um perfeito exemplo daquilo que os americanos chamam de "chick-lit" e o resto do mundo de "livro de mulherzinha". Sim, o homem que narrou a violenta história de corrupção desbaratada pelo truculento Bud White e a trajetória de um cantor de rap rumo à fama agora conta a história de duas irmãs de personalidades opostas que precisam aprender a lidar com suas diferenças.

O primeiro mérito de Hanson em "Em seu lugar" foi a escolha da australiana Toni Collette para um dos principais papéis. Extremamente talentosa e rica de nuances, Collette chega a humilhar sua colega de cena, a fraca e careteira Cameron Diaz, que usa e abusa (no mau sentido) de todas as armas que lhe deram a posição (exagerada) de destaque dentro da indústria. Enquanto Collette utiliza de sutileza para transmitir seu recado, Diaz frequentemente cai nas armadilhas do roteiro, deixando sua personagem ainda mais chata do que na trama concebida por Weiner - e adaptada pela ótima Susannah Grant, que concorreu ao Oscar por "Erin Brockovich, uma mulher de talento". Na história que o filme conta, as duas são irmãs diferentes como a água e o vinho. Rosie (Collette) é uma bem-sucedida advogada, séria, responsável e dedicada que não dá sorte no amor enquanto Maggie (Diaz) passa seus dias e noites fazendo festas, bebendo e traçando qualquer homem que passe à sua frente. Um desses homens, porém, acabará sendo o culpado por um sério rompimento entre as duas, quando Maggie seduz o namorado da irmã. Furiosa - com toda a razão - Rosie expulsa a irmã de seu apartamento e vai seguir a vida. Maggie, sem rumo, acaba descobrindo que sua avó, Ella (Shirley MacLaine, ótima como sempre) está viva, ao contrário do que seu pai alega, e vai morar com ela na Flórida. Enquanto Rosie se envolve com um colega de firma, Simon (Mark Feuerstein), Maggie é incentivada pela avó a recomeçar a vida, trabalhando, mantendo-se sóbria e buscando a reconciliação com a irmã.



Apesar de fazer parte de uma linhagem menos nobre dentro de Hollywood - os filmes feitos para um público feminino, sem maiores ambições que não divertir a audiência por duas horas - "Em seu lugar" tem a seu favor a seriedade com que Curtis Hanson o trata. A relação entre Maggie e Rosie - ponto crucial da trama - é mostrada sem sentimentalismo barato, assim como os fantasmas do passado das irmãs, que retorna com o reaparecimento de sua avó. Apesar de estender-se demasiadamente - 130 minutos é quase um teste à paciência do público - o filme de Hanson mantém seu interesse por quase todo o tempo, pecando apenas por demorar demais em desenvolver as novas vidas das protagonistas quando separadas. A crise no relacionamento entre Rosie e Simon, por exemplo, não convence o bastante, apesar dos esforços do casal de atores. E não deixa de ser um tanto irritante a personagem de Cameron Diaz, que aborrece o espectador com sua absoluta falta de sensibilidade e respeito para com as pessoas à sua volta - falha do roteiro em explicar convincentemente seus motivos ou falha da atriz, incapaz de maiores voos de interpretação?

No cômputo final, "Em seu lugar" é um entretenimento de qualidade, dirigido com competência e que dá a oportunidade de rever Shirley MacLaine e aplaudir mais uma vez o talento de Toni Collette. Certamente agrada seu público-alvo, mas esbarra em suas próprias limitações temáticas. Vindo de um cineasta tão criativo quanto Hanson não deixa de ser um tanto frustrante.

E SE FOSSE VERDADE...

E SE FOSSE VERDADE... (Just like heaven, 2005, DreamWorks, 95min) Direção: Mark Waters. Roteiro: Peter Tolan, Leslie Dixon, romance de Marc Levy. Fotografia: Daryn Okada. Montagem: Bruce Green. Música: Rolfe Kent. Figurino: Sophie de Rakoff. Direção de arte/cenários: Cary White/Barbara Haberecht. Produção executiva: David Householter. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes. Elenco: Reese Witherspoon, Mark Ruffalo, Donal Logue, Dina Waters, Ben Shenkman, Ivana Milicevic. Estreia: 16/9/05

Para se ter uma ideia de como funcionam as coisas em Hollywood, a adaptação do romance "If only it were true", do francês Marc Levy - grande sucesso de vendas em seu país de origem - foi vendida para seus produtores sem que eles ao menos pusessem os olhos no livro. Sua confiança na trama central foi tanta que nem mesmo o fato de o roteiro ter transformado uma história de amor sensível e melancólica em uma comédia romântica bem ao gosto do público médio lhes causou constrangimento. Com um título diferente - "Just like heaven", como a música da banda The Cure regravada especialmente para a produção - e um enfoque mais leve, "E se fosse verdade..." (no Brasil o título do livro foi mantido, para surpresa de muitos) deu à Reese Witherspoon a chance de protagonizar mais um bem-sucedido filme bobinho - quase 100 milhões de arrecadação mundo afora - antes de provar-se uma atriz séria com o Oscar por "Johnny & June". Mas, assim como seus hits anteriores - "Legalmente loira" e "Doce lar" - o filme de Mark Waters diverte por hora e meia, mas é facilmente esquecível assim que a sessão acabar.

Filme ideal para quem procura uma diversão leve e descompromissada, "E se fosse verdade..." mistura humor, romance e fantasia ao contar uma história de amor entre um humano e uma fantasma (sim, mas sem nenhuma pretensão a assustar a audiência). Elizabeth Masterson (Witherspoon, simpática e agradável como sempre, exercitando com conhecimento seu timing cômico) é uma dedicadíssima médica em San Francisco que, às vésperas de finalmente atingir seu objetivo profissional sofre um trágico acidente automobilístico. Seu espírito só percebe que está em coma quando seu apartamento é alugado por David Abbot (Mark Ruffalo, à vontade em seu papel de galã), um paisagista viúvo e que passa suas noites bebendo em frente à televisão. A princípio descrente que aquela mulher falastrona e mau-humorada que apareceu no seu apartamento do nada, David vai aos poucos se acostumando com sua presença, a ponto de apaixonar-se por ela. Porém, o fato de ambos estarem em planos espirituais diferentes atrapalha bastante seus planos amorosos.



Fugindo conscientemente de qualquer paralelo com a moda de filmes espíritas que volta e meia assola Hollywood, o filme do cineasta Mark Waters - que tem no currículo as bobinhas mas deliciosas comédias "Sexta-feira muito louca" e "Meninas malvadas" - não nega a preferência de seu diretor pelo humor, presenteando a plateia com cenas bastante engraçadas - quando David salva o cliente de um restaurante através das indicações de Elizabeth, por exemplo - e referências a outros filmes (a melhor diz respeito a "Os Caça-fantasmas"). Porém, mesmo que dê um generoso espaço ao humor, o roteiro jamais deixa o público esquecer que está assistindo a uma história de amor. E se uma história de amor imprescinde de uma dupla central afinada, "E se fosse verdade..." não pode reclamar da sua.

Às vésperas de abocanhar uma estatueta da Academia por seus méritos dramáticos - como June Carter, a esposa do cantor Johnny Cash - Reese Witherspoon mais uma vez usa e abusa de seu rostinho delicado para mostrar à audiência uma Elizabeth workaholic, um tanto antipática e solitária que desperta empatia na mesma medida em que exercita seu mau-humor constante e encontra em Mark Ruffalo um parceiro à altura. Desajeitado e com um insuspeito timing cômico, Ruffalo praticamente rouba a cena com seu quase misantropo David Abbot, que não consegue aceitar que está apaixonado por uma mulher à beira da morte. São os dois que valorizam muito um roteiro que, apesar de engraçado e terno, não explora a contento todas as possibilidades da história. Sempre que estão juntos em cena, Witherspoon e Ruffalo fazem a plateia esquecer de quão bobinho seu filme é. E isso é mais do que um elogio!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

OBRIGADO POR FUMAR

OBRIGADO POR FUMAR (Thank you for smoking, 2005, Room 9 Entertainment, 92min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Christopher Buckley. Fotografia: James Whitaker. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Kurt Meisenbach. Produção executiva: Michael Beugg, Alessandro Camon, Max Levchin, Elon Musk, Edward R. Pressman, John Schmidt, Peter Thiel, Mark Woolway. Produção: David O. Sacks. Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, Maria Bello, Cameron Bright, Robert Duvall, Todd Louiso, J.K. Simmons, Kim Dickens, William H. Macy, Sam Elliot, Adam Brody, Rob Lowe, Melora Hardin. Estreia: 09/9/05 (Festival de Toronto)

Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.

Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.



O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott)  - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.

No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O EXORCISMO DE EMILY ROSE

O EXORCISMO DE EMILY ROSE (The exorcism of Emily Rose, 2005, Screen Gems, 119min) Direção: Scott Derrikson. Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrikson. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Jeff Betancourt. Música: Christopher Young. Figurino: Tish Monaghan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lesley Beale. Produção executiva: Andre Lamal, David McIlvan, Terry McKay, Julie Yorn. Produção: Paul Harris Boardman, Beau Flynn, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg, Tripp Vinson. Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Jennifer Carpenter, Campbell Scott, Colm Feore, Joshua Close, Kenneth Welsh, Henry Czerny, Shoreh Aghdashloo, Mary Beth Hurt. Estreia: 01/9/05 (Festival de Veneza)

Na metade dos anos 70, na Alemanha, uma jovem de 23 anos chamada Anneliese Michel, diagnosticada como epilética, morreu de subnutrição e desidratação depois de ter sido submetida a 67 (!!) tentativas de exorcismo. O caso levou os pais da jovem e os dois padres responsáveis pelas cerimônias aos tribunais, acusados de negligência - e ao lançamento de um livro que contava sua trágica história, chamado "The exorcism of Anneliese Michel" e escrito pela antropóloga Felicitas D. Goodman. Com base nesse drama - que pedia desesperadamente por uma adaptação para o cinema - os dois jovens roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrikson criaram um filme único, que mistura com inteligência dois gêneros bastante caros à indústria de Hollywood (filmes de terror e filmes de tribunal) e que surpreendeu por jamais subestimar a inteligência de sua plateia. Realizado com cerca de 20 milhões de dólares, "O exorcismo de Emily Rose" coletou mais de 140 milhões pelo mundo. A melhor notícia? Mereceu cada centavo.

Para efeitos dramáticos, o roteiro de Boardman e Derrikson precisou fazer alterações na história original, todas elas responsáveis por deixar o ritmo e a narrativa mais ricos e palatáveis à audiência média - e que, por definição, é quem decide a sorte de um filme nas bilheterias. Sendo assim, a protagonista alemã cede lugar a uma estudante americana, a dedicada e esforçada Emily Rose (em uma performance aterradora de Jennifer Carpenter, que mais tarde se tornaria a irmã da personagem-título da série "Dexter"). Quando o filme começa, Rose já está morta e a competente advogada Erin Bruner (Laura Linney) é chamada para defender o padre Richard Moore (Tom Wilkinson), acusado de ter causado sua morte durante um exorcismo. A ambição da advogada é subir na firma onde trabalha, e ela esbarra na ferrenha ideia do sacerdote, que insiste em contar toda a história da jovem em pleno tribunal. Batendo de frente com o promotor Ethan Thomas (Campbell Scott), Bruner começa a investigar a fundo todos os acontecimentos que levaram à morte de Emily - que foi diagnosticada como epilética e psicótica. Segundo Thomas, o padre é culpado por ter impedido a vítima de ter um acompanhamento médico e cabe a ela provar - mesmo sendo totalmente cética - que Rose estava possuída por uma legião de demônios.



O melhor de "O exorcismo de Emily Rose" é que ele funciona em todos os níveis nos quais se propõe. Como drama de tribunal, é capaz de prender o espectador na poltrona como se estivesse nos melhores livros de John Grisham, com o drama na medida certa e dando oportunidades raras para seu elenco coadjuvante - que inclui a ótima Shohreh Aghdashloo, Colm Feore e Henry Czerny. Como suspense é aterrorizante, tenso e dramaticamente consistente, dando ao público momentos assustadores e revelando o talento intenso da jovem Jennifer Carpenter. E como drama religioso é capaz de emocionar sem apelar para clichês católicos - ou de qualquer outra doutrina. Tal equilíbrio só é possível devido ao talento de seus diretores/roteiristas, que nunca caem na tentação de privilegiar uma ou outra linha narrativa, intercalando-as de forma inteligente e intrigante - e que só dá uma resposta ao público nos comoventes momentos finais.

Quem procura um bom filme de tribunal ou um filme de terror adulto e que foge da sanguinolência habitual no gênero só tem a ganhar com uma sessão de "O exorcismo de Emily Rose". É o filme de terror mais arrepiante de sua época. No bom sentido!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ORGULHO E PRECONCEITO

ORGULHO E PRECONCEITO (Pride & Prejudice, 2005, Focus Features/Universal Pictures, 127min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Deborah Moggach, romance de Jane Austen. Fotografia: Roman Osin. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Matthew McFayden, Judi Dench, Rosamund Pike, Carey Mulligan, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Jena Malone, Talulah Riley. Estreia: 25/7/05

4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários

Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.

Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.



Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.

Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.

Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O JARDINEIRO FIEL


O JARDINEIRO FIEL (The constant gardener, 2005, Universal Pictures, 129min) Direção: Fernando Meirelles. Roteiro: Jeffrey Cane, romance de John Le Carré. Fotografia: César Charlone. Montagem: Claire Simpson. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Odile Dicks Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Michelle Day. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Gail Egan, Robert Jones, Donald Ranvaud. Produção: Simon Channing Williams. Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Pete Postletwhaite, Danny Huston, Bill Nighy. Estreia: 31/8/05


4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)

Incensado mundialmente como um dos melhores filmes de 2002, o nacional "Cidade de Deus" não apenas apontou um novo caminho pro cinema tupiniquim mas também abriu as portas de Hollywood para seu diretor, o merecidamente aplaudido Fernando Meirelles. E comprovando que seu festejado segundo filme não era apenas um golpe aleatório de sorte, seu novo trabalho - a adaptação de um romance do best-seller John Le Carré - também conquistou a crítica e, se não causou o mesmo furor, ao menos não fez feio nas cerimônias de premiação, dando a até então limitada Rachel Weisz um Oscar de coadjuvante.


Mesmo que não seja uma grande atriz - o que seu trabalho medíocre em filmes como "Círculo de fogo" e "A múmia" deixa bem claro - Weisz se sai bastante bem na pele de Tessa Quayle, uma personagem que, no livro de Le Carré, é bem menos desenvolvida dramaticamente. No roteiro de Jeffrey Cane - também indicado a um prêmio da Academia - a esposa do diplomata Justin Quayle (em mais uma atuação competente de Ralph Fiennes) assume uma importância mais ativa do que nas páginas do romance, onde é constantemente citada (mesmo porque a trama tem início com sua morte) mas pouco age. No filme de Meirelles - que rendeu mais de 80 milhões de dólares no mercado americano, o que não é nada desprezível em se tratando de um filme adulto e sem efeitos visuais - ela é uma peça bem mais atuante, unindo as lembranças de seu marido a uma trama bastante contundente sobre a indústria farmacêutica e a corrupção no Quênia (o que inclusive fez com que o romance que deu origem ao filme fosse proibido no país).



Quando "O jardineiro fiel" a jovem Tessa Quayle acaba de morrer, para desespero de seu marido, o diplomata Justin Quayle, que casou-se com ela completamente apaixonado, apesar de suas diferenças políticas. Ferrenha ativista na defesa da população carente do Quênia, ela acabou encontrando a morte em circunstâncias misteriosas, o que faz com que seu viúvo parta em busca de respostas para a violência. No caminho, ele conta com a ajuda do amigo Sandy Woodrow (Danny Huston) - que também tem seus segredos - para investigar uma rede de corrupção que envolve testes do governo inglês a respeito de um medicamento que vem sendo testado secretamente e que tem relação direta com o assassinato de sua mulher.

Editado com vigor por Claire Simpson e contando com uma potente trilha sonora de Alberto Iglesias - ambos indicados merecidamente ao Oscar - "O jardineiro fiel" é um thriller dono de uma inteligência acima da média, que exige de seu espectador mais do que a maioria dos filmes americanos do gênero. Ao optar em contar sua história de forma não-linear (os flashbacks são utilizados de maneira exemplar), Fernando Meirelles solicita ao público que preste atenção em detalhes, em sutilezas e no cuidado que ele tem em cada cena, em cada ângulo. Nada é clichê em seu filme, que usa e abusa de efeitos de câmera para transmitir a sensação de urgência e pressa de seu protagonista, em uma fotografia que explora o calor da África a seu favor.  É uma das características mais dignas de aplauso de Meirelles, aliás, a forma com que ele equilibra com maestria uma direção competente de atores com a parte técnica de seus filmes. O conjunto de técnica e emoção que funcionou com perfeição em "Cidade de Deus" volta a dar certo aqui, para alívio dos fãs de bom cinema.

"O jardineiro fiel" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de 2005. É um filme inteligente, interessante, dirigido com extrema competência e que versa sobre assuntos importantes e de certa forma chocantes. Uma bela estreia hollywoodiana para Fernando Meirelles.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

DOIS FILHOS DE FRANCISCO, A HISTÓRIA DE ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO

DOIS FILHOS DE FRANCISCO, A HISTÓRIA DE ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO (Brasil, 2005, 132min) Direção: Breno Silveira. Roteiro: Carolina Kotscho, Patricia Andrade. Fotografia: André Horta, Paulo Souza. Montagem: Vicente Kubrusly. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cláudia Kopke. Direção de arte: Kiti Duarte. Produção executiva: Paula Lavigne. Produção: Pedro Buarque de Hollanda, Emanoel Camargo, Luciano Camargo, Pedro Guimarães, Rommel Marques, Leonardo Monteiro de Barros, Luiz Noronha, Breno Silveira. Elenco: Angelo Antonio, Dira Paes, Márcio Kieling, Thiago Mendonça, Paloma Duarte, Dablio Moreira, Marcos Henrique, Lima Duarte, Jackson Antunes, José Dumont, Natalia Lage, Wigor Lima. Estreia: 19/8/05

O filme que conseguiu bater o recorde de bilheteria de "Dona Flor e seus dois maridos" - que parecia imbatível - nasceu desacreditado. Afinal, quem em sã consciência conseguiria prever que a história de uma dupla sertaneja - por mais popular que ela fosse - pudesse interessar a um público amplo o suficiente para lotar cinemas país afora e, mais importante ainda, emocionar incondicionalmente até mesmo aos detratores de um gênero musical não exatamente respeitado pela intelectualidade? Pois, ao contrário do que muita gente achava, "Dois filhos de Francisco, a história de Zezé Di Camargo& Luciano"não apenas tornou-se um sucesso inquestionável de público como também provou (se é que alguém ainda tinha alguma dúvida a respeito disso) que um bom diretor é capaz de transformar pedra em ouro.

Sensível e interessado em suas personagens, Breno Silveira - que se tornaria uma espécie de especialista em filmes em que a música assume importância vital - fez de sua estreia em longas-metragens uma bela ode à persistência, à esperança e ao amor familiar, o que aumentou consideravelmente seu alcance popular. A audiência acorreu célere às salas de cinema para assistir não apenas à trajetória de uma dupla sertaneja e sim à uma história de superação e união, recheada com belos golpes dramáticos capazes de emocionar ao mais insensível espectador. Mesmo que em muitos momentos chegue bem perto de escorregar no dramalhão, Silveira tem a sorte de contar com o talento imenso de dois de seus protagonistas, os ótimos Angelo Antonio e Dira Paes, que, vivendo Francisco e Helena, os pais dos protagonistas, transformam a experiência de se assistir ao filme em um programa acima da média que comprova a capacidade do cinema nacional em falar muito bem da realidade do país.



A primeira fase de "Dois filhos de Francisco" é perceptivelmente superior à segunda, ao mostrar a gênese daquela que se tornaria uma das duplas mais bem-sucedidas da música sertaneja. No sertão de Goiás, o lavrador Francisco (Angelo Antonio, nunca aquém de fabuloso) nutre o sonho - alimentado pela audição incessante de um rádio - de fazer de seus dois filhos mais velhos famosos no país inteiro. Tímidos, os meninos Mirosmar (Dáblio Moreira) e Emival (Marcos Henrique) seguem o sonho do pai e se tornam relativamente conhecidos no circuito de shows em exposições graças ao esforço de seu empresário, Miranda (José Dumont). Depois de uma tragédia, o que parecia um sonho alcançável vira um pesadelo e a família Camargo abandona a música. É só alguns anos depois que Mirosmar (já na pele de Márcio Kieling) volta a tocar, viaja para São Paulo tentar a sorte e, com o nome artístico de Zezé Di Camargo, junta-se a outro irmão, Welson (Thiago Mendonça) para formar uma dupla e aproveitar a onda de sucesso do gênero.

O roteiro de Carolina Kostcho e Patrícia Andrade - que mais tarde deu origem a uma biografia dedicada especificamente à Helena, mãe dos cantores - é de uma simplicidade linear que conquista justamente por não buscar o tentacular.  Tudo acontece de forma orgânica e corretamente inserida no contexto dramático - inclusive alguns momentos de um insuspeito humor. Quando o ritmo cai um pouco - em seu terço final - o que acaba se destacando é a trilha sonora, que foge com inteligência do óbvio, evitando a versão mais conhecida do hit "É o amor" e utilizando a gravação bela e tocante de Maria Bethânia. E até mesmo a história do relacionamento de Zezé com Zilu (Paloma Duarte) - sua esposa e mãe de seus filhos - não chega a comprometer o resultado final, ainda que em certas passagens soe como um drama televisivo.

No final das contas, é preciso deixar o preconceito de lado e encarar "Dois filhos de Francisco" como a história de uma família brasileira, incapaz de desistir de seus sonhos independentemente das desgraças que apareçam em seu caminho. É nesse quesito em particular que Breno Silveira é mais feliz, e não será nenhum pouco estranho se, ao final da sessão, lágrimas teimarem em aparecer.