quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA


O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA (The last king of Scotland, 2006, Fox Searchlight, 121min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Peter Morgan, Jeremy Brock, livro de Giles Foden. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Michael Carlin/Tina Jones. Produção executiva: Andrew Macdonald, Allon Reich, Tessa Ross. Produção: Lisa Bryer, Andrea Calderwood, Charles Steel. Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Gillian Anderson, Kerry Washington, Simon McBurney. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Forest Whitaker)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Forest Whitaker)

Entre a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1988 pelo sensacional desempenho como o músico Charlie Parker em "Bird" e a consagração com o Oscar por sua interpretação de Idi Amin Dada, ditador de Uganda, o ator Forest Whitaker esperou quase vinte anos. Nesse meio-tempo ele mostrou seu rosto e seu talento em projetos tão díspares quanto os elogiados "Traídos pelo desejo" e "Cortina de fumaça" e os puramente comerciais como "A experiência", "Fenômeno" e "O quarto do pânico", além de aventurar-se também na cadeira de diretor, assinando obras corretas como "Falando de amor" - estrelado por Whitney Houston e Angela Bassett - e "Quando o amor acontece", com Sandra Bullock pré-Oscar. Apesar de sempre apresentar trabalhos dignos e competentes, porém, não deixou de ser uma surpresa das melhores vê-lo em ação em "O último rei da Escócia", dirigido por Kevin MacDonald: na pele de Idi Amin, o ator texano proporciona ao público uma estarrecedora atuação, que merecidamente avocanhou todos os prêmios da temporada, sem dar chance à concorrência.

Se formos levar em consideração as regras dos manuais de roteiro e assemelhados, Whitaker nem é o verdadeiro protagonista do filme de MacDonald: assim como aconteceu com Anthony Hopkins em "O silêncio dos inocentes", sua personagem é a alma da produção, o que a empurra pra frente, mas o ponto de vista da narrativa não é seu, e sim do jovem médico inglês Nicholas Garrigan (o ótimo James McAvoy), que, recém formado e em busca de experiência profissional - e de fugir do jugo de seu pai dominador - parte para Uganda, onde começa a trabalhar com um casal de médicos (Adam Kotz e a eterna Scully, Gillian Anderson). Pouco depois de sua chegada, um imprevisto o coloca frente a frente com o presidente do país, o temido Idi Amin (um assustador Whitaker, oscilando entre a doçura e o terror). Impressionado com o rapaz, o ditador o convence a aceitar o cargo de médico particular - e logo Nicholas estará sendo testemunha ocular dos bastidores do poder, em que atrocidades monstruosas convivem em aparente tranquilidade com uma imagem paradoxal do presidente. Garrigan, atônito, descobre que Amin é o responsável por um legítimo genocídio, mas se vê aprisionado por sua lealdade. Essa lealdade, por outro lado, é posta à prova quando ele se encanta por Kay (Kerry Washington), terceira mulher do mandatário supremo do local. Arriscando a própria vida, ele inicia um intenso romance com ela.



Baseado no livro de Giles Folden - que se utiliza de fatos reais mas é uma obra de ficção - o roteiro de Peter Morgan e Jeremy Brock acerta em optar pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan ao invés de centrar sua trama no polêmico ditador: os olhos de Garrigan são também os olhos da audiência, que vai tomando conhecimento aos poucos de todo o horror que se esconde atrás dos discursos ufanistas do governante, até chegar em suas sequências finais, de uma violência física e psicológica ímpares no cinemão. Kevin MacDonald, estreando em longas-metragens com o pé direito, não tem medo de explicitar a sangrenta forma com que Amin lidava com seus desafetos e isso mantém o suspense sempre em altos níveis, sem nunca deixar de lembrar que está contando uma história política e não se inscrevendo na lista de filmes de terror. O sangue que escorre na tela é real, é humano, é infelizmente derramado sem motivos, o que aumenta a sensação de perigo e indignação. E, sem dúvida, é Forest Whitaker quem comanda tudo com maestria.

Mantendo-se na personagem mesmo quando estava fora de cena, Whitaker construiu um Idi Amin antológico, sem exageros mas extremamente fiel à realidade. Quem lembra do ator na pele de inúmeras outras personagens dóceis e pacatas leva um susto ao vê-lo destilando ódio, fúria e violência, em uma interpretação simplesmente impecável. Mesmo ao lado de atores excelentes como James McAvoy, ele chama todas as cenas para si, com um magnetismo que se equipara ao do próprio Amin, considerado um político carismático e popular até que começou a mostrar sua verdadeira face. Se seu mandato foi trágico e triste, ao menos rendeu um ótimo filme, que não apenas narra episódios grotescos, mas convida o público a compartilhar deles, graças à ótima trilha sonora e à fotografia em cores quentes que dão a nítida sensação de estar em Uganda. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

PECADOS ÍNTIMOS

PECADOS ÍNTIMOS (Little children, 2006, New Line Cinema, 137min) Direção: Todd Field. Roteiro: Todd Field, Tom Perrotta, romance de Tom Perrotta. Fotografia: Antonio Calvache. Montagem: Leo Trombetta. Música: Thomas Newman. Figurino: Melissa Economy. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode-Tyson. Produção executiva: Kent Alterman, Toby Emmerich, Patrick Palmer. Produção: Albert Berger, Todd Field, Ron Yerxa. Elenco: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Gregg Edelman, Trini Alvarado. Estreia: 01/9/06 (Festival de Telluride)

3 indicações ao Oscar: Atriz (Kate Winslet), Ator Coadjuvante (Jackie Earle Haley), Roteiro Adaptado

Em 1999, o livro "Eleição" virou um delicioso filme repleto de humor negro nas mãos de Alexander Payne e nas interpretações geniais de Matthew Broderick e Reese Witherspoon. Ao contar uma história sobre a obsessão de uma jovem estudante pelo sucesso e pelo desprezo de um professor por sua personalidade arrivista, seu autor, Tom Perrotta demonstrou um senso de ironia que contrastava com o ranço politicamente correto que já assolava os EUA. Em "Criancinhas", porém, ele trocava a ironia por uma visão quase amarga e melancólica sobre as famílias suburbanas e suas interrelações. Não demorou para que logo surgisse uma adaptação para o cinema - que recebeu o título brasileiro de "Pecados íntimos", o que lhe tira a sutileza e um maior alcance metafórico. Adaptada pelo próprio Perrota e pelo diretor Todd Field, sua trama, que joga na mesma vizinhança um romance extraconjugal e a possível ameaça de um pedófilo tentando recomeçar a vida, ganha ressonâncias dramáticas apenas rascunhadas nas páginas impressas.

Essa ressonância já começa pela acertada escalação da sempre excepcional Kate Winslet em um dos papéis centrais da história. Ela vive - com a competência de sempre, que lhe valeu uma indicação ao Oscar - Sarah Pierce, uma dona-de-casa que vive com o marido mais velho e a filha pequena em um subúrbio cercado de outras famílias parecidas. Sua vida pacata e tediosa dá um salto quando ela - sempre relagada a segundo plano pelas próprias vizinhas por não se encaixar no ideal de esposa de classe média - conhece o jovem, bonitão e charmoso Brad Adamson (Patrick Wilson, sugerido por Winslet e perfeito no papel), advogado que luta para passar no exame da ordem e, enquanto isso, cuida do filho também pequeno e é sustentado pela esposa, Kathy (Jennifer Connelly), uma documentarista séria e com quem mantém uma relação quase fria. Sentindo-se atraídos um pelo outro - e identificando-se com o vazio de suas vidas matrimoniais - eles se envolvem em um apaixonado romance, mesmo que não saibam direito o que fazer com ele. Concomitantemente, seu bairro inicia uma campanha contra Ronnie McGorvey (Jackie Earle Haley), homem que saiu da cadeia depois de uma condenação por pedofilia e que volta a morar na casa de sua mãe.



O título original do romance de Perrotta, "Criancinhas" é de uma fina ironia, perdida na sua "tradução" nacional: quando se lê o livro (e quando se vê o filme, mas de forma menos óbvia) percebe-se claramente que as criancinhas do título não são os filhos de Sarah e Brad nem tampouco as possíveis vítimas de Ronnie e sim os próprios pais. Sarah e Brad não tem maturidade para evoluir em seu caso extraconjugal, deixando sempre que o medo e o comodismo ditem suas atitudes - o marido de Sarah procura sexo na Internet e ela se sente incapaz de deixá-lo e Brad sonha em voltar ao skate, como forma de manter-se eternamente jovem e adolescente. Pairando sobre eles, a dor de Ronnie em seu desajuste e suas tentativas desesperadas de ser "normal" consegue comover, em especial quando entra em cena sua mãe - em sensacional atuação de Phyllis Somerville - e quando ele tem um encontro forçado com uma pretendente - participação pequena de Jane Adams (que atuou em "Felicidade", de Todd Solondz, que também desvendava os segredos dos subúrbios americanos).

Inteligente, sexy e um tanto melancólico, "Pecados íntimos" é um filme pequeno, recheado de pequenos acontecimentos, tornado enormes pela dimensão dentro da vida de suas personagens. É um filme como a vida, e como tal, surpreende, encanta e não deixa ninguém incólume.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ZUZU ANGEL


ZUZU ANGEL (Zuzu Angel, 2006, Warner Bros, 108min) Direção: Sérgio Rezende. Roteiro: Marcos Bernstein, Sérgio Rezende. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Marcelo Moraes. Música: Cristóvão Bastos. Figurino: Kika Lopes. Direção de arte/cenários: Daniel Flaksman, Marcos Flaksman. Produção executiva: Heloísa Rezende. Produção: Joaquim Vaz de Carvalho. Elenco: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Leandra Leal, Alexandre Borges, Regiane Alves, Othon Bastos, Luana Piovani, Antonio Pitanga, Elke Maravilha, Caio Junqueira. Estreia: 27/7/06

Praticamente um especialista em cinebiografias políticas nacionais, o cineasta Sergio Rezende tem no currículo filmes importantes, como "O homem da capa preta", "Lamarca" e "Mauá - O imperador e o rei". Dando continuidade a seu invejável currículo, "Zuzu Angel" dá um passo a frente em sua obra, injetando emoção e dor a uma técnica competente e eficaz. Evitando contar a vida inteira da estilista brasileira que dá nome ao filme e preferindo focar sua atenção a um determinado período de tempo - mais precisamente na história de sua trágica busca pela verdade a respeito do único filho homem, preso pela ditadura militar que manchou de sangue e pólvora a história do Brasil de 1964 a 1979.

Contando com uma caprichada reconstituição de época, Rezende joga o espectador em seu filme, aproximando-o corajosamente do drama de Zuzu (uma bela e competentíssima Patrícia Pillar) sem rodeios e sem medo de parecer sentimental. Mesclando um thriller político eletrizante com momentos de pura emoção - em especial quando estão em cena Patrícia e Daniel de Oliveira, que vive seu filho, Stuart Angel - o filme de Rezende, co-escrito em parceria com Marcos Bernstein atinge a plateia sem maiores dificuldades. Linear e claro, o roteiro não se furta a apontar culpados e eleger sua protagonista como heroína, mas foge do maniqueísmo por uma razão bastante simples: ela o é, como sua trajetória deixa bem explícito.



Uma das estilistas nacionais mais respeitadas no exterior, Zuzu Angel - mãe da jornalista e atriz Hildegard Angel, interpretada por Regiane Alves no filme - estava no auge de sua carreira quando uma sombra negra ofuscou seu sucesso. Seu único filho, Stuart (mais um grande trabalho de Daniel de Oliveira), é preso pelo DOPS, que nega a operação e se recusa a informar seu paradeiro. Desesperada - e contando com a ajuda velada de testemunhas temerosas - ela parte em busca de informações e, quando finalmente se conforma com a ideia da morte do rapaz, de seu corpo. Nesse meio tempo, passa a ser acuada, ameaçada e desacreditada pelos órgãos do governo, chegando inclusive a tentar chamar a atenção internacional, através do contato com Kissinger. Utilizando até mesmo suas coleções como forma de expressão, ela inspirou Chico Buarque a compor a bela "Angélica" - canção extraordinária que encerra o filme melancolicamente.

Realizado como drama político, mas sem as intermináveis cenas de burocratas discutindo em volta de uma mesa, "Zuz Angel" tem a seu favor a força de sua história (recente, real e brutal) e um elenco espetacular. Patrícia Pillar brilha soberana com uma atuação sutil mas extremamente realista, que atrai a empatia do público sem maiores esforços. Daniel de Oliveira e Leandra Leal (ela como a esposa de Stuart, que também é capturada pela ditadura) estão perfeitos em sua mescla de inocência e pavor. E até mesmo Elke Maravilha - personagem da história real que aqui faz uma ponta afetiva como cantora de uma boate - se sai bem, apesar de sua caracterização na tela (na pele da insossa Luana Piovani) carecer de força e veracidade.

Um dos filmes brasileiros mais bem acabados, interessantes e pungentes da chamada retomada iniciada no início dos anos 90, "Zuzu Angel" é mais um belo gol de placa de Sergio Rezende - que ainda conta com a participação especialíssima de Paulo Betti vivendo o mesmo Lamarca do filme que fizeram juntos em 1994.

domingo, 27 de janeiro de 2013

SCOOP, O GRANDE FURO


SCOOP, O GRANDE FURO (Scoop, 2006, BBC Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Rei Adefarasin. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Nick Palmer, Philippa Hart. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson, Gareth Wiley. Elenco: Woody Allen, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Ian McShane, Romola Garay. Estreia: 28/7/06

Sempre que Woody Allen lança um filme as expectativas são as maiores. Afinal de contas, o cineasta nova-iorquino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano que consegue - mesmo mantendo a impressionante média de um filme por ano - manter uma coerência de estilo. Logicamente nem toda a sua obra mantém o mesmo nível de obras-primas como "Manhattan", "A rosa púpura do Cairo" ou mesmo o mais recente, "Match point, ponto final", mas é inegável que mesmo seus filmes menos inspirados são muito superiores às comédias medíocres que chegam às telas semanalmente. Um exemplo disso é "Scoop, o grande furo", que não agradou à maioria da crítica mas consegue fazer rir sem maiores dificuldades.

Talvez a maior qualidade de "Scoop" seja contar com Hugh Jackman, o Wolverine em pessoa, exercitando seu timing cômico. Ele vive o charmoso, educado e milionário inglês Peter Lyman, que passa a ser o principal suspeito de ser o temido Assassino do Tarô, que anda aterrorizando Londres. Sem saber que está sendo investigado pela jovem jornalista Sondra Pransky (Scarlett Johansson), ele se apaixona por ela, que se aproxima dele junto de Sidney Waterman (Woody Allen), mágico que se faz passar por seu pai. O que a repórter - também encantada pelo belo herdeiro - não pode lhe contar também é como chegou a seu nome: o furo de reportagem lhe foi passado por Joe Strombel (Ian McShane), jornalista veterano que, já morto, dá a dica depois de um truque de mágica de Sidney.



Mais uma vez utilizando uma trama de suspense como centro da narrativa - como fez em "Match point" e "Misterioso assassinato em Manhattan" - Allen dessa vez não se furta a brindar a plateia com diálogos engraçadíssimos e uma química perfeita com Scarlett Johansson. Mesmo que as surpresas da história não sejam exatamente brilhantes, nota-se perfeitamente seu objetivo de utilizá-los apenas como pano de fundo para explorar as possibilidades de criar um roteiro que se ampara basicamente em suas personagens principais - nem ao menos há coadjuvantes interessantes como é comum na obra do diretor, o que centra tudo principalmente em Johansson e Jackman. Se a atriz não faz muito mais do que tentar mostrar que não é apenas um símbolo sexual, é Jackman quem rouba a cena, mostrando que, mais do que um herói de ação, tem também talento suficiente para brilhar em gêneros diferentes.

Mesmo que não seja o melhor Woody Allen, "Scoop, o grande furo" diverte e entretém com inteligência, bom-humor e sutileza. Para os fãs do diretor, isso é mais do que o bastante.

sábado, 26 de janeiro de 2013

PEQUENA MISS SUNSHINE


PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine, 2006, Fox Searchlight Pictures, 101min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Michael Arndt. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Pamela Martin. Música: Mychael Danna, DeVochtka. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa Levander. Produção executiva: Michael Beugg, Jeb Brody. Produção: Albert Berger, David T. Friendly, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa. Elenco: Toni Collette, Greg Kinnear, Steve Carrell, Alan Arkin, Paul Dano, Abigail Breslin. Estreia: 20/01/06 (Sundance Festival)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Original

Não é preciso ser nenhum gênio para saber que os americanos tem uma obsessão quase doentia pelo sucesso. Não fazer parte da elite da sociedade - seja em termos financeiros, estéticos ou culturais - é, por si só, dentro da mentalidade ianque, um sinal insofismável de derrota. E é essa busca desesperada pelo sucesso a mola mestra de "Pequena Miss Sunshine", uma deliciosa comédia dramática que equilibra com perfeição diálogos e cenas impagáveis com momentos de um delicado drama familiar. Inesperado - mas muito merecido - sucesso de bilheteria e crítica, o filme do casal Valerie Farris e Jonathan Dayton foi lançado discretamente no Festival de Cannes de 2006 e meses depois peitava firmemente "Os infiltrados" e "Cartas de Iwo Jima", dos veteranos Martin Scorsese e Clint Eastwood na disputa pelo Oscar de melhor filme.

Realizado a um custo estimado de apenas oito milhões de dólares, "Pequena Miss Sunshine" conquista o público graças principalmente a um elemento muitas vezes subestimado pelos produtores dos blockbusters hollywoodianos: o roteiro. Esperto, ágil e se mantendo magistralmente realista mesmo em seus momentos mais absurdos, o script de Michael Arndt (que venceu o Oscar da categoria) é um estudo de personagens, humano e delicado, capaz de fazer e rir e chorar de emoção na mesma medida, principalmente porque encontrou em seu elenco suas encarnações perfeitas. Preferindo dedicar-se mais à direção de seus atores (todos impecáveis) do que a invenções estilísticas e visuais, Dayton e Ferris construiram um conto a respeito de amor familiar e respeito às diferenças que certamente vai ficar  carinhosamente na memória de seu público como um dos maiores pequenos filmes de seu tempo.



Centrando sua trama exclusivamente na road trip da família Hoover - um bando de pessoas problemáticas, neuroticas e tentando desesperadamente fugir da mediocridade das próprias vidas - "Pequena Miss Sunshine" brinda a audiência com diálogos inteligentes e personagens brilhantes. Os pais da família são Richard (Greg Kinnear) - que tenta entusiasticamente vender um projeto de livro de autoajuda - e Sheryl (Toni Collette), que dá total apoio às ambições do marido enquanto batalha para ser uma mãe presente a seus dois filhos: o mais velho, Dwayne (Paul Dano) está em greve de silêncio como forma de declarar sua admiração por Nietzsche e sua vontade de tornar-se piloto de avião e a caçula, Olive (a adorável Abigail Breslin) tem o sonho de ser eleita a rainha de um concurso de beleza que os levará todos a encarar uma viagem dentro de uma kombi caindo aos pedaços. Junto com eles estarão Edwin (Alan Arkin) - pai de Richard e expulso do asilo por ser viciado em drogas - e Frank Ginsberg (Steve Carrell), irmão de Sheryl, homossexual que tentou o suicídio após ser trocado pelo namorado.

Utilizando a velha kombi como um microcosmo de um núcleo familiar abrangente, o roteiro de Arndt usa e abusa das possibilidades que o road movie - tradicional subgênero do cinema hollywoodiano - lhe oferece. É durante essa viagem que a família Hoover vai ser obrigada a confrontar-se com seus pequenos dramas domésticos e lidar com seus demônios, sempre de forma leve e carinhosa, não pesando a mão nem mesmo quando o destino chega sem avisar e lhes prega uma peça atrás da outra. Composto de silêncios contundentes e diálogos mordazes, o filme tem na figura de Olive - desajeitada, gordinha e dotada de uma inocência apaixonante - seu elemento de catarse. É ela, em sua esperança de tornar-se a Pequena Miss Sunshine do título que serve de porto seguro e elo de união entre seus parentes. É comovente a maneira com que os diretores constroem a relação da menina com aqueles à sua volta, em especial com seu avô - a cena em que ela chora desesperadamente por ter medo de perder o concurso e consequentemente o amor do pai resume com perfeição a ideia de vitória que os americanos cultuam com devoção.

"Pequena Miss Sunshine" é, sem medo de parecer exagero, uma obra-prima de grandes proporções, a despeito do tamanho de sua produção. Engraçado, emocionante, despretensioso e que fica melhor a cada revisão. Para assistir e guardar no coração.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O DIABO VESTE PRADA


O DIABO VESTE PRADA (The Devil wears Prada, 2006, 20th Century Fox, 109min) Direção: David Frankel. Roteiro: Aline Brosh McKenna, romance de Lauren Weisberg. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Patricia Field. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Lydia Marks. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Karen Rosenfelt. Produção: Wendy Finerman. Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Emily Blunt, Simon Baker, Adrian Granier, Gisele Budchen. Estreia: 30/6/06

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia (Meryl Streep)

Ainda bem que não é somente de filmes sérios e densos e adaptações de histórias em quadrinhos repletos de cenas de ação bem-feitas que o cinema hollywoodiano é feito. De vez em quando, uma comédia com um aparente público-alvo limitado surpreende e se torna cult imediato, enchendo os cofres dos estúdios, divertindo a plateia e, pasmem, concorrendo ao Oscar. Logicamente contar com a espetacular Meryl Streep no papel central não atrapalha em nada, mas além da atuação impecável da veterana atriz (rejuvenescida e belíssima em um papel de má que lhe cabe perfeitamente), há muito o que se elogiar em "O diabo veste Prada", divertidíssima adaptação de um bestseller de Lauren Weisberg.

Escrito por Weisberg como uma espécie de vingança bem-humorada contra a editora-chefe da "Vogue" americana, a temida Anna Wintour, o livro tornou-se sucesso imediato nos EUA e chegou às telas sob a direção correta e dotada de exímio ritmo por David Frankel, que assinou vários episódios da série de TV "Sex and the city". Mesmo focalizando sua história nos bastidores do mundo da moda - o que, em tese, poderia atrapalhar sua penetração em outro público-alvo que não mulheres e gays - o filme é também uma crítica mordaz a um estilo de vida glamouroso e fútil e um olhar antenado às transformações sociais que permitem às mulheres a luta pela igualdade no mercado de trabalho. Tudo embalado por uma trilha sonora deliciosa - que inclui Madonna e Alanis Morissette - e um figurino luxuoso assinado por Patricia Field (também vinda de "Sex and the city" e que abocanhou uma indicação ao Oscar por seu primoroso trabalho).



Apesar de ter ganho um Golden Globe e ter concorrido ao Oscar de melhor atriz, Meryl Streep é, na verdade, coadjuvante em "O diabo veste Prada". A protagonista é Andrea Sachs (a bela e competente Anne Hatthaway), jovem recém-formada em Jornalismo e que aceita um trabalho na revista de moda "Runway" apenas como um primeiro passo para uma carreira mais sólida e relevante. Inteligente e culta, Andrea se vê repentinamente inserida em um universo luxuoso e quase surreal, cercada de modelos magérrimas, roupas caríssimas e, pior ainda, uma chefe irascível e aterrorizante, Miranda Prestley (papel de Streep, roubando cada cena com seu invejável timing cômico). Não apenas Andrea precisa lidar com sua falta de jeito com a nova função, mas também com a falta de bom-senso de sua patroa, que lhe incumbe das mais variadas missões como se essas fossem as mais corriqueiras do mundo. Enquanto isso acontece, seu relacionamento com o namorado Nate (Adrian Grenier) entra em crise e ela se vê atraída pelo jornalista Christian Thompson (Simon Baker), mais adequado a esse novo estilo de vida.

Com um humor ferino e sutil, Weisberg criou uma personagem antológica - ainda que chupada radicalmente da realidade - que desfila sua acidez e sua classe por ambientes chiques e destila seu veneno e seu desprezo em festas opulentas e bem frequentadas. Felizmente, o filme consegue fugir do maniqueísmo, emprestando à Miranda uma personalidade em que cabe com verossimilhança um lado frágil e inseguro, demonstrado em uma cena em que Streep aparece desprovida de maquiagem. Na visão de David Frankel, não há vilões e sim pessoas ambiciosas, capazes de atos desprezíveis para atingir seus objetivos mas igualmente donas de certa generosidade bem disfarçada. Essa dualidade é representada com maestria por Meryl Streep mas também ganha o dócil rosto de Anne Hatthaway, cuja personagem precisa, em determinado momento, escolher o caminho certo para sua felicidade.


Contando ainda com um elenco coadjuvante inspiradíssimo - em que se inclui o ótimo Stanley Tucci e a excelente Emily Blunt - "O diabo veste Prada" é um clássico instantâneo, inteligente e muito, muito divertido.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SUPERMAN, O RETORNO


SUPERMAN, O RETORNO (Superman returns, 2006, Warner Bros, 154min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, estória de Bryan Singer, Michael Dougherty, Dan Harris, personagens de Jerry Siegel, Joe Shuster. Fotografia: Newton Thomas Siegel. Montagem: Elliot Graham, John Ottman. Música: John Ottman. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dias/Brian Dusting. Produção executiva: William Fay, Chris Lee, Scott Mednick, Thomas Tull. Produção: Gilbert Adler, Jon Peters, Bryan Singer. Elenco: Brandon Routh, Kevin Spacey, Kate Bosworth, James Marsden, Parker Posey, Eva Marie Saint, Frank Langella, Sam Huttington. Estreia: 21/6/06

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois de quase três décadas desde que Richard Donner fez com que o público acreditasse que um homem podia voar, o Homem de Aço voltou às telas - após anos e mais anos de especulações e projetos frustrados. Dirigido por Bryan Singer, o homem que fez dos mutantes da Marvel personagens extremamente rentáveis também no cinema com os dois primeiros capítulos de "X-Men", "Superman, o retorno" acabou decepcionando tanto os fãs mais fieis da cultuada personagem quanto seu estúdio, a Warner Bros. Mesmo tendo rendido quase 400 milhões de dólares mundo afora, a nova aventura do filho de Jor-El dificilmente pode ser considerada um grande sucesso: com seu custo estratosférico de 200 milhões, ele no máximo pode se gabar de não ter dado prejuízo (a ponto de um novo filme, com elenco e diretor diferentes, estar com data marcada de estreia para maio deste ano).

Apesar das pedradas de boa parte da crítica e do sabor de anticlímax experimentado pela plateia, porém, "Superman, o retorno" não é tão ruim quanto parece. Mesmo que esteja longe do fascínio e da diversão do primeiro exemplar - estrelado por Christopher Reeve em 1978 - a reinvenção da trama nas mãos de Singer é muito mais decente - e tem mais personalidade - do que dezenas de adaptações de super-herois que chegam às telas e seduzem o público com campanhas de marketing mais eficazes do que o produto. O filme de Synger - que também tem no currículo os excelentes "O aprendiz" e "Os suspeitos" - tem alguns pecados bem graves, mas também proporciona ao espectador alguns momentos de puro e delicioso entretenimento escapista.



Ao contrário da tendência da época de seu lançamento, que era de contar as origens dos heróis, em "Superman, o retorno", como o próprio título indica, isso não acontece. Não é mostrada ao público a gênese da personagem, como ocorreu no filme clássico de Donner e sim uma continuação de suas aventuras. Quando o filme começa, o Superman (vivido por Brandon Routh, adequado mas sem muito carisma para segurar um papel tão icônico) volta à Terra, depois de cinco anos afastado em uma viagem a seu planeta de origem. Seu retorno abala a paz da jornalista Lois Lane (a fraquinha Kate Bosworth, que quase põe o filme a perder), que está bem casada com Richard White (James Marsden) e tem um filho pequeno. Seus problemas pessoais acabam sendo postos de lado no momento em que ele descobre um plano de Lex Luthor (Kevin Spacey) de destruir a California para criar um novo território de sua propriedade.

É fácil de apontar os problemas de "Superman, o retorno". Seu início claudicante - que demora a engrenar - é apenas o primeiro deles. A escolha da fraca Kate Bosworth como Lois Lane (muito mais ativa aqui do que na versão mais famosa) também compromete bastante o resultado final. E, mesmo que mantenha o clima de humor que consagrou Gene Hackman na obra de Donner, o Lex Luthor de Kevin Spacey escorrega frequentemente no cômico sem graça (felizmente, Parker Posey como sua fiel Kitty Kowalski está ótima). Mas, tirando esses pequenos defeitos, o filme de Bryan Singer não mereceu toda a saraivada de achincalhes que sofreu em sua estreia. É tecnicamente competente, não estraga a mitologia do protagonista e, ainda que se estenda demais em seu terço final, consegue divertir. Merece uma revisão!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A DAMA NA ÁGUA

 
A DAMA NA ÁGUA (Lady in the water, 2006, Warner Bros, 110min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Christopher Doyle. Montagem: Barbara Tulliver. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Heimann. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Larry Dias. Produção: Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, M. Night Shyamalan, Jeffrey Wright, Freddy Rodriguez, Sarita Choudhury, Mary Beth Hurt. Estreia: 21/7/06

M. Night Shyamalan é um cineasta preso em seu próprio sucesso.  Depois que "O sexto sentido" o transformou em uma das maiores revelações de Hollywood praticamente da noite pro dia, ele se viu obrigado pela mídia e pelo público a seguir a mesma fórmula de sempre. Foi por isso que seu filmaço "Corpo fechado" não obteve o mesmo reconhecimento - erro absurdo de marketing -, que "Sinais" dividiu a crítica - apesar do êxito comercial - e que "A vila" incorreu na ira da plateia - por seu final pseudosurpresa fraco e anticlimático. E foi por isso também que seu "A dama na água" tropeçou insofismavelmente nas bilheterias. Primeiro filme do diretor na Warner - depois de um rompimento com a Disney que rendeu o livro "The man who heard voices: Or, how M. Night Shyamalan risked his career on a fairy tale" - seu conto de ninar de clima onírico e ecologicamente correto foi mal compreendido e configurou-se no primeiro fracasso de sua carreira.

Para se gostar de "A dama na água" é imprescindível que se compre a ideia e mergulhe nela (sem trocadilho) de cabeça. Diferente dos trabalhos anteriores do cineasta, que tinham o pé bem fincado na realidade mesmo quando as personagens lidavam com gente morta e invasões alienígenas, aqui a coisa é bem diferente. Apesar de seu protagonista ser extremamente humano - e um humano repleto de problemas pessoais e sem nenhum tipo de glamour hollywoodiano - tudo gira em torno de um ser mítico e criado pela imaginação de Shyamalan: uma ninfa da água, que, com seu surgimento, transforma a vida de um grupo de pessoas que mora em um condomínio de classe média baixa. O toque de gênio do diretor - e que faz dele tão diferente da maioria de seus colegas - é mesclar a fantasia com a realidade de forma tão orgânica que em pouco tempo a audiência nem está mais questionando o fato de que tudo é uma desvairada obra de ficção.



Depois de anos amargando papéis secundários - e de ter sido ignorado pelo Oscar justamente quando atingiu a protagonização em "Sideways, entre umas e outras" - o ator Paul Giamatti assume o papel de protagonista como Cleveland Heep, o zelador de um condomínio que começa a perceber que, contrariando as regras do lugar, alguém anda utilizando a piscina depois das sete da noite. Tentando descobrir qual dos moradores é o culpado, ele chega até à misteriosa Story (Bryce Dallas Howard), uma ninfa que se sente impedida de voltar a seu lar devido a ameaças de estranhas criaturas que rondam o condomínio. Intrigado com a história, Heep passa a investigar as origens de sua nova hóspede e descobre que ela está ali para incentivar a escrita de um livro que, no futuro, será essencial para a humanidade. Para evitar que o monstro mate a etérea criatura, Heep precisa descobrir, através de inúmeros símbolos descritos por Story, quais são as pessoas do condomínio que irão lhe ajudar na missão de salvá-la.

Contando em absoluto tom de fábula - ainda que não hesite em criar sequências de grande suspense - "A dama na água" surgiu das histórias que Shyamalan contava para suas filhas na hora de dormir e isso fica evidente na forma delicada com que o roteiro se desenvolve. Utilizando um senso de humor quase inexistente em seus filmes anteriores, o cineasta conduz o espectador a uma viagem que lhe exige uma temporária suspensão da realidade. Ao espalhar elementos clássicos das histórias de ninar pela narrativa, o diretor consegue, de forma exemplar, mostrar mais uma vez sua criatividade e sensibilidade raras. Mesmo que por vezes tudo fique um pouco forçado demais - o desenho da criatura que persegue Story chega perigosamente perto do fake - é impossível deixar de aplaudir sua coragem de manter a integridade de sua carreira, por pior que tenha sido o resultado em termos de dólares. "A dama na água" é um belo filme, que merece ser redescoberto e admirado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

X-MEN 3


X-MEN 3 (X-Men: The last stand, 2006, 20th Century Fox, 104min) Direção: Brett Ratner. Roteiro: Simon Kinberg, Zak Penn. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Mark Goldblatt, Mark Helfrich, Julia Wong. Música: John Powell. Figurino: Judianna Makovski. Direção de arte/cenários: Edward Verreaux/Elizabeth Wilcox. Produção executiva: Kevin Feige, Stan Lee, John Palermo. Produção: Avi Arad, Lauren Schuler Doner, Ralph Winter. Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Hale Berry, Anna Paquin, James Marsden, Famke Janssen, Rebecca Romijn, Kelsey Grammer, Ben Foster, Shoreh Aghdashloo, Cameron Bright, Shawn Hashmore, Aaron Stanford, Ellen Page, Vinnie Jones. Estreia: 22/5/06 (Festival de Cannes)

Depois de dois capítulos empolgantes, que agradaram aos fãs dos quadrinhos, aos neófitos e à crítica especializada, os mutantes da Marvel chegaram à sua terceira parte cercados de expectativas. Sem seu diretor Bryan Singer - que foi comandar as aventuras do homem de aço em "Superman, o retorno" - o final da trilogia não teve a mesma repercussão positiva. Apesar dos mais de 230 milhões de dólares de arrecadação doméstica - que mal cobriu os custos de 210 milhões - o filme foi criticado principalmente por não ter mantido o equilíbrio dos seus predecessores entre ação e profundidade psicológica, além de ter um excesso de personagens secundários. Baixada a poeria da polêmica, porém, a justiça precisa ser feita. "X-Men 3" pode não ser o entretenimento perfeito do segundo episódio, mas está muito longe de ser ruim. É um final bastante digno para a série que, do nada, transformou-se no pioneiro das boas adaptações de quadrinhos para o cinema.

Sem deixar de lado a ação que virou característica da série - com cenas de extrema competência - esse terceiro capítulo tem um ponto de partida bastante interessante, com a descoberta de uma vacina que pode curar o gene da mutação. Essa vacina acaba dividindo as opiniões: enquanto centenas de mutantes fazem fila para finalmente terem uma vida normal, outros - liderados por Magneto (Ian McKellen) - consideram o fato uma atitude criminosa e preconceituosa. Essa divisão acirra de vez a guerra entre os mutantes que o seguem e acreditam numa revolução à base da violência e aqueles que acreditam em um método mais pacífico, como manda o professor Xavier (Patrick Stewart). Para piorar ainda mais a situação, Jean Grey (Famke Janssen) ressurge da morte com o codinome Fênix, transformada com sua experiência e disposta a unir-se a Magneto.



Mesmo os detratores de "X-Men 3" são obrigados a concordar que o argumento do filme é sensacional, mais uma vez conectando a mutação com inúmeras minorias (o grande acerto de toda a ideia da série). É impressionante, por exemplo, a cena inicial que apresenta o Anjo ainda criança e desesperado com sua condição "anormal" - e a atuação do ótimo Ben Foster como a personagem na idade adulta reitera a boa primeira impressão. É muito interessante também perceber como o público consegue compreender perfeitamente as dúvidas de Rogue (Anna Paquin), tentada a submeter-se à vacina para não perder o amor de Bobby (Shawn Hashmore) e tornar-se finalmente uma pessoa normal. Essa capacidade do roteiro de ligar a trama às suas personagens mais conhecidas é louvável, mesmo que a profusão de novos mutantes acabe tirando tempo de cena daqueles que se tornaram velhos conhecidos. A sequência final, apesar de muito bem realizada, não é tão potente quanto a do segundo filme, justamente porque apresenta tanta gente que fica difícil prestar atenção em todo mundo. E é também preciso aplaudir a coragem do roteiro em promover a verdadeira carnificina, que elimina da história algumas personagens cruciais - o que encerrou de vez a franquia, ao menos no formato que já estava consagrado.

"X-Men 3" pode não ser o melhor filme da trilogia - e talvez seja mesmo o mais fraco dos três. Mas é infinitamente superior, por exemplo, ao terceiro capítulo de "Homem-aranha", que afundou a personagem-título em uma trama infantilóide e inverossímil até mesmo para uma história de super-herói. E não tem como não gostar de um filme que junte Wolverine, Magneto, Xavier e Mística.

domingo, 20 de janeiro de 2013

MENINA MÁ PONTO COM


MENINA MÁ.COM (Hard candy, 2005, Vulcan Productions, 104min) Direção: David Slade. Roteiro: Brian Nelson. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Art Jones. Música: Harry Escott, Molly Nyman. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jeremy Reed/Kathryn Holliday. Produção executiva: Jody Patton, Paul G. Allen, Rosanne Korenberg. Produção: Michael Caldwell, David W. Higgins, Richard Hutton. Elenco: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh. Estreia: 14/4/06

Manter o interesse do público com uma história com apenas duas personagens em um cenário único não é tarefa das mais fáceis, principalmente para um diretor estreante. Então não deixa de ser admirável que "Menina má ponto com", primeiro filme de David Slade - conhecido por ter comandado videoclipes da banda Stone Temple Pilots - consiga tal façanha. Durante quase duas horas o cineasta novato conduz sua audiência rumo a uma trama tensa, dramática e calcada basicamente em longos diálogos e atuações de extrema competência. E também não atrapalha em nada o assunto de seu primeiro longa-metragem ser tão polêmico: pedofilia e justiça com as próprias mãos.

O filme começa com uma conversa via Internet entre um fotógrafo trintão e uma adolescente de 14 anos. Nota-se de cara que o papo já vem de outras ocasiões e culmina com a combinação do esperado primeiro encontro. Em seguida, Hayley Stark (Ellen Page) e Jeff Kohlver (Patrick Wilson) finalmente se encontram, e a conversa entre o charmoso fotógrafo e a esperta estudante os leva para a casa do rapaz, que lhe convence à visita com a desculpa de ouvirem música. Não demora muito para que um forte clima surja entre ambos, mas as coisas não são exatamente o que parecem. Jeff passa mal e desmaia. Quando acorda, está amarrado em uma cadeira e descobre que Hayley não é a mocinha indefesa e ingênua que ele pensava e está disposta a arrancar dele a confissão sobre o desaparecimento de uma outra adolescente que teclava com ele.



A partir daí, o roteiro de Brian Nelson encontra na direção de David Slade a combinação perfeita. Sem medo de parecer tedioso e sem a menor vontade de editar seu filme de maneira acelerada, Slade explora com prazer todas as nuances da trama, deixando sua câmera testemunhar silenciosamente o duelo entre vítima e algoz (dinâmica esta que se transforma diversas vezes durante a projeção). É brilhante a forma com que o Nelson se isenta de julgar suas personagens, sempre dando a ambas inúmeras possibilidades de defesa e empatia. Jeff, por exemplo, pode ou não ser o monstro apontado por Hayley, que, por sua vez, também se utiliza de métodos nada convencionais - e nada éticos - para tentar provar seu ponto de vista. O embate entre seus dois protagonistas é o cerne e a alma de "Menina má ponto com", e o diretor é inteligente o bastante para não deixar que nada mais importe a não ser as brilhantes atuações de seus atores.

Patrick Wilson - galã em "O fantasma da Ópera" - encontra o papel ideal para mostrar que, por trás de seu charme existe um excelente ator, capaz de despertar os mais variados sentimentos da plateia. Seu Jeff passa da sedução ao desespero, da raiva à apatia e de vilão à vítima com uma desenvoltura que poucos atores de sua geração possuem. E encontra em Ellen Page, aliás, uma parceira à altura. Com meros 17 anos de idade à época das filmagens, a jovem atriz, que concorreria ao Oscar por "Juno" pouco tempo depois, não se intimida diante de uma personagem forte e arriscada, que se perde em seu caminho rumo à justiça exatamente por causa de seu radicalismo. A combinação explosiva entre os dois é que dá ao filme de Slade uma força bastante incomum.

"Menina má ponto com" é o perfeito exemplo de como um bom roteiro, uma boa direção e atores inspirados são muito mais importantes para a qualidade de um filme do que orçamentos anabolizados e marketing agressivo. É uma pequena pérola que merece ser descoberta.

sábado, 19 de janeiro de 2013

VIAGEM MALDITA

 
VIAGEM MALDITA (The hills have eyes, 2006, Fox Searchlight Pictures, 107min) Direção: Alexandre Aja. Roteiro: Alexandre Aja, Gregory Levasseur, roteiro original de Wes Craven. Fotografia: Maxime Alexandre. Montagem: Baxter. Música: tomandandy. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Joseph C. Nemec III/Alessandra Querzola. Produção executiva: Frank Hildebrand. Produção: Peter Locke, Marianne Maddalena, Wes Craven. Elenco: Aaron Stanford, Kathleen Quinlan, Ted Levine, Vinessa Shaw, Dan Byrd, Emilie De Ravin, Desmond Askew. Estreia: 10/3/06

Primeiro foi a onda de remakes de produtos orientais - que teve seu auge com "O chamado" e desapontou com o fraco "O grito". E depois veio a moda de refilmagem de "clássicos" do terror setentista, que começou com o surpreendentemente bom "O massacre da serra elétrica" - e que continuou com esse "Viagem maldita", revisão do apavorante "Quadrilha de sádicos", que Wes Craven dirigiu em 1977. Craven - que depois ficou rico com as séries "A hora do pesadelo" e "Pânico" - é um dos produtores dessa versão século XXI de seu filme, o que lhe dá, no mínimo, credibilidade. Mas o melhor mesmo é saber que o jovem Alexandre Aja (nascido em 1978) conseguiu dar cara e sangue novo (literalmente) ao original sem perder a sua essência cruel e violenta. "Viagem maldita" é um filmaço de terror que não deve nada à sua origem.

A maior diferença entre o filme de Craven e o remake de Aja - que escreveu o novo roteiro ao lado do amigo Gregory Levasseur - diz respeito à origem dos vilões da trama, que, de canibais no filme de 1977, tornaram-se vítimas dos testes radiativos realizados no  deserto do Novo México - fato real cujas consequências podem ser medidas pelas angustiantes fotos reais exibidas nos créditos iniciais.  São as pessoas deformadas e mentalmente perturbadas que irão aterrorizar uma família tradicional ianque durante as duas horas seguintes, grudando o espectador na cadeira até seu minuto final. Ajudado por uma maquiagem espetacular e uma edição de som fantástica, Aja constroi um suspense crescente que não poupa o público de sequências fortes - e lhe dá a oportunidade cada vez mais rara de se importar por seus protagonistas.



Aaron Stanford - o Piro de "X-Men" - é quem acaba assumindo a protagonização de "Viagem maldita", ecoando o Dustin Hoffman de "Sob o domínio do medo", um homem comum e aparentemente frágil que encontra forças desconhecidas dentro de si quando vê a si mesmo e à sua família ameaçados. Ele vive Doug Bukowski, que acompanha a viagem dos pais da esposa, que reuniram a família em uma viagem para comemorar suas bodas de prata. O detetive aposentado Bob Carter (Ted Levine) e sua esposa Ethel (Kathleen Quinlan) mantém uma relação saudável e, junto dos três filhos, do genro e da neta recém-nascida, pensam em chegar à California e curtir alguns dias de paz e sossego. Tudo começa a mudar, porém, depois que seu trailer tem os pneus furados em pleno deserto. A família se divide para procurar ajuda e passa, então, a ser brutalizada e assediada por um grupo de homens deformados e sádicos que vivem nas montanhas.

Quem nunca assistiu a "Quadrilha de sádicos" tem a seu favor o sabor de novidade, que permite mais sustos e choques. Mas é inegável que o roteiro dos jovens fãs do original não se furta a apresentar novos elementos e aprofundar-se no terror gráfico e psicológico. Ao eleger como protagonistas uma família saudável e amorosa - mas que mesmo assim demonstra discretos pecadilhos, como o tesão reprimido de Doug pela cunhada (Emilie De Ravin) - Aja os aproxima do público, que não apenas assiste ao filme, mas também sente-se parte integrante do clã, roendo as unhas e se torcendo na poltrona de medo e terror. A escolha do diretor em não fugir do desagradável - só a cena do estupro é muito mais chocante do que boa parte de toda a série "Jogos mortais" - também é certeira, refletindo o espírito de sua época, em que filmes de terror exploram muito mais o visual do que o subjetivo. No entanto, além de assustar, "Viagem maldita" também funciona dramaticamente como poucos filmes do gênero.

Contando com nomes consagrados em seu elenco - Kathleen Quinlan já concorreu ao Oscar e Ted Levine sempre será lembrado pelo antológico vilão de "O silêncio dos inocentes" - "Viagem maldita" apresenta personagens críveis, que vão se desenvolvendo conforme a história acontece, sempre de forma orgânica e verossímil. Esse pé na realidade - equilibrado pelo visual grotesco dos agressores - é talvez a maior qualidade do filme e o que o coloca como um exemplar acima da média. Para se ver com as luzes apagadas e no silêncio absoluto!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

MATCH POINT - PONTO FINAL


MATCH POINT, PONTO FINAL (Match point, 2005, BBC Films, 124min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson, Lucy Darwin, Gareth Wiley. Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Brian Cox, Matthew Goode, Penelope Wilton, Ewen Bremner. Estreia: 28/12/05

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Que Woody Allen é fã de Dostoievsky - em especial de sua obra-prima "Crime e castigo" - não é novidade para ninguém. Afinal de contas, um de seus melhores trabalhos, "Crimes e pecados" (de 1989) deixa isso bem claro e explícito. Mas poucas vezes o cineasta nova-iorquino chegou tão perto de uma homenagem quanto em "Match point, ponto final", sintomaticamente considerado por ele mesmo como seu melhor filme. Ao utilizar o pontapé inicial do romance - um brutal assassinato com vítimas inocentes como efeitos colaterais - Allen criou um drama de suspense que prende o espectador na cadeira até os créditos finais.

Que não se espere, porém, um filme de suspense ao estilo hollywoodiano, afinal estamos falando de Woody Allen - deixando sua Manhattan de lado para localizar a trama na Inglaterra. Mesmo prejudicado por um fraquíssimo ator central que não convence em todas as nuances do papel (Jonathan Rhys-Meyers, de "Velvet goldmine"), "Match point" é um filmaço, com um roteiro redondinho e uma edição impecável que nunca deixa antever as suas reviravoltas - todas elas orgânicas, coerentes e irônicas na medida certa. Sem o característico senso de humor de seus trabalhos mais conhecidos, Allen demonstra (se é que ainda precisasse disso) um domínio invejável de narrativa - a ponto de, assim como o fez Hitchcock em "Psicose", eliminar uma personagem vital na metade da projeção sem deixar o interesse se esvair.



O protagonista de "Match point" é Chris Wilton (vivido sem muito entusiasmo pelo fraquinho Jonathan Rhys-Meyers), um jovem professor de tênis irlandês que, assim que chega a Londres arruma trabalho como instrutor do milionário Tom Hewitt (Matthew Goode) e, fazendo amizade com ele, conquista o amor de sua irmã, Chloe (Emily Mortimer) e a admiração de toda a família, que lhe arruma uma posição de destaque em sua empresa. O que poderia ser uma vida tranquila sofre um sobressalto quando Chris se apaixona perdidamente por Nola Rice (Scarlett Johansson), noiva de Tom, uma aspirante a atriz, e arrisca seu casamento e seu emprego por essa paixão avassaladora.

Quanto menos se souber do desenrolar de "Match point", melhor. Allen dá um passo de cada vez em seu roteiro, construindo seu suspense aos poucos, deixando com que o público se acostume aos poucos com suas personagens, seus anseios e seus atos. Quando a história realmente começa - e ela começa de maneira a deixar qualquer um estarrecido com as viradas - é impressionante como cada cena, cada diálogo e cada ângulo de câmera parecem colaborar para contá-la de forma a torná-la inesquecível. Poucas vezes o cinema de Woody Allen teve tanto espaço para o erotismo - com tórridas cenas de sexo entre Rhys-Meyers e Scarlett Johansson - e uma certa dose de violência - mesmo que disfarçada com a habitual sofisticação do diretor. O final, então, é de uma fina ironia capaz de devolver a qualquer espectador a fé no bom cinema.

Obra-prima indiscutível, "Match point, ponto final" conquista até mesmo o público avesso às obras mais tradicionais de Woody Allen. Sexy, inteligente e surpreendente, é um dos melhores filmes da temporada 2005, injustamente relegado a apenas uma indicação ao Oscar de roteiro original. Idiossincrasias da Academia no mesmo ano em que premiou o hipócrita "Crash, no limite".

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DIZEM POR AÍ


DIZEM POR AÍ (Rumor has it, 2005, Warner Bros, 97min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: T.M.Griffin. Roteiro: Peter Deming. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Jay R. Hart. Produção executiva: Len Amato, Bruce Berman, George Clooney, Jennifer Fox, Robert Kirby, Michael Rachmil, Steven Soderbergh. Produção: Ben Cosgrove, Paula Weinstein. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Costner, Mark Ruffalo, Shirley MacLaine, Richard Jenkins, Kathy Bates, Mena Suvari. Estreia: 25/12/05

Publicado em 1963, o romance "The graduate", escrito por Charles Webb chegou às telas dos cinemas em 1967, sob a direção premiada com o Oscar de Mike Nichols. Com o título nacional de "A primeira noite de um homem", o filme de Nichols e estrelado por Dustin Hoffman e Anne Bancroft em atuações consagradoras tornou-se imediato sucesso e ícone de uma geração. Quase quarenta anos depois, um filme que especula sobre até que ponto a história contada no livro era realmente fictícia comprova que charme não é algo que se pode forjar. Por mais talentosos que sejam os atores e o diretor de "Dizem por aí", falta ao filme o que dava um molho especial ao original: sutileza e relevância.

A protagonista de "Dizem por aí" é Sarah Huttinger (Jennifer Aniston, linda e boa atriz), uma jornalista que acaba de ficar noiva do amoroso advogado Jeff (Mark Ruffalo), com quem mantém uma relação carinhosa mas longe de apaixonada. Voltando à casa da família em Pasadena para o casamento da irmã caçula (Mena Suvari), ela reencontra o pai (Richard Jenkins) e a exuberante avó, Katharine Richelieu (Shirley MacLaine). Durante sua estada na cidade, porém, ela acaba, sem querer, ouvindo boatos de que o romance "A primeira noite de um homem" - e consequentemente o filme inspirado nele - é a descrição exata da história do triângulo amoroso que envolveu sua falecida mãe, sua avó e o sedutor Beau Burroughs (Kevin Costner). Apavorada com a possibilidade de não ser filha legítima de seu pai - a quem adora - ela procura o escritor e acaba se envolvendo com ele após ter certeza de que não é sua filha.



Levado em tom de comédia romântica contemporânea pelo diretor Rob Reiner - que assinou aquela que é a quintessência do gênero, "Harry & Sally, feitos um para o outro" - essa continuação informal do filme de Mike Nichols não tem outra intenção senão entreter sua plateia. Não existe nele nenhum tipo de tentativa de retratar sua época e seus jovens nem tampouco ambições secretas. Tudo é claro e um tanto óbvio no roteiro, excluindo a dubiedade e o quase cinismo do produto original. Mesmo que por vezes seja bem divertida - responsabilidade da atuação inspirada de Shirley MacLaine - a trama não se sustenta em seus momentos dramáticos, principalmente por causa das atitudes duvidosas de sua protagonista, um problema que nem mesmo o carisma de Jennifer Aniston consegue resolver. E Mark Ruffalo, coitado, não tem muito o que fazer, se tornando um coadjuvante de luxo logo que Kevin Costner entra em cena.

Aliás, é pertinente assumir que o trabalho de Costner é uma das melhores surpresas do filme de Reiner. Deixando de lado a persona megalomaníaca que quase enterrou sua carreira, o ex-maior astro de Hollywood no início dos anos 90 entrega um trabalho leve, charmoso e sedutor, tornando crível sua relação tanto com MacLaine quanto com Aniston. É ele um dos maiores destaques do filme e, assim como fez em "A outra face da raiva", agarra com as duas mãos uma dos papéis mais interessantes a surgir em sua frente depois de seus deslizes comerciais. Quando ele e MacLaine finalmente contracenam - já no final da projeção - faíscas saltam e ao público resta apenas lamentar que o encontro não tenha acontecido antes.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

MUNIQUE


MUNIQUE (Munich, 2005, DreamWorks SKG/Universal Pictures/Amblin Entertainment, 164min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, Eric Roth, livro "Vengeance: the true story of an israeli counter-terrorist team", de George Jonas. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/John Bush. Produção: Kathleen Kennedy, Barry Mendel, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Eric Bana, Geoffrey Rush, Daniel Craig, Matthieu Kassovitz, Ciaran Hinds, Lynn Cohen, Hanns Zischler, Michael Lonsdale, Mathieuu Almaric, Moritz Bleibetreu. Estreia: 23/12/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Ninguém tem dúvidas de que quando quer Steven Spielberg sabe muito bem como falar sério. Foi assim que ele conquistou seus dois Oscar de melhor diretor, por "A lista de Schindler" (93) e "O resgate do soldado Ryan" (98). E, não fosse Ang Lee e seu belo "O segredo de Brokeback Mountain" talvez o diretor mais bem-sucedido da história tivesse embolsado uma terceira estatueta por aquele que é seu filme  mais polêmico e provavelmente o mais desprovido de sentimentalismos: "Munique", a recriação de uma das vinganças mais chocantes da história política contemporânea. Ao recriar o triste episódio que foi consequência do famigerado "setembro negro", Spielberg deixou de lado a parcialidade e entregou um suspense aterrador, capaz de deixar a plateia roendo as unhas de tensão. E o melhor ainda: conseguiu equilibrar tudo com um roteiro coeso e espaço para discussões e dramas pessoais do protagonista, vivido com garra e emoção pelo ótimo Eric Bana.

Bana - coadjuvante que roubou a cena em "Tróia" e "Falcão negro em perigo" - foi a escolha perfeita de Spielberg para ser o protagonista de "Munique". Na pele de Avner, o jovem recrutado pela primeira-ministra Golda Meir (Lynn Cohen, a Magda da série de TV "Sex and the city" em caracterização excepcional), o ator transmite em igual intensidade medo, raiva, angústia, solidão e desespero, jamais permitindo que sua personagem caia na superficialidade. Ao focar sua trama não apenas nos violentos atos de vingança do governo israelense contra os responsáveis pelo massacre dos atletas judeus nas Olimpíadas de Munique em 1972 mas também nos conflitos éticos e religiosos de seu protagonista, o diretor atinge um ponto alto em sua carreira - que infelizmente não encontrou seu público.



Realizado em tempo recorde e sem maiores alardes, "Munique" se apresenta como um estupendo thriller político, magistralmente fotografado e editado e dono de um roteiro espetacular, baseado no livro do jornalista George Jonas. Ao contrário do que fez em "A lista de Schindler" - onde revestiu a violência com a poética fotografia em preto-e-branco de Janusz Kaminski - e em "O resgate do soldado Ryan" - onde a fotografia granulada jogava o espectador no meio da guerra - Spielberg não teve medo de explicitar a violência em "Munique". Mesmo que sejam visualmente deslumbrantes, as cenas de assassinato do filme são de uma crueza e de uma força jamais vista na obra do cineasta, que não hesita em mostrar a violêmcia como ela é, em especial nas sequências que descrevem as mortes dos atletas - espalhadas pelo filme como uma lembrança do ponto de partida da trama.

Mas se a chacina das Olimpíadas é o empurrão para a trama - afinal é ela que precisa ser vingada por Avner e seus companheiros de missão - não o é para os conflitos que são discutidos veemente durante a projeção. Em um ato de coragem e inteligência, Spielberg não toma partido - como nas ocasiões anteriores - e deixa que suas personagens e seus atos falem por si. É exemplar, por exemplo, a cena em que inimigos se encontram em uma casa abandonada e discutem sobre a situação política e religiosa de seus países: ninguém está certo, ninguém está errado, e o diretor conduz a sequência com uma neutralidade impressionante para quem assinou clássicos da manipulação sentimental como "A cor púrpura" e "Império do sol" (grandes filmes, sem dúvida, mas desprovidos de imparcialidade emocional).

"Munique" é, talvez, o grande filme de Steven Spielberg. Forte, contundente, chocante e tecnicamente perfeito - além de possibilitar grandes voos de interpretação de seu protagonista e de coadjuvantes de peso como Geoffrey Rush, Daniel Craig e Mathieu Kassovitz - é também um de seus mais subestimados trabalhos. Azar de quem perdeu um dos grandes suspenses políticos de todos os tempos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

TUDO EM FAMÍLIA


TUDO EM FAMÍLIA (The family Stone, 2005, Fox 2000 Pictures, 103min) Direção e roteiro: Thomas Bezucha. Fotografia: Jonathan Brown. Montagem: Jeffrey Ford. Música: Michael Giacchino. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Matt Callahan. Produção executiva: Jennifer Odgen. Produção: Michael London. Elenco: Sarah Jessica Parker, Diane Keaton, Claire Danes, Dermot Mulroney, Luke Wilson, Rachel McAdams, Craig T. Nelson. Estreia: 16/12/05

 Multipremiada, famosa e milionária com a série "Sex and the city", a atriz Sarah Jessica Parker ainda precisava provar que poderia encarar uma carreira no cinema independente do sucesso de sua Carrie Bradshaw. Um dos primeiros passos nessa direção foi "Tudo em família", uma comédia dramática com toques de romance que, apesar de não ter sido um estouro de bilheteria teve uma arrecadação boa o suficiente para provar que ela não era atriz de uma personagem só. Mesmo que sua Meredith Morton ainda carregue alguns dos maneirismos de sua mais famosa criação, Parker foi indicada ao Golden Globe por seu trabalho no filme do desconhecido Thomas Bezucha.

Dando seguimento aos tradicionais filmes natalinos que os americanos tanto aplaudem, "Tudo em família" consegue, por outro lado, fugir do que se espera de um produto do gênero. Ao invés de famílias desfuncionais que aproveitam os feriados para lavar a roupa suja e botar pra fora todo tipo de mágoa e trauma, o que se vê no filme de Bezucha é um núcleo familiar amoroso e coeso que vê a chegada de um novo membro como uma ameaça a sua integridade - mesmo que esse temor seja injustificado ou explicado apenas superficialmente pelo roteiro. A família em questão é o clã Stone. Liderado por Sybill (Diane Keaton) e Kelly (Craig T. Nelson), o grupo familiar é o oposto do que se vê em dramas similares.

Afetuosos e apaixonados, eles tem na vasta ninhada seu motivo maior de orgulho: Thad (Ty Giordano) é surdo-mudo e vê sua família aprovar e incentivar seu relacionamento homossexual com Patrick (Brian White); a doce Susannah (Elizabeth Reaser) está em vias de dar à luz; a caçula Amy (Rachel McAdams) é linda e inteligente; o meigo Ben (Luke Wilson) não dá trabalho nenhum e o mais velho, Everett (Dermot Mulroney) é o preferido da mãe. E é justamente Everett, que mora em Nova York, que é o responsável pela bomba jogada no seio familiar quando chega para o Natal acompanhado da noiva, Meredith (Sarah Jessica Parker), com quem todos implicam de imediato. Sentindo-se rejeitada (e coberta de razão), ela apela para a irmã mais nova, Julie (Claire Danes), que chega para ajudá-la e se apaixona por Everett. Para complicar ainda mais as coisas, Ben se encanta por Meredith.



O maior mérito do roteiro de Bezucha é equilibrar a contento o romance, a comédia e o dramalhão - sim, uma doença fatal se impõe sobre todos, obrigando a uma nova visão a respeito de tudo. Mesmo que soe superficial em algumas resoluções - ninguém entende o motivo pela rejeição absoluta a Meredith apesar de seus constantes foras - a trama consegue atingir a audiência por tratar de forma leve temas polêmicos como homossexualidade e racismo. É notável também a segurança com que o cineasta mantém uniforme um elenco tão heterogêneo e dá chance a todos de brilharem. Diane Keaton e Craig T. Nelson estão à vontade em seus papéis de patriarcas como há muito tempo não tinham a oportunidade. Rachel McAdams e Claire Danes mostram que juventude não significa falta de talento. E Sarah Jessica Parker mostra que, com uma direção mais firme pode ser uma atriz respeitada em outros papéis que não o de Carrie Bradshaw.

Feito para emocionar e rir, "Tudo em família" cumpre o que promete sem subestimar a inteligência do espectador. É um drama romântico e cômico de fácil comunicação com o público e que foge do clichê. E um filme assim sempre é bem-vindo, mesmo que frustre àqueles que procuram o tradicional final feliz.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA


MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (Memoirs of a geisha, 2005, Dreamworks SKG, 145min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Robin Swicord, romance de Arthur Golden. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gretchen Rau. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Bobby Cohen, Patricia Whitcher. Produção: Lucy Fisher, Steven Spielberg, Douglas Wick. Elenco: Ziyi Zhang, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Gong Li, Ted Levine. Estreia: 06/12/05

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários


Publicado em 1997 e imediatamente comprado pelos produtores Douglas Wick e Lucy Fisher, o romance "Memórias de uma gueixa" sempre interessou ao cineasta Steven Spielberg, que via nele todos os ingredientes capazes de emocionar a plateia ocidental. Anos se passaram, porém, antes que o premiado diretor finalmente jogasse a toalha, impedido de realizar o filme por inúmeros outros compromissos profissionais. Depois que nomes tão díspares quanto Brett Ratner ("Dragão vermelho" e "A hora do rush"), Kimberly Peirce ("Meninos não choram") e até Spike Jonze ("Quero ser John Malkovich" e "Adaptação") estiveram cotados para comandar a missão, no entanto, foi Rob Marshall, fresquinho do sucesso acachapante de "Chicago" quem ficou com o emprego. Extremamente cuidadoso com o visual de seus trabalhos, Marshall imprimiu ao filme uma força pictória que até disfarça seu maior pecado: o pouco caso com a nacionalidade de seu elenco.

Para os produtores de Hollywood - ao menos é a nítida impressão que seus filmes passam - não importa se as gueixas fazem parte da cultura japonesa ou de qualquer outro país da Ásia. Só isso explica a escalação das atrizes chinesas Ziyi Zhang e Gong Li e da malaia Michelle Yeoh para viverem as protagonistas de uma história que, em tese, deveria esclarecer à audiência a respeito de uma das tradições mais importantes do Japão. Somado ao fato de ser falado em inglês - que ajudou na bilheteria mas prejudicou ainda mais sua credibilidade - esse erro talvez não tenha incomodado o público médio, mas, especialmente depois da ousadia de "A paixão de Cristo" em ser falado em seu idioma original, soou superficial e pasteurizado. Sorte que Rob Marshall sabe o que faz em termos estéticos e transformou "Memórias de uma gueixa" em um espetáculo brilhante em termos visuais.



O filme começa em 1929, quando a pequena Chiyo é vendida para uma casa de gueixas e separada de sua irmã, também criança. Sofrendo com a situação - e com os maus-tratos impostos pela dona da casa e pela principal gueixa do local, a bela Hatsumoto (Gong Li) - ela, aos poucos começa a crescer e revelar uma beleza estonteante. Contando com o apoio da veterana Mameha (Michelle Yeoh), ela decide se tornar uma gueixa - mesmo que seja para conquistar o amor do homem que lhe deu carinho em sua infância, um poderoso político que, com a eclosão da II Guerra vai lhe ajudar a sobreviver.

É impossível negar a beleza que desfila diante dos olhos dos espectadores de "Memórias de uma gueixa". A fotografia deslumbrante de Dion Beebe encontra eco nos espetaculares figurinos e na caprichada direção de arte (não foi por acaso que o filme saiu premiado com os Oscar nessas três categorias) e a trilha sonora do veterano John Williams é contida até ser chamada à ação, emocionando na medida certa. E, apesar de não ser a escolha mais adequada para o papel central - por questões geográficas - Ziyi Zhang consegue transmitir toda a angústia de sua personagem e tornar-se absolutamente linda quando necessário, mesmo quando está ao lado da estonteante Gong Li - em uma atuação igualmente inspirada. São elas - e Michelle Yeoh, sutil e discreta em sua interpretação - que fazem com que o filme seja assistido mesmo com seu grotesco equívoco idiomático e cultural.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

TRANSAMÉRICA

TRANSAMÉRICA (Transamerica, 2005, Belladonna Productions, 103min) Direção e roteiro: Duncan Tucker. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Pam Wise. Música: David Mansfield. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Mark White/Lisa Crivelli Scoppa. Produção executiva: William H. Macy. Produção: René Bastian, Sebastian Dungan, Linda Moran. Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Burt Young, Elizabeth Peña, Carrie Preston. Estreia: 24/4/05 (Tribeca Film Festival)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Felicity Huffman), Canção Original ("Travellin' thru")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Felicity Huffman)

Certo dia o roteirista e cineasta Duncan Tucker estava conversando com a atriz Katherine Connella, com quem havia dividido um apartamento por quatro meses, e ficou absolutamente chocado com a revelação de que ela na verdade havia nascido e sido criada como homem. Atordoado com o fato, ele manteve a ideia na cabeça e eis que, tempos depois, em seu primeiro longa-metragem, "Transamérica", a personagem central era justamente um transexual às vésperas de sua cirurgia que finalmente lhe daria o corpo que sua alma sempre buscou. Aclamado pela crítica e estrelado por uma avassaladora Felicity Huffman, o filme de Tucker equilibra com precisão um drama contundente com um senso de humor afiado que lembra bastante o estilo do espanhol Pedro Almodovar.

Em uma atuação consagradora - que perdeu injustamente o Oscar para Reese Witherspoon - Huffman (mais conhecida pela série de TV "Desperate housewives") interpreta uma das personagens mais interessantes e complexas da temporada 2005 de forma magistral. Bree Osbourne é um transexual que está a apenas um passo de realizar seu sonho de passar por uma cirurgia que finalmente a fará a mulher que sempre foi em seu íntimo. Às vésperas da cirurgia, porém, o destino arma das suas e ela descobre que, como resultado de um relacionamento fugaz nos tempos em que tentava se enquadrar na heterossexualidade, tem um filho adolescente. O rapaz, Toby (Kevin Zegers, ótimo), é um garoto de programa viciado em drogas e rebelde, que, em sua mente fantasiosa, imagina seu pai como um orgulhoso descendente indígena. Ao encontrar o jovem - porém sem revelar sua identidade real - Bree fica tocada com seu modo de vida e, pressionada também pela chantagem de sua psicóloga (Elizabeth Peña) - que se recusa a assinar o documento autorizando a cirurgia antes que a situação entre eles se resolva - resolve se aproximar dele e tentar encaminhá-lo decentemente.



O roteiro de Tucker é um primor de ritmo e de cenas destinadas a antológicas - em especial por contar com a excelente química entre seus atores centrais. Intercalando cenas de um humor insuspeito com momentos de forte carga dramática (ainda que longe de piegas), a trama acompanha a evolução do relacionamento entre Bree e seu filho através de um recurso batido - road movie - que funciona à perfeição. Os diálogos entre os dois (bastante improvisados com incentivo do diretor) fluem naturalmente e conduzem a ação a sequências fabulosas - é especialmente inteligente a maneira com que Tucker apresenta Toby ao universo de Bree quando eles param em uma festa particular frequentada quase unicamente por transexuais. E é emocionante também o encontro de Bree com o caminhoneiro Calvin (Graham Greene), em que ela demonstra seu lado feminino com mais propriedade - em cenas que lembram Fernanda Montenegro e Othon Bastos em "Central do Brasil".

E se não fosse o bastante o banho de interpretação de Felicity Huffman - perfeita em cada entonação, em cada movimento físico - "Transamérica" ainda deixa para seu ato final a participação mais do que especial da grande Fionula Flanagan, que quase rouba a cena no papel da mãe de Bree, que não aceita o novo "estilo de vida" da filha/filho e é responsável por alguns dos momentos mais tensos do filme - momentos ainda assim dono de um estilo único de humor negro que alivia até mesmo a densidade que se anuncia perto de seu final. Defendidas por um elenco impecável, as personagens criadas pelo roteirista/diretor chegam a extremos que somente atores do porte de Huffman e Flanagan conseguem tornar críveis e dignas de empatia. Aplausos a Tucker por permitir que eles brilhem intensamente, tornando a experiência de se assistir a seu filme inesquecível.

"Transamérica" é mais do que um filme direcionado ao público GLBT. É um drama com toques cômicos que fala de gente, de famílias, de amor incondicional e da busca pela felicidade. E é absolutamente imperdível!

domingo, 6 de janeiro de 2013

SYRIANA

SYRIANA, A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO (Syriana, 2005, Warner Bros, 128min) Direção: Stephen Gaghan. Roteiro: Stephen Gaghan, livro "See no evil", de Robert Baer. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Tim Squyres. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Dan Weil. Produção executiva: George Clooney, Ben Cosgrove, Jeff Skoll, Steven Soderbergh. Produção: Jennifer Fox, Georgia Kacandes, Michael Nozik. Elenco: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Christopher Plummer, Chris Cooper, Amanda Peet, William Hurt. Estreia: 23/11/05

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (George Clooney), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (George Clooney)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (George Clooney)

O ano de 2005 foi particularmente feliz para a carreira de George Clooney: o ator,  revelado como o sedutor doutor Ross na série "Plantão médico" não apenas deixou pra trás a imagem de galã como tornou-se ainda mais respeitado pela indústria e pela crítica, lançando seu segundo filme como cineasta - o ótimo "Boa noite, e boa sorte", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de diretor - e faturando a estatueta de ator coadjuvante por seu papel no polêmico "Syriana". Dirigido por Stephen Gaghan (roteirista oscarizado por "Traffic"), Clooney abdicou da vaidade e aceitou um papel secundário (ainda que essencial) em um projeto complexo, de importância política e pouco comercial. O resultado final, mesmo que não tenha sido tão explosivo quanto poderia, serviu ao menos para provar seu bom gosto na hora de escolher seus trabalhos: "Syriana" é um filme muito mais importante do que a grande maioria das produções hollywoodianas de sua época.

 Dono de um roteiro bastante complexo - adaptado de um livro de Robert Baer, mas inexplicavelmente indicado ao Oscar como original - que conta várias histórias simultaneamente para ligá-las no ato final, "Syriana" não atinge o mesmo nível de "Traffic" especialmente por tratar de um assunto que exige muito mais conhecimento prévio do público. Mesmo assim, é difícil ficar incólume à forma ágil com que a edição de Tim Squyres joga suas tramas ao público, equilibrando intrigas palacianas no governo árabe com problemas familiares e um intrigante suspense policial que joga Bob Barnes (George Clooney mais gordo especialmente para o papel), agente da CIA, em uma perigosa teia de interesses escusos da qual faz parte inclusive o governo americano - daí a polêmica envolvendo o filme, lançado em um período em que as relações entre EUA e Oriente Médio estavam mais uma vez bastante estremecidas.

 

"Syriana" não se concentra em nenhuma trama específica em seus dois terços iniciais, apresentando suas personagens de maneira quase didática. É assim que somos apresentados a Bob Barnes - em crise com sua ex-mulher e seu filho adolescente e que se descobre descartado pelos colegas da CIA justo em um momento crucial de sua carreira -, ao analista de mercado de petróleo Bryan Woodman (Matt Damon) - que vê sua família desmoronar depois de uma tragedia que lhe faz prescrutar com outros olhos o ambiente em que vive -, ao xeique Nasir Al-Subaai (Alexander Siddig) - cujas ideias reformistas não exatamente agradam os americanos -, ao advogado Dean Whiting (Christopher Plummer) - envolvido na fusão de indústrias petrolíferas - e a um jovem muçulmano que vê no terrorismo islâmico a chance de se tornar importante a seu país. Depois que todos eles são apresentados, Gaghan parte para a partida, ligando-os de maneira sutil mas orgânica, mostrando - como fez com sucesso em "Traffic" - que um pequeno ato pode atingir inúmeras vidas (e países).

Mesmo que muitas vezes confunda o espectador com tantos nomes e personagens - nem todos interessantes, mas todos suficientemente bem desenvolvidos pelo roteiro - "Syriana" é admirável porque trata de um assunto relevante de forma quase completamente acessível. Mas, ao mesmo tempo que tenta transmitir suas ideias esbarra na inexperiência de seu diretor, que não tem o domínio da narrativa que seria imprescindível em tal situação. Ainda assim, é forte e politicamente imperdível.

sábado, 5 de janeiro de 2013

V DE VINGANÇA

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2005, Warner Bros, 132min) Direção: James McTeigue. Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski, HQ de David Lloyd. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Martin Walsh. Música: Dario Marianelli. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Owen Paterson/Peter Walpole. Produção executiva: Benjamin Waisbren. Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski. Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Stephen Fry, Rupert Graves, Sinead Cusack. Estreia: 11/12/05

Em 1999, os irmãos Wachowski mudaram o cenário dos filmes de ficção científica com o megasucesso "Matrix", que rendeu duas continuações e colocou seu nome na estratosfera da indústria hollywoodiana. Demorou seis anos, porém, para que eles voltassem a chamar a atenção do público e da crítica, dessa vez como roteiristas. Ao adaptar para as telas a graphic novel "V for Vendetta", de David Lloyd, os irmãos mais esquisitos do cinema americano entregaram a direção nas mãos dao australiano James McTeigue, estreando na função. Não é preciso ser muito esperto para perceber, no entanto, que, apesar do nome de McTeigue estar na cadeira de diretor é a concepção dos Wachowski que predomina nessa fascinante crítica ao fascismo - que chegou a ser proibida na China devido a seu conteúdo "subversivo".

Passado em uma Grã-Bretanha distópica que vive sob um governo fascista, "V de vingança"não tem medo de descrever uma tirania violenta e arbitrária, capaz de prender e torturar cidadãos sem o menor pudor - desmandos nada estranhos a quem já passou por ditaduras sangrentas. O público é jogado na trama sob o ponto de vista da jovem Eve (Natalie Portman pegando o papel cobiçado por Scarlett Johansson e Keira Knightley), que é salva de um estupro por um misterioso mascarado que a leva para casa e revela a ela um plano mirabolante para uma revolução popular. A princípio chocada e temerosa a respeito de seu anfitrião - que a aprisiona e chega a lhe raspar o cabelo - Eve aos poucos passa a simpatizar com sua causa, principalmente quando entra em contato com histórias tenebrosas a respeito do regime. Em pouco tempo, ela se alia ao estranho V (Hugo Weaving) e torna-se militante ativa da revolução.



É difícil resumir "V de vingança", um filme que tem como seu maior atrativo o clima de desesperança transformado em combustível para o levante popular - o que certamente incomodou o governo de países em situação similar. Criado com um visual que equilibra a escuridão do regime com a busca por uma luz no fim do túnel - que tem em sua sequência final o clímax absoluto - o filme de McTeigue também não deixa de lado a construção psicológica de suas personagens, dando a Portman e Weaving oportunidades enormes para o brilho. Enquanto o ator - que atingiu o ápice da carreira como o vilão Mr. Smith da série "Matrix" e assumiu o papel central depois da demissão de James Purefoy - convence plenamente como V mesmo sem tirar sua máscara em momento algum, Portman atinge outro ponto alto da carreira, mesclando docilidade, revolta e dor na medida exata. E seria injusto louvar também a maneira com que o roteiro dá igual espaço a cenas de ação e violência e à delicadeza da história de amor entre duas mulheres - que empurra Eve definitivamente para o lado da oposição ao governo: é uma trama paralela forte e comovente que serve também para conquistar de vez a audiência.

Em um período em que filmes de ação servem unicamente como diversão escapista que sacrifica o cérebro do espectador, "V de vingança" consegue fazer pensar ao mesmo tempo em que entretém. Mesmo que em determinados momentos o ritmo caia - talvez devido à inexperiência do diretor - o resultado final é forte, impactante e memorável. Um dos mais importantes filmes de sua época!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain, 2005, Focus Features, 134min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Larry McMurtry, Diana Ossana, conto de Anne Proulx. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Geraldine Peroni, Dylan Tichenor. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Patricia Cuccia, Catherine Davis. Produção executiva: Michael Hausman, Larry McMurtry, William Pohlad. Produção: Diana Ossana, James Schamus. Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardelini, Kate Mara. Estreia: 02/9/05 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhaal), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Ang Lee), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Ang Lee), Roteiro, Canção ("A love that will never grow old")
Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza

Para meu Yodinha....

A lista de prêmios que "O segredo de Brokeback Mountain" arrebatou em todo e qualquer segmento crítico na temporada 2006 só deixa ainda mais explícito o que qualquer fã de cinema com um mínimo de discernimento enxerga de longe: não há outra explicação para que a obra-prima de Ang Lee não tenha levado também o Oscar de Melhor Filme senão puro e simples preconceito. Seria demais pedir que os veteranos membros da Academia de Hollywood - tão arraigados a valores antigos e defasados - abraçassem a causa de um filme que, mesmo falando do mais nobre dos sentimentos (o amor), o faz colocando como protagonistas não um casal considerado "apropriado" ao consumo de massa que não ameaça a tradição e sim dois homens viris, fortes e cientes de sua masculinidade que, mesmo assim, não resistem ao apelo de seus desejos e de sua paixão. Como resultado, a estatueta de melhor filme do ano foi parar nas mãos do medíocre "Crash, no limite" - que brincava de ser corajoso com sua temática anti-racismo e provavelmente virará apenas nota de rodapé da história do cinema com seu amontoado de clichês.

Ao contrário disso, "O segredo de Brokeback Mountain" é cinema em estado puro, é poesia em celulóide, é drama tão real como a vida. Independente da orientação sexual de seu espectador, é difícil não se deixar emocionar com a história do conto da escritora Anne Proulx, publicado em 1997 pela revista New Yorker. Depois de despertar o interesse de cineastas como Joel Schumacher e Gus Van Sant - ambos homossexuais assumidos, o que talvez desse um tom mais panfletário e menos sutil à narrativa - o roteiro finalmente chegou às mãos de Ang Lee, conhecido por injetar humanismo mesmo em projetos comerciais como a adaptação de "Hulk" para os cinemas (cujo fracasso talvez tenha vindo justamente dessa tendência ao drama pessoal ao invés do espetáculo). Autor de obras consagradas pela critica como "Razão e sensibilidade", "Tempestade de gelo" e "O tigre e o dragão" - que, sem exceção, tinham na força das personagens seu maior destaque - Lee deu às palavras de Proulx a profundidade que somente seu talento em vislumbrar a alma humana poderia conseguir. E para isso teve também a sorte de contar com um elenco nunca aquém de espetacular.



Vindo de filmes que oscilavam entre o bobo - "10 coisas que eu odeio em você" - e o pretensamente épico - "O patriota" - o australiano Heath Ledger deu um salto fenomenal em sua carreira na pele de Ennis Del Mar, que lhe rendeu elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de melhor ator. Seu trabalho é intenso, forte e perturbador, como um homem que luta contra os próprios instintos por não ter a capacidade de lutar contra si mesmo - a ponto de usar da violência física como arma de autodestruição. Como Jack Twist, o jovem Jake Gyllenhaal também atingiu o auge de sua carreira - que incluía o sombrio "Donnie Darko" e o elogiado "Soldado anônimo": seu trabalho como o lado romântico e idealista do casal é delicado na medida certa, nunca escapando para o afetado ou o exagerado. Sua indicação ao Oscar na categoria de coadjuvante, porém, é questionável, uma vez que é tão protagonista quanto Ledger. E se os protagonistas são excepcionais, o mesmo pode-se dizer de suas companheiras de cena: Anne Hathaway e Michelle Williams nunca estiveram tão bem quanto em suas interpretações das esposas relegadas a um melancólico segundo plano na vida de seus maridos. Williams em especial merece aplausos por suas cenas encharcadas de tensão e tristeza - é antológico o momento em que flagra o apaixonado beijo entre seu marido e o melhor amigo.

Fotografado magistralmente e ilustrado com uma trilha sonora de deixar qualquer um arrepiado, "O segredo de Brokeback Mountain" é um filme raro, daqueles que só acontecem quando todas as estrelas estão alinhadas. Não fala apenas de um casal gay: fala de solidão, de tolerância, de preconceito, de autoaceitação. Mas fala principalmente sobre amor, mesmo que ele traga dor e angústia. É provavelmente a mais importante história de amor da década. Quem precisa de um Oscar?