sexta-feira, 31 de julho de 2015

DUPLICIDADE

DUPLICIDADE (Duplicity, 2009, Universal Pictures/Relativity Media, 125min) Direção e roteiro: Tony Gilroy. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Albert Wolksy. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Ryan Cavanaugh. Produção: Laura Bickford, Jennifer Fox, Kerry Orent. Elenco: Julia Roberts, Clive Owen, Tom Wilkinson, Paul Giamatti, Dennis O'Hare, Tom McCarthy. Estreia: 10/3/09

Cinco anos depois de formarem um casal envolvido em uma complicado quadrilátero amoroso no elogiado "Closer, perto demais", Julia Roberts e Clive Owen voltaram a dividir a tela. Dessa vez, porém, sem a densidade da obra dirigida de Mike Nichols, adaptada da peça teatral de Patrick Marber: na pele de dois espiões industriais que se apaixonam e tramam um golpe para garantir sua aposentadoria mesmo sem confiarem plenamente um no outro, a dupla oferece ao espectador uma trama leve e dotada de um senso de humor elegante que remete a clássicos como "Charada" - estrelado por Audrey Hepburn e Cary Grant - e comprova o talento do roteirista/diretor Tony Gilroy, recém-saído de várias indicações ao Oscar por seu "Conduta de risco" - que deu a estatueta de coadjuvante à Tilda Swinton. Fugindo do tom opressivo da obra estrelada por George Clooney, "Duplicidade" é uma comédia à moda antiga, que equilibra uma trama complexa com momentos de romantismo em cenários sofisticados ao redor do mundo. Pode soar confuso em vários momentos, mas é um entretenimento de classe, protagonizado por uma das mais carismáticas estrelas de Hollywood.

A trama de "Duplicidade" começa em Dubai, quando Ray Koval (Clive Owen) e Claire Stenwick (Julia Roberts) - dois agentes de órgãos de segurança rivais - se conhecem e passam a noite juntos. Ela rouba documentos importantes dele e desaparece por cinco anos, até que eles voltam a se encontrar, dessa vez trabalhando em empresas particulares, mas novamente inimigas. Ela é empregada de Howard Tully (Tom Wilkinson), o diretor de uma companhia farmacêutica que está em vias de lançar um revolucionário produto para acabar com a calvície. Ele trabalha para o rival de Tully, o egocêntrico Richard Garsick (Paul Giamatti), que tem uma equipe treinada para roubar segredos de seus concorrentes. Juntos, Ray e Claire resolvem trabalhar como agentes duplos, para descobrirem a fórmula secreta de Tully e se aposentarem em grande estilo. Através de flashbacks que contam como eles iniciaram seu plano, a trama avança até o grande clímax que vai finalmente mostrar se eles são tão inteligente e espertos quanto pensam - e se realmente estão jogando no mesmo time.


Abusando de uma edição complexa e esperta - ainda que às vezes em excesso - "Duplicidade" tem como seu maior mérito o fato de ser um filme direcionado ao público adulto, que foge dos efeitos visuais imbecilizantes e das piadas sem graça dos blockbusters. Apostando na inteligência da plateia, o roteiro de Gilroy exige dela uma atenção normalmente dispensada nas produções dos grandes estúdios, que visam apenas o retorno financeiro de seus projetos, independentemente de suas qualidades. O roteiro, que vai e volta no tempo, obriga a audiência a não desgrudar os olhos da tela, sob pena de perder o fio da meada - e consequentemente parar de acompanhar a trama, na verdade uma desculpa das mais charmosas para explorar mais uma vez a química entre Roberts e Owen, que parecem estar se divertindo ao dar vida a personagens tão distantes daqueles que lhes deram fama. Julia, principalmente, entrega uma performance inspirada e solar, que mostra um lado menos sério de seu talento, ainda pouco explorado apesar das comédias românticas que protagonizou nos anos 90. Sua Claire Stenwick é uma mulher forte, determinada e inteligente que manda no próprio nariz e não depende de homens para alcançar a felicidade - coisa rara no cinema americano apesar de opiniões contrárias - e ninguém melhor do que Roberts para interpretá-la. Um acerto de escalação de elenco que por si só já vale a sessão.

Além de Roberts, porém, "Duplicidade" também merece elogios por sua elegância visual. A fotografia de Robert Elswit (Oscar por "Sangue negro") tira o máximo proveito das paisagens naturais de Roma, Dubai e Nova York, evitando, apesar disso, os clichês quase inevitáveis. A leveza dos cenários, com seu charme e classe, contagia a atuação de um elenco à prova de qualquer crítica. Mesmo em papéis secundários, Paul Giamatti e Tom Wilkinson mostram que não são requisitados pelos maiores diretores de Hollywood à toa, e Clive Owen pela primeira vez deixa vislumbrar um lado cômico (ainda que sutil) de sua personalidade artística, um elemento a mais em um filme que, se não muda a história do cinema, ao menos lhe dá um pouco de consistência cerebral.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

ORAÇÕES PARA BOBBY

ORAÇÕES PARA BOBBY (Prayers for Bobby, 2009, Lifetime, 90min) Direção: Russell Mulcahy. Roteiro: Katie Ford, livro de Leroy Aarons. Fotografia: Thom Best. Montagem: Victor Du Bois. Música: Christopher Ward. Figurino: Janine Israel. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Kathy Fennessy. Produção executiva: Stanley M. Brooks, David Permut, Daniel Sladek, Chris Taaffe. Produção: Damian Ganczweski. Elenco: Sigourney Weaver, Henry Czerny, Ryan Kelley, Austin Nichols, Scott Bailey, Susan Ruttan, Dan Butler. Estreia: 24/01/09

Em dias tão complicados, onde fascistas da pior espécie como Jair Bolsonaro vociferam suas teorias preconceituosas e doentias em cadeia nacional, filmes como "Orações para Bobby" deveriam ser obrigatórios em escolas e para orientação para pais e professores. Baseado em uma história real ocorrida no final dos anos 70/início dos 80, o filme de Russell Mulcahy - que outrora comandou o cult "Highlander, o guerreiro imortal" - é um documento importante a respeito de tolerância sexual e, a despeito de suas restrições advindas do fato de ter sido realizado para a TV, é um drama inspirador e pungente, que tem na atuação de Sigourney Weaver seu mais importante trunfo.

Contada em um livro escrito em 1996 por Leroy Aarons, a trágica e emocionante história de Bobby Griffith recebeu de Mulcahy um tratamento delicado e felizmente pouco exagerado dramaticamente. Criado em uma pequena cidade dos EUA, o adolescente Bobby (vivido por Ryan Kelley, que transmite toda a insegurança e constrangimento de sua personagem mesmo que às vezes escorregue na canastrice) vive cercado por um ambiente familiar ortodoxo e rígido. Sentindo-se diferente do irmão mais velho e deslocado dos amigos de sua idade, ele se descobre homossexual, mas reprime heroicamente seus sentimentos e desejos, com medo de magoar os pais, em especial sua mãe, Mary (Sigourney Weaver). Religiosa fervorosa, Mary tenta desesperadamente "curar" seu filho com os ensinamentos da Bíblia - que promete o fogo do inferno a pecadores como ele - mas é somente depois de uma tragédia que ela finalmente começa a compreender o filho, tornando-se ativista dos movimentos gays.


É uma pena que "Orações para Bobby" tenha sido feito para a TV, ao invés de ganhar as telas de cinema. Sua história forte e comovente merecia uma atenção maior, em especial devido a seu tema e às discussões que suscita. Em especial na segunda metade do filme, quando Mary passa a questionar os textos bíblicos em conversas com um sacerdote mais aberto às diferenças do que o normal, o roteiro busca levantar questões de importância capital em um mundo onde a diversidade toma seu espaço em proporções gigantescas. A maneira com que a mentalidade da protagonista é transformada - de uma mulher de formação moral e religiosa radical a uma mãe finalmente compreendendo os sentimentos de um filho que buscava apenas seu amor e aprovação - é acertada, com o diretor nunca buscando a emoção fácil. Sigourney Weaver acerta no tom da interpretação e, se emociona em alguns momentos, é porque consegue a cumplicidade de uma plateia envolvida em suas dúvidas e sua dor.

"Orações para Bobby" não é uma obra-prima, mas cumpre com grande eficiência seus dois papeis. Como entretenimento, tem uma qualidade inegável, com um elenco esforçado (o canadense Tcheky Karyo vive o pai de Bobby de maneira direta e também tocante) e um roteiro que consegue driblar suas restrições orçamentárias e de veículo - mesmo com a direção carregada de clichês. Mas é como mensagem que ultrapassa o corriqueiro. Se mais pais o assistissem, provavelmente gente como Bolsonaro ou seus obtusos fãs estariam vivendo em uma merecida obscuridade.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM (Confessions of a shopaholic, 2009, Touchstone Pictures, 104min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Tracey Jackson, Tim Firth, Kayla Alpert, romances de Sophie Kinsella. Fotografia: Jo Willems. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Pat Field. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Alyssa Winter. Produção executiva: Ron Bozman, Chad Oman, Mike Stenson. Produção: Jerry Bruckheimer. Elenco: Isla Fisher, Hugh Dancy, Krysten Ritter, John Lithgow, Joan Cusack, John Goodman, Kristin Scott Thomas, Lynn Redgrave, Julie Hagerty. Estreia: 05/02/09

A heroína de "Os delírios de consumo de Becky Bloom" - comédia romântica baseada nos dois primeiros livros de uma série de cinco volumes escritos pela britânica Sophie Kinsela - tem traços de algumas das mais populares personagens femininas a cruzar as telas de sua época. De Bridget Jones - criada por Helen Fielding e interpretada por Renée Zelwegger em dois filmes - ela tem a nacionalidade, o azar nos relacionamentos afetivos e a dificuldade sobre-humana de tirar suas contas do vermelho. De Elle Woods - que catapultou a carreira de Reese Witherspoon nos dois capitulos de "Legalmente loira" - ela herdou o amor incondicional por roupas, acessórios e sapatos de marcas famosas e a incapacidade de sair de casa sem estar vestida dos pés à cabeça com suas griffes preferidas. De Andrea Sachs - a sofrida assistente de Meryl Streep que Anne Hathaway viveu em "O diabo veste Prada" - ela tem a mesma profissão (jornalista) e o ambiente profissional (o mundo editorial, com suas armadilhas e pressões). E com as personagens de "Sex and the city" - série da HBO que também foi transposta para o cinema - ela divide o gosto pelo luxo, pelo romance e pela sofisticação... e a cidade de Nova York, para onde foi transferida pelos roteiristas apenas para uma "maior conexão com o público norte-americano". Com tantas referências na bagagem - apertadas ao lado do figurino caprichado da mesma Patricia Field da série estrelada por Sarah Jessica Parker e do filme com Hathaway - não é de admirar, portanto, que ela tenha passado quase em brancas nuvens. Mesmo com uma bilheteria mundial de mais de 100 milhões de dólares, as aventuras da consumista mais conhecida da literatura feminina não marcou época como suas colegas de shopping-center - matando logo em seu primeiro filme uma possível marca milionária para seduzir pelo visual e pela identificação as espectadoras que leram todos os cinco romances. Culpa do excesso de semelhanças? Da falta de carisma da atriz central? Da crise que tornou a estória um tanto fora de hora? Ou simplesmente falta de interesse da plateia?


Um pouco de tudo, talvez. Mesmo que Hollywood não se canse de contar e recontar as mesmas histórias a ponto de esgotá-las, a renda dos filmes contraria a teoria do cansaço com a falta de imaginação - não se pode esquecer que estamos falando de uma indústria que despeja continuações e mais continuações a cada temporada, sempre com êxitos cada vez maiores. Será então que Isla Fisher tem sua parcela de culpa no sucesso apenas mediano da empreitada? Pode ser. Desconhecida do grande público, Fischer é uma boa atriz, mas não tem o mesmo carisma de Reese Witherspoon - que chegou a ser cotada para o papel, recusando-o por considerá-lo parecido demais com sua Elle Woods. Será que as outras atrizes consideradas para protagonizar o filme teriam melhor sorte? É possível, já que na lista constam nomes como Kirsten Dunst, Rachel McAdams, Emily Blunt, Amanda Seyfried, Lindsay Lohan e até mesmo Anne Hathaway. Mas culpar Fisher - responsável por alguns dos melhores momentos de humor físico do filme - é leviano e até injusto. Então seria a crise econômica a responsável pela recepção morna à produção, que tinha como protagonista uma consumista contumaz? Se a resposta for essa, então como explicar as bilheterias monstruosas de filmes como "Avatar", "Se beber, não case", "Sherlock Holmes" e "Harry Potter e o enigma do príncipe", todos lançados no mesmo ano? Ok, "Becky Bloom" tem uma parcela restrita de público-alvo, mas então onde entra "Lua nova" nessa equação?

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - cujo talento foi mais do que comprovado com o sucesso de "O casamento de Muriel" (94) e "O casamento do meu melhor amigo" (97) - "Os delírios de consumo de Becky Bloom" é uma comédia romântica bobinha e leve, e como tal deve ser considerada e apreciada, apesar do abuso de clichês. Sua protagonista, Rebecca Bloomwood, é uma jovem jornalista que, sem emprego que lhe permita pagar seus excessos financeiros, acaba por encontrar trabalho em uma revista de economia editada pelo charmoso Luke Brandon (o sr. Claire Danes) - filho de uma milionária que tenta esconder suas origens para vencer pelo próprio talento. Com o apelido de "A moça da echarpe verde", ela começa a escrever uma coluna mensal sobre finanças pessoais para leigos e torna-se a sensação da revista. Apaixonada pelo chefe e incapaz de livrar-se do vício em compras - a ponto de brigar com a melhor amiga e passar os dias fugindo de um insistente cobrador que não parece disposto a desistir da caça - ela luta constantemente contra o saldo bancário e sua frustração profissional, já que seu sonho é trabalhar na "Alette", a revista de moda comandada pela fria Alette Naylor (Kristin Scott Thomas).

O fato é que "Os delírios de consumo de Becky Bloom", apesar de alguns acertos, é apenas mais uma sessão da tarde descerebrada que se utiliza de elementos já devidamente testados e aprovados para conquistar o bolso da plateia. Não tem a ironia de "Legalmente loira", o sarcasmo de Bridget Jones, a mordacidade de "O diabo veste Prada" e as geniais sacadas verbais e sexuais de "Sex and the city". Diverte em alguns momentos - é ótima a ideia de ver as manequins das vitrines ganhando vida quando a veem e é sempre um prazer ver Kristin Scot Thomas em cena - mas não consegue evitar a sensação de "mais do mesmo" em vários outros. A decisão da Touchstone em não dar continuidade à série foi acertada: acompanhar Becky Bloom como mãe e esposa certamente não seria uma boa ideia.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O GOLPISTA DO ANO

O GOLPISTA DO ANO (I love you, Phillip Morris, 2009, EuropaCorp/Mad Chance/Consolidate Group Pictures, 98min) Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Roteiro: Glenn Ficarra, John Requa, livro de Steve McVicker. Fotografia: Xavier Pérez Grobet. Montagem: Thomas J. Nordberg. Música: Nick Urata. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Hugo Luczyc-Wyhowski/Cynthia Slagter. Produção executiva: Luc Besson. Produção: Andrew Lazar, Far Shariat. Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro, Leslie Mann. Estreia: 18/01/09 (Festival de Sundance)

Quando o filme "O golpista do ano" estreou oficialmente nos EUA, em janeiro de 2009, já fazia exatamente um ano que havia estreado no Festival de Sundance - e, desde então, havia percorrido festivais de cinema pelo mundo inteiro e sido lançado comercialmente fora do mercado doméstico, arrecadando o suficiente para cobrir seu modesto orçamento de 13 milhões de dólares. Tal atraso - e a séria ameaça de ser lançado diretamente no mercado de DVD em seu país de origem - não deixou de ser uma surpresa, já que a comédia dirigida pela dupla Glenn Ficarra e John Requa é estrelado por um dos atores mais populares de Hollywood, Jim Carrey, capaz de levar multidões às salas de cinema mesmo com filmes de qualidade duvidosa, como "Ace Ventura, um detetive diferente" e "Débi & Lóide, dois idiotas em apuros". Já devidamente reconhecido como um ator sério, graças aos filmes "O show de Truman, o show da vida" (98), "O mundo de Andy" (99) e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (04), nem mesmo Carrey foi capaz, no entanto, de despertar o interesse das plateias ianques para a inacreditável história real do farsante Steven Jay Russell e seu amor incondicional pelo colega de presídio Phillip Morris: o filme foi um fracasso retumbante (e injusto) de bilheteria.

Levando-se em consideração que "O golpista do ano" não é um filme típico de Carrey - ao menos não funciona no nível de suas produções mais descerebradas - nem tampouco um drama que se preste a premiações precedidas de tapetes vermelhos, seu fracasso nem chega a ser uma surpresa. Mesmo que Carrey não deixe totalmente de lado sua tendência em fazer caretas e vez ou outra exagere nas tintas de seu personagem, o tom do filme é menos histérico do que em seus trabalhos mais famosos e esse meio-termo talvez tenha afastado a audiência mais tradicional do ator. Além do mais, outro elemento importante do roteiro - que o título genérico em português escondeu, com medo da rejeição do público brasileiro - pode ter sido responsável pela indiferença em relação ao produto final: a homossexualidade do protagonista. Bem ou mal, interpretar um personagem gay ainda é tabu em Hollywood - a não ser quando se ambiciona ganhar certa estatueta dourada - e Carrey sentiu na pele a verdade de tal afirmação. Enquanto alguns elogiaram sua "coragem" em assumir um papel tão controverso, outros a rechaçaram. A maior parcela do público - a que realmente interessa - fez pouco caso da situação.


Apesar de parecer impossível, a história de "O golpista do ano" é real, e em muitos pontos lembra o excelente "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg. Em ambos os casos o protagonista é um homem que vive de golpe em golpe, tentando manter um estilo de vida dispendioso e regado a luxos. Ao contrário do filme estrelado por Leonardo DiCaprio, porém, o trabalho dos diretores Ficarra e Requa dá a seu personagem principal uma razão específica para tal comportamento: depois de assumir-se gay para a família depois de um acidente de carro, o policial Steven Russell abandona a carreira e começa uma vida cercada de ostentação ao lado do namorado, Jimmy (o brasileiro Rodrigo Santoro em papel com falas e de razoável importância na trama). Preso por fraude, ele se apaixona perdidamente, na cadeia, por Phillip Morris (Ewan McGregor), um rapaz tímido com quem inicia um romance avassalador. Disposto a oferecer ao novo amante uma vida confortável, ele acaba por envolver-se, novamente, com negócios escusos e fraudes milionárias, o que o leva fatalmente a uma existência repleta de idas e vindas da cadeia.

Se Carrey não consegue manter-se totalmente afastado de seu modo histriônico de interpretação - beirando o excesso em diversos momentos - o maior destaque de "O golpista do ano" é Ewan McGregor, que sai-se bastante bem na pele do Phillip Morris do título original. Com uma atuação que se equilibra na tênue linha entre a caricatura e o naturalismo sem cair nas armadilhas que isso impõe, o ator demonstra maturidade e versatilidade, permitindo à plateia que mergulhe sem reservas em um roteiro que não tem medo de ousar na estrutura, recheada de flashbacks e piadas direcionadas ao público gay. Sem preconceitos e sem esperar que seja uma comédia "de Jim Carrey" é bem provável que qualquer audiência se deixe divertir pelo filme: razões para isso não faltam, nem que seja apenas para testemunhar as incríveis aventuras de seu protagonista.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

17 OUTRA VEZ

17 OUTRA VEZ (17 again, 2009, New Line Cinema, 102min) Direção: Burr Steers. Roteiro: Jason Filardi. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Padraic McKinley. Música: Rolfe Kent. Figurino: Pamela Whiters-Chilton. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Natali Kendrick Pope. Produção executiva: Jason Barrett, Toby Emmerich, Keith Goldberg, Mark Kaufman. Produção: Jennifer Gibgot, Adam Shankman. Elenco: Zac Efron, Matthew Perry, Leslie Mann, Thomas Lennon, Melora Hardin, Michelle Trachtenberg. Estreia: 14/4/09

É impressionante como, mesmo com a fórmula usada à quase exaustão, comédias que retratam personagens sendo obrigados a lidar com a mudança súbita de identidade/sexo/idade ainda conseguem levar o público ao cinema - e inspirar produções vexaminosas como os dois capítulos de "Se eu fosse você", cometidos por Daniel Filho aqui no Brasil. Talvez por saber exatamente o que esperar de filmes com essa temática, a plateia não cansa de rir com as mesmas velhas piadas requentadas e (nem sempre) adaptadas aos novos tempos, e de forma cíclica, o assunto volta e meia encontra um meio de encontrar uma nova geração de espectadores: em 2003, Lindsay Lohan, antes dos escândalos que passaram a ameaçar sua ascendente carreira, juntou-se à Jamie Lee Curtis em "Sexta-feira muito louca" (já uma refilmagem de um clássico juvenil com Jodie Foster) e em 2004, a trintona Jennifer Garner voltou à adolescência em "De repente 30", só para citar exemplos mais recentes. Acreditando na força da receita - e principalmente no poder de fogo de Zac Efron junto ao público adolescente - os produtores de "17 outra vez" apostaram suas fichas em mais uma releitura do tema e não se arrependeram: com um custo de apenas 20 milhões de dólares, o filme rendeu três vezes seu orçamento apenas no mercado doméstico e ultrapassou os 130 milhões pelo mundo. Como se pode ver, nem sempre a originalidade é o melhor caminho para o sucesso.

Ídolo das adolescentes americanas graças à série "High School Musical" - onde cantava, dançava e desfilava seu carisma juvenil sem precisar fazer muito esforço para agradar - Zac Efron foi a escolha certa para liderar o elenco de "17 outra vez", tanto em termos comerciais quanto artísticos. Mesmo que não seja um grande ator, ele tira de letra o desafio de dar veracidade a uma trama que, mesmo com todas as licenças poéticas possíveis e imagináveis, é difícil de engolir sem a devida boa-vontade (a despeito de tantas outras similares): tudo começa em 1989, quando o jovem Mike O'Connell, astro do time de basquete de sua escola de ensino médio, está em vias de ser descoberto por um olheiro e começar uma brilhante carreira esportiva. Seus planos são abortados, porém, quando sua namorada, Scarlet, surge com a notícia de que está grávida: íntegro, o rapaz abre mão de seus sonhos para assumir o bebê e abandona um futuro que lhe parecia promissor. Vinte anos mais tarde (e na pele de Matthew Perry, o Chandler da série "Friends"), Mike vive um inferno astral: está se divorciando de Scarlet (interpretada por Leslie Mann), tem uma relação distante com os dois filhos adolescentes e acaba de sair do emprego a que se dedicou por duas décas - após ter sido preterido em uma promoção por uma loura peituda. Morando de favor na casa do melhor amigo, Ned (Thomas Lennon), ele cai sem querer em uma ponte ao tentar ajudar um suicida, e, ao chegar em casa, descobre atônito que está com o mesmo visual que tinha aos 17 anos.


Como trata-se de uma comédia hollywoodiana, a crise de Mike em relação a tal fenômeno não dura mais do que uma cena em que, conversando com o experiente Ned - um nerd assumido e consumidor voraz de ficção científica - ele chega à conclusão de que tal anomalia tem apenas uma função: fazer com que ele resolva alguma pendência de sua vida escolar como forma de consertar seu presente. Sendo assim, ele pede que Ned se faça passar por seu pai e o matricule na mesma escola em que estudam seus dois filhos - e de onde ele também foi aluno. Exímio atleta, Mike logo se torna popular o bastante para bater de frente com Stan (Hunter Parrish), o namorado valentão de sua filha Maggie (Michelle Trachtenberg) e ressaltar as qualidades esportivas de seu filho, o tímido Alex (Sterling Knight), de quem se torna o melhor amigo. A complicação surge quando ele passa a tentar impedir Scarlet de seguir com sua vida após a separação e ela começa a sentir-se estranhamente atraída pelo amigo de seu filho, que é bizarramente semelhante a seu ex-marido na juventude.

Seguindo à risca a receita do gênero, o roteiro de "17 outra vez" mantém-se na zona de conforto, oferecendo ao público exatamente o que se pode esperar de uma comédia adolescente que se propõe unicamente a entreter sua plateia por uma hora e meia. Um de seus maiores acertos é dar espaço ao casal formado por Thomas Lennon e Melora Hardin - que vive a diretora da escola onde Mike vai estudar: como dois nerds assumidos e orgulhosos, os dois protagonizam algumas das melhores cenas do filme, seja através de um diálogo em élfico (idioma criado para "O Senhor dos Anéis") ou pelas inúmeras referências à cultura contemporânea popular. Esse tempero dá ao filme de Burr Steers um gostinho um pouco diferente de seus congêneres, mas não é o suficiente para tirar a impressão de dèja-vu. Mesmo assim, é uma sessão da tarde deliciosa, ainda que inócua e esquecível.

domingo, 26 de julho de 2015

PASSAGEIROS

PASSAGEIROS (Passengers, 2008, TriStar Pictures/Mandate Pictures, 93min) Direção: Rodrigo Garcia. Roteiro: Ronnie Christensen. Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Montagem: Thom Noble. Música: Edward Shearmur. Figurino: Katia Stano. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Carol Lavalee. Produção executiva: Joe Drake, Nathan Kahane. Produção: Julie Lynn, Judd Payne, Matthew Rhodes, Keri Selig. Elenco: Anne Hathaway, Patrick Wilson, Dianne Wiest, David Morse, Andre Braugher, Clea DuVall, William B. Davis, Don Thompson, Ryan Robbins. Estreia: 24/10/08

Diretor do sensível "Coisas que você pode dizer só de olhar para ela" e de alguns episódios da aclamada "A sete palmos", o colombiano Rodrigo Garcia - filho do escritor Gabriel Garcia Marquez - parece não ser, a princípio, o cineasta mais apropriado para contar a história repleta de suspense de um grupo de sobreviventes de um desastre aéreo que tentam superar o trauma com a ajuda de uma jovem terapeuta com problemas familiares. Porém, essa dúvida a respeito de sua adequação à trama é desfeita com poucos minutos de "Passageiros": apesar do tom sombrio e do permanente clima de tensão, o roteiro de Ronnie Christensen - autor de filmes B de pouca repercussão - oferece ao diretor um material rico também em possibilidades dramáticas, que lhe permite explorar, sem prejuízo de nenhum dos enfoques, tanto um belo drama psicológico quanto um suspense elegante, que dispensa sustos baratos ao optar por um viés mais espiritualista da história.

Talvez o maior acerto de "Passageiros" seja Anne Hathaway no papel central de Claire Summers, uma jovem terapeuta que é chamada por seu professor, Perry (Andre Braugher), para servir como conselheira de um grupo de sobreviventes de um grave acidente aéreo ocorrido recentemente. Uma pessoa fechada e introvertida que tem problemas de relacionamento com a única irmã, Claire relutantemente aceita a missão e começa uma série de sessões com os traumatizados passageiros - que tem, cada um a seu modo, uma visão diferente do que aconteceu na ocasião do acidente. Enquanto tenta investigar o que realmente ocasionou a queda do avião, Claire passa a sofrer a perseguição de um dos funcionários da companhia aérea (David Morse) e começa a perceber que seus pacientes estão misteriosamente desaparecendo, um a um. Certa de que algo muito errado está acontecendo, ela ainda começa a envolver-se com um dos pacientes, o charmoso Eric (Patrick Wilson), que, desde o desastre, passou a se comportar como um homem a quem foi dada uma nova chance. Mas, afinal, qual a verdade sobre a tragédia? E como realmente Claire poderá ajudar a essas pessoas?


Levantando suas questões aos poucos, conforme vai apresentando os personagens e estabelecendo suas ligações, o roteiro de "Passageiros" não chega a ser uma obra-prima de criatividade, mas tem o grande mérito de não tratar o espectador como burro. Espalhando pistas sobre a grande revelação final durante todo filme, o roteirista e o diretor não apelam para soluções tiradas da manga, preferindo contar sua história em um ritmo próprio, que equilibra as cenas românticas entre Claire e Eric com momentos de uma suave tensão. Essa opção de enfatizar o lado sensível da trama em detrimento de sustos e violência acaba sendo o grande diferencial do filme de Garcia em relação a outros similares: intercalando delicadeza e mistério, "Passageiros" pode agradar a gregos e troianos, ainda que corra o risco de, por sua indecisão (ou ousadia, dependendo do ponto de vista), deixar de ser um marco em qualquer um dos gêneros. Com o tempo, será lembrado como romance, drama ou suspense? Ou simplesmente irá tornar-se mais um clássico das madrugadas televisivas?

É fácil gostar de "Passageiros", uma vez que tudo parece estar no lugar certo: o elenco talentoso, a direção sutil, o roteiro com reviravoltas suficientes para segurar a atenção, a história interessante. Mas mesmo assim, fica a impressão de que falta a ele um algo a mais que o mantenha na memória do espectador e faça dele um grande filme. É emocionante, é surpreendente e é um entretenimento dos mais agradáveis. Mas dificilmente vai mudar a vida de alguém, ainda que seja sempre um prazer ver Anne Hathaway e Patrick Wilson em cena (melhor esquecermos de "Os miseráveis" e "O vizinho", não é mesmo?).

sábado, 18 de julho de 2015

FOME

FOME (Hunger, 2008, Film4/Channell Four Film/Northern Ireland Screen, 96min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: Enda Walsh, Steve McQueen. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Leo Abrahams, David Holmes. Figurino: Anushia Nieradzik. Direção de arte/cenários: Tom McCullagh. Produção executiva: Iain Canning, Peter Carlton, Edmund Coulthard, Linda James, Jan Younghusband. Produção: Robin Gutch, Laura Hastings-Smith. Elenco: Michael Fassbender, Brian Milligan, Liam McMahon, Stuart Graham. Estreia: 15/5/08 (Festival de Cannes)

Em 1996, o filme "Mães em luta", de Terry George - corroteirista indicado ao Oscar por "Em nome do pai" - jogou luz sobre um dos momentos de maior tensão da luta entre o Exército Republicano Irlandês (o famigerado IRA) e a Inglaterra de Margaret Tatcher, quando um grupo de prisioneiros políticos, como forma de exigir tratamento diferenciado dos criminosos que dividiam as prisões britânicas, iniciaram uma greve de fome que atravessou meses, dividindo a opinião pública a respeito de um tema sempre candente no país. Um dos personagens do filme, Bobby Sands (interpretado por John Lynch), que foi eleito para o Parlamento quando passava pela greve, tornou-se, mais de uma década depois, o protagonista da intensa e desconfortável estreia do artista plástico Steve McQueen como cineasta. Elogiado e premiado em vários festivais de cinema - inclusive o de Cannes, de onde saiu com o prêmio da mostra Un Certain Regard - McQueen entrou com o pé direito na nova carreira, com "Fome", uma obra desconcertante e inesquecível, injustamente mal-lançada no Brasil.

Homônimo do ator norte-americano astro de filmes como "Bullitt" e "Papillon", McQueen não nega suas origens artísticas em seu primeiro filme: uma obra extremamente visual e minuciosamente realizada com o intuito de falar mais aos olhos do que aos ouvidos, "Fome" é formado por uma série de cenas de grande impacto plástico e emocional, que evitam, no entanto, o sentimentalismo fácil e óbvio - característica que o cineasta enfatizaria ainda mais em seu filme mais famoso, "12 anos de escravidão", premiado com o Oscar em 2014. Com o auxílio da fotografia de Anushia Nieradzik, McQueen cobre de poesia atos de extrema violência, sem deixar que eles sejam destituídos de sua crueza natural. É assim que a câmera registra, sem sublinhar desnecessariamente, o policial que chora escondido enquanto seus colegas espancam os grevistas, o homem responsável pela limpeza dos corredores que faz silenciosamente seu trabalho de limpar a urina dos prisioneiros, as paredes cobertas de fezes das celas sendo lavadas com extrema naturalidade e cenas de tortura fisica que incomodam pelo tom seco e direto impresso pelo cineasta. Até mesmo quando, em seu terço final, dedica-se à via-crucis de Sands (em atuação visceral e impressionante de um então desconhecido Michael Fassbender) o filme mantém o tom quase documental e áspero que lhe distingue da média: tudo em "Fome" é triste, chocante e quase asséptico emocionalmente. E é isso que lhe faz tão especial.


Com um roteiro que também foge do tradicional, "Fome" começa em 1981, mostrando a rotina de um dos policiais que trabalham na prisão de Maze, na Irlanda do Norte: o público acompanha , a princípio sem saber direito de quem se trata, o dia-a-dia de Raymond Lohan (Stuart Graham), responsável pelos violentos interrogatórios a que são submetidos os presos políticos do IRA. Vivendo em constante tensão, com medo de bombas e atentados que podem atingir sua família, Lohan é um homem pouco afeito a contatos sociais, por motivos que ficam claro ao espectador quando se descobre porque os nós de seus dedos estão constantemente feridos e porque ele se recusa a sequer ter relações amistosas com os colegas de trabalho. Em seguida, o foco da ação é transferido para um novo preso, Davey Gillen (Brian Milligan), que imediatamente é considerado como "não-cooperativo" por recusar-se a usar roupas de prisioneiro comum. Jogado nu na mesma cela que Gerry Campbell (Liam McMahon), ele une-se ao novo colega em uma série de protestos contra o regime, que incluem cobrir as paredes de fezes, drenar a urina de sua cela para os corredores e fazer com que suas reivindicações ultrapassem os limites do prédio através de suas visitas.

O terço final da história - depois de um trágico evento envolvendo Lohan e o IRA - é dedicado à Bobby Sands, o líder de uma radical greve de fome que pretende chamar a atenção da mídia e atrair a simpatia da população à causa dos prisioneiros políticos: nem mesmo sua relação próxima e fraternal com o padre Dominic Moran (Liam Cunningham) o afasta de sua firme determinação de morrer por seus princípios, o que acaba levando-o a um colapso físico poucas vezes vista no cinema: mostrando em detalhes a decadência da saúde de Sands - com direito a close-ups de feridas e uma atuação avassaladora de Michael Fassbender - McQueen atinge o coração e o estômago da plateia de forma certeira, borrando sem medo as fronteiras do bom-gosto enquanto mantém o tom artístico de sua obra. É ousada também a longa cena - 17 minutos de duração em um plano-sequência admirável - em que Sands conversa com o padre Dominic, expondo suas crenças e sua disponibilidade de morrer por uma causa: em um único plano calcado unicamente nos diálogos e na atuação dos atores, McQueen apresenta um gritante contraste com o que vinha mostrando até então e substitui a imagem pela palavra. Um toque de genialidade em um filme repleto de momentos devastadores e que merece ser descoberto pelos fãs de obras fortes e contundentes, que fogem do lugar-comum. Uma estreia alvissareira!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

OPERAÇÃO VALKYRIA

OPERAÇÃO VALKYRIA (Valkyrie, 2008, MGM Pictures/United Artists/Bad Hat Harry Productions, 121min) Direção: Bryan Singer. Roteiro: Christopher McQuarrie, Nathan Alexander. Fotografia: Newton Thomas Siegel. Montagem e música: John Ottman. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert, Patrick Lumb/Bernhard Henrich. Produção executiva: Ken Kamins, Chris Lee, John Ottman, Dwight C. Schar, Mark Shapiro, Daniel M. Snyder. Produção: Gilbert Adler, Christopher McQuarrie, Bryan Singer. Elenco: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson, Bill Nighy, Carice Van Houten, Thomas Kretschman, Terence Stamp, Tom Hollander. Estreia: 25/12/08

Bryan Singer começou a carreira chamando a atenção com filmes de suspense sutil e psicológico - "Os suspeitos" (95), que deu o primeiro Oscar à Kevin Spacey, e "O aprendiz" (98), uma adaptação majestosa de um conto de Stephen King, estrelada por Ian McKellen. Depois, fez fortuna com os dois primeiros capítulos de "X-Men", lançados em 2000 e 2003 e que abriram as portas para a febre de adaptações de HQs para o cinema e experimentou o gostinho do fracasso com sua - para muitos - decepcionante visão do Homem de Aço em "Superman, o retorno" (06). Foi para surpresa de muitos, portanto, que seu projeto seguinte tenha sido "Operação Valkyria", um drama de guerra baseado em fatos reais que, ao custo de 75 milhões de dólares e estrelado por Tom Cruise, tornou-se um dos mais bem-sucedidos filmes sobre a II Guerra Mundial de todos os tempos. Mesmo que não tenha feito muito barulho nas bilheterias americanas, a história da mais famosa tentativa alemã de assassinar Hitler rendeu mais de 200 milhões pelo mundo, comprovando o interesse das plateias pelo assunto - e o talento de Singer em transitar confortavelmente pelos mais variados gêneros sem deixar de lado a qualidade de sua obra.

Convencido a embarcar no projeto pelo roteirista Christopher McQuarrie - vencedor do Oscar por "Os suspeitos" e que conheceu a história do Coronel Claus Von Stauffenberg ao visitar um memorial em sua homenagem em Berlim, em 2002 - o jovem cineasta demonstra total domínio das regras do suspense, aplicando-as em um filme de enquadramentos clássicos e narrativa sóbria, que equilibra com inteligência dados históricos com sequências de pura tensão, sem deixar-se cair na tentação de criar uma obra didática ou uma produção superficial. Cercado de uma equipe de confiança - como o diretor de fotografia Newton Thomas Siegel e o editor e compositor John Ottman - Singer consegue a façanha de contar uma história cujo final não é exatamente surpreendente sem nunca perder o interesse da plateia, fisgada por uma trama inacreditável - mas que, por ironia das ironias, aconteceu de verdade. Enfatizando o suspense de cada sequência ao utilizar os princípios básicos do gênero e explorá-los ao máximo, o diretor injeta sangue novo aos filmes de guerra ao substituir a violência explícita pela tensão potencializada de cada close-up no lugar certo ou pela música de Ottman, que comenta a ação sem tornar-se intrusiva e/ou óbvia. Comandando minuciosamente cada cena, ele conduz o espectador a uma viagem das mais interessantes rumo a um dos momentos mais cruciais da história do mundo.


A trama de "Operação Valkyria" se passa em julho de 1944, quando um grupo de soldados alemães, temendo pela sorte do país conforme se aproxima o desfecho da Grande Guerra, decide pôr em prática um audacioso e arriscado plano de eliminar Hitler e assumir o controle de Berlim - e consequentemente de toda a Alemanha. Mesmo sabendo que corre o risco de ser condenado por alta traição (crime punido com a morte), o Coronel Claus Von Stauffenberg (Tom Cruise) assume o papel de líder da conspiração, convencendo outros membros do alto escalão do governo a fazer parte do time de rebeldes e agindo pessoalmente no momento mais importante da ação. Ferido em batalha não muito antes dos acontecimentos, o coronel sabe que seu país está se encaminhando para uma inevitável derrota e, com um elevado senso de patriotismo, deixa em segundo plano até mesmo a família em vias de aumentar. Um personagem heroico e forte, Stauffenberg ressente-se apenas pela representação morna de Tom Cruise, um ator que, promissor nos anos 90, tornou-se um pastiche de si mesmo, incapaz de convencer em papéis que fujam do trivial. Sorte de Cruise é estar cercado de um elenco coadjuvante fabuloso, em que se destacam os sempre eficientes Bill Nighy e Tom Wilkinson, além de Kenneth Branagh e Thomas Kretschmann em papéis infelizmente menores que seu talento.

Visualmente atraente - a reconstituição da Alemanha nazista é um primor, e o figurino de Joanna Johnston é acima de qualquer crítica - "Operação Valkyria" tem muito mais acertos do que erros. Não é um filme perfeito apesar de suas qualidades evidentes nem tampouco risível como faz pensar o (péssimo) trailer, que dá a impressão de ser uma comédia histórica exagerada e fake. É um trabalho de impressionante qualidade técnica que conta uma história de interesse universal, sobre pessoas cuja coragem sobrepujou o medo do pior dos castigos: a morte. É mais um belo filme de Bryan Singer.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

GRAN TORINO

GRAN TORINO (Gran Torino, 2008, Warner Bros, 116min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Nick Schenck, estória de Dave Johansson, Nick Schenck. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Joel Cox, Gary D. Roach. Música: Kyle Eastwood, Michael Stevens. Figurino: Deborah Hopper. Direção de arte/cenários: James J. Murakami/Gary Fettis. Produção executiva: Bruce Berman, Jenette Kahn, Tim Moore, Adam Richman. Produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz. Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch. Estreia: 09/12/08

Quando "Gran Torino" estreou, no final de 2008, muito se comentou com a declaração de Clint Eastwood de que ele seria seu último filme como ator. Aos 78 anos de idade à época do lançamento do filme, o veterano ator/diretor não cumpriu a promessa - estrelou o fraco "Curvas da vida" em 2012 - mas acabou por conquistar a maior bilheteria de sua carreira até então: com quase 150 milhões de dólares em caixa somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), a história de um viúvo ranzinza e preconceituoso que tem sua vida transformada pela amizade com uma comunidade de asiáticos deixou para trás clássicos contemporâneos como "Os imperdoáveis" (92), "As pontes de Madison" (95) e "Menina de ouro" (04). O porquê de tanto sucesso é uma incógnita: com um roteiro que é um amontoado de clichês, uma direção quase preguiçosa e atores coadjuvantes quase constrangedores, "Gran Torino" não faz jus à trajetória do Eastwood cineasta - mas em compensação, mostra com absoluta clareza todas as limitações do Eastwood ator, incapaz de sair de sua zona de conforto como intérprete.

Com a mesma cara de durão de sempre - e que fez sua fama e sua glória - Eastwood vive Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia que extravasa todas as frustrações de sua vida - a perda recente da esposa, a relação fria com os filhos e os traumas do conflito - em forma de preconceito contra sua vizinhança, formada em sua maioria por imigrantes asiáticos cuja cultura ele desconhece e despreza. Como uma espécie de Scrooge (personagem de Charles Dickens conhecido por sua misantropia exarcebada), ele não hesita em comprar briga com todos à sua volta, sempre com o objetivo de proteger sua propriedade e seu objeto de maior valor, um automóvel Gran Torino 1972 que ele preza mais do que a própria família. Agressivo e mau-humorado, Kowalski não respeita nem mesmo o pároco local, o jovem Padre Janovitch (Christopher Carley), que tenta incansavelmente apaziguar sua alma. Seu preconceito finalmente encontra amparo quando ele surpreende o adolescente Thao (Bee Vang) tentando roubar seu bem mais valioso por pressão da gangue liderada por seu primo. Disposto a consertar o caráter do jovem, Kowalski acaba sendo obrigado a conviver com a família dele e descobre dentro de si um calor humano há muito esquecido.


Conhecido pela rapidez e economia com que trabalha, Eastwood não fez diferente em "Gran Torino", filmado em apenas 33 dias com um orçamento de pouco mais de 30 milhões de dólares. O problema é que, ao contrário dos demais filmes de seu currículo, dessa vez essa pressa fica evidente em cada cena. Não há, em "Gran Torino", a sofisticação visual de "Bird" (88) ou a profundidade dramática de "Sobre meninos e lobos" (03). As soluções do roteiro são banais e previsíveis, os enquadramentos são monótonos e os personagens tem a profundidade de um pires, além do pecado mortal de não despertarem nada mais do que apatia em relação à plateia. O protagonista, por exemplo, não é um adorável ranzinza em busca de redenção, e sim um homem antipático e desagradável, inapto em captar a simpatia do público, e o introvertido Thao tampouco consegue tal proeza, graças à atuação pífia do novato Bee Vang, digno do mais terrível dos filmes B. Tais pecados - a escolha de um personagem principal repulsivo e chato e a escalação de um jovem ator medíocre para um papel crucial - são decisivos para transformar uma sessão de "Gran Torino" em uma tortura (a não ser que se seja fã incondicional do diretor, que, apesar de alguns tropeços constrangedores, mantém uma média bastante decente de qualidade em sua filmografia).

Os fãs mais radicais de Eastwood provavelmente não darão importância aos erros de "Gran Torino", relevando-os em nome de sua carreira e do fato de manter uma invejável constância na trajetória como cineasta e ator. Mas é preciso reconhecer que nas mãos de alguém menos consagrado as reações certamente seriam menos entusiasmadas. Um festival de clichês sonolento e previsível, é um passo em falso no caminho de Eastwood, ainda que não tenha sido reconhecido como tal.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

FROST/NIXON

FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem

Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).

Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.


Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.

"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.

terça-feira, 14 de julho de 2015

O LUTADOR

O LUTADOR (The wrestler, 2008, Wild Bunch/Protozoa Pictures, 109min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Amy Westcostt. Direção de arte/cenários: Tim Grimes/Theo Sena. Produção executiva: Vincent Maraval, Agnès Mentre, Jennifer Roth. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin. Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis. Estreia: 05/9/08 (Festival de Veneza)

2 indicacões ao Oscar: Ator (Mickey Rourke), Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Drama (Mickey Rourke), Canção ("The wrestler") 

Poucos atores tiveram seu auge e decadência tão nitidamente marcados diante do público quanto Mickey Rourke. O símbolo sexual que mexeu com a cabeça e a libido das mulheres em "9 1/2 semanas de amor" e o ator intenso e talentoso que entusiasmou a crítica no barra-pesada "Coração satânico" - ambos de 1986 - parecia ter um futuro brilhante pela frente, até que escolhas equivocadas na carreira, uma vida pessoal atribulada (com escândalos frequentes a respeito de violência doméstica) e uma surpreendente tentativa de tornar-se boxeador enterrou sua credibilidade e tornou seu rosto - que tanto havia encantado as plateias - uma triste constatação dos males provocados pelos excessos. Quando tudo aparentava estar perdido, porém, Rourke pegou o mundo de surpresa: primeiro ressurgiu em "Sin City, a cidade do pecado" na pele do anti-heroi Marv, um dos maiores destaques do filme de Robert Rodriguez. E três anos depois, ressurgido das cinzas, saiu louvado do Festival de Veneza por seu trabalho em "O lutador", de Darren Aronofsky, que foi eleito o melhor filme - só não carregou a estatueta de melhor ator porque as regras do festival impediam que a mesma obra fosse homenageada em ambas as categorias. Em um papel que caiu como uma luva para seu momento, Rourke calou a boca daqueles que consideravam sua carreira encerrada e ainda, de quebra, ganhou o Golden Globe e foi indicado ao Oscar - que perdeu para Sean Penn, outro rebelde domado. Uma volta por cima como Hollywood adora - mas que infelizmente não teve continuidade graças ao comportamento errático do próprio ator.

Esse comportamento irresponsável de Rourke, aliás, quase lhe custou a chance de retornar às boas graças da crítica e do público: mesmo sabendo que o papel principal havia sido escrito com o ator em mente, o estúdio produtor não tinha a menor intenção de tê-lo no elenco, a ponto de Nicolas Cage ter começado a fazer pesquisas para estrelar o filme e Aronofsky ter considerado Sylvester Stallone como astro. A sorte parecia estar do lado de Rourke, no entanto: Cage desistiu do projeto por achar que não teria tempo suficiente para preparar-se, e o diretor chegou à conclusão de que a escalação de Stallone faria o filme ficar perigosamente semelhante à "Rocky Balboa" (06) - com quem divide o tom elegíaco e a trama familiar. Quando teve a chance de contar com Rourke, no entanto, o cineasta se surpreendeu com uma recusa - o ator não gostou do roteiro e nem era especialmente simpático às lutas livres profissionais. Insistente, Aronofsky alterou boa parte dos diálogos... e finalmente "O lutador" tinha seu protagonista. Exímio diretor de atores - foi ele quem levou Ellen Burstyn e Natalie Portman ao páreo do Oscar por "Réquiem para um sonho" e "Cisne negro", respectivamente - Aronofsky arrancou de Rourke uma atuação visceral, sensível e forte, capaz de, ao mesmo tempo, chocar e emocionar como nunca antes em sua carreira.


As semelhanças entre personagem e intérprete são perceptíveis já na trama central: Rourke vive Robin Ramzinski, um ídolo das lutas-livres profissionais nos anos 80 que, na meia-idade, sobrevive às custas de um remoto passado de glórias, participando de feiras para poucos fãs e lutas comemorativas das quais participa apenas como convidado de honra - mas que não lhe pagam bem o bastante para que ele não precise complementar o orçamento trabalhando como balconista de um supermercado. Um fracassado em todas as frentes, ele costuma afogar as mágoas no bar de strip-tease onde trabalha a mãe solteira Cassidy (Marisa Tomei, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), por quem sente-se atraído romanticamente e a quem tenta desajeitadamente conquistar. É ela quem irá encorajá-lo a consertar outra parte deficiente de sua vida: a filha Stephanie (Evan Rachel Wood), com quem mantém uma relação de fria distância e com quem irá buscar uma aproximação, principalmente depois de um enfarte que pode encerrar sua carreira e sua vida.

Sem medo de retratar o ambiente totalmente desprovido de glamour dos bastidores da luta-livre - e de mostrá-lo de forma dolorosamente realista, sem filtros e meias-verdades - Darren Aronofsky desconstroi todo o romantismo dos filmes do gênero, em cenas cruas e regadas a uma melancolia típica de personagens perdedores e desiludidos. Embalados por uma inspirada trilha sonora - Axl Rose cedeu os direitos de sua "Sweet child o'mine" para o filme por ter gostado do roteiro e Bruce Sprinsgteen compôs a bela canção-título vencedora do Golden Globe e injustamente esquecida pelo Oscar - os lutadores que gravitam ao redor do protagonista são tão desajustados quanto ele, homens que ganham a vida através de uma violência de mentira e são incapazes de romper com um universo opressivo e rarefeito. Esse tom de pessimismo, equilibrado com sensibilidade e as atuações acima da média fazem de "O lutador" um dos dramas mais intensos de sua época, com ou sem Oscar no currículo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

QUEBRANDO A BANCA

QUEBRANDO A BANCA (21, 2008, Columbia Pictures/Relativity Media, 123min) Direção: Robert Luketic. Roteiro: Peter Steinfeld, Allan Loeb, livro "Bringing down the house: the inside story of six M.I.T. students who took Vegas for millions", de Ben Mezrich. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Elliot Graham. Música: David Sardy. Figurino: Luca Mosca. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Tracey A. Doyle. Produção executiva: William S. Beasley, Ryan Kavanaugh, Brett Ratner. Produção: Dana Brunetti, Michael De Luca, Kevin Spacey. Elenco: Jim Sturgess, Kevin Spacey, Laurence Fishburne, Kate Bosworth, Aaron Yoo, Liza Lapira, Jacob Pitts, Josh Gad. Estreia: 07/3/08

O mundo do cinema não vive sem uma polêmica, especialmente quando um filme se propõe a retratar uma história baseada em fatos reais: não há obra que consiga escapar incólume aos puristas, que fazem questão de encontrar sempre algum motivo para questionar as escolhas dos produtores e dos diretores. Em alguns casos a gritaria é compreensível - escalar uma atriz chinesa para protagonizar "Memórias de uma gueixa", uma história passada no Japão, por exemplo, foi uma prova inconteste da miopia generalizada sofrida pela indústria de Hollywood, que não deve enxergar diferença entre os países asiáticos quando se trata de seus astros. Essa mesma dificuldade americana em perceber as diferenças culturais alheias acabou por tornar-se alvo de críticas ferozes quando aconteceu a estreia de "Quebrando a banca", baseado em um livro do mesmo Ben Mezrich que veria seu "Bilionários por acaso" - a história do Facebook - ser adaptado por David Fincher no elogiado "A rede social", de 2010: ao transformar os protagonistas (asiáticos) da história verdadeira de um grupo de estudantes, gênios da Matemática que fizeram fortuna nos cassinos de Las Vegas entre 1979 e 1994 em caucasianos (apenas dois sobreviveram com sua origem intocada), o filme de Robert Luketic foi violentamente atacado e criticado pelas mudanças. No fim das contas, porém, a gritaria apenas ajudou na bilheteria: com mais de 80 milhões arrecadados somente nos EUA, "Quebrando a banca" nem se incomodou com o celeuma. Nem deveria.

Mesmo baseado em uma história verídica, o roteiro do filme de Luketic - que assinou também o sucesso "Legalmente loira", que deu o empurrão definitivo na carreira de Reese Witherspoon - toma inúmeras liberdades com o material original, alterando não apenas a origem dos protagonistas mas também o período de tempo em que se passa a história (quinze anos se transformaram em cerca de apenas um) e o número de estudantes que fizeram parte do esquema milionário (cerca de 80 jovens foram substituídos por cinco, uma quantidade bem mais administrável dentro de um roteiro). Licenças poéticas absolutamente compreensíveis e que não atrapalham em nada o  verdadeiro objetivo do filme: entreter a plateia com uma trama que, apesar de ter a Matemática como pano de fundo, jamais se torna hermética ou condescendente. Dirigido com leveza e editado com agilidade e inteligência, "Quebrando a banca" é diversão garantida, amparada por mais uma bela atuação de Kevin Spacey - também creditado como produtor - e pelo talento juvenil de Jim Sturgess, recém-saído do elogiado musical "Across the universe", uma história de amor embalada pelas canções dos Beatles.

Sturgess - inglês, mas falando com impecável sotaque americano - é o protagonista da trama, Ben Campbell, um inteligentíssimo estudante que batalha para juntar o dinheiro necessário para cursar a faculdade de Medicina de Harvard. De origem simples, ele vê a chance de sua vida quando é procurado pelo professor Micky Rosa (Kevin Spacey) com uma proposta irrecusável: fazer parte de um esquema para ganhar milhares de dólares nos cassinos de Las Vegas, junto com um grupo seleto de alunos tão brilhantes quanto ele. A princípio ferido em sua ética, Ben acaba aceitando o convite quando percebe que não há trapaça ou nada ilegal no plano de Rosa, que se utiliza de matemática pura e simples para contar as cartas do blackjack e, assim, quebrar as bancas dos cassinos. Ao lado de Choi (Aaron Yoo), Kianna (Liza Lapira), Fisher (Jacob Pitts) e da bela Jill (Kate Bosworth) - por quem sente uma atração nada discreta - Ben descobre um novo mundo, repleto de luxo, diversão e muito dinheiro. Logo seu plano de abandonar o grupo ao atingir o montante necessário para pagar sua faculdade é alterado - mas o rompimento com Rosa e a perseguição de Cole Williams (Laurence Fishburne), chefe de segurança de um dos cassinos, mudam radicalmente sua trajetória.


Mesmo que por vezes caia no clichê - Ben acaba descobrindo uma valiosa lição de moral no final do filme, quando percebe que afastou-se dos melhores amigos e de sua ética - o roteiro de "Quebrando a banca" tem o mérito de não tentar inventar a roda: é simples e direto, jamais perdendo de vista a razão principal de sua existência: a diversão do público. Mesmo que as técnicas empregadas pelo grupo para contar as cartas não seja exatamente fácil para a maior parte da audiência, elas servem apenas como instrumento para a narrativa - ágil, moderna, fluída - e a forma com que os personagens criam um código próprio para utilizá-las sublinha o tom de entretenimento do filme, que se equilibra entre a leveza de uma aventura juvenil e o peso de um drama de suspense que surge sempre que Laurence Fishburne entra em cena com seu personagem. A matiz sombria da segunda metade do filme, ao contrário do que poderia acontecer, não prejudica sua identidade, lhe proporcionando uma camada a mais que apenas sublinha o talento de seus atores centrais, que tiram de letra os desafios que tal mudança de enfoque lhes oferece.

Se Kevin Spacey não precisa provar nada a ninguém há um bom tempo - não é todo mundo que tem no currículo dois Oscar e ao menos dois personagens antológicos do cinema moderno, como o John Doe, de "Seven, os sete crimes capitais" e o Verbal Kint, de "Os suspeitos" - Jim Sturgess sai-se bastante bem como Ben Campbell, um rapaz dividido entre a moral familiar e os prazeres do dinheiro fácil. Mostrando mais nuances do que em seu trabalho em "Across the universe", o jovem ator consegue a façanha de não ser ofuscado por Spacey e ainda conquista a simpatia da plateia ao evitar tanto o coitadismo exagerado quanto a arrogância exarcebada. Com seu trabalho exemplar, ele consegue até mesmo disfarçar a apatia de Kate Bosworth - que também desfilou sua falta de carisma no papel de Lois Lane no fracassado "Superman, o retorno", onde Spacey viveu Lex Luthor. No papel crucial do interesse romântico do protagonista, Bosworth não ultrapassa as limitações de sua personagem - uma prova viva dos limites de seu talento.

Divertido, inteligente e simpático, "Quebrando a banca" é um entretenimento dos bons. Vale uma espiada sem compromisso.

domingo, 12 de julho de 2015

PONTO DE VISTA

PONTO DE VISTA (Vantage point, 2008, Columbia Pictures/Relativity Media, 90min) Direção: Pete Travis. Roteiro: Barry L. Levy. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Stuart Baird. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Luca Mosca. Direção de art/cenários: Brigitte Broch/Denise Camargo. Produção executiva: Callum Greene, Tania Landau. Produção: Neal H. Moritz. Elenco: William Hurt, Sigourney Weaver, Forest Whitaker, Dennis Quaid, Matthew Fox, Eduardo Noriega, Bruce McGill, Édgar Ramírez, Said Taghamoui, Zoe Saldana, James Les Gros. Estreia: 13/02/08 (Salamanca)

O presidente dos Estados Unidos está na cidade de Salamanca, na Espanha, para fazer parte de uma conferência que irá ditar novos rumos internacionais para o combate ao terrorismo. Transmitido via satélite para o mundo todo, seu discurso na praça central da cidade acaba por transformar-se em uma inesperada tragédia quando ele é atingido por um tiro, apesar dos esforços de sua equipe de segurança, que irá contar então com as imagens amadoras capturadas por um turista americano, que podem esclarecer uma conspiração envolvendo gente do próprio governo americano. A trama de "Ponto de vista" pode não ser das mais criativas, especialmente depois do 11/9, que recolocou o terrorismo como tema favorito de nove entre dez filmes de ação de Hollywood. O que diferencia o filme de Pete Travis em relação a vários outros da mesma temática é a engenhosidade de sua narrativa: ainda que em alguns momentos soe cansativa e/ou exagerada, é ela que mantém aceso o interesse da plateia até o final, com uma série de reviravoltas que, a despeito de sua inverossimilhança, entretém com bastante dignidade - especialmente com a ajuda de um elenco que conta com nomes de prestígio, como William Hurt, Sigourney Weaver e Forest Whitaker.

Como o próprio título sugere, a trama de "Ponto de vista" é contada sob diferentes ângulos, com informações complementares sendo acrescentadas a cada rodada, como peças de um quebra-cabeças que, aos poucos, vai sendo montado diante do espectador, que muda sua percepção a respeito da história quando as reais motivações de seus personagens se revelam e alteram (ou não) o desenrolar da história. Seguindo a tradição de clássicos como "Z", de Costa-Gavras e de tramas políticas como "JFK", de Oliver Stone - mas logicamente sem a mesma ambição e sem o mesmo resultado perturbador e fascinante - o filme de Travis vai e volta no tempo, sempre recomeçando sua narrativa poucos minutos antes do atentado ao presidente e terminando em um ponto que pode dar respostas às questões levantadas pelo roteiro no momento da tragédia. Somando-se a isso alguns dramas pessoais - traumas profissionais, chantagem e até uma improvável história de amor que pode ou não ser sincera - a atmosfera está criada e o cineasta aproveita o roteiro de Barry L. Levy para explorar todas as possibilidades de suspense. Uma pena, porém, que em seu terço final, ele sucumba à tentação de deixar de lado o tom de urgência de seu começo e assuma sua vocação para o filme de ação descerebrado: quando a intriga dá espaço para perseguições e tiroteios - mesmo que bem realizados - é impossível segurar a frustração.


Se existe um protagonista em "Ponto de vista" ele é Thomas Barnes (Dennis Quaid), segurança do presidente norte-americano (William Hurt) que volta a seu antigo cargo depois de um tempo afastado por ter sido ferido em ação. Seu retorno é visto com insegurança pela maior parte dos colegas, inclusive seu parceiro mais próximo, Kent Taylor (Matthew Fox, no auge do sucesso da série "Lost") - nem mesmo a produtora de telejornal Rex Brooks (Sigourney Weaver) está confiante em sua recuperação total, o que acaba se mostrando um tanto acertado quando o presidente é alvejado em pleno discurso.  Enquanto ele é socorrido - e mesmo assim corre risco de tornar-se vítima de terroristas infiltrados na equipe de socorro - Barnes e Taylor partem em busca de alguma pista a respeito do atirador e dos mentores do atentado, contando com a ajuda do americano Howard Lewis (Forest Whitaker) - que filmou tudo - e do misterioso Enrique (Eduardo Noriega), que alega ser da polícia espanhola mas tem uma relação mal-explicada com a responsável pelo segundo atentado do dia: uma explosão na praça de Salamanca.

Mesmo que explore mal a presença sempre forte de Sigourney Weaver e apresente algumas resoluções simplistas para algumas das questões levantadas em seu começo, "Ponto de vista" é um entretenimento acima da média. Sua edição ágil e inteligente disfarça com competência as falhas de um roteiro bastante superficial no desenho dos personagens e em suas motivações um tanto clichê, assim como impede que o público descubra com antecedência as reviravoltas da história - ainda que, depois de reveladas em sua totalidade, elas não sejam assim tão surpreendentes. No cômputo geral, é um filme que cumpre o que promete e, maior de suas qualidades, se leva a sério e não resvala na autoparódia que é a sentença de morte de grande parte de seus congêneres

sábado, 11 de julho de 2015

O VISITANTE

O VISITANTE (The visitor, 2007, Groundswell Productions/Next Wednesday Productions, 104min) Direção e roteiro: Tom McCarthy. Fotografia: Oliver Bokelberg. Montagem: Tom McArdle. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: John Paino/Kim L. Chapman. Produção executiva: Omar Amanat, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Michael London, Mary Jane Skalski, John Woldenberg. Estreia: 07/09/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Jenkins)

De vez em quando a Academia de Hollywood faz um favor aos fãs de cinema, ao destacar, em meio a produções milionárias que parecem sufocar toda e qualquer produção menos ambiciosa, filmes que, não fosse seu aval, passariam despercebidos e acabariam melancolicamente relegados a exibições em canais por assinatura ou restritas salas alternativas. Um dos melhores e mais simpáticos filmes a merecer tal distinção foi "O visitante", um encantador drama de personagens que arrebatou a indicação ao Oscar de melhor ator (Richard Jenkins, premiado no Festival de Moscou e pelo National Board of Review por seu desempenho). Tendo estreado no Festival de Toronto de 2007, o filme só chegou comercialmente aos cinemas em maio do ano seguinte, o que lhe empurrou para disputar a estatueta dourada no ano em que os muito mais ambiciosos "O curioso caso de Benjamin Button" e "Quem quer ser um milionário?" eclipsaram todos os demais candidatos - com a possível exceção de "Milk, a voz da igualdade" e "Batman, o cavaleiro das trevas".  Discreto, simples e baseado em emoções sutis, o filme do também ator Tom McCarthy é daqueles feitos para aquecer o coração sem apelar para exageros sentimentais.

Jenkins - um ator sensacional mas eternamente relegado a papéis coadjuvantes - está em seus melhores dias na pele de Walter Vale, um professor universitário aborrecido com a vida solitária e sem emoções que vive desde a morte da esposa. Suas tentativas de aprender piano - instrumento que ela tocava - são infrutíferas e sua carreira chegou a um ponto em que não há mais desafios ou alegrias. Quando ele sai de Connecticut para participar de uma conferência em Nova York, porém, sua vida se transforma radicalmente: em seu apartamento, ele encontra um casal de imigrantes ilegais, o sírio Tarek (Haaz Sleiman) e a senegalesa Zainab (Danai Gurira), que foram enganados na hora de assinar o contrato de locação. Para não deixá-los na rua e à mercê das autoridades, Vale acaba por permitir que eles fiquem com ele em sua casa. Aos poucos eles vão trocando experiências e o sisudo professor volta a sentir-se com um sentido na vida - principalmente quando Tarek é preso injustamente e, ameaçado de deportação, une, sem querer, seu novo amigo e sua mãe, Mouna (Hiam Abbass).



Construindo sua narrativa de forma delicada e suave, McCarthy - cujo filme anterior, "O agente da estação", foi muito elogiado em festivais de cinema internacionais - cativa a plateia aos poucos, desenhando com cuidado a mudança de personalidade de seu protagonista, que se transforma de um homem arredio e tenso em uma pessoa solidária e leve sem aquela pressa comum a produções menos afeitas a sutilezas. O expressivo Jenkins - cujo papel de maior destaque até então havia sido o do patriarca morto da elogiada série "A sete palmos" - empresta a Walter Vale uma elegância fria que, conforme a trama se desenvolve, vai se transmutando em uma generosidade inesperada e fraternal, fortalecida pelo amor à música - é aprendendo a tocar o instrumento que Tarek usa em suas apresentações em bares da cidade que Vale começa sua redenção e seu autodescobrimento, que culminam em uma surpreendente paixão por Mouna, um amor impossível e destinado ao rol das experiências inesquecíveis na vida de ambos.

Com uma interpretação silenciosa e minimalista, Richard Jenkins é o corpo e a alma de "O visitante", mas deve boa parte do sucesso de seu trabalho ao diretor e roteirista Tom McCarthy, que evita o piegas mesmo quando tudo se encaminha para tal. Em alguns momentos o roteiro chega perto do sentimentalismo, mas McCarthy é hábil o suficiente para fugir do banal, preferindo, ao invés disso, dirigir sua atenção para os detalhes de sua história - um par de óculos novo que deixa explícito um inesperado carinho, por exemplo - e para o desenvolvimento de seus personagens. Também é mérito dele a escalação certeira do elenco: além de Jenkins, se destacam também o ótimo Haaz Sleinman e a carismática Hiam Abbass, perfeitamente apropriados aos papéis de pessoas devastadas pelo destino e ainda assim dispostas a lutar pela felicidade. Com eles em cena é fácil compreender os motivos que fazem com que Vale reencontre sua alma - e é difícil não se deixar conquistar pela delicadeza como tudo é narrado. "O visitante" é um filme mágico e arrebatador, feito para quem acredita em nobres sentimentos e no poder da amizade e do amor.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

VIOLÊNCIA GRATUITA

VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny games, 2007, Warner Independent Pictures, 111min) Direção e roteiro: Michael Haneke. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Monika Willi. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Rebecca Meis DeMarco. Produção executiva: Philippe Aigle, Carole Siller. Produção: Christian Baute, Chris Coen, Hamish McAlpine, Hengameh Panahi, Andro Steinborn. Elenco: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbett, Devon Gearhart. Estreia: 20/10/07 (London Film Festival)

Em 1997, o cineasta austríaco Michael Haneke chocou o público ao narrar, em detalhes quase mórbidos, o ataque sem sentido e frio de uma dupla de adolescentes a uma família em sua casa no lago. Elogiado pelos quatro cantos do mundo, o filme acabou por chamar a atenção dos estúdios de Hollywood e, como é comum nesses casos, fez a transição para o cinema comercial norte-americano. Porém, um pequeno detalhe nas negociações fez toda a diferença no resultado final: Haneke manteve-se no comando do filme e, assim como Gus Van Sant fez com "Psicose", de Hitchcock, reconstruiu sua obra quadro a quadro, em uma literal refilmagem. No entanto, se Van Sant deu com os burros n'água com um filme sofrível, Haneke mostrou-se mais feliz em sua missão: a versão ianque de "Violência gratuita" consegue manter o tom de constante tensão do original, ao diferenciá-los basicamente pelo idioma.

A trama começa ensolarada e bucólica, com a chegada de uma família à sua casa de verão, onde pretendem passar as próximas semanas. Estáveis e felizes, George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e seu filho pequeno (Devon Gearhart) mal conseguem se instalar em sua confortável casa de dois andares e repleta de conforto quando recebem a visita de dois jovens que se apresentam como amigos de seus vizinhos. Polidos e em tom suave, Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbett) chegam à propriedade para pedir alguns ovos emprestados, mas não demora para demonstrarem suas reais intenções: manter a família de refém, torturando-a aos poucos até exterminá-la por completo - não sem antes experimentar uma série aparentemente interminável de jogos de nervos enfatizado pela enorme distância que os separa dos demais moradores da região, únicas pessoas que poderiam interromper a tragédia anunciada.


Sem dar sossego ao público nem aos personagens, Haneke constroi um suspense psicológico aterrador, capaz de aterrorizar ao mais indiferente espectador justamente por não apelar para monstros ou assassinos mascarados como vilões. Ao eleger como ameaça dois jovens bem-apessoados, educados e aparentemente de boa instrução, o cineasta parece gritar que a civilização está a um passo da barbárie e que nem mesmo o sacrossanto recesso do lar é um lugar a salvo da delinquência juvenil - e que ela não está necessariamente ligada a diferenças sociais ou motivos menos banais do que um distorcido conceito de "diversão". Aliás, ao fazer do espectador voyeur do sofrimento alheio, ele também critica, de certa forma, a crescente onda de espetacularização da violência, que tornou-se ainda mais severa e brutal com a virada do século e a popularização da Internet e seus vídeos de gosto duvidoso. Para sublinhar essa sua teoria, ele não hesita em intercalar à seriedade do roteiro alguns momentos em que os psicóticos conversam com a câmera (ou seja, com os espectadores) e, em uma cena antológica, faz com que um deles utilize o controle remoto para reverter uma situação negativa - um rewind macabro e, ironicamente, bem-humorado.

Com a ingrata missão de substituir os atores do filme original, o elenco escalado por Haneke para sua refilmagem consegue manter o mesmo grau de consistência da versão austríaca, especialmente Naomi Watts e Tim Roth, que transmitem todo o desespero da situação de seus personagens com a competência de quem já tem indicações ao Oscar no currículo. Michael Pitt e Brady Corbett, por sua vez, não fazem feio, explorando o visual imaculado de seus personagens - roupas brancas e luvas - para oferecer ao público uma sensação de claustrofobia e angústia crescentes. É especialmente brilhante também o fato de Haneke manter fora das câmeras as cenas de maior violência física - um assassinato só é percebido pelo barulho distante que se ouve quando um dos criminosos está na cozinha fazendo um lanche e pelo sangue no aparelho de televisão - e, com isso, obrigar a plateia a completar as informações com sua própria imaginação (que, todos sabem, é sempre muito mais chocante do que a realidade).

Uma refilmagem não apenas decente, mas do mesmo nível do original, "Violência gratuita" é um dos filmes de suspense mais inteligentes, aterradores e originais de seu tempo. Uma pequena obra-prima que já dava mostras do quão longe Michael Haneke conseguiria chegar poucos anos depois. Imperdível!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

SWEENEY TODD, O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET

SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: the demon barber of Flet Street, 2007, Warner Bros/DreamWorks SKG, 116min) Direção: Tim Burton. Roteiro: John Logan, musical de Hugh Wheeler, adaptação musical de Christopher Bond. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Chris Lebenzon. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Patrick McCormick. Produção: John Logan, Laurie MacDonald, Walter Parkes, Richard D. Zanuck. Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen. Estreia: 03/12/07

3 indicações ao Oscar: Ator (Johnny Depp), Figurino, Direção de Arte & Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Ator Comédia/Musical (Johnny Depp) 

Depois que "Moulin Rouge, o amor em vermelho" recolocou os filmes musicais em alta no mercado hollywoodiano - e "Chicago" abocanhou seis cobiçadas estatuetas da Academia, incluindo melhor filme - o gênero voltou a frequentar as telas de cinema com assiduidade, para alegria dos fãs e desgosto dos detratores. Logicamente, a Broadway tornou-se a fonte mais rica de inspiração para os estúdios, que não viam como uma produção bem-sucedida nos palcos não poderia repetir o êxito nas telas - e nem o fracasso de crítica do pretensamente infalível "O fantasma da ópera" (que Joel Schumacher transformou em uma tortura musical em 2004 a despeito das belas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber) alterou essa percepção. Não foi surpresa de ninguém, no entanto, quando a Warner e a Dream Works se uniram para lançar "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet", adaptação da peça de Hugh Wheeler e Stephen Sondheim que desde 1979 levava multidões aos teatros. Cobiçado pelos estúdios desde sua estreia, o musical quase chegou às telas por diversas vezes, e a lista de atores que quase interpretaram o papel-título incluía nomes tão diversos quanto William Hurt, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert Redford, Warren Beatty, Al Pacino, Jack Nicholson, Robert DeNiro, Steve Martin e até Gene Hackman. Quando finalmente o projeto recebeu o sinal verde do próprio Sondheim, o cineasta Sam Mendes pulou para a cadeira de diretor, com Russell Crowe no papel central. Felizmente, as coisas deram mais uma vez para trás (felizmente não por causa de Mendes, um grande diretor, mas por causa de Crowe, cujos dotes vocais mostrados posteriormente em "Os miseráveis" não deixam dúvidas de que sua escolha teria sido a sentença de morte para o filme).

Sem Mendes e Crowe na liderança da produção, chegou a vez daquele que provavelmente era o nome certo para comandar o barco: Tim Burton, com sua visão criativa e seu reconhecido gosto pelo bizarro e pelo lado sombrio da humanidade, agarrou com unhas e dentes a chance de realizar seu primeiro musical e, com ele, como era esperado, entraram em cena Johnny Depp (parceiro artístico em cinco outros projetos anteriores) e Helena Bonham Carter (sua esposa e, conforme descoberto em meio às filmagens, grávida de seu segundo filho). Mas, comprovando que suas escolhas não tinham nada a ver com nepotismo (mesmo porque o papel de Carter era disputado por gente como Kate Winslet, Nicole Kidman, Annette Bening e Toni Collette), Burton buscou a aprovação de Sondheim em pessoa antes mesmo de rodar a primeira cena. O resultado final chegou ao público no final de 2007 e toda e qualquer dúvida a respeito das opções de Burton dissiparam-se imediatamente. Mesmo que não tenha se tornado um sucesso arrasador de bilheteria, "Sweeney Todd" encantou a crítica e deu a Depp sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator em cinco anos - além de ter conquistado o Golden Globe de melhor comédia/musical do ano. E, mesmo aqueles que não tem muito entusiasmo por musicais tem de reconhecer que, a despeito das características inerentes ao gênero, há muito mais a apreciar do que reclamar no filme de Burton.


Aqueles que se chateiam com a cantoria interminável dos filmes musicais - e "Sweeney Todd" é daqueles praticamente todo narrado através de canções - podem deliciar-se com a fotografia irrepreensível de Dariusz Wolski, que capta o tom soturno de uma Londres pouco afável e bastante sufocante (e, por contraste, ilumina com cores brilhantes o período áureo do protagonista e os sonhos dourados de sua parceira de negócios/crimes). Podem ficar encantados com a reconstituição de época impecável de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo - colaboradores frequentes de Scorsese e que ganharam o Oscar por seu trabalho. Podem surpreender-se com o tom de violência explícita das imagens imaginadas pelo cineasta, que fez questão de manter o sangue aos borbotões propostos na história como forma de enfatizar a catarse emocional que cada morte tem para seu personagem-título. E podem, principalmente, reconhecer o excelente trabalho dramático de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, provavelmente em algumas de suas melhores interpretações: Depp deixa de lado sua tendência a suavizar o personagem com tiques cômicos e sai-se muito bem cantando, e Carter consegue demonstrar toda a gama de emoções de sua personagem com uma sutileza raras vezes vista em sua carreira. Não bastasse tudo isso, o final trágico e inesperado fecha com inteligência uma trama sangrenta e sufocante que destoa dos normalmente sadios e alegres ambientes do gênero.

Baseado em uma lenda inglesa e na peça teatral de Christopher Bond - de onde saíram os detalhes sobre a origem do personagem - o musical de Wheeler e Sondheim conta a história de Benjamin Barker (Depp), um jovem barbeiro londrino que, por armações do invejoso Juiz Turpin (Alan Rickman), se vê condenado a quinze anos de prisão na Austrália, longe da esposa e da filha recém-nascida. Quando retorna à sua cidade natal, emocionalmente abalado e repleto de ódio, ele descobre que sua amada mulher, depois de ter sido violentada pelo juiz, tomou veneno e teve sua filha arrancada de seu convívio. Com o objetivo de vingar-se de Turpin, Barker assume o nome de Sweeney Todd, torna-se o mais conhecido barbeiro da cidade e, com o conluio de sua senhoria, Sra. Lovett (Bonham Carter), passa a matar seus clientes para transformá-los em matéria-prima para as tortas servidas por ela em seu restaurante. Enquanto isso, sua filha, Johanna (Jayne Weisener) faz de tudo para fugir das garras de seu "tutor", especialmente quando se apaixona pelo jovem marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower).

Visualmente deslumbrante e tratado com a seriedade apropriada, "Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet" é um musical sério, intenso e realizado com uma perfeição técnica admirável. Pode não agradar a todos por causa do gênero, mas merece ser aplaudido por suas inúmeras qualidades, que o elevam a grande cinema.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

SANGUE NEGRO

SANGUE NEGRO (There will be blood, 2007, Paramount Vintage/Miramax, 158min) Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson, romance "Oil", de Sinclair Lewis. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Scott Rudin, Eric Schlosser, David Williams. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciarán Hinds, Dillon Freasier. Estreia: 27/9/07

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Thomas Anderson), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day-Lewis), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Daniel Day-Lewis) 

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais despretensiosos. Desde que seu segundo longa-metragem, "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997, chegou às telas - o primeiro, "Jogada de risco", é um cult pouco conhecido pelo grande público - seu estilo sofisticado de contar histórias aparentemente simples tornou-se xodó da crítica e passou a desconcertar a plateia, confundida com tramas tão díspares quanto "Magnólia" e "Embriagado de amor", que tinham em comum, em uma primeira análise, apenas sua localização geográfica (a Califórnia) e o cuidado extremo com a direção de atores - vale lembrar que Tom Cruise concorreu ao Oscar pelo primeiro e até Adam Sandler convenceu como protagonista dramático no segundo. Porém, nem mesmo o mais ardoroso fã de Anderson e seu estilo próprio de cinema poderia imaginar o que ele faria em seu quinto filme: pela primeira vez trabalhando com material alheio (o roteiro é baseado no romance "Oil", de Sinclair Lewis), o cineasta fez de "Sangue negro" um dos filmes fundamentais de sua época, um minucioso trabalho de direção, interpretação e técnica capaz de encantar a qualquer espectador disposto a se deixar levar pela magia da sétima arte em seu conceito mais puro. Amparado por uma devastadora atuação de Daniel Day-Lewis - que levou o segundo e merecido Oscar da carreira por seu desempenho - "Sangue negro" é uma obra-prima que, além de todas as suas qualidades, nada corajosamente contra a corrente do cinema comercial inócuo e derivativo feito em Hollywood.

Sem fazer concessões ao mainstream, Paul Thomas Anderson já começa sua lista de ousadias ao eleger como protagonista de seu filme um personagem frio, ambicioso e totalmente desprovido de qualquer traço que possa despertar a simpatia da audiência: Daniel Plainview é francamente desagradável, um misantropo ganancioso capaz dos atos mais desprezíveis para atingir seu objetivo de acumular mais e mais poços de petróleo nos primeiros anos do século XX. Cego de ambição, ele não hesita nem mesmo em adotar o filho bebê de um funcionário morto em trabalho como forma de comover as famílias de quem pretende adquirir terras e prometer dinheiro para a construção do templo da Igreja da Terceira Revelação, comandada pelo jovem e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano) - que acabará se tornando seu maior rival e a única pessoa com coragem suficiente para desafiá-lo através dos anos, em uma batalha muitas vezes violenta onde eles medirão forças junto à comunidade.


Uma crítica feroz ao capitalismo e à Igreja disfarçada de épico dramático, "Sangue negro" é um triunfo também em termos técnicos. A fotografia oscarizada de Robert Elswit traduz em imagens de impressionante textura todas as nuances da narrativa de Anderson, com tomadas deslumbrantes e secas que refletem o estado de espírito vazio do protagonista e ilustram a aridez da paisagem e de sua personalidade. A edição do parceiro constante de Anderson, Dylan Tichenor, é precisa, fugindo do óbvio e da pressa, ditando um ritmo próprio à história e permitindo à Day-Lewis a possibilidade de um show à parte: construindo um Daniel Plainview repugnante mas ainda assim dono de um magnetismo quase irresistível, o ator preenche a tela com uma das interpretações mais sensacionais que o cinema americano já proporcionou em sua história. Cada olhar, cada entonação vocal, cada gesto e cada silêncio de Day-Lewis são repletos de significados, que engrandecem ainda mais o conjunto formado por Anderson, um diretor incapaz de filmar uma única cena que não seja milimetricamente calculada para atingir o máximo de impacto. Tal cuidado é o responsável por algumas sequências já clássicas, como os embates entre Plainview e seu nêmesis, Eli Sunday: pelo menos em três momentos (quando o jovem pastor se vê literalmente com o rosto esfregado na lama, quando o empresário aceita converter-se como forma de adquirir mais poços de petróleo e seu último encontro em uma quadra de boliche dentro de sua propriedade milionária) o duelo entre o veterano ator e o ótimo Paul Dano (mais conhecido até então como o irmão mais velho em "Pequena Miss Sunshine) são absolutamente impressionantes pela entrega dos atores, pela direção impecável e pela crueza das situações. E de quantos filmes o mesmo pode ser dito?

Ousado desde seus primeiros momentos - a primeira fala surge somente após cinco minutos de silêncio e demora ainda mais para que surja em cena um diálogo inteiro - "Sangue negro" é um filme feito para quem procura cinema de qualidade, corajoso e relevante, capaz de permanecer na memória do espectador muito tempo depois de seu final. Visualmente exuberante, dramaticamente consistente e intenso como poucos filmes realizados para o público adulto e inteligente, é também a prova da maturidade de um cineasta ainda jovem mas já capaz de deixar sua marca dentro de uma indústria frequentemente óbvia e autocondescendente. Bravíssimo!