quinta-feira, 14 de março de 2013

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME


SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (Saneamento básico, 2007, Globo Filmes/Casa de Cinema de Porto Alegre, 112min) Direção e roteiro: Jorge Furtado. Fotografia: Jacob Solitrenick. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: Leo Henkin. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Paulo José, Tonico Pereira, Janaina Kremer. Estreia: 20/7/07

Sorte do cinema nacional que ele pode contar com Jorge Furtado. Dono de uma inteligência, de um sarcasmo e de um talento raros, o cineasta gaúcho consegue, com seus filmes, fugir de todos os clichês que imperam na produção nacional, fazendo filmes que são um sopro de leveza e despretensão em comparação com obras que já nascem com o objetivo de ganhar o Oscar ou fazer bonito em festivais internacionais. A filmografia de Furtado - que inclusive fez um arrastão nos tais festivais com seu curta "Ilha das Flores" - é simples, é direta, é eficaz e, acima de tudo, é acessível. Filmes como "Houve uma vez dois verões" e "O homem que copiava" dialogam sem firulas com uma fatia de público que parece ter sido esquecida em tempos de pauladas como "Central do Brasil" e "Cidade de Deus". "Saneamento básico, o filme" segue essa vertente de maneira ainda mais explícita e talvez por isso mesmo, ainda mais engraçada e bem-sucedida.

Ao situar sua ação em uma pequena cidade da serra gaúcha, com uma população de descendentes de italianos, Furtado já de cara demonstra que não tenciona alçar maiores voos cosmopolitas: ele conhece suas personagens, sabe de onde vieram e para onde vão, e elas não vão muito mais longe do que Porto Alegre. Essa falta de pretensão é a primeira das inúmeras qualidades de seu filme - afinal, não dizia Tolstói que para ser universal deve-se começar pintando a própria aldeia? As demais qualidades - o texto divertido, o elenco impecável, a trama absurda - vão sendo apresentadas aos poucos, e é impossível não deliciar-se com todas elas. Irônico e mordaz, o roteiro de Furtado também é, acima de tudo, uma ode de amor ao cinema como arte - ainda que essa camada seja tão sutil que pode passar despercebida diante de tanto bom humor.


Quando o filme começa, um grupo de moradores da pequena cidade de Linha Cristal está reunido para tomar providências sobre a construção de uma fossa para o tratamento do esgoto que anda incomodando a população. Escolhida como representante do grupo para reivindicar a obra por parte da Prefeitura, Marina (Fernanda Torres) descobre que não existe mais dinheiro para tal. Porém, quando fica sabendo que existe uma verba de dez mil reais para a produção de um vídeo (desde que ele tenha a ecologia como tema), Marina chega à conclusão, junto com seu marido, Joaquim (Wagner Moura) de que eles precisam realizar o curta-metragem de ficção solicitado pelo governo. A partir daí, eles reunem a família para criar "O monstro da fossa", um vídeo de terror escrito, dirigido, produzido e estrelado por eles mesmos.

Impossível não assistir-se a "Saneamento básico" sem lembrar-se de "Ed Wood", a sensacional biografia do cineasta dirigido por Tim Burton em 1994. Os dois filmes retratam com perfeição como a criatividade e a paixão por uma causa podem deixar os orçamentos nababescos de lado. Enquanto Wood ainda contava com o então decadente Bela Lugosi para estrelar seus filmes, porém, a turma de Linha Cristal apela para toda e qualquer possibilidade para terminar seu filme, repleto de defeitos mas cheio de boa-vontade. É assim que Silene (Camila Pitanga), irmã de Marina, assume o papel de heroína do filme e seu noivo, Fabrício (Bruno Garcia) vira uma das vítimas do monstro. É pela falta de atores que seu pai, Otaviano (Paulo José) é escalado para o papel de cientista - e se apaixona pela arte de atuar. E é por esse amor ao cinema (de guerrilha, indigente, pobre em dinheiro mas rico em paixão) que "Saneamento básico" conquista de vez a plateia.

Recheado de diálogos fantásticos valorizados pelos incríveis Fernanda Torres e Wagner Moura,
que lideram um elenco nunca aquém de genial - que pinta e borda em cenas nunca menos do que hilariantes, em especial durante as filmagens do curta - e dono de uma história local mas facilmente identificável em qualquer parte do planeta, "Saneamento básico" ainda dá, de leve, uma cutucada na burocracia governamental, na arrogância dos jovens artistas e na falta de interesse pelos problemas reais enfrentados pelas pequenas - e grandes - cidades brasileiras. Está de ótimo tamanho para uma comédia tão despretensiosa!

quarta-feira, 13 de março de 2013

HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA


HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA (Hairspray, 2007, New Line Cinema, 117min) Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, roteiro original de John Waters, peça musical de Mark O'Donnell, Thomas Meehan. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Michael Tronick. Música: Marc Shaiman. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: David Gropman/Gordon Sim. Produção executiva: Toby Emmerich, Jennifer Gigbot, Garrett Grant, Mark Kaufman, Michael Lynne, Marc Shaiman, Adam Shankman, Bob Shaye. Produção: Neil Meron, Craig Zadan. Elenco: John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, James Marsden, Amanda Bynes, Brittany Snow, Nikki Blonsky. Estreia: 13/7/07

O caminho natural de um produto artístico quando resolve mudar de mídia raramente é alterado. Às vezes um filme vira peça de teatro ou musical da Broadway e em alguns casos o contrário também acontece. O que é raro, mas também acontece, é o caminho tortuoso de "Os produtores" - inspirada no filme "Primavera para Hitler", de Mel Brooks, transformou-se em musical nos palcos e depois chegou às telas em 2005 estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman. "Hairspray, em busca da fama" faz parte desse seleto grupo. Inspirado no "clássico" de John Waters, o musical fez enorme sucesso no teatro e voltou a seu lar de origem, o cinema, cheio de moral. Com uma renda de quase 120 milhões de dólares de arrecadação nas bilheterias americanas, o filme de Adam Shankman - que exagerou na sacarose em "Um amor para recordar" e no humor pasteurizado em "Doze é demais 2" - agradou também à crítica (foi indicado a 3 Golden Globes) e surpreendeu o mundo ao mostrar um John Travolta extremamente à vontade cantando e dançando... no papel de uma dona-de-casa fora de forma.

No filme original - onde a característica de Waters de exagerar no kitsch era elevada à décima potência de deboche - a rotunda Edna Turnblad era interpretada pelo travesti Divine, um dos atores-símbolo de sua filmografia. Nessa versão século XXI, a ideia de manter um ator no papel mostrou-se novamente acertada. Além do choque de dar de cara com Travolta - um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 70/80 - bem acima do peso e na pele de uma personagem feminina, a decisão mostra com perfeição o espírito despido de preconceitos com que o filme chega a seu público. Nada mais adequado, aliás, já que a trama central fala justamente sobre discriminação. Apesar do tema, porém, que não se espere nenhum tratado sociológico. Com um registro leve e engraçado, "Hairspray" conquista pelo bom-humor e por seu compromisso único e exclusivo com a diversão.


Apesar de ser a presença sempre magnética de Travolta que mais chama a atenção do filme, sua Edna Turnblad não é a protagonista. O posto de personagem central ficou nas mãos da novata Nikky Blonsky, que interpreta a sonhadora Tracy, adolescente gordinha da pequena cidade de Baltimore que, no ano de 1962 (ou seja, no auge da luta pelos direitos civis dos afrodescendentes) passa os dias obcecada com "The Corny Collins Show", programa musical de TV que, para sua esperança, sofre um desfalque em seu elenco de dançarinas. Certa de que tem chances de ganhar a vaga - a ser disputada em um concurso - Tracy conta com a ajuda de seu amigo Seaweed (Elijah Kelley), que lhe ensina passos novos, discriminados como dança de gueto. Durante sua campanha para a vaga, Tracy toma contato com a discriminação racial do programa - que conta apenas com dançarinos brancos, dando espaço aos jovens negros apenas uma vez por mês - e do país como um todo, chamando a atenção da mídia e de Link Larkin (Zac Efron), jovem galã integrante do programa que se apaixona por ela, para desespero de sua "namorada" Amber Von Tessle (Brittany Snow). Quem também não gosta nada dessas novidades todas é a mãe de Amber, Velma (Michelle Pfeiffer), que também é gerente de programação da emissora que transmite o programa de Collins.

Conquistando desde seus créditos de abertura que mostram Tracy a caminho da escola, "Hairspray" tem a seu favor o ritmo adequado e o humor quase ingênuo, que reflete a época na qual se passa. Mesmo quando falam de temas sérios, o roteiro e a música fazem questão de lembrar o espectador de que eles estão assistindo a apenas uma comédia musical, sem maiores pretensões que não entreter. É essa sua falta de pretensão sua maior qualidade, além do elenco inspiradíssimo. Além de Travolta - que se diverte notadamente em cena e tem uma química invejável com seu marido na tela, Christopher Walken - a bela Michelle Pfeiffer mostra que não tem nada a temer com a idade, ficando com um papel que quase foi oferecido a Meryl Streep e Madonna. Zac Efron e Nikky Blonsky estão ótimos em seus papéis e se Queen Latifah não chega a ser totalmente aproveitada, ao menos não desparece diante de alguns números musicais realmente empolgantes.

Engraçado, divertido e leve, "Hairspray, em busca da fama" só perde um pouco seu ritmo em seu terço final - ainda que o recupere bravamente em seu desfecho. Mas é um entretenimento de primeira.

terça-feira, 12 de março de 2013

O SONHO DE CASSANDRA


O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra's dream, 2007, Wild Bunch, 108min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Vilmos Zsigmon. Montagem: Alisa Lepselter. Música: Philip Glass. Figurino: Jill Taylor. Montagem: Maria Djurkovic/Tatiana MacDonald. Produção executiva: Brahim Chioua, Vincent Maraval, Daniel Wuhrmann. Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley. Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, John Benfield, Claire Higgins, Hayley Atwell. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

"Família é família! Sangue é sangue! Você não faz perguntas. Você protege os seus." Com esse argumento fechado a questionamentos o bem-sucedido cirurgião plástico Howard (Tom Wilkinson) pede a seus dois sobrinhos que cometam, por ele, o mais terrível crime que um ser humano pode cometer: o homicídio. Precisando ver-se livre de um antigo associado que pode lhe arruinar a vida, o médico propõe aos rapazes, filhos de sua irmã, que o eliminem. O que a princípio parece um absurdo inominável aos poucos toma forma de real possibilidade graças às dificuldades financeiras dos irmãos. O mais velho, Ian (Ewan McGregor) sonha em tornar-se empresário do ramo de hotéis e abandonar o negócio de restaurantes do pai - especialmente quando se apaixona pela ambiciosa atriz Angela (Hayley Atwell). O caçula, Terry (Colin Farrell) é viciado em jogo e precisa urgentemente de dinheiro para cobrir uma dívida acumulada. Proposta aceita e fato consumado, cabe a eles administrarem o sentimento de culpa - em especial o frágil Terry, que não consegue esquecer o acontecimento - e lidar com a solução rápida de seus problemas monetários.

Filme seguinte de Woody Allen após o suspense com humor negro "Scoop, o grande furo", o drama "O sonho de Cassandra" não agradou aos críticos e nem tornou-se um sucesso comercial. Tendo sua estreia americana adiada para depois da temporada que apresenta os possíveis vencedores do Oscar, o terceiro trabalho consecutivo do cineasta a ser rodado na Inglaterra sofreu inúmeros ataques por não atingir o mesmo grau de excelência de "Match point, ponto final", com quem dialoga em temática e gênero. Enquanto no filme estrelado por Jonathan Rhys-Meyers a culpa praticamente inexistia depois do crime que dá partida à trama, nesse novo filme ela é personagem essencial, ainda que surja apenas no pensamento obsessivo de Terry. Se na obra de Allen que emulava "Crime e castigo" havia sensualidade, tensão e um certo glamour, em seu primeiro trabalho sem atores americanos no elenco só o que aparece em cena é angústia, remorso e uma decadência moral sem o mesmo charme de um "Crimes e pecados". Musicado por Philip Glass, "O sonho de Cassandra" não é um típico Woody Allen, mas, mesmo com todos os seus defeitos, ainda consegue ser um trabalho acima da média.


O grande acerto de Allen foi o de misturar as cartas de seu baralho e oferecer a seus jovens atores centrais papéis que fogem de sua zona de conforto. Enquanto o esperado era que o irlandês Colin Farrell se esbaldasse como o amoral Ian e o escocês Ewan McGregor brindasse o público com o tenso Terry - que se entrega ao álcool e à tendência suicida depois do crime - o filme vira tudo de cabeça para baixo com a escalação surpreendente de seu elenco. Se Tom Wilkinson brilha como o cirurgião que transforma a vida dos sobrinhos oferecendo-os dinheiro em troca de um assassinato, McGregor e Farrell saem-se fazem o possível para mostrar que tem capacidade de sobra para encarnar papéis distintos. Nem sempre se saem bem - mais culpa das personagens pouco carismáticas - mas ficam bem longe do desastre. E é inegável que Allen sabe o que faz com as cenas de suspense: assim como em "Match point", as sequências que exigem tensão são muito bem dirigidas.

"O sonho de Cassandra" realmente não é um Woody Allen dos melhores. É lento em demasia, tem problemas no desenho de algumas personagens e acaba bruscamente. Mas tem um elenco sensacional, uma direção elegante e é bem mais inteligente do que a grande maioria de seus congêneres. Vale uma conferida, mas não entrará em nenhuma lista de melhores do cineasta.

segunda-feira, 11 de março de 2013

ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ


ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ (No country for old men, 2007, Paramount Vantage, 122min) Direção: Ethan Coen, Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, romance de Cormac McCarthy. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf, Mark Roybal. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Javier Bardem, Woody Harrelson, Kelly McDonald. Estreia: 19/5/07 (Festival de Cannes)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator Coadjuvante (Javier Bardem), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Som, Edição de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Direção (Ethan Coen, Joel Coen), Ator Coadjuvante (Javier Bardem), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Javier Bardem), Roteiro

Queridinhos da crítica e dos fãs de cinema independente desde sua estreia com o hoje cultuado "Gosto de sangue", de 1984, os irmãos Coen assinaram seu nome na história do cinema com produções que equilibram roteiros intrincados, personagens marginais em diferentes níveis, uma direção criativa e atores sempre em estado de graça. Mas, com exceção de seu "Fargo" - que levou os Oscar de roteiro original e atriz (Frances McDormand) em 1997 - seus filmes nunca tiveram a bênção máxima da Academia. Com o lançamento de "Onde os fracos não tem vez", porém, os conservadores eleitores tiveram que dar o braço a torcer: seria difícil ignorar os prêmios que a perturbadora mistura de western/policial/suspense baseada no romance de Cormac McCarthy arrebatou na temporada 2007. Aplaudida e premiada pelos críticos de Boston, Chicago, Londres, Nova York, Las Vegas e Dallas, laureada pelos sindicatos de direção e roteiro e escolhida como a melhor do ano pelo National Board of Review chegou na cerimônia de entrega do Oscar cheio de moral e não deu outra: quatro estatuetas, incluindo filme, diretor e roteiro - além de um justíssimo e esperado prêmio para o coadjuvante Javier Bardem.

Normalmente donos do próprio material - com raras exceções, como a adaptação não oficial de "Odisséia", de Homero em "E aí, meu irmão, cadê você?" ou a refilmagem de "Matadores de velhinhas" - Joel e Ethan Coen acertaram em cheio ao escolher o romance seco e melancólico de McCarthy para ser seu trabalho seguinte à pouco compreendida comédia estrelada por Tom Hanks. Repleta dos elementos que sempre fizeram a glória dos cineastas (violência, humor negro, personagens bizarros e uma imprevisibilidade à toda prova), a história do escritor norte-americano que também escreveu "A estrada" - que viraria filme com Viggo Mortensen poucos anos depois - também tem um ingrediente essencial à filmografia de seus realizadores: inteligência. Junto com crueldade e a tensão expostas pelos cineastas, existe, em "Onde os fracos não tem vez" uma ironia e uma verdade que deixam tudo com um sabor ainda mais especial. Afinal de contas, não é sempre que o cinema americano apresenta um protagonista que foge dos padrões pré-estabelecidos de honestidade como o Llewelyn Moss vivido com intensidade por Josh Brolin.


Vivendo uma fase de ouro na carreira - que começou na adolescência, como o irmão mais velho em "Os Goonies" - Brolin emendou um trabalho sensacional como um policial corrupto em "O gângster" com sua atuação no filme dos Coen. Seu Llewelyn é um homem simples e comum diante de uma tentação rara: vivendo na zona rural do Texas do início dos anos 80 com a esposa (Kelly MacDonald, de "Trainspotting"), ele encontra uma maleta com dois milhões de dólares, resultado de uma aparente negociação de drogas que deu errado. Decidido a ficar com o dinheiro mesmo sabendo que não é o mais correto moralmente, ele entra na mira do psicótico Anton Chigurh (Javier Bardem, espetacular), que pretende recuperar a grana a mando de seu chefe. A perseguição ainda envolve o velho xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), que, mesmo cansado e desiludido com a maneira com que as coisas andam na sua profissão, não vê a hora de aposentar-se.

É a visão de Bell quem dá o tom a "Onde os fracos não tem vez": seu ponto de vista triste, cansado e decepcionado conduz o espectador a um jogo de gato e rato empolgante e que foge do padrão esperado de um filme que se apresenta como uma miscelânea de gêneros gratos ao imaginário ianque. Sem medo de criar polêmica com seu modo seco e crítico de retratar suas personagens - como já haviam feito com propriedade e graça em "Fargo" - os irmãos Coen criam uma pequena obra-prima que funciona em todos os quesitos. A fotografia e a edição são impecáveis (especialmente a edição, feita pelos cineastas com o pseudônimo de Roderick Jaynes), o roteiro utiliza com sabedoria elipses e silêncios, as atuações são nada menos do que sensacionais (em especial as de Josh Brolin e Javier Bardem, assustador como Chigurh, dono das melhores e mais tensas sequências do filme). É notável a maneira com que os Coen abdicam da trilha sonora em momentos cruciais, deixando toda a tensão nos ombros capazes de seus atores - que transmitem com perfeição todos os sentimentos de suas personagens (com exceção de Bardem, propositalmente frio e inatingível emocionalmente).

"Onde os fracos não tem vez" foi muito criticado por fãs ocasionais de cinema, que não viram nele as qualidades suficientes para torná-lo um ganhador do Oscar. Mas eles precisam rever sua opinião. É um belo e maduro trabalho, muito superior à média e que, mesmo não fazendo concessões ao comercial - e acabando sem deixar as coisas totalmente às claras - é forte o bastante para ser inesquecível.

domingo, 10 de março de 2013

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD


O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford, 2007, Warner Bros, 160min) Direção: Andrew Dominik. Roteiro: Andrew Dominik, romance de Ron Hansen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor. Música: Nick Cave, Warren Ellis. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Hoover, Patricia Norris/Janice Blackie-Goodine. Produção executiva: Liza Ellzey, Brad Grey, Tony Scott, Benjamin Waisbren. Produção: Jules Daly, Dede Gardner, Brad Pitt, Ridley Scott, David Valdes. Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Mary-Louise Parker, Jeremy Renner, Sam Shepard, Garrett Dillahunt, Ted Levine, Zooey Deschannel. Estreia: 02/9/07 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Casey Affleck), Fotografia

Em algumas ocasiões o sucesso faz bem em Hollywood. É o caso de gente como George Clooney, que, enquanto ainda é um astro carismático e capaz de levar multidões às salas de exibição, pode ousar em algumas obras de interesse mais restrito e menos comercial sem prejuízo de seu nome. O mesmo acontece com Brad Pitt. Um dos nomes mais conhecidos e respeitados na terra do cinema - principalmente graças a boas escolhas na carreira - Pitt deixou de lado a figura de galã sexy para revelar-se um ator competente - e de quebra ainda render gordas bilheterias. Foi esse seu poder, por exemplo, que permitiu a ele que assumisse a produção de - e consequente controle sobre - um filme difícil, denso, lento e complexo quanto "O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford". A partir do título longo que ele mesmo proibiu que fosse diminuído para efeito de marketing, tudo no filme de Andrew Dominik (talvez com exceção do próprio astro) apontava para seu fracasso financeiro - que de fato aconteceu.

Contrariando os desejos da Warner - que via no filme um belo potencial como produto de ação - Pitt e seu diretor fizeram de "Jesse James" um faroeste contemplativo e poético, uma visão bastante diferente daquilo que a massa espera assistir quando vê o nome do ator no cartaz. A transformação da montagem de quatro horas apresentada no Festival de Veneza (de onde Pitt saiu eleito melhor ator) em uma duração mais palatável de duas horas e quarenta minutos em sua estreia oficial, porém, pouco ajudou: com um custo estimado em trinta milhões de dólares, a produção não arrecadou nem 10% disso no mercado americano. Azar de quem perdeu um dos mais fascinantes faroestes modernos realizados em Hollywood.


Quem espera ver em "Jesse James" tiroteios, sangue, cenas espetaculares de ação e todos os clichês que envolvem o faroeste certamente vai sentir-se ludibriado - eles até são apresentados por Dominik, mas envoltos em um verniz de poesia raramente visto no gênero. Porém, quem estiver disposto a deixar-se levar por uma nova experiência tem tudo para acabar a sessão deslumbrado e emocionado. Emulando o estilo Terence Malik de criação, o jovem cineasta fez de seu segundo longa uma obra para poucos: é sem pressa que o roteiro vai delineando a personalidade doentia de Robert Ford (interpretado pelo sempre chato Casey Affleck, indicado a um Oscar de coadjuvante) em sua obsessão/atração/inveja pelo famigerado fora-da-lei que, ao contrário do que se poderia esperar em uma grande produção americana, tem seus defeitos, é melancólico e nada heroico. Aliás, é bastante interessante a forma como o filme trata Ford, nunca deixando exatamente claras as suas razões para cometer a traição e o assassinato do título (além da recompensa, é claro). A dubiedade que circunda todas as personagens permite inúmeras leituras do filme, sempre acrescentando mais camadas a cada revisão.

Fotografado avassaladoramente por Roger Deakins - que também concorreu a uma estatueta e injustamente perdeu para "Sangue negro" - e musicado com uma pungência tocante por Nick Cave, "O assassinato de Jesse James" é o perfeito filme "ame ou odeie". Mas é, antes de mais nada, uma prova da coragem de Brad Pitt em constantemente sair de sua zona de conforto. Bravíssimo!

sábado, 9 de março de 2013

NA NATUREZA SELVAGEM


NA NATUREZA SELVAGEM (Into the wild, 2007, Paramount Vantage, 148min) Direção: Sean Penn. Roteiro: Sean Penn, livro de Jon Krakauer. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Jay Cassidy. Música: Michael Brook, Kaki King, Eddie Vedder. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Derek Hill/Danielle Berman, Christopher Nelly. Produção executiva: David Blocker, Frank Hildebrand, John J. Kelly. Produção: Art Linson, Sean Penn, Bill Pohlad. Elenco: Emile Hirsch, William Hurt, Marcia Gay Harden, Jena Malone, Hal Holbrook, Vince Vaughn, Catherine Keener, Kristen Stewart. Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Hal Holbrook), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Guaranteed")

Que Sean Penn é um ator superlativo qualquer fã de cinema sabe. Mas que por detrás da persona agressiva com que ficou conhecido nos anos 80 - quando era casado com Madonna e tinha por hobby espancar paparazzi - existe um cineasta sensível e talentoso pouca gente sabia até o lançamento de "Na natureza selvagem", adaptação do livro de Jon Krakauer. Tudo bem que ele já tinha três filmes no currículo, mas pouca gente notou "Unidos pelo sangue" (91), "Acerto final" (95) e "A promessa" (01), por mais qualidades que eles tivessem. Mas foi somente com a história triste/pungente/libertadora de Christopher McCandless, jovem que abandona uma vida abastada para buscar um contato com a liberdade que só mesmo a natureza poderia lhe oferecer é que Penn carimbou de vez seu passaporte rumo ao panteão dos grandes cineastas.

Depois de um flerte de mais de uma década com a história de McCandless, Penn finalmente conseguiu o apoio da família do rapaz para realizar um dos filmes mais emocionantes e pungentes a chegar às telas dos cinemas no século XXI. Versando sobre liberdade pessoal, o amor à natureza e a importância das relações interpessoais, "Na natureza selvagem" é um espetáculo de delicadeza, inteligência e sensibilidade, valorizado por um roteiro maduro, um elenco excepcional - que consegue arrancar atuações convincentes até mesmo de Kirsten Stewart e Vince Vaughn - e uma trilha sonora que, mais do que comentar a ação, é uma personagem importante e onipresente.


Vivido por um sensacional Emile Hirsch - que ficou com o papel felizmente recusado por Leonardo DiCaprio - o jovem Christopher McCandless salta das páginas do livro de Krakauer para ganhar uma dimensão de herói moderno, um homem capaz de correr atrás de uma vida que fuja de tudo que ele sempre desprezou em relação aos pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) e à sociedade em geral. Livrando-se dos cartões de crédito, do nome verdadeiro (e assumindo o pseudônimo de Alexander Supertramp) e das amarras de qualquer tipo de relacionamento (inclusive com a irmã com quem se dá bem, interpretada por Jena Malone), ele parte em busca da realização pessoal junto à natureza. Logicamente, sem preparo algum para tal aventura, ele passa por situações nada convencionais e bastante arriscadas, somente para descobrir, surpreso, que são as pessoas - e o carinho que surge entre elas - que dá sentido à vida. "A felicidade só é real quando compartilhada" é o que ele aprende, talvez tarde demais.

Pontuado por uma belíssima trilha sonora, composta por canções deslumbrantes de Eddie Vedder (da banda Pearl Jam) que ilustram com extraordinária perfeição as cenas captadas pelo editor de fotografia Eric Gautier e editadas com maestria por Jay Cassidy, "Na natureza selvagem" emociona por proporcionar ao espectador uma viagem para dentro de seus próprios desejos de fuga de uma realidade massacrante e muitas vezes estéril. Alexander Supertramp vive, na tela, tudo que o público sonha em realizar mas tem medo (ou acomodação em demasia). As lágrimas que brotam ao final da projeção - e elas surgem, com toda certeza - limpam a alma, espelham vontades e, mais do que tudo, são a catarse mais absoluta de que o bom cinema é capaz.

"Na natureza selvagem" é uma obra-prima. Lindo, delicado, emocionante, inesquecível. E que atire a primeira pedra quem não se arrepiar com a fantástica atuação do veterano Hal Holbrook como Ron Franz, o aposentado que se oferece para adotar o protagonista em uma cena devastadora. Para ver, rever, trever e chorar sempre.

quinta-feira, 7 de março de 2013

DESEJO E REPARAÇÃO


DESEJO E REPARAÇÃO (Atonement, 2007, Universal Pictures, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Christopher Hampton, romance "Reparação", de Ian McEwan. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Eyre, Robert Fox, Debra Hayward, Ian McEwan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai, Brenda Blethyn, Juno Temple, Benedict Cumberbatch, Vanessa Redgrave. Estreia: 29/8/07 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

A distribuidora nacional bem que tentou forçar a semelhança com o filme mais famoso de Joe Wright, mas, com exceção de seu nome e da presença da atriz Keira Knightley em ambas as obras, muito poucas semelhanças existem entre "Orgulho e preconceito" e "Desejo e reparação", adaptação de Christopher Hampton da obra-prima do inglês Ian McEwan. Dono de uma prosa mais contundente e uma visão mais pessimista do mundo, McEwan criou uma poderosa história de amor e perda, que trata sem subterfúgios o poder destruidor da imaginação. Recriada com precisão pelo roteiro de Hampton e pela direção caprichada de Wright, a história do romance interrompido entre o humilde Robbie Turner e sua amada Cecilia Tallis ganha, em celulóide, uma visão perturbadora e poética, valorizada por um visual arrebatador e um elenco impressionante.

O nome mais conhecido no cartaz de "Desejo e reparação" é o da atriz Keira Knightley - que já havia trabalhado com o diretor na versão 2005 de "Orgulho e preconceito", mas é o quase desconhecido James McAvoy quem rouba a cena. Tendo sido notado pelo público e pela crítica como o médico de Idi Amin em "O último rei da Escócia" e como o fauno de "As crônicas de Nárnia", o jovem ator (indicado ao Golden Globe por sua atuação, mas injustamente esquecido pelo Oscar) brilha na pele de Robbie Turner, o filho de uma das empregadas da tradicional família Tallis que, em uma casa de campo na Inglaterra de 1935, vê sua vida transformada radicalmente devido a um incidente de consequências funestas. Apaixonado pela bela Cecilia (Knightley), filha dos patrões, ele sonha em cursar Medicina para ter condições de casar-se com ela. Dedicado e honesto, ele é também o objeto da paixão de Briony (Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que, aos 13 anos de idade, tem o objetivo de tornar-se escritora. É ela quem, com sua mente criativa, irá deflagrar a crise que irá levar o rapaz a uma espiral de acontecimentos trágicos que irá lhe afastar de um futuro promissor. Sentindo-se culpada, alguns anos mais tarde (e interpretada por Romola Garai), ela tentará reparar seu erro.


Mesmo que os fãs do livro voltem a apaixonar-se pela trama de McEwan, é inegável que quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos da história, melhor. Apesar de ter um ritmo quase contemplativo em sua primeira metade - que a edição brilhante de Paul Thothill jamais permite tornar-se aborrecido - o filme de Wright leva o espectador, em sua segunda parte, a uma viagem fascinante a um universo de culpa, desejo reprimido e rancor, banhados em lágrimas e sangue. A história de amor entre Robbie e Cecilia - interrompida pelos horrores da Segunda Guerra - é ilustrada com cenas extraordinariamente orquestradas pelo cineasta, incluindo-se aí um longo plano-sequência de tirar o fôlego e um final devastador, valorizado por uma participação especialíssima de Vanessa Redgrave que mostra porque ela é uma das maiores atrizes em atividade. Vivendo Briony Tallis em sua maturidade, Redgrave dá uma aula de classe, elegância e sensibilidade que poderia tranquilamente também ter sido lembrada pela Academia.

Em mais uma prova de suas incoerências, a Academia indicou "Desejo e reparação" a oito estatuetas, incluindo melhor filme e roteiro adaptado, mas deixou de lado tanto McAvoy quanto o diretor Joe Wright. Premiando apenas sua sensacional trilha sonora, os membros eleitores deixaram de prestigiar com mais estatuetas um dos melhores filmes de sua temporada. Espetacularmente fotografado e dono de uma reconstituição de época brilhante (em especial seu figurino), o filme de Wright consegue ser tecnicamente perfeito e emocionalmente potente. É difícil manter-se incólume à sua força e à sua melancolia, traduzidas em imagens inesquecíveis que captam com maestria a essência e o clima do livro de Ian McEwan. Uma obra-prima imperdível!

quarta-feira, 6 de março de 2013

DE REPENTE, CALIFÓRNIA

DE REPENTE, CALIFÓRNIA (Shelter, 2007, GP Pictures, 97min) Direção e roteiro: Jonah Markowitz. Fotografia: Joseph White. Montagem: Michael Hofacre. Música: J. Peter Robinson. Figurino: Derek Lee. Direção de arte/cenários: Denise Hudson, Gabor Norman/Michael Fitzgerald. Produção executiva: Anne Clements. Produção: Paul Colichman, J.D. Disalvatore, Stephen P. Jarchow. Elenco: Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth. Estreia: 16/6/07 (Frameline Film Festival)

Filmes de temática gay, são, via de regra, extremamente sádicos com seus personagens (e, consequentemente, com a plateia): são raras as produções direcionadas ao público LGBTT que não apelam para mortes trágicas ou sofrimentos exarcebados como forma de retratar o preconceito que cerca aquilo que Oscar Wilde um dia chamou de “o amor que não ousa dizer seu nome”. Só por isso, o delicioso “De repente, Califórnia” já merece ser aplaudido: mesmo que não evite tocar em temas como discriminação, o filme de Jonah Markowitz surpreende por seguir o caminho inverso do gênero, apostando na leveza e no romantismo como antídoto para a choradeira. Narrado em tom de conto de fadas, a bela e delicada história de amor entre o jovem Zach e o experiente Shaun surge como um oásis de otimismo diante de uma série predominante de filmes depressivos que envolvem relações homossexuais. Ensolarado como as paisagens de seu belo cenário natural, “De repente, Califórnia” é recomendável a todos que acreditam no amor independentemente da forma que ele assuma.
O protagonista da história é Zach (Trevor Wright), um jovem recém saído da adolescência que leva uma vida tranquila mas não exatamente excitante em uma cidade litorânea da Califórnia. Trabalhando em uma lanchonete, ele sonha tornar-se artista plástico mesmo depois de ter sido recusado em uma conceituada escola de outro estado. Além de trabalhar e surfar nas horas vagas, Zach ainda é o centro de uma família desestruturada: sua irmã é uma mãe solteira que não se acerta com nenhum namorado e ele volta e meia se vê obrigado a cuidar do sobrinho de cinco anos, a quem trata como um filho. Sua rotina – que inclui eventuais grafites pelos muros da cidade e um namoro pouco apaixonado – sofre um abalo quando ele reencontra Shaun (Brad Rowe), o irmão mais velho de seu melhor amigo, que acaba de mudar de cidade: gay assumido, Shaun volta para casa para recuperar-se do fim de um relacionamento e não demora para que os dois tornem-se parceiros habituais de surf. Com o tempo, tais momentos esportivos acabam por resultar em uma inesperada paixão que esbarra na diferença de idade (Shaun já está na casa dos 30 e Zach mal entrou nos 20) e principalmente no preconceito – se visto como amigo Shaun já estava incomodando ..., o que poderá acontecer se o romance vier à tona?




Markowitz, para alívio do público, não pesa a mão nos momentos mais dramáticos de sua história, preferindo sublinhar os pontos positivos do relacionamento que surge entre os protagonistas – um relacionamento maduro, carinhoso e repleto de compreensão e apoio que contrasta com o dia-a-dia de Zach, cercado de responsabilidades e egoísmo. É difícil não torcer pelo final feliz do par romântico forjado pelo roteiro do diretor, principalmente porque existe o cuidado extremo de tratá-los como gente normal, com problemas verossímeis e plausíveis, além de cercar o romance com um equilíbrio certeiro de delicadeza e sensualidade. Os dois atores centrais são atraentes na medida certa tanto para agradar à plateia gay quanto para não exagerar o glamour que muitas vezes cerca o gênero – Zach e Shaun são bonitos, mas nada que soe inalcançável ou fora da realidade, e as cenas de sexo são desprovidas (felizmente) da aura de culpa e angústia de obras importantes como “O segredo de Brokeback Mountain” e o inglês “O padre”: quando a dupla decide entregar-se à paixão, o sexo surge como consequência inevitável e não como um peso insustentável. E mesmo quando surge o maior dilema em seu caminho, o roteiro evita a tragédia, resolvendo tudo na base do diálogo – e não com tiros, violência ou gritos histéricos.
O que pode parecer simplismo ou superficialidade, porém, é uma qualidade admirável de “De repente, Califórnia”: interessa mais a seu diretor contar uma história de amor desinteressado do que radiografar suas consequências dramáticas. O título original do filme (“abrigo”, em tradução literal) já dá uma pista nesse sentido: Jonah Markowitz é um otimista, alguém que acredita que amor é o teto que protege das tempestades e não aquilo que as provoca, e deixa isso bem claro no desenvolvimento de sua trama. Shaun é o único que apoia Zach na busca por seu sonho – esmagado por uma rotina modorrenta e opressiva – e surge em sua vida como o catalisador e propulsor para novos voos. Essa ideia – de mostrar um romance gay como uma história de amor cujo gênero é quase secundário – é o melhor do filme. “De repente, Califórnia” foge, então, do escaninho de filme gay para ser uma história de amor pura e simples, capaz de encantar a quem se deixar envolver. Para isso, conta com o trabalho do jovem Trevor Wright – que transmite com perfeição o turbilhão emocional de seu personagem – e de Brad Rowe – o objeto de desejo de Sean Hayes na comédia (também de temática homossexual) “O beijo hollywoodiano de Billy”. Um par dos mais afinados, eles conquistam a plateia sem fazer muito esforço. E provam que o amor, quando visto pelo ângulo mais otimista, ainda é muito lindo.