domingo, 31 de agosto de 2014

NÃO ME ABANDONE JAMAIS

NÃO ME ABANDONE JAMAIS (Never let me go, 2010, Fox Searchlight Pictures, 103min) Direção: Mark Romanek. Roteiro: Alex Garland, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Barney Pilling. Música: Rachel Portman. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Alex Garland, Kazuo Ishiguro, Tessa Ross. Produção: Andrew Macdonald, Allon Reich. Elenco: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Charlotte Rampling, Sally Hawkings, Domhnall Gleeson. Elenco: 03/9/10 (Festival de Teluride)

Quando se fala em ficção científica, imediatamente o que se imagina são naves espaciais infestadas de alienígenas malvados, efeitos visuais de última geração, orçamentos generosos à disposição de diretores megalomaníacos e tramas que misturam, sem muito critério, sociedades distópicas com complexas viagens no tempo – impedindo assim, com sua ação incessante, que o público perceba a vastidão de furos em seus roteiros. Mas é justamente o caminho oposto o seguido por Mark Romanek em “Não me abandone jamais”: baseado em um romance de Kazuo Ishiguro (o mesmo de “Vestígios do dia”, adaptado por James Ivory e estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thompson), o filme de Romanek é uma inusitada história de amor que utiliza, com delicadeza e criatividade, elementos básicos de dois gêneros aparentemente antagônicos que se unem harmonicamente em um interessante e inteligente híbrido.
O roteiro de Alex Garland – escritor e autor de “A praia”, que também virou filme, com Leonardo DiCaprio e que em 2015 estrearia como cineasta com o elogiado “Ex-machina”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar – mantém o tom melancólico e quase desconfortável do livro (em que os detalhes da trama são revelados ao leitor com uma parcimônia que beira o minimalismo). Oferecendo pistas sobre o destino de seus protagonistas apenas conforme a história vai avançando, a obra de Romanek - que tem apenas um filme anterior no currículo, o suspense “Marcas de uma obsessão” (01), com Robin Williams – envolve a plateia com um equilíbrio sutil de amor, angústia, conformismo e, por último, mas não menos importante, uma calada esperança que vai se tornando, a cada cena, o único pilar no qual se pode escorar como forma de evitar o desespero total. Amparado ainda nas atuações brilhantes de Carey Mulligan e Andrew Garfield em sua fase pré-Homem-Aranha, “Não me abandone jamais” é um avassalador estudo sobre a alma humana e sua constante sensação de finitude.
Contrariando as regras da ficção científica de situar a trama em um futuro qualquer, a história de “Não me abandone jamais” tem lugar no passado. Mais precisamente começa em 1978, quando o público conhece seu trio de protagonistas, crianças que moram em uma escola especial do interior da Inglaterra. A introvertida Kathy (Isobel Meikle-Small, excelente), a esperta Ruth (Ella Purnell) e o inconstante Tommy (Charlie Rowe) são apenas três alunos comuns do lugar, cujo conjunto de regras inclui um cuidado excessivo com a saúde, criação de obras de arte que podem ou não serem exibidas em uma nunca vista Galeria, brechós onde se compram objetos usados (e muitas vezes deteriorados) e muitos segredos, mantidos sob o olhar rígido da diretora, Sra. Emily (Charlotte Rampling). O que os estudantes não sabem – e nem o público, até que isso seja revelado pela nova e sensível tutora da quinta série, Sra. Lucy (Sally Hawkings) – é que eles na verdade são clones, criados unica e exclusivamente para, quando chegar a hora certa, servirem de doadores de órgãos a pessoas com condições financeiras de pagar por eles. Para a romântica Kathy, o choque de tal revelação só não é maior do que o início de um inesperado romance juvenil entre Ruth e Tommy – por quem ela é apaixonada secretamente.


O segundo ato do filme começa quando, já aos 18 anos, o trio de protagonistas abandona Hilsham e vai morar em um lugar conhecido como Os Chalés. Pela primeira vez na vida eles tem contato com pessoas de fora de sua escola – e portanto, conhecedoras de fatos da vida que eles ignoram completamente. É com um misto de fascinação e inferioridade que Kathy (já interpretada por Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) tentam acomodar-se em um novo estilo de vida, que inclui programas de televisão, lanchonetes e revistas eróticas. Com a sexualidade despertada, Tommy e Ruth mantém o romance iniciado ainda na infância, para angústia da centrada Kathy. É nesse período também que eles iniciam – de uma forma tímida - a busca pelas pessoas que lhes deram suas características (as chamadas originais) e ficam sabendo de um boato que pode lhes adiar o início das doações de órgãos – ou, em outras palavras, o início de sua morte. Dois amigos, esperançosos, lhes informam que, segundo histórias ouvidas, quando um casal se prova apaixonado, lhes é dado um prazo maior para viverem seu amor sem a interferência nefasta de um iminente fim. Tal possibilidade não altera a rotina de Kathy, que, sofrendo de amor, decide afastar-se dos amigos tornando-se “cuidadora” – ou seja, acompanhante dos pacientes em vias de doar seus órgãos.
Quase dez anos depois, já estabelecida como uma competente cuidadora, Kathy irá reencontrar seus dois amigos de infância – não mais juntos, Tommy e Ruth já passaram por várias cirurgias e finalmente Kathy tem a chance de declarar seu amor ao rapaz e tentar, desesperadamente, que eles possam ter a grande chance de ter as últimas doações adiadas para que finalmente possam viver seu amor. E é nesse ato final que “Não me abandone jamais” consegue, de forma sutil e delicada, unir um romance de extrema melancolia a um drama avassalador, passando pelos domínios da ficção científica sem prender-se a eles em excesso. A bela trilha sonora de Rachel Portman pontua com sensibilidade a trajetória dos personagens rumo a seu destino inevitável e a fotografia acinzentada de Adam Kimmel transmite com precisão o clima de desesperança que perpassa toda a trama criada por Ishiguro. Quando o quadro inteiro está diante do espectador – montado com todas as peças que foram entregues durante a narrativa – é difícil resistir à tristeza de uma história que discute, sem parecer pedante ou filosófica, temas pungentes como os efeitos da clonagem humana e suas questões éticas e humanistas. Ajuda essa discussão o fato de Romanek ser um diretor sem vícios estilísticos ou pretensões artísticas que poderiam deformar a simplicidade da trama e roubar dela sua essência nitidamente romântica.
E romantismo é o que não falta a “Não me abandone jamais”, especialmente quando o roteiro sai de suas polêmicas científicas para concentrar-se na sensibilidade de seus protagonistas, especialmente Kathy e Tommy – Ruth acaba se tornando uma coadjuvante no decorrer da trama, parte porque sua personagem serve como uma espécie de obstáculo ao amor puro entre os outros dois jovens, parte porque sua intérprete, Keira Knightley, mais uma vez demonstra uma intensa fragilidade dramática, usando e abusando de caras e bocas que contrastam violentamente com a economia dramática de seus colegas de cena. Carey Mulligan, uma das grandes atrizes surgidas a partir de 2009 – quando foi indicada ao Oscar por “Educação” – conquista a simpatia e a solidariedade da plateia sem precisar apelar para muito mais do que seu carisma delicado e suave e Andrew Garfield surpreende ao criar um Tommy quase passivo em sua tranquilidade conformada que extravasa em crises de gritos e agressão toda a impotência de uma vida implacavelmente criada com o objetivo de ser-lhe tirada no auge da saúde. O que pode parecer estranho ao espectador – a forma acomodada com que os personagens assumem seu destino – é explicada através de Mulligan e Garfield, dois jovens atores que filtram, em seus olhares e expressões delicadas, os tormentos de almas que sabem de sua missão na Terra e preferem cumprir seu destino a lutar contra ele. É triste, é melancólico e é quase depressivo. Mas, sob o comando de Mark Romanek e das palavras de Kasuo Ishiguro e traduzidas por uma bela fotografia e uma sublime trilha sonora, é também um dos melhores filmes de 2010, injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação que encheram de homenagens o insosso e clichê “O discurso do rei”.

sábado, 30 de agosto de 2014

NAMORADOS PARA SEMPRE

NAMORADOS PARA SEMPRE (Blue Valentine, 2010, Silverwood Films, 112min) Direção e roteiro: Derek Cianfrance, Joey Curtis, Cami Delavigne. Fotografia: Andrij Parekh. Montagem: Jim Helton, Ron Patane. Música: Grizzly Bear. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Jasmine Ballou. Produção executiva: Doug Dey, Ryan Gosling, Jack Lechner, Scott Osman, Michelle Williams. Produção: Lynette Howell, Alex Orlovsky, Jamie Patricof. Elenco: Michelle Williams, Ryan Gosling, Faith Wladyka, Mike Vogel, John Doman, Ben Shenkman. Estreia: 24/01/10 (Festival de Sundance)

Michelle Williams foi talvez a indicada ao Oscar de Melhor Atriz de 2011 que menos destaque teve na mídia, que concentrou-se na disputa entre Natalie Portman e Annette Bening, no retorno de Nicole Kidman e na revelação de Jennifer Lawrence. Essa espécie de esquecimento, no entanto, é absolutamente injustificada. O trabalho de Williams é precioso, uma pequena obra-prima de delicadeza em um filme independente que merecia melhor sorte nas cerimônias de premiação. "Namorados para sempre" - cujo título original, "Blue Valentine", pra variar, soa bem melhor - é o doloroso retrato do fim de um relacionamento, e como tal, é pungente e sofrido. E Williams encontra em Ryan Gosling o parceiro ideal. Excelente ator, Gosling foi esquecido pelo Oscar, mas merecia ao menos uma indicação, pois é o contraponto perfeito para a interpretação de Michelle. Tanto como rapaz sonhador e talentoso como um homem perdido na mediocridade da própria vida, Gosling dá um show.

O filme do desconhecido Derek Cianfrance machuca o espectador por não poupá-lo da dor pela qual passam os protagonistas, vividos com garra e entrega por Williams e Gosling. Eles interpretam um casal em flagrante crise no relacionamento. Ela, Cynthia, é uma estudante de Medicina esforçada e um tanto desiludida com a vida sem maiores encantos que leva. Ele, Dean, vive de bico em bico, pintando casas de vizinhos e sem maiores ambições na vida a não ser marido e pai. Quando um ex-namorado de Cynthia reaparece em suas vidas - mesmo que efemeramente - eles chegam ao ponto crucial do seu casamento: lembrando de todas as situações que viveu ao lado do marido, Cynthia precisa decidir se leva adiante uma relação notadamente fracassada.


O tom de realismo absoluto imposto pelo roteiro - que incentivou a improvisação dos protagonistas - atinge o nervo sensível de qualquer espectador que já passou por alguma crise no namoro/casamento. Tanto nas belas cenas em que Cynthia e Dean se apaixonam - de uma delicadeza ímpar - quanto nas sequências tensas em que partem para todo tipo de agressão - física, verbal e até mesmo sexual - existe uma verdade rara, dificilmente encontrada em grandes produções comerciais. As cores - e as técnicas de filmagem - com que Ciafrance pinta as idas e vindas do casal também são escolhidas cuidadosamente. O romantismo dos primeiros encontros, onde a vida parecia cor-de-rosa cede espaço à angústia e a dor da percepção inequívoca do fim absoluto através de visuais nitidamente díspares. É importante essa definição clara principalmente porque "Namorados para sempre" é contado alternando as duas épocas - o que, felizmente, funciona aqui às mil maravilhas, explicitando o contraste entre o sonho e a realidade.

"Namorados para sempre" tem cara de filme cult, principalmente por ter tido um orçamento ínfimo - um milhão de dólares - e ter no elenco dois nomes que aparentam ter um futuro brilhante pela frente. Mas mais do que isso, é forte, é triste - é de partir o coração a cena em que Gosling canta para que Williams faça uma apresentação de sapateado nas ruas desertas do Brooklyn - e é uma pequena obra-prima do cinema independente americano. Para ser descoberto e louvado.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

MEDIANERAS

MEDIANERAS (Medianeras, 2011, INCAA, 95min) Direção e roteiro: Gustavo Taretto. Fotografia: Leandro Martínez. Montagem: Pablo Mari, Rosario Suárez. Música: Gabriel Chwojnick. Figurino: Flavia Gaitán. Direção de arte/cenários: Romeo Fasce, Luciana Quartaruolo. Produção executiva: Bárbara Francisco, Christoph Friedel, Luis Miñarro. Produção: Natacha Cervi, Hernán Musaluppi. Elenco: Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Inês Efron, Adrián Navarro. Estreia: 02/11 (Festival de Berlim)

Em "Sob o céu de Saigon", conto do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, duas personagens que não se conhecem mas que são nitidamente almas gêmeas cruzam uma pela outra em uma rua qualquer e não se reconhecem, não trocando nem ao menos duas palavras. Pois foi esse conto genial de Caio que vem à cabeça enquanto se assiste à "Medianeras", mais um excelente exemplo do cinema argentino a aportar no Brasil.  A diferença entre o conto e o filme é que, enquanto nas páginas poéticas de Abreu a solidão acaba saindo vencedora, nas imagens do roteirista e cineasta Gustavo Taretto o amor e a esperança é que são vitoriosos.

Os dois protagonistas de "Medianeras" são bastante solitários e um tanto quanto complicados. Martin (Javier Drolas) é um criador de websites que vive isolado em um apartamento minúsculo de Buenos Aires, tendo a companhia apenas da cachorrinha que herdou de um namoro interrompido. Hipocondríaco e praticamente um misantropo, ele baseia suas relações praticamente através da Internet. Já Mariana (Pilar López de Ayala) acaba de sair de um relacionamento frustrante de quatro anos e não se sente pronta para recomeçar a vida, preferindo a companhia dos manequins plásticos que fazem parte de seu trabalho como vitrinista (uma vez que a carreira de arquiteta ficou apenas no diploma). Tanto um quanto o outro sentem que a solidão não é exatamente um caminho saudável a seguir, mas também são incapazes de lidar com o mundo a seu redor. Ele só compra, ouve música, vê filmes e se relaciona através do computador. Ela se sente perdida no mundo, procurando algo que nem mesmo sabe o que é, em um interessante paralelo com os livros infantis "Onde está Wally?" ("se não encontro nem mesmo alguém que eu sei exatamente quem é, como poderei encontrar alguém que eu nem conheço?", ela se pergunta, frustrada). O que eles não sabem, porém, é que são vizinhos, que moram na mesma rua, e que várias vezes se cruzaram pelas calçadas, sem perceber um ao outro.


"Medianeras" é um estudo sobre solidão, sobre as benesses e os problemas de tecnologia (que afasta as pessoas enquanto deveria uní-las), sobre o crescimento desenfreado das grandes cidades, sobre as dificuldades humanas em se comunicar. Mas, ao contrário do que pode parecer, não é um drama pesado e denso, capaz de estragar o humor do espectador. Taretto cria, em seu roteiro, uma sucessão de cenas agradáveis, equilibrando alguns momentos de graças sutil com outros da mais pura e honesta melancolia. Sua forma criativa de contar a história de amor entre Martin e Mariana ainda encontra espaço para digressões filosóficas pertinentes e jamais aborrecidas, que questiona principalmente a vida nos grandes centros - que isola e oprime seus cidadãos - e a aparente impossibilidade de uma felicidade real.

Mas, acima de tudo, "Medianeras" é um belo filme sobre a esperança e sobre como a felicidade pode estar ao alcance dos olhos quando se presta atenção a seu redor. E além do mais, é impossível não se encantar com um filme que homenageia explicitamente "Manhattan", um Woody Allen dos melhores. É de sair do cinema (ou desligar o aparelho de dvd) com um largo sorriso estampado no rosto.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

INCÊNDIOS

INCÊNDIOS (Incendies, 2010, TS Productions, 139min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve, peça teatral de Wadji Mouawad. Fotografia: André Turpin. Montagem: Monique Dartonne. Música: Grégoire Hetzel. Figurino: Sophie Lefebvre. Direção de arte/cenários: André-Line Beauparlant/Rana Aboot, Marie-Soleil Dénomme, Amin Charif El Masri, Philippe Lord. Produção: Luc Déry, Kim McCraw. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Remy Girard. Estreia: 04/9/10 (Festival de Cinema de Namur)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense "Incêndios" é provavelmente um dos mais impactantes dramas europeus lançados nos últimos anos. Narrado com a força de uma tragédia grega (dando ao destino o poder das maiores ironias), o longa do cineasta Denis Villeneuve - também autor do roteiro, adaptado da peça teatral de Wajdi Mouawad montada no Brasil com Marieta Severo no papel central - consegue ser, ao mesmo tempo, emocionante, surpreendente e, mais do que tudo, chocante como poucos filmes de nossa época tão dada ao cinismo. Ao misturar em uma única história elementos políticos inquietantes e um drama familiar poderoso, a trama de Mouawad não tem medo de avançar em temas ousados e um desfecho aterrador que dificilmente seria visto em um filme do mainstream hollywoodiano.

A protagonista de "Incêndios" é Nawal Marwan - em uma atuação visceral da belga Lubna Azabal. Quando o filme começa, no Canadá, ela está morta, mas é seu último desejo, deixado em testamento e testemunhado por seu chefe e amigo Jean Lebel (Rémy Girard) que dá a partida na trama. Discreta e introvertida, Nawal surpreende seu casal de filhos gêmeos com um pedido incomum: eles tem que localizar seu irmão mais velho e seu pai (que julgavam morto) e entregar a eles dois envelopes lacrados. Enquanto Simon (Maxim Gaudette) considera tudo um delírio da mãe, Jeanne (Mélissa Désourmeax-Poulin) resolve acatar a última ordem da mãe, partindo então para o Oriente Médio, onde ela foi criada. As coisas, porém, não serão fáceis: como Jeanne acaba descobrindo, o nome de sua mãe não é exatamente bem-quisto e a história de sua família tem origens muito mais complexas e tristes do que ela ou seu irmão poderiam supor.

A adaptação do diretor também é digna de elogios. O roteiro mantém os momentos de impacto da peça teatral, expandindo-os de maneira a tornar quase impossível ao espectador imaginar o que estava realmente no palco e o que foi criado para o filme. Além de fazer alterações necessárias - a maneira como Marwal descobre o paradeiro de seu primeiro filho, por exemplo, é bem mais forte no filme do que na peça - Villeneuve dá à sua protagonista mais presença em cena. No texto de Mouawad, as lembranças que trazem a personagem ao centro da trama são bem mais vividas por Jeanne, sua filha, do que por ela mesma. Na versão cinematográfica a condução da trama fica nas mãos mais que competentes de Lubna Azanal, capaz de transformações físicas impressionantes e uma variedade de nuances de interpretação invejável.

Utilizando de maneira inteligente o batido recurso do flashback, "Incêndios" tem em sua narrativa seca e quase documental seu maior trunfo. Fugindo do sentimentalismo barato, Villeneuve confia em sua história o suficiente para deixar que ela, forte por si só, seja o centro da atenção, sem apelar para artifícios que desviem o foco do mistério que vai se desvendando aos poucos diante dos olhos incrédulos do espectador, testemunha de uma saga de violência física e psicológica capaz de deixar rastros indeléveis no corpo e na alma. Seu final, devastador, parece dizer que a guerra, ainda que mutile os seres humanos de todas as maneiras possíveis, não é capaz de apagar um espírito. É uma afirmação que poucos filmes conseguem fazer sem soar piegas!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

ILHA DO MEDO

ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010, Paramount Pictures, 138min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Laeta Kalogridis, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca Lo Schiavo. Produção executiva: Chris Brigham, Laeta Kalogridis, Dennis Lehane, Gianni Nunnari, Louis Philips. Produção: Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Michelle Williams, Ben Kingsley, Max Von Sydow, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, John Carrol Lynch, Elias Koteas, Emily Mortimer, Ted Levine. Estreia: 13/02/10 (Festival de Berlim)

Nenhum fã de cinema de verdade pode, em sã consciência negar o fato de que Martin Scorsese é um dos cineastas mais geniais em atividade em Hollywood. Quem duvida só precisa dar uma conferida na lista de algumas de suas obras-primas e perceber que esta não é uma declaração leviana: "Taxi driver", "Touro indomável", "A última tentação de Cristo" e "Os bons companheiros" são filmes essenciais do panorama do cinema americano dos últimos 40 anos. Por isso não deixa de ser decepcionante assistir-se a "Ilha do medo", seu primeiro trabalho pós-Oscar por "Os infiltrados". Nem mesmo o fato de basear-se em um espetacular romance de Dennis Lehane (que também escreveu "Sobre meninos e lobos", filmado por Clint Eastwood) salva o filme de ser apenas um esboço do que poderia ter sido, caso escolhas mais corretas tivessem sido feitas no processo de produção.

Talvez o maior erro do filme seja a escolha de Leonardo DiCaprio para o papel principal. Novo queridinho de Scorsese - substituindo sem o mesmo brilho sua parceria com Robert DeNiro nos anos 70 e 80 -, o astro de "Titanic" ainda não consegue convencer como adulto, sempre deixando capenga filmes que poderiam ter sido melhores com outro ator em seu lugar (alguém duvida que "O aviador" poderia ter sido infinitamente melhor com alguém do porte de Edward Norton, por exemplo?). Sendo assim, mais uma vez ele atrapalha o resultado final. Não que seja mau ator, apenas é um tanto limitado, incapaz de alçar voos maiores. Aqui mesmo ele alterna momentos de puro tédio com alguns lapsos de brilhantismo (uma pena que tão poucos).



Mas não se pode culpar apenas DiCaprio pelos equívocos do filme. A própria trama é intrincada o bastante para servir maravilhosamente bem a um romance, mas como roteiro, tropeça em seu excesso de informações, levando o espectador para tantas direções diferentes que em determinado momento a impressão que se tem é que nem mesmo a roteirista sabe pra onde está indo. O próprio clímax demora tanto a acontecer que, quando ocorre, não tem mais o impacto que teria caso tivesse acontecido uns bons minutos antes. O livro de Lehane (lançado no Brasil com o apropriado título de "Paciente 67" e relançado com o nome do filme - uma prova da falta de criatividade das editoras nacionais) é excepcional, com surpresas constantes e um ritmo invejável. Sua adaptação, no entanto, sofre do mesmo mal da maioria das adaptações: é fiel à trama, mas não busca soluções apropriadas à linguagem cinematográfica. Quando tenta fugir do literário, nem o próprio Scorsese consegue escapar do clichê e de um surrealismo banal e sem maiores surpresas. Até mesmo o visual de "Ilha do medo" - cujo título força uma ligação com "Cabo do medo", do mesmo diretor - sofre de certa esquizofrenia, misturando cores e texturas sem maiores explicações lógicas a não ser que se converse com o próprio diretor e ele explique suas ideias - coisa que ninguém tem a oportunidade de fazer. E dizer que até mesmo a edição da até então infalível Thelma Schoonmaker - que edita seus filmes há décadas - tem falhas gritantes (que mesmo explicáveis devido ao tom do filme incomodam mais do que ajudam) apenas comprova que algo errado está acontecendo quando se diz que esta é a maior bilheteria da carreira do diretor.

Certamente foi o nome de DiCaprio no cartaz que levou boa parte do público do filme às salas de cinema - e mesmo assim, é difícil acreditar que eles tenham gostado de um trabalho assim tão fora do padrão para o ídolo de metade das adolescentes de 1998. Ele interpreta - com seus habituais trejeitos - o policial Ted Daniels, veterano da II Guerra que, como agente do FBI chega a uma sombria ilha onde vivem pacientes psiquiátricos graves. Acompanhado do parceiro Chuck (Mark Ruffalo) e traumatizado pela morte da esposa (Michelle Williams) em um incêndio, ele tem a missão de localizar - dentro das instalações da ilha - uma interna perigosa, que matou os próprios filhos e desapareceu misteriosamente. Enquanto investiga o sumiço da paciente, ele passa a desconfiar que sua presença no local faz parte de uma conspiração governamental. O encontro com uma ex-doutora (Patricia Clarkson, a melhor coisa do filme) apenas aumenta sua confusão, que o leva a um confronto com os principais médicos do local (vividos por Ben Kigsley e Max Von Sydow).

O fato é que "Ilha do medo" não é um material apropriado a Scorsese. Longe de seu habitat natural - leia-se sua Nova York escura e violenta - ele tateia em busca de uma assinatura visual que não condiz com a trama que se desenrola frente aos olhos do espectador. É um filme sem a energia inata a ele, sem a força que ele normalmente imprime a seus trabalhos. É um bom filme, bastante superior à média - pelo menos exige bem mais cérebro que seus congêneres - mas uma decepção em termos de Scorsese. Ainda bem que logo em seguida ele veio com o brilhante e encantador "A invenção de Hugo Cabret", para deixar para trás esse pequeno tropeço em uma trajetória excepcional.