sexta-feira, 11 de março de 2016

THE NORMAL HEART

THE NORMAL HEART (The normal heart, 2014, HBO Films, 132min ) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Larry Kramer, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Adam Penn. Música: Cliff Martinez. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Andrew Basemann, Amanda Carroll. Produção executiva: Jason Blum, Dante Di Loreto, Dede Gardner, Ryan Murphy, Brad Pitt. Produção: Scott Ferguson, Alexis Martin Woodall. Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Dennis O'Hare, BD Wong, Corey Stoll. Estreia: 25/5/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Para a TV (Matt Bomer)

Em 2014, Matthew McConaughey e Jared Leto levaram os Oscar de melhor ator e ator coadjuvante respectivamente por seus elogiados desempenhos em "Clube de Compras Dallas", um filme no máximo razoável que, graças à força de suas interpretações chegou a concorrer à cobiçada estatueta de melhor filme. Se tivesse tido a sorte de ter sido produzido para o cinema e não para a televisão - através da HBO - a adaptação da premiada peça teatral de Larry Kramer "The normal heart" poderia ter tido um destino ainda mais feliz. Dirigido por Ryan Murphy - criador de várias séries televisivas de sucesso, como "Glee" e "American Horror Story" - o filme, que estreou nos EUA poucos meses depois da cerimônia que consagrou Leto e McConaughey, compartilha com o filme de Jean-Marc Vallé (que também ganhou o Oscar de maquiagem) o mesmo tema - o início da epidemia da AIDS, no princípio da década de 80 - mas acaba se revelando muito mais satisfatório, tanto em termos emocionais quanto informativos. Com um excelente elenco liderado por Mark Ruffalo e Julia Roberts (casada com o diretor de fotografia do filme, Danny Moder), "The normal heart" segue a tradição de grandes obras sobre o tema, como "E a vida continua", "Meu querido companheiro" e "Angels in America", mas vai além deles ao ser o primeiro a explicitar sem medo a sexualidade de seus personagens centrais.

Baseado em personagens e histórias reais - alterados para efeito de maior liberdade dramática pelo autor Larry Kramer - "The normal heart" não tem medo de deixar bem claro ao espectador que seus protagonistas são gays com vida sexual ativa e despreocupada, ao contrário de obras criticadas pela comunidade homossexual (como "Filadélfia") em que os personagens transmitem a impressão de viver em quase celibato. A trama se concentra principalmente em Ned Weeks (Mark Ruffalo), escritor abertamente gay que se torna um determinado ativista na busca por informações e tratamentos para a então iniciante epidemia da AIDS nos EUA. Ainda chamada de "câncer gay" por médicos desconhecedores de detalhes sobre suas formas de transmissão e metabolismo, a doença chama a atenção da infectologista Emma Brookner (Julia Roberts), que se une a Weeks na tentativa de formar uma equipe de cidadãos interessados em ajudar novos pacientes. Cada vez mais apavorado com o crescente número de vítimas - boa parte deles seus conhecidos - o escritor incorre na ira do governo ao acusá-lo de ignorar os números e impedir o controle da doença. A seu lado, fica seu incansável namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer), a estoica médica (que precisa mover-se em uma cadeira de rodas em consequência de uma poliomielite) e alguns poucos amigos que relevam seus métodos raivosos de atacar as autoridades. Nem mesmo seu irmão mais velho, o influente advogado Ben (Alfred Molina) escapa de suas violentas acusações - e tudo fica ainda pior quando Felix se revela portador do vírus.


Começando sua história em 1981 e atravessando uma década inteira de desesperadoras tentativas do protagonista em se fazer ouvir ou acreditar - nem mesmo a própria comunidade gay aceitava suas ideias "absurdas" de diminuir a promiscuidade para evitar o contágio nos primeiros estágios da epidemia - o roteiro de Larry Kramer se equilibra com sucesso entre os dramas pessoais de Ned e Felix (um romance verossímil e que não prescinde de algumas tórridas cenas de amor) e sua exaustiva trajetória em direção à atenção da população em relação a uma das maiores epidemias da história da humanidade. Com uma edição precisa e uma trilha sonora acertada - nunca acima do tom, mas sempre presente quando necessária - "The normal heart" mostra um Ryan Murphy surpreendentemente sóbrio na condução da trama, sem os exageros habituais de suas séries e sem a insegurança que era o maior pecado de "Comer, rezar, amar", sua estreia no cinema. As cenas dramáticas surgem na hora certa e sem excessos, apenas como ilustração dramática de todo o trágico cenário que o roteiro desenha através dos acontecimentos e dos diálogos inteligentes que não hesitam em apontar o dedo para o governo norte-americano e a hipocrisia e o conservadorismo assassino do período Reagan. Assustador e por vezes revoltante, o filme também se beneficia da garra de seus atores.

Se Julia Roberts surge como um chamariz para o grande público - desprovida de glamour e de seu largo sorriso - é o elenco masculino quem acaba por destacar-se, em especial Mark Ruffalo e Matt Bomer, ambos premiados por suas interpretações. Ruffalo foi eleito o melhor ator de televisão no Satelitte Awards e Bomer levou pra casa um Golden Globe de melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme televisivo, e fica difícil dizer qual dos dois está melhor em cena. Enquanto Ruffalo surpreende em uma atuação que equilibra fúria e delicadeza, Bomer se revela um ator de primeira linha ao dar vida a um homem que vê sua rotina radicalmente alterada por uma doença devastadora - sua transformação física é impressionante e, ao contrário do que acontece muitas vezes, trabalha a favor da profundidade de seu personagem, e não contra. É quase impossível segurar as lágrimas com seu desempenho - uma prova inconteste de sua imensa qualidade.

Tendo como um dos produtores executivos o ator Brad Pitt, e contando ainda no elenco com rostos conhecidos do público cativo da televisão, como Jim Parsons (de "Big Bang Theory"), Jonathan Groff (de "Looking"), Taylor Kitsch (da segunda temporada de "True detective") e Dennis O'Hare (de "American Horror Story"), "The normal heart" é um dos melhores filmes de 2014 - e pouco importa que não tenha sido feito diretamente para o cinema. No final das contas, isso é o que menos irá contar para todos que se permitirem um pouco de emoção real e honesta.

quinta-feira, 10 de março de 2016

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO

RAUL: O INÍCIO, O FIM E O MEIO (Raul: o início, o fim e o meio, 2012, A.F. Cinema e Vídeo/Elixir Entretenimento, ) Direção: Walter Carvalho. Roteiro: Walter Gudel. Fotografia: Lula Carvalho. Montagem: Pablo Ribeiro. Produção: Denis Feijão. Estreia: 23/3/12

Não é preciso ser fã do rock indefinível criado por seu protagonista para se gostar de "Raul: o início, o fim e o meio", documentário de Walter Carvalho sobre um dos mais polêmicos astros da música brasileira, que escapava facilmente de qualquer rótulo que porventura o mercado quisesse lhe impor. Basta gostar de história da cultura popular nacional - ou de documentários inteligentes - para se deixar envolver. Ao contrário do filme anterior de Carvalho - um dos mais renomados diretores de fotografia do cinema nacional - que contava a vida do roqueiro Cazuza em tom ficcional, esse seu trabalho é resultado de uma pesquisa que consumiu mais de dois anos de sua vida, além de entrevistas com mais de 90 pessoas que tiveram algum tipo de contato com Seixas. O resultado é um filme emocionante, engraçado, nostálgico e revelador, ainda que felizmente não tenha a intenção de "definir" seu personagem principal.

Inserido em uma tradição recente da cinematografia nacional - que vem trazendo à luz nomes esquecidos e/ou injustiçados do cancioneiro popular brasileiro, como "Loki" (sobre Arnaldo Baptista) e "Ninguém sabe o duro que eu dei" (genial trabalho sobre Wilson Simonal) - "Raul: o início, o fim e o meio" tem a seu favor o carisma de seu investigado, um artista cuja obra rica e surpreendente ainda hoje mantém-se viva graças a legiões de fãs apaixonados e à contemporaneidade de sua música, que se presta a inúmeras leituras. É impossível para qualquer brasileiro nunca ter escutado ou cantarolado Seixas, e essa espécie de "inconsciente coletivo" apenas ajuda o filme, que, através de depoimentos de gente que realmente tem o que contar sobre o artista, cria um mosaico tão vasto sobre sua personalidade que, ao término da sessão não apenas um Raul fica na mente do público e sim vários: tudo depende do olho do espectador.


Entremeadas às canções saudosas de Seixas - e a seleção de Carvalho é fenomenal - existe depoimentos de todas as suas companheiras (e, com a exceção de sua primeira mulher, Edith, todas ainda mantém um perceptível carinho por ele), de seus amigos de infância, de suas filhas, de fãs, de colegas de trabalho e, como não poderia deixar de ser, de dois polêmicos parceiros: Paulo Coelho e Marcelo Nova. Enquanto o primeiro dá um longo depoimento sobre sua relação com Raul - e não tem medo aí de assumir que apresentou a eles todas as drogas possíveis, além de conduzi-lo ao estranho mundo da contracultura - o segundo tem que lidar com as acusações de alguns fãs e amigos do compositor de que foi o responsável por sua morte precoce (enquanto outras vozes, como Caetano Veloso, o defendem, acreditando em seu relacionamento de admiração genuína). Doente, Seixas morreu aos 44 anos - mas aparentando bem mais - depois de uma tourné de 50 shows com Nova (que o resgatou de um triste "chega pra lá" da indústria fonográfica).

Como filme, "Raul: o início, o fim e o meio" é o que se propõe a ser: um documento sobre um dos mais criativos e verdadeiros artistas pop do Brasil, que misturou Elvis Presley a Luiz Gonzaga sem jamais deixar de imprimir sua personalidade forte. E é inteligente ao optar por não chegar a nenhuma conclusão, o que seria no mínimo incoerente com a própria arte de Raul, que se intitulava uma "metamorfose ambulante". Seja como "carimbador maluco" (que o apresentou a uma nova geração de fãs), como "maluco beleza" ou como o criador de uma "sociedade alternativa", ele deixou sua marca indelével na cultura musical nacional. E não deixa de ser uma obrigação assistir à sua história. Ele é, definitivamente, a mosca que não para de pousar na nossa sopa (que o diga Paulo Coelho em uma cena destinada à antológica do filme). E nós não cansamos desse zunido...

quarta-feira, 9 de março de 2016

CORAÇÕES DE FERRO

CORAÇÕES DE FERRO (Fury, 2014, Columbia Pictures, 134min) Direção e roteiro: David Ayer. Fotografia: Roman Vasyanov. Montagem: Jay Cassidy, Dody Dorn. Música: Steven Price. Figurino: Maja Meschede, Anna B. Sheppard. Direção de arte/cenários: Andrew Menzies/Lee Gordon, Malcolm Stone. Produção executiva: Anton Lessine, Alex Ott, Brad Pitt, Sasha Shapiro, Ben Waisbren. Produção: David Ayer, Bill Block, John Lesher, Ethan Smith. Elenco: Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Jason Isaacs. Estreia: 15/10/14

Sim, esse é mais um daqueles filmes que retratam a II Guerra Mundial sob a ótica dos aliados - leia-se norte-americanos - e que fazem a alegria dos pseudointelectuais que adoram reclamar da forma com que Hollywood romantiza o conflito a favor dos EUA. E sim, não foge muito da tradicional receita das produções do gênero, lembrando principalmente o excepcional "O resgate do soldado Ryan", obra-prima de Steven Spielberg lançada em 1998. Escrito e dirigido por David Ayer - autor do roteiro do premiado "Dia de treinamento" (2000) e da vergonhosa adaptação para as telas do seriado televisivo "SWAT" (2003) - "Corações de ferro" tem a seu favor, porém, a despeito de sua quase previsibilidade, um elenco impecável e um tom que se equilibra com sucesso entre a violência e a poesia. Com uma renda abaixo do esperado nas bilheterias - pouco mais de 80 milhões, pouco se considerada a presença de um astro do calibre de Brad Pitt encabeçando os créditos - o filme falhou também em ser lembrado pelas cerimônias de premiação da temporada 2014, sendo ignorado até mesmo nas categorias técnicas, onde normalmente filmes do estilo encontram espaço.

Brad Pitt - que também é um dos produtores executivos do filme - lidera o elenco de "Corações de ferro", mas generosamente divide seu espaço em cena com outros cinco atores mais jovens, que interpretam os subordinados de seu Sargento Collier na missão de enfrentar os nazistas em plenas linhas inimigas, já nos meses finais da guerra. Experiente e quase cínico, Collier se torna o mentor e protetor do introvertido Norman Ellison (Logan Lerman), que entra na batalha por acaso, sendo escalado para ser um dos pilotos do tanque "Fury" - um dos pouco veículos ainda em funcionamento quando a trama tem início. Extremamente jovem e sem histórico em batalhas campais, Norman a princípio é hostilizado e desprezado pelos colegas (como convém a uma boa história do gênero), mas com a amizade do sargento e o desenrolar dos acontecimentos (quando é obrigado a tomar parte de momentos sangrentos e chocantes), aos poucos torna-se ciente de seu papel no jogo. No meio do caminho, descobre - da pior maneira possível - que a guerra não escolhe vítimas.


O roteiro de David Ayer não chega a ser um primor de criatividade, mas ao menos tem o mérito de proporcionar a seus atores alguns bons diálogos e algumas cenas bastante interessantes, principalmente quando dá um tempo em suas sequências de guerra - bem filmadas, mas nada excepcionais - e concentra-se na forma como cada um dos soldados lida com a trágica situação em que se encontram. Como dita o clichê, existe o soldado cristão Bible (vivido por um discreto e eficiente Shia LaBeouf), o latino Gordo (Michael Peña), o fanfarrão violento Coon-Ass (Jon Bernthal, da série "The walking dead") e o boa-gente Binkowski (Jim Parrack). Ayer não se dá muito ao trabalho de desenvolver com profundidade nenhum deles e nem dar-lhes um passado, mas ainda assim fica difícil não se deixar envolver com eles e seus medos diante de um inimigo real e imediato. Ao contar (mais) uma história de perda de inocência, o diretor disfarça a quase burocracia do roteiro com sua segurança em comandar sequências bem orquestradas de batalha, valorizadas pela fotografia e pelo trabalho de som, que mergulham o espectador no meio do conflito, como é mandatório em um filme de guerra que se preze.

Mesmo que não seja um triunfo completo e não esteja destinado a tornar-se um clássico do gênero, "Corações de ferro" não decepciona aos fãs nem de obras sobre a II Guerra Mundial nem de Brad Pitt. Apesar de contida e discreta, a atuação do ator é um dos maiores destaques do filme de Ayer, mesclando com sutileza sentimentos díspares como fúria, desespero, ternura e firmeza sem nunca deixar de convencer a plateia de que é realmente um homem comum tornado herói diante de circunstâncias extremas. Suas cenas com Logan Lerman - cujo personagem dócil e encantador ele acaba por adotar informalmente, apesar de saber que tais características estão com as horas contadas - são as melhores do filme. Apesar da abundância de lugares-comuns, "Corações de ferro" é um filme de guerra com alma, o que lhe dá um diferencial muito bem-vindo em relação a seus semelhantes. Impossível ficar insensível a suas intenções.

terça-feira, 8 de março de 2016

CÁSSIA

CÁSSIA (Cássia, 2014, Midgal Filmes,120min) Direção e roteiro: Paulo Henrique Fontenelle. Fotografia: Vinícius Brum. Montagem: Paulo Henrique Fontenelle. Música: Cássia Eller. Produção executiva: Alex Sander Silva. Produção: Iafa Britz. Estreia: 19/10/14

A morte da cantora Cássia Eller, no finalzinho de 2001, no auge do sucesso e da popularidade, pegou o Brasil inteiro de surpresa - um choque quase tão brutal quanto o falecimento de Elis Regina, em janeiro de 1982. A comparação não é gratuita: em ambos os casos houve a interrupção de uma carreira brilhante com muito ainda a oferecer, elogios unânimes de crítica e público e o desrespeito por parte da imprensa, que irresponsável e covardemente, buscou no sensacionalismo de uma tragédia o alimento para intermináveis boatos a respeito de suas causas. Sem querer aprofundar-se na morbidez da mídia em relação ao caso e sim celebrar a vida de Eller e seu imenso talento em encantar, transgredir e impressionar positivamente todos que porventura cruzassem seu caminho, o cineasta Paulo Henrique Fontenelle presenteou o público com o documentário "Cássia", um trabalho fascinante, emocionante e verdadeiro sobre uma das artistas mais irreverentes e surpreendentes da música popular brasileira de todos os tempos.


Seguindo uma narrativa cronológica que ajuda a situar a carreira da cantora àqueles que a conheciam apenas por seus trabalhos mais famosos - a saber, os álbuns "Com você... meu mundo ficaria completo" (em que flertava descaradamente com a MPB, em conflito com a alma roqueira dos primeiros discos) e "Acústico MTV" (sua consagração absoluta ao misturar Piaf, Chico Buarque, Nando Reis, Gilberto Gil e Mutantes) - o filme de Fontenelle começa mostrando os primeiros passos de Eller na música, ainda em Brasília, e acompanha, através de depoimentos de amigos, colegas, jornalistas e dela própria (através de imagens de arquivo e de cartas lidas em off pela atriz Malu Mader) sua trajetória rumo ao sucesso profissional. De aparência agressiva e vozeirão potente, Cássia primeiro conquistou um público mais afeito a seu jeito transgressor, assumidamente apaixonado pela forma com que ela mostrava no palco uma personalidade radicalmente distante de sua timidez quase patológica, rompida apenas pela intimidade de seus leais amigos. Aos poucos, foi sofisticando o repertório, variando os estilos musicais a que punha a voz e quando se deu conta já era matéria de revistas e jornais, que invariavelmente a chamavam de uma das maiores revelações da música nacional. Daí para a consagração definitiva foi um pulo. E junto com o sucesso em proporções jamais imaginadas, aquele velho e conhecido problema: a roda-viva da fama.


A leveza com que Cássia levava sua carreira transformou-se, da noite para o dia, em um peso que ela percebeu não ter forças para carregar. Ao mesmo tempo em que era amada desesperadamente pelos fãs - os antigos, os novos e os ocasionais - e vivia uma fase de plena felicidade ao lado da companheira Maria Eugênia e do filho Francisco, a cantora entrava em um esquema pesadíssimo de trabalho, uma rotina que ela tentava quebrar fazendo shows às escondidas em cidades do interior (para desespero de seu empresário). Como acontece com frequência no mundo musical - histórias como as de Kurt Cobain e Amy Winehouse (coincidentemente também tema de documentários feitos à mesma época) - o mundo de Eller, já completo, não soube lidar com a pressão da fama em escala tão gigantesca. E o desfecho que todo mundo acha que conhece é finalmente revelado por pessoas que realmente testemunharam o fim desde o seu princípio. E é aí que reside a maior força do documentário de Fontenelle: dar voz a quem tem algo a dizer e não a quem especula ou quer vender revistas. Pela primeira (e definitiva) vez a história verdadeira sobre o que aconteceu nos últimos dias de Cássia é contada - e, para alívio geral, a narração foge do sensacionalismo barato e do sentimentalismo fácil. É jornalismo puro. Do mais sincero.

Os minutos derradeiros de "Cássia" merecem um capítulo à parte. O documentário mostra a luta de Maria Eugênia pela guarda de Francisco - reivindicada pelo pai da cantora, com quem ela nem mantinha a melhor das relações. Por pura e simples ganância, o avô do menino buscava uma forma de usufruir de seu patrimônio e enfrentou uma batalha judicial contra a companheira de Cássia, que tinha a seu lado a opinião pública, os amigos da artista e o próprio menino - além do desejo expresso de Eller para que sua família se mantivesse unida caso algo lhe acontecesse (um pressentimento funesto, infelizmente tornado realidade). Fontenelle mostra com clareza a forma com que, mesmo sem querer, uma das cantoras mais insubordinadas a surgir no Brasil conseguiu furar o bloqueio do conservadorismo ao abrir um precedente legal para adoção de crianças por pais (e mães) homossexuais. Mais um tapa de sinceridade e espontaneidade na cara de um país que ainda não a mostrava totalmente e foi obrigado a aplaudir uma mulher sem papas na língua, que adorava subir ao palco e desafiar o status quo, que não tinha medo de expor sua alma e seu coração quando cantava e que principalmente uniu vários tipos de público ao misturar samba, rock, mpb, hip hop, Beatles, Nirvana e Zé Ramalho em um mesmo irresistível balaio musical.

"Cássia" é uma belíssima homenagem à sua musa. Sóbrio, respeitoso, honesto e generoso ao mostrar ao grande público a mulher delicada, terna e suave que existia debaixo de uma armadura de irreverência e deboche. Mas é, acima de tudo, um presente inestimável a todos aqueles que ainda se deixam levar por sua inconfundível voz sempre que ela surge, potente e imprevisível. Para ver, rever sempre e, mais do que tudo, ouvir com muita saudade.

segunda-feira, 7 de março de 2016

GRANDES OLHOS

GRANDES OLHOS (Big eyes, 2014, The Weinstein Pictures/Tim Burton Productions, 106min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: JC Bond. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Craig Lewis. Produção executiva: Katterli Frauenfelder, Derek Frey, Jamie Patricof, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Scott Alexander, Tim Burton, Larry Karaszewski, Lynette Howell. Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Jason Schwartzman, Terence Stamp, Jon Polito. Estreia: 13/11/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Amy Adams)

O diretor Tim Burton tem, aparentemente, algumas obsessões que fazem de seu cinema algo único dentro de uma indústria cada vez menos afeita a riscos financeiros desnecessários. Sua filmografia, coerente e por vezes quase previsível, começou a conquistar fãs com o humor negro de “Os fantasmas se divertem” (88) – a história de um casal de ectoplasmas tentando livrar-se dos novos proprietários de sua casa recém-comprada – e atingiu o ápice com a sua visão sombria pero no mucho do homem-morcego em “Batman” (89) e “Batman, o retorno” (92). Depois disso, com o bolso cheio de dólares e a liberdade artística que somente o dinheiro pode comprar em Hollywood, começou uma carreira repleta de altos e baixos, onde sucessos de crítica ignorados pelo público – “Ed Wood” (94) – e êxitos comerciais massacrados pela imprensa – “Alice no País das Maravilhas” (10) – tinham em comum apenas sua predileção por personagens exóticos e pelo visual criativo (além da participação frequente de seus parceiros habituais Johnny Depp e Helena Bonham Carter). O fim do casamento com Carter e o fracasso de seu “Sombras da noite” (12), porém, o empurraram em direção a uma obra que, a rigor, difere muito de sua filmografia. Baseado em fatos reais e isento dos excessos que frequentemente eclipsavam outros aspectos de seus filmes, “Olhos grandes” é um Tim Burton quase atípico – algo assim como o foram “História real” na carreira de David Lynch e “Kundun” na trajetória de Martin Scorsese.
Dialogando muito mais com a melancolia carinhosa de “Ed Wood” – sintomaticamente escrito pelos mesmos Larry Alexander e Scott Karaszewski – do que com a histeria quase infantil de “A fantástica fábrica de chocolates” (05), “Olhos grandes” revela em Burton um cineasta plenamente capaz de extrair emoção e interesse de histórias comuns, protagonizada por gente de carne e osso cujas preocupações não são evitar invasões alienígenas – como no horroroso “Marte ataca” (96) – ou vingar-se sanguinariamente dos algozes de seus familiares – caso de “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da Rua Fleet” (08) – mas simplesmente sobreviver em um mundo tão glamouroso quanto cruel: o das artes plásticas. Visualmente o mais sutil de seus filmes, “Olhos grandes” concentra sua atenção basicamente na história de Margaret Keane, a autora de uma série de quadros que, sempre apresentando crianças com olhos tristes e desproporcionalmente grandes, tornou-se coqueluche nos EUA dos anos 60. Sem recorrer a fantásticas reconstituições de época e/ou criar mundos imaginários – artifícios que fizeram com que “A lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, “Sweeney Todd” e “Alice no País das Maravilhas” fossem premiados com o Oscar de melhor direção de arte – Burton apresenta ao público um filme simples e encantador.




Interpretada por uma sensacional Amy Adams – vencedora do Golden Globe e injustamente esnobada pela Academia – a protagonista Margaret é introduzida ao público em 1958, quando, demonstrando uma coragem admirável para a época, abandona o marido abusivo e parte com a filha pequena para São Francisco, disposta a ganhar a vida sem depender da bondade alheia. Ao salário ganho em uma fábrica de móveis ela tenta adicionar uma grana extra pintando retratos de eventuais clientes em uma feira de rua – já imprimindo nas telas a sua assinatura pessoal. É nessa feira que ela trava conhecimento com Walter Keane (Christoph Waltz), também pintor e que, depois de uma temporada em Paris, usa suas memórias afetivas como temática de sua obra. Em pouco tempo os dois acabam se casando – como forma de proteger a guarda da menina, ameaçada pelo ex-marido – e não demora muito para que Keane comece a perceber que o trabalho de sua mulher chama muito mais a atenção do que o seu. Astuciosamente – e com a ajuda do jornalista Dick Nolan (Danny Huston), que narra a história em off – ele toma para si a autoria dos quadros e passa a administrar o êxito financeiro que vem deles. Dono de uma ambição tão grande quanto seu mau-caráter e seu senso de marketing pessoal, o medíocre Keane se torna um sucesso comercial incontestável: ainda que rechaçados pela crítica séria, representada pelo inclemente John Canaday (Terence Stamp), os quadros de Keane (na verdade a incansável e inconsolável Margaret) são cobiçados até por gente influente como as atrizes Natalie Wood e Joan Crawford e o empresário italiano Dino Olivetti.
Quando Margaret resolve dar um basta na farsa – que a impediu por anos de obter seu próprio lugar ao sol mesmo fugindo de seu estilo clássico – “Olhos grandes” muda de registro. O tom quase ingênuo mostrado até então dá lugar a um viés mais sombrio, transformando definitivamente Walter Keane no vilão cuja maldade se disfarçava através de um verniz de simpatia e sorrisos constantes. Um gigantesco painel oferecido à Unicef serve como pomo da discórdia e, mais uma vez fugitiva de um casamento fracassado, a protagonista põe as cartas na mesa, revelando as mentiras contadas ao povo americano por anos. Uma batalha nos tribunais – com marido e mulher tentando provar, cada um à sua maneira, a autoria das pinturas – dá início ao terceiro e final ato, em que ficam evidentes dois pontos: o carisma delicado de Adams e o histrionismo às raias do patético de Christoph Waltz. Merecido vencedor de seu primeiro Oscar de coadjuvante, por “Bastardos inglórios” – mas nem tanto pelo segundo, por “Django livre” – o ator austríaco repete perigosamente os trejeitos de seus trabalhos anteriores, tornando a cena em que Keane assume simultaneamente os papéis de advogado de defesa e testemunha um deslize que quase compromete o filme como um todo. Mesmo que o caráter bufão de Keane justifique o abuso do ator de caretas e um pretenso humor, a sequência destoa nitidamente do restante da narrativa proposta pelo diretor, de um naturalismo que só cede ao lúdico quando Margaret passa a ver em todas as pessoas os olhos grandes de seus quadros. Felizmente, a cena é rápida o bastante para que não esconda do público as outras (muitas) qualidades do filme.
Bem distante de sua zona de conforto, Tim Burton acertou em cheio em dar um bem-vindo respiro de normalidade à sua carreira tão excêntrica. Assim como ele, a figurinista Colleen Atwood e o músico Danny Elfman – parte de seu leal time de colaboradores – apresentam trabalhos discretos e eficientes que mostram outro lado de seu talento. Todos estão em estado de graça, apelando para a beleza quase invisível da simplicidade – que, afinal de contas, era o maior encanto das crianças de Margaret Keane. Um belo e emocionante filme sobre o amor à arte e aos ideais estéticos acima das convenções da moda e do sucesso comercial. No fundo, um filme sobre a carreira do próprio Tim Burton.