terça-feira, 31 de março de 2015

UM PLANO SIMPLES

UM PLANO SIMPLES (A simple plan, 1998, Paramount Pictures/Mutual Film Company, 121min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Scott B. Smith, romance homônimo de Scott B. Smith. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: Eric L. Beason, Arthur Coburn. Música: Danny Efman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Mark Gordon, Gary Levinsohn. Produção: James Jacks, Adam Schroeder. Elenco: Bill Paxton, Bridget Fonda, Billy Bob Thornton, Gary Cole, Brent Briscoe. Estreia: 12/9/98 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Billy Bob Thornton), Roteiro Adaptado

Depois de tornar-se um dos diretores mais cultuados do gênero terror com sua trilogia "Evil dead" e poucos anos antes de conquistar as plateias do mundo todo com os três filmes do Homem-aranha, o cineasta Sam Raimi mostrou que também fica à vontade brincando com outros gêneros cinematográficos ao assinar a direção de "Um plano simples", um drama de suspense inteligente e surpreendente que se utiliza de uma situação quase clichê - um grupo de pessoas vendo sua ética e honestidade postas à prova diante de uma fortuna inesperada e não exatamente limpa - para prender a atenção do público da primeira à última cena graças a uma condução de atores discreta e eficaz e a um roteiro costurado com precisão - e não injustamente indicado ao Oscar da categoria. Baseado em um romance de Scott B. Smith cujos direitos foram comprados por Mike Nichols em 1994, o filme passou pelas mãos de diversos cineastas - como John Boorman e John Dahl - antes de finalmente chegar até Raimi, que imprimiu a ele um tom pessimista e sério que destoava de sua obra até então e pegou até mesmo os fãs de surpresa com sua violência crua e a ausência total de sua marca registrada: o senso de humor negro.

Elegendo como protagonistas dois irmãos não exatamente brilhantes intelectualmente e a esposa grávida de um deles, o roteiro de "Um plano simples" logo de cara mostra que seus personagens não são heróis, vilões ou tampouco capazes de qualquer tipo de superação moral ou ética. Hank Mitchell (Bill Paxton possivelmente no melhor desempenho de sua carreira) trabalha como balconista de um armazém em uma pequena cidade do interior dos EUA. Casado com Sarah (Bridget Fonda em papel oferecido à Laura Dern) e à espera do primeiro filho, ele leva uma vida monótona e sem maiores expectativas até o dia em que, junto com o irmão, Jacob (Billy Bob Thornton, indicado ao Oscar de coadjuvante) e o melhor amigo, Lou (Gary Cole), encontra um avião caído em uma reserva florestal coberta de neve - e dentro dele, além do piloto morto, a pequena fortuna de 4,4 milhões de dólares. Acreditando tratar-se do dinheiro sujo de um resgate, o trio decide ficar com a grana, mas combinam escondê-la até que seja seguro utilizá-la sem despertar suspeitas. Logicamente, porém, as coisas não saem como o esperado: tanto Lou quanto Jacob tem pressa em ficar com sua parte, o que acaba por precipitar uma série de incidentes violentos que compromete a segurança e a liberdade de todos os envolvidos no caso.


A maior qualidade do texto de Smith - adaptado pelo próprio autor para as telas - é a forma com que ele vai explorando paulatinamente o crescimento do mal e da ganância dentro de pessoas até então tidas como pacíficas e honestas. Sarah, por exemplo, como uma Lady Macbeth caipira, vai minando a cabeça de Hank, sendo a autora da maior parte das ideias que acabam por tornar suas vidas um pesadelo sangrento e cruel. Mesmo grávida - e portanto, aparentando uma fragilidade que não existe - ela é quem acaba por se tornar a mais fria e cerebral do grupo, a ponto de ignorar os elos familiares que a unem a Jacob, um homem com problemas mentais que tem por objetivo puro e simples reconstruir a fazenda dos pais e recuperar os dias de paz de seu passado. Os empecilhos irônicos postos diante dos protagonistas pelo roteiro e pela direção esperta e dotada de ritmo próprio de Sam Raimi empurram "Um plano simples" em direção a um final previsivelmente trágico, mas ainda assim consegue fugir do óbvio ao evitar inteligentemente tanto o moralismo quanto o cinismo. Seu desfecho, coerente e verossímil - artigos raros no cinemão americano - pode não agradar a todos, mas é, inegavelmente, bem construído e crível.

E se Billy Bob Thorton foi o único ator do elenco a ser lembrado pela Academia - algo um tanto questionável, uma vez que muitas vezes seu desempenho chega perto da caricatura, como já havia acontecido com seu outro trabalho indicado ao Oscar, "Na corda bamba" - vale destacar a qualidade da atuação de Bill Paxton e Bridget Fonda, que seguram seus papéis com garra e dão a eles uma diversidade de sentimentos que enriquece muito o argumento original. Na pele de Hank e Sarah eles mostram o quanto o ser humano está propenso a alterar seus princípios quanto posto diante de um dilema moral tão fascinante e tentador. Sua humanidade é um ponto alto do filme de Sam Raimi - e o que dá a ele uma transcendência inesperada a uma obra de um gênero normalmente relegado a entretenimento barato.

segunda-feira, 30 de março de 2015

UM AMOR VERDADEIRO

UM AMOR VERDADEIRO (One true thing, 1998, Universal Pictures, 127min) Direção: Carl Franklin. Roteiro: Karen Croner, romance de Anna Quindlen. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Carole Kravetz. Música: Cliff Eidelman. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Paul Peters/Elaine O'Donnell, Leslie A. Pope. Produção executiva: Leslie Morgan, William W. Wilson III. Produção: Jesse Beaton, Harry J. Ufland. Elenco: Meryl Streep, William Hurt, Renée Zellweger, Tom Everett Scott, Lauren Graham, Nicky Katt, James Eckhouse. Estreia: 18/9/98

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)

A história é conhecida e banhada de clichês: jovem e promissora jornalista, às vésperas de um dos mais importantes trabalhos de sua recém iniciada trajetória profissional, é obrigada a voltar à sua cidade natal para cuidar da mãe, uma mulher forte e determinada que sempre foi o centro da família mas está sofrendo de um câncer terminal. Nesse meio-tempo, a jovem precisa também enfrentar a difícil relação que sempre teve com o pai, um professor de literatura que fracassou como escritor e nunca soube dar o amor que os filhos e a mulher precisavam. Qual é, então, a razão para se assistir a "Um amor verdadeiro"? A mesma que o distingue de dezenas de outras obras semelhantes que volta e meia preenchem a programação da televisão: o elenco extraordinário escalado pelo diretor Carl Franklin. Bom diretor de atores, Franklin extrai de gente do porte de Meryl Streep e William Hurt atuações muito acima da média - não à toa Meryl recebeu sua 11ª indicação ao Oscar por seu desempenho - e entrega à então estrela em ascensão Renée Zellweger um dos papéis mais densos de sua carreira.

É de Zellweger a responsabilidade de dar ao filme de Franklin, baseado em romance de Anna Quindlen - uma escritora conhecida nos EUA por seus livros de teor feminino adocicado - um tom menos piegas e previsível, e ela desincumbe-se muito bem da missão. Na pele da ambiciosa e talentosa Ellen Gulden, que precisa abrir mão de seus objetivos profissionais em prol da saúde de sua mãe, ela dosa com precisão uma gama extensa de sentimentos por vezes contraditórios e que, nas mãos de uma atriz menos competente, fatalmente descambaria para o sentimentalismo barato ou o exagero dramático. Encarando de frente uma das melhores atrizes de todos os tempos, Zellweger - que menos de dois anos antes, quando contracenou com Tom Cruise em "Jerry Maguire", ainda era uma ilustre desconhecida - não se deixa diminuir em cena, crescendo até mesmo quando precisa enfrentar um sempre potente William Hurt, que vai desenhando seu personagem gradualmente até explodir em uma devastadora cena no terço final da projeção - onde seu George finalmente diz a que veio e sai de um melancólico segundo plano. Não é injusto afirmar, aliás, que tanto Renée quanto Hurt também mereciam ter sido lembrados pela Academia, já que conseguem tirar leite de pedra, dando consistência até mesmo a diálogos pouco inspirados e algumas cenas simplesmente supérfluas.


Meryl Streep, por sua vez, está em sua zona de conforto. Kate Gulden é a típica personagem dos sonhos para qualquer atriz ciente de suas capacidades dramáticas, e a veterana vencedora (à época) de dois Oscar não deixa por menos, emocionando o espectador com alguns momentos que demonstram claramente os motivos que a levam a ser tão respeitada e admirada. Vivendo uma mulher simples, altruísta e dedicada que se vê às portas da morte, ela tanto é capaz de despertar uma sincera compaixão do público quanto um sentimento de paz e serenidade que poucas intérpretes conseguiriam com tanta maestria. Mesmo que sua personagem sofra devido a um desenvolvimento pobre - de certa forma ela é quase uma coadjuvante de luxo, já que a trama gira em torno das dificuldades de sua filha em confrontar-se com um nova realidade - Streep consegue extrair dela sempre o máximo de profundidade e verdade. A cena em que ela e sua filha cantam emocionadas na festa de Natal da cidadezinha onde moram é de cortar o coração justamente por essa intensidade.

"Um amor verdadeiro" em si não é um grande filme. Ainda que tente surpreender a plateia no final, com uma pequena reviravolta que muda as perspectivas da audiência em relação aos protagonistas, não consegue desviar-se dos lugares-comuns das produções sobre famílias disfuncionais, doenças terminais e lições de vida. Porém, ao unir em cena três grandes intérpretes em momentos iluminados, merece aplausos e boas lembranças.

domingo, 29 de março de 2015

LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA

LAURA, A VOZ DE UMA ESTRELA (Little voice, 1998, Miramax, 97min) Direção: Mark Herman. Roteiro: Mark Herman, peça teatral "The rise and fall of Little Voice", de Jim Cartwright. Fotografia: Andy Collins. Montagem: Michael Ellis. Música: John Altman. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Don Taylor/John Bush. Produção executiva: Nik Powell, Stephen Wooley. Produção: Elizabeth Karlsen. Elenco: Jane Horrocks, Michael Caine, Brenda Blethyn, Ewan McGregor, Jim Broadbent. Estreia: 18/9/98 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Brenda Blethyn)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator (Comédia/Musical): Michael Caine

Uma das maiores funções do Golden Globe - prêmio concedido pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood - é revelar ao público e à Academia que concede os Oscar (normalmente fechada em seus próprios interesses comerciais) alguns filmes que, por má distribuição, orçamentos pequenos ou inúmeros outros motivos, talvez tenham passado em branco pelas salas de exibição. Em 1999 isso aconteceu com "Laura, a voz de uma estrela", adaptação de uma peça teatral inglesa que chamou a atenção para a brilhante atuação de Michael Caine - apesar da vitória no Globe, porém, ele foi ignorado pela Academia, que lembrou-se apenas de indicar sua colega de elenco Brenda Blethyn à estatueta de atriz coadjuvante. Tal fracasso em destacar o filme dentre tantas outras produções, no entanto, não ofusca suas maiores qualidades, que residem justamente no elenco coeso e na atuação hipnótica de Jane Horrocks - para quem a peça original foi escrita - no papel principal.

Laura, a protagonista, é uma jovem inglesa reclusa e tímida que vive trancada em seu quarto, ouvindo os discos das divas que eram os ídolos de seu pai, de quem sente uma saudade devastadora. Sua rotina simples de escutar ad infinitum os álbuns de Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe só é quebrada pela personalidade exagerada de sua mãe, Mari Hoff (Brenda Blethyn, perfeita na caracterização), uma mulher pouco afeita a sutilezas e generosidades que vê na filha um fracasso completo. Suas vidas sofrem uma profunda transformação, porém, quando uma das conquistas de Mari, o empresário artístico Ray Say (Michael Caine), descobre que, por trás da timidez quase patológica de Laura existe um genuíno talento musical: ao ouví-la, sem querer, imitando as grandes cantoras a que admira, ele vê nela um futuro extraordinário no showbusiness.Com o apoio da ambiciosa Mari, ele tenta convencer a jovem - a quem chamam de LV (Little Voice) - a apresentar-se no clube do semi-fracassado Mr. Boo (Jim Broadbent). Sentindo-se pressionada, a antissocial Laura tem a compreensão apenas do delicado Billy (Ewan McGregor), funcionário da companhia telefônica que se dá melhor com seus pombos-correio do que com as pessoas a seu redor.


Despretensioso e de estrutura simples, "Laura, a voz de uma estrela" conquista basicamente pela construção de seus personagens, delineados com capricho e sutileza, ainda que a princípio pareçam mais estereótipos do que pessoas reais. Conforme a história avança é que as verdadeiras personalidades vão surgindo, mostrando as reais intenções de cada um - assim como as consequências de seus atos os aproxima de um desfecho senão previsível, ao menos coerente e delicado como a protagonista. O romance titubeante entre Laura e Billy (personagem inexistente na versão teatral e criado especificamente para ser vivido por Ewan McGregor) é apaixonante na medida certa, cativando a plateia graças às atitudes desajeitadas dos personagens, envolvidos sem querer em uma situação inesperada e para eles desconhecida. Ainda que não seja o foco central da narrativa, sua história de amor ajuda o espectador a compartilhar da solidão e dos medos dos dois jovens, em um amor puro que contrasta violentamente com o caso entre Mari e Ray, dois seres dotados de extremo egoísmo e ganância - e que os leva à ruína emocional.

Com interpretações fantásticas de Blethyn e Caine, Mari e Ray quase conseguem ser maiores do que a maior das qualidades de "Laura": o talento impressionante de Jane Horrocks em imitar algumas das mais idolatradas divas da música norte-americana. Duas sequências são especialmente brilhantes nesse ponto: primeiro, quando a jovem finalmente cede aos pedidos da mãe e dá um show no palco, sendo aplaudida fervorosamente; e depois, quando enfrenta bravamente Ray, utilizando-se de seu talento para expulsá-lo de sua casa apenas com trechos de músicas antigas. Essas duas cenas são um belo exemplo da força discreta do filme, que seduz imperceptivelmente até que os créditos finais surgem e deixam no público uma sensação de paz e bem-estar. Um belo pequeno filme.

sábado, 28 de março de 2015

PROVA FINAL

PROVA FINAL (The faculty, 1998, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Kevin Williamson, história de David Wechter, Bruce Kimmel. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Marco Beltrami. Figurino: Michael T. Boyd. Direção de arte/cenários: Cary C. W. White/Jeanette Scott. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellan. Elenco: Josh Hartnett, Jordana Brewster, Shawn Hatosy, Usher Raymond, Elijah Wood, Salma Hayek, Robert Patrick, Clea DuVall, Famke Janssen, Piper Laurie, Christopher McDonald, Bebe Neuwirth, Jon Stewart. Estreia: 12/11/98

Depois do enorme sucesso de "Pânico" e seus assemelhados, o terror adolescente retomou o fôlego e voltou a frequentar as salas de cinema, assustando o público-alvo e enchendo os cofres dos estúdios. Nem todos, porém, tiveram a mesma sorte do filme de Wes Craven, mesmo contando com seu roteirista-xodó Kevin Williamson - que também estava na moda graças ao seriado de TV "Dawson's Creek". Nem mesmo seu nome nos créditos de "Prova final", por exemplo, ajudou o filme a empolgar quando de sua exibição nos cinemas. Dirigido pelo mexicano Robert Rodriguez - conhecido por ter realizado seu "El Mariachi" por meros sete mil dólares - o filme utilizava a mesma fórmula dos trabalhos anteriores de Williamson (elenco jovem em ascensão, sacadas bem-humoradas de cultura contemporânea, suspense leve e citações à clássicos do gênero), mas acrescentava um novo elemento à mistura: ficção científica. Em uma época em que o seriado "Arquivo X" mobilizava multidões diante da televisão, parecia um receita infalível. Não foi. Mesmo tendo rendido mais de 40 milhões de dólares no mercado americano - contra um custo de meros 15 milhões - o filme ficou bem longe dos inesperados 100 milhões arrecadados pelo primeiro capítulo da série estrelada por Neve Campbell. Tal fracasso, porém, não reflete a qualidade do produto final: mesmo não sendo uma obra-prima (nem tampouco o melhor filme de Rodriguez), "Prova final" é um entretenimento divertido e eficaz.

A trama é puro "Os invasores de corpos", substituindo uma cidade do interior por uma escola secundária, também do interior dos EUA. É lá, na Harrington High School, que as coisas começam a parecer muito suspeitas quando os professores passam a agir de maneira estranha: de uma hora pra outra, o treinador Joe Willis (Robert Patrick) passa a beber água em excesso, a diretora Karen Olson (Piper Laurie) muda o jeito de vestir e andar, e até mesmo a simpática Elizabeth Burke (Famke Janssen) se transforma em outra pessoa. Quem primeiro percebe as diferenças - que já estão se estendendo para vários alunos, depois de uma misteriosa sessão de vacina - é Delilah Profitt (a brasileira Jordana Brewster), editora do jornalzinho da escola, que procura um furo para a próxima edição. Sua desconfiança de que algo muito errado está acontecendo é confirmada quando ela testemunha, ao lado de seu apaixonado secreto, o nerd Casey Connor (Elijah Wood), dois professores transformando uma colega em mais uma vítima. Com a teoria de que todos estão tendo suas reais personalidades substituídas como forma de dominação alienígena, eles se unem a uma voraz leitora do gênero, Stokes (Clea DuVall), o popular jogador de futebol da equipe da escola, Stan (Shawn Hatosy) e o malandro de plantão, Zeke (Josh Hartnett) - que vive de pequenos tráficos dentro do estabelecimento - para acabar com a invasão iminente. A única novata no grupo é Marybeth (Laura Harris), recém-chegada à cidade.


Sem alterar muito a estrutura de seus roteiros, Kevin Williamson volta a utilizar-se de arquétipos adolescentes para povoar sua trama central, como forma de atingir seu público-alvo de todas as maneiras possíveis. Sendo assim, ele lança mão do galã cobiçado, da patricinha desmiolada, do nerd deslocado, da gatinha inteligente, da desajustada cínica e do rebelde sem causa como heróis de uma trama improvável, mas contada de forma fluente e com um perfeito senso de ritmo e suspense. Equilibrando em seu texto sequências de violência moderada - tudo de olho na bilheteria - e citações divertidas a "Independence Day" e à própria "Arquivo X", entre outras, "Prova final" peca apenas por assustar de menos. Enquanto "Pânico", mesmo com suas piadas metia medo na plateia, o filme de Rodriguez muitas vezes parece estar apenas interessado em afirmar a grife de Williamson, enfatizando suas características mais do que sua história. Além disso, nem mesmo um diretor criativo como Rodriguez consegue o milagre de arrancar interpretações decentes de Josh Hartnett e Jordana Brewster.

Sem conseguir uma equipe de atores adolescentes coesa - na qual destaca-se Elijah Wood muito antes da trilogia "O Senhor dos Anéis" - Robert Rodriguez teve que contentar-se com um elenco jovem de atores com potencial para futuros astros. Hartnett até conseguiu emplacar outros trabalhos (inclusive com o próprio Rodriguez e o blockbuster "Pearl Harbor"), mas é de uma inexpressividade criminosa. Jordana Brewster, de mãe brasileira, chegou a ser comparada com Demi Moore, mas além de filmes da série "Velozes e furiosos" não foi além na carreira. Apenas Clea DuVall e Shawn Hatosy seguiram adiante, fazendo filmes menores de diretores respeitados, mas mesmo assim sem o destaque que se esperava. Sendo assim, a Rodriguez coube a tarefa de brincar com os atores mais experientes - que parecem se divertir em cena - como Robert Patrick e Piper Laurie, e deitar e rolar com os efeitos visuais e de maquiagem, eficientes a ponto de esconder o orçamento modesto.

Ainda que não seja um excelente filme de ficção científica - está mais para "Dawson's Creek" do que para "Arquivo X" - "Prova final" é uma diversão com a assinatura assumidamente trash e barata de Robert Rodriguez, um dos poucos diretores que, mesmo no esquema de Hollywood, manteve-se fiel a suas origens simples. É uma sessão da tarde das mais apetitosas.

sexta-feira, 27 de março de 2015

TRÊS É DEMAIS

TRÊS É DEMAIS (Rushmore, 1998, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Rober Yeoman. Montagem: David Moritz. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Alexandra Reynolds-Wasco. Produção executiva: Wes Anderson, Owen Wilson. Produção: Barry Mandel, Paul Schif. Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassell, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

Antes de tornar-se um dos cineastas norte-americanos mais louvados de sua geração, com produções cujos estilos visual e narrativo inconfundíveis fizeram a alegria da crítica e de uma legião de fãs fiéis, Wes Anderson passou um tempo restrito a um pequeno nicho de admiradores que descobriram, muito antes daqueles que fizeram de "O Grande Hotel Budapeste" um sucesso, sua maneira particular e inteligente de ver o mundo, sempre com uma dose única de ironia e carinho. Se hoje em dia seu primeiro trabalho, "Pura adrenalina" (96) é artigo raro e difícil de encontrar, seu segundo filme, "Três é demais" assumiu uma espécie de marco inicial de uma carreira de rara integridade em Hollywood. Mesmo vendida erroneamente como uma comédia romântica - talvez o maior motivo de seu fracasso comercial - a primeira colaboração entre Anderson e o ator Bill Murray (dentre muitas) escapa facilmente da classificação, mostrando logo de cara que não é fácil rotular uma obra do diretor.

Se é que é possível encaixar "Três é demais" em algum gênero, pode-se dizer que ele é uma comédia cínica, amarga e melancólica sobre a solidão e desajuste social. Jason Schwartzman (filho da atriz Talia Shire) tem uma estreia extraordinária como Max Fischer, um jovem bolsista da prestigiada escola preparatória Rushmore que, a despeito de sua extensa lista de atividades extra-curriculares, é um aluno medíocre e pouco respeitado - tanto pelos colegas quanto pelo diretor, Mr. Guggenheim (Brian Cox). Filho de um barbeiro (que ele divulga ser um neurocirurgião), Max é, no fundo, um rapaz de 15 anos que vive isolado em seu mundo particular, escrevendo peças de teatro e inventando maneiras de sobressair no universo escolar. Dois acontecimentos, porém, sacodem seu mundinho tedioso. Primeiro ele conhece e inicia uma estranha amizade com Herman Blume (o sensacional Bill Murray), um industrial milionário cujos filhos gêmeos estudam em Rushmore. Depois, se apaixona perdidamente por uma das professoras da escola, a tímida Rosemary Cross (Olivia Williams), que perdeu o marido e, apesar da diferença de idade entre eles, torna-se confidente do rapaz. As vidas dos três acabam se cruzando quando Blume - que vive um casamento frio e adúltero - também se apaixona por Rosemary e é correspondido, despertando em Max um até então desconhecido sentimento de vingança.


Construindo um roteiro caprichado, onde cada ação desperta uma reação inesperada mas crível, Wes Anderson desenvolve um trio de protagonistas dotados de personalidade e sensibilidade. Mesmo que Max Fischer seja pouco agradável com sua excentricidade por vezes enervante é difícil não simpatizar com seus dramas adultos em uma alma adolescente. Tal como a personagem de Reese Witherspoon em "Eleição", de Alexander Payne, Max tem como prioridade na vida ser alguém que ultrapasse a mediocridade que o cerca, mesmo que para isso abandone toda e qualquer ambição social e sentimental - o que muda com a chegada de Rosemary em sua vida e com sua amizade com Blume, que lhe trata com a admiração que não pode dar aos filhos pouco brilhantes. A entrada de Max na vida adulta através da decepção amorosa também é uma ideia primorosa, desenvolvida com fino humor e o senso estético que se tornaria uma das marcas registradas do diretor. Equilibrando seu roteiro com diálogos inteligentes e imagens milimetricamente calculadas, Anderson conduz o espectador a um mundo próprio, onde crianças são capazes de revanches cruéis, milionários de meia-idade disputam mulheres com adolescentes nerds e o final feliz não é exatamente cor-de-rosa ou otimista. Tendo como intérpretes atores do naipe do jovem Schwartzaman e do veterano Bill Murray, ele faz um gol de placa logo no início da carreira.

Em uma das maiores atuações de sua carreira - e injustamente esquecida pelo Oscar - Bill Murray está a um passo da perfeição na criação de seu Herman Blume, um homem cansado e desiludido que vê sua vida ganhar um novo ânimo quando se apaixona por uma mulher mais nova e tem a chance de ajudar na formação do caráter de um rapaz cuja alma - apesar de ser mais madura do que o normal - ainda é de um adolescente desajustado e infeliz. O triângulo amoroso formado pelos dois e pela professora vivida por Olivia Williams (talvez o único elo fraco de toda a corrente) não é dos mais românticos mostrados pelo cinema americano nos anos 90, mas é, com certeza, um dos mais interessantes e realistas, enfatizados pela criatividade e pelo talento de seu criador. Um belo filme a ser redescoberto e valorizado por seu humor sutil e delicadeza no trato das relações humanas.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O OPOSTO DO SEXO

O OPOSTO DO SEXO (The opposite of sex, 1998, Rysher Entertainment, 105min) Direção e roteiro: Don Roos. Fotografia: Hubert Taczanovski. Música: Mason Daring. Figurino: Peter Mitchell. Direção de arte/cenários: Michael Clausen/Kristin Peterson. Produção executiva: Steve Danton, Jim Lofti. Produção: Michael Besman, David Paul Kirkpatrick. Elenco: Christina Ricci, Martin Donovan, Lisa Kudrow, Lyle Lovett, Johnny Galecki, William Lee Scott, Ivan Sergei. Estreia: 22/5/98

Cerceado pela irritante e muitas vezes injustificável onda do politicamente correto que tomou conta dos EUA e do mundo a partir dos anos 90, o humor correu o sério risco de desaparecer do cinema americano - ao menos aquele humor ferino, cáustico e quase cruel que arrancava graça nos pequenos detalhes do cotidiano e fazia a plateia rir de si mesma. Felizmente alguns focos de resistência sempre surgem em períodos assim e o roteirista Don Roos faz parte desse grupo. Autor do texto de filmes mais variados - como o suspense "Mulher solteira procura...", o drama "Somente elas" e a desnecessária refilmagem de "As diabólicas", além de vários episódios de séries de TV, como a inesquecível "Casal 20" - Roos fez sua estreia como diretor ignorando os limites impostos pelo insosso gosto médio: "O oposto do sexo" é debochado, irônico, politicamente incorreto até a raiz dos cabelos... e muito, muito engraçado.

Logicamente, quem gosta de humor pastelão e piadas escatológicas sobre fluidos corpóreos e afins não irá comprar o humor de Roos, que usa e abusa do sarcasmo como principal ingrediente de seu roteiro, que brinca com o universo gay e a discriminação que o circunda sem medo de parecer ofensivo ou condescendente. Ao eleger como protagonista uma adolescente preconceituosa, mau-caráter, cínica e desprovida de qualquer sentimento que não seja em proveito próprio - Dede Truitt, vivida com gosto e perspicácia por uma sensacional Christina Ricci - o diretor já deixa pra trás qualquer noção pré-estabelecida de bom comportamento, utilizando-se da narração em off (artifício normalmente execrado por roteiristas mas que aqui funciona como uma ironia a mais) como um instrumento para cutucar os clichês do cinema: volta e meia ele também distorce a narrativa e mostra como elementos externos podem modificar um ponto de vista da plateia (uma música emotiva, por exemplo, que manipula uma cena que poderia não comover, ou a divisão da tela para permitir à audiência escolher entre uma cena já vistas muitas vezes ou outra, totalmente sem graça e emoção). Através da língua sem filtros de Dede - que larga atrocidade atrás de atrocidade sem dó nem piedade de ninguém - o roteiro faz rir ao mesmo tempo em que faz o espectador pensar bastante sobre os próprios (pré) conceitos.


A trama toda começa quando Dede perde o padrasto e resolve, sem avisar a ninguém, sair da pequena cidade da Louisiana onde vive para encontrar o meio-irmão, Bill (Martin Donovan, alter ego do diretor independente Whit Stillman em vários pequenos filmes dos anos 90), professor homossexual de uma cidade de Indiana, que vive bem de vida depois da morte do namorado, vítima da AIDS. Cínica e mentirosa - além de homofóbica e preconceituosa - ela acaba seduzindo Matt (Ivan Serguei), o novo namorado do irmão, que ingenuamente, acredita quando ela se declara grávida dele. Quando os dois vão embora tentar vida nova, porém, os rastros que deixam ameaçam destruir a vida de Bill, especialmente quando um antigo aluno, também amante de Matt, o acusa de abuso sexual durante seu período como estudante (uma mentira criada como forma de chantagem). Para provar sua inocência - além de reconquistar o amor de Matt, adotar o bebê e recuperar as cinzas de seu falecido namorado, sequestradas por Dede - Bill parte atrás do novo casal, contando com a ajuda fiel de Lucia (Lisa Kudrow, a Phoebe da série "Friends" em papel bastante diferente), sua cunhada solteirona que nunca acreditou nas mentiras da adolescente.

São muitas as qualidades que fazem de "O oposto do sexo" uma comédia muito acima da média, e uma das melhores dos anos 90 - apesar de ser injustamente pouco lembrada ou conhecida pelo grande público. Os diálogos são inteligentes e engraçadíssimos. O ritmo é perfeito, sem momentos mortos. Os personagens, apesar de soarem um tanto estereotipados, tem características psicológicas fortes e interessantes. A abordagem da homossexualidade é franca e direta sem que perca o humor e a seriedade. E o elenco é um show à parte, especialmente o feminino: cada uma à sua maneira, Christina Ricci (bagaceira, vulgar, cruel em sua frieza gananciosa) e Lisa Kudrow (seca, amargurada e racional em sua solidão e tristeza) mostram outros lados de seus talentos, brindando o público com interpretações brilhantes, dentre as melhores de suas carreiras. Elas são o maior destaque do filme, mas há muito com o que se divertir quando se resolve experimentar as aventuras de Dede Truitt.

quarta-feira, 25 de março de 2015

BEM-AMADA

BEM-AMADA (Beloved, 1998, Harpo Films/Touchstone Pictures, 172min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Akosua Busia, Richard LaGravenese, Adam Brooks, romance de Toni Morrison. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Andy Keir, Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Produção executiva: Ron Bozman. Produção: Jonathan Demme, Kate Forte, Gary Goetzman, Edward Saxon, Oprah Winfrey. Elenco: Oprah Winfrey, Danny Glover, Thandie Newton, Kimberly Elise, Jason Robards, Wes Bentley. Estreia: 08/10/98

Indicado ao Oscar de Figurino

Não é de admirar-se que "Bem-amada", a despeito de ser a adaptação de um bem-sucedido livro da autora Toni Morrison e ser estrelado por Oprah Winfrey - uma das mais populares celebridades dos EUA - tenha fracassado monumentalmente nas bilheterias americanas. Longo em excesso, confuso e por vezes simplesmente chato, o filme dirigido por Jonathan Demme - até então um cineasta em alta devido a sucessos como "O silêncio dos inocentes" e "Filadélfia" - leva quase três horas para contar uma história desfocada sobre escravidão, almas de outro mundo e força destruidora da culpa sem em nenhum momento conquistar a empatia ou a atenção do espectador. Tudo isso não deixa de ser surpreendente, no entanto, uma vez que o conjunto de talentos envolvido jamais poderia pressupor tamanho desastre.

As primeiras cenas até que são envolventes e fisgam a plateia, mesmo que não expliquem direito o que está acontecendo - uma sensação, aliás, que perpassa todo o filme e que, apesar de ser proposital, deixa um gosto amargo na boca. Em 1865, ainda durante a escravidão, algo inexplicável apavora uma família de negros no interior do estado de Ohio, jogando seu cão de uma parede a outra, derrubando móveis e batendo portas. Apavorados com a situação, os dois filhos da dona da casa, a ex-cativa Sethe (Oprah Winfrey), abandonam o lar, deixando sua mãe acompanhada apenas da avó e da irmã pequena, Denver. Oito anos mais tarde, sozinha com a filha já adolescente (Kimberly Elise) que sente-se isolada de todo mundo por viver em uma casa assombrada por demônios, Sethe reencontra Paul D (Danny Glover), também um escravo liberto que tem ligações com seu passado e com seus dias de cativeiro. O encontro dos dois - e sua consequente relação - traz de volta os acontecimentos misteriosos que assombravam a família, mas, depois de um confronto com o novo morador, as coisas parecem voltar aos eixos. É quando surge em cena, então, Bem-amada (Thandie Newton), uma jovem bem-vestida e aparentemente saudável que encanta tanto Sethe quanto Denver com sua fragilidade, mas que deixa o veterano escravo com uma pulga atrás da orelha.


É a partir desse ponto, com a chegada misteriosa da personagem-título, que "Bem-amada" entra no caminho sem volta da falta de foco. A trama passa, então, a dividir-se entre um filme de mistério - quem é essa mulher? de onde ela veio? qual seu segredo? - e um drama psicológico - o que Sethe esconde? quais as consequências de seu passado como escrava? por que ela tornou-se tão apegada à nova hóspede a ponto de ameaçar seu relacionamento com Paul D? - sem que o diálogo entre essas duas linhas narrativas seja satisfatoriamente amarrado. É surpreendente que um dos roteiristas seja Richard LaGravenese - conhecido por obras bem escritas, como "As pontes de Madison" e "O pescador de ilusões", que chegou a lhe render uma indicação ao Oscar: o roteiro de "Bem-amada" é descosturado e frágil, o que é enfatizado ainda mais pela edição, que tenta imprimir um tom misterioso à uma história já confusa o bastante sem tal artifício. Resta apenas a atuação correta de Winfrey - produtora do filme - e os valores de produção, que sustentam o interesse até o final que tenta ser poético mas apenas reitera a falta de identidade da obra.

Atriz bissexta - seu trabalho mais conhecido foi em "A cor púrpura", de Steven Spielber, pelo qual concorreu ao Oscar de coadjuvante - Winfrey é uma das mais adoradas comunicadoras dos EUA, e uma das maiores fortunas do showbizz. Talentosa, ela segura o filme de Jonathan Demme com segurança de veterana, mas não consegue, por mais que tente, encobrir suas enormes falhas de roteiro e ritmo. Sua química com Danny Glover - que também participou do filme de Spielberg - mas nem mesmo eles são capazes de esconder o maior de todos os erros do filme: a escalação de Thandie Newton no crucial papel da misteriosa Bem-amada. Com uma atuação frequentemente exagerada - para não dizer caricata e ridícula - a jovem atriz põe a perder todo o clima de tensão proposto pela direção de Demme, transformando o que poderia ser um drama forte sobre os danos psicológicos da escravidão e do remorso em um pastiche sem graça do tema. Chega a ser quase insuportável assistir às cenas em que Newton tenta forjar uma interpretação dramática, tamanho o constrangimento. Somado aos problemas de roteiro e foco, tal equívoco leva "Bem-amada" ao limbo dos filmes que poderiam ter sido grandes, mas que tropeçaram feio nas próprias intenções. Um erro na carreira de Demme e Oprah, merecidamente ignorado pelo público e desprezado pela crítica.

terça-feira, 24 de março de 2015

JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES

JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES (Lock, stock and two smoking barrels, 1998, Summit Entertainment, 107min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: Tom Maurice-Jones. Montagem: Niven Howie. Música: David A. Hughes, John Murphy. Figurino: Stephanie Collie. Direção de arte/cenários: Iain Andrews, Eve Mavrakis/Jacalyn Haiman. Produção executiva: Stephen Marks, Peter Morton, Angad Paul, Trudie Styler, Steven Tisch. Produção: Matthew Vaughn. Elenco: Jason Flemyng, Dexter Fletcher, Nick Moran, Jason Statham, Steven Mackintosh, Nicholas Rowe, Vinnie Jones, Sting. Estreia: 28/8/98

Se em 1993 Hollywood viu nascer um novo estilo de fazer cinema nas mãos de Quentin Tarantino, a Inglaterra também não ficou atrás no final da década, quando o jovem Guy Ritchie (então com meros 30 anos) lançou seu "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", um policial estiloso, bem-humorado e repleto de sacadas visuais que sacudiu o tradicional cinema britânico com um sopro de modernidade e sarcasmo. Visualmente excitante, com um roteiro vibrante e ágil e um elenco de atores desconhecidos que se tornariam famosos no decorrer dos anos, como Jason Statham e Jason Flemyng, o filme de Ritchie acabou se tornando um enorme sucesso mundial justamente por quebrar regras narrativas e introduzir em um gênero historicamente sério uma injeção de sarcasmo e ironia que o revigorou aos olhos de uma plateia sedenta por novidades.


Dotado de uma complexa estrutura de personagens e situações aparentemente independentes, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" exige do espectador uma atenção redobrada, sob pena de perder as várias nuances e detalhes que desfilam pela tela na bela fotografia amarelada de Tom Maurice-Jones. Tudo começa quando o jovem Eddy (Nick Moran) resolve apostar 25 mil libras em um jogo ilegal contra um dos mais perigosos bandidos do submundo londrino, o famoso Hatchet Harry. Depois de arrecadar o dinheiro junto com seus amigos - Soap (Dexter Fletcher), Tom (Jason Flemyng) e Bacon (Jason Statham), todos pobres e dependentes de uma vitória no jogo - ele acaba caindo em uma armadilha do criminoso e sai da mesa de jogos devendo o dobro da aposta, dando como garantia do pagamento (em cinco dias) o bar de seu pai, JD (o cantor Sting, marido da produtora Trudie Styler) e a possibilidade de perder os dedos das mãos. Pensando em como obter dinheiro em tão pouco tempo, Eddy e seus companheiros de dívida tem a ideia pouco brilhante de envolver-se em um esquema de roubar a maconha que seus vizinhos de porta pretendem subtrair de um grupo de jovens que cultivam a droga ilicitamente. Logicamente as coisas não acontecem conforme o esperado, e eles são obrigados a lidar com uma sucessão de incidentes violentos e bizarros que incluem, entre outras coisas, duas pistolas antigas que valem milhões, e Big Chris (Vinnie Jones), um capanga que tem o costume de levar o filho pequeno a tiracolo para todas as suas missões.

Realizado em um tom quase histérico que mal dá tempo ao espectador para respirar, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" banha de sarcasmo uma trama que, sem o molho do humor, cairia inevitavelmente na violência pura e simples do gênero. Dominando por completo a história que tem em mãos, Guy Ritchie - que depois chegaria a Hollywood, se casaria com Madonna e sofreria alguns reveses na carreira até voltar a acertar com a franquia "Sherlock Holmes", estrelada por Robert Downey Jr. e Jude Law - deita e rola na direção do filme, o dotando de um ritmo acertadamente veloz que disfarça o fato de o roteiro muitas vezes ser mais confuso do que deveria ser. Em diversas ocasiões, o espectador perde tempo demais tentando entender as relações entre os personagens, em vez de acompanhar a história, o que, de certa forma, trai a preferência do cineasta pelo visual em detrimento do conteúdo. Esse pecadilho ele corrigiria em seu trabalho seguinte, "Snatch, porcos e diamantes", feito com dinheiro e astros de Hollywood (Brad Pitt, Benicio Del Toro) e que conseguiu equilibrar com mais sucesso os ingredientes apimentados que descobriu em seu primeiro filme. Mesmo dando um nó na cabeça do espectador, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" ainda é um extraordinário filme de estreia.

segunda-feira, 23 de março de 2015

HILARY & JACKIE

HILARY & JACKIE (Hilary and Jackie, 1998, Channel Four Films, 121min) Direção: Anand Tucker. Roteiro: Frank Cottrell Boyce, livro "A genius in the family", de Hilary Du Pré, Piers Du Pré. Fotografia: David Johnson. Montagem: Martin Walsh. Música: Barrington Pheloung. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Trisha Edwards. Produção executiva: Guy East, Ruth Jackson, Nigel Sinclair. Produção: Nicolas Kent, Andy Paterson. Elenco: Emily Watson, Rachel Griffiths, James Frain, Charles Dance, David Morrissey, Celia Imrie. Estreia: 05/9/98 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Emily Watson), Atriz Coadjuvante (Rachel Griffiths)

Quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar, por seu aterrador desempenho em "Ondas do destino", de Lars Von Trier, a atriz Emily Watson era um rosto desconhecido do grande público, mas provou que tinha talento de sobra para disputar uma estatueta com nomes consagrados como Diane Keaton e Frances McDormand (que acabou vencendo a parada, por "Fargo"). Em 1999, dois anos depois de ter chamado a atenção dos cinéfilos, dos críticos e da própria Academia, ela voltou à lista das cinco indicadas ao prêmio principal por uma atuação ainda melhor. Em "Hilary & Jackie", a história real da violoncelista Jacqueline du Prè - vítima de uma doença degenerativa que encerrou precocemente sua brilhante carreira - é mérito unicamente de sua visceral interpretação o fato de despertar compaixão e simpatia por uma personagem arrogante, egoísta e quase desagradável. Sua tour de force é tamanha que até hoje é simplesmente inacreditável que tenha perdido o Oscar para Gwyneth Paltrow - em um ano em que só poderia ser superada por Cate Blanchett em "Elizabeth" ou Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".

Baseado no livro escrito pelos irmãos Hilary e Piers du Prè, "Hilary & Jackie" acompanha a trajetória de duas irmãs, musicistas talentosas, que tem seus destinos desviados na juventude, quando decidem seguir rumos distintos na vida. Quando criança, Hilary, a mais velha, destaca-se como flautista, e desperta na irmã caçula, Jacqueline (ou Jackie) uma inveja branca que a faz esforçar-se arduamente nos estudos do violoncelo. Sua dedicação logo dá resultados e ela inicia, ainda bastante jovem, uma bem-sucedida série de concertos pela Europa, enquanto a irmã abandona a música para casar-se com e criar uma família no interior do país. A vida de celebridade de Jackie, porém, parece não lhe ser suficiente, e ela não demora a notar que nem mesmo seu casamento com o pianista Daniel Barenboim (James Frain) lhe traz a felicidade que almeja. As duas voltam a se encontrar, então, quando Jackie - por motivos não revelados a ninguém - procura Hilary em seu sítio, disposta a largar mão de tudo que conquistou para ter as mesmas coisas que a irmã mais velha - incluindo seu marido, Kiffer Finzi (David Morrissey). Algum tempo mais tarde, ela descobre sofrer de uma grave doença degenerativa, que a afasta de vez dos palcos e da música.


Brilhantemente roteirizado - contando sua história sob dois pontos de vista convergentes, que só fazem sentido completo ao final da sessão - "Hilary & Jackie" brinda o espectador com uma história fascinante que envolve amor e inveja fraternais, obsessão pela perfeição, o vazio da fama e, pra completar, uma melancólica e devastadora doença. Sem deixar-se cair nas armadilhas que uma história assim apresenta, tanto o roteiro quanto a direção (essa última a cargo de Anand Tucker, que sete anos depois assinaria o delicado "A garota da vitrine", com Steve Martin e Claire Denis) conduzem a trama de maneira sensível e harmoniosa, sem julgamentos morais ou exageros sentimentaloides. A inteligência de mostrar somente aos poucos as razões que levam Jackie a procurar conforto na família de sua irmã quando entra em surto quase psicótico dá ao filme uma ressonância dramática ímpar, justamente por proporcionar ao público a visão privilegiada de uma situação limítrofe, extremamente pessoal e de uma tristeza infinita, sem que para isso seja preciso tratá-la com sensacionalismo ou vulgaridade. Os desdobramentos melodramáticos da história entre as duas irmãs são tão surpreendentes e até moralmente discutíveis que não deixa de ser também corajoso mostrá-los com a naturalidade e a compaixão com que surgem diante da plateia.

Mas, apesar de todas as discussões sobre arte e relacionamento familiar que lança ao espectador, é no desempenho irretocável de Emily Watson que se apoia "Hilary & Jackie". Mesmo que Rachel Griffiths também esteja em dias iluminados, com uma atuação econômica mas poderosa que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante, é impossível tirar os olhos de Watson, que, tendo estudado violoncelo na infância, assume com segurança e impressionante veracidade o papel de Jacqueline du Prè, desde seus momentos de brilho nos palcos (com um trabalho corporal hipnotizante) até a época em que a doença domina seus movimentos e a impede até mesmo de se alimentar sozinha (em cenas de partir o coração do mais insensível dos homens). A força de sua transformação é a base do filme de Tucker, um dos mais poderosos dramas de sua temporada.

domingo, 22 de março de 2015

O ENCANTADOR DE CAVALOS

O ENCANTADOR DE CAVALOS (The horse whisperer, 1998, Touchstone Pictures, 172min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Eric Roth, Richard LaGravenese, romance de Nick Evans. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Freeman Davies, Tom Rolf. Música: Thomas Newman, Gwil Owen. Figurino: Judy L. Ruskin. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Rachel Pfeffer. Produção: Patrick Markey, Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neil, Dianne Wiest, Chris Cooper, Scarlett Johanssen, Cherry Jones, Kate Bosworth. Estreia: 15/5/98

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")

Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.

Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.


Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).

E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.

terça-feira, 17 de março de 2015

SEGREDOS DO PODER

SEGREDOS DO PODER (Primary colors, 1998, Award Entertainment/BBC Films, 143min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, livro de autor anônimo. Fotografia: Michael Ballahaus. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Ry Cooder. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção executiva: Jonathan D. Krane, Neil Machlis. Produção: Mike Nichols. Elenco: John Travolta, Emma Thompson, Billy Bob Thornton, Kathy Bates, Adrian Lester, Larry Hagman, Maura Tierney, Diane Ladd, Paul Guilfoyle, Allison Janney, Rob Reiner. Estreia: 20/3/98

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado

As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.

Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.


Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.

Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.

segunda-feira, 16 de março de 2015

AFINADO NO AMOR

AFINADO NO AMOR (The wedding singer, 1998, New Line Cinema, 95min) Direção: Frank Coraci. Roteiro: Tim Herlihy. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Tom Lewis. Música: Teddy Castelucci. Figurino: Mona May. Direção de arte/cenários: Perry Andelin Blake/Lisa Deutsch. Produção executiva: Brad Grey, Sandy Wernick. Produção: Jack Giarraputo, Robert Simonds. Elenco: Adam Sandler, Drew Barrymore, Christine Taylor, Allen Covert, Alexis Arquette, Matthew Glave, Christina Pickles, Billy Idol. Estreia: 13/02/98

Comediante dos mais populares nos EUA, Adam Sandler nunca teve o mesmo apelo de bilheteria no Brasil, onde frequentemente via seus filmes ignorados ou lançados diretamente em VHS, como foi o caso de "Um maluco no golfe" e "O rei da água", que renderam horrores no mercado americano e não interessaram em nada ao público brasileiro. Por essa razão, só mesmo a presença sempre carismática e luminosa de Drew Barrymore como sua parceira de cena explica a boa aceitação de "Afinado no amor", uma divertida e nostálgica comédia romântica que tem como principal trunfo situar sua trama em 1985 - com toda a sua cafonália visual e deliciosa trilha sonora como elementos narrativos. Sem buscar nada mais do que entreter e encantar a plateia, o diretor Frank Coraci - que trabalhou com Sandler em "O rei da água" e o posterior "Click" - fez uma deliciosa homenagem a um dos períodos mais ricos em cultura pop da história ao mesmo tempo em que conta uma história de amor simpática e simples, carregada de bom humor e referências culturais capazes de fazer sorrir o mais empedernido espectador.

O protagonista vivido por Sandler - e que dá o título original do filme - é Robbie Hart, um cantor de casamentos alegre, otimista e simpático que contagia a todos com sua energia positiva que extrapola suas performances profissionais. Sua alegria aparentemente inesgotável, porém, leva um duro golpe quando, justamente no dia de seu casamento com Linda (Angela Featherstone), ele é abandonado no altar, acusado de ser um homem sem ambições outras senão viver tocando nas festas de outras pessoas. Arrasado e devastado emocionalmente, ele torna-se um homem triste, mas recupera a vontade de viver com a ajuda de Julia Sullivan (Drew Barrymore, encantadora), uma garçonete que também está de casamento marcado - com o pouco confiável Glenn (Matthew Glave) - e faz questão que ele seja seu cantor oficial. A relação de amizade entre os dois, logicamente, esconde o que só eles mesmos não conseguem perceber: uma nascente paixão.


E é só isso. A história simples é apenas desculpa para um desfile de citações oitentistas, piadas ingênuas, figurinos excêntricos e uma trilha sonora pra lá de inspirada, que ressuscita clássicos pop de nomes como Culture Club - homenageado também na figura de um dos cantores de apoio de Robbie, o andrógino George (Alexis Arquette, irmão de Patricia e Rosanna) - The Cure, David Bowie, Madonna - cuja "Holiday" serve de piada em uma sequência hilariante - e Billy Idol, que incrementa sua participação com uma aparição surpresa no desfecho da trama. Sem preocupar-se em aprofundar o desenho de seus personagens - que no fundo são apenas arquétipos do gênero - o roteiro conquista o espectador convidando-o a uma saudável viagem nostálgica que ousa no fato de, ao contrário de suas comédias românticas contemporâneas, apostar na ingenuidade e na delicadeza, abdicando de cenas picantes e fazendo de sua Julia uma mocinha à moda antiga, independente e forte, mas doce e encantadora - um tipo de personagem do qual Barrymore especializou-se no final dos anos 90, depois de tentar uma fase vamp em sua volta ao cinema.

E, mesmo que não seja uma unanimidade entre o público brasileiro, Adam Sandler também acaba sendo um destaque de "Afinado no amor". Com seu jeitão apatetado e inofensivo, ele se encaixa perfeitamente em Robbie Hart, fazendo do cantor de casamentos uma espécie de alter-ego que desarma até o mais feroz de seus detratores. É difícil não simpatizar com seu drama romântico nem ficar sem torcer para que ele e Julia finalmente se acertem - boa parte também devido à ótima química entre ele e Drew Barrymore. Conduzida com mão leve e ilustrada com o melhor da música dos anos 80, a história de amor entre o cantor desiludido e a garçonete ingênua é uma das melhores opções do gênero da década seguinte. Uma pequena pérola cult para ver e rever sempre.

domingo, 15 de março de 2015

WILDE

WILDE (Wilde, 1997, BBC/Capitol Films, 118min) Direção: Brian Gilbert. Roteiro: Julian Mitchell, livro de Richard Ellman. Fotografia: Martin Fuhrer. Montagem: Michael Bradsell. Música: Debbie Wiseman. Figurino: Nic Ede. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic. Produção executiva: Alex Graham, Alan Howden, Deborah Raffin, Michael Viner, Michiyo Yoshizaki. Produção: Marc Samuelson, Peter Samuelson. Elenco: Stephen Fry, Jude Law, Vanessa Redgrave, Jennifer Ehle, Gemma Jones, Judy Parfitt, Michael Sheen, Tom Wilkinson, Ioan Gruffud, Zoe Wanamaker, Orlando Bloom. Estreia: 01/9/97

Um dos escritores mais respeitados e conhecidos do mundo - especialmente graças à sua obra-prima "O retrato de Dorian Gray" - o irlandês Oscar Wilde era conhecido em sua época também devido a seu estilo de vida pouco recomendado à alta sociedade. Notadamente homossexual - fato que nem mesmo seu casamento e os posteriores filhos conseguiram disfarçar perante a sociedade - ele frequentemente desfilava por Londres com algum jovem rapaz à tiracolo, suscitando todos os tipos de comentários (que naturalmente ficavam restritos a quatro paredes). Um desses rapazes, porém, foi o responsável indireto por jogar o autor de "A importância de ser honesto" em um escândalo de grandes proporções que nem mesmo o respeito público por sua obra literária foi capaz de abafar: condenado à dois anos de trabalhos forçados (a homossexualidade era crime passível de punição na Inglaterra do século XIX), Wilde se viu humilhado e rechaçado pela população, em um dos mais infames casos jurídicos do país. É esse recorte da vida do escritor - que se passa entre a criação de seu maior livro e a condenação que lhe fragilizou a saúde - a base de "Wilde", bela cinebiografia de Brian Gilbert que, apesar das inúmeras qualidades, passou quase despercebido pelos cinemas e pelas cerimônias de premiação.

Sua maior qualidade - e a que mais merecia homenagens nos tapetes vermelhos que tanto aplaudem talentos menores - é a atuação de Stephen Fry no papel central. Além da semelhança física com o Oscar Wilde, o ator inglês entrega um desempenho irretocável, que abrange todas as nuances da complexa personalidade do escritor de forma orgânica e objetiva. Em sua interpretação a plateia pode ver o homem apaixonado, o intelectual sardônico, o pai amoroso, o marido carinhoso, o dândi debochado e finalmente o mártir vencido pelo preconceito e pelo amor incondicional àquele que, de um modo ou outro, foi a faísca que deflagrou sua decadência. Ignorado por todas as cerimônias de premiação, Fry - que parece ter nascido para interpretar Wilde - foi o grande injustiçado de um ano em que a Academia resolveu homenagear a velha guarda de Hollywood (Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert Duvall e Peter Fonda foram indicados ao Oscar) e lançar um novo candidato a astro (Matt Damon, que saiu vencedor na categoria de roteiro original ao lado de Ben Affleck mas cuja lembrança no páreo de interpretação masculina soou mais como um incentivo do que como merecimento). Essa esnobada de todos os críticos - somente o Golden Globe lhe indicou no ano seguinte, quando o filme finalmente estreou nos EUA - porém, não tiram o brilho, tanto do ator quanto do filme em si.


A obra de Gilbert começa quando Wilde, voltando à Londres depois de uma temporada nos EUA, se casa com a doce Constance (Jennifer Ehle), com quem tem dois filhos justamente quando começa a tornar-se um dramaturgo de sucesso. É nessa época também que ele passa a exercer mais explicitamente sua homossexualidade, envolvendo-se com homens mais jovens e frequentemente de menos posses, que não se importam em dividir sua cama com outros rapazes na mesma situação - como Robie Ross (Michael Sheen), que se torna amigo íntimo e fiel do escritor. Sua rotina se altera profundamente, porém, quando ele se apaixona perdidamente pelo sedutor e manipulador Alfred 'Bosie' Douglas (Jude Law, antes de ficar famoso com "O talentoso Ripley" mas já demonstrando grande talento e beleza), filho do influente Marquês de Queensbery (Tom Wilkinson). Furioso com a relação entre o filho e aquele a quem considera um "pederasta pervertido", o marquês inicia uma campanha de difamação que resulta em um julgamento que expõe o estilo de vida de Oscar - e consequentemente, na sua ruína financeira e moral.

Construindo sua história sem pressa e estabelecendo com inteligência a relação desigual entre Wilde e Bosie - um rapaz egoísta, irresponsável e imaturo que é incapaz de perceber o estrago que suas atitudes podem causar ao amante - Brian Gilbert também cuida em dotar de personalidade os coadjuvantes de sua história, vividos por atores sensacionais como Tom Wilkinson e Vanessa Redgrave - que interpreta a mãe do protagonista com a personalidade forte de sempre. Dirigindo com elegâncias as cenas de sexo - que nunca ultrapassam o limite do bom-gosto e servem apenas para ilustrar o drama central - o cineasta conduz o roteiro de forma a enfatizar a situação extrema de seus personagens e não apenas de comentá-la como uma testemunha neutra. Nitidamente simpática a Wilde e à causa gay, a produção não se furta a retratar seu personagem principal como uma vítima de uma sociedade preconceituosa e hipócrita, o que confere ao filme ares de uma atualidade pungente. Mesmo que não se aprofunde na psicologia de seus protagonistas - que muitas vezes soam bastante fúteis e volúveis - o roteiro serve com perfeição para apresentar ao público uma das histórias mais tristes e revoltantes dos bastidores da literatura mundial. Um filme que não merecia o pouco-caso com que foi recebido e deve ser descoberto pelos fãs do gênero e de um dos maiores escritores da língua inglesa de todos os tempos.

sábado, 14 de março de 2015

DE CASO COM O ACASO

DE CASO COM O ACASO (Sliding doors, 1998, Intermedia Films/Mirage Enterprises/Miramax, 99min) Direção e roteiro: Peter Howitt. Fotografia: Remi Aderafasin. Montagem: John Smith. Música: David Hirschfelder. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic. Produção executiva: Guy East, Nigel Sinclair. Produção: Philippa Braithwaite, William Horberg, Sydney Pollack. Elenco: Gwyneth Paltrow, John Hannah, John Lynch, Jeanne Tripplehorn. Estreia: 26/01/98

O que deveria ser apenas mais uma segunda-feira corriqueira na vida da relações-públicas Helen (Gwyneth Paltrow) acaba se tornando um pequeno pesadelo quando ela é demitida do emprego, perde o trem que a levaria de volta para casa e acaba sendo assaltada na rua, chegando em casa logo depois que a amante do namorado vai embora. Porém, por outro lado, tudo poderia ter sido ainda pior se ela tivesse conseguido pegar o trem e, consequentemente, flagrado Gerry (John Lynch) nos braços da fogosa e passional Lydia (Jeanne Tripplehorn), com quem mantinha um romance antes de conhecê-la. Em ambas as situações, porém, ela teria conhecido o simpático James (John Hannah), que tentaria ajudá-la a superar suas crises pessoal e profissional. Essas duas versões de um momento crucial na vida de uma mulher - como se fossem universos paralelos constantemente se cruzando e conduzindo-a a outros caminhos - são a base de "De caso com o acaso", drama romântico estrelado por uma Gwyneth Paltrow pré-Oscar, com sotaque inglês e o charme inabalável. Ficando com o papel originalmente escrito para Minnie Driver, a bela filha da atriz Blythe Danner sai-se muito bem na pele de uma mulher comum abalada por circunstâncias externas que transformam totalmente sua vida.

Com base em uma premissa simples mas explorada com simpatia e leveza, o filme de Peter Howitt - um ator estreando na direção - acompanha com delicadeza as duas trajetórias de Helen, frequentemente dando a impressão de que irá cruzá-las em determinados momentos. Construindo uma estrutura eficiente ainda que previsível, ele permite ao espectador envolver-se paulatinamente com a história, conhecendo aos poucos os detalhes da vida de sua protagonista e compartilhando com ela seus dramas e pequenas realizações. Utilizando com inteligência o artifício de uma mudança de visual para diferenciar as duas Helens - a que se mantém ao lado de Gerry e continua sustentando-o com um novo trabalho de garçonete e aquela que parte em busca de uma nova vida, longe dele e iniciando um promissor romance com James - o cineasta explora também o talento de sua atriz principal em ser econômica e sutil. Longe de ser um filme de grandes dramas e tragédias, afinal, "De caso com o acaso" é uma obra que tenta, sempre que possível, aproximar-se do público através da identificação e da discrição de suas emoções.


Situando sua trama em Londres - o que explica o sotaque de Paltrow e a escolha de John Hannah como galã, uma opção nada óbvia e que de certa forma tanto ajuda quanto atrapalha o resultado final - Peter Howitt faz ótimo uso do belo visual da capital inglesa, com seus dias cinzentos que diferem drasticamente das ensolaradas ruas californianas ou nova-iorquinas que normalmente servem de cenário para filmes do gênero. Assim como as vidas de Helen - em constante mutação e inconstância emocional - os lugares pelos quais ela passa também sofrem com a ação do tempo e do destino, refletindo seu estado de espírito e sua evolução rumo à felicidade. É por isso que o cineasta não hesita em apontar sua câmera em direção a paisagens conhecidas do grande público e para outros pontos menos famosos, mas ainda assim fotogênicos o bastante para merecer um belo enquadramento: ele conta sua história intimista e romântica como uma lenda urbana, sempre deixando a plateia à espera do próximo movimento e da próxima bela sequência. Seu talento fica evidente principalmente no terço final, quando as duas versões da história quase se esbarram, em uma sequência fascinante que amarra com perfeição o roteiro cuidadoso.

Mesmo não sendo um filme perfeito - em parte porque a escalação de seus dois protagonistas masculinos não parece ter sido a mais feliz - "De caso com o acaso" cumpre com louvor a sua função de divertir e encantar. Gwyneth Paltrow - em um ano que ainda a mostraria em "Um crime perfeito" e no oscarizado "Shakespeare apaixonado" - conquista sem fazer esforço e a trilha sonora complementa com simpatia uma produção agradável, ligeira e fascinante, que lida com os problemas cotidianos com leveza e compaixão. Uma bela sessão da tarde.

sexta-feira, 13 de março de 2015

DEUSES E MONSTROS

DEUSES E MONSTROS (Gods and monsters, 1998, LionsGate Films, 105min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Bill Condon, livro "Father of Frankenstein", de Christopher Bram. Fotografia: Stephen M. Katz. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/James Samson. Produção executiva: Clive Barker, David Forrest, Stephen P. Jarchow, Beau Rogers. Produção: Paul Colichman, Gregg Fienberg, Mark R. Harris. Elenco: Ian McKellen, Brendan Fraser, Lynn Redgrave, Lolita Davidovich, David Dukes, Kevin J. O'Connor. Estreia: 21/01/98 (Festival de Sundance)

Indicado a 3 Oscar: Ator (Ian McKellen), Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Lynn Redgrave) 

Para a maioria dos espectadores o nome James Whale talvez não signifique nada - ao menos para as novas gerações, cujo conhecimento de cinema clássico resume-se a obras mais tradicionais e consagradas com Oscars e presença constante nas listas dos maiores filmes de todos os tempos. Àqueles que conhecem os bastidores de Hollywood, porém, a menção a Whale remete a produções seminais do cinema de horror dos anos 30, em especial "Frankenstein" e "A noiva de Frankenstein", ambos estrelados por Boris Karloff e que foram pedra de base para o gênero, influenciando todas as gerações seguintes de cineastas do gênero. Afastado do cinema devido à sua assumida homossexualidade, o cineasta inglês morreu afogado na piscina de sua casa depois de um bom tempo com a saúde abalada por um leve derrame. A história de seus últimos meses - narrada de forma lírica e provavelmente repleta de licenças poéticas - é o tema de "Deuses e monstros", belíssimo drama de Bill Condon, que ganhou o Oscar de roteiro adaptado e deu a Ian McKellen uma merecidíssima indicação ao prêmio da Academia. Também abertamente gay, McKellen é a alma de uma obra que mescla, com raro equilíbrio, reminiscências pessoais, críticas ao sistema cruel de fazer cinema da época dos grandes estúdios e uma história de amor e desejo banhada em extrema melancolia.

Passada em 1957 - anos depois da glória de Whale, portanto - a história de "Deuses e monstros" começa quando o ex-cineasta, ainda em recuperação pelo derrame que o deixou aos cuidados de sua dedicada governanta Hannah (Lynn Redgrave, premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de coadjuvante feminina), trava conhecimento com seu novo jardineiro, o jovem e atlético Clay Boone (Brendan Fraser em seu melhor desempenho até hoje). Atraído pelo rapaz, o veterano diretor oferece dinheiro para que ele pose para suas pinturas e surge entre eles uma espécie de amizade, frequentemente ameaçada pelas dúvidas de Clay a respeito das intenções de seu novo patrão. Alertado por Hannah da enorme diferença social e intelectual entre os dois, Whale não se deixa desanimar e passa a relatar ao jovem as memórias de sua infância e juventude, quando foi rejeitado pelo pai e partiu em busca da realização de seus desejos e talentos. A atração que sente por Boone, porém, pode por a amizade a perder.


Centrando-se basicamente na atuação extraordinária de Ian McKellen - que no mesmo ano brilhou também como um ex-nazista no suspense "O aprendiz", baseado em conto de Stephen King - Bill Condon conduz seu filme com extrema elegância, jamais apelando para a vulgaridade, nem mesmo na cena em que Whale tenta seduzir Clay depois de uma festa, que poderia soar como agressiva ou desconfortável. Graças ao meticuloso trabalho de McKellen, capaz de transmitir inúmeros sentimentos apenas com o olhar, seu personagem se torna menos ameaçador e mais digno de solidariedade, como um homem renegado de seu meio lutando pela sobrevivência e pela dignidade arrancada pelo preconceito de um mundo aparentemente isento deles. Nesse ponto é inteligente a forma como o roteiro transforma Boone de um homem simples e sem sofisticação intelectual no confidente de Whale, a pessoa que deflagra nele a corrente de lembranças que finalmente o liberta do passado e dá a ele alguns últimos momentos de felicidade na vida, ao contrário de seus pares, que lhe dão as costas simplesmente por causa de sua sexualidade. É fascinante também quando Condon mergulha o espectador nas memórias de seu protagonista, mostrando as filmagens de "A filha de Frankenstein" e presenteando a plateia com momentos de pura nostalgia e delicadeza de uma Hollywood no auge de sua criatividade - muita dela vindo da mente genial de Whale.

Ter dado o Oscar de melhor ator a Roberto Benigni em detrimento da premiação a McKellen - uma das maiores atrocidades já cometidas pela Academia em seus quase dois séculos de existência - apenas aumenta a aura de injustiça que percorre todos os minutos de "Deuses e monstros". Injustiça de Hollywood por alienar um grande talento, injustiça do público em esquecer um dos mais importantes artistas do cinema americano, injustiça do mundo em julgar um homem por suas diferenças. O filme de Bill Condon é um drama dos melhores: inteligente, sensível e brilhantemente escrito e interpretado. E se não bastasse tudo isso, tem Ian McKellen no papel de sua vida. Não é pouca coisa!

quinta-feira, 12 de março de 2015

TROPAS ESTELARES

TROPAS ESTELARES (Starship troopers, 1997, TriStar Pictures/Touchstone Pictures, 129min) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Ed Neumeier, romance de Robert A. Heinlein. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Mark Goldblatt, Caroline Ross. Música: Basil Poledouris. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Bob Gould. Produção: Jon Davison, Alan Marshall. Elenco: Casper Van Dien, Dina Meyer, Neil Patrick Harris, Denise Richards, Jake Busey, Clancy Brown, Michael Ironside. Estreia: 04/11/97

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

É no mínimo incoerente: ruim de doer, mal dirigido e se escorando puramente em efeitos visuais previsíveis e em um nacionalismo constrangedor, "Independence day" transformou-se, já em seu fim-de-semana de estreia, em uma das maiores bilheterias da história do cinema, arrastando multidões às salas de exibição e entronando Will Smith como um dos astros mais populares de seu tempo. Pouco mais de um ano depois, outra ficção científica - com efeitos mais bem elaborados, com um diretor muito mais talentoso e assumidamente trash - se viu apedrejada pela crítica e ignorada pelo público, não chegando nem mesmo a pagar seu custo astronômico de 100 milhões de dólares. Incompreendido pela mesma plateia que aplaudiu os americanos salvarem o mundo de um ataque alienígena no filme de Roland Emmerich, "Tropas estelares" teve o consolo de, com o tempo, sobreviver como um cult movie muito mais respeitado, sendo finalmente reconhecido pelo que é: um divertido pastiche do gênero, recheado de atuações grotescamente exageradas e com um roteiro claramente baseado em todos os clichês de ficção científica. A maior ironia? Mesmo com todos esses excessos propositais, o filme do holandês Paul Verhoeven é muito melhor do que "Independence day".

Assumindo um tom kitsch e farsesco sublinhado pela narrativa que se utiliza de trechos filmados como propaganda militarista, "Tropas estelares" se passa em um futuro não especificado, quando a Terra está em guerra declarada a uma civilização de insetos alienígenas ainda não totalmente estudados pela ciência. Buscando seus soldados ainda na escola, o exército arregimenta milhares de jovens que sonham em lutar pelo planeta e tornarem-se heróis de guerra. Dentre esses jovens encontram-se quatro colegas de ensino médio que, separados em suas divisões, voltam a encontrar-se quando o conflito explode em uma violência sem precedentes: vendo sua cidade destruída pelos inimigos e o planeta em vias de ser invadido, o jovem Johnny Rico (Casper Van Dien), a bela Carmen Ibanez (Denise Richards), a corajosa Dizzy Flores (Dina Meyer) e o genial Carl Jenkins (Neil Patrick Harris) se juntam às tropas armadas até os dentes com o objetivo de dizimar os crueis rivais.


Confortável dentro de um gênero no qual colheu dois de seus maiores êxitos comerciais - "Robocop", de 1987 e "O vingador do futuro", de 1990 - Verhoeven mergulhou em um romance clássico do escritor Robert A. Heinlein (o qual confessa ter lido apenas metade) para criar uma obra que regurgita todos os elementos mais óbvios da ficção científica com um ritmo ágil o suficiente para agradar às plateias pouco pacientes da última década do século, entregando a ela uma profusão de corpos desmembrados, piadas infames e sequências realizadas com os melhores efeitos visuais que um grande orçamento pode comprar. Ignorando por completo a censura americana - capaz de mutilar um filme com sua visão conservadora do politicamente correto e com seus rígidos limites sobre o que é ou não violento demais para o público - o cineasta não hesita em mostrar humanos sendo destroçados pelos insetos gigantescos com uma violência gráfica poucas vezes vista em filmes comerciais que zelam por seus lucros. Por mais paradoxal que possa parecer, no entanto, em cada fotograma de "Tropas estelares" - por mais cruel e debochado - Verhoeven demonstra um carinho legítimo pelo gênero, brincando com seus ingredientes com a intenção de oferecer um saboroso entretenimento à plateia. Infelizmente, quase ninguém comprou sua brincadeira.

É óbvio que as críticas negativas feitas a "Tropas estelares" à época de sua estreia foram feitas por aqueles que não entenderam o espírito de troça no qual o filme está nitida e generosamente banhado. e seus atores centrais com aparência de Barbie e Ken - os péssimos Denise Richards e Casper Van Dien - até o heroísmo exagerado de seus personagens unidimensionais, tudo no filme de Paul Verhoeven tem a função de hipérbole, de over, de caricatura, coisa que jamais faltou nos filmes do gênero, mas sob o manto de uma seriedade que sempre serviu para enfatizar um patriotismo boçal e aborrecido. "Tropas estelares" é um filme de ficção científica, mas no fundo é uma comédia descerebrada do mesmo naipe de "Corra que a polícia vem aí". Só não vê quem não quer ou tem medo de entender.

quarta-feira, 11 de março de 2015

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, 1997, Columbia Pictures, 105min) Direção e roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Michael Nyman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Nancy Nye. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan Arkin, Jude Law, Gore Vidal, Loren Dean, Xander Berkeley, Elias Koteas, Blair Underwood, Ernest Borgnine, Tony Shalhoub. Estreia: 07/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários

Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.

Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.


Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.

Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.

terça-feira, 10 de março de 2015

O QUARTO PODER

O QUARTO PODER (Mad city, 1997, Warner Bros, 115min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Tom Matthews, história de Tom Matthews, Eric Williams. Fotografia: Patrick Blossier. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Thomas Newman. Figurino: Deborah Nadoolman. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Jan Pascale. Produção executiva: Stephen Brown, Wolfgang Glattes, Jonathan D. Krane. Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson. Elenco: Dustin Hoffman, John Travolta, Alan Alda, Mia Kirschner, Blythe Danner, Robert Prosky. Estreia: 10/10/97

A nociva combinação entre a mídia e a ambição humana sempre encontrou nas telas de cinema vários exemplos e no mínimo um clássico indiscutível, o genial "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Essa receita explosiva pareceu irresistível para o cineasta grego Constatin Costa-Gavras, autor de filmes seminais do cinema político, como o oscarizado "Z" (69) e "Missing, o desaparecido" - estrelado por Jack Lemmon em 1982 - que viu na história de um homem comum sendo manipulado por um repórter sensacionalista em sua gana por audiência mais um potencial sucesso para sua bem-sucedida e provocativa carreira. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, "O quarto poder" - a união da instigante trama com o talento para a polêmica do diretor - caiu no vazio das boas intenções. Fracasso de bilheteria e ignorado pela crítica, o filme estrelado por Dustin Hoffman e John Travolta peca pela superficialidade, pelo ritmo irregular e pasmem, pela direção apática de Costa-Gavras, que em nenhum momento consegue atingir a plateia com a contundência de suas obras anteriores.

O protagonista do filme é Max Brackett (Dustin Hoffman aparentemente no piloto automático), um repórter televisivo que já teve seus momentos de glória, mas que caiu em desgraça depois de um desentendimento com Kevin Hollander (Alan Alda), âncora de um famoso telejornal de alcance nacional que o relegou a um noticiário pouco visto em uma cidade do interior. Em constante conflito com seu chefe por buscar notícias mais empolgantes do que meros factoides de interesse restrito, ele vê cair em suas mãos, inesperadamente, uma situação que pode lhe render a grande chance dessa fase ruim de sua carreira. Durante uma entrevista tediosa em um museu da cidade, ele testemunha um funcionário demitido, Sam Baily (John Travolta com as mesmas caras e bocas de sempre), invadir o local armado com uma espingarda e exigindo seu emprego de volta. Raposa velha do jornalismo, ele fareja um furo na história, especialmente quando, por acidente, a arma dispara atingindo um segurança do museu - negro, o que atiça ainda mais os ânimos politicamente corretos que veem nisso um crime de ódio - e o atarantado Sam resolve manter como reféns todas as crianças que estão em visita ao prédio. Conquistando aos poucos a confiança de Sam, o repórter conta com a ajuda de sua assistente, a ambiciosa Laurie (Mia Kirschner), para chamar a atenção da mídia nacional e transformar o fato em circo, retomando o destaque de seus dias mais felizes.


Como nem sempre as coisas funcionam da maneira esperada, no entanto, Max se vê diante de um dilema moral quando seu arquirrival Kevin surge em cena, querendo a protagonização da história. Com ainda menos escrúpulos, o famoso âncora passa a manipular as entrevistas feitas por Laurie, com a intenção de transformar Sam de vítima das circunstâncias em um vilão desequilibrado capaz de matar um homem negro pai de família e manter um grupo de crianças como refém. Percebendo as artimanhas de Hollander, Max passa a questionar sua própria ambição e tenta ajudar Sam a sair da armadilha que ele mesmo preparou, chegando à conclusão de que talvez as coisas tenham saído demais do seu controle. Enquanto isso, a população é manipulada facilmente pelo noticiário e cerca o museu, à espera do desfecho do sequestro.

Costurando vários focos de narrativa ao mesmo tempo - a relação entre Max e Sam, a manipulação comandada por Hollander, as entrevistas de Laurie, a manifestação da plateia ávida por sangue - o roteiro acaba por não dar conta de uní-las de maneira satisfatoria, dando a impressão de buracos pouco confortáveis entre uma e outra que nem mesmo a direção consegue disfarçar. A trama central - instigante, inteligente - se perde diante de tantos desvios, esvaziando seu tom de denúncia quando resolve dedicar boa tarde de seu terço final à crise de consciência de Max, em uma reviravolta otimista e forçada que não condiz com o cinismo ácido de seu início promissor. Nem mesmo o final - que acaba sendo previsível e anti-climático - salva o show de virar o aborrecido e banal retrato de uma sociedade doentia e manipulável pela mídia. Não é uma desgraça total - Dustin Hoffman sempre vale uma espiada, mesmo quando não está em seus melhores dias - mas vindo de um diretor do porte de Costa-Gavras é bastante decepcionante.