quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

EU E AS MULHERES


EU E AS MULHERES (In the land of women, 2007, Castle Rock Entertainment, 97min) Direção e roteiro: Jonathan Kasdan. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Carol Littleton. Música: Stephen Trask. Figurino: Trish Keating. Direção de arte/cenários: Sandy Cochrane/Louise Roper. Produção executiva: Lawrence Kasdan. Produção: Steve Golin, David Kanter. Elenco: Adam Brody, Meg Ryan, Kristen Stewart, Olympia Dukakis, Elena Ayala, Jobeth Williams, Clark Gregg. Estreia: 16/04/07

Filho mais velho do cineasta Lawrence Kasdan - diretor de títulos essenciais da filmografia americana dos anos 80, como "O reencontro" e "Silverado", além de roteirista de "Caçadores da Arca Perdida" - o jovem Jonathan Kasdan preferiu fazer sua estreia atrás das câmeras sem muito alarde. Roteirista de episódios das séries "Dawson's Creek" e "Freaks & Geeks", ele aproveitou seu conhecimento da juventude americana de seu tempo e criou o delicado e sutilmente engraçado "Eu e as mulheres". Simpático e doce, o filme não chega a ser uma obra-prima, mas revela em Kasdan um olhar atento à sensibilidade humana.

Talvez haja um pouco - ou muito - de Kasdan em seu protagonista, Carter Webb, um roteirista de filmes eróticos vivido com graça e discrição pelo ótimo Adam Brody. Recém chutado pela bela namorada, a atriz Sofia Buñuel (Elena Ayala), ele resolve dar um tempo em sua atribulada vida em Los Angeles e vê na doença de sua avó (Olympia Dukakis, sensacional) a oportunidade de mudar-se por um tempo para Detroit. Enquanto ajuda a senhora idosa - cuja demência a deixa cada vez mais apática e distante - Carter resolve escrever sua obra-prima, longe das influências de sua cidade. Sua paz começa a sofrer interrupções, porém, quando ele conhece a família que mora diante de sua nova casa. Os Hardwicke - formado por um casal com duas filhas - logo torna-se parte de sua nova rotina, especialmente a filha mais velha, Lucy (Kristen Stewart) e a mãe, Sarah (Meg Ryan). Ao passo que Lucy tenta lidar com o despertar de sua sexualidade, Sarah descobre sofrer de câncer. É Carter quem irá servir de apoio às duas.


Não há maiores lances e reviravoltas em "Eu e as mulheres". O roteiro de Kasdan é sutil, fazendo piadas que não almejam gargalhadas e criando dramas que não exigem lágrimas. Seu olhar é quase contemplativo, deixando que as personagens vivam seus tormentos sem interferência exagerada da fotografia ou da edição. Nem mesmo a trilha sonora tenta sobrepor-se à história contada, sendo apenas um complemento às cenas, conduzidas com leveza e um senso de humor carinhoso com os protagonistas. Nem mesmo as piadas internas - que satirizam o meio cinematográfico - soam autocomplacentes, o que revela no jovem filho de Lawrence uma promessa bastante empolgante.

Mas é na direção de atores que Jonathan Kasdan consegue ser ainda mais bem-sucedido. Adam Brody encarna com perfeição o protagonista desajeitado e vulnerável que se vê obrigado a amadurecer para ajudar desconhecidos e Kirsten Stewart mostra que, antes de tornar-se a chatonilda mor da série "Crepúsculo" tinha expressões faciais variadas e sabia atuar. Mas é Meg Ryan o maior destaque. Fugindo do seu papel de sempre - a mocinha das comédias românticas - a atriz surpreende com uma interpretação contida e dramática, que jamais apela para o sentimentalóide. Só o fato de ter dado à eterna Sally Albright um papel à altura de seu talento já faria de seu jovem diretor um cara bom. Para sorte do público, ele tem ainda outras qualidades que deve provar em breve.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O GÂNGSTER


O GÂNGSTER (American gangster, 2007, Universal Pictures, 157min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Steven Zaillian, artigo "The return of Superfly", de Mark Jacobson. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfield. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Leslie Rollins, Beth A. Rubino. Produção executiva: Michael Costigan, Branko Lustig, Nicholas Pileggi, Jim Whitaker, Steven Zaillian. Produção: Brian Grazer, Ridley Scott. Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Ruby Dee, Ted Levine, Carla Cugino, Cuba Gooding Jr., Armand Assante. Estreia: 19/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Ruby Dee), Direção de Arte/Cenários

Ridley Scott é um injustiçado da Academia. Nem mesmo quando um filme seu ganha o Oscar principal - caso de "Gladiador", vencedor de 2001 - ele consegue ser reconhecido como o grande cineasta que é. Autor de filmes essenciais do cinema americano dos anos 70 - "Alien, o oitavo passageiro"- dos 80 - "Blade Runner, o caçador de andróides" - e dos 90 - "Thelma & Louise", o inglês nunca conseguiu passar de indicações à estatueta e, em alguns casos, nem chegou a ela. Um ótimo exemplo disso é o sensacional "O gângster", que passou incólume nas cerimônias de premiação que incensaram o bobinho "Juno". Baseado na história real de um dos maiores traficantes de droga dos EUA na década de 70, o filme de Scott é uma prova inconteste de seu talento como contador de histórias - e que até faz com que ele seja perdoado por atentados como "Hannibal" e "Cruzada".

Terceira parceria de Scott com o ator Russell Crowe - depois do já citado "Gladiador" e do chatinho "Um bom ano" - "O gângster" é, ao contrário do que seu título e sua trama podem sugerir, um drama policial bem construído e tratado com o máximo de cuidado que uma superprodução de 100 milhões de dólares pode oferecer. Sem abusar da violência física e preferindo deter-se na trajetória de seu protagonista e nas consequências de seus atos - junto à sua família e as forças policiais que lhe caçavam - o roteiro preciso de Steven Zaillian conta sua história sem a pressa habitual dos filmes do gênero. Demora um bom tempo de projeção até que Frank Lucas (Denzel Washington) finalmente fique cara a cara com Richie Roberts (Russell Crowe), seu nêmesis, mas nem por isso o ritmo chega a incomodar, por um motivo muito simples: tanto Zaillian quanto Scott sabem o que querem dizer, e conhecem a importância da história que estão contando e o fazem com maestria.


Frank Lucas, o protagonista vivido sem maiores novidades por Denzel Washington, não é exatamente uma personagem que possa ser considerada heroica, mas isso não impede ao filme que o retrate sem julgamentos morais. Protegido do respeitado Bumpy Johnson (Clarence Williams III), gângster que reinava no Harlem, Lucas descobre, após a morte de seu mentor, uma forma de traficar heroína para dentro dos EUA, vinda do Vietnã: dentro dos caixões dos soldados mortos. Enquanto faz fortuna, desafia o corrupto detetive Trupto (um grande Josh Brolin) e desperta a atenção de Richie Roberts (em atuação contida de Crowe), um policial visto com maus olhos pelos colegas por causa de sua fama de incorruptível. Dedicado, Roberts passa a caçar Lucas, com quem mantém uma relação de respeitável admiração.

Apesar de sua longa duração (a versão do diretor chega a quase três horas), "O gângster" não tem ambições de tornar-se um épico anabolizado. Ridley Scott movimenta sua câmera sem intrometer-se na história, sendo apenas uma espetacular testemunha do duelo entre duas personagens carismáticas e extremamente interessantes - mas que nem mesmo assim deixa de lado coadjuvantes fantásticos. Josh Brolin começa aqui sua escalada rumo ao respeito profissional - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante por "Milk" no ano seguinte - e poderia tranquilamente ter sido lembrado pela Academia, que por uma razão inexplicável só lembrou-se de Ruby Dee como atriz coadjuvante por seu trabalho nada marcante como a mãe de Frank Lucas. E é imprescindível elogiar também a edição fantástica do experiente Pietro Scalia e a direção de arte impecável, que retrata com exatidão o ambiente onde se passa a história, elementos que completam mais uma obra-prima do cineasta.

"O gângster" é um filmaço de primeira que merece ser descoberto. É, sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Ridley Scott. E vindo de um cara com o seu currículo isso não é pouca coisa.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

À PROVA DE MORTE


À PROVA DE MORTE (Grindhouse: Death proof, 2007, Dimension Films, 113min) Direção, roteiro e fotografia: Quentin Tarantino. Montagem: Sally Menke.Figurino: Nina Proctor. Direção de arte/cenários: Steve Joyner/Jeanette Scott. Produção executiva: Shannon McIntosh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellán, Robert Rodriguez, Erica Steinberg, Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Zoe Bell, Rose McGowan, Quentin Tarantino, Eli Roth, Vanessa Ferlito. Estreia: 15/10/07



Boa parte das características que fizeram de Quentin Tarantino um dos mais influentes cineastas de sua geração estão presentes em “À prova de morte”: a ressurreição de um astro esquecido (aqui representado por Kurt Russell), os longos diálogos recheados de referências à cultura pop, o fetiche declarado aos pés femininos (sublinhados por inúmeros closes), a violência explícita e a trilha sonora escolhida a dedo entre clássicos perdidos em algum lugar entre os anos 60 e 80 são algumas delas. Por uma dessas razões insondáveis, porém, ao contrário dos bem-sucedidos filmes anteriores do diretor, essa sua incursão pelos filmes de ação não encontrou seu público à época de sua exibição nos cinemas americanos – a ponto de sua estreia no Brasil ter acontecido com um atraso de três anos. Tudo bem que o filme sofre de uma irregularidade por vezes enfadonha (é, sem dúvida, o trabalho menos interessante de Tarantino), mas a melhor explicação para seu naufrágio comercial na verdade atende pelo nome de “Grindhouse”.
“Grindhouse” era um projeto um tanto ambicioso e um tanto arriscado de Tarantino e de Robert Rodriguez, seu amigo de fé e irmão camarada. Os dois cineastas – conhecidos pela criatividade, pelo talento e pela coragem de encarar gêneros tidos como malditos pela indústria de Hollywood – queriam lançar, no mesmo pacote, dois filmes de estética e temática B, nos moldes dos programas duplos que faziam a glória dos cinemas-poeira americanos da década de 70, separados apenas por meia-dúzia de trailers fakes de filmes tão bregas quanto – por ironia, um desses trailers lançou um insuspeito herói de ação chamado Machete. Rodriguez se encarregou de um filme de terror protagonizado por zumbis asquerosos e violência de ketchup – o ultra-divertido “Planeta Terror”, com Bruce Willis e Josh Brolin – e Tarantino aproveitou a oportunidade para brincar de diretor de ação, inspirado em clássicos onde automóveis eram mais importantes do que os atores. Seu “À prova de morte” não pouparia sangue, corpos mutilados e atuações pra lá de amadoras – exatamente como acontecia com suas fontes de inspiração. Acontece que o filme estreou... e foi praticamente ignorado pelo mal-acostumado público norte-americano. Tal destino, obviamente, influenciou em sua distribuição mundial. No final das contas, os dois filmes estrearam no mercado externo como produtos independentes – o que de certa forma são – e sem o charme extra do clima decadente que cercava a ideia inicial. Sem essa referência quase imprescindível, “À prova de morte” (mais ainda do que “Planeta Terror”) acaba por tornar-se capenga, insuficiente por si próprio. Mas ainda assim – o que mostra que Tarantino sempre tem cartas na manga – é um filme com grandes momentos de tensão e é dirigido com uma inteligência visual admirável.
 Autor de papéis femininos de extrema força – vide A Noiva de “Kill Bill” e a protagonista de “Jackie Brown” – Quentin Tarantino fez de seu “À prova de morte” um filme francamente feminista, a despeito do que pode fazer pensar sua primeira metade, quando apresenta ao público um grupo de amigas irritantemente autossuficientes que saem pela noite de uma pequena cidade do Texas em busca de diversão antes de pegarem a estrada rumo a um sítio afastado. Na liderança delas está a radialista Jungle Julia (Sydney Poitier), que pretende encontrar, antes da viagem, o rapaz com quem está vivendo (ao menos segundo o que ela acha) um romance. Como forma de diversão, ela desafia sua amiga, ..., que não mora na cidade, a aceitar o desafio proposto em seu programa de rádio – que oferece ao corajoso espécime masculino que lhe pagar uma bebida e declamar-lhe o trecho de determinada poesia uma dança erótica. Quem se aproxima e reivinidica o prêmio é o misterioso Stuntman Mike (Kurt Russell, apavorante), um dublê de filmes de ação que dirige um assustador carro negro com uma caveira desenhada no capô. Desafio aceito e pago, é hora de todos irem embora. Mike oferece carona à ... (Rose McGowan, também presente em “Planeta Terror”, como a protagonista que tem a perna substituída por uma metralhadora) e todos partem em direção a seu destino. Acontece que Mike não é tão gentil quanto sua oferta de carona pode aparentar, e uma tragédia encerra a primeira metade do filme com uma cena de deixar qualquer um de queixo caído – poucas vezes o cinema americano foi tão gráfico e explícito em retratar um acidente automobilístico.



A segunda parte do filme começa mais de um ano depois dos acontecimentos da primeira. Na cidade de Líbano, no Mississipi, outro grupo de amigas – todas com profissões ligadas ao cinema – aproveitam o dia de folga para procurar, em uma cidade próxima, o proprietário de um carro raro, astro de uma conhecida produção de ação chamado “Corrida contra o destino”. A ideia é de uma dublê que chega da Austrália disposta a refazer, com sua leal amiga, uma cena clássica do filme. Ideia vendida, ideia realizada. Junto com a atriz e modelo Lee (Mary Elizabeth Winstead) e a maquiadora (Rosario Dawson), as duas amigas chegam até o cobiçado veículo e convencem o dono a deixá-las fazer um test-drive. E o que poderia ser um momento da mais pura diversão e adrenalina torna-se um pesadelo quando elas encontram no caminho o psicótico Stuntman Mike – que parece disposto a fazer com elas o mesmo que fez com outras mulheres anteriormente.



É quando começa o embate – violento, tenso, perigoso, angustiante e paradoxalmente empolgante – entre Mike e suas corajosas pretensas vítimas que “À prova de morte” faz esquecer seus longos tempos mortos. Os diálogos intermináveis e (dessa vez) nem sempre interessantes escritos por Tarantino são imediatamente deixados de lado quando sua câmera literalmente joga o espectador em uma perseguição alucinante pelas estradas do Mississipi, sem direito a pausas ou alívio cômico. É como se o diretor estivesse escondendo o jogo para finalmente, em seus vinte minutos finais, resolvesse pôr todas as suas cartas na mesa, ganhando o jogo de virada. Se até então o público já estava saturado das conversas inconsequentes de suas protagonistas – um grupo francamente desagradável e sem carisma – elas tornam-se, num piscar de olhos, as heroínas máximas do filme, desafiando apenas com a coragem uma ameaça das mais aterradoras, uma espécie de alma gêmea do caminhão de “Encurralado” (73, de Steven Spielberg). Brilhantemente editada, essa longa sequência é a salvação do filme, o que acorda o espectador que porventura estivesse bocejando diante dos intermináveis bate-papos de suas personagens.
Exagerando na conversa e economizando na ação – ao menos até seu explosivo final – “À prova de morte” parece, na verdade, um filme com sérios problemas de identidade. De um lado, a tendência quase irrefreável do diretor em criar quilométricos diálogos – o que funcionou muito bem em outras obras suas mas que aqui soa como uma forma de preencher tempos mortos; de outro, a vontade de assinar um filme de extrema violência psicológica e física sem apelar para tiroteios e afins (no que é extremamente feliz, diga-se de passagem). De um lado, um filme abertamente feminista no sentido de eleger mulheres como heroínas, mesmo que muitas vezes o excesso de sensualização do roteiro soe como voyeurismo barato; do outro o paradoxo de, mesmo com essa escolha de lado, fazer do vilão da história, um homem, o absurdamente mau Stuntman Mike, o personagem mais interessante e marcante da trama. Quentin Tarantino é um cineasta inteligente e sabe como poucos lidar com a dualidade de personagens extremamente idiossincráticos e pouco convencionais, mas aqui, talvez propositalmente, haja visto o conceito do projeto, optou por deixar de lado qualquer aprofundamento psicológico. Mesmo com toda a violência, seu filme é diversão pura e desvinculada de qualquer seriedade e/ou compromissos com a verdade. Como parte de seu universo particular – com sua estética frequentemente kitsch e de um sincretismo cultural à toda prova – é uma obra que exige do espectador uma quase permissão para fugir à realidade pura e simples. No mundo de Tarantino – e em especial em “À prova de morte” – a sensualidade prescinde de corpos perfeitos ou cenários glamourosos, o perigo está à espreita tanto em estacionamentos escuros quanto em ensolaradas estradas paradisíacas e a virilidade ostensiva está sempre a um passo de pedir misericórdia ao “sexo frágil”. Tarantino brinca com as expectativas o tempo todo. Nem sempre acerta, mas quando o faz, atinge em cheio o alvo.
No final das contas, “À prova de morte” é um filme nitidamente irregular, que intercala momentos decididamente chatos entre duas cenas de grande impacto visual e emocional. Mas ainda assim é um trabalho de personalidade forte e inconfundível – Tarantino e seu cinema altamente referencial é parte da cultura pop americana e mundial desde sua estreia, com “Cães de aluguel”, de 1993. Uma pena que algumas das brincadeiras do filme – como contar com alguns dos mesmos atores e personagens de outros trabalhos seus e de Rodriguez, incluindo “Planeta Terror” – passe em brancas nuvens para quem não teve a oportunidade de vê-los conforme o planejado. É, apesar dos elogiados rasgados da prestigiada “Cahiérs du Cinéma”, que o considerou como um dos melhores filmes do ano, o trabalho menos feliz de seu realizador, que ainda assim saiu incólume do fracasso.