domingo, 30 de novembro de 2014

UM TOQUE DE INFIDELIDADE

UM TOQUE DE INFIDELIDADE (Cousins, 1989, Paramount Pictures, 109min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Stephen Metcalfe, roteiro original do filme "Cousin, cousine", de Jean-Charles Tacchella. Fotografia: Ralf Bode. Montagem: Robert Brown. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Mark S. Freeborn/Linda Vipond. Produção executiva: George Goodman. Produção: William Allyn. Elenco: Ted Danson, Isabella Rossellini, Sean Young, William Petersen, Norma Aleandro, Lloyd Bridges, Keith Coogan. Estreia: 10/02/89

Em 1975, uma comédia francesa sobre adultério e romance entre dois primos circunstanciais rompeu a tradicional barreira do idioma e, sucesso de bilheteria nos EUA, chegou a concorrer a três estatuetas do Oscar: filme estrangeiro, atriz e roteiro original. Mesmo tendo perdido em todas as categorias que disputava, "Primo, prima", dirigido por Jean-Charles Tacchella acabou agradando em cheio aos estúdios americanos, sempre ávidos por histórias que podem ser recontadas ao estilo hollywoodiano - leia-se de forma mais comercial e superficial. Sendo assim, até que demorou que sua refilmagem chegasse aos cinemas, rebatizada no Brasil como "Um toque de infidelidade" - o título original era mais próximo do original francês, mas até que dessa vez os distribuidores nacionais não erraram tão feio assim. Dirigida por Joel Schumacher - um cineasta por vezes competente, por vezes desastroso e muito de vez em quando quase brilhante - a comédia romântica estrelada pela bela Isabella Rossellini e pelo feioso Ted Danson (em alta pelo sucesso de "Três solteirões e um bebê" (87), também oriunda de um filme francês) é simpática e leve, mas incorre no erro mais previsível de todos: não acrescenta nada ao gênero e não fica registrada na mente do espectador.

Não deixa de ser irônico que Rossellini - ela mesma fruto de um dos mais escandalosos casos de adultérios de Hollywood, entre a atriz Ingrid Bergman e o diretor Roberto Rossellini - seja a estrela de "Um toque de infidelidade", apesar de sua escolha ser um dos acertos da produção. Bela e etérea, Rossellini desfila sua classe e elegância naturais pela tela mesmo quando sua personagem, a dedicada e paciente Maria, prescinde dessas qualidades: trabalhando em um escritório de advocacia, ela é casada com o galinha Tom (William Petersen, que anos depois seria o protagonista da telessérie "CSI") e faz vista grossa às inúmeras puladas de cerca do marido, principalmente para manter a harmonia do lar e a segurança da filha pequena. Essa harmonia começa a mostrar sinais de rachadura, porém, depois da festa de casamento de Edie (Norma Aleandro), sua mãe, com Phil (George Coe), tio do charmoso professor de dança de salão Larry (Ted Danson): durante a comemoração, Tom inicia um romance pouco discreto com Tish (Sean Young), a segunda mulher peruíssima de Larry. Sem vocação para barracos, Larry e Maria iniciam uma amizade calcada na compreensão mútua, mas, como não poderia deixar de acontecer, se apaixonam um pelo outro.


"Um toque de infidelidade" trai sua origem francesa no formato episódico com que narra sua estória, situando boa parte de sua trama em cerimônias de casamento e até mesmo em um enterro, em uma estrutura que anos depois faria a glória do bem-sucedido "Quatro casamentos e um funeral" (94). A história do amor enrustido entre Larry e Maria - singelo e verdadeiro - em contraponto à relação explosiva e fugaz de Tom e Tish é oferecido ao público em cenas rápidas e leves, que tira proveito das embaraçosas anedotas familiares e sociais que sempre ocorrem em reuniões entre pais, filhos e afins. Para isso, aproveita-se da ótima química entre Lloyd Bridges e o adolescente Keith Coogan como um avô apaixonado e seu neto com tendências socialistas - que chega ao extremo de editar um vídeo de casamento com imagens da fome no continente africano apenas para chocar os parentes. São coadjuvantes como eles - e uma tia idosa e preconceituosa - que dão o tempero cômico à história que, não fosse por isso, choveria no molhado e morreria na praia das boas intenções.

Porém, mesmo estando longe de ser um filme marcante, "Um toque de infidelidade" se beneficia da simpatia de seu elenco, do ritmo agradável imposto pelo roteiro e pela beleza luminosa de Isabella Rossellini, que deixa um pouco para trás a torturada personagem de "Veludo azul" (86) para entregar uma Maria estonteante em sua simplicidade e radiante em sua felicidade de sentir-se amada e respeitada pela primeira vez. Principalmente em comparação com a performance propositalmente over de Sean Young, a filha de Ingrid Bergman brilha com sua delicadeza e se torna a principal razão de ser do filme de Schumacher, uma descompromissada sessão para os fãs do gênero.

sábado, 29 de novembro de 2014

MEU PÉ ESQUERDO

MEU PÉ ESQUERDO (My left foot, 1989, Ferndale Films, 103min) Direção: Jim Sheridan. Roteiro: Jim Sheridan, Shanne Connaughton, livro de Christy Brown. Fotografia: Jack Conroy. Montagem: J. Patrick Duffner. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: Austen Spriggs/Shirley Lynch. Produção executiva: Paul Heller, Steve Morrison. Produção: Noel Pearson. Elenco: Daniel Day Lewis, Brenda Fricker, Fiona Shaw, Ray McAnally. Estreia: 24/02/89

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jim Sheridan), Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day Lewis), Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker)

Os fã-clubes de Tom Cruise estavam em polvorosa na noite de 26 de março de 1990: finalmente seu ídolo estava em vias de pôr as mãos no Oscar de melhor ator, por seu corajoso e elogiado desempenho como um jovem veterano da Guerra do Vietnã que se torna ativista contra o conflito em "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. O que eles não ousavam supor nem mesmo em seus piores pesadelos, porém, acabou acontecendo, e tudo devido a um ator irlandês pouco conhecido no circuito dos filmes comerciais hollywoodianos: a estatueta foi parar no colo de Daniel Day Lewis, que, mesmo premiado pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles - além de sua Associação Nacional - ainda não era considerado uma ameaça séria por aqueles que tinham Cruise como ídolo. Premiado por seu irrepreensível trabalho em "Meu pé esquerdo", do também irlandês Jim Sheridan, Day Lewis imediatamente tornou-se um dos atores mais respeitados de sua geração, embarcando em uma sucessão de filmes importantes e extraordinários, como "Em nome do pai" (93), novamente com Sheridan, "A época da inocência" (93), de Martin Scorsese e a adaptação para as telas da peça teatral de Arthur Miller "As bruxas de Salem" (96), dirigida por Nicholas Hytner - isso apenas nos anos 90.

Contado em flashback a partir do livro escrito pelo protagonista, Christy Brown (interpretado na infância e adolescência pelo também ótimo Hugh O'Conor), o filme de Sheridan narra sua trajetória desde o nascimento no seio de uma numerosa e pobre família irlandesa dos anos 40 até a publicação de seu livro de memórias, em que conta de que forma conseguiu superar uma paralisia cerebral congênita que lhe permitia mexer apenas seu pé esquerdo. Controlando apenas esse único membro, Brown tornou-se artista plástico e superou todas as dificuldades impostas por sua situação e pela pobreza extrema de sua família - que, mesmo diante de sua doença nunca o tratou ou deixou que o tratassem como deficiente. É esse berço familiar, liderado pela forte e terna Mrs. Brown (Brenda Fricker em atuação também oscarizada) que surge como a luz de sua difícil caminhada, permeada também por desilusões amorosas devastadoras (na adolescência e na vida adulta, quando se apaixona pela médica vivida por Fiona Shaw). Day Lewis se entrega de corpo e alma à sua interpretação, de forma a ofuscar tudo à sua volta, mas mesmo assim deixa espaço para que a direção de Sheridan ilustre com perfeição o estilo de vida irlandês da época em que o filme se passa - sem, contudo, pesar a mão no sentimentalismo e no piegas.


E, se existe alguma diferença no modo com que "Meu pé esquerdo" se destaca das dezenas de produções que também tratam de histórias de superação - além da performance magnífica de Daniel Day Lewis - é a direção madura de Jim Sheridan. Mesmo tendo em mãos uma armadilha gigantesca, o cineasta consegue se desvencilhar dela com maestria, imprimindo até mesmo um inesperado senso de humor ao roteiro, que, mesmo assim, não abre mão de emocionar a plateia com momentos de pura delicadeza e sensibilidade, como a primeira vez em que Christy consegue se comunicar com a família, escrevendo a giz no chão da casa, para espanto de todos, ou quando tenta o suicídio depois de ser rejeitado pela mulher que ama. São cenas fortes, mas dirigidas com discrição, sem o apelo sensacionalista que um diretor mais propenso aos exageros de Hollywood fatalmente levaria consigo. Não foi à toa que Sheridan também conseguiu seu lugar entre os indicados ao Oscar, perdendo o prêmio para Oliver Stone, uma escolha bem mais de acordo com o histórico da Academia - ainda que não tenha sido exatamente uma injustiça, uma vez que "Nascido em 4 de julho" também é um filme de inúmeros méritos.

"Meu pé esquerdo", que concorreu ao Oscar de melhor filme do ano - e, assim como "Nascido em 4 de julho" e "Sociedade dos poetas mortos" perdeu para o inferior "Conduzindo Miss Daisy" - era, de certa forma, um estranho no ninho dentre os candidatos. Produzido fora dos auspícios hollywoodianos, sem um astro milionário em seu elenco e fugindo com categoria das desgastadas fórmulas dos dramalhões lacrimosos, é uma obra que conquista por sua simplicidade e pela verdade que transmite em cada centímetro de celulóide. Talvez tenha sido justamente essa despretensão à emoção fácil que tenha encantado os acadêmicos, tão acostumados a uma dieta pasteurizada de filmes parecidos entre si. O fato é que, se não fosse tão bom, ainda assim teria servido para apresentar devidamente Day Lewis ao grande público - depois de trabalhos bons mas pouco vistos, como "Minha adorável lavanderia" e "A insustentável leveza do ser". Em alguns anos, ele ainda seria oscarizado mais duas vezes, por trabalhos impressionantes em "Sangue negro" (07) e "Lincoln" (12). Quanto a seu rival na noite de ... de março, Tom Cruise? Entrou em um circuito de escolhas equivocadas e, de maior astro dos anos 90, transformou-se em piada e hoje tenta reconquistar seu público com policiais meia-boca e ficções científicas sem graça. O tempo mostrou que talento ainda é a melhor arma.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O TURISTA ACIDENTAL

O TURISTA ACIDENTAL (The accidental tourist, 1988, Warner Bros, 121min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Frank Galati, romance de Anne Tyler. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Bo Welch, Cricket Rowland. Produção executiva: Phyllis Carlyle, John Malkovich. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Bill Pullman, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr.. Estreia: 23/12/88

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)

A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.

Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.


A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.

"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

UM GRITO NO ESCURO

UM GRITO NO ESCURO (A cry in the dark, 1988, Cannon Entertainment/Golam-Globus Produtcion, 120min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: Fred Schepisi, Robert Caswell, romance "Evil angels", de John Bryson. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Jill Bilcock. Música: Bruce Smeaton. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte: Wendy Dickson, George Liddle. Produção executiva: Yoram Globus, Menahem Golam. Produção: Verity Lambert. Elenco: Meryl Streep, Sam Neil, Lauren Sheperd, Bethany Ann Pricket, Brian James. Estreia: 03/11/88 (Austrália)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes - Melhor Atriz (Meryl Streep)

Um dos mais chocantes e infames casos judiciais da história australiana chegou às telas de cinema pouco tempo depois de seu desfecho, no final dos anos 80. Dirigido com economia de emoções por Fred Schepisi, que optou acertadamente por um viés mais documental e menos melodramático - talvez por acreditar que a trama em si já é forte o bastante para precisar de mais firulas sentimentais - "Um grito no escuro" rendeu à Meryl Streep sua oitava indicação ao Oscar e uma inédita premiação como melhor atriz no Festival de Cannes. Nada mais justo. Como é de seu costume, Streep entrega mais uma atuação arrebatadora - ainda que sua personagem passe longe de ser carismática - na pele de Lindy Chamberlain, uma mãe de família que, no início dos anos 80, viu sua vida virar de cabeça pra baixo com a trágica morte de sua filhinha de dez semanas.

Esposa de um pastor adventista e mãe de família devotada, Lindy vai passar um fim-de-semana com todos - dois meninos e a pequena Azaria - em um acampamento no deserto australiano, frequentado por turistas e lar de aborígenes locais. Para seu desespero, depois de colocar o bebê para dormir em uma das tendas, ela vê um dingo (espécie de cão selvagem típico da região) carregá-lo para dentro da mata. Apesar das buscas imediatas, a escuridão da madrugada impede a localização tanto do animal quanto do bebê, que é dado como morto até que suas roupinhas são finalmente encontradas repletas de manchas de sangue. O que a princípio é estabelecido como uma tragédia sem precedentes - afinal, até então os dingos não tinham histórico de atacar seres humanos - logo se transforma, porém, em um caso de polícia. Desconfiando de algumas incongruências na história contada por Lindy (além do fato de ela mostrar-se fria o suficiente em relação à morte da filha para detonar um ataque sem precedentes da opinião pública), a justiça a acusa formalmente de assassinato, com a cumplicidade do marido, Michael (Sam Neil). Sem compreender o estoicismo de Lindy - que se ampara na fé para suportar a dor da perda - nem mesmo os dogmas de sua religião (cercada de lendas preconceituosas pela população que a colocam até mesmo em um ritual de magia negra), o público se encarrega de julgar por si mesmo e fofocas e boatos tornam-se verdades absolutas. Tal situação leva Lindy - grávida novamente na ocasião de seu julgamento - a tornar-se alvo de severas e cruéis críticas.


Contando com um roteiro que se dedica apenas a contar a história, sem julgamentos de valor ou insinuações tendenciosas - apesar do desfecho se encarregar de concluir o caso de forma sóbria e sem maiores espaços para dubiedades - "Um grito no escuro" se mantém em um ritmo ágil, graças ao roteiro, que põe na boca de personagens secundários toda a gama de preconceitos e fofocas que circundaram o caso sem nunca perder de vista o foco principal: a luta de Lindy para provar sua inocência a despeito do tratamento quase cruel que recebeu até mesmo de pessoas que nunca tiveram contato com ela - e de jornalistas que abusaram de sua confiança para reiterar suas opiniões pré-estabelecidas. Meryl Streep tira de letra o desafio de levar às telas uma personalidade tão conflitante quanto a de Lindy Chamberlain: sem tentar buscar a simpatia do público, a atriz (que nunca deu sua opinião a respeito do caso, preferindo interpretá-la sem emitir qualquer julgamento) criou uma protagonista quase fria em sua bravura, capaz de cair na gargalhada quando agredida na rua ou demonstrar tédio em pleno julgamento, mas que também emociona em sua fé inabalável mesmo quando tudo parece lhe estar perdido. Caprichando no sotaque como sempre e utilizando uma sinistra peruca negra para compor a personagem, ela rouba o filme com uma das personagens mais difíceis de sua carreira.

Mas apesar de sua atuação irretocável, "Um grito no escuro" é mais do que simplesmente Meryl Streep. É também um aviso do perigo que a mídia e a opinião pública, quando mal direcionadas, representam para a liberdade individual. É o retrato dos males do preconceito e, acima de qualquer coisa, um filme de primeira qualidade, capaz de prender o espectador na cadeira até seus minutos finais sem apelar para nada mais do que um roteiro conciso, uma direção sóbria e um elenco de atores em dias inspirados. Pode revoltar aos mais sensíveis às injustiças, mas é quase imperdível!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

NAS MONTANHAS DOS GORILAS

NAS MONTANHAS DOS GORILAS (Gorillas in the mist, 1988, Universal Pictures/Warner Bros., 129min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Anna Hamilton Phelan, estória de Anna Hamilton Phelan, Tab Murphy, artigo de Harold T.P. Hayes, história real de Dian Fossey. Fotografia: John Seale. Montagem: Stuart Baird. Música: Maurice Jarre. Figurino: Catherine Laterrier. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Simon Wakefield. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Terence Clegg, Arnold Glimcher. Elenco: Sigourney Weaver, Bryan Brown, Julie Harris, John Omirah Miluwi, Iain Cuthbertson, Constantin Alexandrov. Estreia: 07/10/88

5 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Sigourney Weaver) 

A zoóloga Dian Fossey é conhecida pelos defensores dos direitos dos animais por ter sido a mais corajosa, dedicada e competente estudiosa dos gorilas das montanhas da África, onde travou contato próximo com os animais a ponto de dar-lhes nomes e conhecê-los profundamente. Também marcou seu nome como a maior defensora de tais animais, lutando indiscriminadamente contra sua extinção predatória e por seu final trágico e ainda envolto em mistério. E finalmente, é conhecida por ter dado a Sigourney Weaver um dos melhores papéis de sua carreira e que levou-a à corrida do Oscar de melhor atriz em 1989 - mesmo ano em que também foi indicada como coadjuvante por "Uma secretária de futuro". Dirigido por Michael Apted, "Nas montanhas dos gorilas" é um retrato elogioso e respeitoso tanto de Fossey quanto de seu louvável trabalho - além de ser um belíssimo filme, capaz de emocionar e chocar os espectadores, em especial aqueles que amam os animais.

A indicação de Weaver ao Oscar não foi acidental. Basta pôr os olhos em suas primeiras cenas junto aos gorilas (um trabalho espetacular de animação mecatrônica de Rick Baker misturado a alguns animais verdadeiros) para que se acredite piamente em seu amor por eles, em seu carinho infinito por uma raça tão perigosamente à beira da extinção. A atriz que ficou mundialmente conhecida como a corajosa Tenente Ripley da cinessérie "Aliens" exibe em seu trabalho um extenso leque de nuances, quase todas expressas unicamente em seu rosto - durante as pouco mais de duas horas de projeção, Fossey (na pele de Sigourney) passa pelo fascínio, pela raiva, pelo amor romântico, pelo desespero, pelo carinho e pela felicidade, levando consigo todo o espectador que, emocionado, se deixar levar em sua odisseia contra a violência e o predatorismo.


Fascinada pelos estudos feitos até então sobre os primatas africanos ameaçados de extinção e acreditando-se capaz de enriquecer o material a respeito e quem sabe até estabelecer algum tipo de contato com eles devido à sua experiência como fisioterapeuta, Fossey começa o filme chegando ao continente africano e tentando adaptar-se à nova casa. Não demora muito, porém, para que, com a ajuda do guia Sembagare (John Omirah Miluwi), ela chegue ao encontro de seu maior objetivo, um grupo de gorilas com uma dinâmica social particular e com formas de comunicação que, aos poucos, ela começa a desvendar. Dedicada e quase obsessiva, ela passa a ser bem-recebida na comunidade de tais animais, que a tratam com respeito e quase gentileza. Dando a eles nomes e percebendo suas características especiais, Fossey vai se tornando mais e mais chegada a seu trabalho, o que atrapalha inclusive o nascente e avassalador romance com o fotógrafo Bob Campbell (Bryan Brown), da National Geographic. No entanto, o que era apenas motivo de orgulho acaba se tornando uma guerra pessoal quando a antropóloga entra em conflito direto com caçadores e mercadores de animais, que matam os gorilas apenas para fazer cinzeiro de suas mãos ou bobagens afins. Disposta a fazer o que for preciso para enfrentá-los de igual para igual, ela acaba por colocar a própria vida em risco diante dos interesses financeiros e governamentais.

Inspirador como poucos filmes a respeito de animais - talvez por evitar sempre que possível o sentimentalismo barato e privilegiar a força quase imorredoura de sua protagonista - "Nas montanhas dos gorilas" é um libelo contra a violência à natureza sem o ranço panfletário que normalmente acompanha as produções do gênero. A fotografia de John Seale explora com competência a beleza da vastidão africana em contraponto à feiúra das convulsões sociais que agitavam o continente distante das montanhas, e a trilha sonora do veterano Maurice Jarre - também indicada a uma estatueta da Academia - pontua com discrição a história, ilustrando a trajetória de Fossey com a mesma delicadeza com que ela tratava os gorilas (seus filhos de coração, como fica evidente na sensacional e devastadora cena em que ela vê os corpos sem cabeças de vários deles, vítimas de caçadores). Mas, mesmo com todas as suas qualidades, é a interpretação sobre-humana de Sigourney Weaver que fica na mente do espectador quando os letreiros finais sobem na tela. Mesmo com candidatas fortíssimas ao Oscar de 1989 - Glenn Close em "Ligações perigosas", Meryl Streep em "Um grito no escuro" e a vencedora Jodie Foster em "Acusados" - a estatueta deveria ter ido parar na estante de Weaver, que comprova, de uma vez por todas, que é uma atriz capaz de muito mais do que simplesmente caçar alienígenas.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA

GÊMEOS, MÓRBIDA SEMELHANÇA (Dead ringers, 1988, Morgan Creek Productions, 116min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: David Cronenberg, Norman Snider, romance "Twins", de Bari Wood, Jack Geasland. Fotografia: Peter Suschitzky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith. Produção executiva: Carol Baum, Sylvio Tabet. Produção: Marc Boyman, David Cronenberg. Elenco: Jeremy Irons, Genevieve Bujold, Heide von Palleske, Barbara Gordon, Shirley Douglas. Estreia: 08/9/88

Um romance chamado "Twins", escrito por Barri Wood e Jack Geasland e publicado em 1977, contava a trágica história dos irmãos Stewart e Cyril Marcus, ocorrida no Upper East Side de Manhattan em 1975: ginecologistas que atuavam em conjunto, os dois acabaram entrando em uma espiral de vício em barbitúricos que acabou os levando a uma morte que chocou a alta sociedade nova-iorquina - berço de sua fama, de seu sucesso e de sua decadência. Os detalhes da história - como o fato de um dos irmãos tomar o lugar do outro frente a seus pacientes quando o vício tornou-se irreversível e as circunstâncias bizarras que cercaram seu fim - logicamente chamou a atenção do cinema. Mais ainda, chamou a atenção de um dos poucos cineastas que seriam capazes de contá-la sem apelar para o suspense barato ou o dramalhão edificante: o canadense David Cronenberg. Vindo do sucesso de bilheteria de "A mosca" (86), que lhe deu moral em Hollywood como um diretor bancável, ele realizou "Gêmeos, mórbida semelhança", um filme perturbador e angustiante - características habituais em sua filmografia - amparado em uma atuação nada menos que sublime de Jeremy Irons nos papéis centrais. Injustamente esquecido pela Academia - que só lhe daria o Oscar dois anos mais tarde, por "O reverso da fortuna" (90) - Irons dá um show particular, enriquecendo ainda mais uma trama forte e intrigante - e que deixou muitas espectadoras pouco confortáveis ao visitar seus próprios ginecologistas por um bom tempo.

No filme de Cronenberg os gêmeos se chamam Beverly e Elliot Mantle e, assim como aqueles que os inspiraram, dividem bem mais do que uma mera semelhança física que impede a todos que os diferencie com facilidade: além da sociedade em uma clínica de ginecologia e fertilidade assistida em Toronto (Canadá), eles também tem o hábito (desconhecido por todos, obviamente) de compartilhar amantes. A dinâmica de sua sociedade também implica no fato de que Beverly é bem mais tímido e retraído do que Elliott, que responde pela agenda social do empreendimento e tem um relacionamento mais afável com as clientes enquanto o irmão é responsável pelas pesquisas que fazem a fama dos dois. Sua rotina quase inalterável é bruscamente interrompida, porém, quando entra em cena a famosa atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), que procura a clínica devido à sua dificuldade de engravidar. Fascinado, Elliot descobre que a atriz tem uma trompa trifurcada - fato clinicamente raro - e acaba passando uma noite com ela, apenas para, logo em seguida, deixar que Beverly também o faça. Quando Beverly se apaixona por Claire, porém, sua personalidade afável torna-se obsessiva e autodestrutiva - o que põe em risco toda a reputação construída por ele e por Elliot.


Premiado como melhor ator pelas associações de críticos de Chicago e Nova York, Jeremy Irons nunca esteve melhor - nem mesmo em sua atuação premiada com o Oscar. Diferentemente do que acontece com frequência com atores que interpretam gêmeos, ele não faz questão de deixar evidente para a audiência as diferenças entre seus personagens, confundindo o público da mesma forma como os próprios irmãos acabam confundido suas personalidades conforme a trama vai se desenrolando. De acordo com o roteiro e com a direção de Cronenberg, os Mantle vão, aos poucos, se fundindo um ao outro, eliminando a tênue linha que sempre os separou. Assim que tal linha desaparece o filme vai se afundando em cenas cada vez mais tensas e angustiantes, que convidam o público a compartilhar uma atmosfera de pesadelo orquestrado com uma elegância grotesca e feérica - em cenas que ficam na memória graças a seu desenho visual, como as cirurgias com os instrumentos bizarros criados por Beverly sendo realizadas como se fossem um ritual pagão, com os médicos todos vestidos de um vermelho forte sob uma luz ofuscante. Somados à imersão de Irons em seu trabalho, tais momentos de "Gêmeos, mórbida semelhança" o elevam a um patamar acima dos dramas de suspense convencionais, cutucando o público a ponto de incomodá-lo.

Se em seus trabalhos imediatamente anteriores em Hollywood o diretor David Cronenberg deixou um pouco de lado sua tendência à violência gráfica e ao explícito (mesmo em "A mosca" eles estavam diluídos em uma espécie de mainstream que o tornou imensamente popular), em "Gêmeos", ele parece ter voltado para casa, para seus tempos de "Videodrome, a síndrome do vídeo", em que brincava com o grotesco sem medo da reação crítica e financeira à sua obra. Em "Gêmeos", ele parece ter encontrado um equilíbrio entre a agressão quase gratuita de seus primeiros filmes e a elegância (se é que se pode chamar assim um filme onde, em um pesadelo, um personagem rompe com os dentes o que o mantinha preso no corpo do irmão) que a experiência e a maturidade lhe deram. Talvez por isso exista, dentro desse seu grande filme, a essência de toda a sua filmografia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

CUIDADO COM AS GÊMEAS

CUIDADO COM AS GÊMEAS (Big business, 1988, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Jim Abrahams. Roteiro: Dori Pierson, Marc Rubel. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas. Música: Lee Holdridge. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: William Sandell/Richard C. Goddard. Produção: Michael Peyser, Steve Tisch. Elenco: Bette Midler, Lily Tomlin, Fred Ward, Edward Herrmann, Michele Placido, Daniel Gerroll, Barry Primus, Michael Gross, Seth Green. Estreia: 10/6/88

Uma das maiores estrelas da Touchstone (braço adulto da Disney) nos anos 80 era Bette Midler. Com o sucesso de seus filmes "Um vagabundo na alta-roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Que sorte danada..." (87), a atriz/cantora que havia sido indicada ao Oscar já em sua estreia nos cinemas, na representação ficcional de uma estrela do rock calcada em Janis Joplin em "A rosa" (79), era garantia de polpudas bilheterias para o estúdio do Mickey. Por isso, não foi nenhuma surpresa quando ela assumiu o papel principal de "Cuidado com as gêmeas", pensado originalmente para Barbra Streisand. Sob a direção de Jim Abrahams - parte integrante do trio de cineastas que anarquizou a comédia americana dos anos 80 com seus filmes amalucados ao estilo "Apertem os cintos, o piloto sumiu" (80) - e com um roteiro baseado na estrutura shakespereana de "Comédia de erros", o filme comprovou a popularidade de Midler como uma atriz versátil e carismática, em um papel duplo que ela divide com generosidade e categoria com sua parceira de cena, a ótima Lily Tomlin - retornando à cena quatro anos depois de sua bem-sucedida parceria com Steve Martin em "Um espírito baixou em mim" (84).

O estilo de humor escrachado de Midler se encaixa com perfeição à quase fleumática Tomlin, o que torna as situações previstas no roteiro bem-amarrado ainda mais divertidas e surreais, principalmente quando dirigidas pela mente insana de Abrahams, que já havia trabalhado com Midler em "Por favor, matem minha mulher". É ele quem orquestra uma odisseia de mal-entendidos, confusões visuais e verbais e o show das duas atrizes, que parecem se divertir tanto quanto o espectador, em papéis que fazem uso de seus inúmeros talentos de forma orgânica e inteligente. Se Midler acaba se sobressaindo é justamente porque o humor do diretor acaba sendo mais próximo do seu, chegando ao quase exagero, mas Tomlin (que também é respeitada como atriz séria, tendo sido indicada ao Oscar de coadjuvante por "Nashville", de 1975) não perde a oportunidade de ter seus momentos de brilho, especialmente quando assume a persona atrapalhada e avoada de sua Rose milionária.


A trama é puro nonsense, e começa no dia do nascimento das protagonistas, em uma pequena cidade do interior chamada Jupiter Hollow, onde por acaso estão passando os Shelton, um casal de milionários em vias de ter seu primeiro herdeiro. Sem conseguir adiar o parto, a arrogante sra. Shelton acaba dando à luz a suas duas filhas, Sadie e Rose, no simples hospital local que eles acabam comprando, onde os tímidos e humildes Ratliff também estão vendo suas filhas nascerem - e serem batizadas, por obra não do destino, mas do próprio pai, encantado com os nomes das meninas ricas, também como Sadie e Rose. Tudo seria apenas uma questão quase normal, caso a idosa e míope enfermeira do hospital não trocasse os bebês. Quarenta anos mais tarde, a implacável empresária Sadie Shelton (Midler), que mora em Nova York, pretende livrar-se das propriedades adquiridas pelos pais no interior do país, que só lhe dão prejuízo e dor de cabeça - apesar das dúvidas de sua irmã, Rosie (Tomlin), uma mulher afável e delicada que não tem a mesma visão comercial agressiva da irmã. As ameaças de Sadie em desfazer-se das empresas em Jupiter Hollow não agradam nem um pouco à Rose pobre (novamente Tomlin), que pretende encarar a diretoria das empresas em Nova York - e meio que fugir de seu insistente namorado Roone (Fred Ward) - e levar junto sua deslumbrada e fútil irmã, Sadie (Midler, dessa vez com registro mais cafona). Não é preciso dizer que as quatro se hospedam no mesmo hotel - o Plaza - e causam uma série interminável de confusões entre os empregados, os empresários que precisam decidir o futuro da companhia das Shelton e até mesmo entre elas próprias.

"Cuidado com as gêmeas" é uma comédia quase histérica, repleta de situações engraçadíssimas, aproveitadas com gosto por suas protagonistas e seu elenco coadjuvante, que mesmo numeroso, rende com precisão sob o comando firme de Jim Abrahams. A cena em que os dois pares de irmãs se encontram pela primeira vez em um banheiro, por exemplo, é uma prova inconteste do timing cômico extraordinário de suas atrizes, que imprimem a cada personagem uma personalidade própria, independente das semelhanças e diferenças que possam vir a ter com suas respectivas familiares. Não importa o tipo de humor do espectador, há muito do que rir no filme de Abrahms. A não ser que não se tenha nenhum tipo de humor.

domingo, 23 de novembro de 2014

A SÉTIMA PROFECIA

A SÉTIMA PROFECIA (The seventh sign, 1988, TriStarPictures, 97min) Direção: Carl Schulz. Roteiro: Clifford Green, Ellen Green. Fotografia: Juan Ruiz Anchía. Montagem: Caroline Biggerstaff. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Durinda Wood. Direção de arte/cenários: Stephen Marsh/Crickett Rowland. Produção executiva: Paul R. Gurian. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Demi Moore, Michael Bihen, Jurgen Prochnow, Peter Friedmn, Manny Jacobs. Estreia: 01/4/88

O vasto público fã de filmes de terror sabe que um bom exemplar do gênero dispensa assassinos mascarados ou violência a granel quando a trama tem uma base forte o bastante para sustentar duas horas de tensão e suspense. É por isso que filmes como "O bebê de Rosemary" (68), "O exorcista" (73) e "A profecia" (76), por exemplo, se mantém até hoje como ícones de um cinema em que o medo surge mais do imaginado e do plausível - ao menos em termos religiosos, para quem acredita na Bíblia - do que do excesso de sangue. Em 1988, já imaginando a correria que seria quando o final do milênio se aproximasse ainda mais e os estúdios entrassem em desespero atrás de uma audiência disposta a ouvir mais uma história sobre o Apocalipse, os anjos divinos e as tentativas de algum herói schwarzzenegeriano de salvar a humanidade, a TriStar lançou "A sétima profecia", um bem-intencionado drama de suspense que misturava os tais sinais de Deus enviados à Terra como forma de anunciação da hecatombe com uma alegoria mal disfarçada sobre a salvação dos inocentes. Dirigido pelo pouco experiente Carl Schultz - húngaro cujo currículo inclui várias passagens por séries de TV - e estrelado pela ainda iniciante Demi Moore, o filme conquista pelo clima imposto desde as primeiras cenas, mas tropeça em sua irregularidade.

Moore - belíssima, mas ainda longe de ser a estrela que se tornaria dois anos depois, com sua presença no lacrimoso "Ghost, do outro lado da vida" (90) - interpreta Abby Quinn, uma restauradora de obras de arte que está nos últimos meses de uma gravidez complicada e que mantém ainda na memória a traumática perda de uma gestação anterior. Casada com o advogado Russell (Michael Biehn), que está atolado de trabalho tentando salvar da pena de morte um jovem excepcional que matou os pais - segundo ele mesmo, por ordens de Deus - Abby se dedica a decorar o quarto de seu bebê e esperar ansiosamente pelo parto, apesar dos temores de um novo aborto. Sua rotina é alterada com a chegada de David Bannon (Jurgen Prochnow), o misterioso locatário de um quarto nos fundos de sua casa, cujos estudos a respeito da Bíblia e alguns escritos em uma língua desconhecida incutem nela uma apreensão inexplicável. Contando com a ajuda do jovem Avi (Manny Jacobs) - que conhece o idioma graças a aulas com um judeu ortodoxo que mora em frente à sua casa - Abby descobre que os sinais previstos no Apocalipse e que apontam para o fim do mundo - tais como desastres tidos como naturais - estão acontecendo de forma sistemática e que seu filho ainda não-nascido tem um papel crucial na história. Cabe a ela, então, encontrar uma maneira de impedir tal desastre.


A maior qualidade de "A sétima profecia" é o fato de basear seu roteiro no mais controverso livro da Bíblia, o Apocalipse, sem tornar-se um enfadonho exercício de discussão teológica. Até mesmo quando as cartas são finalmente postas à mesa - e a relação de vidas passadas entre Abby, Bannon e o enigmático emissário do Vaticano, o Padre Lucci (Peter Friedman), é finalmente revelada, assim como suas missões na Terra - o roteiro consegue desviar-se da previsibilidade, mantendo o interesse da plateia viva a despeito da burocracia excessiva da direção de Schulz e da apática atuação de Demi Moore. Para isso muito contribui a interpretação do enigmático Jurgen Prochnow e a trilha sonora discreta mas eficiente de Jack Nietzsche, que dá o tom exato a cada cena mesmo quando a direção não consegue deixar de escorregar para os clichês mais batidos do gênero. O final - com a revelação de que o sacrifício de um mártir pode impedir o encerramento do ciclo de profecias - até tenta dar um novo gás à trama, mas é quase tarde demais.

Mesmo sem maiores novidades e assumindo quase um tom de filme televisivo, "A sétima profecia" funciona junto a seu público-alvo por jamais se deixar ceder à tentação de fazer graça de si mesmo. É um filme sério, tratado como tal e disposto a ir até o final em suas intenções, mesmo que isso represente escapar do onipresente final feliz (ou pior ainda, de um final que aponte para uma continuação). Sua seriedade é um de seus pontos altos, contrariando uma regra que viria em seguida dentro do gênero, que misturava tramas de horror com momentos de humor. Carl Schultz pode não ser criativo ou ousado - muito pelo contrário - mas consegue manter o tom pessimista de seu trabalho até seus momentos finais. Já é uma grande coisa!

sábado, 22 de novembro de 2014

QUERO SER GRANDE

QUERO SER GRANDE (Big, 1988, 20th Century Fox, ) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Gary Ross, Anne Spielberg. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Música: Howard Shore. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, George DeTitta. Produção: James L. Brooks, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Elizabeth Perkins, Robert Loggia, John Heard, Jared Rushton, David Moscow, Mercedes Ruehl, Jon Lovitz, Debra Jo Rupp. Estreia: 03/6/88

2 indicações ao Oscar: Ator (Tom Hanks), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Tom Hanks)

Um bom tempo antes de consagrar-se como apenas o segundo ator a levar dois Oscar na categoria principal em anos consecutivos - como o fez Spencer Tracy em 1937/38 - Tom Hanks era apenas considerado um ator de comédias ligeiras, o que sua participação em filmes como "A última despedida de solteiro" (84) e "Um dia a casa cai" (86) apenas reiterava. No entanto, foi justamente por uma dessas produções despretensiosas que ele começou a ser percebido como alguém cujo talento merecia uma maior atenção. Por "Quero ser grande", de Penny Marshall, ele saiu-se vencedor do Golden Globe de melhor ator em comédia/musical de 1988, deixando para trás nomes como Michael Caine, Bob Hoskins e Robert De Niro - que inclusive chegou a ser cotado para o mesmo papel - e foi indicado à sua primeira estatueta dourada. Nada mais justo, uma vez que sua interpretação de Joshua Biskin, um garoto de 12 anos de idade que acorda no corpo de um homem de 30 é nada menos que genial, repleta de nuances e detalhes que são impossíveis de ignorar.

Hanks - que voltou ao projeto depois de tê-lo abandonado por causa de outros compromissos profissionais - está à vontade no papel de Joshua como poucas vezes em sua carreira. Seus trejeitos, que lembram com exatidão o comportamento de um pré-adolescente (e que foram copiados ao pé da letra dos movimentos do jovem David Moscow, que interpreta o protagonista com seu corpo original) conquistam o público juntamente com a inocência de seu personagem - que leva sua colega de trabalho (Elizabeth Perkins) para dormir em sua casa e passa quase a noite inteira pulando em uma cama elástica - e sua excelente química com Jared Rushton, que interpreta seu melhor amigo, Billy. Mesmo com alguns pequenos problemas no roteiro, como a pouca importância dada à sua família depois de seu "desaparecimento" e a premissa inicial pouco verossímil - mas que é facilmente comprada graças à simpatia do filme como um todo - Hanks domina a obra de tal forma que toda e qualquer falha torna-se imediatamente perdoável.


Para quem não conhece a história, ela é das mais simples, como convém: Joshua Baskin é um pré-adolescente como outro qualquer, que frequenta a escola, brinca com o vizinho e melhor amigo Billy e é apaixonado por uma de suas colegas (que, como sempre acontece, mal sabe de sua existência, preferindo a companhia de rapazes mais velhos e mais altos). Um dia, visitando um parque de diversões com a família, ele dá de cara com uma máquina que promete realizar qualquer desejo. Em um impulso, ele pede para tornar-se grande, mas perde as esperanças quando percebe que a máquina está desligada da tomada. Na manhã seguinte, para sua surpresa, ele acorda com o corpo de um homem de 30 anos. Com a ajuda de Billy, ele foge de casa atrás do parque (que já abandonou sua cidade), enquanto seus pais entram em desespero com seu desaparecimento. Enquanto investiga o destino da máquina que o transformou, ele arruma emprego em uma fábrica de brinquedos, conquista o patrão (Robert Loggia) com suas ideias e sua "mente aberta ao pensamento infantil" e seduz inadvertidamente uma das diretoras da empresa (Elizabeth Perkins).

Dona da já clássica sequência em que Joshua e seu patrão sapateam o "Bife" em um teclado gigantesco em uma loja de brinquedos e de inúmeras cenas repletas de um humor ingênuo e deliciosamente simples, "Quero ser grande" tornou-se o primeiro filme dirigido por uma mulher a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares de arrecadação e conquistou também uma indicação ao Oscar de roteiro original - escrito pela irmã de Steven Spielberg, Anne, e pelo futuro cineasta de "A vida em preto-e-branco" Gary Ross. É o perfeito exemplo de um produto tipicamente hollywoodiano, mas com uma alma e uma sensibilidade que poucos filmes tem, além de despertar gargalhadas sem fazer muito esforço. Hanks tornou-se grande. E não foi à toa.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

OS FANTASMAS SE DIVERTEM

OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice, 1988, Geffen Company, 92min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Michael McDowell, Warren Skaaren, estória de Michael McDowell, Larry Wilson. Fotografia: Thomas Ackerman. Montagem: Jane Kurson. Música: Danny Elfman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Catherine Mann. Produção: Michael Bender, Richard Hashimoto, Larry Wilson. Elenco: Alec Baldwin, Geena Davis, Winona Ryder, Michael Keaton, Catherine O'Hara, Jeffrey Jones, Glenn Shadix. Estreia: 29/3/88

Vencedor do Oscar de Maquiagem

Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".

Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".


Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.

Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".

"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

UM GRITO DE LIBERDADE

UM GRITO DE LIBERDADE (Cry freedom, 1987, Universal Pictures, 157min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley, livros "Biko" e "Asking for trouble", de Donald Woods. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton, Jonas Gwangwa. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Kevin Kline, Denzel Washington, Kevin McNally, Penelope Wilton, Kate Hardie. Estreia: 05/11/87

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Cry freedom")

Uma das figuras mais importantes na luta anti-Apartheid na África do Sul nos anos 70, Steve Biko pode não ser tão reconhecido internacionalmente como Nelson Mandela, mas seu legado, centrado principalmente na fundação do Movimento da Consciência Negra é incontestável, o que fez com que o cineasta Richard Attenborough o escolhesse como tema de um de seus filmes mais extraordinários, "Um grito de liberdade". Baseado em dois livros escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods sobre o assunto, o roteiro de John Briley escolhe como foco de sua narrativa não a vida do militante - interpretado com a garra de sempre por um Denzel Washington indicado ao Oscar de coadjuvante - mas sim a sua relação com Woods, editor do Daily Dispatch, importante jornal do país, que tem sua visão imparcial sobre a situação política transformada a partir de seu contato com a realidade da população negra. Politicamente impactante e bem interpretado, o filme de Attenborough só peca em estender demais sua história - ainda que nunca chegue a perder o ritmo de urgência que imprime desde seus primeiros minutos.

Ao optar por dar a protagonização de sua história a Donald Woods - branco, bem-sucedido, protegido pelas leis criadas por pessoas como ele - e não a Steve Biko (em tese a gênese da produção), o roteiro de Briley acerta duplamente. Primeiro, por fazer com que o público vá descobrindo, junto com o jornalista (interpretado com maestria por Kevin Kline), toda a extensão do problema do racismo endêmico da África do Sul pelos olhos de quem o sofre: antes de seu contato com Biko, Woods apenas o considerava um racista ao contrário, que defendia a violência com as mesmas armas de seus antagonistas. Quando finalmente as coisas ficam claras para ele - e consequentemente para a plateia - vem o primeiro choque, que não convém revelar, mas que dará o empurrão para a segunda parte do filme. Revoltado e agora consciente das barbaridades do regime, caberá ao jornalista bradar a verdade ao mundo, mesmo que isso signifique o fim de sua pacífica vida familiar e profissional.


Não é à toa que o cineasta grego Costa-Gavras - sempre inclinado a assinar produções de forte cunho político - tinha intenção de filmar a história de Steve Biko: a segunda metade do filme de Attenborough se mostra um thriller político de primeira linha, com direito a sequências de suspense, planos mirabolantes e um final arrepiante, que encena um dos mais inexplicáveis (se é que algum é) massacres ocorridos no país durante o período retratado na trama. Nessa segunda parte da narrativa, Woods - banido pelo governo e impedido de sair de casa ou comunicar-se com quem quer que seja exceto membros de sua família - resolve atravessar um manuscrito onde descreve todos os absurdos que testemunhou (assim como as ostensivas mentiras contadas pelo governo a respeito da morte de dezenas de ativistas negros) e lançá-lo em forma de livro. Attenborough comanda esses momentos com segurança, deixando o público aflito, torcendo por um final que, apesar de já ser conhecido, parece nunca chegar. É aí que entra também a importância da trilha sonora - indicada ao Oscar - e do trabalho de Kevin Kline, que conquista a simpatia da audiência como uma espécie de super-herói, disposto a melhorar um mundo apesar de suas consequências.

"Um grito de liberdade" é um filme político sem o ranço de um filme político. É, mais do que isso, um filme sobre pessoas, sobre seres humanos, sobre o desejo inquebrantável de um povo por sua liberdade, por seus direitos inatos. É também uma aula de história ilustrada com momentos de tensão, emoção e esperança, além de um filme como Attenborough nunca mais conseguiu fazer - talvez nem mesmo o anterior "Gandhi" (82), apesar dos Oscar e do frisson na ocasião de sua estreia, seja tão bom do ponto de vista narrativo. E é, finalmente, um filme que precisa ser revisto sempre, como lembrança das atrocidades de que o homem é capaz de fazer a outro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

SEM SAÍDA

SEM SAÍDA (No way out, 1987, Orion Pictures, 114min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Robert Garland, romance "The big clock", de Kenneth Fearing. Fotografia: John Alcott. Montagem: William Hoy, Neil Travis. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Gibeson. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Robert Garland, Laura Ziskin. Elenco: Kevin Costner, Gene Hackman, Sean Young, Will Patton, Howard Duff, George Dzunza, Iaman, Jason Bernard, David Paymer. Estreia: 14/8/87

Em Hollywood poucas coisas são mais valorizadas do que saber a hora certa de lançar um filme. Às vezes pequenas obras-primas são prejudicadas por estratégias equivocadas de lançamento, enquanto em outras ocasiões filmes medíocres são alçados ao posto de campeão de bilheteria simplesmente porque estrearam na hora certa. Um exemplo de como esse posicionamento comercial pode definir a sorte de um produto - um filme, um astro, uma marca - pode ser encontrado claramente em "Sem saída", eficiente thriller de espionagem dirigido por Roger Donaldson. Pronto desde 1986, ele foi segurado por seu estúdio - a Orion Pictures - até o segundo semestre de 1987. A razão? Eles queriam aproveitar o sucesso que previam para a superprodução "Os intocáveis", de Brian DePalma - que realmente foi muito bem-sucedido nas bilheterias - para capitalizar em cima do astro de ambos os filmes, o então recém-descoberto Kevin Costner. Deu certíssimo - para eles e para Costner. Não só seu filme rendeu mais que o dobro do seu custo como confirmou o status de astro ascendente do ator, que em poucos anos até diretor vencedor do Oscar se tornaria (antes de afundar-se no egocentrismo de filmes catastróficos como "Waterworld" (95) e "O mensageiro" (97)). Mas o melhor de tudo é que, sem essa visão mercadológica, era bem possível que, mesmo com a presença de Gene Hackman no elenco, "Sem saída" acabasse passando em branco, o que seria uma tremenda injustiça com um filme que merece o sucesso que fez.

Uma espécie de precursor das adaptações cinematográficas de Tom Clancy e John Grisham, "Sem saída" é envolvente e surpreendente, com reviravoltas em número o suficiente para prender a atenção até mesmo do público mais descolado do gênero - além de apresentar Costner em cenas bastante ousadas com Sean Young, antes de tornar-se o queridinho bem-comportado da América (e depois ver esse titulo escorrer pelo ralo pelos escândalos de traições conjugais). Ele vive Tom Farrell, um oficial da Marinha americana que é escalado por um antigo colega, Scott Pritchard (Will Patton) para trabalhar no Pentágono ao lado do Secretário de Defesa, David Brice (Gene Hackman) - que quer sua ajuda para obter informações a respeito da construção de um caríssimo submarino que ele acredita ter mais conotações políticas do que necessárias. Não demora muito para que Farrell descubra que a mulher por quem está apaixonado - a sexy e desinibida Susan Atwell (Sean Young) - também tem um caso antigo com Brice, o que o coloca em rota de colisão com seu chefe. A situação fica ainda mais complicada quando uma tragédia muda o curso da história e Farrell precisa utilizar-se de trapaças e mentiras para sair com vida de uma conspiração que envolve até mesmo um suposto espião russo infiltrado no Pentágono.

Narrado sem pressa por Donaldson, que conta com um roteiro de pedigree literário, já que é inspirado livremente no romance "The big clock", de Kenneth Fearing (por sua vez já havia sido adaptado com mais fidelidade em um filme de 1948 estrelado por Ray Milland e Charles Laughton, mas sem conotações políticas), "Sem saída" muda drasticamente de tom em sua segunda metade, quando o idílico e romântico começo dá espaço a uma corrida desesperada contra o relógio. Acusado de um crime que não cometeu, Farrell precisa provar sua inocência e desmascarar os reais responsáveis por sua desesperada situação, tendo sua angústia testemunhada apenas pela audiência, que o acompanha através da câmera nervosa de John Alcott pelos corredores apertados do Pentágono. A tensão crescente, sublinhada pela música do veterano Maurice Jarre e pela edição ágil que não permite o menor descanso - nem ao personagem nem à plateia - só acaba nas sequências finais, que apresentam não apenas um clímax forte o suficiente mas também uma surpresa que muda tudo que havia sido estabelecido até então.

Dirigido com firmeza e com senso de entretenimento na medida certa, "Sem saída" foi o veículo ideal para a construção do ídolo Kevin Costner, que sai-se muito bem em seu primeiro papel de protagonista, mesmo quando precisa encarar Gene Hackman como um dos vilões mais frios de sua carreira. A química entre o galã e a bela Sean Young (que já havia chamado a atenção como uma replicante em "Blade Runner, o caçador de androides" (82)) é outro ponto alto do filme, e culmina com a já famosa cena no interior de uma limousine que passeia pelos pontos turísticos de Washington enquanto os dois estão pra lá de entretidos com paisagens menos clássicas. Tal momento de descontração serve de prelúdio para o abismo que ambos irão encontrar em seguida - e no qual serão seguidos atentamente pelo público que, pelos anos seguintes, correria a qualquer sala de cinema que estivesse apresentando um filme de Costner, um ator cuja queda foi tão espetacular quanto sua ascensão dentro da indústria hollywoodiana.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

SOB SUSPEITA

SOB SUSPEITA (Suspect, 1987, TriStar Pictures, 121min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Michael Kamen. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte: Stuart Wurtzel. Produção executiva: John Veitch. Produção: Daniel A. Sherkow. Elenco: Cher, Dennis Quaid, Liam Neeson, John Mahoney, Joe Mantegna, Philip Bosco. Estreia: 23/10/87

Em seu caminho para tornar-se uma atriz séria e respeitada - e não apenas uma figura excêntrica do mundo pop, como apontava sua carreira como cantora ao lado do marido Sonny Bono nos anos 60 - Cher soube escolher como ninguém seus papéis. Foi indicada ao Oscar de coadjuvante pela lésbica que viveu em "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), ao lado de Meryl Streep e foi eleita a melhor atriz do Festival de Cannes 1985 como a mãe coragem de um adolescente deformado por uma doença rara em "Marcas do destino". No mesmo ano em que finalmente levou pra casa sua estatueta dourada pela comédia romântica "Feitiço da lua", ela demonstrou versatilidade em dois outros filmes radicalmente diferentes: na mescla de humor negro/horror/comédia "As bruxas de Eastwick", de George Miller (em que atuou ao lado do já consagrado Jack Nicholson e das futuras estrelas Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon) e em "Sob suspeita", um correto mas burocrático drama de tribunal dirigido pelo veterano Peter Yates. Na pele de uma defensora pública envolvida em um crime aparentemente banal, a estrela que um dia fez pouco dos conselhos da tradicional Academia de Hollywood para vestir-se como uma atriz séria mostrou que não é o figurino que

No filme de Yates, Cher vive Kathleen Riley, uma defensora pública de Washington solitária e levemente workaholic que, às vésperas do Natal recebe a incumbência de defender um sem-teto acusado de ter assassinado a secretária de um juiz que acaba de se suicidar. O caso é, a príncipio, bastante simples. O réu, Carl Wayne Anderson (Liam Neeson) estava de posse da bolsa da vítima e foi encontrado dormindo em seu carro, o que imediatamente o coloca como culpado aos olhos de todo o tribunal. Porém, Riley não é de desistir tão facilmente, principalmente quando descobre que seu cliente é surdo-mudo, vítima da guerra do Vietnã. Enquanto tenta provar sua inocência - mesmo sendo sistematicamente boicotada pelo juiz Helms (John Mahoney) - ela conta com a inesperada ajuda do lobista Eddie Sanger (Dennis Quaid), com quem acaba se envolvendo.


Como todo bom filme de tribunal, "Sob suspeita" não prescinde das reviravoltas que levam a trama aparentemente simples a caminhos perigosos e jamais imaginados inicialmente. O roteiro de Eric Roth - que menos de uma década depois levaria um Oscar por "Forrest Gump, o contador de histórias" (94) - é feliz em desenhar sua história sem pressa, levando o espectador a descobrir junto com os protagonistas a teia de conspiração que se revela no último ato, apesar do final anti-climático. Apesar de não dividirem muitas cenas românticas, Cher e Dennis Quaid tem uma química interessante e ela demonstra uma segurança em cena que demonstra claramente que já estava mais do que preparada para o prestígio que viria a obter em seguida. Seus duelos com Liam Neeson - que fala com os olhos e com o corpo mais do que o suficiente para prender a atenção da plateia - são repletos de uma tensão que infelizmente não se mantém no restante do filme, que muitas vezes se perde em cenas pouco interessantes. Felizmente, no entanto, "Sob suspeita" tem mais qualidades do que defeitos, o que faz dele um bom programa para fãs do gênero (ou da atriz).

É dificil gostar de filmes de tribunal e não se deixar conquistar por "Sob suspeita". É bem escrito, dirigido com correção e interpretado por atores extremamente competentes, além de ter uma trama com uma boa cota de reviravoltas que não apelam para a violência gratuita ou para o sadismo puro e simples de muitos filmes que se arriscam a contar histórias policiais. No final das contas, é mais um bom trabalho de Cher como atriz, provando-a uma artista multi-facetada que infelizmente deixou o cinema de lado a partir do final da década de 90 para voltar a dedicar-se à música pop. Ganharam as pistas de dança, mas perdeu o cinema.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

NAMORADA DE ALUGUEL

NAMORADA DE ALUGUEL (Can't buy me love, 1987, Apollo Pictures, 94min) Direção: Steve Rasch. Roteiro: Michael Swerdlick. Fotografia: Peter Lyons Collister. Montagem: Jeff Gourson. Música: Robert Folk. Figurino: Gregory Poe. Direção de arte/cenários: Donald L. Harris/Andrew Bernard, Christian W. Russhon. Produção executiva: Ron Beckman, Jere Henshaw. Produção: Thom Mount. Elenco: Patrick Dempsey, Amanda Peterson, Courtney Gains, Seth Green, Sharon Farrell. Estreia: 14/8/87

Um dos mais populares e prolíficos sub-gêneros cinematográficos dos anos 80, a comédia romântica adolescente foi responsável por alçar ao posto de ídolos nomes que não resistiriam ao tempo e sumiriam frente à mudança de década e do gosto de seu público-alvo, que, à medida em que envelheciam partiam em busca de filmes menos ingênuos. Foi assim com a musa teen Molly Ringwald, com os sex symbols Rob Lowe (que ainda manteve a carreira, mas em marcha bem mais lenta) e Andrew McCarthy e com praticamente todos os atores lançados por John Hughes. Outro que começou a carreira como um patinho feio desejando a garota mais popular da escola foi Patrick Dempsey - que depois de amargar um bom tempo no limbo foi resgatado para a fama com a telessérie "Grey's anatomy". Em "Namorada de aluguel" ele já demonstrava que levava jeito como galã desajeitado... e o filme acabou virando cult movie entre a garotada oitentista.


Embalado pela canção-título interpretada pelos Beatles, "Namorada de aluguel" é uma comédia de erros agradável e simpática, muito valorizada pela interpretação de Dempsey, que interpreta Ronald Miller, um nerd esforçado que trabalha cortando a grama da vizinhança com o objetivo claro de comprar um telescópio e aproximá-lo de uma de suas maiores paixões: a astronomia. Sua outra paixão é, como não poderia deixar de ser em um filme do gênero, a bela e desejada Cindy Mancini (Amanda Peterson), que só o repara na hora de pagar por seus serviços de jardinagem. Namorada de um jogador de futebol mais velho e idolatrado pelos colegas, Cindy vive cercada de um séquito de admiradores e amigas, todos a anos-luz de distância do grupo de Ronald, que passam as noites de sábado jogando pôquer e se dedicam mais aos estudos do que às festas. Porém, o destino - ou o roteiro, mais bem amarrado do que muitos de seus congêneres - apronta uma das suas e une os dois jovens: precisando urgentemente de dinheiro para substituir uma roupa de sua mãe que ela estragou em uma festa, Cindy acaba aceitando a proposta indecente de Ronald de se passar por sua namorada durante um mês, para assim aumentar a popularidade do rapaz. Miller gasta todas as suas economias no plano, e ele dá certo: em pouco tempo a escola inteira está a seus pés - incluindo Cindy, apesar de ele não perceber a mudança nos sentimentos da garota.


Uma das maiores qualidades de "Namorada de aluguel" é a forma com que a história se desenvolve, não deixando que o romance entre seus protagonistas assuma a prioridade da trama o tempo todo. A segunda metade do filme, por exemplo, que trata das consequências do plano armado por Ronald - quando ele experimenta o gostinho do sucesso e quase se deixa corromper por ele - é tão interessante quanto a história de amor entre ele e Cindy. É nessa fase do roteiro que o público acompanha sua conscientização a respeito do quanto seus amigos nerds são bem mais leais e merecedores de aplausos do que seus novos companheiros de farra. É um tanto moralista, claro, mas levando-se em conta seu público-alvo, não deixa de ser também bastante oportuno. E é preciso destacar também o humor do filme, representado especialmente pelo irmão de Ronald, Chuckie (vivido por Seth Green, o futuro filho do Dr. Evil da série "Austin Powers" ainda criança) e pela clássica sequência em que o protagonista apresenta - por engano, é claro - a coreografia do Ritual de Acasalamento do Tamanduá Africano em plena festa repleta de mauricinhos e patricinhas influenciáveis.

"Namorada de aluguel" não é e nem se pretende uma obra-prima. Mas é delicioso, principalmente para a geração que o assistia constantemente na Sessão da Tarde. É leve, é divertido e fluente, um filme sem contra-indicações para quem busca uma sessão nostálgica - ou para quem tem interesse em saber como Patrick Dempsey começou sua carreira.

domingo, 16 de novembro de 2014

UMA NOITE DE AVENTURAS

UMA NOITE DE AVENTURAS (Adventures in babysitting, 1987, Touchstone Pictures, 102min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: David Simkins. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp. Música: Michael Kamen. Figurino: Judith R. Gellman. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Dan May. Produção: Debra Hill, Lynda Obst. Elenco: Elisabeth Shue, George Newbern, Keith Coogan, Maia Brewton, Anthony Rapp, Vincent D'Onofrio, Penelope Ann Miller, Bradley Whitford. Estreia: 01/7/87

Antes de surpreender público e crítica com sua madura e sofrida interpretação da prostituta Sera em "Despedida em Las Vegas" - que a indicou ao Oscar de melhor atriz e confirmou-a como uma das grandes promessas de sua geração - a bela Elisabeth Shue passou pela prova de fogo de uma iniciante: foi o interesse romântico do protagonista, tanto de filmes bobos, como "Cocktail" (88), com Tom Cruise, como o de produções de sucesso como as duas últimas partes da série "De volta para o futuro". Antes disso, porém, ela já demonstrava talento e segurança em níveis suficientes para segurar um papel principal, como mostra a divertida comédia "Uma noite de aventuras", uma odisseia urbana juvenil dirigida por Chris Columbus - protegido de Steven Spielberg que havia feito sucesso com "Os goonies" (85) e se consagraria posteriormente como diretor de filmes cultuados, como "Esqueceram de mim" (90), "Uma babá quase perfeita" (92) e os dois primeiros capítulos da cinessérie "Harry Potter". Encarando um papel que teve, entre suas possíveis intérpretes Sharon Stone (ainda uma ilustre desconhecida), Michelle Pfeiffer (que preferiu dividir a cena com Jack Nicholson em "As bruxas de Eastwick"), Brooke Shields, Andie MacDowell e até mesmo Jodie Foster, Shue dá um banho de carisma e timing cômico, em papel que explora todas as suas qualidades de atriz então dando os primeiros passos da carreira.

Na verdade, o projeto de "Uma noite de aventuras" não era nada novo quando chegou às telas, no segundo semestre de 1987. Iniciado nos anos 60 e abandonado na década seguinte, ele teria, em seus primeiros dias de desenvolvimento, a protagonização de Jane Fonda, que foi substituída por sua sobrinha Bridget, quando uma nova possibilidade de realização surgiu no horizonte, já nos anos 80. A jovem Fonda preferiu recusar a oferta de estrelar o filme - e testes acabaram escolhendo Shue, cujo maior sucesso do currículo era "Karatê Kid, a hora da verdade" (84), onde ela fazia, é claro, a namoradinha do herói, vivido por Ralph Macchio. Na obra de Columbus, porém, é seu nome que encabeça os créditos e se o filme funciona é porque é fácil identificar-se e gostar de sua personagem, uma jovem comum que se vê envolvida em uma série de eventos bizarros e até assustadores em uma noite que tinha tudo para ser tranquila. É evidente, porém, que em se tratando de um filme dirigido por Columbus e lançado pela Touchstone Pictures (subsidiária adulta da Disney), até mesmo o que é bizarro e assustador é tratado com leveza e bom humor.


Chris Parker, a personagem de Shue, é uma jovem que, depois de ter o encontro com seu namorado cancelado, aceita o trabalho de servir de babysitter à esperta Sara (Maia Brewton), filha caçula de uma família de amigos. Quem fica feliz com a notícia é Brad (Keith Coogan), o adolescente em fase de ebulição que é apaixonado por Chris e tenta aparentar maturidade para conquistá-la. A noite, que começa pacificamente, logo dá sinais de que será um tanto conturbada quando Brenda (Penelope Ann Miller), amiga de Chris, telefona para ela da rodoviária, depois de fugir de casa. Para ajudar a amiga, Chris embarca em seu carro antigo acompanhada não só de Brad e Sara, mas também do melhor amigo do rapaz, Daryl (Anthony Rapp), que acaba de descobrir que a coelhinha do mês da Playboy é idêntica à babá de seu amigo. No caminho para a rodoviária, Chris e companhia irão entrar em uma aventura que inclui violentos ladrões de carros, um motorista de guincho que tem um gancho no lugar da mão - e uma esposa adúltera, um grupo de cantores de blues (na sequência mais inspirada do filme) e um mecânico que, segundo a criativa Sara, é o poderoso Thor em pessoa (Vincent D'Onofrio em começo de carreira).

Dotado de um ritmo ágil e inteligente, que nunca deixa o interesse da audiência diminuir, "Uma noite de aventuras" é a típica comédia juvenil que honra o gênero, entretendo sem apelar para a grosseria ou a vulgaridade. Todas as piadas do filme - e elas funcionam divinamente - são bem estruturadas, de acordo com um roteiro que vai equilibrando tanto as desventuras da babá Chris quanto de sua amiga Brenda, além de dar espaço também para os coadjuvantes infantis, que não desperdiçam nenhuma oportunidade para dar sua colaboração a uma história que não perde o pique nem mesmo quando ameaça resvalar para o romantismo à moda John Hughes. Cativante desde sua primeira sequência - Elisabeth Shue dublando "And then he kissed me", da banda The Crystals - até seus créditos finais, "Uma noite de aventuras" é um programa perfeito para uma tarde chuvosa, na companhia de brigadeiro e coca-cola.

sábado, 15 de novembro de 2014

ROXANNE

ROXANNE (Roxanne, 1987, Columbia Pictures, 107min) Direção: Fred Schepisi. Roteiro: Steve Martin, peça teatral "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand. Fotografia: Ian Baker. Montagem: John Scott. Música: Bruce Smeaton. Direção de arte/cenários: Jack DeGovia/Kimberly Richardson. Produção executiva: Steve Martin. Produção: Daniel Melnick, Michael Rachmil. Elenco: Steve Martin, Daryl Hannah, Rick Rossovich, Shelley Duvall, John Kapelos, Damon Wayans. Estreia: 19/6/87

A peça "Cyrano de Bergerac", escrita pelo dramaturgo francês Edmond Rostand foi encenada pela primeira vez em 1897, e desde que o cinema a descobriu, em 1946, em uma produção francesa estrelada por Claude Dauphin, a história de amor entre o poético texto teatral e as inúmeras possibilidades das telas nunca mais se separaram: em 1950, José Ferrer levou o Oscar e o Golden Globe por sua interpretação e em 1990, Gérard Depardieu foi indicado à estatueta dourada, entre outras versões que incluem até mesmo uma produção japonesa com Toshiro Mifune. Em 1987, a trama repleta de mal-entendidos, amores frustrados e derramado romantismo chegou à Hollywood modificada pelo humor particular de Steve Martin. "Roxanne", escrito e estrelado pelo ator, é uma adaptação modernizada e simpática que respeita sua versão original - apesar de acertadamente limar a narrativa em formato de versos - sem nunca tornar-se teatro filmado. Contando com o timing perfeito de Martin e uma Daryl Hannah no auge da beleza, o filme ressente-se apenas de uma direção pesada demais para o gênero: o australiano Fred Schepisi sai-se muito bem em filmes dramáticos, como "Plenty, o mundo de uma mulher" (85) e o posterior "Um grito no escuro" (89) - ambos estrelados por Meryl Streep - mas carrega demais a mão no que poderia ser um de seus maiores cartões de visita comerciais.

Não que "Roxanne" tenha sido um fracasso, muito pelo contrário. Com uma renda de cerca de 40 milhões de dólares somente nos EUA, o filme foi responsável por, pela primeira vez em sua carreira, dar a Steve Martin o status de ator, substituindo sua definição anterior de comediante. Nada mais merecido, uma vez que é ele, do alto de sua versatilidade, que imprime a cada cena uma personalidade que dá a energia que move o filme, compensando a quase apatia de Rick Rossovich no papel do galã Chris. Martin brilha especialmente quando precisa utilizar-se de seu carisma em cenas como aquela em que, dentro de um bar lotado, faz piadas com seu próprio defeito físico. Esse senso de humor, aliado a um romantismo quase ingênuo, é que faz com que a plateia se deixe seduzir alegremente por uma história já tão conhecida - ainda que seu final tenha sido radicalmente modificado para deixar todo mundo feliz.


A versão light da obra de Rostand se passa em uma pequena cidade do interior de Washington, um lugar calmo e tranquilo que só dá trabalho ao corpo de bombeiros quando algum gato sobe em uma árvore e coisas do tipo. Isso não impede que o chefe do grupo, o simpático C. D. Bales (Steve Martin) seja admirado por toda a cidade, graças à sua inteligência e seu carisma. Seu único problema é o nariz gigantesco, que serve de alvo de constantes piadas e o impede de passar despercebido por qualquer lugar. Um dia, Bales cai de amores por Roxanne (Daryl Hannah), jovem astrônoma que chega ao local para passar o verão e estudar um astro recém descoberto. Bales, porém, sai da jogada assim que percebe que a bela forasteira está interessada em Chris (Rick Rossovich), novo integrante do grupo de bombeiros que, apesar de bonitão, não tem nenhum traquejo social e é burro como uma porta. Sua situação fica complicada quando Chris pede ajuda a ele para conquistar Roxanne e, através de cartas - onde declara toda sua paixão por ela - ele acaba unindo o casal. Como a mentira tem perna curta, porém, as coisas vão acabar indo por um caminho bem menos tranquilo.

"Roxanne" é um passatempo agradável e simpático como seu protagonista. Equilibra cenas bastante engraçadas - em especial as que envolvem os atrapalhados bombeiros liderados por Bales - com sequências de um romantismo delicado e repleto de senso de humor. Steve Martin foi indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical, além de ter empatado com Jack Nicholson como o melhor ator do ano pela Associação de Críticos de Nova York e ter sido eleito o vencedor pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema. Apesar de ter sido esnobado pelo Oscar - como normalmente acontece com atores cômicos - ele apresentou um dos mais consistentes trabalhos de atuação de 1987, e se o filme merece ser visto é, em boa parte, devido a seu enorme talento em transformar comédia em arte. Mesmo que seja por pouco mais de hora e meia de projeção.