segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

NA PRÓXIMA, ACERTO O CORAÇÃO

NA PRÓXIMA, ACERTO O CORAÇÃO (La prochaine fois je viserai le coeur, 2014, Sunrise Films/Les Productions du Trésor, 111min) Direção: Cédric Anger. Roteiro: Cédric Anger, livro de Yvan Stefanovitch, Martine Laroche. Fotografia: Thomas Hardmeier. Montagem: Julien Leloup. Música: Grégoire Hetzel. Figurino: Jurgen Hoering. Direção de arte: Thierry François. Produção: Alain Attal, Anne Rapczyk. Elenco: Guillaume Canet, Ana Girardot, Jean-Yves Berteloot, Patrick Azam. Estreia: 23/8/14

Filmes sobre serial killers abundam no cinema norte-americano, em produções que variam entre o sublime e o lugar-comum, e se tornaram, de certa forma, um termômetro para mostrar talento de seus realizadores. Mais acostumada com dramas existenciais e comédias inteligentes, a cinematografia francesa já não tem uma lista tão extensa de obras a respeito de criminosos assustadores e cruéis, mas "Na próxima, acerto o coração" tenta amenizar essa falha. Contando a história real de um assassino de mulheres que (pasmem!) fazia parte do corpo policial da própria região onde ocorriam as mortes, o cineasta e roteirista Cédric Anger pode até não atingir todas as vastas possibilidades que a trama oferece, mas merece aplausos pela coragem em investir em um gênero pouco comum na filmografia de seu país.

Vivido pelo ator e cineasta Guillaume Canet - companheiro de aventuras de Leonardo DiCaprio em "A praia" (2000) e casado com Marion Cottilard na vida real - o protagonista do filme é o pacífico e silencioso policial Franck Neuhart, um rapaz solteiro que mora sozinho em um pequeno apartamento da região de Oise, perturbada por uma série de crimes que vitima jovens mulheres e não oferece muitas pistas sobre sua autoria. Pressionado pela família a arrumar uma namorada, ele se envolve (ao menos aparentemente) com a jovem que limpa sua casa, Sophia (Ana Girardot), mas o que ninguém desconfia - nem seus parentes, nem seus colegas de trabalho e tampouco Sophie - é que Franck é o responsável pelos homicídios. Sua compulsão em cometer os crimes é tanta que ele nem sequer hesita em arriscar-se a ponto da irresponsabilidade - e quando as autoridades começam a apertar o cerco nas investigações, ele se vê repentinamente cercado pelos próprios aliados.


Despido de qualquer tipo de charme, Caunet é o grande destaque de "Na próxima, acerto o coração" - uma ameaça que o homicida fazia em suas cartas para a polícia, com quem brincava ao estilo Jack, o Estripador. Em uma atuação que evita o previsível - olhares insanos, gestual ameaçador - ele constrói um psicopata mais próximo do real do que do cinema. Seu Franck é quase apático no convívio diário com as pessoas que o cercam, um homem banal do qual jamais se poderia esperar atos tão violentos quanto os cometidos por ele, e é aí que reside seu maior perigo à sociedade. Sua interpretação consegue até mesmo disfarçar o ritmo um tanto irregular do roteiro, baseado em um livro que conta a história real e que acrescenta cenas fictícias para complementar o arco dramático dos personagens. Essa opção - de um lado acertada em dar mais consistência às relações de Franck com a família e os colegas - acaba, porém, por diluir a tensão que se espera de um filme de suspense, ainda que provavelmente a intenção do próprio Anger tenha sido a de examinar mais a consciência e a rotina do serial killer do que exatamente promover sustos e arrepios na plateia. Visto mais como um drama do que como um filme policial, a obra do cineasta é uma antítese de "Zodíaco" e "Seven, os sete crimes capitais", dois dos maiores exemplares do gênero em Hollywood - e sintomaticamente dirigidos pelo mesmo David Fincher.

Menos violento do que sua trama poderia fazer supor - e ainda assim bem mais sangrento do que muitos de seus conterrâneos - "Na próxima, acerto o coração" é um interessante misto entre filme policial e drama psicológico. Não é genial (poderia ter uns bons quinze minutos a menos) mas é ousado em seu enfoque e não tem medo das comparações com produções mais comerciais (leia-se americanas). Além disso, comprova o talento de Guillaume Canet e oferece ao público algumas cenas que justificam sua classificação como suspense (poucas, é verdade, mas bem intensas e muito bem dirigidas). É uma opção muito bem-vinda à mesmice de muitos produtos que parecem todos iguais.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

ESCOBAR: PARAÍSO PERDIDO

ESCOBAR: PARAÍSO PERDIDO (Escobar: Paradise Lost, 2014, Chapter 2/Jaguar Films/Nexus Factory, 120min) Direção: Andrea Di Stefano. Roteiro: Andrea Di Stefano, adaptação de Andrea Di Stefano, Francesca Marciano. Fotografia: Luis David Sansans. Montagem: David Brenner, Maryline Monthieux. Música: Max Richter. Figurino: Marilyn Fitoussi. Direção de arte/cenários: Carlos Conti/Camila Arocha. Produção executiva: Benicio Del Toro, Josh Hutcherson, Luis Pacheco. Produção: Dimitri Rassam. Elenco: Benicio Del Toro, Josh Hutcherson, Brady Corbet, Claudia Traisac, Ana Girardot, Carlos Bardem. Estreia: 06/9/14 (Festival de Toronto)

O colombiano Pablo Escobar é um dos personagens mais fascinantes da história moderna. Não à toa, é o protagonista da série de TV "Narcos" - onde é interpretado pelo brasileiro Wagner Moura - e dá título à estreia de Andrea Di Stefano (ator que fez o papel do padre que quase enlouquecia com os questionamentos do protagonista de "As aventuras de Pi") como cineasta. Na pele de Benicio Del Toro - que assina o filme como produtor executivo, assim como seu colega de elenco Josh Hutcherson - o traficante de drogas mais famoso do mundo nem é o protagonista de "Escobar: paraíso perdido", mas sua onipresença (temida e ao mesmo admirada por boa parte de seus conterrâneos) é que norteia e dá o tom de suspense de uma produção que merecia ter tido uma acolhida mais generosa por parte da plateia e da crítica. Mesmo não sendo uma história verídica - os elementos reais estão misturados a uma trama fictícia criada pelo diretor e por Francesca Mariano - é um filme de prender o espectador na cadeira até os minutos finais, graças a um roteiro esperto, uma direção eficiente e um elenco surpreendente, liderado pelo jovem Josh Hutcherson, que segura praticamente sozinho os dois terços finais da narrativa com uma força de veterano.

Hutcherson - que ainda na infância estrelou o singelo "ABC do amor" e depois virou astro ao lado de Jennifer Lawrence na série "Jogos vorazes" - interpreta o canadense Nick, que chega à Colômbia no final dos anos 80 acompanhado do irmão, Dylan (Brady Corbet), para realizar o sonho de viver perto da natureza e do surf. Logo que chega ao país, ele conhece a bela Maria (Claudia Traisac), com quem inicia um apaixonado relacionamento. Não demora muito para que ele seja apresentado, então, ao tio dela, o político local Pablo Escobar (Benicio Del Toro), adorado pela população mais humilde graças a seus esforços em melhorar-lhes as condições de vida. Sabendo do carinho de Maria pelo tio, Nick acaba por fechar os olhos para o fato do dinheiro da família vir do tráfico de cocaína - e até para a chocante evidência de que Escobar é capaz de matar seus desafetos sem piscar os olhos. Algum tempo depois, quando a polícia descobre a origem da renda de Escobar e ele entra em guerra com o governo do país, Nick resolve ir embora junto com Maria, o irmão e a cunhada, mas um pedido do tio o obriga a mudar seus planos.


Em um esperto flashback que anuncia ao espectador que o paraíso de Nick em terras comandadas por Escobar tem os dias contados, o filme de Di Stefano começa realmente depois de mais de uma hora de projeção - o que não quer dizer que antes disso não seja interessante, muito pelo contrário, já que estabelece com competência todas as regras para seu terço final. É somente depois que Nick se vê obrigado a acatar as ordens do traficante (e elas não são nada agradáveis, como se poderia prever) que "Escobar: paraíso perdido" mostra realmente a que veio. Sem apelar para a violência explícita, o cineasta mergulha o espectador em um pesadelo de tensão e suspense capaz de deixar qualquer um sem fôlego. Escorado basicamente na atuação do jovem Hutcherson - que se mostra à altura do desafio - Di Stefano constroi uma narrativa sufocante e imprevisível, que vai crescendo até atingir um grau de emoção que não deixa de ser inesperada no filme de um diretor estreante. Não é um filme impecável, mas para uma primeira tentativa não deixa de ser muito admirável.

E quanto a Benicio Del Toro não é preciso falar muito. Um dos atores mais talentosos de sua geração, Del Toro comanda a ação mesmo quando não fala nada, com seu olhar amedrontador e seu vozeirão. Pablo Escobar aparece pouco, se comparado com o real protagonista, o jovem Nick, mas não é preciso muito tempo de tela para que o espectador saiba exatamente o perigo que seu personagem representa, a força que ele tem e o poder que ele emana. Coisas que só grandes atores conseguem fazer. E é impossível assistir-se à "Escobar: paraíso perdido" sem tremer sempre que Benicio entra em cena - e até mesmo quando sai dela. Uma excelente pedida.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, Lou Films/Echo Films/We're Not Brothers Productions, 102min) Direção: Daniel Barnz. Roteiro: Patrick Tobin. Fotografia: Rachel Morrison. Montagem: Kristina Boden, Michelle Harrison. Música: Christophe Beck. Figurino: Karyn Wagner. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Lisa Son. Produção executiva: Jennifer Aniston, Yu Wei-Chung, Patty Long, Shyam Madiraju. Produção: Ben Barnz, Mark Canton, Kristin Hahn, Courtney Solomon. Elenco: Jennifer Aniston, Chris Messina, Sam Worthington, Anna Kendrick, Felicity Huffman, William H. Macy, Adriana Barraza, Mamie Gummer, Lucy Punch. Estreia: 08/9/14 (Festival de Toronto)

Conhecida do grande público por sua atuação como a mimada Rachel Green da série "Friends" - que durou dez temporadas, ganhou dezenas de prêmios e se mantém como uma das mais queridas da história - a atriz Jennifer Aniston foi a única do elenco a conseguir romper com relativo sucesso o limite entre sua carreira na televisão e no cinema. Presença cativa em comédias românticas de qualidades variadas, ela surpreendeu meio mundo em 2014 quando surgiu desglamorizada e repleta de nuances dramáticas em "Cake, uma razão para viver", que estreou no Festival de Toronto e lhe rendeu tanto elogios unânimes quanto indicações ao Golden Globe e ao Screen Actors Guild Awards - infelizmente, a esperada e merecida lembrança por parte da Academia não chegou, mas é inegável que seu trabalho, sério e denso, empurrou-a em direção a um patamar de respeito artístico junto à comunidade cinematográfica que poucos atores oriundos da TV conseguiram atingir.

Dirigido pelo mesmo Daniel Barnz que cometeu o indescritível "A fera" (2011), "Cake" é um drama intimista e delicado, com pegada de cinema europeu em seu enfoque naturalista e pouco dado a soluções fáceis - que o público não espere por intermináveis cenas de choro histérico ou uma história de superação pessoal como aquelas que Hollywood adora contar de forma enfeitada e envernizada por momentos de humor constrangedor. O roteiro de Patrick Tobin, a direção de Barnz e principalmente a interpretação de Aniston (e do elenco coadjuvante formado por rostos relativamente conhecidos da plateia) afastam o filme do convencional, e se isso pode incomodar a quem procura mais do mesmo, funciona à perfeição para aqueles que gostam de envolver-se com uma história que apresenta gente normal, com problemas reais e dificuldades palpáveis de superar seus obstáculos. E quem acha que Aniston é bonita demais para convencer como uma mulher sofrida vai se surpreender com a maturidade e a coragem com que a ex-mulher de Brad Pitt se entrega a seu melhor papel no cinema até agora.


Aniston vive, de corpo e alma, Claire Bennett, uma advogada que frequenta um grupo de apoio para mulheres que convivem com algum tipo de dor física crônica. Coberta de cicatrizes depois de um acidente de carro que matou seu filho - e consequentemente a afastou do marido, Jason (Chris Messina) - ela tenta superar suas angústias de todas as formas possíveis, desde hidroginástica até os encontros do grupo comandado por Annette (Felicity Huffman), mas são apenas os comprimidos que consegue sem receita que eventualmente dão algum resultado. Contando sempre com a ajuda da fiel empregada doméstica, a mexicana Silvana (Adriana Barraza, indicada ao Oscar por "Babel"), Claire torna-se obcecada com o suicídio de Nina Collins (Anna Kendrick, indicada ao Oscar por "Amor sem escalas"), uma colega do grupo de apoio que jogou-se de uma ponte e deixou para trás o marido e o filho pequeno. Sem razão aparente, ela procura o viúvo, Roy (Sam Worthington), e inicia com ele uma amizade inusitada que poderá ajudar a ambos a superar seus tormentos pessoais.

Oferecendo aos poucos as informações sobre seus personagens e deixando que o público se envolva devagar com seus problemas, "Cake" ainda injeta um tantinho de surrealismo ao apresentar diálogos imaginários entre Claire e Nina - que a acusa de estar dando em cima de seu marido - e induz o espectador a um estado de cumplicidade com a protagonista. Mesmo que Claire não seja exatamente simpática (e não se espera isso de alguém que perdeu tanta coisa em tão pouco tempo, afinal), é difícil não sentir empatia por sua dor e seu desespero silencioso, muitas vezes revelado em uma agressividade se não compreensível, ao menos perdoável. Sua trajetória em relação a uma paz de espírito desejada e talvez afastada por uma série de autossabotagens é recheada de grandes momentos dramáticos, felizmente espalhados pelo roteiro com cuidado e delicadeza. "Cake" é um belo e simples filme sobre a vida e suas tristezas - e de como elas podem, paradoxalmente, unir as pessoas.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A ENTREGA

A ENTREGA (The drop, 2014, Big Screen Pictures/Fox Searchlight Pictures, 106min) Direção: Michael R. Roskam. Roteiro: Dennis Lehane, conto "Animal rescue", de sua autoria. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Marco Beltrami, Raf Keunen. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Mila Khalevich. Produção executiva: Blair Breard. Produção: Peter Chernin, Dylan Clark, Mike Larocca. Elenco: Tom Hardy, Noomi Rapace, James Gandolfini, Matthias Schoenaerts, John Ortiz, Elizabeth Rodriguez. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

O nome de Dennis Lehane é conhecido tanto dos leitores quanto dos frequentadores de salas de cinema, graças aos filmes "Sobre meninos e lobos", "Medo da verdade" e "Ilha do medo" - todos adaptados de romances de sua autoria. Sua estreia como roteirista - adaptando um conto também seu, chamado "Animal rescue" - segue o mesmo tom pessimista de seus trabalhos mais famosos, mas passou quase em brancas nuvens nas bilheterias americanas, talvez por não ter em seu elenco nomes capazes de chamar o público médio. Estrelado por Tom Hardy antes de tornar-se um nome quente em Hollywood por seu trabalho em "Mad Max: estrada da fúria" e por James Gandolfini em sua última atuação antes da inesperada morte, "A entrega" é um filme policial que substitui a ação incessante pelo suspense psicológico, enfatizado pela direção do belga Michael R. Roskam em seu primeiro filme em Hollywood.

Diretor do elogiado "Bullhead", estrelado pelo mesmo Matthias Schonaerts que vive um dos vilões de "A entrega", Roskam imprime um ritmo quase europeu à sua narrativa, sem pressa de estabelecer seus personagens (dúbios), sua trama (cheia de ramificações) e as ligações entre o passado (sempre à espreita) e o presente que fazem a história decolar. O cenário principal é um bar no coração de um bairro violento de Nova York, que um dia foi de propriedade de Marv (James Gandolfini), um solteirão que vive com a irmã e não se conforma de ter perdido a única coisa que lhe fazia minimamente feliz. Quem cuida do bar no momento é seu primo, Bob Saginowski (Tom Hardy), um homem solitário e calado cuja principal função é aceitar o fato de que o bar serve também como local para o recolhimento do dinheiro sujo arrecadado pelos gângsteres das redondezas. Sua vida - pacata apesar de tais circunstâncias - sofre um abalo com dois acontecimentos aparentemente aleatórios: o encontro com a misteriosa Nadia (Noomi Rapace, da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), que conhece quando encontra um cãozinho abandonado em uma lixeira diante da casa dela, e um assalto que leva todo o dinheiro do bar e o coloca sob a desconfiança de um grupo de criminosos violentos.


Desse dia em diante, o pacífico Bob passa também a ser perseguido pelo ameaçador Eric Deeds (Matthias Schonaerts) - que se diz ex-namorado de Nadia e verdadeiro dono do cachorrinho abandonado mas parece ter interesses bem menos nobres, o que seu passado homicida apenas confirma - e pressionado pelo detetive de polícia Torres (John Ortiz), que acredita em sua boa índole mas não desiste de tentar encontrar os responsáveis pelo assalto e pela onda de violência que veio em consequência. Nesse labirinto de acontecimentos inesperados, Bob precisa encontrar um meio de se proteger e descobrir quem afinal está do seu lado - e nem mesmo seu primo parece ser totalmente confiável, o que leva a todos a um desfecho sangrento que igualará mocinhos e vilões - e que irá reiterar a teoria de seu autor, que mostra em suas obras como o meio é capaz de transformar pessoas comuns em versões pioradas de si mesmas. Um viés melancólico, sem dúvida, mas que dá força a uma trama que, apesar de não ter reviravoltas como trunfos, mantém o interesse da plateia até o minuto final.

Mérito do roteiro de Lehane e da direção segura e discreta de Roskam, a forma como "A entrega" se desenvolve, suavemente e sem apelar para uma edição exagerada, serve para mostrar a um público mal-acostumado com tiroteios filmados de forma espetacular mas sem muito critério, que o mais importante em um filme policial é a história a ser contada. Os personagens criados por Lehane são fortes, profundos, verossímeis e, o mais importante de tudo, interpretados por gente que sabe o que faz. Se James Gandolfini faz como ninguém o tipo bonachão perigoso e Noomi Rapace sai-se muito bem como a única mulher importante em cena, o duelo entre Tom Hardy e Matthias Schonaerts é de deixar o público fascinado. Duas das maiores promessas do novo cinema, eles simplesmente fazem do ato de assistir à "A entrega" um prazer raro para os espectadores que gostam de bom cinema. Mesmo que o filme não tenha sido valorizado como deveria, é um dos grandes títulos lançados em 2014 e merece ser descoberto pelo grande público.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O ABUTRE

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, Bold Films/Sierra-Affinity, 117min) Direção e roteiro: Dan Gilroy. Fotografia: Robert Elswitt. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/Meg Everist. Produção executiva: Betsy Danbury, Gary Michael Walters. Produção: Jennifer Fox, Tony Gilroy, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 1976, o cineasta Sidney Lumet lançou um dos mais contundentes ataques ao sensacionalismo da mídia, o já clássico "Rede de intrigas", que deu o Oscar de melhor atriz à Faye Dunaway e de melhor ator (póstumo) a Peter Finch. Quase quatro décadas depois, as coisas não mudaram muito (se é que não pioraram ainda mais) no universo do jornalismo, e o roteirista Dan Gilroy - de "O legado Bourne" - fez sua estreia na direção com mais um ataque feroz contra os urubus do quarto poder. Escorado em uma atuação impressionante de Jake Gyllenhaal, o suspense "O abutre" é um soco na boca do estômago da plateia, colocando-a como testemunha e cúmplice de seu protagonista, um dos mais psicóticos personagens surgidos nas telas de Hollywood em muito tempo.

Assustadoramente magro e visualmente chocante, Gyllenhaal - injustamente esquecido pela Academia que preferiu Bradley Cooper e a soporífera patriotada de "Sniper americano" - interpreta Louis Bloom, um jovem que descobre, meio por acaso, uma forma de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia: vender imagens de acidentes de carro, tiroteios, assassinatos e outros tipos de violência às emissoras de televisão que as veiculam diariamente, como parte de uma dieta sombria e grotesca. Comprando uma câmera amadora e contratando a preço de banana um assistente que não tem onde cair morto - o ingênuo Rick (Riz Ahmed) - Bloom passa a disputar a primazia das desgraças com um veterano das ruas, o também ambicioso Joe Loder (Bill Paxton), e torna-se, com o tempo, fornecedor quase oficial de uma pequena emissora da cidade, cuja diretora de telejornalismo, Nina (Rene Russo), tem uma elástica noção de ética. Quando percebe que pode ganhar ainda mais dinheiro manipulando as cenas dos crimes para torná-las mais atraentes para o telespectador, o rapaz não hesita em ultrapassar todos os limites, chegando até mesmo a esconder informações da polícia para aumentar seu poder de negociação junto à imprensa.


Como uma espécie de Travis Bickle - personagem de Robert De Niro em "Touro indomável" - Louis Bloom é um lobo solitário e perigoso, um misantropo doentio fruto de seu próprio tempo: enquanto Bickle era um veterano da guerra do Vietnã, Bloom é vítima de uma sociedade desesperada pelo êxito e pela vitória, conforme ele deixa claro em seus discursos constantes copiados de manuais de sucesso profissional. Levando uma vida patética e tediosa, ele encontra em sua nova "carreira" não apenas um jeito de ganhar dinheiro, mas de ser notado, respeitado e amado - nem que seja através de chantagem. Seus métodos pouco ortodoxos - pra não dizer tão criminosos quanto os atos que registra com sua câmera - o levam em direção a um precipício do qual ele parece não ter medo, e que fica cada vez mais atrelado à sua necessidade patológica de fama e atenção. Suas armas não são visíveis e é aí que o roteiro de Gilroy (indicado ao Oscar) mostra sua força: aparentemente um simples peão, Louis Bloom é a representação clara e inequívoca de uma imprensa crescentemente cruel e desumana, um monstro incapaz de esconder sua própria face e disposto a sacrificar o que for preciso para atingir seus objetivos egocêntricos. Em um período onde a mídia mais uma vez dita a ordem das coisas em nível mundial, "O abutre" é um filme obrigatório.

E se por seu teor político-social o filme de Dan Gilroy - irmão de Tony, o diretor de "Conduta de risco" - é nada menos que essencial, como cinema também não é nada desprezível. Filmado basicamente à noite (o que enfatiza seu tom sombrio e sublinha o suspense crescente da trama), o trágico e violento conto do cineasta leva o espectador a uma excursão angustiante pelo lado pouco glamouroso de Los Angeles e dos bastidores da televisão - mostrados sob uma luz realista e pouco lisonjeira e valorizados pela bela atuação de Rene Russo (esposa do diretor e em um de seus melhores trabalhos) e pela revelação do jovem Riz Ahmed, que pontuam com perfeição o show de Jake Gyllenhaal, em uma interpretação antológica e fascinante que transforma cada cena em um espetáculo à parte. "O abutre", com seu senso de realidade e inteligência, é um dos melhores filmes da temporada 2014, infelizmente não devidamente reconhecido como tal pelas cerimônias de premiação.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O JUIZ

O JUIZ (The judge, 2014, Warner Bros/Team Downey, 141min) Direção: David Dobkin. Roteiro: Nick Schenck, Bill Dubuque, estória de David Dobkin, Nick Schenck. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Mark Livolsi. Música: Thomas Newman. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Bruce Berman, Robert Downey Jr., Herb Gains, Jeff Kleeman. Produção: David Dobkin, Susan Downey, David Gambino. Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Billy Bob Thornton, Vera Farmiga, Vincent D'Onofrio, Jeremy Strong, Balthazar Getty, David Krumholtz, Grace Zabriskie, Denis O'Hare. Estreia: 04/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Para marcar a estreia de sua produtora em sociedade com a esposa, Susan, o ator Robert Downey Jr. deixou de lado os heróicos personagens que vinham marcando sua carreira nos últimos anos - Sherlock Holmes e Homem de Ferro - para viver um homem comum, rodeado de problemas pessoais e que se vê, inesperadamente, diante de circunstâncias que não apenas o desafiam no lado profissional mas principalmente o obrigam a lidar com fatos familiares de um passado pouco agradável. Primeiro filme dramático do cineasta David Dobkin - que tem no currículo as comédias "Penetras bons de bico" e "Eu queria ter a sua vida" - e um filme de tribunal com todos os ingredientes necessários para conquistar a atenção do público, "O juiz" estreou sem muito alarde nos EUA, mas recobrou o fôlego com a indicação de Robert Duvall ao Oscar de coadjuvante. Mesmo que o veterano ator tenha tido poucas chances de faturar sua segunda estatueta - a primeira veio em 1983 por "A força do carinho" - seu desempenho como Joseph Palmer, o rígido juiz de uma pequena cidade do interior que é acusado de assassinato e passa a ser defendido pelo filho com quem mantém uma relação de estranhamento, é o maior destaque de um filme correto, mas que sofre de uma narrativa simples e esquemática ao extremo.

Downey Jr., bom ator como sempre, vive Hank Palmer, um bem-sucedido advogado de Chicago, nem sempre afeito às regras éticas que deveriam reger sua profissão. No meio de um caso importante, ele recebe a notícia da morte de sua mãe, a quem não vê há anos, e viaja para acompanhar seu funeral. Passando por um complicado caso de divórcio, Hank não tem a menor intenção de ficar com sua família, mas vê seus planos mudarem radicalmente quando seu pai - respeitado e, sem que ninguém saiba, morrendo de câncer - é acusado de matar um homem a quem havia condenado no passado. Mesmo contra a vontade do veterano jurista, com quem tem uma relação complicada que remete à sua juventude rebelde, ele assume sua defesa, o que acaba por forçá-los a uma nova etapa de seu relacionamento.


Equilibrando - nem sempre com muito sucesso - o drama familiar com a trama policial que envolve o julgamento, "O juiz" peca em muitos momentos por desviar o foco da história com tramas paralelas pouco interessantes, como aquela que envolve Hank com uma namorada de adolescência, Samantha (Vera Farmiga). Esses desvios da rota central não apenas tornam o filme mais longo do que o necessário - quase duas horas e meia de projeção - como enfraquecem o que a obra tem de mais forte (ainda que um tanto clichê): o relacionamento entre pai e filho, afastados pelos temperamentos arredios e reunidos pela paixão pela lei e pelo direito. Robert Duvall dá mais um show como o independente e por vezes seco Joseph Palmer, um homem forte que, por forças das circunstâncias acaba dependendo justamente do filho com quem tem mais arestas a aparar, e Downey Jr. comprova o que todo mundo sempre soube: é um ator que sai-se bem tanto em blockbusters descerebrados quanto em dramas que exigem mais do que simplesmente efeitos visuais.

Um filme capaz de agradar a todos os tipos de público, "O juiz" não ofende a inteligência de ninguém e pode até emocionar aos mais sensíveis. Quando foca na relação familiar, apresenta um show de atuações, mas quando parte para o filme de tribunal não apresenta maiores novidades. No fim das contas, não é um grande filme, mas é um digno representante do gênero.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

LIVRE

LIVRE (Wild, 2014, Fox Searchlight Pictures, 115min) Direção: Jean-Marc Vallé. Roteiro: Nick Hornby, livro "Wild: from lost to found on the Pacific Crest Trail", de Cheryl Strayed. Fotografia: Yves Bélanger. Montagem: Jean-Marc Vallé, Martin Pensa. Figurino: Melissa Bruning. Direção de arte/cenários: John Paino/Robert Covelman. Produção executiva: Nathan Ross, Bergen Swanson. Produção: Bruna Papandrea, Bill Pohland, Reese Witherspoon. Elenco: Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski, Keene McRae, Michiel Huisman, Gaby Hoffman. Estreia: 29/8/14 (Festival de Telluride)

2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz (Reese Witherspoon), Atriz Coadjuvante (Laura Dern)


O que “Livre” – que concorreu a dois Oscar na cerimônia de 2015 – tem em comum com o fotogênico cartão-postal “Comer, rezar, amar”, estrelado por Julia Roberts em 2010 e o emocionante “Na natureza selvagem”, que Sean Penn dirigiu em 2007? Quem apostar em “são todos adaptados de livros baseados em histórias reais” não estará errado. Quem optar por “todos são protagonizados por personagens que resolvem promover o reencontro consigo mesmos através de viagens” igualmente estará certo. Mas a resposta mais completa certamente é “são filmes que, mesmo involuntariamente, acabam por completar-se, em uma espécie de trilogia informal sobre as angústias modernas sendo curadas pelo contato com a natureza e com a paz de espírito”. Parece um resgate temporão de valores da década de 60, mas o fato é que os três filmes, cada um com sua identidade própria, apontam para uma saudável forma de reaproximação do público com histórias menos centradas em efeitos visuais idiotizantes e mais preocupadas com personagens de carne-e-osso. Se “Comer, rezar, amar” era o mais leve e despretensioso – apesar do orçamento generoso e do nome de Julia Roberts no elenco – e “Na natureza selvagem” mergulhava sem medo na poesia visual e na beleza dolorosa da história de Christopher McCandless (narrada por Jon Krakauer no livro homônimo), “Livre”, baseado na obra de Cheryl Strayed é uma espécie de meio-termo entre os dois filmes. Do primeiro herda a ideia de um recomeço emocional longe das armadilhas do dia-a-dia; do segundo, uma personagem central ousada e destemida, que enfrenta seus fantasmas pessoais com uma mochila nas costas e a coragem de encarar a solidão de uma longa caminhada através de quilômetros de estradas dos EUA.


O desempenho de Reese Witherspoon como Cheryl Strayed, a protagonista de “Livre”, é um passo à frente em sua carreira, superior em qualidade até mesmo à sua interpretação como June Carter em “Johnny & June”, que lhe deu o Oscar em 2006. Na pele de Strayed, Whiterspoon – que assina o filme também como produtora – abandona a vaidade e o sorriso radiante que tanto lhe ajudaram em sua trajetória rumo ao estrelato (em filmes como “Legalmente loira” e “Doce lar”) para apresentar um trabalho maduro, sóbrio e corajoso que sobrepuja até mesmo o roteiro pouco inspirado e a direção burocrática de Vallé – ainda que, justiça seja feita, o cineasta também tenha evoluído em relação a seu premiado “Clube de compras Dallas”. Mesmo que abuse dos flashbacks – que explicam as razões da protagonista mas diluem os momentos mais emocionais – Vallé consegue impor um ritmo menos irregular do que em seu filme anterior, aproximando o público de sua protagonista apesar de ela não ser exatamente uma personagem das mais “gostáveis”.




Revoltada com a morte de sua mãe (Laura Dern, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Cheryl, até então uma jovem ajustada e feliz em seu casamento, entra em uma espiral de autodestruição, se afundando no vício em drogas e sexo promíscuo. Seu desespero, disfarçado também em agressividade contra todos que a tentam ajudar, acaba por empurrá-la em direção a uma solução um tanto inesperada: com o apoio do ex-marido, ela inicia uma travessia longa, complexa e perigosa pelas estradas americanas, munida apenas de uma mochila (a princípio pesadíssima e repleta de supérfluos que vão ficando pelo caminho) e o desejo irredutível de purificar a mente e redescobrir suas qualidades. No trajeto – que faz absolutamente sozinha, salvo alguns contatos fugazes com outros andarilhos – ela faz as pazes consigo mesma, com a vida e dá início ao processo de aceitação da perda da mãe. Uma trama um tanto recheada de clichês, sem dúvida, mas valorizada pela interpretação honesta de Witherspoon, que evita as armadilhas do roteiro e foge da tentação de ser maior do que a história ou a personagem. Discreta na maior parte do tempo, ela transmite uma vasta gama de emoções – tristeza, revolta, medo, angústia, paz – sem precisar recorrer ao repertório comum de gritos e lágrimas que é moeda corrente no cinema comercial americano. Sim, ela tem uma “grande cena dramática” que justifica sua indicação ao Oscar, mas na maior parte do tempo sua atuação é sutil e inteligente – uma prova disso é o fato de o filme não ter feito muito barulho nas bilheterias nem mesmo com suas duas indicações à estatueta.
Contado fora de ordem cronológica – ao menos quando se trata dos flashbacks que mostram a vida de Strayed antes de sua caminhada – “Livre” reitera suas semelhanças com “Na natureza selvagem”, mas ressente-se da profundidade do filme estrelado por Emile Hirsch. Uma surpresa, já que o roteiro é assinado pelo escritor Nick Hornby, autor de livros também transformados em filmes – como “Alta fidelidade” (99) e “Um grande garoto” (02) – e indicado ao Oscar pela adaptação das memórias de Lynn Barber, no festejado “Educação” (09). Mesmo com seu invejável currículo, o autor britânico não foi completamente feliz em narrar as aventuras de Cheryl: em alguns momentos a superficialidade é maior do que deveria, dificultando um maior envolvimento do público com a protagonista e, consequentemente, diminuindo o impacto emocional da história. Ainda assim, com sua sensibilidade e talento, ele consegue desviar do óbvio, com um final inspirador bem aproveitado por Jean-Marc Vallé e valorizado pela atuação de Witherspoon. No cômputo final, “Livre” acaba por ser um filme acima da média – mais profundo que “Comer, rezar, amar”, mas bem menos impactante que “Na natureza selvagem”.