sexta-feira, 29 de novembro de 2013

HIROSHIMA, MEU AMOR


HIROSHIMA, MEU AMOR (Hiroshima, mon amour, 1959, Argos Films, 90min) Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. Fotografia: Michio Takahashi (Japão), Sacha Vierny (França). Montagem: Jasmine Chaney, Henri Colpi, Anne Sarraute. Música: Georges Delerue, Giovanni Fusco. Figurino: Gerard Collery. Direção de arte: Minoru Esaka. Produção: Anatole Dauman, Samy Halfon. Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada. Estreia: 10/6/59

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Tudo começou como um documentário sobre a bomba atômica lançada em Hiroshima em 1945. De repente, o cineasta Alain Resnais mudou de ideia e resolveu contar uma história de amor entrelaçada a suas impressões sobre o tema. Chamou a escritora Marguerite Duras pra escrever o roteiro e pronto: estava dado o pontapé inicial de um dos maiores clássicos do cinema francês da história, o inesquecível "Hiroshima, meu amor".

Inesquecível é, aliás, um adjetivo bem apropriado ao filme, uma vez que a obra de Resnais lida com temas como a memória e a forma como as lembranças do passado interferem no presente. A protagonista, vivida com intensidade por Emmanuelle Riva - que concorreu ao Oscar em 2013 pelo desempenho fabuloso em "Amor" - é uma atriz francesa que está no Japão fazendo um filme sobre a guerra. Durante sua estadia em Hiroshima, ela se envolve com um arquiteto local (Eiji Okada), por quem se apaixona. Porém, mesmo apaixonada, ela não consegue esquecer um amor do passado, uma relação interrompida bruscamente pelo conflito e que volta à sua mente com toda força, ameaçando sua paz de espírito.

Um cineasta obcecado pelo tema da memória - que retomaria no ainda mais inovador "O ano passado em Marienbad" - Alain Resnais cria, em "Hiroshima, meu amor", um espetáculo lírico onde se misturam imagens poderosas, um texto de grande poesia e atuações superlativas, gigantescas em seu minimalismo. É apenas um gesto do arquiteto japonês durante o sono que deflagra na atriz interpretada por Riva um torrencial de lembranças, algumas dolorosas e outras calorosas. Bastam olhares trocados entre os amantes para que o público entenda suas dúvidas e pensamentos. Não é preciso mais do que poucas palavras - sussurradas na hora certa - para que todo o horror da guerra e a imensidão do amor esteja diante do espectador. E as imagens coletadas pela câmera delicada do diretor não deixam por menos, dissecando a maior tragédia do século XX em cenas chocantes e verdadeiras, que traem sua origem como autor de documentários.

Um clássico absoluto - mas que certamente não é para qualquer audiência - "Hiroshima, meu amor" já seduz em sua abertura, com dois corpos cobertos de poeira radiativa, uma metáfora poderosa que o final dilacerante irá reiterar. A guerra pode acabar, mas não suas consequências. E cada um vê nela seus próprios dramas particulares.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ROMA, CIDADE ABERTA


ROMA, CIDADE ABERTA (Roma, cittá aperta, 1945, Excelsa Filme, 100min) Direção: Roberto Rosselini. Roteiro: Sergio Amidei. Fotografia: Ubaldo Arata. Montagem: Eraldo Da Roma. Música: Renzo Rosselini. Direção de arte: Rosario Megna. Elenco: Aldo Fabrizzi, Anna Magnani, Marcello Pagliero, Giovanna Galletti. Estreia: 27/9/45

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes

Pontapé inicial do neorrealismo italiano - estética que antecedeu em alguns anos a nouvelle vague francesa e o Cinema Novo brasileiro - "Roma, cidade aberta", de Roberto Rossellini foi um choque de realidade em comparação ao pasteurizado cinema hollywoodiano dos anos 40. Realizado com pouquíssimos recursos técnicos e financeiros, o filme pegou o mundo de surpresa com seu visual cru, seu realismo sufocante e sua narrativa em tom semi-documental. Filmado nas ruas da capital italiana antes mesmo do final da guerra - e contando inclusive com soldados verdadeiros como figurantes - a obra que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1946 transformou definitivamente o cinema europeu e mundial - apesar de seu fracasso de bilheteria.

A trama é simples: ao fugir de soldados da Gestapo, o comunista Manfredi (Marcello Pagliero) encontra refúgio no apartamento de Pina (Anna Magnani), que, grávida, está em vias de casar-se com o litógrafo Francesco (Francesco Grandjaquet), também opositor do regime. Com a ajuda de Don Pietro (Aldo Fabrizzi), um padre que se recusa a ficar neutro diante das atrocidades que presencia, o grupo tentará lutar contra o nazismo e defender suas próprias vidas, o que ficará cada vez mais difícil, uma vez que a ocupação alemã recrudesce a cada dia.


Talvez as maiores qualidades de "Roma, cidade aberta" sejam, hoje em dia, para um público acostumado a técnicas modernas, um tanto quanto comuns. A fotografia seca em preto-e-branco, a narrativa que segue diversos personagens e o enfoque dramático/político não são mais novidade para a audiência do século XXI. Mas a forma com que Rossellini conduz sua história é, indubitavelmente, um marco. Mesmo que não abra mão do maniqueísmo, o roteiro do diretor acompanha seus protagonistas sem apelar para o sentimentalismo que surgiria com os filmes de Vittorio De Sica (mais especificamente "Ladrões de bicicleta", lançado logo em seguida). Mesmo quando tragédias surgem em seu caminho - e elas não são poucas - existe um distanciamento saudável, responsabilidade do tom sério imposto desde suas primeiras cenas. Fortes e contundentes, os destinos de Manfredi, Pina, Francesco e Don Pietro são inesquecíveis.

Namorada do diretor Rossellini à época das filmagens, a sensacional Anna Magnani - que chegaria a ganhar um Oscar anos depois, demonstrando que seu imenso talento desconhecia a barreira do idioma - tornou-se a cara do neorrealismo italiano, tendo realizado filmes icônicos com o cineasta Luchino Visconti, como o excepcional "Belíssima", de 1952. Seu talento, contudo, não impediu o romance entre seu amante e a atriz Ingrid Bergman, iniciado durante as filmagens de "Stromboli", em 1949, depois que a atriz sueca lhe escreveu uma carta de fã pedindo para filmar com ele. O romance durou alguns anos e resultou no nascimento de duas filhas gêmeas, entre elas a atriz Isabella Rossellini.

CIDADÃO KANE


CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941, RKO Pictures, 119min ) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz. Fotografia: Gregg Toland. Montagem: Robert Wise. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edward Stevenson. Direção de arte/cenários: Van Nest Polgase/Darrell Silvera. Produção: Orson Welles. Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick. Estreia: 01/5/41

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Orson Welles), Ator (Orson Welles), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Perguntem a qualquer crítico de cinema quais são seus dez filmes preferidos e se existe uma obra que certamente estará na lista de todos é "Cidadão Kane". Lançado em 1941 sob uma saraivada de protestos do magnata das comunicações William Randolph Hearts, que via no protagonista uma cópia mal-disfarçada de sim mesmo (e com toda razão), o filme de estreia do então menino-prodígio Orson Welles foi um fracasso de bilheteria, para alívio de Hearts, mas, conforme o tempo foi passando, mais e mais estudiosos foram descobrindo suas inúmeras e inegáveis qualidades, que o levaram facilmente a encabeçar as listas de melhores filmes de todos os tempos dos anos 60 pra cá.

Quando foi contratado pela RKO Pictures para estrear como cineasta, Welles - com meros 24 anos à época das filmagens - já era um nome consagrado no teatro, como um criativo ator e diretor shakespereano e no rádio, onde sua transmissão de "A guerra dos mundos", de H.G. Wells causou pânico generalizado. Tido como um gênio, ele surpreendeu o mundo do cinema com uma liberdade artística que nem mesmo aos mais consagrados autores era permitida. Nada mais natural, portanto, que as expectativas em torno de seu primeiro filme fossem as mais altas possíveis. O fracasso financeiro de "Cidadão Kane", sendo assim, deu um banho de água fria em seus planos. Seu filme seguinte, "Soberba", lhe foi tomado das mãos na fase de edição e nunca mais Welles atingiu a unanimidade de seu primeiro trabalho. Polêmico e não exatamente uma pessoa fácil de se conviver, ele acabou por se deixar queimar pela vaidade, mas ninguém poderá dizer que não deixou sua marca indelével na história do cinema já em seu passo inicial na sétima arte.

Antes de começar "Cidadão Kane", Welles tinha a intenção de dirigir uma versão para as telas do clássico "Coração das trevas", de Joseph Conrad. A história do magnata das comunicações só foi sua terceira opção, mas assim que a ideia do roteirista Herman J. Mankiewicz (irmão do cineasta Joseph) lhe chegou às mãos, parecia-lhe que não havia papel melhor para seu debut. A história de Charles Foster Kane - um menino pobre que herda uma fortuna e cria um império jornalístico não exatamente ético mas incrivelmente popular - acabou despertando a curiosidade do então todo-poderoso Hearst, que viu na trajetória do personagem de Welles um espelho de sua própria. Foi o que bastou para que ele iniciasse uma guerra sem precedentes contra um único filme. Represálias, ameaças e chantagens foram algumas das armas utilizadas pelo magnata, o que não impediu o corajoso Welles de estrear seu filme - para logo em seguida, vê-lo fracassar nas bilheterias e ser alvo do desprezo de seus próprios colegas de cinema - como retrata de forma sublime o documentário "A batalha por Cidadão Kane", disponível como extra no DVD duplo lançado pela Warner. Foi preciso uma distância de duas décadas para que se tornasse um dos mais admirados e louvados produtos do cinema americano em toda a história.


Talvez o que mais tenha prejudicado "Cidadão Kane" em sua estreia - mais até do que a campanha difamatória e negativa da imprensa comandada por Hearst - tenha sido sua coragem em romper com os padrões dos filmes da época. Ousado e inteligente, Welles simplesmente contou a história de Kane da maneira mais surpreendente e aparentemente caótica possível. Ao apresentar seu protagonista sob diversos pontos de vista - utilizando para isso uma edição complexa e uma ordem cronológica aparentemente desconexa - o cineasta destrói as convenções até então em voga e convida o espectador a uma experiência inédita. Para isso contribui a fotografia excepcional de Gregg Tolland, a cereja do bolo: inovando praticamente de todas as formas, Tolland virou de cabeça pra baixo as regras da narrativa convencional, sendo a manifestação visual perfeita para o roteiro genial de Welles e Mankiewicz, que usa e abusa de flashbacks, cinejornais forjados e diálogos sobrepostos. À parte isso, ainda existe o talento do Welles ator, que encarna o protagonista da juventude à velhice, quando ele morre em sua mansão Xanadu, construída para sua amante - tal como Hearst fez na vida real.

É a morte de Kane que dá início ao filme. Na busca da imprensa pelo significado de sua última palavra - "Rosebud" - o filme se desenrola, com personagens fornecendo pistas sobre sua personalidade complicada, tal como peças de um quebra-cabeça que só vai ser completo na cena final, quando o sentido da vida do milionário finalmente fica claro ao público. É tudo tão admirável na maneira como Welles conta sua história que pouca gente percebe um erro quase grotesco: se Kane morre sozinho em seu quarto, quando diz sua palavra final, quem a ouve para iniciar a busca central do filme?

Se é o melhor filme de todos os tempos é questionável. Mas é inegável que "Cidadão Kane" foi essencial para que o cinema desse muitos passos adiante com seu formato narrativo e suas inovações até hoje assombrosas. Ainda bem que o poderio de Hearst não foi capaz de queimar os negativos como queria. Certamente o cinema seria bem mais pobre.