sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (Creature from the Black Lagoon, 1954, Universal Pictures, 79min) Direção: Jack Arnold. Roteiro: Harry Essex, Arthur Ross, estória de Maurice Zimm. Fotografia: William E. Snyder. Montagem: Ted J. Kent. Direção de arte/cenários: Hiylard Brown, Bernard Herzbrun/ Russell A. Gausman, Ray Jeffers. Produção: William Alland. Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell. Estreia: 12/02/54


Se não fosse uma história real, até pareceria uma daquelas lendas tão caras à Hollywood: mexendo nas lixeiras da Universal, um faxineiro encontrou uma fantasia estranha que serviria como uma luva para que seu filho pequeno brincasse no feriado de Halloween. Anos mais tarde, o tal menino, já crescido para se entregar à clássica tradição norte-americana, vendeu tal fantasia para um escritor de ficção científica, que reconheceu naquela bizarra figura mais um dos famosos “monstros da Universal” – pacote que incluía, desde os anos 40, nomes como Drácula, Frankenstein, O Homem Invisível e Dr. Jekyll & Mr. Hyde. Sem gozar do mesmo prestígio de seus colegas, nascidos nas páginas de romances consagrados, “O Monstro da Lagoa Negra” acabou sendo relegado a segundo plano com o passar dos anos, mesmo que tenha feito sucesso suficiente para render duas continuações. Rodado em 3D – cinquenta anos antes que tal artifício virasse moda – o filme surpreende, ainda hoje, pelo cuidado com as imagens subaquáticas, que suplanta, por muitos momentos, uma história sem maiores surpresas.

Surgido de uma lenda a respeito de uma criatura humanoide que supostamente vivia na América do Sul – e que chegou até o produtor William Alland através do fotógrafo mexicano Gabriel Figueroa – o roteiro de “O Monstro da Lagoa Negra” parte de uma premissa muito explorada pelos filmes de ficção científica e não tem medo de apelar para os clichês mais deslavados, ainda que, à época, muita coisa ainda fosse relativamente novidade. As cenas iniciais lembram “Jurassic Park, parque dos dinossauros”, mostrando o experiente cientista Carl Maia (Antonio Moreno) descobrindo, em uma expedição ao Amazonas, a pata fossilizada de uma criatura desconhecida. Com o objetivo de descobrir do que se trata e se há mais resquícios de antiga civilização no local, ele contrata um grupo de outros cientistas, liderado por David Reed (Richard Carlson) e sua namorada, Kay Lawrence (Julie Adams). Depois de um bom tempo à procura de algo empolgante, eles estão prestes a desistir da empreitada quando finalmente descobrem um ser meio humano/meio réptil que vive debaixo d'água e que começa a fazer vítimas entre os membros do grupo. Estranhamente, porém, ele evita atacar Kay, por quem parece nutrir sentimentos humanos.


Mesmo que o visual da criatura seja muitas vezes um tanto tosco, “O Monstro da Lagoa Negra” se destaca principalmente pela excelência de suas tomadas subaquáticas, cortesia do diretor de fotografia William E. Snyder, que antecipa em duas décadas o famoso “ponto de vista do monstro” tornado célebre por Steven Spielberg em “Tubarão” (75). Ambicioso em seu desejo de conquistar o público através dos efeitos em 3D, o cineasta Jack Arnold sabia ter em mãos a possibilidade de uma rentável série, a ponto de deixar em aberto o destino do temível protagonista para prováveis continuações – que obviamente chegaram às telas poucos anos mais tarde. Localizando sua trama em um Amazonas verossímil, com placas sinalizadoras escritas em português e nativos com nomes críveis como Tomás e Luís – coisas que cineastas modernos simplesmente ignoraram, como mostram filmes como “Anaconda”, rodado no Brasil em 1996 – o diretor muitas vezes escorrega em sequências dignas de Ed Wood, mas seu respeito com a história e os personagens acaba por ser maior que os “defeitos especiais”.

A criatura – que ficou a cargo de Milicent Patrick, embora o responsável pelo departamento de maquiagem da Universal da época, Bud Westmore, tenha levado o crédito – é, perceptivelmente, pouco requintada. Sempre que o monstro surge em cena e parte para o ataque (fatalmente vitimando os pobres coadjuvantes que estão em cena apenas para morrer) é difícil segurar o riso, especialmente em vista os progressos dos efeitos visuais conquistados pelo cinema durante as cinco décadas que separam sua estreia dos dias de hoje. Mas “O Monstro da Lagoa Negra” tem, a seu favor, uma inocência encantadora e a entrega absoluta de seu elenco, que compra sem reservas uma premissa um tanto absurda mas que pode divertir a todos que procuram entretenimento despretensioso. Para quem tem preconceito, uma dica: um dos fãs de “O Monstro da Lagoa Negra”, e que o assistia todos os anos no dia de seu aniversário era o respeitado, sério e aparentemente melancólico Ingmar Bergman. Quem diria que o homem por trás de petardos emocionais como “Persona” e “Morangos silvestres” também tinha seu lado trash?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A CONDESSA DESCALÇA

A CONDESSA DESCALÇA (The barefoot contessa, 1954, United Artists, 128min) Direção e roteiro: Joseph L. Mankiewicz. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: William Hornbeck. Música: Mario Nascimbene. Figurino: Fontana. Direção de arte: Arrigo Equini. Elenco: Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Marius Goring, Valentina Cortese, Rossano Brazzi. Estreia: 29/9/54

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien) 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien) 

Em 1950, o cineasta Joseph L. Mankiewicz realizou uma das mais fieis traduções dos bastidores do teatro, o inesquecível "A malvada". Quatro anos mais tarde, ele voltou suas lentes ferinas e envoltas em cinismo para o mundo do cinema, repleto de personagens cuja visão de mundo cruel e destrutiva combinava exatamente com a sua. Inspirado livremente em alguns fatos da vida da atriz Rita Hayworth - especialmente seu casamento com o príncipe Ali Khan - e em elementos óbvios da trajetória de sua estrela Ava Gardner, que já tinha então no currículo uma turbulenta história de amor com Frank Sinatra, o roteiro de "A condessa descalça" lançou um olhar bastante amargo ao que acontece por trás do glamour da sétima arte. Concorreu ao Oscar da categoria, mas perdeu para "Sindicato de ladrões", dirigido por Elia Kazan e que também não era exatamente o mais otimista dos filmes produzidos por Hollywood em sua época.

O filme começa com um funeral em um dia chuvoso. Como logo é informado, trata-se do enterro de Maria D'Amato (Ava Gardner), uma estrela de cinema que, com apenas três filmes, tornou-se uma das mais amadas atrizes do mundo. As circunstâncias de sua morte e sua caminhada até a fama é o que será mostrado a partir de então, através de diferentes pontos de vista que podem tanto confirmar algumas situações quanto contradizer outras. Não chega a ser radical como "Rashomon" (50), de Akira Kurosawa - que mostra o mesmíssimo fato contado de quatro maneiras opostas - nem tão revolucionário quanto "Cidadão Kane" (41), de Orson Welles - que brincava com as inúmeras perspectivas a respeito de seu protagonista sem nunca reiterar nenhuma delas. Mas serve para ilustrar com perfeição a complexidade de sua protagonista, uma mulher simples e de origem modesta que sobe com uma velocidade estonteante ao topo do sucesso apenas para descobrir que nem mesmo ela sabe exatamente o que deseja.


O principal narrador da história - e talvez o mais confiável, haja visto sua relação mais próxima com a protagonista - é o cineasta Harry Dawes (Humphrey Bogart em papel oferecido inicialmente a Marlon Brando). É ele quem oferecerá à plateia o retrato mais humano e menos egoísta de Maria Vargas, uma jovem dançarina de flamenco que, descoberta em um bar de segunda categoria em Madri, é levada imediatamente para Hollywood pelo ambicioso produtor Kirk Edwards (Warren Stevens), que a trata como simples mercadoria e com quem passa a ter uma relação de altos e baixos. Protegida por Dawes - diretor de seus três filmes - Maria assume um nome artístico e consegue transformar até mesmo difíceis situações familiares em marketing positivo, para alívio do relações públicas do estúdio, Oscar Muldoon (Edmond O'Brien, premiado com o Oscar de ator coadjuvante). Rebelde e dona de uma alegria de viver que contrasta com o ambiente normalmente asséptico e enfadonho das festas a que é obrigada a frequentar, Maria não consegue esconder uma carência afetiva imensa e a preferência por um estilo de vida menos engessado - o que inclui aí uma série de aventuras sexuais com homens mais próximos de sua real origem.

É essa carência, disfarçada por luxo e glamour, que empurra Maria para os braços de dois homens que irão ditar (ou ao menos tentar) as regras de sua vida. O primeiro é o milionário Alberto Bravano (Marius Goring), que não demora em mostrar sua real faceta violenta e mesquinha. O segundo é o conde italiano Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi), que lhe oferece um mundo de sonhos e a possibilidade de abandonar as telas e tornar-se membro da alta sociedade europeia. É a forma como esse aparente sonho se transforma em armadilha que encerra a trajetória de Maria, cuja morte, trágica e quase previsível diante dos fatos que se apresentam, encerra com amargura uma história de Cinderela sem final feliz. Sem medo de melindrar colegas ou ofender colaboradores, Mankiewicz pega ainda mais pesado do que em "A malvada", retratando o mundo do cinema como um lugar recheado de seres interesseiros e desprezíveis - é sintomático que apenas o diretor interpretado por Bogart, normalmente ligado a personagens menos afáveis, seja o único porto seguro de Maria: é como se o próprio cineasta estivesse apontando o dedo a seu universo, revelando ao espectador toda a falta de empatia e compaixão que o reveste. É contundente e melancólico, mas valorizado por um roteiro inteligente, uma direção discreta e uma estrela que, não à toa, foi chamada, um dia, de "o animal mais belo do mundo". "A condessa descalça" é o grande filme da carreira de Ava Gardner. E um dos (vários) grandes do diretor.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

PARA SEMPRE

PARA SEMPRE (The vow, 2012, Screen Gems/Spyglass Entertainment, 104min) Direção: Michael Sucsy. Roteiro: Jason Katims, Abby Kohn, Marc Silverstein, estória de Stuart Sender. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Melissa Kent, Nancy Richardson. Música: Michael Brook, Rachel Portman. Figurino: Alex Kavanaugh. Direção de arte/cenários: Kallina Ivanov/Jaro Dick. Produção executiva: Susan Cooper, J. Miles Dale, Austin Hearst. Produção: Gary Barber, Roger Birnbaum, Jonathan Glickman, Paul Taublieb. Elenco: Rachel McAdams, Channing Tatum, Jessica Lange, Sam Neil, Scott Speedman, Wendy Creyston. Estreia: 09/02/12

Dois fatores específicos justificam a bilheteria doméstica acima dos 120 milhões de dólares do apenas razoável "Para sempre", estreia do diretor Michael Sucsy no cinema depois do sucesso de "Grey Gardens" - estrelado por Jessica Lange e Drew Barrymore - na televisão americana: o romantismo incurável de uma considerável parcela do público (que salvo raras exceções lota as salas quando o assunto são histórias de amor) e o carisma de sua dupla central, formada por atores em franca ascensão dentro da indústria: Channing Tatum (em vias de arrastar multidões aos cinemas com "Anjos da lei" e "Magic Mike") e Rachel McAdams (bela, encantadora e boa atriz a ponto de estrelar um dos melhores Woody Allens desde sempre, "Meia-noite em Paris"). Só mesmo essas duas razões podem explicar o êxito de uma produção que, a despeito de ser visualmente atraente, não acrescenta nada de novo ao gênero. Baseado em uma história real, o roteiro não escapa das armadilhas, e é preciso aplaudir a força do casal de protagonistas em tentar dar veracidade e emoção à coleção de clichês que desfilam pela tela.

"Para sempre" conta um história que lembra a comédia "Como se fosse a primeira vez", lançada no final dos anos 90. Porém, enquanto no divertido filme estrelado por Adam Sandler e Drew Barrymore  o tom cômico levava a trama sem maiores sobressaltos, nessa versão melodramática a missão é bem mais difícil: um acidente de carro leva a jovem Paige (Rachel McAdams) a uma amnésia parcial que a faz esquecer completamente os últimos quatro anos de sua vida, justamente o período em que se relacionou com o apaixonado Leo (Channing Tatum). A condição médica da moça acaba servindo perfeitamente aos planos de seus pais (Sam Neill e Jessica Lange, fazendo o possível com o pouco que lhes é oferecido pelo roteiro), que tinham-na visto afastar-se do seio familiar anos antes, depois de abandonar a faculdade de Direito para ingressar em uma Escola de Arte (e de ter rompido com eles devido a um fato mantido em segredo por todos). Sem lembrar-se de seu casamento com Leo - e nem mesmo de tê-lo conhecido - Paige recomeça sua vida se reaproximando do ex-noivo, Jeremy (Scott Speedman), mas o rapaz não tem o menor plano de deixar o amor de sua vida escapar e faz de tudo para reconquistá-la, apesar de tudo lhe dizer que a batalha já está perdida.


A sucessão de clichês que inunda "Para sempre" chega a ser desanimadora. Tudo bem que dramas românticos não são exatamente cenários apropriados para experimentos estilísticos ou artísticos, mas nada justifica a preguiça da direção ou do roteiro, apoiado basicamente em cenas pretensamente emocionantes que só funcionam para aqueles que adoram esbaldar-se em histórias de amor. No entanto, mesmo que não exista aqui a química notável que havia entre a mesma Rachel McAdams e Ryan Gosling em "Diário de uma paixão" - o melhor exemplo de um romance clichê que conseguiu sobressair-se à sua origem literária menor (livro de Nicholas Sparks) graças ao elenco bem escalado e à sensibilidade de um cineasta talentoso - é visível o esforço e a garra do casal de protagonistas, infelizmente subaproveitados ao extremo. McAdams, por exemplo, fica o filme todo sendo usada como um joguete, de lá pra cá - e nem é bom comentar "o grande segredo" que a levou a romper com os pais, de uma frivolidade inacreditável.

Feito exclusivamente para quem não consegue sobreviver sem um dramalhão romântico, "Para sempre" é capaz de suprir as expectativas de seu público-alvo. É bonito, é direto e simples. Mas está muito longe de ser inesquecível, principalmente por não apresentar nada de novo à audiência - que, por sua vez, provavelmente não irá se importar com tanta fragilidade artística.

ALABAMA MONROE

ALABAMA MONROE (The broken circle breakdown, 2012, Menuet Producties/Topkaki Films, 111min) Direção: Felix van Groeningen. Roteiro: Carl Joos, Felix van Groeningen, peça teatral "The Broken Circle Breakdown featuring the Cover-Ups of Alabama", de Johan Heldenbergh, Mieke Dobbels, colaboração de Charlotte Vandermeesch. Fotografia: Ruben Impens. Montagem: Nico Leunen. Música: Bjorn Eriksson. Figurino: Ann Lauwerys. Direção de arte/cenários: Kurt Rigolle. Produção: Dirk Impens. Elenco: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg. Estreia: 10/10/12

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

O bluegrass é um dos gêneros musicais característicos do sul dos EUA e se utiliza basicamente de instrumentos acústicos como violão, banjo e baixo acústico. Tendo suas raízes na música tradicional das ilhas britânicas, na música rural negra, no jazz e nos blues, ele é relativamente pouco conhecido no Brasil, mas é um das bases dramáticas de "Alabama Monroe", representante oficial da Bélgica na corrida pelo Oscar 2014 - e que perdeu a estatueta para o italiano "A grande beleza". Baseado em uma peça teatral de Mieke Dobbels e Johan Heldenbergh (que interpreta o principal papel masculino), o filme de Felix Van Groeningen acabou se tornando o favorito popular ao prêmio graças principalmente à sua impressionante comunicação com a plateia, que, sem exceção, termina a sessão aos prantos, emocionada com um filme que equilibra com maestria uma devastadora história de amor e perda com uma trilha sonora impactante e uma discussão sempre pertinente sobre a importância da fé e da religião nas relações interpessoais - sem que para isso precise abdicar de uma estrutura dramática das mais interessantes e envolventes dos últimos anos.

Com a narrativa fora de ordem cronológica - artifício cada vez mais comum no cinema moderno, mas que quase nunca é utilizado de maneira orgânica como aqui - "Alabama Monroe" conta a história de amor improvável entre Didier (Heldenbergh), integrante de uma banda de bluegrass, ateu e romântico e Elise (a ótima e expressiva Veerle Baetens), uma tatuadora católica mas realista e que tem no corpo as marcas de seus antigos amores. Juntos, os dois vivem uma relação passional e feliz, que é abençoada com a chega de uma filha - a encantadora Maybelle - e ameaçada com a sombra de um câncer agressivo que balança suas crenças e certezas. Forçados a lidar com uma situação triste e inesperada, eles também precisam entender um ao outro - o que parece ser um desafio ainda mais complicado e frustrante conforme a dor vai se tornando cada vez mais avassaladora.


Contando com um roteiro inteligente cujas engrenagens não são tão óbvias como acontece com a grande maioria dos filmes que buscam a emoção do espectador, "Alabama Monroe" não se propõe apenas a comover ou contar sua história. Por trás do drama vivido por Didier e Elise encontra-se uma profunda discussão teológica que contrapõe - sem julgamentos de valor - o ateísmo renitente do músico e a arraigada fé da tatuadora, assim como também levanta questionamentos sobre o amor, a perda e as variadas formas de lidar com a dor e a desilusão. A edição ágil - que mescla com inteligência flashbacks com fast-forwards - não esconde, felizmente, alguns diálogos fortes e emocionantes em sua crueza: ao contrário, é pouco provável que a audiência esqueça facilmente a brutal discussão entre os protagonistas sobre suas possíveis culpas na tragédia que se abate sobre eles ou o discurso abertamente crédulo de Didier depois de um show - e que acaba preparando o terreno para o final devastador, capaz de estraçalhar qualquer coração.

Talvez "Alabama Monroe" seja um tanto depressivo e pessimista para quem busca apenas um divertimento rápido. Mas aquele público que procura no cinema algo mais do que entretenimento certamente sairá da sessão com o coração transbordando - de tristeza, de dor e principalmente de uma boa dose de realismo que só a sétima arte (com seu poder de embelezar o desespero com poesia) consegue proporcionar. É um dos grandes filmes da década e se tornará ainda melhor com o passar do tempo. Coisas de bom cinema.

A PRINCESA E O PLEBEU

A PRINCESA E O PLEBEU (Roman holiday, 1953, Paramount Pictures, 118min) Direção: William Wyler. Roteiro: Ian McLellan Hunter, John Dighton (Dalton Trumbo). Fotografia: Henri Alekan, Frank F. Planer. Montagem: Robert Swink. Música: Georges Auric. Figurino: Edith Head. Direção de Arte: Hal Pereira, Walter Tyler. Produção: William Wyler. Elenco: Audrey Hepburn, Gregory Peck, Eddie Albert, Hartley Power, Harcourt Williams. Estreia: 21/8/53 (Londres)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Atriz (Audrey Hepburn), Ator Coadjuvante (Eddie Albert), Roteiro Original, Fotografia em P&B, Montagem, Figurino em P&B, Direção de Arte/Cenários em P&B, História Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Audrey Hepburn), Roteiro Original, Figurino em P&B
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Audrey Hepburn)


À primeira vista, a trama central de “A princesa e o plebeu” pode fazer lembrar – e muito – o enredo de “Aconteceu naquela noite”, vencedora comédia romântica dirigida por Frank Capra em 1934. Não é por acaso: o próprio Capra tinha intenções de comandar a história de amor entre um jornalista americano e uma jovem herdeira do trono de um país qualquer da Europa, jamais identificado no roteiro. Tinha, inclusive, escolhido seu par romântico, a ser formado por Cary Grant e Elizabeth Taylor e queria filmar em locação, ou seja, levar equipe inteira para Roma e acompanhar as aventuras de seus protagonistas com tudo a que tinha direito. Lógico que as coisas não aconteceram como o previsto: a companhia independente que o cineasta havia fundado com William Wyler e George Stevens andava mal das pernas em 1949 e o projeto – caro especialmente devido à sua logística internacional – acabou na mesa da Paramount. E foi então que tudo começou a mudar.

Capra foi o primeiro a pular fora da produção – um dos motivos de sua deserção foi o envolvimento do roteirista Dalton Trumbo, então investigado pela infame Comissão de Atividades Antiamericanas que caçava comunistas na comunidade hollywoodiana – e, com ele e com o ajuste do orçamento, a possibilidade de contar com Elizabeth Taylor, já uma estrela de primeira grandeza. Seu sócio, William Wyler – que já contava no currículo com o belo “Tarde demais”, que havia dado o Oscar de melhor atriz à Olivia de Havilland – não teve problemas em trabalhar com Trumbo, mas manteve pé na ideia inicial de Capra de realizar as filmagens na capital italiana. A Paramount acabou aceitando, mas com duas condições: nada do espetacular Technicolor desejado pelo diretor e tampouco uma atriz de cachê exorbitante no papel principal. Entra Audrey Hepburn.


Descoberta pela escritora francesa Colette para viver sua personagem Gigi na peça teatral homônima, Hepburn não tinha nenhum filme no currículo quando foi escolhida para viver a ingênua e travessa princesa Ann – que Wyler preferia ter entregue à Jean Simmons, cuja negativa quase cancelou o projeto. Seu olhar expressivo e seus modos delicados, porém, lhe garantiram a chance de protagonizar um dos maiores sucessos de bilheteria de 1953 – e que acabou por lhe render um Oscar e a admiração mundial de crítica e público, encantados por seu desempenho natural e sua beleza clássica e frágil. A seu lado, um Gregory Peck poucas vezes tão à vontade em um papel – ele também uma espécie de estreante, já que nunca havia feito uma comédia, entrou no elenco graças à desistência de Cary Grant (que, dependendo da fonte, recusou o papel por considerar-se velho demais para contracenar com Hepburn ou por achar que seu personagem seria eclipsado pela princesa voluntariosa interpretada por ela) e, por uma dessas artimanhas do destino, chegou à Itália em depressão pelo iminente fim de seu casamento e conheceu a francesa Veronique – com quem casou-se logo em seguida, para o resto da vida.

Romance na vida real, romance nas telas. Mesmo que a impossibilidade de filmar a capital italiana em cores – o que realçaria seu glamour e sua luminosidade – seja algo a se lamentar no resultado final, o equilíbrio mais que perfeito entre amor e humor do roteiro e a química excepcional entre os atores compensam suficientemente. Dalton Trumbo – que ganhou o Oscar mas só foi reconhecido oficialmente como tal décadas mais tarde, quando finalmente pode assumir a autoria do roteiro, assinado à época por Ian McLellan Hunter e John Dighton – construiu uma pequena pérola de comédia romântica, que usa e abusa dos elementos do gênero com inteligência e a devida dose de ironia. Hepburn vive Ann, uma jovem princesa que, em visita a várias capitais da Europa, resolve desaparecer da vista de seus protetores para experimentar os prazeres da vida de uma pessoa comum. Cansada dos enfadonhos compromissos oficiais que lhe ocupam os dias incessantemente, ela foge durante a noite e, assumindo outro nome e com o cabelo mais curto (que virou moda no Japão, o que é mais uma prova do alcance do sucesso do filme) dá de cara com o simpático americano Joe Bradley (Gregory Peck). Assim como o personagem de Clark Gable em “Aconteceu naquela noite”, Bradley é um jornalista com o emprego em risco e que, reconhecendo na jovem à sua frente a monarca que os jornais dizem estar levemente adoentada, resolve aproveitar-se da situação para ganhar uma bela grana. Com a ajuda de um amigo fotógrafo (Eddie Albert), ele assume o cargo de cicerone da garota pelas ruas de Roma enquanto ela aproveita as delícias do anonimato. Lógico que, também como no premiado filme de Frank Capra, ele se apaixona pela bela princesa e passa a questionar sua decisão de expor a verdade.

Sem pudor de utilizar de todos os elementos clássicos do gênero, o roteiro de Dalton Trumbo encontrou na direção de William Wyler a leveza e o frescor ideais, comprovando de vez o talento do cineasta em adaptar-se aos mais variados estilos de narrativa – ele ganharia seu próprio Oscar seis anos depois, pelo épico “Ben-hur” – e deixar seus atores brilharem com performances muito acima da média. Sua vontade de afastar-se de Hollywood (leia-se o governo americano e sua paranoia vermelha) por um tempo acabou por render a seu currículo uma das comédias românticas mais fascinantes e brilhantes de todos os tempos e o mérito de ter descoberto uma das maiores estrelas da sétima arte, eternizada para sempre sorridente pelas ruas romanas em uma motocicleta alugada. Coisa de mestre!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

RASHOMON

RASHOMON (Rashomon, 1950, Daiei Motion Picture Company, 88min) Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, estórias de Ryunosuke Akutagawa. Fotografia: Kazuo Miyagawa. Montagem: Akira Kurosawa. Música: Fumio Hayasaka. Direção de arte/cenários: Takashi Matsuyama/H. Motsumoto. Produção executiva: Masaichi Nagata. Produção: Minoru Jingo. Elenco: Toshiro Mifune, Machiko Kyo, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichirijo Ueda, Noriko Honma, Daisuke Kato. Estreia: 26/8/50

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro



Um dos mais influentes e admirados diretores do cinema mundial não tem nenhum grande sucesso de bilheteria no currículo, ou tampouco fez fama se utilizando de efeitos visuais de última geração. Muitas vezes não foi mesmo reconhecido em seu país natal, sofrendo sempre com o desprezo de investidores que não reconheciam em sua filmografia a grandiosidade que o resto do mundo percebia a cada lançamento. Com filmes como “Os sete samurais” (54), “Yojimbo, o guarda-costas” (61), “Ran” (85) e Trono manchado de sangue” (57) – os dois últimos inspirados em obras de Shakespeare, o que mostra sua tendência a universalizar suas narrativas – Akira Kurosawa rompeu os limites entre o cinema oriental e ocidental e tornou-se um dos nomes mais respeitados da história do cinema. Ídolo de gente como Martin Scorsese e Steven Spielberg, Kurosawa não apenas redefiniu a forma como o público e a crítica viam o cinema japonês: tornou-se, com o tempo, o maior cineasta de seu país, fazendo escola e conquistando fãs com seu estilo poético e humanismo à toda prova.

A primeira vez em que Kurosawa deixou os espectadores de queixo caído foi em 1950, com aquele que seria uma das razões pelas quais a Academia de Hollywood criou seu hoje importantíssimo e prestigiado Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com sua estrutura fragmentada e em forma de quebra-cabeças, “Rashomon” levou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza e iniciou um namoro firme do cineasta com o Ocidente – confirmado pela refilmagem de alguns de seus trabalhos mais celebrados por cineastas cultuados como Sergio Leone, que transformou “Os sete samurais” no faroeste “Sete homens e um destino”. Com base em dois contos do escritor Ryonosuke Akutagawa – que suicidou-se aos 35 anos de idade – criou um roteiro inteligente e surpreendente, que subverte a narrativa tradicional ao apresentar uma única história sob diversos pontos de vista. Coescrito por Shinobu Hashimoto, “Rashomon” também não escapou dos olhos dos produtores americanos: virou peça de teatro, na Broadway (estrelada por Rod Steiger) e à versão “Quatro confissões”, dirigida por Martin Ritt e estrelada por Paul Newman em 1964, além, é claro, de ter inspirado dezenas de produções pelas décadas seguintes.


Aparentemente, a trama de “Rashomon” é simples e plana. Sob uma chuva torrencial, um padre (Minoru Chiaki), um plebeu (Kichijiro Ueda) e um lenhador (Takashi Shimura) se encontram debaixo do portal que dá entrada à cidade de Kyoto. Enquanto esperam que o tempo melhore, o lenhador conta aos novos amigos a inusitada experiência pela qual passou recentemente e da qual ainda não recuperou-se completamente. Tudo gira em torno do estupro de uma mulher e da subsequente morte de seu marido em uma clareira na floresta local. O lenhador descreve a investigação do crime, quando ele – que encontrou o corpo durante um passeio pelo cenário do acontecimento – depôs diante da polícia, assim como a viúva, o suposto criminoso e até uma médium, que apresenta as lembranças do ocorrido pela visão da vítima. Mas o que poderia ser simplesmente o desenrolar de uma investigação criminal muda de figura justamente porque Kurosawa embaralha as cartas do jogo e mostra para o público diferentes versões do crime, transformadas de acordo com o depoimento de cada um dos envolvidos.

É a partir daí que o roteiro – e a direção inventiva de Kurosawa – se torna uma aula de cinema. A história contada pelo bandido Tajomaru (Toshiro Mifune, um dos atores preferidos do cineasta) difere drasticamente daquela que sai da boca de Masago (Machiko Kyo) - a mulher estuprada, que ele desejou à primeira vista – e da memória da vítima fatal do caso, o samurai Takehiro (Masayuki Mori). Até mesmo a versão do lenhador oferece discrepâncias em relação ao fato, que vai sendo modificado a todo momento, de acordo com as conveniências de cada um dos entrevistados. É assim que Takehiro morre de diferentes modos diante dos olhos do público – como uma vítima de duelo, assassinado pela esposa ou até mesmo como suicida. A cada pedaço acrescentado ao quebra-cabeças, mais o diretor se diverte em aprofundar seu estilo visual, sublinhando cada emoção com uma trilha sonora adequada e truques simples para garantir o melhor efeito plástico possível. Um dos primeiros filmes a utilizar-se da hoje corriqueira técnica da câmera na mão, “Rashomon” revelou em Kurosawa um cineasta preocupado tanto com a estética quanto com o conteúdo de suas obras, motivo principal pelo qual foi tão bem recebido pela crítica do mundo inteiro – vale lembrar que nem sempre sua pátria foi tão generosa com ele, acusando-o de ocidentalizar-se em excesso (culpa talvez de sua fascinação pelo cinema norte-americano).  Houve até quem creditasse muitas das novidades narrativas dessa sua primeira obra-prima ao clássico “Cidadão Kane” (41) – algo desmentido pelo diretor, que afirmou posteriormente só ter assistido ao filme de Orson Welles alguns anos depois do lançamento de “Rashomon”.



O que importa, porém, é o quanto Kurosawa em geral e “Rashomon” em particular mudaram a história da sétima arte. Por mais que atualmente tudo aquilo que o tenha feito sobressair-se diante do panorama do cinema mundial pareça rotineiro ou pouco revolucionário, em seu tempo o filme mostrou que havia muita vida fora do circuito americano e europeu no modo de se fazer filmes. Encantou a crítica, conquistou cinéfilos mais antenados, lançou Toshiro Mifune mundo afora, influenciou roteiristas e cineastas e, mais do que tudo, ousou acabar sua história sem apresentar um final definitivo, preferindo deixar à plateia o sabor de descobrir, a cada revisão, novas camadas de sua trama. O final feliz, representado pela pureza de um bebê abandonado, é a chave de ouro de um filme irretocável e imperdível para quem busca conhecer o cinema em todo o seu potencial. Sensacional!