quinta-feira, 4 de abril de 2013

ELIZABETH: A ERA DE OURO


ELIZABETH, A ERA DE OURO (Elizabeth: The Golden Age, 2007, Universal Pictures, 114min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: William Nicholson, Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong, A.R. Rahman. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Richard Roberts. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward, Michael Hirst. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Samantha Morton, Abbie Cornish. Estreia: 12/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Figurino
Vencedor do Oscar de Figurino

Se existe uma prova de que em Hollywood um raio dificilmente cai duas vezes no mesmo lugar - ao menos quando não se trata de franquias milionárias - essa prova é "Elizabeth, a era de ouro". Dando seguimento ao eletrizante primeiro capítulo sobre a filha de Henrique VIII e Ana Bolena que o indiano Shekar Kapur dirigiu em 1998 - e que concorreu a Oscars importantes como melhor filme e atriz - essa continuação não teve a mesma sorte. Massacrada pela crítica e rechaçada pelo público, essa segunda parte não conseguiu ser salva nem mesmo pelo trabalho mais uma vez esplêndido de Cate Blanchett no papel central. Arrastado, confuso e com uma história bem menos interessante, serve, no entanto, para provar que em certas coisas não é bom mexer.

Ao contrário do primeiro filme, que equilibrava com maestria os dramas pessoais de Elizabeth - sua paixão proibida pelo homem errado, a polêmica em torno de seu nome para assumir o trono - com as intrigas palacianas que tentavam derrubá-la do poder, o segundo volume da vida da monarca esbarra em uma falta de foco quase constrangedora. Enquanto narra de forma preguiçosa as batalhas engendradas pela Espanha católica com o intuito de acabar com o reinado da herege Elizabeth - com algumas cenas de ação bem fraquinhas e de gosto estético duvidoso - o roteiro também conta mais uma história de amor equivocada da rainha, que se apaixona perdidamente pelo misterioso e pouco confiável Walter Raleigh (Clive Owen tentando arrancar leite de pedra), que, por sua vez, encanta-se com uma protegida da corte.


Quando direciona sua trama para as guerras marítimas e para a história política da Inglaterra, o filme de Kapur derrapa em cenas sonolentas e pouco ágeis - que chegam inclusive a ser confusas. Quando vira seu foco para o romance hesitante entre Elizabeth e Raleigh, porém, o filme cresce. Não por obra e graça do roteiro - que soa como uma pálida cópia do primeiro exemplar - mas devido ao talento imenso de Cate Blanchett. Repetindo o papel que quase lhe deu o Oscar (que perdeu de forma absolutamente injusta para Gwyneth Paltrow), a irlandesa demonstra que é capaz de transformar um filme que poderia ser uma comédia de erros em um produto memorável. É quando Blanchett está em cena que tudo faz sentido, que tudo se ilumina, que tudo é engolido. Novamente indicada à estatueta por seu trabalho (no mesmo ano em que concorreu como coadjuvante na pele de Bob Dylan em "Não estou lá") e novamente derrotada (dessa vez de forma justa, para Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor"), ela é o corpo e a alma do filme de Kapur.

Mas, no final das contas, Cate Blanchett consegue salvar o filme da desgraça total? Sim e não. Sim, porque ela é extraordinariamente capaz. Mas não é a única qualidade do filme, afinal de contas. O Oscar de figurino foi justo, a trilha sonora ainda é impactante, a direção de arte é impecável e o elenco coadjuvante também não faz feio (e Geoffrey Rush reprisa seu papel de Sir Francis Walsingham). Se não tivesse um original tão bom com o qual ser comparado até não seria tão ruim assim. Mas é, sem dúvida, o patinho feio da família.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

OS INDOMÁVEIS


OS INDOMÁVEIS (3.10 to Yuma, 2007, Lions Gate, 122min) Direção: James Mangold. Roteiro: Halsted Welles, Michael Brandt, Derek Haas, conto de Elmore Leonard. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Michael McCusker. Música: Marco Beltrami. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Jay R. Hart. Produção executiva: Stuart Besser, Ryan Cavannaugh, Lynwood Spinks. Produção: Cathy Konrad. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Logan Lerman, Dallas Roberts, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Gretchen Mol. Estreia:21/8/07

2 indicacões ao Oscar: Trilha Sonora Original, Edição de Som

"Os indomáveis" é a prova cabal - mais uma - de que o cineasta James Mangold, mesmo sem ter um estilo próprio que o diferencie de seus colegas de Hollywood, é um talento a ser admirado. Tendo passeado por praticamente todos os gêneros cinematográficos - o policial em "Copland", o drama em "Garota, interrompida", o suspense em "Identidade", o romance em "Kate & Leopold" e a biografia musical em "Johnny & June" - Mangold atingiu um nível ainda mais competente com a refilmagem do clássico "Galante e sanguinário", estrelado por Glenn Ford em 1957. Cinquenta anos depois do original de , o conto de Elmore Leonard presta-se a uma releitura moderna e empolgante que conta com um roteiro mais aberto a dubiedades e uma dupla de protagonistas acima de qualquer crítica.

Christian Bale vive Dan Evans, um fazendeiro do Arizona de 1884. Sofrendo com a cobrança de uma dívida por um conterrâneo corrupto, ele vê a chance de saldá-las quando lhe oferecem um belo pagamento por um trabalho nada simples: escoltar o famigerado criminoso Ben Wade (Russell Crowe) até a cidade vizinha de Yuma, onde ele será posto, às 15h10, em um trem em direção à prisão (daí o título original). Acompanhado do xerife Butterfield (Dallas Roberts) e de um pequeno grupo, ele não contava, porém, que seu filho mais velho, William (Logan Lerman, que depois faria o papel principal de "As vantagens de ser invisível") o seguisse, disposto a ajudá-lo na missão. Lutando contra apaches violentos e contra o próprio Wade, Evans ainda terá que encarar o bando do ladrão, que, sob a liderança do cruel Charlie Prince (Ben Foster), não está disposto a entregar o chefe aos homens da lei.


Equilibrando com segurança cenas de tiroteio que em nada devem aos veteranos do estilo com momentos que valorizam os belos diálogos do roteiro - que encontram em seus atores os intérpretes perfeitos - Mangold criou uma pequena pérola do faroeste, que não abre mão de todos os elementos que fizeram do gênero um dos mais populares do cinema americano e os utiliza com maturidade e inteligência. Se peca em não apresentar as belas paisagens que fizeram a fama de nomes como John Ford, o cineasta compensa com uma tensão palpável em vários momentos, em especial quando Ben Foster surge: mesmo ao lado de nomes consagrados como Russell Crowe e Christian Bale, o jovem Foster rouba a cena, criando um Charlie Prince assustador e violento, capaz dos atos mais vis - e não apenas em nome de sua fidelidade ao patrão.

Aliás, Crowe é outro que merece destaque: ficando com o papel que quase foi de Tom Cruise (uma escolha no mínimo inadequada), o eterno gladiador consegue fazer de seu Ben Wade uma mescla de violência e sutileza. Sua interpretação, minimalista, combina perfeitamente com o trabalho de Christian Bale (substituindo Eric Bana), proporcionando ao espectador um duelo como há muito o cinema americano não o fazia. Ainda que os tiroteios sejam extremamente bem filmados, é impossível negar que são as cenas dramáticas que fazem o diferencial de "Os indomáveis" e mostram o talento de seu diretor - que ainda dá a Peter Fonda a chance de uma participação especial carinhosa e crucial.

Indispensável para os fãs de faroeste e para quem gosta de um bom filme de ação, "Os indomáveis" oferece mais do que em um primeiro vislumbre. Um belo trabalho, que merecia maior atenção da crítica e do público - já que nem mesmo se pagou no mercado doméstico. Uma pena.

terça-feira, 2 de abril de 2013

UM JOGO DE VIDA OU MORTE


UM JOGO DE VIDA OU MORTE (Sleuth, 2007, Sony Pictures, 89min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Harold Pinter, peça teatral de Anthony Shaffer. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Celia Bobak. Produção: Kenneth Branagh, Simon Halfon, Jude Law, Simon Moseley, Marion Pilowsky, Tom Sternberg. Elenco: Michael Caine, Jude Law. Estreia: 30/8/07 (Festival de Veneza)

Em 1972, o filme "Jogo mortal", baseado na peça de teatro de Anthony Shaffer chegou às telas e encantou a crítica e a Academia de Hollywood, que lhe deu quatro indicações ao Oscar, inclusive de melhor diretor para o notório carrasco Joseph L. Mankiewicz e ator para seus dois protagonistas, Laurence Olivier e Michael Caine. Trinta e cinco anos depois, considerando que a história se prestava a um remake, o irlandês Kenneth Branagh assumiu suas rédeas. Contando com um roteiro escrito pelo dramaturgo Harold Pinter, ele chamou Caine de volta - dessa vez no papel que foi de Olivier - e, para duelar com ele, o sempre competente Jude Law (que pela segunda vez encarnou um papel de Caine, depois de "Alfie, o sedutor"). O resultado mostra que, apesar do talento dos envolvidos, uma mágica cinematográfica só acontece uma vez. "Um jogo de vida ou morte" - novo batismo de "Sleuth" - é apenas um filme bem chato que dilui a tensão de seu original.

Na verdade, tudo continua a mesma coisa, desde seu formato de teatro filmado até as surpresas que o roteiro prepara para seu público. Essa fidelidade quase reverencial é que acaba estragando a festa: o espectador que assistiu ao original ou sabe do desenrolar de sua trama provavelmente vai se aborrecer com as tentativas de Branagh em ser criativo para espantar o tédio. Em alguns momentos ele até consegue, com alguns ângulos interessantes de câmera e o uso exemplar da espetacular mansão de um dos protagonistas, o escritor Andrew Wyke (Caine), assim como a fotografia em tons certos de Haris Zambarloukos. O problema maior é justamente o fato de não ter conseguido fugir da sensação de que o filme é mais longo do que realmente é.


Quando o filme começa ficamos sabendo que a esposa do escritor de romances policiais Andrew Wyke o abandonou para ficar com o cabeleireiro/ator Milo Tindle (Jude Law). Chamado por Wyke para sua casa com o objetivo de resolverem a situação, Tindle acaba por surpreender-se com uma proposta bizarra de seu rival, que lhe oferece a chance de sair da situação com dinheiro e com o divórcio da mulher amada. Logicamente as coisas não são exatamente como parecem, e logo em seguida, o jovem se vê preso em uma armadilha criada pelo milionário. A partir daí, o domínio da situação vai passando de mão em mão, com os dois homens disputando não apenas sua superioridade intelectual mas também a sobrevivência.

Quanto menos se falar dos desdobramentos de "Jogo de vida ou morte" melhor para o espectador que ainda não conhece a história. Caine e Jude Law são excelentes atores e seguram lindamente o rojão de ficar em cena durante a hora e meia de projeção. Infelizmente o ritmo não é dos mais arrojados, o que dificulta bastante o interesse do público. Mesmo assim, é um espetáculo de dois astros de gerações diferentes em grande momento.