domingo, 30 de agosto de 2015

SEM RETORNO

SEM RETORNO (Sin retorno, 2010, Castafiore Films/Haddock Films, 104min) Direção: Miguel Cohan. Roteiro: Miguel Cohan, Ana Cohan. Fotografia: Hugo Colace. Montagem: Fernando Pardo. Música: Lucio Godoy. Direção de arte: Carolina Urbieta. Produção executiva: Gerardo Herrero, Vanessa Ragone. Produção: Mariela Besuievsky. Elenco: Leonardo Sbaraglia, Martin Spliak, Ana Celentano, Luís Machín, Federico Luppi, Felipe Villanueva, Rocío Muñoz. Estreia: 30/9/10

Em uma época onde as leis parecem não ter o mesmo peso para pessoas de classes diferentes, um filme como "Sem retorno" soa como uma incisiva crônica sobre a realidade. Mesmo se passando em Buenos Aires, sua trama parece assustadoramente brasileira - ou universal? - no retrato que faz da desigualdade com que a justiça (menos cega do deveria) trata os menos favorecidos. Sem forçar a mão no tom político e deixando sua história falar por si, o diretor e corroteirista Miguel Cohan criou uma pequena pérola (mais uma) do cinema argentino. E para isso não precisou mais do que um roteiro enxuto, atores competentes e uma trama tão simples e real que parece ter saído dos noticiários de televisão - e, se for prestada a devida atenção, provavelmente foi.


O protagonista do filme é o humorista Federico Samaniego (Leonardo Sbaraglia), que trabalha duro como ventríloquo para pagar as contas da casa e sustentar a família, formada pela dedicada esposa Laura (Ana Celentano) e a filha pequena, Malena (Antonia Bengoechea). Em uma noite de sábado, voltando pra casa depois de ter substituído um colega doente, ele bate na bicicleta do jovem tatuador Pablo (Agustín Vázquez), com quem acaba tendo uma pequena discussão antes de deixar o local do acidente. Tudo ficaria assim se logo em seguida, o ciclista não fosse atropelado e morto por Matías (Martin Spliak), um estudante de arquitetura de classe média alta que dirigia alcoolizado. Apavorado com as prováveis consequências de seu ato, o rapaz foge do local e, chegando em casa, mente aos pais que teve o carro roubado. As investigações do seguro acabam por pressioná-lo e ele confessa a verdade ao pai, Ricardo (Luís Machín) - que resolve seguir com a mentira e incendiar o automóvel para evitar as inevitáveis complicações. O que eles não poderiam imaginar, porém, é que Federico fosse acabar acusado do crime - seu carro está com marcas da bicicleta de Pablo e ele estava embarcando em uma viagem com a família, o que foi considerado fuga (além de testemunhas pouco confiáveis terem o reconhecido como o autor da tragédia). Silenciando diante da injustiça, a família de Matías não imagina que está condenando um inocente a um pesadelo sem fim.


Começando sua narrativa como um filme de suspense - a edição que antecipa o acidente prende a atenção do espectador sem precisar fazer muito esforço - e aos poucos alterando seu tom para um contundente drama que contrapõe ações e reações, Miguel Cohan não poupa seu protagonista de um calvário dos mais revoltantes, mas aproveita para, até mesmo nessa situação caótica, oferecer a ele uma luz (ainda que discutível) para lhe ajudar no ato final, na figura de um colega de cela que se torna, de possível ameaça em um inesperado aliado. Também é interessante não transformar o jovem Matías em um vilão desalmado e irresponsável, provendo-lhe um sentimento de culpa que desvia o filme do maniqueísmo barato. Quando a terceira parte da história começa - e Federico sai da cadeia disposto a uma vingança - fica difícil para o espectador não compartilhar de sua ira, mas felizmente o roteiro mostra que nem só de preto e branco são feitos os desvãos do destino e o desfecho, apesar de anti-climático, é mais realista e coerente do que a maioria dos filmes que tratam do tema.

Amparado ainda em uma atuação intensa de Leonardo Sbaraglia, que fez parte do elenco de "Plata quemada" e "Cinzas do paraíso", duas produções aclamadas do cinema argentino, "Sem retorno" é um exemplar discreto do cinema do país, que não se furta a fazer um pertinente comentário acerca da situação social de sua sociedade através de uma história sobre seres reais e de impressionante ressonância - vale destacar também a forte presença do veterano Federico Luppi como o pai da vítima do acidente (e outro alvo da vingança do protagonista). Um filme a ser descoberto e discutido.

sábado, 29 de agosto de 2015

MÃOS QUE CURAM

MÃOS QUE CURAM (El mal ajeno, 2010, Mod Producciones, 107min) Direção: Oskar Santos. Roteiro: Daniel Sánchez Arévalo. Fotografia: Josu Inchaustegui. Montagem: Carlos Agulló. Música: Fernando Velázquez. Figurino: Tatiana Hernández. Direção de arte/cenários: Isabel Viñuales/María Teresa Die. Produção executiva: Simón de Santiago, Javier Ugarte. Produção: Alejandro Amenábar, Álvaro Augustín, Fernando Bovaira. Elenco: Eduardo Noriega, Belén Rueda, Angie Cepeda, Cristina Plazas, Clara Lago, Marcel Borràs, Carlos Leal. Estreia: 12/02/10 (Festival de Berlim)

O nome do chileno Alejandro Amenábar entre os produtores de "Mãos que curam" já dá uma ideia, ainda que vaga, do que o público pode esperar do primeiro longa-metragem do cineasta espanhol Oskar Santos. Assim como acontece na filmografia do diretor de obras cultuadas como "Preso na escuridão" e "Os outros", a história do médico que se descobre com o poder inesperado - e inexplicável - de curar através do toque das mãos não abre mão do tom de suspense, mas prefere voltar seu olhar para as consequências psicológicas e dramáticas da situação. Sem oferecer grandes respostas e buscando a cumplicidade da plateia unicamente através dos olhos do protagonista interpretado pelo ótimo Eduardo Noriega, o filme se distancia dos tradicionais representantes do gênero justamente por não cair na armadilha do susto pelo susto.

De certa forma é um pouco equivocado classificar "Mãos que curam" como um filme de suspense, uma vez que o roteiro muitas vezes deixa de lado a tensão - que volta nos momentos adequados - para concentrar-se nos dramas pessoais de seu personagem central, o médico Diego Sanz, um profissional dedicado e competente que acaba de se separar da mulher, Sara (Angie Cepeda), por sentir-se incapaz de romper a couraça de insensibilidade que construiu com o passar dos anos no tratamento de seus pacientes. Morando na casa do pai - um médico aposentado com quem divide o drama da solidão - ele tem sua vida transformada com uma inesperada tragédia: o acompanhante de uma paciente grávida (e em coma) se suicida em sua frente depois de tentar matá-lo. A partir daí, ele passa a perceber que está de posse do misterioso poder de cura com um simples toque - um poder que ele desconfia estar intimamente ligado a seu incidente. Para piorar as coisas, Diego descobre que sua nova capacidade tem um efeito colateral que pode vitimar as pessoas que ama.


A premissa de "Mãos que curam" é intrigante e bem desenvolvida pelo roteirista Daniel Sánchez Arévalo, que equilibra com bom senso o mistério a respeito do novo dom do protagonista - que é explicado sem os exageros do cinema comercial - e a forma com que ele lida com suas consequências, enfatizadas pela relação difícil com a filha adolescente, Ainhoa (Clara Lago) - que ele descobre namorar um colega seu, médico residente do mesmo hospital - e com sua aproximação com Isabel (Belén Rueda, sempre eficiente), a esposa do homem que tentou matá-lo e que busca compreender as razões que o aproximaram de sua amante, Pilar (Cristina Plazas), a mulher que parece ter a explicação para todo a situação. Mesmo que por muitas vezes seu ritmo soe lento demais para quem está acostumado às produções hollywoodianas - que preferem tratar o espectador como bobo - o filme de Santos tem a seu favor um roteiro coeso e inteligente, que dá a cada cena a devida importância, sem enrolar desnecessariamente. E também, além de tudo, a interpretação preciosa de Eduardo Noriega.

Protagonista de "Preso na escuridão" - que anos depois virou o execrável "Vanilla sky", estrelado por Tom Cruise no auge da canastrice - Noriega apresenta, em "Mãos que curam", uma maturidade muito bem-vinda. Econômico e contido, ele é o responsável por dar credibilidade a uma trama que, em outras mãos, poderia facilmente descambar para o inverossímil. Transitando com desenvoltura entre o drama familiar e o suspense sobrenatural, seu desempenho cativa o espectador sem precisar de muito esforço - e, ainda mais importante, justifica as decisões de seu personagem, por mais duvidosas que elas possam parecer em um primeiro olhar. Em um filme cujo desfecho pode desagradar a muita gente, seu trabalho faz uma diferença colossal.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin, 2011, BBC Films/UK Film Council/Footprint Investment Fund, 112min) Direção: Lynne Ramsay. Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear, romance de Lionel Shriver. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Joe Bini. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Catherine George. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Christopher Figg, Paula Jalfon, Lisa Lambert, Christine Langan, Norman Merry, Andrew Orr, Lynne Ramsay, Michael Robinson, Steven Soderbergh, Tilda Swinton, Robert Whitehouse. Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno. Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)


Qualquer pessoa dotada de um mínimo de senso comum sabe que as linguagens da literatura e do cinema são diferentes e urgem de elementos distintos para que funcionem da melhor maneira em seus respectivos veículos. Em alguns casos o trabalho de adaptação é facilitado pelo estilo do escritor – John Grisham, por exemplo, não foi adaptado às pencas por Hollywood à toa – mas algumas vezes a coisa é bem mais complicada – que o digam os roteiristas de obras mais densas, como “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. “Precisamos falar sobre o Kevin”, a transposição para as telas do best-seller de Lionel Shriver, é um meio-termo: apesar de tratar-se de um livro menos digestivo (leia-se menos comercial em termos de mercado de cinema), a história de uma mãe torturada pelo horrendo crime cometido pelo filho adolescente que tenta entender as razões de tal ato prestava-se facilmente a uma adaptação linear e quase literal. Mesmo sendo narrada através de cartas escritas pela protagonista ao marido – em um fluxo de consciência mantido por uma forte espinha dorsal – a trama poderia tranquilamente ser transformada em um roteiro com início, meio e fim bem definidos, como manda o figurino das produções hollywoodianas. Mas, longe das influências dos grandes estúdios – e portanto das pressões em moldar o filme em algo mais palatável ao público médio – a versão cinematográfica do livro de Shriver chegou às telas surpreendendo todo mundo. Ao invés de seguir a cartilha comum do cinema comercialmente atraente, a diretora e roteirista Lyanne Ramsey resolveu ousar e entregar uma obra de personalidade própria. Pro bem e pro mal.
Quem leu o livro provavelmente irá levar um susto ao compará-lo com sua versão cinematográfica – e a primeira reação certamente será de estranheza. Longe dos vícios do cinemão mainstream americano, Ramsey abre mão de qualquer traço de obviedade, obrigando o espectador a exercitar um músculo cada vez com menos uso: o cérebro. Não, “Precisamos falar sobre o Kevin” não é daqueles filmes que quebram a cabeça do público, mas tampouco faz parte do grupo de produções que entrega tudo de bandeja. Logo em seu início, que mostra a protagonista Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) em dias felizes, participando de uma festa popular nas ruas da Itália e banhada de molho de tomate, o filme aponta para uma direção inusitada, que irá mesclar, sem aviso prévio, presente e passado, como forma de iluminar as circunstâncias que a levaram de um casamento harmonioso e uma carreira vitoriosa a uma rotina claustrofóbica cercada de culpa e autopunição. O vermelho gritante do tomate irá voltar com frequência à tela, como forma de lembrar constantemente o espectador de que a história que está sendo contada foi escrita com sangue inocente, e não interessa à cineasta apenas narrar a trajetória de Eva e seu filho/nêmesis Kevin: a ela parece importar muito mais as consequências da tragédia do que a tragédia em si. E talvez seja essa diferença fundamental em relação ao livro que tenha abalado tanto os fãs do romance.




No livro de Shriver, Eva é uma bem-sucedida escritora de guias de viagem que leva uma vida confortável e feliz ao lado do marido, Frank (John C. Reilly, um tanto subaproveitado), até que se descobre grávida. Não exatamente dotada de sentimentos maternais – e considerando-se velha demais para uma primeira gestação – ela a princípio rejeita sua condição, apenas para transformar tal sentimento em remorso. Esse remorso, por sua vez, transmuta-se em uma sensação de estranhamento cada vez maior conforme vai-se estabelecendo sua relação com o filho, Kevin. Afável e carinhoso diante do pai, o menino parece, desde criança, desafiar e atormentar a rotina da mãe, incapaz de manter com ele o vínculo esperado. Alguns anos mais tarde, a chegada de uma nova filha, Celia, torna as coisas ainda mais difíceis: finalmente Eva consegue transmitir o amor de uma mãe e quando o primogênito atinge a adolescência (e passa a ser interpretado pelo perturbador Ezra Miller) o que era apenas um desconforto torna-se motivo de uma série de duelos psicológicos que resultam em uma tragédia inesperada.
No filme de Ramsey, a história de Eva e Kevin é narrada com distanciamento, em um roteiro repleto de elipses e uma edição que privilegia a atmosfera de pesadelo da vida da protagonista anos após os violentos acontecimentos que arruinaram sua rotina pacífica. Morando em uma casa modesta e com um emprego muito abaixo de suas qualificações, ela passa os dias fugindo do contato humano, traumatizada pelas agressões de que ainda é vítima e tentando esquecer ou entender suas próprias emoções. Tilda Swinton brilha com um desempenho excepcional, equilibrando com sutileza de mestre todas as diversas nuances de sua personagem e despertando a compaixão do espectador sem apelar para sentimentalismo de qualquer espécie. Pelo contrário, sua resiliência poderia facilmente ser confundida com frieza não fosse o talento da atriz em transmitir tantos sentimentos conflitantes mesmo em silêncio. É somente nos embates de Eva com o filho que Swinton sai de sua aparente apatia e permite à audiência vislumbrar os mecanismos que fizeram de sua vida um inferno particular.

Aliás, se existe algo que faz muita falta na versão para as telas do livro são os encontros de Eva e Kevin na cadeia: eles acontecem no filme, mas em menor número e sem o mesmo impacto emocional. O mesmo pode ser dito também do clímax: buscando fugir do previsível, Ramsey priva o público do que poderia ser um dos mais chocantes finais de sua época para optar pela sugestão. Ok, algumas cenas mostram mais do que claramente o que acontece na escola de Kevin na tarde em que ele chega munido de arco e flechas, mas o destino de Frank e Celia – assim como o de vários colegas do jovem – não recebe do roteiro a importância devida, enfraquecendo uma trama forte e contundente sobre alienação parental, psicopatia e irresponsabilidade da segurança pública. Está certo que o foco da diretora era outro – e dentro dessa premissa ela se dá muito bem – mas é impossível não imaginar o quanto uma história assim ficaria nas mãos de um cineasta menos afeito a cacoetes do cinema independente. Lyanne Ramsey optou por um drama familiar e psicológico. É uma opção corajosa que, vista sob esse prisma, é vitoriosa. Mesmo que decepcione os fãs mais convencionais do romance.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

INQUIETOS

INQUIETOS (Restless, 2011, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 91min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Jason Lew. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Elliot Graham. Música: Danny Elfman. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Anne Ross/Sara Parks. Produção executiva: Eric Black, Sarah Bowen, David Allen Cress, Tricia Huggins, Michael Sugar. Produção: Brian Grazer, Bryce Dallas Howard, Ron Howard, Gus Van Sant. Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Riô Kase, Jane Adams, Schuyler Fisk, Lusia Strus. Estreia: 12/5/11 (Festival de Cannes)

 Ele se chama Enoch Brae e, órfão de pai e mãe por obra de um desastre de automóvel que o deixou em coma por três meses, tem por hábito frequentar funerais de desconhecidos como forma inconsciente de exorcizar sua constante melancolia. Ela é Annabel Cotton, uma jovem inteligente, sensível e etérea que, apesar da pouca idade já tem os dias contados devido a um tumor cerebral incurável. Um belo dia eles se encontram em um velório e tornam-se amigos. Ela não questiona o fato do rapaz conversar com o fantasma de um piloto kamikaze morto em ação e ele aceita pacificamente a ideia de que a vida de sua melhor amiga tem data para acabar. Aos poucos a relação entre os dois ultrapassa os limites da amizade e eles se apaixonam, mesmo sabendo que sua história de amor está fadada à tristeza.

A breve sinopse do filme do outrora transgressor Gus Van Sant - que depois de empolgar a crítica com seus ousados "Drugstore cowboy" e "Garotos de programa" foi engolido pela máquina hollywoodiana a ponto de concorrer duas vezes ao Oscar de melhor diretor, uma delas pelo burocrático "Gênio indomável" - pode fazer com que os avessos a a histórias movidas a lágrimas e sentimentos torça o nariz sem pensar duas vezes. Porém, por incrível que pareça, recomenda-se que até mesmo esses detratores do gênero reconsiderem tal reação. Apesar da premissa um tanto deprê, "Inquietos" é um sensível e delicado drama romântico que não apela para o chororô melodramático. Contado de forma suave, poética e com doses de um bem-vindo e inusitado senso de humor, o filme de Van Sant é, talvez, uma das mais singelas histórias de amor de seu tempo, dotada de uma pureza juvenil cada vez mais rara nesse cínico século XXI.


Embalado pela doce trilha sonora de Danny Elfman, "Inquietos" não é apenas a trágica história de dois jovens que lidam com a morte de maneira estoica (cada um a seu jeito): é principalmente uma ode à vida, uma homenagem aos pequenos momentos, a cada sorriso, a cada toque, a cada pingo de chuva. Apesar de estarem em um momento crucial e devastador de suas vidas, Enoch e Annabel não encontram tempo para lamentos e lágrimas. Jovens e quase pueris em sua paixão, eles preferem utilizar o tempo que lhes resta juntos da maneira mais positiva possível (e nem mesmo planejar seu funeral tira o bom humor da garota, vivida com uma encantadora sutileza por Mia Wasikowska em sua melhor atuação). O romance entre os dois não soa artificial nem urgente, surgindo passo a passo, de maneira gradual e verdadeira e conquista a audiência principalmente por sua inocência, representada de maneira apaixonante por sua dupla central.

Se Mia Wasikowska, apesar da pouca idade, já tinha um currículo respeitável à época do lançamento de "Inquietos" - já havia sido vista em "Alice no País das Maravilhas" e "Minhas Mães e Meu Pai", só para citar os mais conhecidos - o novato Henry Hopper (filho do saudoso Dennis) fez uma auspiciosa estreia na pele do inseguro, tímido e desconfortável Enoch. Dono de traços delicados, o jovem Hopper transmite com facilidade as nuances de sua personagem, ainda que esteja longe de ser um ator admirável (o que ele pode se tornar com o tempo, como demonstra aqui). A química entre os dois é formidável e é difícil não se deixar emocionar com algumas de suas cenas, principalmente devido à naturalidade de suas atuações e a seu final arrebatador (que felizmente abdica das lágrimas fáceis).

"Inquietos" pode até não ser criativo e ousado como os primeiros filmes de Gus Van Sant, mas é um alívio perceber que seus tempos de "Encontrando Forrester" parecem ter ficado definitivamente para trás.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

CORAÇÕES EM CONFLITO

CORAÇÕES EM CONFLITO (Mammoth, 2009, Memfis Film, 125min) Direção e roteiro: Lukas Moodysson. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Michal Leszczylowki. Música: Erik Holmquist, Linus Gierta, Jesper Kurlandsky. Figurino: Denise Ostholm. Direção de arte/cenários: Josefin Asberg. Produção executiva: Lene Borglum, Peter Garde, Vibeke Windelov. Produção: Lars Jonsson. Elenco: Michelle Williams, Gael García Bernal, Marife Necesito, Sophie Nyweide, Tom McCarthy. Estreia: 19/01/09 (Estocolmo)

Há mais em comum entre "Corações em conflito" e "Babel" do que a simples presença do ator mexicano Gael García Bernal. Apesar do badalado filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu ter arrancado elogios e prêmios mundo afora e da obra do desconhecido Lukas Moodysson ter passado praticamente em branco pelos cinemas, ambos falam sobre temas que se tornaram primordiais em uma época de globalização: a incomunicabilidade entre as pessoas e o entrelaçamento cada vez maior e indelével de culturas diversas sem que haja uma real interação e respeito entre elas. Porém, se a produção de Iñarritu apelava para um ambicioso painel estrelado por grandes nomes de Hollywood, o filme do sueco Moodysson opta por um registro mais discreto e minimalista, ao centrar seu foco na história de um casal jovem e profissionalmente realizado que tem seu relacionamento posto à prova quando o marido precisa fazer uma viagem de negócios e passa a questionar seu modo de vida.

Leo (muito bem interpretado por Gael García Bernal) e Ellen Vidales (Michelle Williams, sempre à vontade em papéis que exigem uma entrega dramática mais intensa) formam um casal em franca ascensão profissional. Morando em um confortável e amplo apartamento em Nova York ao lado da filhinha, Jackie (Sophie Nywiede), eles levam uma vida tranquila e desprovida de maiores dramas. Porém, quando Leo viaja para a Tailândia com seu sócio, para assinar um milionário contrato, essa paz toda começa a mostrar suas rachaduras. Ellen atende a um rapaz esfaqueado pela própria mãe e passa a nutrir por ele um carinho que a faz repensar o casamento. Leo, enquanto aguarda a confecção do contrato, se hospeda em uma cabana rústica de Bangcoc e se aproxima de uma jovem prostituta que deseja mudar de vida. E Gloria (Marife Necesito), a babá da pequena Jackie, sofre com a saudade que sente dos filhos que deixou nas Filipinas, sem nem ao menos desconfiar dos sérios problemas e ameaças a que suas crianças estão expostas.


Ao mesclar três linhas narrativas simultâneas em seu roteiro, o suíço Moodysson se aproxima perigosamente do terreno já explorado à exaustão, tanto por Iñarritu quanto por outros cineastas premiados, como Paul Haggis, que fez o mesmo com seu oscarizado e superestimado "Crash, no limite". No entanto, ao seguir um caminho menos sensacionalista e mais sutil, que privilegia silêncios e olhares, o cineasta segue o rumo oposto dos exemplares mais famosos do gênero - e para isso conta com um desempenho preciso de Michelle Williams (já indicada ao Oscar de coadjuvante por "O segredo de Brokeback Mountain" e em vias de concorrer mais duas vezes à estatueta na categoria principal). A forma com que a jovem atriz se entrega ao desespero quieto e angustiado de Ellen dá consistência e ressonância ao roteiro do diretor, que também explora, com delicadeza, a relação entre a patroa - americana, jovem, bem-sucedida - e a empregada - imigrante, sofrida, subvalorizada - quando um novo elemento surge em cena: o ciúme. Sentindo-se afastada da filha, que passa mais tempo com a babá do que com a mãe, Ellen inicia também um processo de autoquestionamento em relação à sua função materna, uma subtrama importante que dialoga diretamente com a distância entre Gloria e seus filhos - que tem desdobramentos corajosos e dramáticos que poucos filmes hollywoodianos tem.

E se Michelle Williams brilha mais uma vez, o mesmo pode ser dito de Gael García Bernal. Um dos mais elogiados atores de sua geração - e certamente o único mexicano a brilhar em filmes de nacionalidades variadas, sempre com grandes atuações - Bernal novamente entrega um desempenho memorável, na pele de um homem que vê a maturidade aproximar-se da maneira mais inesperada possível e tenta lidar com ela da melhor maneira possível. Mesmo que sua trama seja a menos interessante das três histórias, ele a banha com simpatia e verdade, impedindo que se afunde nos clichês que volta e meia aparecem no caminho. São os dois atores que transformam a experiência de se assistir a "Corações em conflito" - um drama à primeira vista banal mas que revela grande profundidade em sua narrativa simples e direta - em um programa bastante interessante. É um filme que merece ser descoberto.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A SEPARAÇÃO

A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader az Simin, 2011, Asghar Farhadi, 123min) Direção e roteiro: Asghar Farhadi. Fotografia: Mahmoud Kalari. Montagem: Hayedeh Safiyari. Música: Sattar Oraki. Direção de arte/cenários: Keyvan Moghaddam. Produção executiva: Negar Eskandarfar. Produção: Asghar Farhadi. Elenco: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini. Estreia: 15/02/11 (Festival de Berlim)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Parece mentira, mas o cinema iraniano, lar de nomes como Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmalbaf e dono de uma filmografia consistente e respeitável, com grande enfoque na cultura e na política locais, não privava, por parte da Academia de Hollywood, do mesmo prestígio com que era visto em festivais internacionais, de onde frequentemente saía premiado - até 2012 a única indicação do país ao Oscar de filme estrangeiro havia sido pelo distante "Filhos do paraíso", de 1997. Até mesmo para ela, no entanto, foi impossível resistir à onda de aprovação e aplausos para "A separação", vencedor de 3 prêmios no Festival de Berlim (inclusive para todo o seu impressionante elenco) e do Golden Globe de melhor produção estrangeira. Nem sempre os eleitores do Oscar acertam - seria mais correto até dizer que os erros normalmente são mais comuns - mas basta uma única sessão do filme de Asghar Farhadi para se perceber que dessa vez eles não poderiam ter feito outra escolha: simples, direto e sem firulas estilísticas, "A separação" é um filme superlativo, excepcional, irretocável. Um dos melhores da década e, sem exagero, talvez um dos grandes filmes da história do cinema recente.

Grande não no sentido de grandioso. "A separação" é visualmente simples e despojado, e aparentemente simples também em sua trama. As aparências, nesse caso, enganam. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, parte de uma situação quase banal para fazer, a seu modo discreto mas passional, uma pequena crônica social de seu país, onde a religião e as leis são fatores imperativos e inquestionáveis. Distante da filmografia quase contemplativa de Abbas Kiarostami - o mais célebre cineasta iraniano - a obra de Farhadi é explosiva, intensa e emocional, amparada em um elenco soberbo e em um roteiro tão cheio de desdobramentos que resumí-lo é tirar dele boa parte de sua força. Arraigado em seus costumes e sua cultura e ainda assim universal em seus sentimentos, é uma obra-prima de roteiro, direção e interpretações.


O que pode-se dizer sobre a história de "A separação" sem estragar o prazer de assistí-lo é que tudo começa quando Simin (Leila Hatami) resolve pedir o divórcio, por entender que somente assim ela poderá aproveitar o visto para sair do país e dar uma vida melhor para a filha de dez anos de idade, Termeh (Sarina Farhadi, filha do diretor e premiada como melhor atriz em Berlim). O marido, Nader (Peyman Moadi) não pode sair do Irã porque seu pai sofre de Alzheimer e, separado da esposa, contrata Razieh (a ótima Sareh Bayat, que dividiu o Urso de Ouro com Sarina Farhadi) para cuidar do velho enquanto ele está no trabalho. Acontece que Razieh - que vai trabalhar sempre acompanhada da filha pequena - está grávida e não declarou abertamente seu estado. A omissão dessa gravidez, a tensão de Nader em relação à situação com a família, a acusação de roubo que faz à empregada e a relação complicada de Razieh com o marido Hodjat (o excelente Shahab Hosseini) são os ingredientes que farão com que uma situação corriqueira se transforme em um terremoto na vida de todos os envolvidos.

A trama de "A separação" é forte, enriquecida com os dogmas religiosos e culturais de um país cuja dinâmica social ainda é quase uma incógnita para a maioria dos ocidentais. Mesmo assim, tem um alcance humano raro e uma inteligência dramática admirável. Farhadi pontilha sua história com pequenos detalhes - aparentemente insignificantes - que se tornam gigantescos diante dos desdobramentos do caso, e aponta sem medo sua câmera para o olhar ingênuo de seus personagens menos capazes de lidar com a pressão (o idoso doente, a filha pequena da empregada, a pré-adolescente sensível à situação e incapaz de consertá-la). Sua generosidade como roteirista - capaz de evitar apontar o dedo para qualquer um dos protagonistas e oferecendo a todos eles chances de redenção e justificativas morais e éticas - é refletida também na forma com que todos eles alternam momentos de ira e desespero com atos de gentileza e delicadeza (mesmo que involuntários). Essa identidade própria é que dá à "A separação" sua extraordinária qualidade, que a torna universal e inesquecível. A Academia pode ter demorado a reconhecer os méritos do cinema iraniano, mas quando o fez, foi em grande estilo.