terça-feira, 30 de junho de 2015

UM CRIME DE MESTRE

UM CRIME DE MESTRE (Fracture, 2007, New Line Cinema/Castle Rock Entertainment, 113min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Daniel Pyne, Glenn Gers, estória de Daniel Pyne. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: David Rosenbloom. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Paul Eads/Nancy Nye. Produção executiva: Toby Emmerich, Liz Glotzer, Hawk Koch. Produção: Charles Weinstock. Elenco: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke, Fiona Shaw, Bob Gunton, Xander Berkeley, Zoe Kazan. Estreia: 11/4/07

Em seu filme de estreia, o cineasta Gregory Hoblit conquistou o público com uma instigante trama de tribunal que colocava frente a frente um advogado vaidoso e arrogante (Richard Gere) e um jovem sacristão acusado de matar violentamente um arcebispo. O filme era "As duas faces de um crime" e, além de ter dado a primeira chance no cinema a Edward Norton - que a aproveitou como poucos, chegando ao páreo do Oscar de coadjuvante - mostrou em Hoblit um cineasta correto e atencioso com os atores e o texto. Tais características são claras também em "Um crime de mestre", lançado mais de uma década depois e que, assim como em seu primeiro filme, junta em cena um ator veterano e um talento promissor, no caso, Anthony Hopkins - o eterno Hannibal Lecter - e Ryan Gosling, iniciando uma trajetória de bons papéis e filmes menos esquecíveis como "Cálculo mortal". E a menção ao mais famoso canibal do cinema não é casual: mesmo sendo um grande ator, é impossível não perceber em sua atuação como o milionário Ted Crawford traços bem nítidos do papel que lhe deu a estatueta da Academia.

O olhar frio, o calculismo e um certo tom de superioridade ao restante da humanidade são algumas  das similaridades entre Lecter e Crawford, um milionário do ramo da aviação que, ao descobrir o relacionamento extra-conjugal de sua esposa, Jennifer (Embeth Davidtz), planeja sua morte com requintes de artista: ao chegar em casa depois de um encontro com o amante, Jennifer é atingida com um tiro no rosto e é internada em coma. Acuado pela polícia dentro de sua mansão, Crawford confessa o crime e é preso imediatamente. O defensor público escalado para cuidar de seu caso é o ambicioso Willy Beachum (Ryan Gosling), jovem advogado em vias de dar um salto na carreira e tornar-se sócio de uma conceituada firma da qual faz parte a sedutora Nikki Gardner (Rosamund Pike) - com quem ele acaba se envolvendo romanticamente. Acontece que Beachum não está muito interessado no caso por considerá-lo perdido - o suspeito, afinal de contas, fez uma confissão à polícia e foi preso em flagrante. No entanto, uma surpresa na condução das preliminares do julgamento o faz mudar de ideia: defendendo a si mesmo diante do juiz, Crawford põe em dúvida a veracidade de sua confissão ao revelar, durante um depoimento, que o policial que o prendeu, Robert Nunnaly (Billy Burke), era o amante de sua mulher.


Por vezes o roteiro de "Um crime de mestre" exagera nas tecnicalidades do direito penal americano, mas nada que o público acostumado a uma constante dieta de filmes do gênero não consiga acompanhar sem dificuldade, principalmente porque Hoblit tem pleno domínio do ritmo de seu filme, impedindo qualquer queda no interesse pela trama. É lógico que o duelo de interpretações entre Gosling e Hopkins dá um molho especial à narrativa, fotografada com elegância e sofisticação em ângulos de câmera criativos e que enfatizam o tom de quebra-cabeças da história. E se Hopkins repete à exaustão os tiques que lhe deram fama, o jovem Gosling deita e rola com a oportunidade de contracenar com um dos monstros sagrados do cinema: ficando com o papel para o qual também foi testado Chris Evans - o futuro Capitão América das telas - ele entrega uma atuação visceral que lhe conduziu em seguida ao posto de uma das maiores promessas de Hollywood (não à toa, ele recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho no independente "Half Nelson" às vésperas da estreia de "Um crime de mestre" nos EUA). Suas cenas com Hopkins - tensas e calcadas basicamente no talento dos atores - e com Rosamund Pike - banhadas em uma tensão sexual na dose certa - são, certamente, as melhores do filme.

"Um crime de mestre" não é um filme brilhante, mas tem qualidades o bastante para satisfazer o gosto dos fãs do gênero, com suas viradas, seus diálogos inteligentes e um final que, apesar de não atingir todo o seu potencial, é coerente e verossímil. Além do mais, nada é mais instigante do que testemunhar um duelo de interpretações entre dois ótimos atores de gerações diferentes. Um programa de nível para quem prefere utilizar o cérebro ao invés dos músculos.

domingo, 28 de junho de 2015

PARANOIA

PARANOIA (Disturbia, 2007, DreamWorks SKG, 105min) Direção: D.J. Caruso. Roteiro: Christopher Landon, Carl Ellsworth, estória de Christopher Landon. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Jim Page. Música: Geoff Zanelli. Figurino: Marie-Sylvie Deveau. Direção de arte/cenários: Tom Southwell/Maria Nay. Produção executiva: Tom Pollock, Ivan Reitman. Produção: Jackie Marcus, Joe Medjuck, E. Benneth Walsh. Elenco: Shia LaBeouf, David Morse, Carrie-Anne Moss, Sarah Roemer, Aaron Yoo, Viola Davis. Estreia: 04/4/07

Uma versão adolescente e moderna de "Janela indiscreta" poderia parecer desnecessária para uns, mercenária para outros e até blasfêmia para os mais exaltados. No entanto, é praticamente isso que "Paranoia", dirigido pelo mesmo D.J. Caruso de "Roubando vidas", é. O mais surpreendente de tudo, porém, não é o fato de uma versão puramente comercial de um clássico do suspense ter sido um sucesso de bilheteria (mais de 80 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico) nem de ter o dedo milionário de Steven Spielberg na produção (através de seu estúdio DreamWorks): o mais admirável é que o filme de Caruso funciona muito bem. Desde a escolha do elenco - o jovem Shia LaBeouf ainda não havia estrelado o blockbuster "Transformers", mas já demonstrava fôlego para segurar produções mais ambiciosas - até a direção dotada de ritmo e tensão, tudo se encaixa à perfeição para criar um entretenimento despretensioso, capaz de agradar até ao mais ferrenho defensor do "purismo cinematográfico".

Levando-se em conta que até mesmo a justiça americana considerou inválida a ação perpetrada pelos detentores dos direitos autorais do conto de Cornell Woolrich que deu origem ao filme de Hitchcock - por perceber no roteiro de "Paranoia" diferenças em número suficiente para dar-lhe uma identidade original - os tais puristas deveriam relaxar e aproveitar 105 minutos de diversão descompromissada e tecnicamente bem-cuidada, como tudo que leva a mão de Spielberg - que mais tarde daria a LaBeouf o papel de filho do arqueólogo mais famoso do cinema, em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Inteligente e com altas doses de adrenalina, "Paranoia" é uma sessão da tarde turbinada, que requer apenas uma plateia disposta a embarcar na trama junto com os protagonistas e uma bom combo de pipoca e refrigerante. Não muda a história do cinema, mas é divertido e muito competente.


Antes de tornar-se mais um jovem ator-problema de Hollywood, Shia LaBeouf vive Kale, um adolescente de 17 anos, órfão de pai - morto em um recente acidente de carro - que, depois de agredir um professor, é condenado a três meses de prisão domiciliar. Sem poder recorrer ao velho e bom video-game e à Internet - cortados por sua mãe, Julie (Carrie-Anne Moss, a Trinity da trilogia "Matrix") - resta a ele acompanhar a rotina diária de sua vizinhança através de um binóculo. Tal rotina torna-se extremamente interessante, porém, quando a bela Ashley (Sarah Roemer) muda-se para uma casa próxima e lhe dá, mesmo sem saber, shows diários de banhos de sol e trocas de roupa em seu quarto. Sua paixão pela nova vizinha ele compartilha com seu melhor amigo, Ronnie (Aaron Yoo), mas logo esse sentimento de paz e amor é ameaçado quando evidências passam a apontar que um outro vizinho, o misterioso Turner (David Morse), é o assassino de uma série de mulheres e que fez uma das vítimas em sua casa. O trio passa então, a investigar o caso, mesmo que Kale não possa afastar-se do quintal de sua propriedade.

Contando sua história aos poucos, sem apressar o ritmo e em tensão crescente, D.J. Caruso mantém o interesse da audiência aceso do início ao fim, equilibrando momentos de puro suspense com outros mais leves, onde explora o romance nascente entre Kale e Ashley - o que leva o filme aos domínios da plateia adolescente, público-alvo da produção, afinal de contas - e dá inevitável espaço para o humor, na figura de Ronnie, que, felizmente, não serve apenas para arrancar risos e também põe a mão na massa na hora de provar a culpa do vilão, vivido com gosto por David Morse, um ator que tem o tipo certo para o personagem e tira de letra a missão de bater de frente com um trio de adolescentes bisbilhoteiros que atrapalham sua trajetória criminosa. Sem poupar ninguém, o suspeito - logo tornado culpado - mostra que não é preciso ser um mascarado atrapalhado para dar sustos na plateia jovem (e nem mesmo naquela nem tão jovem assim). Com um vilão apavorante, um protagonista carismático e uma trama razoavelmente consistente, "Paranoia" é um programa dos bons. Basta não esperar uma obra-prima como o filme que lhe inspirou.

sábado, 27 de junho de 2015

IMPÉRIO DOS SONHOS

IMPÉRIO DOS SONHOS (Inland Empire, 2006, StudioCanal, 180min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: David Lynch. Montagem: David Lynch. Figurino: Karen Baird. Direção de arte/cenários: Christina Wilson/Melanie Rein. Produção executiva: Keith Kjarval, Marek Zydowicz. Produção: David Lynch, Mary Sweeney. Elenco: Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Grace Zabriskie, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, William H. Macy, Julia Ormond, Mary Steenburgen, Nastassja Kinski, Laura Harring. Estreia: 06/9/06 (Festival de Veneza)

Um belo dia, a atriz Laura Dern recebeu um telefonema do diretor David Lynch - com quem já havia trabalhado nos filmes "Veludo azul" e "Coração selvagem" - e ouviu dele uma proposta tão estranha quanto irresistível: "Você quer experimentar?", perguntava a voz de um dos cineastas de maior prestígio do cinema americano independente. Intrigada e disposta a mergulhar novamente no universo onírico do criador de Laura Palmer, Dern topou a brincadeira. Surgia assim o mais hermético, bizarro e assustador de Lynch, "Império dos sonhos". Quem considerava sua obra fascinante, envolvente e poética a seu modo particular ganhou mais uma obra-prima. Aqueles que o rechaçavam como um diretor capaz de construir climas e imagens instigantes mas vazias de conteúdo tiveram mais munição. Mas o fato é que seu filme - o último até agora - parece ser tese final de décadas de estudo sobre a natureza complexa e muitas vezes maligna do ser humano. Você pode até não entender absolutamente nada do filme - assim como a própria Dern e seu colega de elenco Justin Theroux - mas é impossível ficar incólume à toda a carga de angústia, tensão e excitação intelectual que ele transmite a cada cena.

Quem começar a assistir a "Império dos sonhos" em busca de um filme com começo, meio e fim lógicos e bem definidos certamente irá decepcionar-se. Assim como "A estrada perdida" (99) e "Cidade dos sonhos" (02), seu filme se presta a inúmeras interpretações - e todas elas certamente estarão corretas, uma vez que o próprio David Lynch não faz a menor questão de esclarecer totalmente a trama, borrando deliberadamente as fronteiras entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o palpável e o onírico. Contando com uma atuação assombrosa de Laura Dern, o cineasta mistura a uma história, já intrincada por natureza, imagens do mais puro nonsense - uma família de coelhos comporta-se como seres humanos em uma sitcom, por exemplo - e sequências de dar orgulho a qualquer discípulo de Jung. Usando e abusando de lentes grande-angulares, distorções de imagem e ruídos perturbadores, ele arquiteta um gigantesco painel de neuroses, culpas e violência que joga as pistas no colo do espectador, desafiando-o a montar um quebra-cabeças que talvez não se utilize de todas as peças - ao menos da maneira convencional.


A história - ou pelo menos o fio narrativo que dá o empurrão inicial - começa quando a atriz Nikki Grace (vivida por Laura Dern em estado de graça) aceita o papel principal de um filme romântico que está prestes a ser rodado pelo diretor Kingsley Stewart (Jeremy Irons). Antes do começo das filmagens, ela é procurada por uma nova vizinha (Gracie Zabriskie, de "Twin Peaks"), que a adverte em relação ao novo papel e, através de códigos, a alerta a respeito das consequências que a decisão de realizá-lo pode trazer. Ignorando os avisos, Nikki se envolve de cabeça no projeto e acaba por se apaixonar por seu colega de cena, o ator Devon Berk (Justin Theroux, o sr. Jennifer Aniston) - o que espelha a trama do filme que estão fazendo, na verdade o remake de um original que nunca chegou a ser finalizado porque seu casal de protagonistas morreu assassinado. Tal descoberta afunda Nikki ainda mais em um estado em que ela passa a confundir a realidade com a ficção.

Em seu terço inicial, "Império dos sonhos" até consegue enganar o público, com uma narrativa onde expõe alguns dos elementos com os quais irá jogar mais adiante. Não demora muito, porém, para que as pistas comecem a se acumular sem explicações plausíveis, o que transmite a exata sensação de desespero de sua protagonista, perdida em um mundo sem entradas e saídas facilmente definíveis. Na desordem organizada de Lynch frases são repetidas em momentos diametralmente opostos, situações aparentemente contraditórias completam uma a outra, personagens de épocas e mundos diferentes convivem pacificamente e atores consagrados fazem pontas quase imperceptíveis (caso de Diane Ladd, William H. Macy e Nastassja Kinski). No mundo feérico do diretor, a lógica como a conhecemos no dia-a-dia não se aplica. Tal característica - que a tantos confunde e afasta - é uma qualidade das maiores em um cinema cada vez mais estéril como o de Hollywood. Só isso já faz de "Império dos sonhos" um programa imperdível.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

BOBBY

BOBBY (Bobby, 2006, The Weinstein Company, 120min) Direção e roteiro: Emilio Estevez. Fotografia: Michael Barrett. Montagem: Richard Chew. Música: Mark Isham. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Lisa Fischer, Radha Mehta. Produção executiva: Dan Grodnick, Anthony Hopkins, Michelle Krumm, Matthew Landon, Gary Michael Walters. Produção: Edward Bass, Michael Litvak, Holly Wiersma. Elenco: Harry Belafonte, Emilio Estevez, Laurence Fishburne, Heather Graham, Anthony Hopkins, Helen Hunt, Joshua Jackson, David Krumholtz, Ashton Kutscher, Shia LeBeouf, Lindsay Lohan, William H. Macy, Demi Moore, Freddie Rodriguez, Martin Sheen, Christian Slater, Sharon Stone, Elijah Wood. Estreia: 05/9/06 (Festival de Veneza)

Em 1991, Oliver Stone lançou o espetacular "JFK", em que investigava o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, ocorrido em novembro de 1963, utilizando-se, para isso, de toda a sua parafernália de artifícios narrativos e visuais - deu certo, e, além de várias indicações ao Oscar (e das estatuetas de fotografia e edição) e do sucesso de bilheteria, tornou-se um clássico instantâneo do cinema político e talvez o melhor trabalho de sua carreira. O roteiro - baseado em dois livros com teorias distintas e que paradoxalmente se completavam - citava, em determinado momento, a morte do irmão caçula de John, o senador Robert, assassinado em Los Angeles, justamente quando estava a caminho de tornar-se ele mesmo presidente dos EUA, em 1968. Tal fato, que confirmava o triste destino dos Kennedy e que serviu de combustível a mais em um país em um período de convulsão social - com lutas violentas pelos direitos civis e a guerra do Vietnã suscitando as mais beligerantes discussões entre todas as classes sociais - serve de tema para "Bobby", escrito e dirigido pelo ator/cineasta Emilio Estevez: ao contrário do filme de Stone, porém, Estevez optou por um caminho menos ambicioso, ao utilizar a tragédia apenas como pano de fundo para um representativo painel humano da época. Se por um lado acerta - ao fugir das comparações e evitar controvérsias desnecessárias - também peca - com tantos personagens em cena é difícil aprofundá-los. Mas a indicação ao Golden Globe de melhor filme dramático de 2006 mostra que, entre mortos e feridos, a obra do irmão mais velho de Charlie Sheen tem muito mais méritos do que defeitos.

A trama de "Bobby" se passa no dia 04 de junho de 1968, data das eleições primárias na Califórnia, onde Robert Kennedy é o franco-favorito graças à sua campanha baseada no pacifismo e nos interesses do povo. O QG de sua campanha é o Hotel Ambassador, onde ele é esperado no final da noite para discursar a seus eleitores e apoiadores. E é nesse hotel de luxo em Los Angeles que vários dramas se desenrolam durante o dia, atingindo funcionários e hóspedes que esperam ansiosamente pela chegada do homem que eles acreditam ser capaz de renovar as esperanças do país. Entre eles está o antigo porteiro do hotel, o veterano John Casey (Anthony Hopkins, produtor executivo do filme) e seu velho amigo Nelson (Harry Belafonte), inconscientes dos problemas da cozinha do local, quase implodindo com o racismo do responsável pelo departamento, Daryl (Christian Slater) e pelas conversas entre o experiente cozinheiro Edward (Laurence Fishburne) e o latino Jose (Freddie Rodriguez), contrariado pelo expediente duplo que o impedirá de assistir a um jogo de baseball já clássico antes mesmo de acontecer. É nas dependências dos empregados também que Paul (William H. Macy) esconde da esposa - a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) - seu relacionamento com a telefonista Angela (Heather Graham) e os responsáveis pela campanha de Kennedy - Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) - tentam dar ordem aos jovens cabos eleitorais e organizar a leva de jornalistas sequiosos por entrevistas.


Entre os hóspedes também há espaço para drama: a veterana cantora Virginia Fallon (Demi Moore, que foi noiva de Estevez antes de tornar-se diva sexy) luta contra o vício em álcool enquanto enlouquece seu marido e empresário Tim (o próprio Estevez). O casal Samantha (Helen Hunt) e Jack (Martin Sheen) luta contra a instabilidade mental dela, a jovem Diane (Lindsay Lohan) se casa com o amigo William (Elijah Wood) para impedí-lo de ser chamado ao Vietnã e os dois amigos Jimmy (Brian Geraghty) e Cooper (Shia LaBeouf), em vez de buscar eleitores, entram em uma viagem de LSD proporcionada pelo traficante Fisher (Ashton Kutscher). Como é comum em filmes-coral - popularizados por Robert Altman no início dos anos 90 e quase obrigatórios desde então - os personagens se cruzam ocasionalmente, até o clímax, quando a chegada do senador e a subsequente tragédia unem a todos, independente de classe social, fama ou drama pessoal.


Intercalando cenas reais de discursos de Robert Kennedy aos dramas dos personagens fictícios de seu filme (embora alguns sejam levemente inspirados em histórias reais, como o jovem cozinheiro vivido por Freddie Rodriguez, que ficou ao lado do senador enquanto aguardava o socorro médico e o porteiro interpretado por Anthony Hopkins), Emilio Estevez dá a ele um tom acertado de nostalgia e ao mesmo tempo mostra um amplo painel de relações humanas à luz de sua época, sem soar exageradamente saudosista e demonstrando clara admiração pelas palavras do homem que dá título à sua obra. Enquanto apresenta hippies, ativistas, negros e latinos em busca de aceitação social, jovens com medo da guerra do Vietnã e até repórteres socialistas atrás de cinco minutos de atenção com o homem do dia, o filme também mostra sequências que mostram o carisma enorme de Bobby, ao som da eloquente "The sound of silence", da dupla Simon & Garfunkel - em especial depois dos tiros que o vitimam é díficil não se emocionar com elas, em um toque emocional que chega perto do clichê, mas que funciona muito bem, assim como o encontro de duas das mais belas mulheres do cinema americano da década de 90 (Sharon Stone e Demi Moore) na cena mais interessante do filme, quando elas discutem a força do tempo em relação à efemeridade da juventude.

Talvez a indicação ao Golden Globe de melhor filme tenha sido mais por causa do elenco atraente ou das boas intenções de Estevez - que demorou sete anos para transformar a ideia em algo concreto. Mas é inegável que é um filme correto, sem exageros e até discreto - deixando de lado a atuação vergonhosa de Ashton Kutscher. Vale uma espiada, especialmente por seguir um viés diametralmente oposto ao "JFK" de Oliver Stone.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

CAPÍTULO 27

CAPÍTULO 27 (Chapter 27, 2007, Peace Arch Entertainment Group, 84min) Direção: J.P. Schaefer. Roteiro: J.P. Schaefer, livro "Let me take you down", de Jack Jones. Fotografia: Tom Richmond. Montagem: Andrew Hafitz, Jim Makiev. Música: Anthony Marinelli. Figurino: Ane Crabtree. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Amanda Carroll. Produção executiva: Gilbert Alloul, Rick Chad, John Flock, Gary Howsam, Jared Leto, Lewin Webb. Produção: Naomi Despres, Alexandra Milchan, Robert Salerno. Elenco: Jared Leto, Lindsay Lohan, Ursula Abbott, Brian O'Neill. Estreia: 25/01/07 (Festival de Sundance)

O mundo inteiro parou em prantos em 08 de dezembro de 1980, quando o ex-Beatle e ídolo de várias gerações John Lennon morreu assassinado a tiros em frente ao prédio que morava, em Nova York - o infame Dakota onde Roman Polanski filmou "O bebê de Rosemary" doze anos antes. Seu assassino, preso imediatamente, era um fã chamado Mark David Chapman,  que alegou ter cometido o crime incentivado pela leitura do clássico americano "O apanhador no campo de centeio", de J.D. Salinger. Os três dias imediatamente anteriores ao homicídio, sob o ponto de vista de Chapman, é o tema de "Capítulo 27", filme de J.P. Schaefer baseado no livro "Let me take you down", publicado em 1992 e, apesar de sua estreia no Festival de Sundance e da atuação impressionante de Jared Leto no papel principal, passou praticamente em brancas nuvens junto ao público e à crítica. Leto, um dos produtores executivos do filme, chegou a engordar 30 quilos para dar vida ao torturado Chapman, mas, apesar de seu esforço, não chamou tanta atenção quanto deveria dos membros da Academia - que quase uma década mais tarde, reconheceriam sua dedicação no caminho contrário, ao emagrecer assustadoramente para viver um travesti em "Clube de Compras Dallas", que finalmente lhe rendeu um Oscar.

Enxuto e claustrofóbico, "Capítulo 27" começa com a chegada de Chapman em Nova York, vindo alegadamente do Havaí, onde mora sua mãe. Hospedado em um hotel de quinta categoria - e dividindo espaço com prostitutas, traficantes e homossexuais - ele passa a frequentar com assiduidade a calçada em frente ao prédio onde vive Lennon, Yoko Ono e seu filho pequeno, Sean, com quem ele tem um encontro fortuito em um passeio pelo Central Park ao lado de outra fã dedicada, Jude (Lindsay Lohan). Introvertido e um tanto assustador com seus modos e lapsos de agressividade, ele tenta, sem muito sucesso, fazer amizade com os porteiros do prédio e com as pessoas que rodeiam o cantor, com o objetivo de conseguir com ele um autógrafo na capa de seu disco mais recente, "Double Fantasy". Enquanto discute com os outros fãs assuntos diversos - como a coincidência que envolve o fato de Polanski ter dirigido um filme sobre cultos satânicos no mesmo prédio onde mora o autor da canção "Helter skelter", que o psicótico Charles Manson usou como inspiração para a chacina que vitimou a mulher do diretor, a atriz Sharon Tate - Chapman também não consegue se livrar das palavras do livro de Salinger, com cujo protagonista Holden Caufield ele se identifica às raias da obsessão. Suas intenções - que ficam claras desde as primeiras cenas - é matar Lennon, escrevendo o capítulo final do livro, o de número 27.


Não é difícil entender porque a recepção tão fria ao filme de Schaefer: com um roteiro frágil, sustentado apenas pelos pensamentos doentios e muitas vezes desconexos de seu protagonista, a produção esbarra inevitavelmente no problema de contar uma história cujo final todos conhecem sem acrescentar a ela nenhum dado relevante ou interessante o bastante para sustentar um filme inteiro. Jared Leto está fascinante no papel, conseguindo impressionar com uma interpretação que ultrapassa a simples transformação física para mostrar, através do olhar e da maneira como se movimenta em cena, um turbilhão interno dos mais aterrorizantes: não é à toa que ele engole tudo à sua volta sempre que está em cena, em um tour de force que antecipava em vários anos o quão alto ele poderia subir em termos dramáticos. Seu trabalho é tão avassalador que até mesmo a normalmente carismática Lindsay Lohan fica quase desaparecida em cena, em um papel pequeno que muitas vezes soa apenas como um alívio de normalidade diante dos distúrbios de Chapman.

"Capítulo 27" não é um grande filme, muito pelo contrário: apesar de curto, muitas vezes parece aborrecido e desnecessariamente metido a tentar compreender os meandros psicológicos de seu protagonista. Mesmo assim, vale a pena ser conhecido, já que a atuação de Jared Leto é uma das mais interessantes de seu tempo - e ter como pano de fundo a morte de Lennon, um ídolo extremamente relevante e eterno para a música pop, é um bônus para todos aqueles que tentam entender o que aconteceu naquela fatídica noite de dezembro quando o sonho realmente acabou. Vale uma espiada.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

LONGE DELA

LONGE DELA (Away from her, 2006, Foundry Films/Capri Releasing, 110min) Direção: Sarah Polley. Roteiro: Sarah Polley, conto "The bear come over the mountain", de Alice Munro. Fotografia: Luc Montpellier. Montagem: David Wharnsby. Música: Jonathan Goldsmith. Figurino: Debra Hanson. Direção de arte/cenários: Kathleen Climie/Mary Kirkland. Produção executiva: Atom Egoyan, Doug Mankoff. Produção: Daniel Iron, Simone Urdl, Jennifer Weiss. Elenco: Julie Christie, Gordon Pinsent, Olympia Dukakis, Michael Murphy, Tom Harvey, Stacey LaBerge. Estreia: 11/9/06 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Julie Christie), Roteiro Adaptado

Em 2001, no voo de volta da Islândia, onde havia acabado de filmar "No such thing", de Hal Hartley, a jovem atriz Sarah Polley - conhecida por filmes como "O doce amanhã" e "Vamos nessa" - deu de cara com o conto "The bear come over the mountain", da escritora Alice Munro e nao pode deixar de imaginar como uma adaptação para o cinema da história poderia ser poderosa, especialmente se o papel principal feminino ficasse nas mãos de Julie Christie, com quem havia acabado de fazer o filme de Hartley. Depois de ver o projeto de seu primeiro filme abortado - a história de uma atriz de doze anos de idade fazendo uma série de televisão - Polley resolveu então recorrer a seu plano B. Roteiro escrito, ela o enviou à Christie, que o recusou por diversas vezes, por mais de um ano até que finalmente dobrou-se à tenacidade da jovem diretora estreante. Surgia assim "Longe dela", um belo e tocante drama sobre o amor, a velhice e a abnegação - que deu a Christie, merecidamente, uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Tendo estreado no Festival de Toronto de 2006, porém, o filme só chegou às telas americanas em 2007, o que fez com que a eterna Lara de "Doutor Jivago" batesse de frente com Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor" - o que acabou com suas chances de vitória. Se tal acontecesse, porém, não seria nada injusto: poucas vezes uma interpretação feminina foi tão sutil e delicada.

Christie - com seus belos olhos azuis e sua beleza plácida em nada prejudicada pelo tempo - faz o papel de Fiona Anderson, uma mulher inteligente e dedicada ao casamento de 44 anos com o professor aposentado Grant (Gordon Pinsent), com quem vive em Ontário, no Canadá. Sem filhos, o casal, ainda apaixonado apesar das crises pelas quais passaram durante essas quatro décadas, se vê, de repente, diante de seu maior desafio: a possibilidade de Fiona ser portadora do mal de Alzheimer, aventada por seus lapsos de memória cada vez mais constantes. A solução encontrada pelos dois, a menos a princípio, é sua internação em um sanatório chamado Meadowlake - um lugar pacífico e agradável onde ela pode conviver com outros pacientes e ser assistida por médicos e enfermeiros especializados. O problema maior do hospital, no entanto, é a regra de manter os pacientes sem visitas durante seus primeiros trinta dias, como forma de facilitar a adaptação. Grant sente-se torturado pela possibilidade, mas quando este período de tempo passa e ele finalmente reencontra a esposa, ela não apenas não o reconhece como o marido de uma vida toda como demonstra um interesse especial por um colega de internação, o também casado Aubrey Barque (Michael Murphy).


Contando sua história fora de ordem cronológica - mas sem os exageros estilísticos com os quais muitos estreantes tentam demonstrar serviço - Sarah Polley demonstra um surpreendente conhecimento da alma humana (especialmente das pessoas de mais idade), desenvolvendo em seus personagens uma profundidade rara (cortesia de sua origem literária, provavelmente). Muitas vezes abdicando dos diálogos e deixando que seus atores (sensacionais) falem mais com os olhos, ela exige do espectador uma sensibilidade quase feminina, desenhada em pequenos gestos e em uma tristeza pungente, que atravessa todo o filme, sublinhada pela trilha sonora minimalista de Jonathan Goldsmith e pela fotografia elegante de Luc Montpellier, que tira proveito da branquidão da neve canadense para enfatizar a solidão dos protagonistas - como se dentro deles também houvesse uma geleira intransponível que só pode ser derretida com o amor e o calor humano, por mais doloroso que ele possa soar.

Em seu terço final, quando fica claro ao espectador a razão pela qual Grant procura a esposa de Aubrey, a conformada Marion (Olympia Dukakis, sempre ótima), "Longe dela" cresce ainda mais. Ousando em um desfecho pouco comum - que consegue ser ao mesmo tempo feliz e extremamente melancólico - Polley desconstroi de forma tênue mas firme as convenções a respeito de casamento, fidelidade e generosidade, entregando ao público uma história forte e comovente a respeito do poder do amor e da lealdade. Amparado por uma atuação monstruosa de Julie Christie e pela força silenciosa de Gordon Pinchent - que perdeu a esposa em janeiro de 2007, quatro meses depois da estreia do filme - "Longe dela" é de deixar o coração apertado, mas aquecido. Uma estreia das mais auspiciosas.


terça-feira, 23 de junho de 2015

FILHOS DA ESPERANÇA

FILHOS DA ESPERANÇA (Children of men, 2006, Universal Pictures, 109min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby, romance de P.D. James. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Alfonso Cuarón, Alex Rodríguez. Música: John Tavener. Figurino: Jany Temime. Direção de arte/cenários: Jim Clay, Geoffrey Kirkland/Jennifer Williams. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Eric Newman, Hilary Shor, Iain Smith, Tony Smith. Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Danny Huston. Estreia: 03/9/06 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Inglaterra, novembro de 2027: há dezoito anos sem presenciar o nascimento de um bebê, a humanidade está a um passo da extinção. Na Inglaterra, refugiados são presos, humilhados e mortos na rua, o medo é palavra de ordem, a anarquia encontra bolsões de resistência violenta e grupos terroristas são perseguidos por um governo fascista e impiedoso. No meio do caos, a esperança na forma de uma jovem protegida por um grupo de rebeldes. Com esse tema - triste, tenso, distópico - o mexicano Alfonso Cuarón mostrou à Hollywood que, por trás do diretor de encomenda de filmes como "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" e do personalíssimo "E sua mãe também" existia um cineasta de extrema inteligência, sensibilidade e vigor. Adaptado livremente um livro da escritora P.D. James, "Filhos da esperança" é um dos melhores filmes de 2006, embora suas inúmeras qualidades não tenham sido devidamente reconhecidas pelo público na ocasião de sua estreia: com uma bilheteria doméstica que mal chegou a cobrir metade de seu orçamento de 76 milhões de dólares, o filme de Cuarón teve que contentar-se com os elogios unânimes da crítica e três indicações ao Oscar relativamente importantes, entre as quais de roteiro adaptado - que perdeu para o grande vencedor do ano, "Os infiltrados", de Scorsese.

No mesmo ano em que outros dois conterrâneos também tiveram seus trabalhos reconhecidos pelos membros da Academia em maior ou menor grau - Alejandro Gonzalez Iñarritu concorreu ao prêmio de filme e direção por "Babel" (vencedor na categoria de trilha sonora) e Guillermo Del Toro foi lembrado como roteirista de "O labirinto do fauno" (que abocanhou as estatuetas de fotografia, direção de arte e maquiagem) - Cuarón acabou sendo o menos louvado dentre os "estrangeiros", saindo da cerimônia de mãos abanando (situação que ele reverteria sete anos depois quando fez uma limpa com o superestimado "Gravidade"). Tendo em mãos uma história forte e consistente, um elenco de atores acima de qualquer crítica e o rigor técnico que lhe permitiu ao menos três longas sequências de tirar o fôlego - que, ao contrário do que foi difundido por muitos críticos à época NÃO foram realizadas em apenas um único take - o cineasta assinou um filme que, exatamente como ele intencionava, não acaba quando rolam os créditos finais: não apenas deixa alguns de seus protagonistas em meio a uma situação inacabada como permanece na mente do espectador por muito mais tempo do que normalmente acontece com filmes do gênero.


Como dito anteriormente, "Filhos da esperança" começa em 2027, no dia em que a última criança nascida no mundo em 18 anos, o internacionalmente famoso "baby Diego" morre assassinado depois de uma briga em um bar. Sua morte comove o planeta inteiro, já sufocado por décadas de opressão e desespero. É nessa situação que o ex-revolucionário Theo (Clive Owen, brilhante) é procurado por um grupo de rebeldes liderado por sua ex-mulher, Julian (Julianne Moore em participação mais do que especial), que lhe pede ajuda para transportar uma jovem negra, a assustada Kee (Clare-Hope Ashitey), para fora do alcance do governo. Antes que possa explicar toda a situação de Kee ao ex-marido - de quem separou-se após a precoce morte do filho pequeno - Julian sai de cena, deixando nas mãos do cínico e individualista Theo não apenas a segurança da misteriosa garota (que esconde um segredo capaz de alterar o destino do mundo) mas também a chance de salvar o futuro da humanidade. Para isso, ele conta com a ajuda de um antigo amigo, o ex-cartunista político Jasper (Michael Caine, fenomenal), que vive isolado com a esposa catatônica em uma casa escondida nas florestas.

Fotografado com genialidade por Emmanuel Lubezki - que sublinha o clima de pesadelo com uma iluminação cinzenta e claustrofóbica - "Filhos da esperança" não dá tréguas ao espectador, bombardeando-o com um ritmo impecável, que equilibra as tais longas e empolgantes sequências - a saber: o ataque ao carro de Julian e Theo em uma estrada, um ataque terrorista em plena cidade e um (surpresa!) parto - com momentos reflexivos que jamais atrapalham o andamento da história. Clive Owen - que ajudou na confecção do roteiro durante as filmagens mas não foi creditado por suas ideias - segura com desenvoltura um papel que poderia facilmente descambar para o heroísmo vazio do cinema comercial emprestando a ele um viés de melancolia perceptível em seu olhar mesmo quando o foco da cena é a ação ou a violência. Escolha mais do que acertada de Cuarón, ele injustamente ficou de fora da lista dos indicados ao Oscar (poderia facilmente ter substituído Will Smith, que estava apenas correto no frágil "À procura da felicidade"), assim como Caine e Moore, perfeitos em cada entonação e a própria direção, muito mais intensa e criativa do que se poderia desejar em um filme de ação - gênero ao qual, aliás, o filme pertence por mero tecnicismo. No fundo, "Filhos da esperança" é um sensacional drama distópico com elementos de ação e ficção científica dos melhores. Imperdível!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A CONQUISTA DA HONRA

A CONQUISTA DA HONRA (Flags of our fathers, 2006, Warner Bros/DreamWorks Pictures, 135min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: William Broyles Jr., Paul Haggis, livro de James Bradley, Ron Powers. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox. Música: Clint Eastwood. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Richard Goddard. Produção: Clint Eastwood, Robert Lorenz, Steven Spielberg. Elenco: Ryan Philippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, Paul Walker, Barry Pepper, John Slattery, Jamie Bell, Robert Patrick, Melanie Linskey, Neal McDonough, Judith Ivey. Estreia: 20/10/06

2 indicações ao Oscar: Montagem de Som, Mixagem de Som

Publicado em maio de 2000, o livro "Flags of our fathers", de James Bradley e Ron Powers imediatamente chamou a atenção de um dos monstros sagrados do cinema americano, o eterno cowboy Clint Eastwood, sempre em busca de matéria-prima para seus filmes - de preferência quando existe a possibilidade de transformar as tramas em estatuetas douradas. Para sua decepção, porém, Eastwood descobriu que os direitos de filmagem do livro já não estavam mais disponíveis e estavam já em desenvolvimento sob o comando de outro mago do cinema, Steven Spielberg - que já tinha inclusive contratado roteirista para a adaptação. Mas como nem sempre as coisas caminham rapidamente em Hollywood, Eastwood viu a chance de assumir as rédeas do projeto quando, ao encontrar Spielberg em uma festa pós-Oscar 2004, soube que o autor de "A lista de Schindler" estava insatisfeito com os rumos da produção e em vias de abandonar seus planos de dirigí-la. Surgia, então, uma parceria inédita entre dois dos mais bem-sucedidos cineastas do cinemão americano: com Spielberg na produção e Eastwood na direção, "A conquista da honra" tornou-se metade de um ambicioso projeto do eterno Dirty Harry, que resolveu lançar praticamente ao mesmo tempo, um filme sobre a II Guerra Mundial sob o ponto de vista dos soldados japoneses, chamado "Cartas de Iwo Jima".

Com o enorme sucesso de crítica de "Iwo Jima", que chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme do ano - mas perdeu para "Os infiltrados", de Martin Scorsese - a história dos três jovens soldados que tem suas vidas transformadas quando se tornam ícones da campanha americana no campo de batalha acabou sendo deixada de lado e quase passou em brancas nuvens junto aos eleitores da Academia - aliás, a não ser que meras duas indicações na área de som podem ser consideradas relevantes, na verdade ela FOI sumariamente ignorada. Uma injustiça, já que, além de ser tecnicamente impecável, apresenta a ressonância dramática e sentimental sutil que é a marca registrada de Eastwood em seus melhores momentos - caso de "As pontes de Madison" e "Menina de ouro". Narrado de forma minimalista e delicada, "A conquista da honra" é um dos grandes filmes do cineasta, equilibrando sequências de guerra dirigidas com extrema competência com cenas que exploram de maneira discreta os traumas de um conflito bélico violento e arrasador.


A base do filme é a famosa fotografia tirada em 23 de fevereiro de 1945 por Joe Rosenthal na ilha de Iwo Jima e que mostra seis soldados americanos içando um bandeira dos EUA - uma imagem que, por sua força dramática, acaba sendo usada pelo governo como forma de levantar a moral do povo (combalida por vários anos de guerra) e realçar o heroísmo dos combatentes (muitos deles há muito tempo longe de seus lares). Como sempre acontece em situações como essa, porém, nem sempre a verdade chega inteira até o público: isso fica claro quando três dos jovens fotografados (os três que sobreviveram a várias batalhas posteriores à imagem) são retirados do front para participarem de uma excursão pelo país, com o objetivo de incrementar as vendas dos bônus de guerra. Sendo assim, o enfermeiro John 'Doc' Bradley (Ryan Philippe), o austero Rene Gagnon (Jesse Bradford) e o indígena Ira Hayes (Adam Beach) tornam-se ídolos de todo o país, mesmo escondendo dentro de si segredos e pesadelos que somente aqueles que testemunharam os confrontos são capazes de manter. Além disso, Hayes sente-se discriminado por sua origem indígena e Bradley sente-se profundamente incomodado com tamanha popularidade - fato que, conforme Gagnon irá descobrir bem cedo, não lhes trará a segurança que eles precisam.

Fugindo da tradicional estrutura dos filmes sobre a II Guerra e inserindo flashbacks na narrativa de forma a informar o público sobre os acontecimentos que levaram os protagonistas ao posto de heróis da nação - e frequentemente deixando bem claro que nem sempre a ética e a verdade andam juntas com os interesses da propaganda de guerra - "A conquista da honra" faz parte do conjunto de filmes revisionistas sobre o conflito, substituindo o tradicional orgulho da vitória pelo desconforto a respeito de suas consequências. Para isso, conta com um trabalho inspirado do grande elenco, onde destaca-se o ótimo Adam Beach, que constroi um Ira Hayes complexo e turbulento em seus confrontos pessoais (muitos dos quais advindos do fato de sua origem e do preconceito que ela acarreta em sua vida mesmo depois de sua "consagração" como herói). Até mesmo Ryan Philippe, normalmente um ator apático e sem carisma, consegue uma interpretação satisfatória, o que comprova o talento de Eastwood na direção de atores.

Sem o ranço patriótico que normalmente acompanha os filmes americanos sobre a II Guerra, "A conquista da honra", apesar do título, é um filme melancólico, triste e bem longe de ser uma apologia disfarçada à violência nacionalista. É um dos grandes filmes da carreira de Eastwood, um cineasta de extrema competência - mesmo que muitas vezes não consiga esconder um lado reacionário e conservador em excesso que o faz cometer barbaridades como "Sniper americano".

sábado, 20 de junho de 2015

VOO UNITED 93

VOO UNITED 93 (United 93, 2006, Universal Pictures/StudioCanal, 111min) Direção e roteiro: Paul Greengrass. Fotografia: Barry Ayckroyd. Montagem: Clare Douglas, Richard Pearson, Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Dominic Watkins/Michael Standish. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward, Bruce Toll. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Greengrass. Elenco: J.J. Johnson, Gary Commock, Polly Adams, Opal Alladin. Estreia: 28/4/06

2 indicações ao Oscar: Diretor (Paul Greengrass), Montagem

Uma das datas mais infames da história do mundo, o dia 11 de setembro de 2001 transformou o que o cinema comercial fazia com frequência em uma dura realidade: diante dos olhos de milhares de espectadores, os EUA eram atacados de forma brutal e chocante, sem chance de defesa. O ataque aos prédios do World Trade Center, em Nova York - as famosas torres gêmeas - tornou-se, de cara, em uma derrota do poderio norte-americano, e não demorou muito para que uma pergunta surgisse na mente de todos: quanto tempo demoraria até que tal desgraça servisse de matéria-prima à Hollywood? A resposta não demorou a vir: Michael Moore a utilizou como pontapé inicial para seu extraordinário documentário "Fahrenheit onze de setembro" - em que esculhambou o presidente George W. Bush de tal forma que foi um milagre (ou mais uma manipulação) ele ter sido reeleito - que estreou no Festival de Cannes de 2004 (menos de três anos depois do fato). Foi somente em 2006, no entanto, que os grandes estúdios deram sua contribuição à filmografia sobre o tema: da Warner surgiu o paquidérmico (e sonolento) "Torres gêmeas", de Oliver Stone, e da Universal chegou às telas o tenso (e energético) "Voo United 93", de Paul Greengrass. Com diferentes pontos de vista - o filme estrelado por Nicolas Cage retratava a busca por sobreviventes nos escombros dos prédios destruídos e o semi-documentário de Greengrass narrava os acontecimentos de dentro de um dos aviões sequestrados - os dois filmes acabaram por, juntos, estabelecer um panorama bastante abrangente sobre um dos maiores traumas do povo americano.

Cineasta detalhista e seguro, Greengrass imprime, a cada momento de seu filme, um tom de urgência e tensão tão palpável que não é de admirar que tenha sido indicado ao Oscar de melhor diretor - a produção também foi finalista ao prêmio de melhor edição, o que destaca uma de suas maiores qualidades: a competência em criar um clima de desespero, claustrofobia e impotência sem que para isso seja necessário muito mais do que um roteiro bem estruturado e um exato senso de ritmo e cadência. Para tornar as coisas ainda mais realistas, Greengrass - também famoso pelos dois últimos capítulos da trilogia Bourne - utilizou, entre seus atores, pessoas que realmente participaram ativamente dos fatos, tanto em salas de comando aéreo quanto em posições menos nobres (mas que certamente viveram momentos que jamais esquecerão). Além disso, contou também com a colaboração dos familiares das vítimas, que lhe municiaram com detalhes a respeito de seus gostos pessoais, leituras e músicas - particularidades que podem nem ser percebidas pela audiência, mas que dão ao filme uma sensação de realismo quase documental. Somados à tensão da meia-hora final, esses cuidados fazem de "Voo United 93" uma experiência bem mais satisfatória - emocional e cinematograficamente falando - do que o ambicioso projeto de Stone.


O título do filme refere-se ao voo da United Airlines que, saindo de Newark (Pensilvânia) em direção à São Francisco, tornou-se parte integrante do mais violento ataque terrorista da história. Com 40 passageiros a bordo - mais a tripulação - o voo foi sequestrado por quatro árabes que tinham por objetivo juntar-se a outras três aeronaves em sua missão de atacar prédios importantes dos EUA - além dos dois que bateram nas torres do WTC, outro avião chocou-se também com parte do Pentágono, sede da defesa americana. Atrasada em meia-hora por problemas no embarque, a viagem acabou por ser a única a conseguir ter acompanhamento por parte do controle de tráfego aéreo, que acompanhou seu desenlace inusitado: chocados com o fato de estarem a ponto de morrer tragicamente, os passageiros iniciam uma reação contra ele. Além das dolorosas despedidas aos entes queridos via telefone, um grupo toma a iniciativa de contra-atacar e impedir uma desgraça maior. Sabendo que os terroristas estão armados com uma bomba e facas, eles resolvem também apelar para a violência, mesmo sem ter ideia dos resultados de tal decisão.

Não é preciso ser um especialista em cinema para afirmar que, a despeito de sua primeira metade permeada por um senso de tensão quase palpável, é em sua segunda parte que "Voo United 93" realmente mostra a que veio. Quando o sequestro do avião é finalmente confirmado pelos passageiros, pela tripulação e pelos atônitos comandos terrestres e tem início a sua inesperada reação - único momento em que o roteirista/diretor tomou certas liberdades, pelo motivo de não ter relatos de primeira mão do que aconteceu - o público é brindado com sequências das mais tensas já mostradas pelo cinema hollywoodiano (e que, infelizmente, não precisaram sair da criatividade de nenhum roteirista mais alucinado). Mesmo que se saiba o desfecho da história, é impossível ficar indiferente ao desespero e ao drama de pessoas que, inconformadas com seu trágico final, resolvem tomar seu destino nas próprias mãos. É triste, é inexplicável e é brutal. Como experiência sensorial é um baque. Como cinema, é inesquecível.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

WOLF CREEK - UMA VIAGEM AO INFERNO

WOLF CREEK, VIAGEM AO INFERNO (Wolf creek, 2005, Australian Film Finance Corporation, 99min) Direção e roteiro: Greg McLean. Fotografia: Will Gibson. Montagem: Jason Ballantine. Música: François Tétaz. Figurino: Nicola Dunn. Direção de arte/cenários: Robert Webb. Produção executiva: George Adams, Martin Fabinyi, Michael Gudinski, Gary Hamilton, Simon Hewitt. Produção: Greg McLean. Elenco: John Jarratt, Cassandra Magrath, Kestie Morassi, Nathan Phillips. Estreia: 17/5/05 (Festival de Cannes)

O gênero terror vive de ciclos, e isso não é novidade para ninguém. Nos anos 70 surgiram as produções inspiradas pelo sucesso de "O exorcista" - e dá-lhe filmes que misturavam sangue à teorias religiosas. Nos anos 80, Freddy Krueger, Jason e Michael Meyers assustaram multidões de adolescentes sanguinários nos vários capítulos de "A hora do pesadelo", "Sexta-feira 13" e "Halloween" - estilo ressuscitado com sucesso por Wes Craven no final da década seguinte. Novo século, novo ciclo, e o público que gosta de sentir medo no escurinho do cinema foi brindado, então, com uma série de filmes calcados na realidade e - no caso de alguns, até mesmo inspirados em fatos reais. Surgiram, então, "Viagem maldita" (refilmagem de "Quadrilha de sádicos", do próprio Wes Craven), "O massacre da serra elétrica" (também um remake, dessa vez de um filme de Tobe Hopper) e o único inédito da fornada, o australiano "Wolf Creek, viagem ao inferno", que fez sua estreia mundial no prestigioso Festival de Cannes 2005. Estrelado por atores jovens desconhecidos e seguindo à risca os mandamentos do gênero e do estilo, o filme de Greg McLean (também roteirista e produtor) não faz feio em comparação com seus parentes mais próximos, mas ao mesmo tempo peca por não apresentar nenhuma novidade para quem está acostumado a ver psicopatas caipiras trucidando jovens fotogênicos.

Baseado em uma história real que acabou nos tribunais australianos, "Wolf Creek" começa com um ensolarado roadmovie, que acompanha a viagem empreendida em 1999 por três amigos dispostos a viajar pelo deserto australiano com pouco dinheiro e um carro recém-comprado: o extrovertido Ben Mitchell (Nathan Phillips) e as duas britânicas Kristy (Cassandra Macgrath) e Liz (Kastie Morassi) embarcam na aventura com o objetivo de aproveitar as férias, a juventude e a liberdade, mas acabam conhecendo o terror mais absoluto quando seu carro estraga em pleno Wolf Creek, uma cratera localizada em um parque nacional isolado e um tanto sinistro. Aliviados com a ajuda de um solicito morador local, Mick Taylor (John Jarratt), eles não demoram a perceber que estão diante de um sádico assassino - com uma coleção de vítimas comprovada por pedaços de cadáveres expostos em sua garagem.


Por demorar um tanto mais do que o esperado para realmente começar, "Wolf Creek" pode ser uma prova de paciência ao espectador mais afoito. Porém, quando o terror realmente começa, é difícil ficar incólume à violência retratada pelo diretor, que não hesita em mostrar torturas da forma mais explícita possível sem que seja obrigado a cair no voyeurismo cinematográfico que fez a fama de nomes como Eli Roth (do nauseante e sem razão de ser "O albergue"). A princípio apenas mais um filme que abusa do sangue e da violência para conquistar uma plateia ávida por tais elementos, a obra de Greg McLean toma cuidado em buscar ângulos inusitados, fugindo dos enquadramentos clássicos do gênero imprimindo a ele uma modernidade muito bem-vinda, ainda que, sob os olhos dos fãs, desnecessária. Mesmo que se dedicasse a filmar exclusivamente o monstruoso Mick Taylor torturando suas vítimas indefesas, é pouco provável que alguém que procura exatamente cenas como essas saia da sessão decepcionado. A partir do momento em que o simpático mecânico começa sua escalada de terror resta ao público encolher-se na poltrona e aproveitar a tensão propiciada pelo roteiro e pela entrega dos atores, muito bem escolhidos - e dedicados em sua missão de aterrorizar a audiência.

Enquanto as belas Cassandra Magrath e Kastie Morassi capricham nos pulmões - relembrando os bons tempos de Jamie Lee Curtis em "Halloween" - e o simpático Nathan Phillips sofre um calvário particular quando cruza o caminho de Mick Taylor (com direito até mesmo a ser pregado em uma parede, em uma sequência particularmente tensa), é o ator John Jarratt quem rouba o espetáculo na pele do psicótico vilão. Caprichando na risada enloquecida e na composição visual desleixada (que o deixa ainda mais assustador), Jarratt - então apresentador de um programa de jardinagem na tv australiana - entrou na pele do personagem a ponto de manter-se nele mesmo quando não estava em cena, criando inclusive um detalhado passado para ele, mesmo que ninguém do elenco (ou o próprio diretor e roteirista) tenham ficado sabendo o que constava nesse passado. Aliás, apesar da inspiração na vida real, McLean insistiu em afirmar, no lançamento de sua obra, que havia tomado muitas liberdades em relação à história verdadeira, para ter mais liberdade criativa. Mas, verdade ou não, "Wolf Creek" cumpre muito bem o seu papel de apavorar sua plateia.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

BORAT: O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA

BORAT - O SEGUNDO MELHOR REPÓRTER DO GLORIOSO PAÍS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA (Borat: Cultural learnings of America for make benefit glorious nation of Kazakhstan, 2006, Four By Two/Everyman Pictures/Dune Entertainment, 84min) Direção: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Mazer, estória de Sacha Baron Cohen, Peter Baynham, Anthony Hines, Todd Phillips, personagem criado por Sacha Baron Cohen. Fotografia: Luke Geissbuhler, Anthony Hardwick. Montagem: Craig Albert, Peter Teschner, James Thomas. Música: Erran Baron Cohen. Figurino: Jason Alper. Produção executiva: Monica Levinson, Dan Mazer. Produção: Sacha Baron Cohen, Jay Roach. Elenco: Sacha Baron Cohen, Pamela Anderson, Ken Davitian. Estreia: 04/8/06

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Dentre os indicados ao Oscar 2007 - cerimônia que finalmente premiou Martin Scorsese com seu "Os infiltrados" - nenhuma surpresa foi maior do que a inclusão da comédia "Borat: o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América", escrita, dirigida e produzida por Sacha Baron Cohen, famoso comediante americano, criador de tipos como o rapper Ali G e pouco chegado a sutilezas com seu humor iconoclasta, debochado e muitas vezes a um passo do grosseiro e do vulgar. Justamente essa sua falta de papas na língua, que o faz ser tão popular junto a uma parcela do público ianque - e que também arregimentou fãs em outros países - é que causa o estranhamento em relação à sua indicação à estatueta de melhor roteiro adaptado, junto a títulos bem mais "palatáveis" ao gosto médio dos votantes, como "Notas sobre um escândalo", "Pecados íntimos" e o vencedor da categoria, "Os infiltrados": poucas vezes (se é que existe alguma outra ocasião) a Academia, tão rígida e aparentemente tão desprovida de senso de humor abraçou um filme que tão corajosamente bate de frente com o que se convencionou chamar de bom-gosto. De estrutura frágil mas eficiente, o enxuto filme de Baron Cohen expõe sem pena nem dó todo o ridículo provincianismo do povo médio americano - com todos os seus preconceitos, ódios e idiossincrasias - sem levar-se a sério em momento algum. Não é de admirar que tenha levado tantos processos judiciais - o que é de admirar é que, levando-se em conta o quanto os americanos se levam a sério, nenhum deles tenha ido adiante.

Baron Cohen desaparece sob a pele de Borat Sagdiyev, popular repórter de uma rede de televisão do Cazaquistão que recebe a incumbência de visitar os EUA a fim de estudar seus hábitos culturais e registrá-los em um documentário. Acompanhado de seu produtor, o mau-humorado Azamat (Ken Davitian), ele embarca rumo à Nova York disposto a aprender o máximo possível a respeito daquele que considera o maior país do mundo. Enquanto choca os anfitriões com seu comportamento no mínimo excêntrico - que se choca violentamente com toda e qualquer regra de bom senso e educação do mundo civilizado - o jornalista (que vive em um vilarejo paupérrimo onde não existe o conceito de politicamente correto) vai arrancando de seus entrevistados declarações polêmicas a respeito de estrangeiros, homossexuais, judeus e todos os assuntos que percebe serem minimamente delicados. Seus planos, porém, mudam de direção quando, ao assistir um episódio de "Baywatch" na televisão, ele se apaixona pela atriz Pamela Anderson e decide ir atrás dela e convencê-la a ser sua esposa.


Criado para um programa de televisão, o grotesco Borat serve como uma espécie de lente da verdade que reflete toda a podridão que os americanos tentam desesperadamente esconder para debaixo do tapete. Diante das câmeras do diretor Larry Charles, pessoas aparentemente respeitáveis desfilam sua ignorância e indiferença em relação a minorias e temas controversos: é o caso do vendedor de automóveis que não demonstra a menor hesitação quando fala na velocidade necessária para matar atropelados os ciganos que porventura possam aparecer no caminho ou do animador de rodeios que afirma, orgulhosamente, que é favorável à prisão e morte de gays. Ao mesmo tempo, o próprio ator não poupa sua imagem, ridicularizando a si mesmo com declarações machistas e antissemitas com o objetivo de constranger seus entrevistados - consegue sem muito esforço, e o resultado, independente do quanto se aprecia o humor frequentemente grotesco do filme, é inegavelmente engraçadíssimo. Arrancando risadas do mal-estar e do desconforto alheio com sua obra, Baron Cohen redefine o conceito de humor, pro bem ou pro mal. Mas não deixa de ser muito irônico que um filme que critique tanto e tão abertamente o american way of life tenha entrado no Oscar como convidado de honra.

Desde suas primeiras cenas, em que o protagonista apresenta seu vilarejo, seus amigos e sua família ao espectador, "Borat" convida o público a adentrar em um universo sem limites para o humor - paradoxalmente grosseiro em sequências como a infame briga entre o repórter e seu obeso produtor (ambos nus) e sofisticado em suas ironias e tiradas a respeito das diferenças culturais e sociais entre os EUA e o Cazaquistão (retratado no filme de forma exagerada e flagrantemente distante de sua realidade, o que causou infindáveis polêmicas). Não é todo mundo que vai se identificar com o deboche explícito do filme, mas aqueles que se deixarem conquistar terão uma hora e meia de risadas garantidas.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

DÁLIA NEGRA

DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia, 2006, Universal Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Josh Friedman, romance de James Ellroy. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow. Música: Mark Isham. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Elli Griff. Produção executiva: Boaz Davidson, Rolf Deyhle, Danny Dimbort, James B. Harris, Henrik Huydts, Josef Lautenschlager, Trevor Short, Andreas Thiesmeyer, John Thompson. Produção: Rudy Cohen, Moshe Diamant, Avi Lerner, Art Linson. Elenco: Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank, Mia Kirschner, Mike Starr, Fiona Shaw, Patrick Fishler. Estreia: 30/8/06 (Festival de Veneza) 

Indicado ao Oscar de Fotografia

Em 1997, o filme "Los Angeles, cidade proibida" deixou de quatro a indústria cinematográfica, o público, a crítica e até a Academia - que lhe deu dois Oscar e só não foi além porque um tal "Titanic" estava fazendo estragos na bilheteria e no coração dos espectadores. Baseado em um extenso e complexo romance policial de James Ellroy ambientado na terra do cinema nos dourados anos 50, o filme de Curtis Hanson estabeleceu um novo parâmetro para o gênero noir, lançou a carreira de Russell Crowe, mostrou que Kim Basinger poderia ser convincente como atriz e, de quebra, surpreendeu a plateia com uma trama intrincada, repleta de personagens fascinantes e um desfecho mais do que satisfatório. Quase uma década depois, Brian De Palma - um cineasta propenso tanto a obras geniais como "Os intocáveis" quanto a bombas homéricas como "Olhos de serpente" - tentou repetir o feito com "Dália negra". A fórmula era quase a mesma: um livro de Ellroy, dois policiais machões liderando a investigação de um assassinato (que aconteceu na vida real), mulheres fatais, corrupção policial e um período histórico mais do que apropriado a todos esses elementos (a dura, porém romântica, década de 40). Por que é, então, que, ao contrário da obra de Hanson, "Dália negra" resultou em um filme tão, mas tão ruim?


Na verdade, várias respostas podem ser dadas - e todas elas estarão certas. Aqueles que culparem a escolha de Josh Hartnett para liderar o elenco no papel crucial do jovem policial e boxeador Bucky Bleichert, não poder ter mais razão, já que Hartnett nunca apresentou sequer uma atuação decente na carreira - e não faz diferente no filme de DePalma, com uma interpretação pífia e risível, que jamais permite ao espectador envolver-se nos dramas de seu personagem. A parcela que apontar os dedos para o equívoco da escalação de Hilary Swank para o crucial papel da femme fatale Madeleine Linscott terão carradas de razão - boa atriz ela é, mas totalmente inadequada como uma socialite sexualmente voraz (e que o roteiro insiste em dizer que é parecida com a personagem-título, vivida por Mia Kirschner, uma atriz sem semelhança física alguma com ela). Até mesmo os mais gentis, que podem questionar a necessidade de Scarlett Johansson de tentar ser sexy em toda e qualquer cena - mesmo que ela a principio não peça tal característica - não estão errados, principalmente quando se sabe que, posteriormente, Johansson exploraria esse seu discutível talento em absolutamente todos os filmes que fez. Mas, mesmo com todos esses defeitos gritando diante da audiência, o que há de mais fatal nas pretensões de "Dália negra" em ser um filme memorável positivamente é seu roteiro: sem a inteligência de Curtis Hanson e Brian Elgeland de enxugar a trama, modificar o que deveria e não confundir o foco da narrativa, Josh Friedman (também autor da versão spielberguiana de "Guerra dos mundos") entregou a De Palma uma obra sem personalidade, confusa, sem um centro narrativo e, mal dos mares, chata de doer.



Restou ao cineasta o desafio de transformar a mixórdia de Friedman em um filme minimamente interessante, coisa que nem mesmo suas décadas de experiência foram suficientes para lhe ajudar. Tudo bem, DePalma ainda deve ser aplaudido por algumas sequências visualmente empolgantes - duas, para ser mais exato - mas sempre que tenta sair de sua zona de conforto e buscar um algo a mais em termos dramáticos, esbarra em uma trama mal costurada que tenta dar conta de várias histórias e termina por não ser bem-sucedida em nenhuma delas. Nem mesmo a presença do competente Aaron Eckhart é o bastante, já que nem mesmo o melhor ator do mundo seria capaz de consertar tantos erros juntos - que conseguem contaminar até a normalmente eficiente Fiona Shaw, que, na pele da mãe de Hilary Swank na tela, protagoniza uma das cenas mais constrangedoras de sua carreira. É de se pensar - e suspirar tristemente - nas misérias que David Fincher faria à frente do projeto que, sim, esteve em suas mãos, mas do qual desistiu depois de perceber que suas ideias (um longa em preto-e-branco com três horas de duração) jamais conseguiriam ser aceitas pelo estúdio - que deve ter ficado extremamente arrependido com o fato, já que gastou 50 milhões de dólares em um filme que, merecidamente, não rendeu nem metade disso nas bilheterias.


Mas, afinal, qual é a história de "Dália negra"? A princípio - e a julgar pelo título - poderia-se dizer que é a investigação da polícia de Los Angeles do brutal assassinato de uma jovem aspirante a atriz, morta em 1947 e jogada com o corpo partido ao meio em um terreno baldio da cidade. Porém, no filme, tal investigação (de um crime real, cujos culpados - um dos quais matou também a mãe do escritor Jams Ellroy - só foram descobertos em 2003) é apenas incidental: o roteiro concentra-se principalmente no quadrilátero amoroso formado pelos policiais Bucky Bleichert (Josh Hartnett e sua total falta de talento) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart, o melhor do elenco), a jovem Kay Lake (Scarlett Johansson com seus tiques habituais) e a misteriosa socialite Madeleine Linscott (Hilary Swank, totalmente fora de tom). Esses quatro personagens são a base do roteiro de Friedman, mas não conseguem sustentar sua esquizofrenia generalizada - eles entram e saem de cena sem a menor sintonia e sem propósito aparente, em cenas que soam extremamente aleatórias. Restam apenas a atmosfera bem criada pela fotografia do veterano Vilmos Zsigmond (indicada ao Oscar) e a reconstituição de época cuidadosa. Muito pouco para um filme que tinha grandes ambições. Uma pena.

terça-feira, 16 de junho de 2015

TERRA FRIA

TERRA FRIA (North country, 2005, Warner Bros, 126min) Direção: Niki Caro. Roteiro: Michael Seitzman, livro "Class Action: The story of Lois Jensen and the landmark case that changed sexual harassment law", de Clara Bingham, Laura Leedy. Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Peter Tosti Stephenson. Produção executiva: Helen Bartlett, Doug Claybourne, Nana Greenwald, Jeff Skoll. Produção: Nick Weschler. Elenco: Charlize Theron, Sean Bean, Frances McDormand, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Estreia: 12/9/05 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Charlize Theron), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand)

Mesmo sem que seu nome não diga nada à vasta maioria da população mundial, Lois Jenson poder ser considerada, sem favor, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos femininos da história dos EUA: na tradição de Crystal Lee Sutton (retratada no filme "Norma Rae", de 1979) e Karen Silkwood (protagonista de "Silkwood, o retrato da coragem", de 1983), ela foi a responsável por um processo - ou vários deles, na verdade - que abriram o precedente para que fossem criadas as leis responsáveis por criminalizar o assédio sexual no ambiente de trabalho. Por incrível que possa parecer, no entanto, tais leis, sem as quais as relações profissionais entre homens e mulheres sempre sofreriam de uma tensão muitas vezes palpável, só chegaram aos tribunais americanos em 1989. Por causa de Jenson, uma mulher simples que só queria o direito de trabalhar em paz em um ambiente cercado de machismo - e do qual fazia parte seu próprio pai. Rebatizada como Josey Aimes e com o belo rosto de Charlize Theron, Jenson juntou-se Silkwood e Sutton no imaginário dos fãs de cinema quando foi a protagonista de "Terra fria", filme dirigido por Niki Caro - de "A encantadora de baleias" - que chegou à festa do Oscar 2006 indicado em duas categorias: melhor atriz (Theron, sempre excelente) e atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Concentrando vários processos movidos pela real Lois Jenson em apenas um - para fins dramáticos e sem prejuízo para a verossimilhança do roteiro - "Terra fria" segue à risca a tradição dos filmes sobre mulheres valentes lutando contra o sistema, mas, graças à direção firme de Caro e à intensidade de Charlize Theron, tal característica não chega a impedir que o resultado final perca sua força e capacidade de indignar ao espectador. Evitando o sentimentalismo e enfatizando a solidão de sua protagonista em seu árduo caminho em direção à justiça, o filme peca apenas por ser excessivamente burocrático: não há ousadias na narrativa de Caro, e essa simplicidade quase documental acaba por impedí-la de atingir todas as suas possibilidades emocionais. Mesmo assim, a forma com que a fotografia acinzentada do veterano Chris Menges combina com o tom monocromático da vida dos personagens e a força das interpretações de Theron, McDormand e do sensacional Richard Jenkins - além da participação especial de Sissy Spacek, de presença sempre marcante - elevam "Terra fria" a um programa bastante acima da média.


Fugindo de um casamento abusivo e tentando recomeçar a vida ao lado dos dois filhos, a bela Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no interior de Minnesota, volta a morar com os pais e arruma emprego em um salão de beleza, que não lhe paga um salário suficiente para manter um nível de vida razoável. Incentivada por uma amiga que trabalha na mina de carvão local, a determinada Glory (Frances McDormand) ela resolve desafiar as convenções e tornar-se colega do pai, de um antigo namorado e de outras mulheres também necessitadas de um contracheque menos magro - caso da jovem Sherry (Michelle Monaghan), que precisa sustentar a mãe doente. Bonita e interessante, logo Josey chama a atenção dos colegas homens, que passam a assediá-la sexualmente, tanto com brincadeiras grosseiras quanto com ameaças reais de estupro. Sabendo que tal comportamento não se restringe apenas a ela, mas também a todas as suas colegas do sexo feminino, Josey resolve pedir ajuda à diretoria da mina, mas, sendo humilhada até mesmo por seus patrões - que questionam inclusive o fato de ela não saber quem é o pai de seu filho mais velho - não cabe a ela outra opção a não ser contratar os serviços de um advogado amigo, Bill White (Woody Harrelson), para levar a empresa aos tribunais. Falta apenas, no entanto, convencer suas colegas a testemunhar a seu favor.

Centrando suas forças no talento inegável de Charlize Theron - que mesmo desglamourizada continua linda e carismática - "Terra fria" conquista o público principalmente por fazer de sua protagonista uma heroína clássica, propensa a todos os sofrimentos reservados às grandes mártires do cinema. Sozinha contra o mundo, Josey vê sua vida tornar-se um inferno apenas por desejar justiça, o que acaba por desencadear uma volta ao passado que machuca todos à sua volta. Chegando bem perto do clichê em diversos momentos - em especial quando seu pai (vivido por Jenkins em atuação digna de um Oscar mas injustamente esquecido pela Academia) finalmente toma seu partido diante de todos os mineiros que a estão hostilizando abertamente - o filme de Caro se redime magnificamente sempre que Charlize toma as rédeas, em um trabalho comovente mas nunca piegas. A força de seu desempenho sustenta o filme como um todo - e é força suficiente para torná-lo imperdível.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MEU TIO MATOU UM CARA

MEU TIO MATOU UM CARA (Meu tio matou um cara, 2004, Casa de Cinema de Porto Alegre/Natasha Filmes, 87min) Direção: Jorge Furtado. Roteiro: Jorge Furtado, Guel Arraes, conto de Jorge Furtado. Fotografia: Alex Sernambi. Montagem: Giba Assis Brasil. Música: André Moraes, Caetano Veloso. Figurino: Rosângela Cortinhas. Direção de arte/cenários: Fiapo Barth. Produção executiva: Nora Goulart, Luciana Tomasi. Produção: Guel Arraes, Paula Lavigne. Elenco: Darlan Cunha, Sophia Reis, Lázaro Ramos, Dira Paes, Aílton Graça, Renan Gioelli, Júlio Andrade, Janaina Kremer Motta. Estreia: 31/12/04

Talvez a mais marcante característica da constante e simpática filmografia do diretor Jorge Furtado seja a despretensão que a permeia. Em filmes como "Houve uma vez dois verões" e "O homem que copiava", seus dois primeiros longas, o cineasta gaúcho nunca deixou de lado seu apego ao humor inteligente, um bairrismo encantador e orgulhoso e um naturalismo raro no cinema nacional, além do objetivo claro de contar histórias simples e banhadas em uma ingenuidade cativante. Em seu terceiro trabalho no formato, "Meu tio matou um cara", Furtado segue sem ambições a receita vitoriosa, ao adaptar um conto de sua própria autoria em uma trama policial sob o ponto de vista de um adolescente apaixonado pela melhor amiga. Leve e enxuto (tem pouco menos de uma hora e meia de duração, contando os créditos), seu filme serve como um alívio certeiro para a violência e a densidade temática que assolou o cinema brasileiro a partir de "Cidade de Deus".

A trama começa quando Éder (Làzaro Ramos, em sua segunda parceria com Furtado) chega à casa de seu irmão, Laerte (Aílton Graça), apavorado com o fato de ter assassinado, em legítima defesa, o ex-marido de sua namorada. Azarado por natureza - todas as suas inclinações empresariais foram por água abaixo sem deixar maiores vestígios - Éder acaba se tornando o assunto principal das conversas de seu sobrinho adolescente, Duca (Darlan Cunha), com a colega de classe/melhor amiga/paixão recolhida Isa (Sophia Reis, filha do cantor Nando Reis). Empolgada com a situação - que lhe permite sair da rotina do dia-a-dia - Isa se torna a parceira de Duca em suas visitas ao tio na cadeia e acaba, sem querer, envolvendo na situação outro amigo em comum, Kid (Renan Gioelli), também apaixonado por ela. Porém, quando conhece a namorada de Éder, a estonteante Soraia (Deborah Secco), o esperto Duca passa a desconfiar que seu tio está apenas servindo de bode expiatório para uma história bem mais complexa do que aparenta.


Co-produzido pela Natasha Filmes - companhia de Paula Lavigne de grande penetração nacional - e co-escrito por Guel Arraes, "Meu tio matou um cara" é, apesar de sua despretensão e simplicidade narrativa (com menos artifícios de linguagem que o habitual na obra do diretor), um passo adiante na carreira de Furtado. Não tanto por sua qualidade - "O homem que copiava" consegue ser melhor em todos os quesitos - mas pelo alcance da produção, que conseguiu inclusive uma trilha sonora original composta por ninguém menos que Caetano Veloso. No mais, a edição se mantém ágil e cadenciada, o visual é caprichado (mas sem os exageros que normalmente transformam os cenários em composições mais vistosas que a trama e os atores) e a direção de atores, como sempre, é a cereja do bolo. Se Lázaro Ramos tem relativamente pouco a fazer como Éder e Deborah Secco faz uso de seu status de símbolo sexual aparecendo seminua em praticamente todas as suas cenas, o elenco jovem acaba por chamar a atenção. Darlan Cunha transmite com perfeição o ar sonhador e esperto de Duca, facilitando ao espectador uma cumplicidade imprescindível, e Sophia Reis, linda, justifica a paixão de seu melhor amigo, além de não se deixar intimidar pelos colegas mais experientes. O vértice final do triângulo, Renan Gioelli, também não compromete.

Assim como os demais filmes de Jorge Furtado, "Meu tio matou um cara" é uma produção esperta, ligeira e bem-humorada, capaz de envolver o público sem maior esforço. Mesmo que o roteiro não se aprofunde em muitas das questões levantadas - e ter um final um tanto abrupto - é simpático o suficiente para que seus pecadilhos sejam facilmente perdoáveis. Um belo passatempo.

domingo, 14 de junho de 2015

DESVENTURAS EM SÉRIE

DESVENTURAS EM SÉRIE (Lemony Snicket's a series of unfortunate events, 2004, Paramount Pictures, 108min) Direção: Brad Silberling. Roteiro: Robert Gordon, romances "The bad beggining", "The reptile room" e "The wide window", de Daniel Handler. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Michael Kahn. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Cheryl A. Carasik. Produção executiva: Albie Hecht, Julia Pistor, Scott Rudin, Barry Sonnenfeld. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jim Van Wyck. Elenco: Jim Carrey, Meryl Streep, Jude Law, Liam Aiken, Emily Browning, Timothy Spall, Catherine O'Hara, Billy Connolly, Luis Guzman, Jennifer Coolidge, Jane Adams, Cedric The Entertainer. Estreia: 16/12/04

4 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem

Não é preciso muito tempo de projeção da comédia infantojuvenil "Desventuras em série" para que os desavisados fãs de cinema julguem estar diante de um típico Tim Burton: o humor negro, o tom sinistro, os personagens bizarros e o capricho visual, afinal, são características da filmografia do cineasta que fez do Homem-morcego um negócio dos mais lucrativos para a Warner no final da década de 80. Porém, apesar das semelhanças, a adaptação da obra de Robert Gordon para a as telas não leva a assinatura de Burton -  que esteve atrelado ao projeto por um tempo com seu mais constante parceiro artístico Johnny Depp mas depois abandonou o barco - e sim de Brad Silberling, o homem por trás da versão live-action de "Gasparzinho", com Christina Ricci e da reinvenção livre do existencial "Asas do desejo" chamada "Cidade dos anjos", com Meg Ryan. Mesmo não sendo um cineasta cujo nome seja facilmente reconhecível pelas plateias, porém, ele não pode ser responsabilizado pelo relativo fracasso financeiro do filme: mesmo estrelado por um Jim Carrey em momento inspiradíssimo e contando com as luxuosas participações especiais de Meryl Streep e Jude Law, "Desventuras em série" rendeu menos do que o esperado nos EUA - inviabilizando uma esperada sequência - mais por fugir da fórmula das produções insossas e protegidas de qualquer ousadia do que por culpa alheia. Uma injustiça, já que é, de longe, mais divertido e bem realizado do que a maioria dos filmes que tentaram pegar carona na onda de adaptações literárias infantis que virou febre com o sucesso de "Harry Potter".

Adaptando apenas os três primeiros livros de uma extensa série de treze, o filme de Silberling já começa com uma dose de inteligente ironia, quando um inocente desenho animado sobre um elfo feliz é bruscamente interrompido por um narrador chamado Lemony Snicket (pseudônimo do autor Robert Gordon e interpretado nas telas por um Jude Law que aparece apenas nas sombras), que adverte os espectadores que a história que virá a seguir não terá a inocência e a felicidade com que pode estar acostumada a audiência do cinema infantojuvenil. É então que o público começa a acompanhar as tais desventuras em série do título, sofridas pelos três órfãos dos milionários Baudelaires: a criativa Violet (Emily Browning), o inteligente Klaus (Liam Aiken) e a esperta Sunny (as irmãs Kara e Shelby Hoffman), que, mesmo bebê, não fica atrás em termos de vivacidade. De forma inesperada, os três perdem os pais em um incêndio que destroi sua mansão e, de acordo com a lei - na forma do bem-intencionado mas pouco perspicaz Mr. Poe (Timothy Spall) - são obrigados a viver na companhia de um parente próximo, no caso o bizarro Conde Olaf (Jim Carrey), um ator medíocre e ambicioso que mora em uma casa caindo aos pedaços e que vê nas três crianças a sua grande chance de sair da miséria financeira.


Não demora muito, porém, para que as crianças percebam as reais intenções do Conde - que os trata como empregados e deseja matá-los para por as mãos em seu dinheiro - e iniciem uma via-crucis através de outros parentes (honestos mas ingênuos o bastante para cair nas garras do pernicioso vilão): o cientista Monty (Billy Connolly), especialista em répteis, e a tia Josephine (Meryl Streep), uma viúva paranoica que vive em uma casa localizada em um perigoso abismo. Usando e abusando de seus dons histriônicos - e de pesada maquiagem - Olaf penetra invariavelmente em todas as famílias que recebem os jovens, que conseguem sobreviver graças a seu talento em ludibriar o pretensamente esperto artista que tem em seus planos até mesmo um casamento com a pré-adolescente Violet.

Visualmente impressionante, "Desventuras em série" é uma bem-azeitada mistura entre comédia de humor negro e aventura infantojuvenil, capaz de agradar as crianças mais velhas e até mesmo os adultos que se propuserem a entrar sem preconceitos na brincadeira. Jim Carrey foi a escolha perfeita para o papel principal, que lhe dá mil oportunidades para um show à parte, especialmente com a ajuda da maquiagem - premiada com o Oscar - e de coadjuvantes brilhantes, que sustentam seu espetáculo com simpatia e generosidade. Meryl Streep, por exemplo, não precisa de muito tempo em cena para brilhar com sua afável tia Josephine, responsável por algumas das melhores sequências do filme, também admirável por sua estupenda direção de arte, que concorreu ao Oscar e perdeu para um filme mais "sério", a biografia "O aviador", de Martin Scorsese. Seu relativo fracasso de bilheteria - que deixou os espectadores fãs dos livros desolados - não condiz com suas qualidades. É uma deliciosa produção que merecia ter sido melhor recebida pelo público.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

K-PAX - O CAMINHO DA LUZ

K-PAX, O CAMINHO DA LUZ (K-Pax, 2001, Intermedia Films/Lawrence Gordon Productions, 120min) Direção: Ian Softley. Roteiro: Charles Leavitt, romance de Gene Brewer. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Craig McKay. Música: Edward Shearmur. Figurino: Louise Mingenbach. Direção de arte/cenários: John Beard/Cheryl Carasik. Produção executiva: Susan G. Pollock. Produção: Robert F. Colesberry, Lawrence Gordon, Lloyd Levin. Elenco: Kevin Spacey, Jeff Bridges, Mary McCormack, Alfre Woodard, Celia Weston. Estreia: 22/10/01

Em 1984, Jeff Bridges arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho em "Starman, o homem das estrelas", onde interpretava um alienígena que chegava à Terra e confundia cientistas e o coração da jovem Karen Allen. Quase vinte anos depois, Bridges mudou de lado: em "K-Pax, o caminho da luz", ele vive um médico psiquiátrico que se vê diante de um novo desafio na carreira quando um homem encontrado vagando pela estação central de trens de Nova York alega ser um extraterrestre cuja visita ao planeta está chegando ao fim. Dirigido pelo inglês Ian Softley - o mesmo de "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool", que contava os primórdios dos Beatles na Alemanha - o filme baseado no romance Gene Brewer é uma mistura bem equilibrada entre drama e ficção científica que conquista o público tanto pela história intrigante quanto pelo duelo de atuações entre Bridges e Kevin Spacey - mais uma vez brilhante na pele do misterioso Prot.

De posse de um inseparável par de óculos escuros, Prot é encontrado perdido e transferido para o Instituto Psiquiátrico de Manhattan, onde acaba por cair nas mãos do competente Mark Powell (Bridges), um médico dedicado à profissão e à família - ainda que não tenha a melhor das relações com o filho universitário, a quem não vê há algum tempo. Alegando ser um habitante de um planeta chamado K-Pax, Prot é posto à prova por uma equipe de astrofísicos que ficam abismados com seu conhecimento a respeito das inúmeras e complicadas questões levantadas por eles. Tranquilo e sereno, Prot afirma viajar entre os planetas através de raios de luz e que tem data específica para voltar para casa - e, mais preocupante ainda, insiste que pode levar consigo um dos pacientes da clínica, o que acaba por gerar uma crise entre eles, todos querendo abandonar a Terra em direção a um lugar menos sofrido. Sem acreditar nas histórias contadas por Prot, o médico resolve hipnotizá-lo e, a partir daí, inicia uma investigação detalhada para tentar descobrir os motivos que podem ser os responsáveis por seu bizarro comportamento.


Sem pressa de contar sua história e estabelecendo com calma as relações entre seus personagens, Softley conduz o espectador com cuidado pelos corredores do hospital psiquiátrico, pela casa de Powell e pela mente complexa de Prot sem perder-se nos meandros do roteiro inteligente de Charles Leavitt, que privilegia o drama em detrimento das implicações científicas da trama. Mantendo a dúvida sobre a real identidade de Prot até os segundos finais - e mesmo assim dando margem a diferentes interpretações - o roteiro brinda a plateia com diálogos sensíveis, que questionam os conceitos de família, normalidade, felicidade e interrelações sem soar didático ou condescendente. A escalação certeira de Jeff Bridges e Kevin Spacey - dois dos maiores atores americanos de sua geração - ajuda muito em transformar uma premissa que poderia parecer inverossímil em um instigante quebra-cabeças capaz até mesmo de emocionar aos mais sensíveis.

Mesmo sem ser um filme inesquecível - nos EUA passou praticamente em branco nas bilheterias, mal conseguindo pagar seu custo - e sendo muitas vezes ignorado quando se fala nas carreiras de Bridges e Spacey (ambos vencedores do Oscar e respeitadíssimos em todo o planeta), "K-Pax, o caminho da luz" é um trabalho sensível que borra com inteligência as fronteiras entre o drama e a ficção científica sem ofender a nenhum dos gêneros e seduz a audiência sem apelar para efeitos visuais mirabolantes ou violência gratuita. É simples, é honesto e é uma experiência gratificante. Merecia melhor sorte!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES (Charlie and the Chocolate Factory, 2005, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 115min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John August, romance de Roald Dahl. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Danny Elfman. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Alex McDowell/Peter Young. Produção executiva: Bruce Berman, Graham Burke, Felicity Dahl, Patrick McCormick, Michael Siegel. Produção: Brad Grey, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, Helena Bonham Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, David Kelly, Adam Godley. Estreia: 10/7/05

Indicado ao Oscar de Figurino

Quando foi anunciado que a Warner planejava um remake de "A fantástica fábrica de chocolate" - cuja primeira versão, estrelada por Gene Wilder em 1971, havia se tornado um clássico instantâneo e cult por excelência - uma torrente de boatos inundou as páginas de jornais que cobriam Hollywood. Segundo tais notícias, nomes como Martin Scorsese, Robert Zemeckis, Barry Levinson e Gary Ross estavam em negociação com os produtores para comandar o projeto - antes que Tim Burton, talvez a escolha desde sempre mais apropriada, fosse formalmente anunciado como diretor e garantisse seu ator preferido, Johnny Depp, como dono do papel principal, o excêntrico Willy Wonka, que Wilder imortalizou no início da década de 70. Com Depp dentro do barco, acabaram-se as especulações também a respeito de quem lideraria o elenco adulto da adaptação - uma briga que incluía tanto atores previsíveis, como Nicolas Cage, Jim Carrey, Bill Murray, Mike Meyers e Michael Keaton quanto absurdos inimagináveis, como Brad Pitt, Patrick Stewart, John Cleese, Leslie Nielsen, Robert DeNiro e... Dwayne Johson (até o cantor Marilyn Manson declarou interesse no papel) - e também com a briga pelo papel do ingênuo e sonhador Charlie Bucket, o protagonista infantil: Depp recomendou a Burton o talentoso Freddie Highmore, com quem havia trabalhado no sensível "Em busca da Terra do Nunca" e na tela, parece impossível que o escritor inglês Roal Dahl tenha pensado em outro ator quando escreveu seu romance (mesmo que Highmore, à época, nem estivesse planejando nascer).

Exterminando o tom kitsch do filme original, Tim Burton cercou-se de um respeitável time de profissionais para levar às telas a história de Dahl - com muito mais fidelidade do que a versão de 1971 e sob as bênçãos da família do escritor. Além de seus habituais colaboradores - Chris Lebenzon na edição e Danny Elfman na trilha sonora - o cineasta ainda contou com o talento da figurinista Gabriella Pescucci (Oscar por "A época da inocência" e que acabou recebendo uma nova indicação ao prêmio por seu trabalho em vestir Wonka e cia) e do desenhista de produção Alex McDowell (que criou um mundo fascinante e colorido que é uma festa para os olhos da audiência e um universo dos sonhos para as crianças). Substituindo o exército de atores que interpretavam os Oompa-Loompas do primeiro filme (os operários pigmeus da fábrica) por um único ator (o extraordinário Deep Roy, uma revelação que quase rouba a cena interpretando centenas de extravagantes criaturas) e imprimindo seu estilo visual inconfundível a cada sequência, Tim Burton literalmente reinventa (e quase ignora) o filme de Mel Stuart.


A trama, logicamente, é a mesma, e o roteiro de John August (que também escreveu "Peixe grande" para Tim Burton) é brilhante, equilibrando com precisão a ironia, o sentimentalismo e o apelo ligeiramente bizarro do livro de Dahl: Willy Wonka (Johnny Depp exercitando sua tendência ao exagero em papel sob medida para seu histrionismo) é o recluso e singular dono de uma gigantesca fábrica de chocolate que, anos depois de tê-la fechado a qualquer contato humano após atos de traição, resolve lançar um concurso que agita consumidores do mundo inteiro. Para escolher uma criança para ganhar um grande e misterioso prêmio, ele distribui cinco convites dourados dentro de suas barras de chocolate, que dão direito a uma visita guiada à fábrica, acompanhados de um dos pais. É assim que o guloso Augustus Gloop, a mimada Veruca Salt, a competitiva Violet Beauregarde e o nerd Mike Teavee conseguem - cada um por um meio duvidoso e/ou antiético - seu passaporte para o programa, ao contrário do que acontece com o ingênuo Charlie Bucket, de família extremamente humilde e cujo pai acaba de perder o emprego. Cada um com seu interesse, todos se reunem diante da imponente fábrica no dia marcado e, sob os auspícios de Wonka - que teve uma infância complicada e ainda sofre com os traumas relativos a seu pai dentista (participação especialíssima do veterano Christopher Lee) - fazem uma excursão inesquecível por um colorido mundo de fantasia.

Mesmo sendo um cineasta com tendência ao exagero - e tendo como protagonista um ator com igual pendor - Tim Burton consegue o que parecia impossível com sua versão de "A fantástica fábrica de chocolate": agradar a gregos e troianos, ou seja, a todos àqueles que assistiram à primeira versão da história e também à gorda fatia de público que nunca teve acesso à tresloucada atuação de Gene Wilder (e bota gorda nisso, já que o filme de 2005 faturou mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias americanas). Sua visão do livro é feérica, engraçada, frequentemente cafona e impossível de desagradar. É Tim Burton em um de seus melhores momentos sem nunca deixar de lado a origem literária da história ou perder de vista o tom infantil da trama - e ainda é fascinante para qualquer tipo de audiência. Uma vitória.