quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

DOMÉSTICAS, O FILME

DOMÉSTICAS, O FILME (Domésticas, o filme, 2001, O2 Filmes, 85min) Direção: Fernando Meirelles, Nando Olival. Roteiro: Cecília Homem de Mello, Fernando Meirelles, Renata Melo, Nando Olival, peça teatral de Renata Melo. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Deo Teixeira. Música: André Abujamra. Direção de arte: Tulé Peak, Frederico Pinto. Produção executiva: Bel Berlinck. Produção: Andrea Barata Ribeiro. Elenco: Cláudia Missura, Graziela Moretto, Lena Roque, Olívia Araújo, Renata Melo, Tiago Moraes, Gero Camilo, Luciano Quirino. Estreia: 25/01/01

Antes de conhecer o prestígio mundial com o merecido sucesso de "Cidade de Deus", o cineasta Fernando Meirelles fez a plateia gargalhar com o despretensioso "Domésticas", adaptação da peça teatral de Renata Melo, grande sucesso popular que retratava, como o título deixa bem claro, o dia-a-dia das musas de Odair José - que alíás faz parte da esperta trilha sonora, ao lado de nomes como Sidney Magal, Lindomar Castilho e Amado Batista. Acompanhando a rotina de meia-dúzia de domésticas, o roteiro co-escrito pela atriz Cecília Homem de Mello, Meirelles, seu co-diretor Nando Olival e a autora da peça original - é engraçado, terno e, apesar de não ter um átomo da ousadia narrativa da obra-prima de Fernando, conquista o público justamente por sua simplicidade.

Vindo da publicidade - e portanto bastante ciente da importância do visual e do ritmo - Meirelles opta por um viés quase superficial no tratamento de suas histórias, que se entrecruzam sem grandes consequências. Essa aparente fragilidade do roteiro, porém, é compensada por alguns diálogos hilariantes e pelas atuações nunca aquém de impecáveis de um elenco de atrizes novatas - algumas das quais posteriormente se tornariam relativamente famosas, como Claudia Missura e Graziela Moretto. São elas, cada um com seu timing e entonações próprias que transformam a experiência de assistir-se ao filme em diversão pura. Vale lembrar também que Renata Melo (autora do texto original) participa do elenco, na pele de Cida, que busca emoção no casamento mesmo casada com um homem parado a ponto de morrer sem ser notado.


Outro ponto que chama a atenção no roteiro é a ausência total do ponto de vista das patroas, sistematicamente achincalhadas pelas personagens e taxadas (com justiça, de acordo com elas mesmas) de sovinas, autoritárias e preconceituosas. O que poderia ser um falha em um filme com objetivos mais nobres de antropologia, aqui soa como coerência interna. Uma vez que são as empregadas que contam suas histórias (muitas vezes em depoimentos engraçadíssimos para a câmera), é absolutamente dispensável uma outra visão, que provavelmente atrapalharia o ritmo do curtíssimo filme. Sendo assim, testemunhos sobre acusações de roubo, por exemplo, são revestidos com um senso de humor que impede a revolta social (ainda que, mesmo diante de piadas, fique patente uma certa melancolia). Frases como "nenhuma menina diz que quer ser empregada doméstica quando crescer" podem parecer aforismos, mas refletem um estado de espírito de conformismo bastante triste - e que a ambiciosa Roxane (Graziela Moretto) deseja romper ao tentar uma carreira de modelo que a leva para um caminho ainda mais infeliz.

No fim das contas, "Domésticas" é uma comédia leve, direta e com uma missão popular de divertir sem apelar para baixarias. Não foi um estrondoso sucesso de bilheteria, ao contrário das dezenas de abacaxis metidos a engraçados que a população brasileira adotou nos últimos anos, mas é infinitamente superior, tanto em termos técnicos quanto de humor. Um filme que merece ser redescoberto.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

POUCAS E BOAS

POUCAS E BOAS (Sweet and lowdown, 1999, Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Cunningham Bauer. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J.E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Sean Penn, Samantha Morton, Uma Thurman, Anthony LaPaglia. Estreia: 04/9/99

2 indicações ao Oscar: Ator (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Samantha Morton)

No livro "Conversas com Woody Allen" o cineasta nova-iorquino repete inúmeras vezes que fala pouquíssimo com os atores de seus filmes durante as filmagens, acreditando que, com o talento que eles acrescentam à obra, não é preciso dirigi-los, no sentido literal da palavra. Se tudo não passa de uma série crise de modéstia, é preciso então louvar a forma com que Sean Penn - talvez o melhor ator americano de sua geração - entregou-se de corpo e alma a seu trabalho em "Poucas e boas", um projeto de estimação do diretor que, mesmo não estando entre seus trabalhos mais populares é fascinante, inteligente e emocionante como suas obras-primas mais conhecidas.

Em uma atuação impecável que equilibra com precisão a insanidade e a insegurança próprias dos gênios, Penn vive Emmet Ray, um dos mais intensos e talentosos violinistas dos anos 30 (que fica atrás apenas de Django Reinhardt, a quem idolatra a ponto de desmaiar sempre que se vê frente a ele). Excêntrico, com conexões no submundo, portador de uma certa ingenuidade disfarçada de indiferença e mulherengo, Ray tem sua vida contada em forma de semi-documentário, sendo analisado e narrado por fãs de jazz como o próprio Woody Allen. A pegadinha é que Ray nunca existiu, sendo apenas fruto da imaginação do diretor/roteirista, fã confesso de Reinhardt e que sempre sonhou em criar um filme que recriasse a era de ouro do gênero musical, com seus principais ícones como protagonistas. Levando-se em conta de que seus filmes não são exatamente máquinas de fazer dinheiro, pode-se concluir que "Poucas e boas" é a versão econômica de sua ambição. E ainda assim é muito, muito bom.


O roteiro de Allen não segue o padrão de uma cinebiografia, mostrando uma infância complicada ou problemas da adolescência e juventude de seu protagonista. Ele prefere focar-se em um período específico da vida de Ray, cujo talento imenso não o impede de ser obrigado a tocar para públicos que não sabem reconhecer o tamanho de sua arte - mas ao mesmo tempo o aproxima da alta sociedade de sua época, em especial da escritora Blanche (Uma Thurman), que vê nele a inspiração para um novo livro e acaba se casando com ele, em um romance destinado a fracassar graças ao gênio do músico - e seu narcisismo flagrante. Seduzida pelo estilo de vida aparentemente fascinante do violinista (que tem por hábito dar tiros nos ratos que vivem no lixão e ver trens passando por ele), Blanche é o oposto de Hattie (Samantha Morton), uma jovem lavadeira muda que, apaixonada por Ray, sofre com sua incapacidade de amar.

Se a forma com que Allen conduz sua narrativa imprime um ritmo ágil e mágico à época em que se passa a história (bem reconstituída visualmente, graças à direção de arte, ao figurino e à fotografia em tons neutros), muito dos méritos de sua qualidade vem de dois de seus atores centrais. Enquanto Penn usa e abusa de seus dons histriônicos, chegando a tocar violão de verdade em várias cenas e saindo-se extremamente bem tanto em sequências de humor quanto nos momentos mais comoventes (em especial no terço final da projeção), a maior revelação é a novata Samantha Morton, que rouba a cena com a silenciosa Hattie, capaz de quebrar a barreira do coração de Ray sem dizer uma única palavra, em uma ironia mestra que acrescenta uma camada a mais de profundidade ao filme. Morton - criada no interior rural da Inglaterra e que nem sabia quem era Woody Allen quando foi fazer o teste para o filme - foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, que lhe abriu as portas de Hollywood para outros trabalhos igualmente poderosos.

Um filme quase atípico na carreira de Woody Allen, "Poucas e boas" merecia uma recepção mais calorosa e justa. É comovente, é engraçado, é sutil e é inteligente. Se nada disso fosse o bastante, ainda tem Sean Penn, que transforma qualquer filme em uma obra imperdível.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A NEGOCIAÇÃO

A NEGOCIAÇÃO (The negotiator, 1998, Regency Enterprises, 140min) Direção: F. Gary Gray. Roteiro: James De Monaco, Kevin Fox. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Christian Wagner. Música: Graeme Revell. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Holger Gross/Richard Goddard. Produção executiva: David Nicksay, Robert Stone, Webster Stone. Elenco: Kevin Spacey, Samuel L. Jackson, David Morse, Ron Rifkin, John Spencer, J. T. Walsh, Paul Giamatti. Estreia: 29/7/98

Quem disse que um filme-pipoca, feito para divertir a plateia durante duas horas e meia em uma sala de cinema no meio do verão não pode ter inteligência e qualidade? Certamente não foi o diretor F. Gary Gray. Vindo de um surpreendente êxito de crítica com seu "Até as últimas consequências", que revelou as atrizes Queen Latifah e Jada Pinkett Smith e o destacou dentre a leva de cineastas afro-americanos elogiados nos anos 90, Gary demonstrou, em seu filme seguinte, "A negociação" - com um orçamento cinco vezes maior - que sabia como ninguém construir um clima de tensão e violência sem deixar de lado o respeito pelo cérebro do espectador.

Tudo bem que o sucesso de "A negociação" - em termos de qualidade, não exatamente de bilheteria - tem muito a ver com a escalação acertadíssima de seus atores centrais. Enquanto Kevin Spacey vinha de um Oscar de coadjuvante por "Os suspeitos" (e trocou de papel quando Sylvester Stallone pulou fora do projeto), Samuel L. Jackson caminhava para se tornar um dos atores negros mais respeitados dentro da indústria, graças principalmente à sua parceria com Quentin Tarantino - "Pulp fiction" lhe deu uma indicação ao prêmio da Academia e "Jackie Brown" iria estrear poucos meses mais tarde. Juntos, Spacey e Jackson transformaram um "filme de verão" em um embate de gigantes, a despeito de um roteiro que, apesar de funcionar em ritmo e suspense, nunca atinge o potencial de sua premissa inicial.


Jackson interpreta Danny Roman, um conceituado negociador da policia de Chicago, capaz de reverter quadros aparentemente insolúveis. Logo depois de mais um sucesso na carreira, porém, ele é injustamente acusado pelo assassinato de um colega, que ele sabia estar investigando um caso de corrupção dentro da própria corporação. Desesperado, ele invade um prédio do governo, faz um grupo de reféns e exige que outro famoso negociador, Chris Sabian (Kevin Spacey), assuma o diálogo e o ajude a descobrir a verdade sobre o crime. Sabian - um profissional dedicado e inteligente - passa a acreditar em Roman, mas vai precisar ir contra toda a equipe policial que parece esconder muito mais do que aparenta.

"A negociação" não é um filme extraordinário e desprovido de pecados. Talvez o que mais incomode é sua duração excessiva - quase duas horas e meia de projeção exigiriam um ritmo mais ágil, em contraste com a prolixidade do roteiro, que em determinado momento chega a tornar-se cansativo mesmo com as atuações superlativas de Jackson e Spacey. Ainda assim, o ato final consegue atingir níveis de tensão o suficiente para manter o público ligado - e talvez até proporcionar-lhe um susto inesperado, valorizado justamente pela direção de Gray, atenta aos detalhes e às técnicas de edição e sonorização. Mais do que um Supercine de luxo, "A negociação" é um espetáculo de atores no auge de seu talento.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A VIDA EM PRETO E BRANCO

A VIDA EM PRETO E BRANCO (Pleasantville, 1998, New Line Cinema, 124min) Direção e roteiro: Gary Ross. Fotografia: John Lindley. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Newman. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Michael De Luca, Mary Parent. Produção: Robert J. Degus, Jon Kilik, Gary Ross, Steven Soderbergh. Elenco: Tobey Maguire, Joan Allen, Jeff Daniels, Reese Witherspoon, William H. Macy, J.T. Walsh, Paul Walker. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original (Drama), Figurino, Direção de Arte/Cenários

De vez em quando, apesar da mesmice do cinemão americano, surge uma pequena pérola, um filme que, dentro de sua aparente simplicidade, conquista pela inteligência e pela delicadeza. Em 1998, esse filme foi "A vida em preto e branco", uma deliciosa comédia romântica que, por trás de uma sátira carinhosa aos seriados de televisão dos anos 50 - com suas famílias perfeitas e um mundo cor-de-rosa - esconde uma poderosa crítica ao fascismo moral e ao preconceito. Escrita e dirigida por Gary Ross - que cinco anos depois veria seu quadradinho "Seabiscuit, alma de herói" ser alçado à importante indicação ao Oscar de melhor filme - a co- produção de Steven Soderbergh é um deleite para os olhos e para a alma.

A princípio, parece bem bobinho - e talvez seja essa a intenção de Ross: um casal de irmãos gêmeos, a exuberante Jennifer (Reese Witherspoon antes da fama que acabou lhe rendendo um Oscar) e o introvertido David (Tobey Maguire) começam a brigar pela posse do controle remoto da televisão, cada um acreditando ter motivos mais fortes que o outro para ter o domínio da programação. Enquanto Jennifer espera assistir a um programa musical ao lado do colega de escola por quem tem uma forte atração, David prefere dedicar-se à "Maratona Pleasantville", que irá mostrar, sem interrupção, diversos episódios de sua série preferida - e acabar com um quiz que pode lhe dar um prêmio. A briga é interrompida quando o controle quebra e eles recebem a visita de um misterioso homem, que, ao invés de consertá-lo, joga os dois dentro do programa adorado por David. De uma hora pra outra, os dois adolescentes dos anos 90 - acostumados com refeições saudáveis e uma vida sem normas muito rígidas de comportamento social - se veem em um mundo totalmente diferente, tanto em termos morais quanto estéticos.


Enquanto David - acostumado com as regras desse novo mundo e ciente de todos os meandros de sua sociedade - sai-se bastante bem na suas tentativas de integrar-se a ele, Jennifer, rebelde por natureza, passa a questionar um por um dos itens que fazem da cidade um exemplo de convivência pacífica e apática. Seu desejo liberador por Skip Martin (Paul Walker) é o catalisador de uma profunda transformação na pacata Pleasantville, que nunca antes havia falado, pensado ou imaginado qualquer coisa relacionada à sexo ou sentimentos que pudessem abalar o status quo. Com a chegada dos irmãos, o mundinho em preto-e-branco da cidade começa a colorir-se conforme as pessoas passam a experimentar novas sensações - e até a mãe do casal, Betty (Joan Allen) descobre que amor é algo bem diferente da comodidade indiferente que sente ao lado do marido (em uma sequência genial onde ela encontra o caminho para a satisfação sexual em um banho de banheira que acaba dando trabalho aos bombeiros da cidade, que até então não faziam nada mais do que salvar gatinhos em árvores).

Utilizando-se de metáforas visuais para atacar o conformismo - e as tentativas ditatoriais para mantê-lo como forma de controle - "A vida em preto e branco" tem o mérito de não esquecer, em momento algum, que, antes de receber uma mensagem, o público procura uma boa história, narrada com coerência e clareza. E isso não é negado à plateia do filme de Ross, que testemunha, diante de seus olhos, uma trama delicada, por vezes engraçada e muito comovente, contada com recursos visuais deslumbrantes. Da fotografia de John Lindley até a criação de toda a Pleasantville - passando pela trilha sonora emocionante de Randy Newman, que comporta inclusive um versão de "Across the universe" na voz de Fiona Apple - tudo conflui para um resultado nunca aquém de soberbo, capaz de encantar qualquer audiência que se disponha a abrir o coração. Um pequena obra-prima.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL

MEIA-NOITE NO JARDIM DO BEM E DO MAL (Midnight at the garden of good and evil, 1997, Warner Bros, 155min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: John Lee Hancock, livro de John Berendt. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead. Produção executiva: Anita Zuckerman. Produção: Clint Eastwood, Arnold Stiefel. Elenco: Kevin Spacey, John Cusack, Jude Law, Alison Eastwood, Jack Thompson, Irma P. Hall, Lady Chablis. Estreia: 21/11/97

Clint Eastwood nunca precisou provar nada pra ninguém como cineasta e muito menos depois que sagrou-se vencedor do Oscar com seu impecável "Os imperdoáveis", de 1992. Um dos raros diretores do mainstream americano a preocupar-se mais com os atores do que com efeitos visuais mirabolantes, o velho Eastwood também tem bom olho para escolher os livros que leva às telas. Foi assim com "As pontes de Madison" - baseado em um romance água-com-açúcar de Robert James Waller que acabou tornando-se um de seus melhores trabalhos - e com "Poder absoluto" - que saiu das páginas de um policial de David Baldacci mas não repetiu o mesmo êxito. E é também baseado em um livro um de seus filmes menos bem-sucedidos (tanto em termos de crítica quanto de bilheteria): o romance-reportagem "Meia-noite no jardim do bem e do mal", escrito por John Berendt não encontrou na sua versão para celuloide o mesmo sucesso que obteve nas livrarias.

É difícil encontrar, racionalmente, um motivo para o fracasso de "Meia-noite": a direção de Eastwood está no ponto, o elenco (John Cusack e Kevin Spacey na liderança) é coeso e bem escalado, a trama é interessante e a produção é de primeira linha. Mas, analisando friamente, falta alma ao filme. Falta emoção. Falta calor. E sem esses elementos, por melhor que o resto seja, o resultado não tem como ser outro a não ser a indiferença do público. Soma-se a isso o equívoco na adaptação para o cinema de um livro cuja maior qualidade era a descrição bem-humorada da idiossincrática Savannah e seus habitantes surreais e tem-se uma obra cuja promessa não chega a ser cumprida em nenhum momento apesar da união de talentos.


John Cusack, exagerando nas caras e bocas, vive John Kelso, um repórter nova-iorquino que, depois do fracasso de seu primeiro livro, é contratado para cobrir a festa de Natal oferecida pelo excêntrico milionário Jim Williams na igualmente bizarra cidade de Savannah, no sul dos EUA. Logo que chega ao local, Kelso fica intrigado com o jeito de ser dos moradores - pessoas que caminham com cachorros já mortos, um homem que convive com moscas presas a seu ombro e um vidro de veneno com o qual ameaça matar a todos - e tem a ideia de escrever não uma reportagem, mas um livro. O tema do livro acaba sendo drasticamente alterado, porém, quando Williams mata o garoto de programa Billy (Jude Law em um de seus primeiros papéis em Hollywood), com quem mantinha uma relação falsamente ignorada pela alta sociedade da cidade. Temendo que o milionário seja condenado devido à sua homossexualidade, o escritor resolve acompanhar o julgamento - o que fica mais agradável quando ele inicia um romance com Mandy (Alison Eastwood, filha de Clint).

O roteiro de John Lee Hancock não encontra, a partir daí, o equilíbrio necessário entre um drama de tribunal que poderia ser empolgante e a forma como retratar as superstições e preconceitos de uma cidade do interior do sul do país - representados, respectivamente, pela misteriosa Minerva (Irma P. Hall) e pela drag queen Lady Chablis (interpretada pela própria inspiração para a personagem, na maior revelação do elenco). Essa quebra entre dois universos e duas tramas que não se combinam a contento talvez seja a maior responsável pelo fracasso do filme em atingir seus objetivos dramáticos. Sempre que as sequências do tribunal assumem o foco - com Kevin Spacey mostrando mais uma vez porque é um dos melhores atores americanos de sua geração - o filme cresce, apesar de não deixar os clichês pra trás. Quando tenta tratar sobre os ritos religiosos e o campo espiritual, porém, o roteiro chove no molhado e dispersa a ação - fato que nem mesmo a curiosa ideia de misturar personagens reais à trama consegue superar.

No final das contas, "Meia-noite no jardim do bem e do mal" não é um filme ruim, mesmo porque Eastwood é um diretor bom demais para estragar completamente um material. Mas ao mesmo tempo não convence nem encanta tanto quanto sua trama prometia. Fica no meio do caminho, salvo pela atuação (mais uma) extraordinária de Kevin Spacey.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

DESCONSTRUINDO HARRY

DESCONSTRUINDO HARRY (Deconstructing Harry, 1997, Sweetland Films, 96min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Suzy Benzinger. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Kaufman, Elaine O'Donnell. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Judy Davis, Kristie Alley, Elisabeth Shue, Demi Moore, Robin Williams, Billy Cristal, Tobey Maguire, Bob Balaban, Mariel Hemingway, Julia-Louis Dreyfus. Estreia: 26/8/97 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Woody Allen sabe que, por mais que ele negue inspirar-se em si mesmo, seu público insiste em procurá-lo em todo e qualquer protagonista de seus filmes. Essa obsessiva busca por semelhanças entre criador e obra teve mais um prodigioso capítulo com "Desconstruindo Harry", onde o veterano cineasta nova-iorquino narra as aventuras de um bem-sucedido escritor que afasta todas as pessoas que o amam justamente porque as utiliza como personagens de seus livros - normalmente enfatizando ou até mesmo inventando seus defeitos. Harry Block, o escritor criado por Allen - e que ele em vão tentou que fosse interpretado por outros atores que não ele, como Elliot Gould e Albert Brooks, exatamente para não aumentar ainda mais a confusão do público - é, provavelmente, o mais desagradável vivido por ele nas quase três décadas que o separam de seu primeiro filme ("O que que há, gatinha?", de 1968), mas é, também, um dos mais engraçados e interessantes de sua carreira como roteirista.

Partindo de uma ideia que emula Ingmar Bergman e seu "Morangos silvestres", Allen põe Block a caminho de uma homenagem que sua antiga faculdade lhe fará, mesmo tendo-o expulso em seu tempo de estudante. Acompanhado de um dos poucos amigos que lhe restam (Bob Balaban), uma prostituta que ele conheceu na noite anterior e seu filho pequeno - sequestrado porque sua ex-mulher não permitiu que ele se juntasse ao passeio - o escritor faz, no trajeto, um pequeno inventário de sua vida amorosa, equilibrando sua memória entre o que realmente aconteceu, a forma como as situações foram retratadas em sua obra e em pequenas histórias que interligam os fatos sem necessariamente fazerem parte de sua vida pessoal. É assim, por exemplo, que surgem na tela personagens geniais, como o ator (Robin Williams) que se descobre fora de foco e quer que todos se ajustem à nova situação e o jovem vendedor de sapatos (Tobey Maguire) que tem um inesperado encontro com a morte (ela mesma, de foice em punho e tudo a que tem direito no imaginário popular).


Brincando com a edição e com as possibilidades que a trama oferece, Woody Allen constrói um roteiro com a medida certa de ironia, que discute a quase misantropia de seu protagonista sem torná-lo um cafajeste no sentido mais literal do termo. Mesmo que Block não tenha escrúpulos em ter um caso com a cunhada ou iniciar um romance com uma jovem estudante paciente de sua mulher - e utilizar essas situações como matéria-prima de seus romances - é difícil não simpatizar com ele e quase perdoá-lo, principalmente porque Allen não pretende demonizar seu personagem, revestindo-o de um irresistível verniz de sarcasmo e auto-crítica que não poupa nem mesmo suas origens judaicas - na figura da irmã de Harry (interpretada por Caroline Aaron) que o culpa por não seguir as tradições, depois que se casa com um judeu ortodoxo.

Com um desfile de estrelas na tela - que vão de Demi Moore e Elisabeth Shue até Billy Cristal e Mariel Hemingway - "Desconstruindo Harry" faz rir sem precisar fazer muita força, além de fazer uma crítica aos escritores que alcançam a genialidade na arte mas são medíocres na vida real. Há quem possa fazer paralelos entre Block e Woody Allen, e culpá-los quem há de?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

COPLAND

COPLAND (Copland, 1997, Miramax Films, 104min) Direção e roteiro: James Mangold. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Lester Cohen/Karen Wiesel. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cathy Konrad, Ezra Swerdlow, Cary Woods. Elenco: Sylvester Stallone, Robert DeNiro, Harvey Keitel, Ray Liotta, Peter Berg, Janeane Garofalo, Robert Patrick, Michael Rapaport, Annabella Sciorra, Cathy Moriarty, Noah Emmerich, John Spencer, Eddie Falco. Estreia: 06/8/97

James Mangold é um diretor atípico. Mesmo que seu nome não seja imediatamente reconhecível por fãs menos antenados, sua carreira é repleta de filmes bastante competentes, dos mais variados gêneros. Seu primeiro longa, o estranho "Paixão muda", aproveitou-se da estrela ascendente de Liv Tyler para fazer sucesso entre os espectadores de cinema independente. E seu segundo, "Copland", lançado em 1997, chamou a atenção mais pela mudança de visual de Sylvester Stallone do que por seus inúmeros méritos. Emulando o cinema policial cerebral dos anos 70 - que tinha na corrupção policial um de seus temas preferidos - o filme acabou sendo elogiado mas esquecido nas cerimônias de premiação. Um esquecimento que não faz jus à sua qualidade.

Mesmo que Stallone chame a atenção com sua performance - corajosa por romper a imagem heroica que sempre acompanhou sua carreira - o mais interessante em "Copland" é seu roteiro, que liga com maestria várias tramas paralelas que acabam revelando-se a mesma. Eclipsado pela genialidade de "Los Angeles, cidade proibida", que também falava sobre o assunto (ainda que com enfoque substancialmente diferente) e foi lançado à mesma época, o filme de Mangold é menos ambicioso do que a obra-prima de Curtis Hanson, mas, apostando no realismo e na crueza de sua trama, atinge todos os seus objetivos: é inteligente, bem dirigido, bem interpretado e surpreendente na medida certa. E Stallone é apenas a ponta do iceberg.


O eterno Rambo vive Freddy Heflin, o xerife de uma cidade próxima a Nova York que é predominantemente habitada por policiais, a chamada "Copland". Impossibilitado de tornar-se policial devido à surdez em um dos ouvidos - consequência de um salvamento que fez na juventude - Heflin não é muito considerado pelos moradores da cidade, mas é ele quem acaba desvendando uma rede de corrupção que envolve até mesmo os respeitados veteranos da corporação. Tudo começa quando o jovem Murray Babitch (Michael Rapaport), considerado um exemplo de dedicação e coragem, se envolve na morte de uma dupla de rapazes negros e tem a cena do crime alterada. Seu suicídio forjado abre a porta para uma série de irregularidades investigadas pela Corregedoria - na figura de Moe Tilden (Robert DeNiro). Além disso, Heflin também começa a desvendar uma teia de relações extra-conjugais que inclui até mesmo a sua grande paixão, Liz (Annabella Sciorra), a jovem que ele salvou de afogar-se e que é casada com Joey Randone (Peter Berg).

Equilibrando com talento raro uma história de sujeiras escondidas debaixo do tapete com o drama de um homem frustrado que tenta superar suas limitações por amor à justiça e à verdade, Mangold criou um espetáculo capaz de agradar a qualquer fã de cinema policial - mesmo que deixe o sempre esperado tiroteio para as cenas finais, onde a carnificina só não é exagerada porque é coerente com o resto da trama. Mesmo quando deixa de lado as tramoias corruptas que são a base de seu roteiro, o cineasta consegue o feito raro de prender a atenção do público com diálogos diretos e atuações nunca aquém de excelentes - até mesmo de atores jovens como Michael Rapaport. E é também bastante ousado, especialmente para um filme realizado sob os auspícios de Hollywood, que os personagens caminhem na tênue linha entre a honestidade e seus próprios interesses - com é o caso de Ray Liotta, que conquista justamente por sua dubiedade de caráter.

Filmado de forma direta, sem maiores arroubos de criatividade - talvez mais uma herança da geração 70 que deu ao mundo filmes como "Serpico" e "Operação França" - "Copland" é uma grata surpresa. Um filme simples, inteligente e que empolga muito mais pelo que diz do que pela forma como o faz. E isso é sempre raro em um gênero onde cortes histéricos são mais valorizados do que roteiros coesos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

RETRATO DE UMA MULHER

RETRATO DE UMA MULHER (The portrait of a lady, 1996, PolyGram Filmed Entertainment, 144min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Laura Jones, romance de Henry James. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Veronika Jenet. Música: Wojcieh Kilar. Figurino: Janet Patterson. Direção de arte/cenários: Janet Patterson. Produção: Steve Golin, Monty Montgomery. Elenco: Nicole Kidman, John Malkovich, Barbara Hershey, Martin Donovan, Christian Bale, Viggo Mortensen, John Gielgud, Shelley Winters, Shelley Duvall. Estreia: 28/8/96

Duas indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Barbara Hershey), Figurino

Por mais fãs que tenha, entre o público e a crítica, é impossível negar que a filmografia de Jane Campion tem uma séria tendência à chatice. Até mesmo "O piano", seu filme mais famoso - e tido como sua obra-prima - não consegue escapar de um ritmo claudicante que convencionou-se chamar de sensibilidade feminina. Sua obra seguinte à louvada história da pianista muda interpretada brilhantemente por Holly Hunter sofre do mesmo problema. Adaptado do clássico romance de Henry James, "Retrato de uma mulher" é um filme sofisticado, delicado e denso, mas, apesar de melhorar consideravelmente em seu terço final, castiga o espectador com uma história excessivamente lenta, que demora a engrenar - e é plenamente compreensível que esse mesmo espectador desista da trama depois de não ver nada de excitante acontecendo em mais de uma hora de projeção.

Nicole Kidman, já em seu caminho para tornar-se uma das atrizes mais respeitadas de Hollywood - com um Golden Globe de atriz por "Um sonho sem limites" debaixo do braço - empresta sua beleza frágil e etérea para viver Isabel Archer, uma americana de 23 anos de idade que, no final do século XIX, empreende uma viagem à Europa com a intenção de se autodescobrir. Moderna diante das rígidas normas que regiam a sociedade da época - não vê no casamento, por exemplo, um objetivo de vida - ela não percebe o amor que desperta em seu primo, Ralph Touchett (Martin Donovan, queridinho do diretor independente Hal Hartley) e refusa veementemente as investidas de uma antiga paixão, o também americano Caspar Goodwood (Viggo Mortensen). Depois de herdar uma fortuna de um tio, ela acaba tornando-se alvo do interesse do misterioso Gilbert Osmond (John Malkovich), um colecionador de arte que ela conhece através da aparentemente amável Madame Merle (Barbara Hershey, que ficou com o papel que seria de Susan Sarandon e foi indicada ao Oscar por seu desempenho). Sua relação com ele acaba forçando-a a entrar em um jogo de interesses com o qual ela não está preparada para lidar.


A delicadeza de Kidman como Archer é, paradoxalmente, uma das forças-motrizes do filme de Campion. Especialmente na reta final, quando a protagonista começa a perceber as entranhas maldosas da armação de Merle e Osmond, a então esposa de Tom Cruise está sensacional, contrastando com a quase frieza com que lida com a primeira metade do filme, quando sua personagem se divide entre as normas sociais de seu período e o desejo sexual que a impele a sonhar acordada com seus pretendentes - em sequências não particularmente interessantes, mas dirigidas com criatividade, assim como a bela cena em que Osmond se declara apaixonado por Isabel. Aliás, pode-se reclamar da falta de agilidade de Campion como diretora, mas jamais de sua capacidade em criar cenas esteticamente impactantes, para o que colabora a impecável e detalhista reconstituição de época e a fotografia bem cuidada de Stuart Dryburgh.

E o elenco coadjuvante de "Retrato de uma mulher" também merece elogios rasgados. Se Kidman e Hershey chamam a atenção sempre que estão em cena, com interpretações distintas mas igualmente impressionantes, o equilíbrio entre veteranos e jovens talentos atingido por Campion é notável. John Gielgud e Shelley Winters representam o primeiro grupo - como os tios de Isabel Archer - o segundo time conta com Martin Donovan em uma atuação sensível e arrebatadora e o ótimo Christian Bale como o pretendente da filha de Osmond, outra vítima inocente da ambição de Madame Merle. Cada um à sua maneira, os atores são a principal razão para se assistir ao filme, uma adaptação fiel e sofisticada de uma obra das mais importantes da literatura inglesa.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A SOMBRA E A ESCURIDÃO

A SOMBRA E A ESCURIDÃO (The ghost and the darkness, 1996, Constellation Entertainment,109min) Direção: Stephen Hopkins. Roteiro: William Goldman. Fotografia: Vilmos Zsigsmond. Montagem: Roger Bondelli, Robert Brown, Steve Mirkovich. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Michael Douglas, Steven Reuther. Produção: A. Kitman Ho, Gale Anne Hurd, Paul Radin. Elenco: Michael Douglas, Val Kilmer, Tom Wilkinson, John Kani, Bernard Hill, Emily Mortimer. Estreia: 11/10/96

Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros

No final do século XIX, um engenheiro inglês é mandado para a África para construir uma ponte, liderando um grupo que reunia africanos e indianos. O que parecia um trabalho como outro qualquer - ainda que desafiador e ambicioso - torna-se um pesadelo quando o grupo passa a ser constantemente atacado por um par de leões, que, em questão de pouco tempo faz mais de 40 vítimas entre os operários. Contando com a ajuda de um experiente caçador, o jovem engenheiro - que está em vias de tornar-se pai pela primeira vez - assume a missão de exterminar as feras, mas descobre, atônito, que tudo é ainda mais difícil do que parecia ser, já que os animais fogem totalmente do esperado, conseguindo inclusive livrar-se de armadilhas infalíveis.

A trama de "A sombra e a escuridão", suspense dirigido por Stephen Hopkins vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros em 1997 é tão inacreditável que é difícil de crer que não é invenção de algum roteirista lunático de Hollywood. A história do engenheiro John Patterson - vivido por um inexpressivo como sempre Val Kilmer - chegou aos cinemas em um filme de suspense elegante, produzido pelo ator Michael Douglas, que, com a prerrogativa de produtor executivo, embarcou no projeto também como ator, na pele do caçador Charles Remington, um personagem fictício que, dramaticamente, funciona bastante bem e é responsável por alguns dos momentos mais intensos da narrativa. São as cenas em que os dois caçadores partem em busca dos cruéis assassinos - mostrados com extrema parcimônia pela câmera do veterano Vilmos Zsigmond - que prendem o espectador, hipnotizados pela edição competente e pela trilha sonora adequada de Jerry Goldsmith.


Seguindo a tradição inaugurada por Steven Spielberg em seu "Tubarão" - a de não mostrar o rosto das ameaças até que seja impossível escondê-lo - "A sombra e a escuridão" esboça seu suspense com sutileza, utilizando-se de seu impressionante desenho de som para criar uma atmosfera de tensão constante até que finalmente os dois monstros ("interpretados" por leões verdadeiros na maioria esmagadora das cenas) surgem em cena para fazer a audiência pular da poltrona. A truculência dos bichos - mostrada com relativa liberdade para um filme que almeja grande bilheteria - é equiparada à sua aparente inteligência: nunca no cinema animais irracionais conseguem ser tão brilhantes, a ponto de destruir sistematicamente todas as tentativas de captura de seus perseguidores. E para quem tem a intenção de reclamar que leões normalmente não atacam seres humanos há uma explicação (não mostrada no filme, mas posteriormente revelada por estudiosos): os vilões do filme de Hopkins provavelmente mataram tantos homens porque eram velhos e humanos tem a carne mais tenra do que os animais que são normalmente o alvo do rei das selvas.

"A sombra e a escuridão" não encontrou seu público nos EUA, com sua bilheteria ficando aquém do orçamento de 55 milhões de dólares. Mas é um espetáculo repleto de qualidades, que vão desde sua reconstituição de época cuidadosa até aos já citados trabalhos de som, devidamente premiados com uma estatueta da Academia. Equilibrando com inteligência momentos de pura tensão com cenas bem escritas, que dão espaço aos atores - em especial Michael Douglas, que mesmo aparecendo depois de 45 minutos de projeção rouba o show do apático Kilmer - o filme de Hopkins é uma das pérolas esquecidas do cinema americano dos anos 90.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

LIGADAS PELO DESEJO

LIGADAS PELO DESEJO (Bound, 1996, Dino de Laurentiss Company, 108min) Direção e roteiro: Wachowski Brothers. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Zach Staenberg. Música: Don Davis. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Eve Cauley/Kristen Toscano Messina. Produção executiva: Andy Wachowski, Larry Wachowski. Produção: Stuart Boros, Andrew Lazar. Elenco: Jennifer Tilly, Gina Gershon, Joe Pantoliano, Christopher Meloni. Estreia: 04/10/96

Três anos antes de tornarem-se conhecidos e tidos como os salvadores da ficção científica no cinema com o incensado "Matrix", os irmãos Wachowski já mostravam aos antenados no cinema independente que eram nomes que deveriam ser guardados. Emulando os clássicos noir do cinema americano com um visual moderno e uma edição ágil - unidos com uma sensualidade ousada e provocante - "Ligadas pelo desejo" acabou sendo o cartão de visitas da dupla de diretores junto à Warner quando eles surgiram com a ideia do revolucionário filme estrelado por Keanu Reeves em 1999.

A princípio, a trama de "Ligadas pelo desejo" não apresenta nada de novo ao público acostumado com o cinema policial americano, cheio de reviravoltas, mulheres fatais e romances extra-conjugais tórridos e destinados à tragédia: Violet (Jennifer Tilly, recém saída da indicação ao Oscar por "Tiros na Broadway") é a infeliz mulher da alta sociedade que, insatisfeita com seu relacionamento com o marido, Caesar (Joe Pantoliano, exagerando na performance como sempre) - um violento mafioso - inicia um caso fora do casamento e, cansada dos desmandos de que é vítima, trama um golpe para fugir e recomeçar a vida, mesmo que isso lhe ponha em risco. O pulo do gato do roteiro é que, ao contrário do que acontece normalmente, Violet não se envolve com um homem com vocação para a cadeia e sim com uma mulher, a sensual Corky (Gina Gershon), faz-tudo do prédio que acada de sair de uma sentença de cinco anos de reclusão.


As cenas de sexo entre Tilly e Gershon são quentes - não tão quentes quanto as mostradas em filmes como "Azul é a cor mais quente", por exemplo - mas não são o principal ponto de interesse de "Ligadas pelo desejo". Mesmo que seja redundante em alguns momentos, é o roteiro que chama mais a atenção quando se assiste ao filme, e é notável a forma como os diretores conseguem equilibrar a trama com um visual impactante, que em várias sequências mantém o espectador grudado na tela. Os detalhes realçados na narrativa - por closes ou pela música discreta e eficiente - são elementos dramáticos de crucial importância no desenrolar da história, que só peca mesmo por estender em demasia a subtrama do grupo mafioso do qual Caesar faz parte: uma edição mais enxuta nessas sequências certamente deixaria o filme mais dinâmico e mais tenso.

No final das contas "Ligadas pelo desejo" é um suspense policial acima da média, que tem estilo, personalidade e a coragem de eleger como protagonistas um casal lésbico que em nenhum momento discute sua orientação. Sem a menor intenção de levantar bandeiras, consegue fazer mais pela militância do que muitos dramas bem-intencionados. Afinal, tratar de um casal gay como um outro casal qualquer não é pra qualquer um.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

FOGO CONTRA FOGO

FOGO CONTRA FOGO (Heat, 1995, Warner Bros, 170min) Direção e roteiro: Michael Mann. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Pasquale Buba, William Goldenberg, Dov Hoenig, Tom Rolf. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Bonnie Timmermann/Anne H. Ahrens. Produção executiva: Pieter Jan Brugge, Arnon Milchan. Produção: Art Linson, Michael Mann. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Val Kilmer, Tom Sizemore, Diane Venora, Jon Voight, Amy Brenneman,  Ashsley Judd, William Fichtner, Natalie Portman, Mykelti Williamson. Estreia: 15/12/95

O quão bom pode ser um filme que reúne dois dos maiores atores do cinema americano de todos os tempos? Se o filme for dirigido por Michael Mann e se chamar "Fogo contra fogo" a resposta só pode ser uma: ótimo. Mesmo que Robert DeNiro e Al Pacino só façam duas únicas cenas juntos, o tom seco e direto imposto por Mann, o roteiro repleto de desdobramentos dramáticos, o elenco coadjuvante e a inteligência da trama são motivos mais do que suficientes para fazer de seu drama policial um filme essencial dos anos 90. E é no mínimo paradoxal que Mann - que ficou famoso como criador da série "Miami Vice", um símbolo absoluto do entretenimento ligeiro e descompromissado dos anos 80 - seja tão cuidadoso em oferecer a seu público um produto tão requintado.

Na tradição do cinema policial sem enfeites que deu origem a clássicos como "Serpico" e "Um dia de cão" - sintomaticamente estrelados por Al Pacino - "Fogo contra fogo" é cerebral na maior parte do tempo, demorando em expor todos os seus trunfos. É preciso 1/3 do filme para apresentar os personagens - bem delineados, fortes e interpretados com extrema garra - e situar a história central, que envolve roubo a bancos, crises matrimoniais e questões de lealdade. O roteiro de Mann não se apressa a estabelecer a personalidade de seus dois protagonistas, Vincent Hanna e Neil McCauley, vividos com a competência esperada por Pacino e DeNiro, respectivamente. Enquanto Hannah é um policial obcecado que, segundo sua própria descrição, precisa estar sempre agoniado para forçar sua percepção, e sente-se incapaz de manter um relacionamento satisfatório com a amante Justine (Diane Venora) e a filha adolescente dela, a problemática Lauren (Natalie Portman), McCauley é um expert em roubo a bancos que lidera um bando de criminosos das mais variadas índoles e tem como regra pessoal nunca manter nada em sua vida que não possa ser abandonado em trinta segundos. De certa forma bastante similares entre si, os dois acabam tendo suas vidas cruzadas quando o primeiro se vê no encalço do segundo - justamente quando este se apaixona pela ingênua Eady (Amy Brennemann).


A tendência de Mann em criar impressionantes sequências de ação não desapareceu em "Fogo contra fogo". Mesmo que dê prioridade a cenas longas, com diálogos substanciais e dilemas mais pessoais, o cineasta não se furta a proporcionar ao espectador momentos de pura adrenalina, dirigidas e editadas com precisão e firmeza, em especial um longo tiroteio no clímax do filme - que empurra os personagens a um final catártico narrado de forma apropriadamente lenta. Não interessa a Mann apressar sua história ou atropelar a coerência e a verossimilhança. Se por um lado isso joga o filme no perigoso limbo das produções com quase três horas de duração - o que afasta o público mais afeito a divertimentos fugazes - por outro brinda a inteligência daqueles que não se importam em despender um pouco mais de tempo para conferir uma narrativa mais longa.

E o encontro de Pacino e DeNiro, afinal? Talvez seja um pouco decepcionante, uma vez que suas cenas somadas não chegam a dez minutos (em um total de 170). No entanto - além da qualidade excepcional da sequência em que ambos estão frente a frente em um café - o que poderia ser um ponto negativo do filme transforma-se, sob um ponto de vista racional, em uma qualidade a mais. O raro encontro, que se dá depois de mais de uma hora de projeção, é fascinante justamente por não ser comum, o que dá a ele um aura de tensão palpável que somente dois atores do porte dos dois ícones podem criar. A placidez de DeNiro encontra um espelho contrário nas explosões de Pacino e juntos, eles fazem de "Fogo contra fogo" um drama policial dos melhores, injustamente esquecido pelos Oscar da vida.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A FLOR DO MEU SEGREDO

A FLOR DO MEU SEGREDO (La flor de mi secreto, 1995, El Deseo S/A, 103min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Hugo Mezcua. Direção de arte/cenários: Esther Garcia/Miguel López Pelegrín. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Esther García. Elenco: Marisa Paredes, Juan Echanove, Carme Elias, Rossy de Palma, Chus Lampreave, Imanol Arias, Kiti Manver, Joaquin Cortes. Estreia: 22/9/95

Depois de tornar-se famoso por suas obras transgressoras, repletas de um humor frequentemente grosseiro embalado por um senso de autocrítica e um visual propositalmente kitsch, o cineasta espanhol Pedro Almodovar enveredou pelo melodrama, um de seus gêneros cinematográficos preferidos, em filmes como "De salto alto" - onde analisava a relação de amor e ódio entre mãe e filha. Seu trabalho seguinte, "A flor do meu segredo", dá continuidade a esse caminho, com uma sofisticação narrativa que alguns anos depois lhe consagraria como um dos mais inventivos roteiristas do cinema contemporâneo. Sóbrio e austero, o 11º filme de Almodovar é, provavelmente, um de seus mais coerentes com sua carreira, por mais paradoxal que soe essa afirmação.


Como é constante na obra de Almodovar, o centro da história é uma mulher à beira de um ataque de nervos, a escritora Leo Macias (em esplêndida atuação de Marisa Paredes). Afastada do marido que está lutando na Bósnia e infeliz com sua carreira literária - ela usa o pseudônimo de Amanda Gris para publicar romances água-com-açúcar que vendem aos milhares apesar de seu desprezo por eles - Leo é uma pessoa extremamente solitária, capaz de pagar a alguém na rua para ajudá-la a tirar as botas que apertam seus pés. Enquanto flutua pela vida, ela conta com a ajuda da amiga Betty (Carme Elias), lida com a família - representada pela mãe e pela irmã (as sensacionais Chus Lampreave e Rossy de Palma) - e atrai a atenção do jornalista Angel (Juan Echanove), que a contrata para escrever uma matéria criticando Amanda e se apaixona por ela.


A trama criada por Almodovar - aparentemente simples, mas complexa em emoções e sentimentos de dor e perda - flui com delicadeza diante dos olhos do espectador, ao contrário da narrativa quase histérica de seus filmes anteriores. Marisa Paredes entrega uma interpretação fascinante, calcada basicamente em olhares e pequenos gestos, que a aproximam do público sem dificuldade. Constantemente em lágrimas, ela consegue o feito de diferenciá-las, não tornando o filme um programa lacrimoso e piegas. A dor de Leo, captada pelas lentes discretas de Affonso Beato, é avassaladora, mas o cineasta jamais cai na armadilha de exagerá-la, preferindo acompanhar sua trajetória rumo à superfície, depois de um mergulho sufocante na depressão, de forma magistral. Não é exagero afirmar que "A flor do meu segredo" apresenta um dos melhores trabalhos de direção do espanhol.

Mas existe muito mais, em "A flor do meu segredo", do que o roteiro esperto, a direção segura e a atuação de Marisa Paredes - ainda que estes três elementos já sejam suficientes para colocar o filme como um dos melhores europeus da década de 90. De forma extremamente orgânica e inteligente, Almodovar também povoa seu filme com coadjuvantes interessantes, que de uma forma ou outra, cruzam o caminho de Leo para ajudá-la em seu momento de dor. Ao contrário do que acontece muitas vezes, nenhum personagem existe sem razão. Unidos por Leo estão sua família, sua empregada - e o filho dançarino - a melhor amiga, o marido, o editor apaixonado. Todos tem personalidade, todos tem importância, todos fazem parte do quebra-cabeças que formam o renascimento de Leocadia Macias em outra mulher - e todos também mantém seus próprios segredos.

E, se não bastasse tudo isso, "A flor do meu segredo" dialoga, de maneira direta, com outros dois filmes que o cineasta realizaria posteriormente: Betty trabalha em um hospital e apresenta conferências sobre doação de órgãos - e uma cena mostra a gravação de um vídeo que encoraja o ato, assim como acontece em "Tudo sobre minha mãe", de 1999. E uma das histórias contadas por Leo para um futuro romance - de um mãe que assume a morte do marido para poupar a filha - é uma das subtramas de "Volver", lançado em 2006. Dois pequenos bônus para os fãs do diretor, capazes de deixá-los com um sorriso nos lábios.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

TIROS NA BROADWAY

TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94

7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)

Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).

Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.


Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.

Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O PREÇO DA AMBIÇÃO

O PREÇO DA AMBIÇÃO (Swimming with sharks, 1995, Keystone Studios/Cineville, 101min) Direção e roteiro: George Huang. Fotografia: Steven Finestone. Montagem: Ed Marx. Música: Tom Hiel. Figurino: Kirsten Everberg. Direção de arte/cenários: Cecil Gentry, Veronika Merlin. Produção executiva: Jay Cohen, Stephen Israel. Produção: Steve Alexander, Joanne Moore. Elenco: Kevin Spacey, Frank Whaley, Michelle Forbes, Benicio Del Toro. Estreia: 21/3/95

Quase uma década antes que Lauren Weisberg expusesse ao mundo sua conflituosa relação com a temida Anna Wintour - editora-chefe da revista Vogue, com quem trabalhou por algum tempo, em uma experiência inesquecível na pior acepção do tempo - no romance "O diabo veste Prada" (que rendeu um ótimo filme estrelado por Meryl Streep), um outro filme explorava um traumático relacionamento profissional, mas nos bastidores da indústria do cinema. Escrito e dirigido por George Huang, antigo funcionário da Columbia Pictures - que escreveu sua trama inspirado na figura do produtor de filmes de ação Joel Silver - "O preço da ambição" é uma mistura de suspense com humor negro que leva até as últimas consequências as lutas internas pelo poder.

Antes de sua consagração pelos marcantes papéis em "Seven" e "Os suspeitos" - que estavam em vias de estrear - Kevin Spacey já demonstrava sua consistência dramática em interpretar personagens de moral dúbia e crueldade ululante. Ele vive com verve e gosto o produtor de cinema Buddy Ackerman, que usa e abusa de seu poder adquirido com o sucesso comercial de suas obras de gosto duvidoso para sistematicamente humilhar e explorar seus assistentes pessoais. Quem tem o azar de iniciar uma carreira sob suas ordens é o recém-formado Guy (Frank Whaley), que tem ambição de também tornar-se um membro da elite hollywoodiana. Tímido e sensível, logo Guy percebe que o sadismo sem limites de Ackerman pode lhe ser útil: com a ajuda da produtora independente Dawn (Michelle Forbes), ele põe as mãos em um roteiro que pode ser o seu pulo do gato e conta com o chefe para transformá-lo em realidade.


Contando sua história em forma de flashbacks - que mostram ao público os fatos que levaram Guy à misteriosa morte que abre o filme - Huang intercala seu roteiro com sequências de puro humor negro (onde Spacey brilha e antecipa seu patrão asqueroso da comédia "Quero matar meu chefe") com cenas de um suspense que nunca chega a ser violento ou poderoso quanto poderia (e talvez nem seja essa a sua intenção, afinal de contas). Os momentos em que Guy finalmente se impõe a Ackerman são o contraponto dramático de uma narrativa que frequentemente brinca com os bastidores de Hollywood, seja em citações nominais (um diretor promissor chama-se Foster Kane, uma referência explícita ao protagonista da obra-prima de Orson Welles) ou em piadas internas (muito do que Ackerman faz e diz provavelmente vem da realidade percebida pelo diretor em seus tempos como trabalhador anônimo da indústria). Mas é inegável que a tensão do embate entre os dois protagonistas quando o jogo é virado deixa bastante claro quem é o melhor ator.

Incentivado por Robert Rodriguez a partir das ideias para a realização, George Huang teve uma estreia correta, ainda que pálida. Não fosse a atuação mais uma vez excepcional de Kevin Spacey e algumas farpas direcionadas aos poderosos de Hollywood seria um filme sem maiores atrativos. Talvez por isso ele tenha seguido sua carreira na TV.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

COVA RASA

COVA RASA (Shallow grave, 1994, Channel Four Films, 92min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge. Fotografia: Brian Tufano. Montagem: Masahiro Irakubo. Música: Simon Boswell. Figurino: Kate Carin. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Karen Wakefield. Produção executiva: Alan Scott. Produção: Andrew MacDonald. Elenco: Ewan McGregor, Kerry Fox, Christopher Eccleston. Estreia: 22/11/94 (Austrália)

O time que deu ao cinema dos anos 90 um de seus filmes icônicos - o já clássico "Trainspotting, sem limites" - já demonstrava, em seu primeiro trabalho como grupo, o peculiar gosto pelo humor negro e pelo virtuosismo visual. "Cova rasa" é um suspense repleto de diálogos afiados que apresentou ao mundo o diretor Danny Boyle, o roteirista John Hodge e o ator Ewan McGregor. Juntos, eles ainda fariam - além da citada adaptação do romance de Irvine Welsh - a bizarra comédia romântica "Por uma vida menos ordinária", com menos sucesso e menos verve. Em seu primeiro filme, Boyle já deixa claro seu talento em louvar o anti-herói, aqui representado por três amigos divididos pela ganância que tem a sua vida transformada por um acontecimento fortuito e macabro.


Alex (Ewan McGregor), Juliet (Kerry Fox) e David (Christopher Eccleston) dividem um amplo apartamento, mas percebem que precisam de uma quarta pessoa para rachar as despesas. Depois de várias entrevistas com possíveis locatários - que eles dispensam por motivos fúteis e superficiais, como o modo de vestir, falar ou se comunicar - eles finalmente concordam em aceitar o misterioso Hugo (Keith Allen), que se descreve como escritor. O que parecia uma solução satisfatória para a crise financeira dos amigos sofre uma reviravolta logo em seguida, quando Hugo é encontrado morto, aparentemente vítima de overdose. Antes de chamar a polícia, porém, eles descobrem uma maleta abarrotada de dinheiro e resolvem, por unanimidade, mantê-la, como forma de ficar ricos. No entanto, depois de livrar-se do corpo, o trio inicia uma sufocante jornada de desconfiança, paranoia e ambição, que os leva a virar-se uns contra os outros.


Uma das maiores qualidades de "Cova rasa" é a sua forma de saltar de uma comédia despretensiosa e anódina sobre um grupo de amigos quase arrogantes e egocêntricos para um suspense arrebatador e surpreendente, que não se furta a apelar para cenas que, em mãos menos capazes, seriam simplesmente chocantes. Comandada por Boyle - cujo senso estético e artístico é inegável - a sequência em que os amigos esquartejam o cadáver de Hugo, por exemplo, é sutil e impressionante, mais pelo que esconde do que pelo que mostra. E a descida de um dos personagens rumo à loucura é ilustrada com extremo bom gosto, fugindo dos clichês visuais que soterram os filmes do gênero.

E o elenco é um capítulo à parte: Ewan McGregor, que seria consagrado por sua atuação no filme seguinte de Boyle, já revela um carisma que prenunciava seu sucesso futuro. Christopher Eccleston dá o tom exato a seu personagem, o mais complexo do trio. E Kerry Fox faz o possível para despertar a simpatia do espectador, apesar da frieza de Juliet - que encontra eco, aliás, em seus amigos, pouco afeitos a grandes sentimentos. Aliás, uma das críticas feitas ao filme de Boyle dizia respeito à frieza de seus protagonistas, que jamais transmitem qualquer tipo de sentimento que não a ambição. É uma constatação verdadeira, mas que serve para ilustrar com perfeição sua falta de empatia em relação aos outros - principalmente quando dirigida com perceptível gosto.

"Cova rasa" é bizarro, é tenso, é quase desagradável em seu retrato do ser humano. Mas, a seu modo, é divertido, é insanamente engraçado e um extraordinário cartão de visitas para seu diretor, seu ator principal e seu roteirista.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A LIBERDADE É AZUL

A LIBERDADE É AZUL (Trois couleurs: bleu, 1993, MK2 Productions, 98min) Direção: Krysztof Kieslowski. Roteiro: Krysztof Kieslowski, Krysztof Piesiewicz, Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Jacques Witta. Música: Zbigniew Preisner. Direção de arte/cenários: Claude Lenoir/Lionel Acat, Christian Aubenque, Jean-Pierre Delettre, Julien Poitou-Weber, Marie-Claire Quin. Produção: Marin Karmitz. Elenco: Juliette Binoche, Emmanuelle Riva, Benoit Regent, Charlotte Very. Estreia: 08/9/93

A genial ideia do cineasta polonês Krysztof Kieslowski de criar uma trilogia que ligasse as cores da bandeira francesa aos três temas da Revolução - liberdade, igualdade e fraternidade - não poderia ter tido um início mais alvissareiro. Estrelado pela sempre espetacular Juliette Binoche, "A liberdade é azul" é o mais melancólico e denso da série, oferecendo à audiência um estudo fascinante sobre o livre-arbítrio e o desespero. Parece triste demais, mas sua beleza avassaladora sobrepõe-se à dor.

E dor é a palavra-chave de "A liberdade é azul". Julie (interpretada com uma profundidade encantadora por Binoche) é uma mulher de 33 anos de idade que sofre o maior golpe de sua vida quando perde o marido e a filha pequena em um acidente de carro. Desesperada e sem encontrar nenhum rumo a seguir, ela abandona sua casa no interior da França e vai morar em Paris, onde pretende levar uma vida anônima e sem lembranças de sua antiga felicidade. Seu objetivo de deixar para trás sua existência anterior é atrapalhado, porém, por fragmentos do passado que insistem em retirá-la de seu isolamento auto-imposto. Suas tentativas de manter-se solitária esbarram em seu envolvimento com Olivier (Benoit Regent), músico que sempre escondeu sua paixão por ela, seu encontro com um rapaz que testemunhou o acidente, sua descoberta de um romance extra-conjugal do marido e com sua decisão de retomar a obra musical que ele deixou inacabada com a morte.


Fotografado em um intenso e deslumbrante azul por Slawomir Idziak - cujos tons refletem a atmosfera de sufocamento poético de Julie - o filme de Kieslowski abdica de diálogos explicativos, deixando que suas imagens poderosas transmitam com muito mais eficácia todos os sentimentos conflituosos de sua protagonista - escolha mais do que acertada quando os expressivos olhos de Binoche tomam o primeiro plano da narrativa em detrimento de sequências dramaticamente catárticas exploradas com gritos e choros histéricos. Delicadeza é a principal qualidade da obra do cineasta, que não tem medo em deixar que objetos aparentemente sem função dramática sejam o foco de suas cenas. É assim que um torrão de açúcar mergulhado no café e um muro de pedra tornam-se parte fundamental do objetivo do diretor em emocionar sem apelar para o lacrimoso.

"A liberdade é azul" é uma obra-prima indiscutível, que abre as portas para suas sequências de tons diametralmente opostos - "A igualdade é branca" é irônico e "A fraternidade é vermelha", otimista. É como se Kieslowski - precocemente morto em 1994 - mostrasse todas as facetas do ser humano e da vida em apenas seis horas de duração. Bravíssimo!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

MINHA VIDA

MINHA VIDA (My life, 1993, Columbia Pictures, 117min) Direção e roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Peter James. Montagem: Richard Chew. Música: John Barry. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Anne D. McCulley. Produção executiva: Gil Netter. Produção: Hunt Lowry, Bruce Joel Rubin, Jerry Zucker. Elenco: Michael Keaton, Nicole Kidman, Queen Latifah, Bradley Whitford, Michael Constantine, Haing S. Ngor. Estreia: 12/11/93

Depois que ganhou o Oscar de roteiro original por "Ghost, do outro lado da vida", Bruce Joel Rubin achou que já era hora de capitalizar em cima do prestígio e assinar seu primeiro filme como diretor. Mantendo o principal elemento que deu certo no sucesso estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore - o sentimentalismo - Rubin acabou dando com os burros n'água. Sem a experiência de Jerry Zucker ou o carisma de Swayze, Demi e Whoopi Goldberg para segurar as pontas, "Minha vida" fracassou nas bilheterias e foi francamente ignorado pela crítica - quando não extremamente malhado. O pior de tudo é saber que, apesar de alguns nomes envolvidos no projeto, o filme realmente mereceu o fracasso: é chato, previsível, superficial e dramaticamente capenga.

Os problemas de "Minha vida" começam com Michael Keaton, um dos atores mais sem graça produzidos por Hollywood - e ainda colhendo os frutos pelo êxito de seus dois Batman dirigidos pelo amigo Tim Burton. No filme de Rubin ele vive Bob Jones, um profissional da publicidade que, desenganado pelos médicos e com poucos meses de vida, resolve gravar vários vídeos para o filho prestes a nascer. Enquanto segue com sua missão auto-imposta, ele é pressionado pela esposa, Gail (Nicole Kidman, ainda conhecida apenas como esposa de Tom Cruise) a reaproximar-se da família - com quem mantém uma relação problemática - e tentar terapias alternativas, o que o faz conhecer Mr. Ho (Haing S. Ngor, de "Os gritos do silêncio").  É o veterano massagista oriental que o fará descobrir dentro de si as mágoas que o prendem em sua carapaça de frieza e o empurrará para uma nova fase de sua vida. Keaton, com sua habitual falta de carisma, não conquista a simpatia do público, um erro fatal para a eficácia da trama.


É impressionante como Rubin - um roteirista que demonstrou um impecável senso de ritmo em seu filme mais famoso - tropeça constantemente nos clichês em seu primeiro trabalho como diretor. Desde a primeira cena o espectador percebe a causa dos problemas familiares do protagonista, e, por conseguinte, não demora a adivinhar o desfecho da história. A transformação de Bob de um homem sisudo e fechado em uma pessoa mais leve e sensível é brusca, quase inverossímil. A relação entre ele e Gail não transmite emoção, e as cenas que envolvem seus conflitos com os pais e o irmão (Bradley Whitford) soam dèja-vu total. Só o que funciona um pouco - e mesmo assim é pouco desenvolvida em detrimento da mudança de Bob - são as cenas em que o protagonista dá conselhos ao filho ainda em gestação: são os únicos momentos um pouco interessantes.

Tivesse desenvolvido melhor seu roteiro e escolhido um ator central menos apático, Bruce Joel Rubin poderia ter repetido o sucesso de "Ghost". Como está, "Minha vida" é apenas um Supercine de luxo, com todo o jeitão de filme feito para a tv.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

PERDAS E DANOS

PERDAS E DANOS (Damage, 1992, StudioCanal, 111min) Direção: Louis Malle. Roteiro: David Hare, romance de Josephine Hart. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: John Bloom. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Christopher Turlure. Produção: Louis Malle. Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson, Rupert Graves, Leslie Caron. Estreia: 09/12/92

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Miranda Richardson)

"Pessoas feridas são perigosas. Sabem que podem sobreviver." Esse é o lema de Anna Barton, a melancólica personagem de Juliette Binoche em "Perdas e danos", elegante adaptação de Louis Malle do romance de Josephine Hart, com roteiro escrito por David Hare - que dez anos depois seria indicado ao Oscar pelo memorável script de "As horas". Oriunda de uma família marcada pela tragédia, Anna acaba por se tornar o catalisador de outro desastre familiar quando se apaixona pelo homem errado - e com isso confirmar sua tendência à destruição.

Anna é uma jovem funcionária de um antiquário que é também a namorada de Martyn (Rupert Graves), filho de Stephen Fleming (Jeremy Irons), respeitado membro do Parlamento britânico. No momento em que põe os olhos na namorada do filho, Stephen - um homem equilibrado e sensato - perde todos os referenciais rígidos que o havia guiado até então, entregando-se a um romance passional, carnal e desesperado. Sua relação proibida ameaça não apenas o relacionamento entre Anna e Martyn - que se encaminha para um compromisso sério - mas também o casamento harmônico (mas frio) entre Stephen e Ingrid (Miranda Richardson), que percebe na garota uma ameaça assim que a conhece.


Apesar das tórridas cenas de sexo entre Binoche e Jeremy Irons, "Perdas e danos" nunca deixa de ser um filme de enquadramentos clássicos e uma sutileza ímpar - para o que colabora a equipe refinada recrutada por Malle, como a figurinista Milena Canonero e o compositor Zbgniew Preisner. A sofisticação imposta pelo cineasta contrasta com a violência emocional do embate entre Anna e Stephen, duas pessoas de mundo diametralmente opostos que se encontram e tem suas vidas drasticamente modificadas pelo poder dos sentimentos - amor? desejo? atração pura e simples?. Juntos, eles criam um mundo à parte, isolado das conveniências sociais e de seus passados - uma versão menos vulgar de "O último tango em Paris".

Binoche está perfeita em seu misto de inocência, infelicidade e sensualidade, em uma atuação que encontra em Jeremy Irons o par perfeito. Recém saído de sua interpretação premiada com o Oscar em "O reverso da fortuna", Irons transmite com precisão todas as dúvidas e angústias de seu personagem, preso em suas contradições mas incapaz de controlar seus sentimentos, mesmo que isso represente destruir sua família, carreira e reputação. Todas as cenas entre os protagonistas é um espetáculo à parte, um embate entre dois grandes atores em momentos especiais de suas carreiras. E entre eles, o desempenho discreto mas sempre eficientíssimo de Miranda Richardson, uma das atrizes mais subestimadas de sua geração.

Na pele de Ingrid Fleming, uma mulher aristocrática que defende sua família com unhas e dentes, Richardson conquistou uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - que perdeu para Marisa Tomei por "Meu primo Vinny" em uma das mais inacreditáveis escolhas dos acadêmicos. Seu trabalho excepcional só não é eclipsado por Binoche e Irons porque Malle lhe dá ao menos uma arrasadora cena perto do final, onde ela demonstra, sem sombra de dúvidas, a grande atriz que ela é. Atuando basicamente com o olhar e o corpo até sua catarse final, Richardson é um motivo a mais para que "Perdas e danos" seja visto e revisto.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O PRÍNCIPE DAS MARÉS

O PRÍNCIPE DAS MARÉS (The prince of tides, 1991, Columbia Pictures, 132min) Direção: Barbra Streisand. Roteiro: Pat Conroy, Becky Johnston, romance de Pat Conroy. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Don Zimmermann. Música: James Newton Howard. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Cary Heller, Arthur Howe Jr., Leslie Ann Pope. Produção executiva: Cis Corman, James Roe. Produção: Andrew Karsh, Barbra Streisand. Elenco: Nick Nolte, Barbra Streisand, Blythe Danner, Kate Nelligan, Melinda Dillon, Jeroen Krabbé, George Carlin, Jason Gould. Estreia: 25/12/91

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Nick Nolte), Atriz Coadjuvante (Kate Nelligan), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Nick Nolte)

Uma das polêmicas do Oscar 92 - que merecidamente consagrou "O silêncio dos inocentes" nas cinco principais categorias - foi a exclusão de Barbra Streisand entre as indicadas ao prêmio de melhor direção. Indicada ao Golden Globe e pela associação de diretores da América, Streisand foi esnobada pela mesma Academia que deu a seu filme sete indicações à estatueta, incluindo melhor filme. O que na época soou com uma afronta, porém, hoje em dia parece um raro acerto dos votantes. Apesar da delicadeza de vários momentos e da sutileza em conduzir temas pesados como tentativa de suicídio, estupro infantil e traumas familiares, Streisand falha em imprimir a seu "O príncipe das marés" o mais importante: personalidade.

Baseado em romance do escritor Pat Conroy - que co-escreveu o roteiro com Becky Johnston e concorreu ao Oscar por isso - "O príncipe das marés" tem uma trama instigante: Tom Wingo (Nick Nolte), um treinador de futebol americano desempregado, vive um desgaste em seu casamento e vê, aos poucos, sua família desintegrando-se. Sulista convicto, ele é praticamente obrigado a fazer uma viagem a Nova York depois da tentativa de suicídio de sua irmã gêmea, Savannah (Melinda Dillon) e encontra-se com sua psiquiatra, Susan Loweinstein (Barbra Streisand), uma médica conceituada que também está com o casamento - com um famoso violinista - em sérias dificuldades. Enquanto tenta fazer com que Tom revele alguns dos segredos de sua família - o que poderia explicar o comportamento de Savannah e ajudá-la em seu tratamento - Susan pede a ele que seja o treinador de seu filho adolescente, Bernard (Jason Gould, filho de Streisand na vida real, com o ator Elliott Gould), que deseja ser jogador mas se vê dividido pela pressão paterna a tornar-se músico. Cada vez mais próximos, acabam por envolver-se romanticamente, o que leva o retraído Tom a abrir para a psiquiatra uma traumática noite guardada no fundo de sua memória - principalmente devido ao controle obsessivo de sua mãe, Lila (Kate Nelligan, indicada ao Oscar de coadjuvante).


Fotografado esplendidamente por Stephen Goldblatt - responsável pela belíssima sequência inicial - "O príncipe das marés" tropeça em suas boas intenções. A história interessante acaba esvaziada por uma direção quase automática, que não busca soluções que não as mais óbvias. Nick Nolte - elogiadíssimo por seu desempenho, que chegou a ser favorito para um Oscar - não ultrapassa as limitações dos diálogos superficiais a que é submetido e sua química com Streisand não causa faíscas - seu romance parece existir mais como artimanha do roteiro do que uma relação orgânica e apaixonada. A própria Streisand não deixa de expor seu egocentrismo, sendo constantemente elogiada por seu protagonista e não hesitando em escolher sempre os ângulos que lhe favorecem em detrimento de uma edição mais ágil e eficaz - teria sido mais inteligente ficar apenas atrás das câmeras e escolhido outra atriz para estrelar o filme.

O elenco coadjuvante também tem altos e baixos. Enquanto Kate Nelligan e Melinda Dillon brilham como dois extremos da família Wingo - a força e a fragilidade - o filme perde sempre que entra em cena Jason Gould, que, em uma prova extrema de nepotismo, tem uma atuação abaixo da média como o filho rebelde sem causa de Loweinstein: sua transformação, assim como a de Tom e da própria Susan, soam falsas, forçadas e repentinas. Até mesmo a forte cena em que Tom abre seu coração e revela à médica seu maior trauma de infância remete mais às novelas da Globo do que a um filme com pretensões sérias. O roteiro mira em Freud, mas acerta em Glória Perez.

Porém, é inegável que "O principe das marés" tem suas qualidades. É elegante, é adulto e flerta com temas sérios - ainda que passe superficialmente por eles. Faz bom uso da fotografia e da trilha sonora e tem um final coerente e sensível. Não é uma obra-prima, mas cumpre boa parte do que promete, desde que não se busque mais do que um filme bem produzido.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

MEU QUERIDO COMPANHEIRO

MEU QUERIDO COMPANHEIRO (Longtime companion, 1989, American Playhouse, 96min) Direção: Norman René. Roteiro: Craig Lucas. Fotografia: Tony Jannelli. Montagem: Katherine Wenning. Música: Greg DeBelles. Figurino: Walter Hicklin. Direção de arte/cenários: Andrew Jackness/Kate Conklin. Produção executiva: Lindsay Law. Produção: Stan Wlodkowski. Elenco: Campbell Scott, Bruce Davison, Mary-Louise Parker, Dermot Mulroney, Patrick Cassidy, John Dossett, Stephen Caffrey, Mark Lamos, Michael Schoeffling. Estreia: 11/10/89

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)

Levando-se em consideração que as primeiras notícias sobre a AIDS - então tratada como "câncer gay" - surgiram no início dos anos 80, é quase chocante perceber que demorou quase uma década até que o tema fosse tratado devidamente no cinema americano. E o primeiro filme a tratar abertamente sobre a doença nem surgiu de um grande estúdio, como se poderia prever. "Meu querido companheiro" é uma produção independente que, apesar de não contar com o aparato de marketing que transforma um filme em sucesso de bilheteria, conquistou a crítica e proporcionou a Bruce Davison um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Por seu trabalho no filme de Norman René, Davison foi eleito melhor ator coadjuvante do ano no Independent Spirit Awards, pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles e pelos eleitores do Golden Globe. Só perdeu o Oscar para Joe Pesci, de "Os bons companheiros" porque a Academia provavelmente achou que deveria homenagear o filme de Scorsese ao menos em uma categoria, no ano em que o superestimado "Dança com lobos" sagrou-se vencedor.

Em um filme sem protagonistas, que é valorizado pelo elenco homogêneo, Davison se destaca no papel de um homem que se vê obrigado a cuidar do amante roteirista de TV quando ele fica doente, mas a força do filme reside basicamente no tom emocional/documental impresso pelo roteiro de Craig Lucas, que faz um panorama do impacto da doença em um grupo restrito de amigos nova-iorquinos desde suas primeiras notícias, em julho de 1981 até o ano de 1988, quando a epidemia tornou-se visível o bastante para suscitar eventos beneficentes e a atenção do povo em geral. Nesse ponto é crucial a presença do advogado Fuzzy (Stephen Caffrey), que entra no grupo através de sua paixão por Willy (Campbell Scott) e se torna um ativista dos direitos dos gays soropositivos. Através dele o público toma contato com o preconceito ativo nos primórdios da AIDS, que tirava inclusive oportunidades de emprego - caso de Howard (Patrick Cassidy), ator que perde o trabalho em uma novela por culpa de seu relacionamento homossexual com um homem vítima da doença.


Tratando com o máximo de leveza possível um tema difícil, "Meu querido companheiro" também não se furta a retratar o preconceito até mesmo dentro do próprio núcleo de amizades entre os personagens. Nesse sentido, é emblemática a sequência em que Willy vai fazer uma visita no hospital e fica desesperado com a possibilidade de sequer tocar em qualquer coisa que possa lhe contaminar. Essa paranoia que tomou conta da comunidade gay também é mostrada no afastamento físico gradual entre ele e Fuzzy - que veem seu relacionamento esfriar conforme o medo da contaminação vai crescendo dentro de todo o grupo. Aos poucos o medo torna-se também uma ameaça real ao amor - talvez ainda mais devastadora e triste. René é contundente também ao substituir o tom festivo e libertário de sua primeira metade pela melancolia e opressão da segunda, como forma de sublinhar as mudanças de comportamento do então chamado "grupo de risco".

O roteiro de "Meu querido companheiro" não consegue fugir de certa superficialidade em vários momentos, principalmente porque sua estrutura não dá espaço para maior aprofundamento dos personagens. Mesmo assim dá a seus atores a oportunidade de desenvolver um trabalho de delicadeza e importância rara, em um período em que os grandes estúdios simplesmente ignoravam uma das maiores tragédias do século XX. A cena final, terna e comovente, fecha com inteligência e sensibilidade um filme que merecia ter sido mais comentado e assistido em seu lançamento, por sua relevância social e por sua qualidade dramática.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

CAMPO DOS SONHOS

CAMPO DOS SONHOS (Field of dreams, 1989, Universal Pictures, 107min) Direção: Phil Alden Robinson. Roteiro: Phil Alden Robinson, romance "Shoeless Jackson", de W.P. Kinsella.  Fotografia: John Lindley. Montagem: Ian Crafford. Música: James Horner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Brian Frankish. Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon. Elenco: Kevin Costner, James Earl Jones, Amy Madigan, Ray Liotta, Burt Lancaster, Frank Whaley, Gabby Hoffman. Estreia: 21/4/89

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original

No início dos anos 90 não havia ator mais quente em Hollywood do que Kevin Costner - que chegou a ver sua estreia como diretor, "Dança com lobos" sair da festa do Oscar 91 com sete estatuetas, incluindo filme e direção. Um dos pontapés iniciais dessa febre foi "Campo dos sonhos", um drama com toques espirituais e o beisebol como pano de fundo que surpreendeu nas bilheterias e foi indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado. Ainda que já tivesse dois sucessos no currículo, foi o papel de Ray Kinsella, um íntegro fazendeiro do Iowa que arrisca sua propriedade ao seguir vozes do além que o transformou em astro de primeira grandeza - afinal de contas, "Os intocáveis" tinha a direção de Brian DePalma e o nome de Robert DeNiro como chamarizes.

Baseado no romance "Shoeless Jackson" - inédito no Brasil - "Campo dos sonhos" exige do espectador uma entrega total à história, quase inimaginável nos cínicos anos 80 e 90. Em sua personalização de James Stewart de seu tempo, Costner esbanja simpatia e carisma em uma trama que mescla espiritualismo, relações familiares, lembranças do passado e esporte sem exagerar em nenhum quesito e emociona sem apelar demasiadamente para o lacrimoso. Se suas indicações ao Oscar foram exageradas - em um ano onde estavam na disputa os poderosos "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" - é inegável que o filme de Phil Alden Robinson (que mais de dez anos depois assinaria "A soma de todos os medos" e mostraria que entende de adrenalina) cumpre o que promete, mesmo para o público que não tem pelo beisebol nada mais do que indiferença.


O beisebol é apenas o pano de fundo de "Campo dos sonhos", podendo ser substituído por qualquer esporte sem a perda da essência de sua narrativa. Ray Kinsella (Costner) é dono de uma fazenda de milho no interior do Iowa que um dia, do nada, começa a ouvir vozes que repetem sempre a mesma sentença: "Se você construí-lo, ele virá!" Sem saber exatamente o motivo, ele interpreta a mensagem como uma ordem para que construa um estádio de beisebol onde está sua plantação de milho. Mesmo arriscado a perder tudo, ele conta com o apoio da esposa Annie (Amy Madigan) e se surpreende quando, depois do estádio pronto, recebe a visita de Shoeless Joe Jackson (Ray Liotta), um jogador de beisebol banido do esporte em 1919 depois de um escândalo. Aos poucos, diante dos olhos atônitos de Ray, um grupo inteiro de jogadores já mortos começa a frequentar seu estádio. Já que as vozes continuam a orientá-lo, o fazendeiro inicia então uma jornada em direção aos reais objetivos de sua missão. Para isso, ele precisa da ajuda do recluso escritor Terence Mann (James Earl Jones).

Inspirado no escritor J.D. Salinger, Terence Mann é um personagem fictício que remete Kinsella diretamente a seus dias de juventude idealista em que, ao lado da esposa, lutava contra as injustiças sociais. É Mann quem irá ajudar o protagonista em sua busca e é ele quem irá testemunhar o encontro do rapaz com um jovem Archibald Graham (Frank Whaley) - que mais tarde irá revelar-se mais importante do que parece a princípio. No fundo de tudo, está a relação de Kinsella com seu falecido pai - uma relação marcada pelo rancor e por palavras não ditas e que encontrará no estádio de beisebol uma forma de redenção.

Se Costner é a mola-mestra do filme, servindo como ponto de partida e retorno, o elenco coadjuvante de "Campo dos sonhos" não poderia ser mais adequado. James Earl Jones brilha como o irascível Terence Mann, que mostra seu lado gentil no decorrer da trama. Burt Lancaster tem uma participação afetiva brilhante como o velho doutor Archibald Graham em um momento crucial - ainda que pouco explorado pela direção de Robinson. E Ray Liotta quase rouba a cena como o rebelde Shoelles Jackson do título do romance - antes de protagonizar "Os bons companheiros", de Scorsese, o ator transmite todas as emoções do personagem sem precisar de muitos diálogos.

"Campo dos sonhos" é um belo e sensível filme que tira partido do carisma de Kevin Costner e de uma história sentimental (e não piegas) que trata de amor, sonhos despedaçados e da força da fé.