sexta-feira, 31 de outubro de 2014

VIDAS SEM RUMO

VIDAS SEM RUMO (The outsiders, 1983, Zoetrope Studios, 91min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Kathleen Knutsen Rowell, romance de S.E. Hinton. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Anne Goursaud. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Produção Gray Frederickson, Fred Roos. Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Matt Dillon, Patrick Swayze, Diane Lane, Tom Cruise, Rob Lowe, Emilio Estevez. Estreia: 25/3/83

O filme "Vidas sem rumo" nasceu do encontro inusitado entre as fãs do romance escrito por S.E. Hinton e lançado em 1967 e o cineasta Francis Ford Coppola, vindo da falência de seu estúdio, o American Zoetrope, causada pelo fracasso calamitoso de "O fundo do coração" (82). Desiludido com o cinema, o homem que havia legado ao mundo as duas partes premiadas e elogiadas de "O poderoso chefão" e o problemático porém louvado "Apocalypse now" recebeu uma calorosa carta escrita por alunos de uma escola secundarista de Fresno, na California. Eles alegavam que somente Coppola poderia traduzir em imagens seu livro preferido. Escrito por Hinton quando ainda era uma adolescente de quinze anos, o livro contava a história de um grupo de adolescentes dos anos 50 que sofriam na pele tudo aquilo que os estudantes da década de 80 também sentiam: insegurança, deslocamento de uma sociedade que podia ser muito restritiva e principalmente a força dos laços de amizade. Não foi preciso insistir muito e Coppola aceitou o desafio. Lançado em 1983, seu novo trabalho não ajudou muito em suas finanças já atribuladas - não teve uma bilheteria significativa - mas o incentivou a adaptar outro romance de Hinton em 1984, "O selvagem da motocicleta", e, mais importante que tudo, deu o pontapé inicial nas carreiras de nomes que, nos anos seguintes, dominariam o cinema americano.

Os créditos de "Vidas sem rumo" são um verdadeiro quem é quem do cinema jovem hollywoodiano dos anos 80: estão lá Matt Dillon, Emilio Estevez, Patrick Swayze, Rob Lowe, Diane Lane, C. Thomas Howell, Ralph Macchio e Tom Cruise (em um papel bastante pequeno e bem diferente do galã que se tornaria ainda em 1983 com "Negócio arriscado"). Quando o filme foi feito, nenhum deles era famoso, o que demonstra, no mínimo, o faro de Coppola em descobrir novos talentos - é bom lembrar que foi ele quem insistiu em Al Pacino para viver Michael Corleone no primeiro "Chefão". Sua maior felicidade, em "Vidas sem rumo", foi encontrar atores que encarnam seus personagens com tal verdade que é difícil ficar indiferente a seus dramas apesar do roteiro falhar em desenvolvê-los melhor. No entanto, a ingenuidade, o frescor e o carinho com que todos são tratados na história se reflete na direção sensível de Coppola, que usa e abusa de belíssimas sequências de pôr-do-sol - cortesia de Stephen H. Burum - remetendo tanto ao ocaso da inocência de seus protagonistas quanto à adoração do doce Ponyboy (C. Thomas Howell) pelo livro "...E o vento levou", de Margareth Mitchell, citado em vários momentos no decorrer da narrativa.


"Vidas sem rumo" se passa em uma pequena cidade de Oklahoma, em um ano qualquer durante a década de 50 e narra basicamente a violenta rivalidade entre dois grupos de jovens, os Greasers e os Socials. Do primeiro grupo (assim batizado por utilizarem brilhantina no cabelo) faz parte o protagonista, Ponyboy Curtis, de 14 anos. Órfão e criado pelo irmão mais velho, Darrell (Patrick Swayze) - que também é o responsável pelo outro irmão, Sodapop (Rob Lowe) - Ponyboy vive em constante tensão devido ao clima de guerra declarado pelos dois grupos, que se dividem principalmente por suas classes sociais. Quem acaba por unindo, ainda que por pouco tempo, as duas facções, é a bela Cherry (Diane Lane em papel recusado por Sarah Jessica Parker e Brooke Shields), namorada de um dos líderes dos Socials que faz amizade com Ponyboy e sente-se atraída pelo beligerante Dallas (Matt Dillon), rapaz mais velho que passou inclusive uma temporada na cadeia. A relativa paz entre as duas gangues é interrompida, porém, quando o melhor amigo de Ponyboy, Johnny Cade (Ralph Macchio, o futuro Karatê Kid), mata um dos integrantes do grupo rival, o que desencadeia um recrudescimento ainda maior da violência que os cerca.

Mesmo tratando de uma história onde a violência e a tensão estão sempre presentes, Coppola não se deixa seduzir pela tentação de lavar a tela de sangue - ainda que em uma bela cena ele seja um elemento crucial e impactante. Sua preferência é investigar o relacionamento quase familiar que existe entre seus personagens, que criam um núcleo de auto-proteção e carinho que contrasta com a frieza e a crueldade com que eles constantemente esbarram em seu dia-a-dia. Coppola não se furta a enfatizar, sempre que possível, que aqueles meninos que estão na tela não são maus, nem ferozes, e sim adolescentes carentes de amor, de atenção, de igualdade de chances. É particularmente tocante o destino de Johnny, que acaba sendo o catalisador para o desfecho catártico de toda a trama: justo ele, que flertava com a morte por não suportar a vida como ela lhe aparecia, muda seu ponto de vista quando a encara de frente e precisa lutar para manter-se vivo, enquanto seus amigos partem em sua defesa, em uma cena de briga de gangues que, apesar de curta, já nasceu clássica graças a seu background literário e a seu elenco de ouro.

"Vidas sem rumo" é uma obra feita para se tornar o filme de cabeceira dos fãs do romance - que, a despeito da qualidade da adaptação, ainda assim conseguiram achar do que reclamar - e de adolescentes que se veem retratados com respeito e admiração, sem tentar explicar comportamentos com psicologismos baratos. É um belo e sincero filme, realizado por um diretor apaixonado para um público ainda mais ardoroso, e como tal, é uma versão emocionante e envolvente.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

NEGÓCIO ARRISCADO

NEGÓCIO ARRISCADO (Risky business, 1983, Geffen Company, 99min) Direção e roteiro: Paul Brickman. Fotografia: Bruce Surtees, Reynaldo Villalobos. Montagem: Richard Chew. Música: Tangerine Dream. Figurino: Robert de Mora. Direção de arte/cenários: William J. Cassidy/Ralph Hall. Produção: Jon Avnet, Steve Tisch. Elenco: Tom Cruise, Rebecca de Mornay, Joe Pantoliano, Bronson Pichot, Curtis Armstrong, Richard Masur, Nicholas Pryor, Janet Carroll. Estreia: 05/8/83

Antes de tornar-se o mais bem-sucedido astro do cinema mundial dos anos 90, receber três indicações ao Oscar e se casar com duas das mais talentosas e desejadas mulheres do planeta, Tom Cruise também teve que começar a carreira por baixo. Para sua sorte, entretanto, pouca gente lembra de sua participação no vergonhoso "Porky's 3" - que apesar do título nada tinha a ver com seus antecessores, exceto a pouca qualidade - mas sim de sua estreia oficial como protagonista: a comédia adolescente "Negócio arriscado", que, apesar de fazer parte de um filão bastante popular na década de 80, dá um passo à frente em relação a seus congêneres com a adição de um elemento ousado que muito agradou a seu público alvo: cenas tórridas de sexo.

Tórridas em termos, é bom que se diga. Mesmo que em comparação com a filmografia ingênua e romântica de John Hughes os embates entre Cruise e Rebecca de Mornay sejam bastante quentes, não se pode dizer que o filme escrito e dirigido por Paul Brickman seja mais do que uma simples comédia romântica direcionada a jovens em fase de ebulição hormonal. E são eles que provavelmente se divertem mais com a história criada por Brickman, que se utiliza das dúvidas existenciais adolescentes, de sua busca por sexo e de seus problemas de relacionamento com os pais para entreter por pouco mais de hora e meia. Essa despretensão em legar uma obra-prima, assumindo sem medo seu lado comercial e ligeiro é talvez um dos maiores trunfos de "Negócio arriscado" - que ainda assim deixou para a posteridade uma das cenas mais lembradas da carreira de Tom Cruise, quando ele dança e dubla, somente de camisa, cueca e meias, a clássica "Old time rock'n'roll".


Cruise, que tinha 21 anos à época do lançamento do filme, vive Joel Goodsen, um adolescente de Chicago, filho único, que está às vésperas de ir para a universidade, apesar de não ser exatamente um aluno exemplar. Integrante de um grupo chamado "Empresários do futuro", que prepara os alunos para uma promissora carreira profissional, Joel também é um rapaz tímido, sem experiência sexual assim como seus melhores amigos. Em um final de semana, quando seus pais vão viajar, Joel acaba tendo sua vida virada do avesso quando trava conhecimento com a bela Lana (Rebecca de Mornay em papel que teve entre suas candidatas Kim Basinger e Sharon Stone), uma prostituta que chega à sua casa chamada por Miles (Curtis Armstrong), um de seus melhores amigos. Lana não apenas inicia Joel sexualmente como o envolve em uma confusão com seu cafetão, Guido (Joe Pantoliano) - o que acaba obrigando o jovem, depois de uma inesperada reviravolta, a fazer de sua mansão um bordel para arrecadar uma pequena fortuna.

No fundo, "Negócio arriscado" não passa de uma Sessão da Tarde um pouco apimentada, o que não é demérito nenhum. Não é uma comédia do tipo que desperta gargalhadas, mas é leve, simpático e deu o empurrão que a carreira de Cruise precisava no momento - ele chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical. Assim como vários outros produtos de sua época direcionados ao público jovem, acabou virando cult e peça indispensável das lembranças de toda uma geração. Apesar de tudo, é um filme que mora no coração de muitos fãs de Cruise - e do cinema dos anos 80.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O REI DA COMÉDIA

O REI DA COMÉDIA (The king of comedy, 1982, Embassy International Pictures/20th Century Fox, 109min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul D. Zimmermann. Fotografia: Fred Schuler. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/George De Titta Sr., Daniel Robert. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Jerry Lewis, Sandra Bernhard, Diahnne Abbot. Estreia: 08/12/82

Foi em 1974, enquanto Martin Scorsese estava trabalhando em "Alice não mora mais aqui" que Robert De Niro aproximou-se dele com o roteiro de uma perturbadora comédia dramática que tinha, em seu subtexto, uma feroz crítica à cultura de assédio irracional às celebridades. Foi preciso quase uma década - e nesse meio-tempo duas obras-primas a dois ("Taxi driver" (76) e "Touro indomável" (80) - para que o grande cineasta finalmente compreendesse totalmente as entranhas da história (que já passara a ser parte do cotidiano em que vivia) e aceitasse o desafio de levar às telas a trajetória do aparentemente inocente Rupert Pupkin rumo à fama e à notoriedade. Tendo De Niro no papel principal - com um desempenho que o próprio Marty considera o melhor que o ator alcançou sob sua direção - o filme decepcionou nas bilheterias, nas cerimônias de premiação e é hoje considerado um "Scorsese menor". Mas, mesmo soando clichê, um Scorsese menor ainda é um filme acima da média, e "O rei da comédia" é um filme com muitas qualidades que merece ser redescoberto.

Um dos maiores atrativos de "O rei da comédia" para os fãs de cinema é a participação de Jerry Lewis em um papel dramático. O ator, que criou algumas das comédias mais engraçadas dos anos 60 e que, apesar de ser desprezado pelos críticos americanos é considerado um gênio pelos franceses, vive um apresentador de talk-show chamado Jerry Langford. Adorado pelo público e bem-sucedido, ele é também o ídolo máximo de Rupert Pupkin (um DeNiro perigosamente afável), um aspirante a comediante que vê em uma possível aproximação com o famoso apresentador a chance de mostrar seu trabalho e tornar-se também uma celebridade. Constantemente renegado por Langford (por mil e uma razões bastante óbvias, inclusive a invasão que Pupkin faz à sua mansão, acompanhado da namorada), o obcecado humorista resolve então partir para a mais radical das missões: contando com a ajuda da igualmente psicótica Masha (Sandra Bernhard), ele sequestra Jerry e exige da emissora que exiba sua apresentação em rede nacional.


Se o roteiro de Paul D. Zimmermann não chega a ser genial, a direção de Scorsese, mais uma vez, faz toda a diferença. Além de permitir a seus atores momentos de improvisação que tornam cada cena um organismo vivo e imprevisível - como a longa sequência na mansão de Jerry ou as cenas entre ele e Masha, repletas de um senso constante de perigo. Scorsese mostra também seu imenso talento no plano-sequência que acompanha Pupkin enquanto é expulso da sede onde fica o escritório de Jerry: a câmera percorre os corredores estreitos do prédio como se identificasse Rupert como um organismo indesejável a um corpo, pronto para ser extraído friamente. Além disso, é impossível não ficar desconfortável ao testemunhar as inúmeras tentativas do protagonista em ser recebido por seu ídolo, em cenas de puro constrangimento alheio que vão dando ao filme uma textura que seu começo, leve e um tanto irônico, não deixava antever. E DeNiro, com sua performance, dá mais um show: como uma espécie de Travis Bickle (de "Taxi driver") menos claramente psicótico, ele transita com segurança entre o humor mordaz de suas alucinações e monólogos com uma plateia imaginária e a tensão da metamorfose entre um vítima inofensiva e um homem capaz de qualquer desvario para atingir seus objetivos.

"O rei da comédia" está realmente longe de ser uma obra-prima ou de figurar entre os melhores filmes de Martin Scorsese. Mas se utiliza de um tema ainda muito em voga (o culto à celebridade) para analisar uma sociedade doentia capaz de transformar qualquer um em estrela de TV ou cinema. O final irônico - que também remete a "Taxi driver" em determinado nível - é a cereja do bolo, mostrando que Scorsese, mesmo quando está aquém de toda a sua energia ainda é um cineasta de primeira grandeza.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

FRANCES

FRANCES (Frances, 1982, BrooksFilms, 140min) Direção: Graeme Clifford. Roteiro: Eric Bergren, Christopher De Vore, Nicholas Kazan. Fotografia: László Kovács. Música: John Barry. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/George Gaines. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: Jessica Lange, Sam Shepard, Kim Stanley, Bart Burns, Jeffrey DeMunn, Lane Smith. Estreia: 03/12/82

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jessica Lange), Atriz Coadjuvante (Kim Stanley)

O ano de 1982 foi particularmente satisfatório para Jessica Lange. Poucos anos depois de ter sido ridicularizada por sua estreia como a protagonista feminina de "King Kong", ela mostrou à crítica e aos detratores que, por trás de seu belo rosto e do vulcão de sensualidade que havia demonstrado em "O destino bate à sua porta" (81), havia uma atriz de intenso talento, pronta para surpreender e encantar. Em "Tootsie", de Sydney Pollack, ela deixou perceber seu lado solar, como a atriz de telenovelas que desperta a paixão de um travestido Dustin Hoffman e levou pra casa o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante. Mas foi seu desempenho como outra atriz, real e com uma vida repleta de lances dramáticos, que ela derrubou de vez toda e qualquer desconfiança: na pele de Frances Farmer - papel que era cobiçado por Diane Keaton e Goldie Hawn, ambas oscarizadas e já respeitadas - ela injetou em doses exatas emoção, desespero e revolta. E só não ganhou a estatueta na categoria principal porque tinha Meryl Streep e seu "A escolha de Sofia" pelo caminho.

Frances Farmer existiu de verdade e chegou a fazer alguns filmes em Hollywood nos anos 40 - antes que sua personalidade forte, suas simpatias comunistas e seu desinteresse pela fama estéril de um estrela de cinema em detrimento da nobreza do teatro lhe dessem o rótulo de persona non grata na capital das vaidades. Rechaçada em sua cidadezinha do interior aos 16 anos por ter escrito uma dissertação onde negava a existência de Deus, ela logo piorou sua situação indo passar um tempo em Moscou - quando já era uma jovem atriz especializada em teatro russo. Seu retorno triunfal ocorreu justamente quando chegou às telas de cinema, quando passou a ser respeitada e adulada sem por isso sentir-se obrigada a compactuar com ideais que renegavam os seus. Dedicando-se ao teatro, sua verdadeira paixão, ela jamais deixa de manter contato com o jornalista Harry York (Sam Shepard, que se envolveu com Lange durante as filmagens e teve com ela dois filhos), que é quem a ajuda a superar os piores anos de sua vida: abandonada e traída profissionalmente pelo amante dramaturgo, Clifford Oddets (Jeffrey DeMunn), ela volta à Hollywood e, desequilibrada, cai nas mãos de sua mãe, Lilian (Kim Stanley, indicada ao Oscar de coadjuvante), que vê solução apenas internando-a em um hospício.


Mesmo que o roteiro tenha ficcionado algumas passagens da vida de Frances - o personagem de Sam Shepard, por exemplo, nunca existiu, e a lobotomia sofrida pela protagonista jamais aconteceu - o filme de Graeme Clifford (que depois nunca mais acertou em sua carreira cinematográfica) sobrevive principalmente graças ao empenho de Jessica Lange em dar credibilidade e empatia a uma personagem difícil. Convencendo tanto como uma adolescente de 16 anos quanto como uma mulher sofrida e vivida, ela é a luz do filme, transmitindo milhares de emoções com poucas palavras, usando apenas o olhar para levar a audiência junto com ela à espiral de desespero que toma conta de sua vida no terço final da história. Seus duelos com Kim Stanley - que vive Lilian Farmer, sua mãe e algoz - são dignos de nota, dando ao filme um tom de tragédia familiar que deixa seus furiosos ataques à nata de Hollywood leves como um filme de Carlitos. Sua descida ao inferno - em especial uma inspirada sequência onde ela ensaia uma declaração aos juízes diante de uma plateia de internas insandecidas - é tratada com respeito, mesmo quando torna-se o pior dos pesadelos, com lobotomias e estupros no menu.

"Frances" é um filme irregular. Não tem um diretor brilhante que ouse na narrativa e até mesmo suas invenções no roteiro (ainda que o tornem mais chocante) acabam minando sua credibilidade. Mas tem em Jessica Lange um pilar forte o suficiente para torná-lo obrigatório. Não apenas é o retrato cruel de como a sociedade (e a indústria, seja ela qual for) pode exterminar a alma de uma pessoa de espírito livre e inteligente. Também é uma chocante mostra dos horrores do sistema psiquiátrico americano de sua época (anos 40), da maneira cruel como Hollywood se livrava de quem não mais lhe servia e até das sujeiras que escondem nos bastidores do teatro. Para quem gosta do assunto, é um prato e tanto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A ESCOLHA DE SOFIA

A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie's choice, 1982, ITC/Keith Barish Productions, 150min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de William Styron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Evan A. Lottman. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John J. Moore. Produção executiva: Martin Starger. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Gunter Maria Halmer. Estreia: 08/12/82

5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Considerada com mérito a maior atriz americana de sua geração - e possivelmente uma das mais extraordinárias de todos os tempos - Meryl Streep não precisou da vantagem que a experiência traz para consagrar-se junto ao público, à crítica e aos membros da Academia. Em abril de 1983, aos 33 anos, ela, grávida, subia pela segunda vez ao palco da entrega do Oscar para receber uma estatueta. Porém, se por "Kramer vs Kramer", três anos antes, ela foi eleita a melhor coadjuvante, por "A escolha de Sofia" ela foi escolhida como a melhor atriz principal do ano. Mais impressionante ainda? Não foi só a Academia que rendeu-se a seu espetacular desempenho: quando pôs as mãos em seu segundo Oscar, ela já havia sido premiada pelas associações de críticos de Los Angeles e de Nova York, pelo prestigiado National Board of Review, pela Associação Nacional de Criticos e pelos jornalistas estrangeiros que concedem o Golden Globe - ou seja, todos os grupos que escolhem os melhores do cinema de cada ano concordaram que estavam diante de uma obra-prima de interpretação dramática.

Baseado em romance de William Styron, "A escolha de Sofia" é um petardo emocional, capaz de impressionar ao mais cínico dos espectadores por evitar, inteligentemente, o caminho da emoção fácil. Não há dúvidas que a famosa cena da escolha do título (muitas vezes comentada e mostrada fora de contexto, o que de certa forma enfraquece sua potência, apesar de ainda arrepiar a cada revisão) é de triturar o coração de qualquer um, mas o roteiro do cineasta Alan J. Pakula não se reduz a contar apenas a trajetória de sua protagonista nos dias cinzentos de sua passagem por Auschwitz, preferindo dar importância também às cicatrizes emocionais incuráveis que ela deixou. São essas feridas que fazem de Sofia uma personagem complexa, vasta, imprevisível e fascinante - o que a atuação de Streep enfatiza a cada diálogo, a cada cena, seja ela das mais leves ou das mais catárticas. O que Sofia esconde, o que ela sente, o que ela pensa são incógnitas ao público - e ao atônito apaixonado Stingo, um aspirante a escritor que chega a Nova York em 1947 e se encanta com a misteriosa vizinha do apartamento de cima. O que ela revela, o que ela deixa transbordar e o que ela finalmente desabafa são uma aula de como utilizar o corpo, os olhos e a voz para deixar marcas no coração e na memória de cada espectador.


Vivido por Peter MacNicol, Stingo faz as vezes de narrador e espectador de uma tragédia anunciada que se desenha a partir do momento em que ele testemunha pela primeira vez uma beligerante discussão entre a polonesa Sofia e seu namorado, o biólogo judeu Nathan Landau (Kevin Kline em sua estreia no cinema, mostrando um talento que lhe renderia um Oscar de coadjuvante seis anos depois, pela comédia "Um peixe chamado Wanda"). Inconstante e frequentemente violento, Nathan torna-se amigo de Stingo e, junto com Sofia, forma com ele uma espécie de família, ainda que o jovem escritor tenha sentimentos mais fortes por Sofia - que por sua vez, os incentiva ao mesmo tempo em que os repele, demonstrando também uma instabilidade emocional que, aos poucos, Stingo vai compreendendo, e que remete a seu passado como prisioneira de um campo de concentração. É também aos poucos que Stingo percebe que a relação doentia entre seus amigos vem acompanhada de uma alta dose de auto-destruição e de fantasmas ainda vivos em suas memórias.

A direção de Pakula é elegante, sóbria, direta. Ele dá espaço ao brilho de seus grandes atores, em algumas sequências que lembram uma boa peça de teatro - enquanto em outros momentos ele aproveita sua experiência como cineasta para criar imagens poderosas, ajudado pela fotografia do mestre Nestor Almendros, que trabalha os flashbacks em frios tons de cinza e o presente em um colorido primaveril que contrasta com sutileza com o frequente estado de espírito dos personagens. E os personagens são um capítulo à parte: Peter MacNicol pontua com correção o show de Kline e Streep, que enchem a tela de energia e força sempre que estão presentes. Kline faz de seu bipolar Nathan um homem adorável em um momento e um monstro no momento seguinte, sempre com segurança e carisma. E Streep não ganhou todos os prêmios que ganhou à toa: ela não apenas vive a personagem com a alma inteira como aprendeu a falar alemão e polonês, para que pudesse tornar verossímil uma mulher polonesa que fala com sotaque alemão. Valeu a pena implorar pelo papel - que Barbra Streisand também queria e para o qual Natalie Wood foi cotada: seu trabalho é, sem dúvida, um dos mais impactantes da história.

domingo, 26 de outubro de 2014

CLIENTE MORTO NÃO PAGA

CLIENTE MORTO NÃO PAGA (Dead men don't wear plaid, 1982, Universal Pictures, 88min) Direção: Carl Reiner. Roteiro: Carl Reiner, George Gipe, Steve Martin. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Bud Molin. Música: Miklós Rózsa. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: John DeCuir/Richard Goddard. Produção: William E. McEuen, David V. Picker. Elenco: Steve Martin, Rachel Ward, Carl Reiner. Estreia: 21/5/82

Rigby Reardon, um detetive particular dos anos 40, com um passado traumático e uma queda por belas mulheres, recebe a visita de Juliet Forrest, a herdeira de um cientista morto em um acidente de carro que o contrata para investigar o caso, que ela acredita tratar-se de um homicídio. De posse apenas de um pedaço de papel que o leva a duas listas misteriosamente intituladas "Amigos de Carlotta" e "Inimigos de Carlotta", ele parte em busca da resolução, contando para isso com a ajuda de seu amigo Phillip Marlowe e cruzando o caminho de antigas paixões e novas tentações e perigos. Não, não se trata de um filme noir dirigido por Michael Curtiz ou Billy Wilder ou estrelado por Humphrey Bogart e Joan Crawford. Quer dizer, mais ou menos: "Cliente morto não paga" é uma brincadeira em preto-e-branco dirigida por Carl Reiner e Steve Martin que satiriza, em tom de homenagem, um dos mais queridos gêneros da velha Hollywood, utilizando-se, para isso, de imagens de arquivo de verdadeiras lendas do cinema. Fracasso de bilheteria, o filme, entretanto, é uma delícia para cinéfilos de plantão.

Cenas de nada menos que dezenove filmes aparecem em "Cliente morto não paga", com distintos graus de importância para o desenvolvimento da trama, que, é bom dizer, não passa de um bom McGuffin (termo criado por Hitchcock para definir uma história que no fundo é apenas pano de fundo para a estrutura narrativa). O que importa no roteiro - co-escrito por Martin, Reiner e George Gipe - não é a trama, e sim como ela se encaixará com a constelação de astros que desfila pela tela em pouco menos de hora e meia. De uma forma ou outra, Rigby (em inspirada atuação de Steve Martin) contracena com Alan Ladd, Humphrey Bogart (em seu papel de Phillip Marlowe), Bette Davis, Ray Milland, Joan Crawford, Ava Gardner, Charles Laughton, Vincent Price, Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, Ingrid Bergman, Veronica Lake e Burt Lancaster em cenas de alguns de seus filmes mais famosos. Brilhantemente editado, o filme mostra Martin travestido de loura para uma impagável recriação da cena do supermercado entre Fred MacMurray e Barbara Stanwyck em "Pacto de sangue", remonta um diálogo com Ray Milland em "Farrapo humano", toma um drink batizado com Ingrid Bergman em "Interlúdio" e divide um vagão de trem com Cary Grant em "Suspeita".


Último trabalho da figurinista Edith Head - uma lenda dos bastidores de Hollywood, vencedora de oito Oscar - "Cliente morto não paga" é inteligente também no uso que faz dos clichês do gênero que acarinha, jamais debochando de seus exageros, mas iluminando-os sob a luz da nostalgia. Criminosos nazistas convivem com femmes fatales, detetives tem insights geniais apenas com seu talento dedutivo, ambientes enfumaçados servem de ponto de encontro entre personagens de moralidade dúbia e situações de perigo aparentemente insolúveis milagrosamente se resolvem com auxílios inesperados. Quem conhece os meandros das tramas policiais que Hollywood filmou nos anos 30 e 40 certamente irá se deliciar mais com as referências diversas, mas não falta ao público neófito muito com o que se divertir, seja com o dom histriônico de Steve Martin ou com a beleza de Rachel Ward, saindo-se muito bem na pele da misteriosa Juliet Forrest, depois de ter arrasado o coração de Jeff Bridges em "Paixões proibidas".

Uma comédia que aposta mais nos sorrisos de reconhecimento e um show de técnica que presta um tributo admirável aos tempos dourados de uma Hollywood que se mantém viva no coração dos cinéfilos - como o próprio diretor Carl Reiner, pai do também cineasta Rob - "Cliente morto não paga" é o tipo de filme que acaricia a própria indústria e a paixão por fazer cinema. Para os fãs da sétima arte é um deleite em forma de celulóide.

sábado, 25 de outubro de 2014

VESTIDA PARA MATAR

VESTIDA PARA MATAR (Dressed to kill, 1980, Filmways Pictures/Cinema 77 Films, 105min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jerry Greenberg. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gary Weist/Gary Brink. Produção: George Litto. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz. Estreia: 25/7/80

Se o cineasta Brian De Palma ficou conhecido por ser o mais fiel discípulo de Alfred Hitchcock, boa parcela de responsabilidade por tal afirmação se deve a "Vestida para matar", um de seus mais radicais exercícios de estilo, dono de algumas das sequências mais empolgantes do início da década de 80. Violento, tenso e tecnicamente brilhante, o filme é uma antologia de momentos de cinema em forma pura, que dispensa diálogos desnecessários para jogar o espectador em uma trama labiríntica e doentia, que bebe da fonte do mestre do suspense tanto de forma discreta (o clima, a obsessão pela sexualidade reprimida) como de maneira nítida (com citações quase óbvias de "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e principalmente "Psicose"). Entretanto, mesmo com todas essas homenagens, De Palma consegue o que parecia impossível, imprimindo a seu trabalho uma personalidade que o separa de meros imitadores, com ousadias quase impensáveis para um filme com pretensões comerciais.

As ousadias de De Palma já começam a dar as caras na cena inicial, que apresenta aquela que, assim como Janet Leigh em "Psicose" (60), parece ser a protagonista: Kate Miller (Angie Dickinson) aparece em nudez frontal (dublada por outra atriz), tomando banho sensualmente, até ser atacada por trás por um desconhecido, enquanto seu marido se barbeia calmamente a poucos metros. Logo o público descobre que tudo não passa de um sonho, mas em poucos minutos tudo está estabelecido, desde o tom que substitui rapidamente o sonho pelo pesadelo até a personalidade insatisfeita de Kate, cujo segundo casamento não lhe faz feliz sexualmente. Logo ela está fazendo suas queixas a seu terapeuta, o dr. Robert Elliott (Michael Caine), que lhe confessa sentir uma forte atração por ela - atração esta impedida de tornar-se realidade por sua condição de médico e homem casado. É aí que De Palma dá a primeira mostra de sua eficiência: em uma longa sequência de vinte minutos quase sem nenhum diálogo, Kate visita um museu, acompanha com o olhar outros frequentadores, flerta com um desconhecido e posteriormente parte atrás dele, em enlouquecidos travellings que conduzem o público para dentro da angústia da protagonista. Mais adiante, ainda em silêncio, eles embarcam em uma tórrida cena de sexo dentro de um táxi, que tem continuidade no ato pós-sexual, quando ela descobre um segredo atordoante sobre seu romance ocasional. Dentro do elevador, ao deixar o prédio, ela dá ao espectador o choque que Hitchcock inaugurou e que funciona mais uma vez às mil maravilhas: é violentamente assassinada por uma mulher loira que a ataca com uma navalha.


A partir desse primeiro susto, o filme segue adiante em sua narrativa, acompanhando as investigações do assassinato, testemunhado por Liz Blake (Nancy Allen, esposa do diretor à época das filmagens), uma garota de programa que se torna a suspeita preferida do detetive Marino (Dennis Franz). Contando com a ajuda do filho de Kate, o jovem nerd Peter (Keith Gordon, hoje um cineasta que dirigiu o ótimo "Amor maior que a vida" (00)), Liz tenta descobrir quem é a assassina, mas logo descobre que está correndo sério risco de ser a próxima vítima. Vem então mais uma sequência digna de aplausos: perseguida pela misteriosa criminosa (que veste uma capa preta e sinistros óculos escuros mesmo à noite), a jovem prostituta encontra refúgio no metrô, mas encontra não apenas uma nova ameaça em um grupo de homens que insinuam querer estuprá-la mas também em um policial que desconfia de sua história. Durante vários minutos a respiração do público fica em suspenso, à espera de um novo susto. Palmas para a direção, a edição e a trilha sonora quase clássica de Pino Donaggio.

"Vestida para matar" não é, no entanto, apenas uma colagem de grandes sequências de suspense. É uma história inteligente e corajosa, que dá a Michael Caine um de seus papéis mais marcantes - que ele herdou, pasmem, de Sean Connery, que só não o interpretou por estar preso a outros compromissos profissionais. O final, surpreendente e psicologicamente coerente, também é inspirado em Hitchcock, mas de uma maneira que não soa requentado ou simplesmente imitado. De Palma, também autor do roteiro, dá a seu público um espetáculo de imagens e sons sem deixar de oferecer também uma trama consistente e que em momento algum subestima sua inteligência. Um dos melhores filmes de suspense de sua época, que ainda hoje funciona extraordinariamente bem.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

NORMA RAE

NORMA RAE (Norma Rae, 1979, 20th Century Fox, 110min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Irving Ravetch, Harriet Frank Jr.. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Sidney Levin. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: Walter Scott Herndon/Tracy Bousman. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Sally Field, Beau Bridges, Ron Leibman, Pat Hingle, Grace Zabriskie. Estreia: 02/3/79

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sally Field), Roteiro Adaptado, Canção ("It goes like it goes")
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Sally Field), Canção ("It goes like it goes")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sally Field) 
Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Atriz (Sally Field) - Festival de Cannes

Vinte anos antes de Erin Brockovich, outra mulher valente do interior dos EUA mostrou seu valor nas telas de cinema. Assim como a personagem que deu o Oscar de melhor atriz à Julia Roberts em 2001, Norma Rae, uma trabalhadora da indústria têxtil do Alabama que tornou-se peça fundamental na consolidação do sindicato profissional de sua área no início dos anos 70, é uma personagem real. Melhor dizendo, quase real. Inspirado na vida de Crystal Lee Sutton, que morava na Carolina do Norte, o filme de Martin Ritt sobre a descoberta de uma mulher de sua força interior e de sua coragem contra a opressão no mercado de trabalho rendeu à Sally Field - até então uma atriz de televisão sem maiores créditos no cinema - a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes e posteriormente, tornou-a a atriz mais premiada do ano, com reconhecimento de todas as associações críticas dos EUA, o Golden Globe e finalmente o Oscar. Seu desempenho, que equilibrava com inteligência força e fragilidade, provou que ali estava bem mais que a antiga Noviça Voadora - e que herdar um papel recusado por Jane Fonda e Jill Clayburgh não poderia ter sido sorte maior.

Até mesmo Shirley MacLaine estava de olho no papel de Norma Rae, uma mulher comum que vive no sul dos EUA com os pais e os dois filhos - um de cada pai. Amante de um homem casado e eternamente infeliz em suas escolhas amorosas, ela leva uma vida banal, sem maiores acontecimentos, trabalhando na fábrica têxtil de sua cidadezinha do Alabama - a mesma fábrica que também emprega seus pais e grande parte dos habitantes. Tudo começa a mudar quando ela conhece Reuben Warshowsky (Ron Leibman), nova-iorquino que chega ao interior com a intenção de organizar um sindicato para os trabalhadores da fábrica. Logo Reuben percebe que a coisa não será fácil, uma vez que, mesmo sendo constantemente explorados por seus patrões, os funcionários tem medo de confrontá-los. Somado ao racismo inerente à região, o medo de todos faz com que Norma - que sente algo mais do que simples simpatia pelo forasteiro - resolva assumir a liderança de seus colegas. Em pouco tempo, a união começa a crescer e ela vê que sua dedicação pode lhe arrumar problemas. Tanto em casa com o novo marido, Sonny (Beau Bridges), quanto com todos aqueles que ela desafia com suas ideias revolucionárias.


Sally Field foi a escolha perfeita para viver a destemida Norma Rae. Carismática e dona de um sorriso contagiante, com o filme de Martin Ritt ela deu os primeiros passos de uma vitoriosa carreira no cinema - que lhe rendeu inclusive uma segunda estatueta da Academia, por "Um lugar no coração", em 1984. Seu trabalho foge do exagero, preferindo um viés mais intimista às reações de sua personagem, mesmo quando tragédias pessoais interferem em sua trajetória rumo à conscientização social. Também é preciso dar valor ao roteiro de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., também indicado ao Oscar: sem assumir um tom panfletário, ele oferece a Field a chance de brilhar tanto em cenas domésticas (quando ela conversa francamente com os filhos depois de sua prisão) quanto em momentos de maior emoção (a clássica sequência em que ela conclama seus colegas a interromper as máquinas em pleno horário de expediente). Sintomaticamente, essas duas cenas realmente aconteceram na vida de Crystal Lee Sutton, não foram invenção dos roteiristas.

Aliás, Lee Sutton não ficou exatamente satisfeita com o resultado final do filme de Martin Ritt, uma vez que preferia que sua história fosse contada em um documentário. É inegável, no entanto, que, sob os auspícios de Hollywood, com uma atriz conhecida do grande público e com os inúmeros prêmios arrecadados em seu caminho, sua trajetória atingiu e inspirou muito mais gente. Ela pode ter não gostado, mas muita gente gostou e ainda gosta da história da corajosa Norma Rae Webster.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

HORROR EM AMITYVILLE

HORROR EM AMITYVILLE (The Amityville horror, 1979, AIP Pictures, 117min) Direção: Stuart Rosenberg. Roteiro: Sandor Stern, livro de Jay Anson. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Robert Brown Jr.. Música: Lalo Schifrin. Direção de arte/cenários: Kim Swados/Robert Benton. Produção executiva: Samuel Z. Arkoff. Produção: Elliot Geisinger, Ronald Saland. Elenco: James Brolin, Margot Kidder, Rod Steiger, Don Stroud, Murray Hamilton, John Larch, Val Avery. Estreia: 27/7/79

A impressão que se tem, no final de "Horror em Amityville" - a versão original, não a desnecessária refilmagem com Ryan Reynolds realizada em 2005 - é que o filme de Stuart Rosenberg, baseado em fatos reais ocorridos em 1974 é um compilação (feliz em muitos sentidos) de todos os clichês dos filmes de horror passados em casas mal-assombradas. Construindo o suspense em pequenas doses, aumentando gradativamente a violência psicológica que toma conta do protagonista George Lutz em relação a seu declínio rumo à loucura, Rosenberg acerta em cheio ao optar pela sugestão e pelos sustos discretos em detrimento de efeitos visuais que poderiam ficar datados ou de uma violência física constante que certamente cansaria o espectador antes do final da projeção. Mostrando a presença do mal através de pequenos detalhes - ataques inesperados de abelhas, religiosos ficando doentes, insônias repentinas sempre no mesmo horário - o roteiro entrega ao público um produto que, mesmo depois de três décadas, continua eficiente em seu objetivo de causar tensão.

A trama começa com a tragédia real que deu origem ao livro de Jay Anson, quando um rapaz de 28 anos, aparentemente sem motivo algum, assassina seus pais e irmãos durante uma madrugada de março de 1974. Um ano mais tarde, uma família compra a propriedade, mesmo sabendo de seu passado um tanto sinistro - afinal, o preço é bastante convidativo. Pouco depois, George Lutz (James Brolin, pai de Josh, que em certos momentos lembra bastante o hoje famoso filho) e sua esposa, Kathy (Margot Kidder, vinda do sucesso de "Superman, o filme") fazem a mudança, junto com os três filhos do primeiro casamento dela. As coisas começam a dar errado logo de cara, ainda que eles não percebam com clareza os fatos: chamado para abençoar a casa por Kathy, católica praticante, o Padre Delaney (Rod Steiger), sozinho, é atacado por abelhas surgidas do nada e ouve uma diabólica voz o expulsando do local. Sem conseguir comunicar-se com a família Lutz, o padre pede ajuda a outros religiosos, mas, por motivos burocráticos ou insondáveis, jamais consegue contato com a mansão.


Enquanto isso, George começa a dar sinais evidentes de distúrbio. Acordando sistematicamente às 3:15 da manhã - horário em que ocorreu a chacina em sua casa - ele passa a comportar-se de forma errática, ao mesmo tempo em que outros pequenos acontecimentos deixam Kathy com a nítida sensação de que algo está fora de controle em seu lar: janelas fecham-se violentamente, portas batem trancando a babá de sua filha caçula, somas de dinheiro desaparecem misteriosamente. Perturbada com o comportamento estranho do marido, ela vai pesquisar a respeito do crime ocorrido um ano antes e descobre que o autor dos assassinatos é assustadoramente parecido com George. É o início de uma odisseia em direção ao desespero, que somente a fé de Kathy e o senso de família de George - um homem prático e pouco afeito a questões religiosas - poderão interromper.

"Horror em Amityville" foi um sucesso enorme de bilheteria, confirmando a tendência do cinema de horror em levar multidões às salas de exibição, depois de êxitos como "O exorcista" (73), "Carrie, a estranha" (76) e "A profecia" (76). Utilizando-se favoravelmente do fato de ser baseado em uma história real - apesar das dúvidas do elenco à sua veracidade - o filme também deve seu sucesso a algumas qualidades inegáveis, como a bela atuação de Brolin, o clima de suspense mantido pelo diretor Stuart Rosenberg e pela direção de arte, que construiu uma casa de visual assustador, com suas janelas superiores lembrando olhos diabólicos. Um belo exemplar do cinema de horror dos anos 70, que muito influenciou o renascimento do gênero no final da década de 90, com o medo sendo despertado pela imaginação e não apenas pelo visual sangrento.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

À PROCURA DE MR. GOODBAR

À PROCURA DE MR. GOODBAR (Looking for Mr. Goodbar, 1977, Paramount Pictures, 136min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, romance de Judith Rossner. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: George Greenville. Música: Artie Kane. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno/Ruby Levitt. Produção: Freddie Fields. Elenco: Diane Keaton, Tuesday Weld, Richard Gere, William Atherton, Richard Kiley, Tom Berenger. Estreia: 19/10/77

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Tuesday Weld), Fotografia

Theresa Dunn é uma jovem professora de ensino fundamental para crianças surdas-mudas. Católica, filha de pais rígidos e torturada por um passado metida em hospitais devido a uma escoliose que mantém sua auto-estima em níveis bastante baixos para quem é tão inteligente e atraente, ela começa uma vida dupla depois do fim traumático do relacionamento com um professor casado: de dia, é uma dedicada mestra, que luta por melhores condições para seus alunos carentes; à noite, frequenta bares de solteiros, consome drogas e se envolve com homens desconhecidos, a quem leva para seu apartamento em busca de prazer efêmero. O que a leva a essa dualidade é sua extrema solidão e tendência à auto-destruição, disfarçadas por uma aparência saudável e acima de qualquer suspeita.

Theresa Dunn é a protagonista de "À procura de Mr. Goodbar", que chegou às telas americanas em 1977 baseado no romance de mesmo nome de Judith Rossner - por sua vez inspirado na história real de Roseann Quinn, também uma professora do primário cuja vida errante e fora dos padrões de moralidade vigentes à classe média norte-americana nos anos 70 a levou a um beco sem saída de violência e desespero. Interpretada magistralmente por uma Diane Keaton no auge da carreira - ela levou o Oscar no mesmo ano por um papel mais palatável ao gosto da Academia em "Noivo neurótico, noiva nervosa" - Theresa é uma personagem complexa, forte e repleta de nuances, que só mesmo uma atriz do porte de Keaton conseguiria atingir. Entregue a ousadas cenas de sexo - em especial se for levado em conta o ano de produção - a ex-musa de Woody Allen também brilha em momentos dramáticos, em especial em seus confrontos com a família cristã e com o amante viciado em drogas vivido por um iniciante e sempre canastrão Richard Gere.


Dirigido por Richard Brooks - que já havia demonstrado seu gosto por falar de sexo em "Gata em teto de zinco quente" (58) - depois que nomes consagrados como Roman Polanski, Mike Nichols e Sydney Pollack recusaram a oferta, "À procura de Mr. Goodbar" leva a audiência junto com a protagonista a uma constante e febril busca pelo paraíso artificial do sexo casual, em bares enfumaçados, em banheiros públicos onde se consegue qualquer tipo de droga, em boates gays e até mesmo em orgias domésticas (sua irmã, vivida pela indicada ao Oscar Tuesday Weld tampouco é um exemplo de decência e retidão moral), tudo fotografado com precisão por William A. Frakes - também indicado ao Oscar. A edição fragmentada de George Greenville serve com perfeição para mostrar o universo dicotômico da vida de Theresa, intercalando as cenas pacíficas e solares de sua vida profissional com a claustrofobia da vida noturna, que oferece tanto orgasmos fugazes quanto grandes perigos, escondidos em sorrisos fotogênicos.

A descida de Theresa Dunn rumo ao inferno dos encontros casuais, regados à droga e violência, pode parecer um tanto moralista em seu final, mas Richard Brooks não é um cineasta inclinado a sentenças definitivas, haja visto ter conseguido encontrar alma até mesmo nos assassinos de sua obra-prima "À sangue-frio" (67). O olhar que lança sobre a trajetória de sua protagonista é além de qualquer julgamento, quase documental em sua objetividade de mostrar a vida como ela é. Os lances de alívio - como as cenas em que Theresa imagina situações que fogem de sua realidade - servem como contrapeso para uma história por si só triste, forte e angustiante o bastante para prescindir de artifícios desnecessários. É tenso. É pesado. Mas é um grande filme, infelizmente nunca lançado em DVD.

sábado, 18 de outubro de 2014

ASSASSINATO POR MORTE

ASSASSINATO POR MORTE (Murder by death, 1976, Columbia Pictures Corporation/Rastar Pictures, 94min) Direção: Robert Moore. Roteiro: Neil Simon. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Marvin March. Produção: Ray Stark. Elenco: Alec Guinness, Peter Sellers, Truman Capote, Peter Falk, David Niven, Maggie Smith, James Coco, Eileen Brennan, Elsa Lanchester, Nancy Walker, Estelle Winwood, James Cromwell, Richard Narita. Estreia: 23/6/76

Os fãs da literatura policial clássica, que não conseguem viver sem um crime repleto de suspeitos para lhes fazer companhia irão saborear ainda mais a brincadeira, mas é difícil não se deixar envolver com o clima de homenagem satírica que "Assassinato por morte", escrito pelo dramaturgo Neil Simon, faz a um dos gêneros mais populares das livrarias - e também do cinema, haja visto as constantes adaptações de seus mais famosos títulos para as telas. Reunir em um mesmo filme meia dúzia dos mais célebres detetives já criados pelas férteis mentes de Agatha Christie, Dashiel Hammett e Earl Derr Biggers (disfarçados sob outros nomes por motivos possivelmente jurídicos mas ainda assim facilmente identificáveis) é mérito de Simon, que criou um jogo de gato-e-rato inteligente, irônico e banhado em um carinho que só mesmo quem conhece seus personagens consegue. Junte-se a esse sarcasmo a direção aparentemente sóbria de Robert Moore e um elenco espetacular - que inclui David Niven, Peter Sellers, Maggie Smith, Alec Guinness, Truman Capote e um juvenil James Cromwell - e tem-se uma das comédias mais injustamente esquecidas dos anos 70.

O escritor Truman Capote não poderia ter sido escolha mais feliz para interpretar o excêntrico milionário Lionel Twain, que reúne em sua casa um grupo de famosos detetives para propor-lhes um perigoso jogo: ele anuncia que um assassinato irá ocorrer à meia-noite e que, a despeito de suas qualidades investigativas, nenhum deles será capaz de descobrir o criminoso - e se isso acontecer o vencedor sairá da mansão (repleta de quartos sombrios, uma campainha que grita e salas que aparecem e desaparecem) com um milhão de dólares em mãos. É o bastante para que todos fiquem bastante empolgados, uma vez que dívidas batem à porta de cada um deles. Quando o próprio anfitrião aparece morto com 12 facadas nas costas - depois da morte do mordomo cego (vivido por Alec Guinness em vias de tornar-se Obi Wan Kenobi em "Star Wars") - a corrida começa e verdades escondidas sobre os detetives ameaçam vir à tona.


Um triunfo de roteiro e de ambientação, "Assassinato por morte" diverte sem contra-indicações. Ao contrário das comédias histéricas que apostariam no riso descontrolado que viriam nos anos 80 - graças ao sucesso de filmes como "Apertem os cintos, o piloto sumiu..." (80) - a obra de Robert Moore aposta na inteligência do espectador em reconhecer os sinais inequívocos que distinguem seus personagens e em se deixar envolver por uma trama que brinca sem medo com os clichês dos romances policiais, distorcendo-os em função de suas possibilidades cômicas. E para isso, conta com um elenco de grandes atores mergulhando sem medo na paródia e até mesmo em sua auto-imagem. Estão em cena David Niven e Maggie Smith como o casal Charleston (inspirado em Nick e Nora Charles, criados por Dashiel Hammett), Peter Sellers brilhando como Sidney Wang (fazendo as vezes do Charlie Chan de Earl Derr Biggers), Peter Falk como o falastrão Sam Diamond (ou Sam Spade, imortalizado por Humphrey Bogart em adaptações de livros de Hammett), Elsa Lanchester como Miss Marbles (ou Miss Marple, criação de Agatha Christie, em cuja adaptação de "Testemunha de acusação" ela também atuou) e James Coco na pele de Milo Perrier (Hercule Poirot, outro inesquecível personagem da escritora inglesa). Cada um com suas características próprias, eles deleitam o espectador com piadas visuais e verbais capazes de alegrar o mais aficcionado fã da literatura policial.

Quem procurar em "Assassinato por morte" um humor fácil pode se decepcionar. Apesar de algumas gags geniais - como os impagáveis diálogos entre o mordomo cego e a cozinheira surda-muda - o roteiro de Neil Simon privilegia a inteligência e o sarcasmo em detrimento da piada previsível ou do riso forçado. Suas referências podem afastar a plateia menos afeita à sátira, mas aqueles que se arriscarem certamente terão uma hora e meia de diversão de primeiro nível - e que fatalmente os levará de volta aos livros de Christie, Hammett e Biggers. Afinal, nada como uma boa homenagem para dar valor a quem merece!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

CARRIE, A ESTRANHA

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, 1976, United Artists, 98min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Lawrence D. Cohen, romance de Stephen King. Fotografia: Mario Tosi. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Jack Fisk, William Kenney/Robert Gould. Produção: Paul Monash. Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, Nancy Allen, John Travolta, William Katt, Betty Buckley. Estreia: 03/11/76

2 indicações ao Oscar: Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie)

Em 1976 ninguém conhecia Stephen King. Se hoje seu nome é amplamente reconhecido por todos os fãs de livros e filmes de terror - além de outras obras que fogem do gênero e também foram adaptadas com sucesso para o cinema, como "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94) - a situação era bem diferente então. Seu primeiro romance, escrito enquanto trabalhava em uma lavanderia, chegou a ser recuperado da lata de lixo por sua esposa antes de ser publicado e chegar às telas de cinema no rastro de sucessos de bilheteria como "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73). Inspirado em duas colegas de escola que eram isoladas dos colegas graças ao fanatismo religioso de suas famílias e que morreram bastante jovens, ele criou Carrie White, a adolescente que tornou-se uma das personagens clássicas de sua literatura principalmente depois que conquistou os espectadores de cinema. Dirigido por Brian DePalma, "Carrie, a estranha", foi um enorme sucesso de bilheteria, cimentou o nome de King entre os apaixonados pelo gênero e, surpreendentemente para um filme de terror, indicou sua protagonista (a então estreante Sissy Spacek) ao Oscar de melhor atriz.

Spacek, que tinha 26 anos à época das filmagens, convence plenamente como a colegial Carrie, especialmente devido à sua franzina compleição física. Indicada ao cineasta por seu marido, o diretor de arte Jack Fisk, Spacek agarrou sua oportunidade com unhas e dentes, entregando uma atuação até hoje lembrada como uma das mais intensas de sua vitoriosa carreira - que inclui um Oscar por sua interpretação da cantora country Loretta Lynn em "O destino mudou sua vida" (80). Desde a primeira cena, em que a ingênua Carrie descobre (da pior maneira possível) o que acontece com as mulheres quando elas menstruam, até o apoteótico e pirotécnico final (copiado até mesmo na telenovela "Rainha da sucata", porém com menos violência), a atriz dá um show particular, transitando com firmeza entre a timidez e a insegurança de uma jovem estudante renegada pelas colegas e a fúria incontrolável que surge diante das humilhações sofridas, que despedaçam cruelmente seus momentos de maior felicidade. Seus embates com Piper Laurie, que interpreta sua mãe, uma religiosa cujo fanatismo beira a caricatura, são dignos de figurar entre os maiores momentos do cinema de terror, mesmo que o suspense esteja principalmente nas entrelinhas dos diálogos e no clima absorvente criado pela fotografia de Mario Tosi e pela trilha sonora impecável de Pino Donaggio.


Piper Laurie, aliás, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, acreditava piamente que o filme de DePalma era um comédia de humor negro, uma sátira ao gênero, devido ao exagero das atitudes de sua personagem, capaz de trancar a filha adolescente em um armário como forma de castigá-la. Sumida das telas desde "Desafio à corrupção" (61), Laurie é um destaque absoluto do filme, com seu olhar apavorado, seus discursos louvatórios e sua figura assustadora. Nem mesmo Julianne Moore, com seu enorme talento, conseguiu resultado melhor na reinvenção do filme dirigida por Kimberly Peirce em 2013 - que, como fatalmente acontece, optou pelos efeitos visuais em detrimento do clima. O que há de mais interessante em "Carrie" são as dicotomias propostas pelo tema: bem/mal, amor/ódio, amizade/desprezo, religiosidade/paganismo. King consegue até mesmo criar uma teoria para o despertar da telecinese de sua protagonista, que tem início justamente quando ela torna-se mulher, menstruando pela primeira vez diante de um grupo de colegas maldosas e irresponsáveis: ela está pronta para o mundo, mas junto com o amor (de que ela tem apenas um vislumbre momentâneo) vem o ódio, a inveja e, consequentemente, as reações a isso.

Para quem não conhece a trama, é fácil resumir: Carrie White, uma jovem de 17 anos, filha de uma mãe fanaticamente religiosa que a mantém isolada de todos - à exceção de seus colegas de escola - descobre que tem o poder de mover objetos e até mesmo provocar incêndios apenas com a força do pensamento. Tal descoberta ocorre justamente depois que ela é humilhada no vestiário da escola, depois de desesperar-se quando menstrua pela primeira vez. A represália que suas colegas sofrem por tal "travessura" acaba por jogar Carrie em uma armadilha sádica que ocorre justamente em seu baile de formatura, quando ela é coroada a Rainha. Seus minutos de glória e felicidade são logo transformados em um pesadelo e ela acaba se vingando de todos os seus inimigos utilizando seus poderes recém-descobertos - até ser obrigada a encarar sua mãe, que não aceita o fato de sua filha estar despertando para o mundo.

Clássico absoluto, "Carrie, a estranha" consegue manter, mesmo em tempos onde a violência é moeda corrente no cinema mundial, seu status de referência do gênero. Além do mais, apresenta, em início de carreira, os jovens John Travolta e Amy Irving. Obrigatório!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

LENNY

LENNY (Lenny, 1974, United Artists, 111min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Julian Barry, peça teatral homônima de Julian Barry. Fotografia: Bruce Surtees. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Nicholas Romanak. Produção executiva: David Picker. Produção: Marvin Worth. Elenco: Dustin Hoffman, Valerie Perrine, Jan Miner, Stanley Beck, Frankie Man, Rashel Novikoff. Estreia: 13/11/74

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Ator (Dustin Hoffman),  Atriz (Valerie Perrine), Roteiro Adaptado, Fotografia
Palma de Ouro de Melhor Atriz (Valerie Perrine) - Festival de Cannes

Lenny Bruce foi um dos mais controversos comediantes stand-up dos EUA dos anos 60, quando o gênero ainda estava em sua pré-história. Suas piadas, repletas de palavras de baixo calão e piadas frequentemente de mau-gosto, que não poupavam nada nem ninguém, incomodaram o establishment americano a tal ponto que em pouco tempo ele não apenas era famoso por suas qualidades histriônicas, mas também pelos inúmeros processos a que respondeu. Entrando e saindo da cadeia, ofendendo os mais suscetíveis e sendo aplaudido por aqueles que o consideravam um espécime raro no humor normalmente inofensivo dos palcos - entre os quais a banda REM, que o citou nominalmente na letra de "It's the end of the world as we know it" - Bruce deu origem a uma premiada peça teatral da Broadway, escrita por Julian Barry e ao material escolhido por Bob Fosse para seu primeiro filme após o Oscar ganho por seu trabalho em "Cabaret". Amparado por uma atuação (mais uma) irretocável de Dustin Hoffman e uma deslumbrante fotografia em preto-e-branco de Bruce Surtees, "Lenny" é uma homenagem séria a seu protagonista e um libelo pró-liberdade de expressão.

Contado em formato de flashback pela ex-esposa de Lenny, a stripper Honey (Valerie Perrine, indicada ao Oscar e premiada como melhor atriz no Festival de Cannes), "Lenny" é valorizado pela coragem do roteirista em não fazer de seu protagonista uma pessoa menos desagradável que ele realmente era na vida real, não deixando de fora da trama nem seu vício em drogas nem suas orgias sexuais - que o acabaram afastando da mulher que amava. Construindo um Lenny Bruce constantemente à beira do abismo, Dustin Hoffman dá seu costumeiro show, tanto nas recriações de suas apresentações - das quais o público nunca sabia o que viria - como em seus momentos mais intimistas. Falando desde doenças sexualmente transmissíveis até política e problemas sociais e raciais, o humorista tinha uma acidez que ainda hoje é capaz de perturbar, e Hoffman caminha no fio da navalha para fazer dele alguém que se possa simpatizar mesmo quando suas atitudes não são nada louváveis. Para sua sorte, encontrou em Valerie Perrine uma parceira de cena capaz de pontuar com correção seu dedicado trabalho.


Sem maiores créditos no currículo até sua surpreendente vitória em Cannes e a subsequente indicação ao Oscar, Perrine ficou com o papel de Honey Bruce depois da recusa de Raquel Welch, que não se considerava à altura do desafio. Sua atuação pode parecer discreta em comparação com o desempenho avassalador de Dustin Hoffman, mas é no minimalismo que Perrine encontrou seu caminho. É seu olhar quem fala mais, mostrando ao público todo o turbilhão porque passa sua personagem, que se apoia no amor incondicional pelo marido como forma de superar todas as barreiras emocionais, físicas e morais pelas quais tem que passar em sua trajetória - que inclui desde o encontro com sua tradicional família judaica até o início do vício em heroína e suas inclinações sexuais pouco ortodoxas. Como narradora da história, é do ponto de vista de Honey que o público tem contato com a personalidade confusa de Lenny, e Perrine dá conta do recado com segurança - ainda que a Palma de Ouro em Cannes soe um tanto exagerada.

"Lenny" não é um filme para qualquer público. Sua narrativa é um tanto lenta - o que de certa forma contrasta com a velocidade de "Cabaret" - e o roteiro não apresenta grandes lances dramáticos exceto aqueles velhos conhecidos dos filmes do gênero, sendo quase didático. No entanto, é preciso louvar a edição de Alan Heim, que aproveita cada fantástico ângulo de Bruce Surtees para cadenciar o ritmo conforme as piadas de seu protagonista e a direção precisa de Bob Fosse, mostrando que seu Oscar não foi apenas uma questão de sorte. Assim como acontecia com as piadas de Lenny Bruce, é preciso mergulhar nas boas intenções sua cinebiografia para usufruí-la com todas as suas qualidades. Questão de gosto.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

INFERNO NA TORRE

INFERNO NA TORRE (The towering inferno, 1974, 20th Century Fox/Warner Bros, 165min) Direção: John Guillermin, cenas de ação dirigidas por Irwin Allen . Roteiro: Stirling Siliphant, romances "The glass inferno", de Thomas N. Scortia, Frank M. Robinson e "The tower", de Richard Martin Stern. Fotografia: Fred Koenemkamp. Montagem: Carl Kress, Harold F. Kress. Música: John Williams. Figurino: Paul Zastupnevich. Direção de arte/cenários: William Creber/Raphael Bretton. Produção: Irwin Allen. Elenco: Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Richard Chamberlain, Jennifer Jones, Fred Astaire, Susan Blakely, O.J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner. Estreia: 10/12/74

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Fred Astaire), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("We may never love like this again"), Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("We may never love like this again")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Fred Astaire)

Um fenômeno cinematográfico típico dos anos 70 - e que tentou uma sobrevida na década de 90 - o filme-catástrofe quase tornou-se uma espécie de gênero na indústria hollywoodiana, graças a sucessos como a série "Aeroporto" e "O destino do Poseidon". Em 1974, o filme que talvez tenha se tornado a quintessência do estilo levou multidões às salas de cinema, concorreu ao Oscar de melhor produção do ano, escalou um elenco de super-estrelas e, durante duas horas e meia, manteve o público em constante tensão - ancorado por efeitos especiais de última geração. "Inferno na torre" é o típico produto de entretenimento que o cinema americano sempre fez com maestria, ainda que peque no desenvolvimento pouco profundo de seus personagens - detalhe que fica em segundo plano, porém, uma vez que o roteiro, inspirado em dois romances de temática semelhante, consegue manter o suspense até seu final apoteótico.

Primeira vez na história que um filme foi co-produzido por dois grandes estúdios de Hollywood, "Inferno na torre" teve uma produção atípica. A Warner Bros, excitada com o sucesso de seu filme sobre o naufrágio do Poseidon, comprou os direitos do livro "The tower", escrito por Richard Martin Stern. Poucas semanas depois, a Fox, também ciente das possibilidades de lucro de um filme-catástrofe, arrebatou os direitos de "The glass inferno", de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson. Ao contrário do que aconteceria anos mais tarde em inúmeras circunstâncias em Hollywood - empresas diferentes competindo pela bilheteria com filmes similares - os dois estúdios resolveram então juntar forças em um único filme, já que ambos os romances tratavam de um incêndio em um arranha-céu (e coincidentemente ambos foram inspirados na construção do World Trade Center). Rachando as despesas de produção, eles também dividiriam o lucro: a Fox ficaria com a receita doméstica (EUA e Canadá) e a Warner com o lucro internacional. Tudo combinado, eles escalaram o roteirista Stirlig Siliphant para juntar as duas tramas em uma só, juntaram um elenco milionário, contrataram John Guillermin para assinar a co-direção - o produtor Irwin Allen fez questão de comandar as várias cenas de ação - e estavam preparados para correr para o abraço. Mas os problemas estavam apenas começando.


Reunir astros de primeira grandeza em um único set de filmagens não é tarefa das mais fáceis, especialmente quando tais astros são, digamos, temperamentais e egocêntricos. Os produtores de "Inferno na torre" descobriram isso da pior maneira possível. Escalado para viver o arquiteto Doug Roberts, Steve McQueen aceitou interpretar o chefe dos bombeiros desde que "alguém do mesmo calibre dele aceitasse interpretar o arquiteto". Paul Newman foi contratado, o papel do bombeiro teve que ser consideravelmente aumentado para ter exatamente o mesmo número de falas do arquiteto e uma espécie de rivalidade surgiu imediatamente entre os dois atores - que por pouco já não haviam dividido a tela em "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69). Não bastasse isso, McQueen e a atriz Faye Dunaway proibiram quaisquer visitantes ao set de lhe dirigirem a palavra, além de McQueen também recusar-se a dar entrevistas para divulgar o filme. Além disso, Dunaway começou a incomodar a equipe com seus constantes atrasos e faltas, irritando William Holden a ponto do ator fazer-lhe sérias ameaças - o que resultou em um comportamento exemplar da atriz, que voltaria a contracenar com ele (e ganharia um Oscar por isso) em "Rede de intrigas". Tais problemas de bastidores, no entanto, não se refletiram no resultado final: "Inferno na torre" é o típico filme de ação hollywoodiano dos anos 70, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

Os clichês dos filmes-catástrofe estão todos disponíveis para os fãs do gênero, na história do maior prédio do mundo que vê sua glória ser destruída já na festa de inauguração, quando um problema elétrico põe em chamas os andares mais altos da construção: existe o bombeiro heróico (McQueen), o arquiteto que se torna herói por acaso (Newman), os construtores vilões (Holden e Richard Chamberlain), a senhora que protege um casal de crianças (Jennifer Jones), figurantes que morrem queimados, momentos de tensão, uma trama romântica desnecessária (entre Newman e Dunaway) e até um gatinho de estimação que corre o risco de virar churrasco no meio da confusão orquestrada por Guillermin e Allen. Até mesmo o veterano Fred Astaire tem sua chance de brilhar - não dançando, é claro - mas na pele de um escroque que se apaixona por uma possível vítima de seus golpes. Astaire ganhou o Golden Globe de ator coadjuvante e chegou a ser sentimentalmente indicado ao Oscar, mas de certa forma desaparece diante do grandioso espetáculo pirotécnico que tornou-se um clássico da destruição. Para quem gosta é um prato cheio.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

LOUCA ESCAPADA

LOUCA ESCAPADA (The Sugarland Express, 1974, Universal Pictures, 110min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Hal Barwood, Matthew Robbins, estória de Steven Spielberg, Hal Barwood, Matthew Robbins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Edward M. Abroms, Verna Fields. Música: John Williams. Direção de arte: Joseph Alves Jr.. Produção: David Brown, Richard D. Zanuck. Elenco: Goldie Hawn, Ben Johnson, Michael Sacks, William Atherton, Gregory Alcott, Steve Kanaly. Estreia: 04/4/74

Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro (Festival de Cannes)

Sabendo que hoje em dia Steven Spielberg é o mais bem-sucedido cineasta da história de Hollywood, com vários filmes listados entre as maiores bilheterias de todos os tempos e dois Oscar de direção na prateleira, é difícil de imaginar que um dia ele já amargou fracassos que poderiam facilmente ter interrompido precocemente sua brilhante carreira. Foi o que aconteceu, por exemplo, com sua estreia na tela grande: vindo do êxito inesperado de seu "Encurralado", feito para a TV e lançado nas salas de cinema graças a seu sucesso junto aos produtores, Spielberg quase viu seu prestígio recém adquirido desabar com "Louca escapada". Baseado em uma história real, o filme, estrelado por uma Goldie Hawn no auge da popularidade - ela havia ganho um Oscar de coadjuvante em 1969 por "Flor de cacto" e voltaria a concorrer como protagonista em "Recruta Benjamin", em 1980 - não conseguiu encantar as plateias e permanece hoje quase como uma joia escondida na filmografia do diretor. Sorte dele que já no ano seguinte as coisas mudariam definitivamente em sua vida - por graça e obra de um assassino dos mares, no blockbuster "Tubarão".

A história contada em "Louca escapada" aconteceu em maio de 1969 e, apesar de ter durado poucas horas na vida real, foi estendida no roteiro do filme para um período de alguns dias, artifício que funciona perfeitamente para estabelecer com mais consistência as relações interpessoais que se desenham no desenrolar da narrativa e para tornar mais verossímil a simpatia que os protagonistas conseguem conquistar das testemunhas do caso - dentro e fora do filme. Demonstrando que já tinha em seus primórdios como cineasta todas as ferramentas para seduzir a plateia com um senso de ritmo e um equilíbrio perfeito entre o drama, a aventura e o humor, Steven Spielberg conduz seu filme sem pressa, dando ênfase a tudo que pode servir para comover a plateia em seu desfecho - a um passo do sentimentalismo, mas coerente com a sua vindoura e milionária carreira.


Goldie Hawn está brilhante como Lou-Jean, uma ex-presidiária desbocada, simpática e inconsequente que, durante uma visita ao marido, Clovis Poplin (William Atherton), na cadeia, tenta convencê-lo a fugir com ela para que juntos consigam recuperar a guarda de seu filho, ainda bebê, das mãos de um casal que pretende adotá-lo. A princípio relutante em seguir a esposa - falta-lhe apenas quatro meses de sentença antes da liberdade - ele acaba cedendo a seus argumentos e eles pegam uma carona com os pais de outro presidiário. As coisas logo começam a dar errado e, depois de uma perseguição, o jovem policial Slide (Michael Sacks) é tomado como refém pelo casal. Não demora para que a polícia do estado do Texas seja comunicada do crime e saia em disparada atrás do agora trio de fugitivos. Conforme o tempo passa e a caçada aumenta - além de começar a ser transmitida via rádio, o que faz dos ouvintes cúmplices simpáticos à causa de Lou-Jean - começa a formar-se uma relação de amizade entre o casal e o policial, mas o Capitão Tanner (Ben Johnson) não está disposto a deixar que as coisas acabem de outro jeito que não o que ele representa: o da lei.

Spielberg dirige "Louca escapada" com despretensão, levando a audiência junto com seus personagens em uma espécie de road-movie inconformista, com protagonistas que se situam à margem do que se pode chamar de establishment. Mesmo que não sejam exatamente pessoas totalmente corretas e honestas, é difícil não se deixar envolver com seu drama e torcer para que consigam atingir seus objetivos. São anti-herois simpáticos, românticos em seu ideal e, como mostram várias cenas, gentis e calorosos um com o outro e até mesmo com o policial que lhes serve de escudo. Não é à toa que, em uma cena sintomática, sejam ovacionados em uma pequena cidade do interior do Texas e ganhem presentes dos moradores, todos torcendo por um final feliz que a cada minuto torna-se mais distante.

"Louca escapada" é um belo primeiro filme - ainda não contando o extraordinário "Encurralado". Mostra todas as qualidades que seu diretor deixaria bastante claro em um futuro bastante próximo e ainda consegue emocionar em seu final - talvez previsível, talvez surpreendente, dependendo do nível de otimismo do espectador. No fundo, é uma bela história de amor à liberdade e à família, mesmo sendo ela formada por pessoas que em um primeiro olhar não sejam exatamente exemplares.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don't look now, 1973, Casey Productions/Eldorado Films, 110min) Direção: Nicolas Roeg. Roteiro: Alan Scott, Chris Bryant, estória de Daphne Du Maurier. Fotografia: Anthony Richmond. Montagem: Graeme Clifford. Música: Pino Donaggio. Direção de arte: Giovanni Soccol. Produção executiva: Anthony B. Unger. Produção: Peter Katz. Elenco: Donald Sutherland, Julie Christie, Hilary Mason, Clelia Matania. Estreia: 09/12/73

É difícil um filme de suspense ganhar o espectador logo nas primeiras cenas sem que para isso precise apelar para a sanguinolência explícita. E já de cara o perturbador "Inverno de sangue em Veneza" fisga o público, com uma engenhosa edição que diz, apenas com imagens sublimes de crianças brincando em um gramado e uma trilha sonora espetacular de Pino Donaggio, que vem desgraça pela frente. Não demora muito e a plateia é testemunha de tal desgraça: a filha pequena do arquiteto John Baxter (Donald Sutherland) morre afogada praticamente diante dos olhos terrificados do pai e do irmão. Assim começa um dos filmes mais aclamados do cineasta inglês Nicolas Roeg, adaptado de um conto da escritora Daphne Du Maurier - a mesma autora de "Rebecca, a mulher inesquecível" e "Os pássaros", que aprovou de tal maneira a forma cinematográfica que sua estória recebeu que não hesitou em escrever uma carta ao diretor, cumprimentando-o pelo tom funesto que ele imprimiu à trama.

O tom funesto, aliás, não fica apenas na primeira e chocante sequência de "Inverno de sangue em Veneza". A morte da pequena Christine é apenas o ponto de partida para uma viagem angustiante a ruas escuras e pouco convidativas da cidade italiana do título nacional. Fugindo da tentação de mostrar Veneza como um paraíso turístico, Roeg a retrata como o cenário de um pesadelo psicológico, onde cegas videntes, premonições assustadoras e serial killers convivem pacificamente com igrejas em processo de restauração e imagens misteriosas se esgueirando em becos escuros com intenções ainda mais tenebrosas. Roeg se utiliza da fotografia estilizada de Anthony Richmond - que apresenta momentos de grande beleza plástica - e da edição repleta de elipses temporais de Graeme Clifford para traduzir em imagens uma narrativa densa que mantém o suspense até as cenas finais, que completam o complexo quebra-cabeça armado desde seu princípio.


Depois da morte de sua filha, John aceita o trabalho de restaurar uma igreja em Veneza e vai para a Itália acompanhado da esposa, Laura (Julie Christie). Seu objetivo, além do interesse no emprego, é tentar superar o trauma da perda, mas a coisa não parece que vai ser assim tão fácil quando eles encontram duas irmãs em um restaurante da cidade. Uma das irmãs, cega e medium, afirma a Laura ter contato com a menina morta. Além disso, insiste que John também o dom da mediunidade e que precisa sair urgente da cidade, por sua vida estar correndo sério risco. Nesse meio-tempo, o arquiteto passa a ter visões de uma menina vestida com a mesma capa de chuva vermelha que sua filha usava na ocasião de sua morte - e, por coincidência ou não, o casal começa a esbarrar constantemente nas duas velhas irmãs.

Apesar de seu ritmo um tanto lento ser um risco ao espectador menos dado a experimentações estéticas e formais, "Inverno de sangue em Veneza" tem, inegavelmente, o poder de manter o suspense até seu clímax, que também foge do padrão do gênero. Intercalando cenas de extremo poder dramático com momentos de uma aparente paz de espírito entre o casal central - incluindo uma cena de sexo bastante longa e que acabou sendo uma das sequências mais comentadas do filme - Roeg conduz com sutileza uma trama forte e tensa que só vai fazer sentido totalmente em seus momentos finais. Pode ser que a audiência sinta-se incomodada, mas não é essa a intenção de uma obra de arte?