segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MARATONA DA MORTE

MARATONA DA MORTE (Marathon man, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: William Goldman, romance de William Goldman. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Jim Clark. Música: Michael Small. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/George Gaines. Produção: Sidney Beckerman, Robert Evans. Elenco: Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane, Marthe Keller. Estreia: 06/10/76

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Laurence Olivier) 

Pode-se dizer, sem medo de errar, que existe o cinema policial e o cinema policial americano dos anos 70, com características próprias que o diferenciam substancialmente de outros exemplares do gênero. Não apenas pelo visual inconfundível - fotografia granulada, figurino típico da época - mas também e principalmente pelo estilo seco e direto de contar uma história, apostando na inteligência do espectador e apontando para temas relevantes e realistas. Al Pacino foi um dos grandes ícones do período, estrelando obras-primas como "Um dia de cão" (75) e "Serpico" (73), ambos dirigidos por Sidney Lumet. Não por acaso, Pacino, com seu jeito de homem comum, foi a primeira escolha do cineasta inglês John Schlesinger para protagonizar "Maratona da morte", adaptação do romance de William Goldman que tinha todos os elementos necessários a um eletrizante exemplar do gênero. O problema é que o produtor do filme, o todo-poderoso da Paramount Pictures, Robert Evans, não era exatamente um fã de Pacino - a quem tentou demitir das filmagens de "O poderoso chefão" (72) e apelidou maldosamente de "anão" - e vetou a ideia de Schlesinger, indicando outro pequeno grande ator para o papel do frágil protagonista Babe Levy: Dustin Hoffman.

Repetindo a parceria com o diretor que havia lhe dado o inesquecível Ratzo de "Perdidos na noite" (69), Hoffman entrega mais uma memorável atuação, tornando crível até mesmo o fato de, aos 38 anos, interpretar um estudante universitário muitos anos mais jovem - algo que já havia feito com propriedade em sua estreia nas telas, "A primeira noite de um homem" (67). Ele está completamente à vontade como Thomas "Babe" Levy, um rapaz que cursa a faculdade de História como forma de honrar a memória do pai, que cometeu suicídio após ter a reputação arruinada pela perseguição política no período do infame macarthismo - a caça aos comunistas que tomou conta dos EUA nos anos 50. Inteligente e dedicado, ele vê sua pacata rotina completamente alterada quando o inesperado retorno de seu irmão mais velho, Doc (Roy Scheider), acaba em uma tragédia que o transforma em alvo de uma misteriosa organização que tem ligações com o temível Christian Szell (Laurence Olivier), um criminoso nazista que abandona seu exílio para buscar, em Nova York, um valioso tesouro em diamantes. Nessa situação ambígua e aflitiva, ele não consegue confiar nem mesmo na nova namorada, a suíça Elsa Opel (Marthe Keller), que parece saber mais do que aparenta.


Inserindo aos poucos as informações a respeito de seus personagens e sua trama - uma aposta arriscada que o público atual, mal acostumado com roteiros quase didáticos - Schlesinger não poupa a plateia de cenas bastante violentas e uma dose de crueldade quase excessiva. Sua sequência mais famosa, em que Szell tortura Babe com uma broca de dentista, por exemplo, chegou a ter sua duração cortada na edição final, depois de reclamações sobre seu conteúdo, apesar de figurar, hoje em dia, em seletas listas que elegem as melhores cenas da história do cinema. Boa parte de sua tensão vem da forma como o cineasta constrói sua narrativa, com cortes secos e um senso de desorientação que aproxima a audiência do protagonista, uma pessoa normal diante de um turbilhão de violência inesperado e angustiante. O roteiro, adaptado pelo próprio William Goldman - que modificou, a contragosto, o final da história - não facilita as coisas para o público, que passa quase metade do filme sem ter a menor ideia de como personagens tão díspares - um estudante, um criminoso nazista e um executivo constantemente em viagens ao exterior - podem estar conectados. A paciência, porém, oferece um prêmio a partir da entrada de Laurence Olivier em cena: seu Christian Szell, é, sem dúvida, uma de suas maiores criações no cinema - e isso que ele fez todas as suas cenas sob forte medicação para tratamento de um câncer que todos acreditavam que seria fatal. Não apenas Olivier sobreviveu à doença como levou um Golden Globe e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho - e só morreu em 1989, aos 82 anos de idade.

A presença de Olivier no elenco de "A maratona da morte", no entanto, quase não aconteceu. Preocupados com seu estado de saúde precário, os executivos da Paramount não sentiam-se seguros em tê-lo em seu elenco. Foi preciso que Robert Evans apelasse aos veteranos David Niven e Merle Oberon para que eles pressionassem uma companhia de seguros londrina para que o grande intérprete shakespereano finalmente pudesse assinar contrato para interpretar o cruel Christian Szell. Demonstrando seu talento acima do normal, Olivier não deixou que sua condição médica ficasse em seu caminho - nem sua dificuldade de lembrar seus diálogos, consequência dos efeitos colaterais de seus remédios para dor - e entregou uma performance assustadora que ficou em 34º lugar em uma enquete feita pelo AFI (American Film Institute) sobre os maiores vilões na ocasião do centenário do cinema. Seu trabalho consegue até mesmo ofuscar a intensa atuação de Dustin Hoffman - em um de seus melhores momentos na carreira, diga-se de passagem - e disfarçar o ritmo um tanto lento da primeira hora de duração do filme. Não é injusto dizer que "A maratona da morte", apesar de suas qualidades, deve boa parte de sua permanência na memória graças à potência de Olivier como ator, em um show inesquecível. O filme como um todo pode não agradar a todo mundo, mas sua atuação chega a ser milagrosa.

domingo, 30 de outubro de 2016

A PROFECIA

A PROFECIA (The omen, 1976, 20th Century Fox, 111min) Direção: Richard Donner. Roteiro: David Seltzer. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Stuard Baird. Música: Jerry Goldsmith. Direção de arte: Carmen Dillon. Produção executiva: Mace Neufeld. Produção: Harvey Bernhard. Elenco: Gregory Peck, Lee Remick, David Warner, Billie Whitelaw, Harvey Stephens, Patrick Thoughton, Martin Benson. Estreia: 06/6/76 (Inglaterra)

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Ave Satani")
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original

Em 1976, filmes de terror não eram mais objetos de desprezo pelos produtores de Hollywood, especialmente se envolvessem a eterna discussão sobre a existência ou não do demônio. Com o sucesso de bilheteria e crítica de "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73) - que chegaram até a ganhar Oscar - qualquer estúdio que prezasse por sua conta bancária passou a ver o gênero como uma galinha dos ovos de ouro. A 20th Century Fox, no entanto, quase deixou a sua escapar: o roteiro de "A profecia", escrito por David Seltzer (unica e exclusivamente por motivos financeiros, como ele mesmo assume), havia sido rejeitado pelo estúdio e estava nas mãos da Warner Bros quando Richard Donner - então um diretor apenas de filmes para a televisão - decidiu que tinha total condição de fazer dele a sua estreia como cineasta. Empolgado com a história, convenceu o chefão Alan Ladd Jr. (filho do eterno Shane, de "Os brutos também amam") a recuperar os direitos de filmagem - aproveitando que a Warner optou por uma sequência de "O exorcista" - e, com um ator do porte de Gregory Peck como protagonista, criou aquele que seria seu primeiro grande sucesso comercial, em uma carreira que inclui "Superman, o filme" (78), "Os goonies" (85) e a cinessérie "Máquina mortífera" (que começou em 1987). Mas até que o filme finalmente estreasse, na estratégica data de 6 de junho de 1976 (666), ninguém poderia ter a certeza de que a empreitada daria certo - ou se ao menos chegaria às telas.

Como acontece frequentemente quando se trata de filmes de terror icônicos - caso de "O exorcista", principalmente - acontecimentos nos bastidores de "A profecia" deixaram muita gente com os nervos à flor da pele. O fato de Gregory Peck ter aceito o papel principal - de um embaixador que perdeu o filho recém-nascido e anos mais tarde se vê obrigado a tomar uma decisão que pai nenhum gostaria de tomar - foi o primeiro sinal de que um filme diferente estava por vir: o filho do ator havia cometido suicídio em 1975, e muitos não imaginavam que ele pudesse querer viver na tela uma história tão forte em termos emocionais. Foi o "sim" de Peck, no entanto, que avalizou o projeto junto aos produtores e a nomes como o de Lee Remick - indicada ao Oscar por "Vício maldito" (62). Com o prestigiado ator no elenco - com o salário diminuído, mas com um contrato que lhe renderia 10% da bilheteria do filme - Donner mostrava a todos que seu primeiro trabalho para o cinema não seria um filme de terror qualquer. E então começaram os tétricos incidentes.

Coincidência ou não, uma série de eventos estranhos tomou conta dos bastidores das filmagens. Aviões diferentes que levavam Gregory Peck e o roteirista David Seltzer para Londres foram atingidos por raios com poucas horas de diferença; o produtor Harvey Bernhard escapou por pouco de ser atingido por outro raio, quando estava em Roma; cães escalados para o filme atacaram seus treinadores sem razão aparente; o diretor Richard Donner foi atropelado e o hotel onde estava hospedado na capital inglesa foi alvo de um atentado à bomba praticado pelo IRA; um avião que deveria estar levando Peck de Israel para Los Angeles caiu, matando os cinco passageiros japoneses que estavam a bordo; e a namorada do técnico em efeitos visuais John Richardson foi decapitada em um acidente automobilístico em uma estrada da Holanda, perto de uma cidade chamada Ommen. Não foi por acaso que o Vaticano declarou-se francamente contra a produção e muitos roteiristas anteriores a Seltzer se recusaram a tomar parte no projeto. Mal sabiam que, apesar de tudo, "A profecia" se tornaria um dos maiores sucessos de bilheteria de 1976, daria origem a sequências e daria o único Oscar da carreira do músico Jerry Goldsmith - além de um desnecessário remake em 2006.


Acertadamente assumindo um tom sério e realista "A profecia" começa com uma tragédia familiar: Robert Thorn (Gregory Peck), embaixador dos EUA em Roma, descobre que seu filho recém-nascido morreu logo após o parto e, para impedir que sua esposa, Katherine (Lee Remick), saiba do acontecido, aceita assumir a paternidade de um bebê órfão, oferecido pelo dedicado padre que cuida da maternidade. Alguns anos depois, já alocados em Londres, estranhos acontecimentos começam a cercar a família, a partir do suicídio da jovem babá do pequeno Damien (Harvey Stephens) e da chegada do perturbado Padre Brennan (Patrick Troughton), que procura o político para alertá-lo sobre as reais origens do menino - que estaria ligado a uma profecia a respeito da chegada do anticristo. A princípio cético, aos poucos Thorn passa a desconfiar de que a verdade pode ser muito mais aterradora do que ele poderia supor, e, com a ajuda do fotógrafo (David Warner), parte em busca de uma solução menos trágica do que gostaria.

Pontuado pela oscarizada trilha sonora de Jerry Goldsmith e cercado de uma atmosfera sinistra que enfatiza o tom cru da narrativa, "A profecia" é um perfeito exemplar dos melhores filmes de terror já realizados em Hollywood. Sem apelar para alívios cômicos ou para sangue em excesso, Richard Donner acaba por construir um conto macabro e tenso, em que o público é conduzido por um caminho repleto de sustos e revelações macabras, que se aproveitam de uma base religiosa bastante conhecida - o Livro do Apocalipse - para atingir um nível perturbador e realista. Com interpretações seguras e inspiradas de Gregory Peck (em papel recusado por Charlton Heston, Roy Scheider e William Holden) e Lee Remick - além do estreante Harvey Stephens no papel do demoníaco Damien - e uma edição concisa e eficiente, é um clássico absoluto do gênero, capaz de causar tensão mesmo nesses tempos em que efeitos visuais e orçamentos milionários parecem mais importantes do que boas histórias. Um filme de terror que se leva a sério, o que faz uma imensa diferença!

sábado, 29 de outubro de 2016

TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO E TINHA MEDO DE PERGUNTAR

TUDO O QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE SEXO E TINHA MEDO DE PERGUNTAR (Everything you always wanted to know about sex * but were afraid to ask, 1972, United Artists, 88min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, livro de David Reuben. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Eric Albertson. Música: Mundell Lowe. Direção de arte/cenários: Dale Hennesy/Marvin March. Produção executiva: Jack Brodsky, Elliot Gould. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Gene Wilder, Burt Reynolds, Lynn Redgrave, Louise Lasser, John Carradine. Estreia: 06/8/72

Uma noite, enquanto assistia a uma reprise do programa de televisão "The Tonight Show Starring Johnny Carson", Woody Allen viu o médico David Reuben responder a uma pergunta do jornalista com uma piada sua, dizendo que sexo só era sujo quando feito da maneira certa. Um tanto indignado com a falta de crédito pela brincadeira, Allen teve, então, uma ideia que era um misto de vingança divertida e uma forma de dar continuidade à sua então ainda incipiente carreira no cinema: utilizar o livro de Reuben - com o prepotente título "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar" - como base para uma série de esquetes cômicos a respeito do assunto. Comprando os direitos da publicação, que estavam em poder da Paramount Pictures e do ator Elliot Gould (que ficou com o crédito de produtor executivo), Allen resolveu usar apenas o título do livro e de alguns capítulos e criar livremente sobre um tema extremamente popular, o que lhe rendeu um de seus maiores sucessos de público nos anos 70 - e logicamente desagradou ao doutor Reuben.

Se em seus filmes anteriores Allen ainda criava uma linha dramática - ainda que tênue - para contar suas piadas, em "Tudo o que você..." ele se livra de vez das amarras da narrativa tradicional para assumir sem medo seu objetivo de fazer rir descompromissadamente, sem preocupar-se em contar uma história com início, meio e fim (o que, de certa forma, deixava seus primeiros trabalhos um tanto irregulares). Sendo assim, ele convida a plateia a adentrar em um mundo surreal, que visita a Idade Média, o cinema existencialista italiano dos anos 60, a ficção científica de terror e os programas de entretenimento da televisão. Sem medo de brincar com tabus - homossexualidade, zoofilia, frigidez - o diretor/ator/roteirista pela primeira vez demonstra cuidado com outros aspectos da realização cinematográfica, como fotografia e edição, o que acabaria por refletir-se em seus filmes seguintes e lhe daria um Oscar em 1977 por "Noivo neurótico, noiva nervosa".


O filme começa com "Afrodisíacos funcionam?", segmento em que Allen interpreta um bobo-da-corte que, seguindo a orientação do fantasma de seu pai assassinado (citação explícita de "Hamlet"), resolve seduzir a Rainha (Lynn Redgrave) através de uma bebida afrodisíaca - e acaba esbarrando em um inesperado problema logístico que pode lhe custar a vida. Em seguida, é a vez de "O que é sodomia?", a surreal história de amor entre um médico, Doug Ross (Gene Wilder, brilhante), e uma ovelha - talvez o mais absurdo e engraçado dentre todos os pequenos contos. A terceira história é "Por que algumas mulheres não conseguem atingir o orgasmo?", homenagem de Allen ao cinema existencial de Michelangelo Antonioni, com ângulos criativos e um clima de densidade psicológica quebrada apenas pelo tom cômico impresso nos problemas conjugais entre um jovem casal (o diretor e sua ex-mulher Louise Lasser) que enfrentam a dificuldade da esposa em ter prazer em suas relações sexuais até finalmente descobrir a causa de tal questão. Logo depois, vem o bizarro "Travestis são homossexuais?", em que um pai de família tradicional e respeitável tem seu segredo (vestir-se de mulher às escondidas) revelado da maneira mais desagradável possível.

O filme segue com "O que são pervertidos sexuais?", em que Allen critica contundentemente os programas sensacionalistas de tv, retratando uma atração onde convidados tentam adivinhar a tara de pessoas alheias - e aqueles premiados tem seus desejos atendidos ao vivo. "Os experimentos dos médicos que fazem pesquisas sexuais são precisos?" mergulha o público em uma brincadeira com filmes de ficção científica trash ao contar as desventuras do pesquisador Victor Shakapopoulus (Allen) e da jornalista Helen Lacey (Heather Macrae) quando percebem que o famoso Dr. Bernardo (John Carradine), célebre por suas experiências na área da sexualidade, está criando um gigantesco seio que passa a aterrorizar uma pequena cidade local. Finalizando, "O que acontece na ejaculação" - curta que abriria o filme mas que foi deixado para o desfecho graças a vários conselhos que o consideravam o melhor segmento - mostra, de forma irônica, o funcionamento do organismo de um homem prestes a manter relações sexuais, desde o cérebro até seus espermatozoides, focalizando em um específico (também vivido pelo diretor), temeroso de seu destino fora do corpo. É um episódio genial, desde sua concepção até sua realização, divertida e inteligente, com a participação especial de Burt Reynolds.

No final das contas, "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar" é um dos mais bem-acabados filmes do início da carreira cinematográfica de Woody Allen. Equilibrando diálogos ágeis e espertos com a utilização competente das ferramentas do cinema, Allen deu um grande passo à frente, conquistando uma bilheteria razoável e o poder de realizar algumas de suas obras seminais da década de 70, que viriam logo após e o confirmariam como um dos mais importantes nomes de Hollywood. Mesmo com duas histórias fora do conjunto final - uma a respeito de masturbação, passada no período bíblico e outra sobre homossexualidade estrelada por um casal de aranhas - é uma comédia acima da média, que faz rir de um tema considerado complicado sem apelar para a baixaria ou a vulgaridade. Um clássico!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

BANANAS

BANANAS (Bananas, 1971, MGM/United Artists, 82min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Andrew M. Costykan. Montagem: Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Música: Marvin Hamlish. Figurino: Gene Coffin. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Herbert F. Mulligan. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Jack Grossberg. Elenco: Woody Allen, Louise Lasser, Carlos Montalbán, Natividad Abascal, Jacobo Morales, Sylvester Stallone.Estreia: 28/4/71

Antes de tornar-se uma griffe, com estilo próprio e facilmente reconhecível, prestigiado com o Oscar em várias ocasiões - a primeira delas em 1977, por "Noivo neurótico, noiva nervosa" - e um dos mais respeitados cineastas e roteiristas de Hollywood, o nova-iorquino de corpo e alma Woody Allen era considerado apenas mais um diretor de comédias ligeiras, surgido dos palcos de stand-up e capaz de rir de si mesmo e de suas origens judaicas. Seus dois primeiros filmes, "O que há, tigresa" (66) - na verdade um filme chinês dublado com diálogos nonsense - e "Um assaltante bem trapalhão" (69), mostravam de forma clara seu talento para um humor verbal impiedoso e inteligente, mas careciam de uma linha narrativa mais forte. Não foi o que aconteceu com sua terceira incursão às telas, como pode ser visto em "Bananas", lançado em 1971 e que mantém o estilo de suas primeiras produções. Com mais liberdade criativa do que antes - mas ainda preso a uma forma já testada e aprovada - Allen faz rir equilibrando com maestria (desde então) simplicidade e sofisticação.

A ideia central de "Bananas" surgiu quando Sam Katzman, produtor de filmes B, ofereceu à Allen e seu corroteirista Mickey Rose a adaptação de um livro sobre as ditaduras da América do Sul. Sofrendo com a mediocridade do material original, os dois resolveram começar do zero, criando a história (tênue, mas essencial) de um homem comum jogado no olho de um furacão político com o qual não tem a menor compatibilidade. Tal protagonista, perfeito para as limitações de Woody Allen como ator (que ele mesmo reconhece publicamente), é Fielding Mellish, que tem o emprego pouco empolgante de testar produtos para empresas comerciais - como uma mesa de escritório para executivos que querem manter a forma sem ir à academia. Desajeitado com as mulheres, ele se apaixona pela ativista política Nancy (Louise Lasser, a primeira mulher do diretor) e, para não perdê-la, resolve pedir demissão e seguí-la até San Marcos, um país da América do Sul que acaba de tornar-se vítima de um golpe de estado ditatorial. Sua intenção é juntar-se aos rebeldes e provar a ela seu potencial de líder, mas é claro que as coisas não acontecem como o previsto em seu caminho para o coração da amada.


Como já havia feito em "Um assaltante bem trapalhão", Woody Allen se utiliza dessa história quase simplória para servir de base de um filme que é, na verdade, uma série de sequências cômicas que exploram ao máximo seu talento em extrair o máximo de situações aparentemente imunes ao deboche. Desde as primeiras cenas, quando um repórter narra o assassinato do presidente de San Marcos e entrevista o novo ditador (vivido por Carlos Montalbán), o roteiro é uma sucessão de momentos histriônicos dos mais variados níveis. Há desde as piadas visuais - que mostram Fielding testando produtos bizarros e seu treinamento como revolucionário - até alguns momentos em que Allen pode exibir seus dotes de grande autor de diálogos absurdos. Mesmo que seus méritos como diretor de atores ainda não estivesse em alta (talvez até pela falta da força de seus personagens coadjuvantes, que servem basicamente de escada para seu show particular), é perceptível sua força em criar uma unidade narrativa e um arco dramático para seu protagonista, uma tentativa que culminaria em seu primeiro grande sucesso de crítica, o já citado "Noivo neurótico, noiva nervosa", que mantém suas características de comédia, mas unidas a um todo mais coeso e relevante.

"Bananas" é, na verdade, mais um excelente campo de treinamento para o grande cineasta que Woody Allen viria a tornar-se em poucos anos. Engraçado, inteligente e rápido como uma boa piada, está a anos-luz de seus maiores filmes, mas diverte sem fazer muito esforço ou exigir do espectador mais do que a disposição de se deixar levar por um humor inconsequente mas de grande qualidade. E de quebra, há ainda a participação de um ainda desconhecido Sylvester Stallone em uma cena no metrô - ninguém diria que dali a quatro anos, o ator estaria sendo consagrado pela Academia por seu "Rocky, um lutador" (antes mesmo do reconhecimento ao próprio Allen!). Coisas de Hollywood.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO

UM CONVIDADO BEM TRAPALHÃO (The party, 1968, The Mirisch Corporation, 99min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Blake Edwards, Tom Waldman, Frank Waldman, estória de Blake Edwards. Fotografia: Lucien Ballard. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry Mancini. Figurino: Jack Baer. Direção de arte/cenários: Fernando Carrere/Reginald Allen, Jack Stevens. Produção: Blake Edwards. Elenco: Peter Sellers, Claudine Longet, Natalia Borisova, Jean Carson, Steve Franken. Estreia: 04/4/68

O dia 04 de abril de 1968 ficou marcado internacionalmente por uma tragédia ainda não totalmente digerida pela sociedade em geral e pela norte-americana em particular: o assassinato de Martin Luther King, que abalou os alicerces das lutas pelos direitos civis e - pela primeira e única vez até hoje - chegou a obrigar os organizadores da entrega do Oscar a adiar a cerimônia por dois dias, em sinal de luto. Porém, nem mesmo essa mancha na história dos EUA foi suficiente para impedir que uma das estreias do dia nos cinemas na data se transformasse em um grande sucesso de bilheteria mesmo sendo uma comédia. Talvez por causa disso, aliás, "Um convidado bem trapalhão" tenha encontrado seu público: em um período tão sombrio o que poderia ser melhor do que esconder-se em uma sala de cinema e dar gargalhadas despretensiosas com o talento superlativo de um ator como Peter Sellers? Em sua única colaboração com o cineasta Blake Edwards fora da série "A pantera cor-de-rosa", "Um convidado bem trapalhão" é também um de seus melhores e mais bem-acabados trabalhos, repleto de sequências memoráveis, tão bem conectadas que fica difícil de acreditar que boa parte delas foi improvisada durante as filmagens.

Com base em um pré-roteiro de 56 páginas criado por Edwards, "Um convidado bem trapalhão" foi construído cena a cena, de acordo com o que era filmado a cada dia - e com um cuidado extremo a detalhes e piadas constantes, muitas vezes acontecendo em segundo plano. Aproveitando ao máximo a capacidade de Peter Sellers em fazer humor sem precisar nem ao mesmo falar, o cineasta de obras tão díspares quanto "Bonequinha de luxo" (62) e "Vício maldito" (63) atinge um nível extraordinário de comédia, equilibrando com inteligência um humor visual caprichado e a extravagância típica do cinema dos anos 60, com a contracultura e o movimento hippie ocupando espaço crucial na narrativa em seu terço final - menos brilhante, mas ainda assim dotado de cenas capazes de tirar o mau-humor de qualquer um. É como se Edwards tivesse estendido por uma hora e meia a ótima sequência da festa oferecida por Audrey Hepburn em "Bonequinha de luxo", extrapolando todos os limites de destruição involuntária que fizeram a glória, décadas mais tarde, de personagens como o Mr. Bean, criado pelo inglês Rowan Atkinson. O protagonista do filme, a ator indiano Hundri Bakshi, é, sem dúvida, uma das criações mais geniais de Sellers.


A sequência inicial já deixa claro o tipo de humor que virá pela frente: tentando a sorte em Hollywood, o atrapalhado Bakshi consegue, no mesmo dia, tirar a paciência do seu diretor e explodir um dispendioso cenário construído para um filme épico. Jurado pelos produtores de jamais conseguir um novo trabalho na cidade, ele acaba, por engano, na lista de convidados para uma festa na casa justamente do produtor do filme que arruinou. Sem questionar tal incoerência - por ingenuidade pura - ele aceita o convite e, mal chega à recepção em seu carro minúsculo (que estaciona entre dois outros bem maiores) e começa uma sinfonia de destruição, a partir de seu sapato perdido no lago artificial da mansão. Tentando enturmar-se com os convidados - em especial com a bela atriz Michele Monet (Claudine Longet) - Bashki transforma a festa em uma profusão de absurdos, normalmente ignorados pelos demais presentes. Pra piorar a situação, um dos garçons, Levinson (Steve Franken), não consegue resistir às bebidas oferecidas e, completamente bêbado, colabora para o caos instaurado pelo ator indiano.

Milimetricamente calculado em seu impecável timing cômico, o desenrolar de "Um convidado bem trapalhão" é um filme que se aproveita do cotidiano para extrair seu humor. As desventuras de Bakshi acontecem com naturalidade, de forma crível, ainda que inusitada - a melhor forma de se fazer rir. Com seu rosto impassível, Peter Sellers arrebata a plateia com uma ingenuidade à toda prova, provocando o riso pela vergonha alheia e não pela vulgaridade que acometeria o cinema americano a partir dos anos 70. Mesmo tendo estreado no final da década de 60, um período mais liberal em termos de se tratar a questão no cinema, o filme de Edwards passa ao largo de qualquer conotação sexual, investindo em um humor simples, simpático e agradável, capaz de agradar a públicos de todas as idades - desde que dispostos a resgatar uma pureza imprescindível para sua melhor degustação. "Um convidado bem trapalhão" é uma comédia das boas, direta e eficaz como somente os grandes conseguem realizar - e aqui tem-se dois exemplos impecáveis do gênero, o sofisticado Blake Edwards e o camaleão Peter Sellers. Sem contra-indicações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DESCALÇOS NO PARQUE

DESCALÇOS NO PARQUE (Barefoot in the park, 1967, Paramount Pictures, 106min) Direção: Gene Sacks. Roteiro: Neil Simon, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: William Lyon. Música: Neal Hefti. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Arthur Krams. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Charles Boyer, Mildred Natwick, Herbert Edelman, Mabel Albertson. Estreia: 25/02/67

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Mildred Natwick)

Um dos mais populares dramaturgos americanos de sua geração, Neil Simon nem precisava ir muito longe para buscar inspiração para seus textos, sempre recheados de fina ironia e um senso de humor inteligente. Seus casamentos, por exemplo, forneciam matéria-prima mais do que suficiente para suas peças de teatro, invariavelmente bem-sucedidas tanto nos palcos quanto nas telas de cinema. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "Descalços no parque", que escreveu inspirado nas primeiras semanas de seu relacionamento com a dançarina Joan Bain. Lançada como espetáculo da Broadway em 1963 (dirigida por Mike Nichols) e adaptada para o cinema pelo próprio autor, a história de amor e desavença entre um casal que descobre que casamento é mais do que a lua-de-mel acabou por se tornar o primeiro sucesso de bilheteria das carreiras de dois então jovens atores que não demorariam em virar ídolos: Robert Redford e Jane Fonda.

Redford já tinha defendido seu personagem, o advogado certinho Paul Bratter, nos palcos, e sua presença no filme de estreia do diretor Gene Sacks revelava um inesperado timing cômico que seria ainda mais depurado em dois de seus filmes mais populares que viriam a seguir - "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69) e "Golpe de mestre" (73), ambos ao lado do colega Paul Newman. Enquanto isso, a filha de Henry Fonda vinha de produções que nem de longe exploravam todo o seu potencial como atriz e mulher bonita, como "Até os fortes vacilam" (60), com Anthony Perkins e "Dívida de sangue" (65), realizado ao lado de Lee Marvin. Na pele da descolada e vivaz Corie, cuja espontaneidade contrasta radicalmente com a rigidez do marido, Jane deu o primeiro passo em direção ao sucesso de público e crítica que viria a lhe render dois Oscar na década de 70, juntamente com uma sucessão de polêmicas envolvendo sua militância contra a Guerra do Vietnã. Em 1967, quando o filme estreou, ambos eram apenas talentosos jovens atores em busca de um lugar ao sol - e seus desempenhos exalavam um frescor perceptível ainda hoje, a despeito do fato de o filme não ter mantido o mesmo nível de atemporalidade de suas atuações.


"Descalços no parque" começa logo após a cerimônia de casamento dos jovens, belos e saudáveis Paul e Corie Bratter, que vão demorar menos de uma semana para perceberem que a vida de casados não se resume aos seis dias que passam trancados no quarto de um hotel. Logo que se mudam para o minúsculo apartamento no quinto andar de um prédio sem elevadores - escolhido por Corie em sua ânsia de aventurar-se na rotina matrimonial - os dois passam a encarar crise após crise, seja devido ao tamanho reduzido de seu lar, seja por causa da vizinhança bizarra ou até mesmo por começarem a notar um no outro traços de personalidade pouco atraentes. Corie despreza o jeito conservador do marido, que, por sua vez, percebe na esposa um desejo quase infantil de aproveitar cada prazer da vida - inclusive ao lado do excêntrico vizinho, Victor Velasco (Charles Boyer), que ela pretende casar com sua mãe, Ethel (Mildred Natwick, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). A crise, que aparenta ser passageira, acaba por estender-se mais do que o esperado, e ambos serão obrigados a questionar seu casamento.

Analisado friamente, "Descalços no parque" não acrescenta nada ao gênero comédia romântica - ainda que mereça crédito por subverter a fórmula "rapaz encontra moça" e já começar sua narrativa com o casal de protagonistas casado. Porém, alguns diálogos brilhantes e o elenco impecável compensam certos momentos mais lentos e desnecessários. Muito do que funciona - as referências constantes às escadas que levam ao apartamento, por exemplo - vem do talento de Neil Simon em extrair humor do cotidiano e da química faiscante entre Robert Redford e Jane Fonda em seu terceiro filme juntos - eles ainda contracenaram em "O cavaleiro elétrico", em 1979, já consagrados. Eles são tão agradáveis e carismáticos que sempre que estão em cena fazem esquecer a perda de ritmo de determinadas situações criadas pelo roteiro e transformam um filme simples e despretensioso em um entretenimento acima da média. Para assistir em um domingo chuvoso nada melhor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

TODAS AS NOITES ÀS NOVE

TODAS AS NOITES ÀS NOVE (Our mother's house, 1967, Filmways/Heron Film Productions, 104min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: Jeremy Brooks, Haya Harareet, romance de Julian Gloag. Fotografia: Larry Pizer. Montagem: Tom Priestley. Música: Georges Delerue. Direção de arte/cenários: Reece Pemberton/Ian Whittaker. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Jack Clayton. Elenco: Dirk Bogarde, Margaret Lecrere, Pamela Franklin, Louis Sheldon Williams, John Gugolka. Estreia: 09/10/67

Em 1961, o cineasta britânico Jack Clayton honrou a prosa do escritor Henry James com um dos mais assustadores contos de terror da década, o impressionante "Os inocentes", baseado no conto "A volta do parafuso". Seis anos depois, mais uma vez voltou sua atenção para as possibilidades dramáticas e amedrontadoras da infância com um filme perturbador e desconfortável chamado "Todas as noites às nove". Baseado em romance de Julian Gloag e dessa vez sem apelar para o sobrenatural, Clayton construiu uma narrativa frequentemente incômoda, que mergulhava o espectador em um brutal suspense psicológico que tinha como protagonistas um grupo de órfãos excêntricos que, aos poucos, passam da inocência para a violência, catalisada pela presença inesperada de um estranho no ninho. Com uma trama sombria e imprevisível em mãos, Clayton nem precisou de grandes nomes internacionais em seu elenco - apenas Dirk Bogarde era conhecido do grande público, e mesmo assim dificilmente poderia ser considerado um astro de primeira grandeza - para prender a atenção da plateia até seus minutos finais. E boa parte desse êxito vem do elenco infantil, coeso e intenso como necessário.

A trama de "Todas as noites às nove" começa com a morte da religiosa e frágil matriarca da família Hook, que vive em uma espaçosa localizada em Londres. Sua morte, depois de um longo tempo de doença, não chega a surpreender suas sete crianças, que vivem sem a presença do pai, que as abandonou há muito tempo. Temendo que, sendo órfãos, sejam separados e levados para instituições diferentes, os irmãos resolvem, então, esconder a morte da mãe, enterrando seu corpo no jardim, demitindo a empregada, Sra. Quayle (Yootha Joyce), e fingindo levar uma vida normal. Falsificando a assinatura da responsável pela casa em seus cheques e frequentando rotineiramente as aulas, as crianças ainda conseguem comunicação com a falecida através de mensagens que ela manda por intermédio de uma das filhas mais velhas, Diana (Pamela Franklin). É lógico que algumas pessoas começam a desconfiar da situação, mas o inesperado retorno do pai da família, Charlie (Dirk Bogarde), põe tudo nos devidos lugares - ao menos externamente, já que sua volta irá acarretar ainda mais problemas e conflitos dentro do casarão. Inconsequente, beberrão e mulherengo, Charlie aos poucos passa a mandar no dia-a-dia do clã, o que passa a incomodar aos antigos líderes: os filhos mais velhos.


Competente em dirigir crianças - como bem comprovado em "Os inocentes" - Jack Clayton escolheu a dedo um elenco infanto-juvenil, sabendo que seriam os atores mirins que dariam consistência ao filme apesar da experiência e do nome de Bogarde. Dos sete atores principais, poucos seguiram uma carreira de sucesso na vida adulta, e mesmo assim, com sucesso apenas relativo - Pamela Franklin, que interpretou Diana, a irmã que conseguia comunicar-se com a mãe morta, marcou presença no elenco de produções importantes como "Primavera de uma solteirona" (69) e "A casa da noite eterna" (73), e Mark Lester, o gago Jiminee, que falsificava a assinatura da morta para descontar seus cheques, assumiu a protagonização do oscarizado "Oliver" (68), mas abandonou as telas no início da década de 80. Mesmo assim, é impressionante a coesão atingida por Clayton, que faz grandes intérpretes de todos os pequenos atores, tanto nos momentos mais emotivos quanto nas cenas de maior tensão: a primeira parte do filme, quando aparentemente as mensagens do além querem dominar a família, é repleta de uma tensão constante e sutil, e é surpreendente a entrega de todo o elenco.

Com um visual obviamente um tanto datado - desde a fotografia até o figurino deixam claro sua origem sessentista - "Todas as noites às nove" é um típico filme cult, capaz de agradar em cheio aos espectadores que procuram por obras de suspense que não se escoram em sangue ou vísceras. Mesmo que por vezes dê a impressão de parecer muito mais lento do que precisa, é uma produção inteligente e dotada de sutileza, além de abrir espaço para discussões sobre poder e submissão. Não é uma obra-prima como "Os inocentes", mas tem clima, tensão e uma dose extra de desconforto com que muitas produções atuais nem sequer pensam em transmitir, além de mais uma grande atuação de Dirk Bogarde, um dos atores mais subestimados de sua geração. Vale a pena a experiência!

domingo, 23 de outubro de 2016

A DANÇA DOS VAMPIROS

A DANÇA DOS VAMPIROS (Dance with the vampires, 1967, FilmWay Pictures, 108min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Christopher Komeda. Figurino: Sophie Devine. Direção de arte/cenários: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Roman Polanski. Elenco: Jack McGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Jessie Robbins, Sharon Tate. Estreia: 13/11/67

Depois de fazer um primeiro filme em inglês que conquistou a crítica com um suspense psicológico milimetricamente calculado - "Repulsa ao sexo" (65) - e uma obra mais pessoal, repleta de um humor negro perturbador - "Armadilha do destino" (66) - o cineasta polonês Roman Polanski mais uma vez pegou todo mundo de surpresa com seu filme seguinte. Uma subversão ao mito dos vampiros, recheado de humor nonsense e realizado com um visual camp dos mais deliciosos, "A dança dos vampiros" foi uma lufada de ar fresco dentro da filmografia de Polanski, até então carregada de paranoia, tensão extrema e angústia. Apelando para o humor puro e simples, o diretor e seu corroteirista Gérard Brach, da forma mais iconoclasta e debochada possível, resolveram brincar com os paradigmas do cinema de horror britânico - em especial os filmes dos estúdios Hammer, especialista no gênero - e construíram um cult de nascença, tornado ainda mais macabramente famoso depois da violenta morte de uma de suas estrelas, a atriz Sharon Tate, assassinada aos oito meses de gravidez, em agosto de 1969, menos de dois anos depois de sua estreia.

Casada com Polanski, Sharon Tate morreu nas mãos de um grupo de jovens comandados de forma cega por Charles Manson - que se achava a reencarnação de Cristo e pregava uma supremacia branca que o levaria ao poder - e viu sua fama, ainda tímida, catapultada aos céus graças à morbidez da imprensa. Seu trabalho em "A dança dos vampiros" - como a bela e pouco recatada Sarah, objeto de desejo do personagem do próprio diretor - foi um dos primeiros a conquistar atenção da crítica e do público, e revelava nela uma presença de cena bastante forte e hipnótica que se confirmaria em um de seus filmes seguintes, a adaptação cinematográfica do best-seller "O vale das bonecas", de Jacqueline Susan - filmado por Mark Robson e lançado pouco mais de um mês depois. Substituindo a escolha inicial de Polanski para o papel, Tate aparece relativamente pouco em cena, mas é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme, com sua beleza serena e uma docilidade que contrasta com o tom satírico do roteiro e das imagens criativas do cineasta, que fogem do humor óbvio ao apostar no riso discreto mas constante.


A trama se passa, como não poderia deixar de ser, na Transilvânia, mais precisamente em um remoto vilarejo onde chegam o Professor Abronsius (Jack MacGowran), especialista em morcegos, e seu tímido e atrapalhado assistente, Alfred (Roman Polanski, com bom timing para comédia). O veterano mestre procura provar a existência de vampiros e, seguindo pistas e estudos de colegas, se hospeda na pensão do misterioso Shagall (Alfie Bass), decorada com enorme quantidade de dentes de alho e frequentada por alguns habitantes locais bastante misteriosos. Abronsius passa a ter certeza acerca das criaturas que procura quando a bela filha do dono da pensão, Sarah (Sharon Tate), é sequestrada pelo assustador Conde Von Krolock (Ferdy Mayne), que a leva para sua tétrica mansão, localizada no alto de uma montanha coberta de neve. Movido pelo desejo de exterminar o vampiro, o veterano estudioso parte rumo ao castelo, acompanhado do apaixonado Alfred, que quer salvar o objeto de seu afeto de um trágico destino. Chegando no lar do monstruoso Krolock, os dois se descobrem presos e em vias de tornarem-se, eles próprios, as próximas vítimas do sanguessuga - e o que é pior, em um baile que reunirá dezenas de outros vampiros.

Transformado em espetáculo musical lançado em 1997 na Áustria em uma montagem dirigida pelo mesmo Roman Polanski do filme original, "A dança dos vampiros" é uma comédia atípica, que usa e abusa do humor visual e do deboche às regras estabelecidas dos filmes de terror. Sem poupar nada e nem ninguém, o roteiro apresenta seus heróis como dois inaptos atrapalhados, capazes de ficarem entalados em janelas ou incapazes de cravar estacas em seus algozes - além de criar um vampiro gay hilariante que não hesita em dar em cima do despreparado Alfred enquanto seu líder prepara o baile de gala que justifica o título em português. Contando ainda com uma trilha sonora discreta de Christopher Komeda - que depois criaria a tétrica música de "O bebê de Rosemary" (68) - e um ritmo que destoa substancialmente das comédias realizadas em Hollywood, que privilegiam o riso fácil, "A dança dos vampiros" não é exatamente um filme para todas as plateias, mas é capaz de divertir a quem procura subversões e criatividade. E ainda tem Sharon Tate, linda e carismática.

sábado, 22 de outubro de 2016

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess who's coming to dinner, 1967,Columbia Pictures Productions, 108min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: William Rose. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Robert C. Jones. Música: De Vol. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy/Frank Tubble. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards. Estreia: 11/12/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Spencer Tracy), Atriz (Katharine Hepburn), Ator Coadjuvante (Cecil Kellaway), Atriz Coadjuvante (Beah Richards), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Original

Não deixa de ser uma coincidência poética o fato de meros dois dias separarem a morte do ator Spencer Tracy e a decisão por unanimidade da Suprema Corte norte-americana em declarar inconstitucional a lei que considerava crime, em 14 estados dos EUA, o casamento interracial: o último filme do consagrado ator - e que ele havia finalizado apenas 17 dias antes de morrer - punha em discussão justamente uma das maiores chagas do país que veria, menos de um ano depois, o assassinato de Martin Luther King: o racismo muitas vezes mascarado pela hipocrisia e pelo verniz do liberalismo da classe média. Dirigido por Stanley Kramer, um dos mais politizados cineastas de sua época, "Adivinhe quem vem para jantar" marcou também a última colaboração - de nove - entre Tracy e Katharine Hepburn, um dos casais não oficiais mais queridos e respeitados de Hollywood e a primeira vez que um filme com um assunto tabu como a miscigenação deixou pra trás o fracasso de bilheteria e tornou-se um grande sucesso comercial e de crítica. Mas, à parte a importância do tema, dos veteranos atores e da competência de Kramer em tornar palatável até o mais controverso dos assuntos, o grande trunfo do filme, e o que fez neutralizar todo e qualquer risco, tinha um nome: Sidney Poitier.

Um dos nomes mais populares entre as plateias norte-americanas dos anos 60, Sidney Poitier representava o que para muitos era a epítome do bom-moço, e sua penetração junto inclusive às camadas mais preconceituosas do público era derivada justamente dessa figura respeitável, honesta e bem-sucedida que seus personagens transmitiam a cada filme. Seu sucesso era tão inquestionável que até mesmo um Oscar de melhor ator ele chegou a ganhar, em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" - vale lembrar que até então nenhum ator negro havia chegado a tanto e isso era um feito considerável em um país ainda em convulsão com as frequentemente sangrentas lutas pelos direitos civis. Como era de se esperar, porém, o sucesso de Poitier e sua persona forjada ao prazer e gosto de uma audiência branca encontrava resistência justamente junto a seus pretensos semelhantes: ativistas dos movimentos negros rechaçavam com desprezo a pasteurização de sua cultura para melhor fruição de um público predominantemente WASP - branco, anglo-saxão, protestante. O filme "O mordomo da Casa Branca" (2014), de Lee Daniels, exemplifica a questão, em uma discussão entre o protagonista (Forest Whitaker), dedicado aos presidentes do país, e seu filho (David Oyleomo), radical ativista do grupo Panteras Negras que via em Poitier um exemplo a ser renegado pelo povo afro-americano. A importância do ator na indústria do entretenimento ianque é inegável - mas também o são os questionamentos levantados pelos não-entusiastas. E essa dubiedade é, talvez, o cerne de "Adivinhe quem vem para jantar", um filme repleto de boas intenções mas que, de certa forma, esbarra em um muro de escolhas questionáveis em sua narrativa.


Diretor de filmes de suma importância social e política, como "O vento será tua herança" (60) - sobre um professor do interior dos EUA que vai parar no banco dos réus por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin aos alunos - e "Julgamento em Nuremberg" - que tratava da batalha para condenar criminosos nazistas da II Guerra Mudial - o inteligente Stanley Kramer sabia que o tema de "Adivinhe quem vem para jantar" era controverso e poderia melindrar os mais conservadores (leia-se preconceituosos) do país. Foi com esse pensamento em vista que resolveu transformar seu protagonista negro em alguém que pudesse ser mais palatável a essa parcela do público - a quem, de certa forma, a mensagem era dirigida. Entra em cena, então, Sidney Poitier, com seu jeito polido, educado, inofensivo até. No filme, ele vive o dr. John Prentice, médico bem-sucedido, viúvo e repleto de boas intenções que entra na vida da família Drayton - brancos, cultos, inteligentes e aparentemente liberais - como uma tempestade inesperada: ele é apresentado pela jovem Joey (Katharine Houghton) como seu noivo, por quem se apaixonou perdidamente durante uma viagem ao Havaí. Mais do que simplesmente um namoro inconsequente, a relação entre os dois se revela séria e urgente, já que pretendem casar-se em poucos dias. Os até então modernos Matt (Spencer Tracy) - editor de um jornal de grande circulação - e Christina (Katharine Hepburn) - dona de uma galeria de arte - se veem, então, diante de uma situação que põe em xeque suas convicções e teorias. Quando os pais de John também entram na jogada, para um jantar ao qual também comparece um padre católico (Cecil Kellaway, indicado ao Oscar de coadjuvante), a noite se transforma em um debate onde se discute não apenas o futuro do casal, mas também o amor em geral e a situação social de um país inteiro.

A questão de John Prentice ser o protótipo do bom-moço - como se apenas se ele cumprisse todas as regras impostas por uma sociedade branca ele fosse apto a receber seu aval - ainda é muito discutida, como forma de diminuir o impacto de "Adivinhe quem vem para jantar" à época de sua estreia. Lógico que não foi a escolha ideal em termos ideológicos - é o mesmo que hoje em dia se fazer um filme com personagens gays que vivem sob normas heteronormativas como forma de não chocar a audiência e angariar sua simpatia - mas é injusto não reconhecer que Kramer, juntamente com o roteirista William Rose, fez um trabalho bastante corajoso e importante, além de não esquecer jamais dos ingredientes que fazem um bom filme: uma história interessante, um roteiro ágil e vivaz, uma direção firme e um elenco de sonhos. O último dueto entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn é digno de seus melhores trabalhos, e fica na história como um testemunho de dois astros inteligentes, talentosos e engajados. É só deixar de lado a ideia de que poderia ter sido diferente e assistir ao filme pelo que ele é para apreender sua relevância e deleite.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

REPULSA AO SEXO

REPULSA AO SEXO (Repulsion, 1965, Compton Films, 105min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, adaptação de David Stone. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Chico Hamilton. Direção de arte: Seamus Flannery. Produção: Gene Gutowski. Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux, Patrick Wymark. Estreia: 19/5/65 (Festival de Cannes)

A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.

A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.


Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.

É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

COMO CONQUISTAR AS MULHERES

COMO CONQUISTAR AS MULHERES (Alfie, 1966, Sheldrake Films, 114min) Direção: Lewis Gilbert. Roteiro: Bill Naughton, peça teatral "Alfie", de sua autoria. Fotografia: Otto Heller. Montagem: Thelma Connell. Música: Sonny Rollins. Direção de arte: Peter Mullins. Produção: Lewis Gilbert. Elenco: Michael Caine, Shelley Winters, Millicent Martin, Julia Foster, Jane Asher, Shirley Anne Field, Vivien Merchant. Estreia: 29/3/66

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Vivien Merchant), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Alfie")

Em 1966, alguns assuntos ainda eram tabu no cinema, apesar dos ares mais progressistas que a década do amor livre havia apresentado ao mundo. Hollywood, por exemplo, ainda engatinhava em questões mais relevantes socialmente e o público ainda se chocava com os agressivos diálogos de Edward Albee que transformaram "Quem tem medo de Virginia Woolf?" em um dos mais surpreendentes sucessos de público e crítica do ano. Assim como a adaptação do então estreante Mike Nichols não tinha papas na língua para tocar em temas controversos, outro filme com origem nos palcos chegava à festa do Oscar amparado em um roteiro ousado e que não deixava pedra sobre pedra ao levar para as telas um protagonista tão francamente cafajeste que não deixava outra opção à plateia senão compreendê-lo e, em última instância, simpatizar com ele. Era Alfie Elkins, o mecânico sedutor que, na pele de Michael Caine, transformou "Como conquistar as mulheres" em um dos maiores êxitos do cinema inglês da década. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme e ator - a comédia dramática dirigida por Lewis Gilbert marcou época por sua mistura de coragem, cinismo e uma certa melancolia, equilibrados em um roteiro que também quebrava paradigmas narrativos, como a quebra da quarta parede, que fazia com que o protagonista falasse diretamente com o espectador - um artifício que ajudava a aproximar público e personagem.

Interpretado por um Michael Caine que herdou o papel de seu amigo pessoal Terence Stamp - que recusou-se a retornar ao personagem que havia defendido nos palcos - Alfie Elkins é, indubitavelmente, um canalha irrecuperável. A forma com que Caine o representa, no entanto, ameniza a antipatia que a plateia poderia sentir por ele: exalando um charme abjeto, o ator inglês, em seu primeiro grande papel, desfila pela tela fazendo comentários sexistas e pouco elogiosos às mulheres - o que, no mínimo, enfatiza a ironia do título em português. Com um texto ácido e contundente, cortesia do dramaturgo Bill Naughton adaptando sua própria peça de teatro, "Como conquistar as mulheres" oferece à Caine um personagem repleto de nuances que vão se revelando aos poucos, chegando até o melancólico discurso final que justifica sua indicação ao Oscar de melhor ator. Já nessa época apostando na sutileza e na elegância como pilares de interpretações vitoriosas, Michael Caine acerta o tom em todas as cenas, indo da ironia à tristeza, da arrogância à sedução e agressividade ao carinho em questão de segundos. É um trabalho de mestre que valoriza cada momento - mérito também do diretor Lewis Gilbert, que, à época, ainda não havia comandado as três aventuras de James Bond que lhe dariam fama em seguida - "Com 007 só se vive duas vezes" (67), "O espião que me amava" (77) e "007 contra o foguete da morte" (79) - e que voltaria a adaptar um texto teatral para o cinema em 1988, com "Shirley Valentine", que deu à Pauline Collins uma indicação ao Oscar de melhor atriz.


O filme acompanha de perto as aventuras amorosas de Alfie, um mecânico metido à Don Juan que não hesita em seduzir qualquer espécime feminino que cruze seu caminho. Logo de cara, o público conhece Siddie (Millicent Martin), uma mulher casada com quem ele acaba de terminar seu caso. Deixando claro sua ojeriza a compromissos, ele vive um relacionamento aberto com Gilda (Julia Foster), que aceita os termos da relação até engravidar, ter um filho dele e perceber que deseja formar uma família nos moldes tradicionais - o que inclui um casamento que ele não quer lhe oferecer. Um problema de saúde o leva a uma clínica de repouso, onde ele simultaneamente seduz uma enfermeira e a honrada Lily (Vivian Merchant, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), esposa de um de seus colegas de enfermaria. É Lily e uma gravidez inesperada que serão os catalisadores de uma mudança de perspectiva em Alfie - o aborto da amante o leva a repensar seu modo de vida e ele se aproxima, então, da ricaça americana Ruby (Shelley Winters), que lhe dará mais uma grande lição de vida.

Nitidamente sessentista, o visual de "Como conquistar as mulheres" dialoga com perfeição com o tom naturalista/moderno proposto por Gilbert, que explora sempre que possível os espaços abertos de uma Londres em plena revolução sexual e de costumes. Quando o clima fica mais pesado, no terço final do filme, a fotografia de Otto Heller acompanha a descida da alma de Alfie à tristeza e ao desespero - em especial na dolorosa cena em que ele finalmente toma consciência dos seus atos. A trilha sonora vibrante - que inclui a famosa versão da canção-título na voz de Cher - também tem sua importância no panorama geral criado pelo diretor, um quadro vívido e pulsante de um estilo de vida que, com o passar dos anos, tornou-se tão ou ainda mais cruel - basta lembrar que, quase quarenta anos depois de seu lançamento, em 2004, o texto voltou quase literal às telas de cinema em uma versão dirigida por Charles Shyer e estrelada por Jude Law - que criou um Alfie mais charmoso e menos cruel, mas igualmente de conduta questionável. Um sinal da coragem do original é que quase nada precisou ser mudado na transposição para o século XXI. Pode ser chocante ou desagradável para uma comédia, mas "Como conquistar as mulheres" é, sem dúvida, ousado e muito atual, especialmente em um mundo tão antenado às conquistas femininas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

BAGUNCEIRO ARRUMADINHO

BAGUNCEIRO ARRUMADINHO (The disorderly orderly, 1964, Jerry Lewis Production, 90min) Direção: Frank Tashlin. Roteiro: Frank Tashlin, estória de Norm Liebmann, Ed Haas. Fotografia: W. Wallace Kelley. Montagem: Russell Wiles, John Woodcock. Música: Joseph J. Lilley. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Tambi Larsen, Hal Pereira/Sam Comer, Ray Moyer. Produção executiva: Jerry Lewis. Produção: Paul Jones. Elenco: Jerry Lewis, Glenda Farrell, Susan Oliver, Karen Sharpe. Estreia: 16/12/64

Sempre que Jerry Lewis assumia o comando absoluto de seus filmes (atuação, roteiro, direção e produção), eles corriam o sério risco de cair na armadilha do egocentrismo de seu criador - que, por trás das câmeras, era bastante diferente dos personagens afáveis que encarnava para alegria de seus (muitos) fãs e desgosto de seus (inúmeros) detratores. Filmes como "O professor aloprado" (63), por mais sucesso que tivessem, frequentemente esbarravam em sua monstruosa egolatria e o impediam de enxergar os excessos de seu humor quase infantiloide (mas por isso mesmo imensamente popular). Nas mãos do cineasta Frank Tashlin, porém, ele encontrava o tão necessário equilíbrio entre seu desejo de agradar à plateia e a vontade de massagear sua autoestima. "Bagunceiro arrumadinho" faz parte desse grupo de filmes bem-sucedidos, ao não abrir mão das gags visuais que fizeram a fama de Lewis mas tampouco esquecer de um fundamento primordial do cinema: contar uma história.

O próprio Tashlin é também roteirista do filme, utilizando-se de uma história criada por Norm Liebmann e Ed Haas para narrar as aventuras cômico-românticas de Jerome Littlefield, vivido por um Jerry Lewis surpreendentemente menos histérico do que o normal. Impedido de cursar a faculdade de Medicina com que sonhava, Littlefield resolve dedicar-se à carreira de cuidador em uma clínica de repouso onde também trabalha sua namorada, a enfermeira Julie Blair (Karen Sharpe). Seu jeito desastrado de realizar as tarefas mais simples o levam a bater de frente com a enfermeira-chefe, Maggie Higgins (Kathleen Freeman), mas o que realmente irá abalar sua rotina relativamente tranquila é o reencontro com Susan Andrews (Susan Oliver), por quem ele era apaixonado na escola e que dá entrada na clínica após uma tentativa de suicídio. Para mantê-la internada mesmo sem ter dinheiro para pagar as despesas, Jerome resolve trabalhar sem folga, para desespero de Julie, que não consegue evitar o ciúme.


Como sempre acontece nos filmes de Lewis, o roteiro é uma sucessão de sequências de humor visual, que exploram o grande talento do ator em demonstrar uma elasticidade física anormal e uma inteligência acima da média em encontrar graça nas situações mais imprevistas. Dono de algumas cenas clássicas do humor americano dos anos 60 - principalmente a que envolve um paciente praticamente mumificado pelo protagonista que rola pelo gramado da clínica - "Bagunceiro arrumadinho" é feliz também em assumir um lado romântico mais acentuado do que os filmes anteriores do astro. Mesmo que o triângulo amoroso central não seja o foco da narrativa, é refrescante acompanhar um romance quase ingênuo, que contrastava com a explosão do chamado "amor livre" que aos poucos também chegava à Hollywood e ao cinema internacional. De olho no público infantil que tanto o adorava, Lewis não ousava tematicamente, e esse seu apelo universal e atemporal nunca esteve tão evidente quanto nesse trabalho de Tashling, que mantém até hoje sua energia e sua leveza.

Nenhum dos filmes estrelados por Jerry Lewis pode ser considerado uma obra-prima do cinema - a não ser que se compartilhe da opinião dos críticos franceses da prestigiada "Cahièrs du Cinema". No entanto, "Bagunceiro arrumadinho" é, talvez, o mais perto de demonstrar toda a extensão de seu talento como ator e humorista. Ainda que "O professor aloprado" seja normalmente citado como o melhor de seus filmes, é aqui que ele equilibra com mais felicidade a sutileza, o escracho e a sua tendência a devastar cenários com a maior naturalidade - característica que ele legou a nomes como Rowan Atkinson (o Mr. Bean) e a Jim Carrey em seus primeiros filmes. É curto, é agradável e faz rir, mas para isso é preciso que se deixe de lado qualquer preconceito contra o humor visual e não se busque mais do que algumas boas risadas. "Bagunceiro arrumadinho" é Jerry Lewis em sua essência. Para o bem e para o mal.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA

DR. FANTÁSTICO: OU COMO APRENDI A PARAR DE ME PREOCUPAR E AMAR A BOMBA (Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb, 1964, Columbia Pictures Corporation, 95min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, romance "Red alert", de Peter George. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Anthony Harvey. Música: Laurie Johnson. Direção de arte: Ken Adam. Produção: Stanley Kubrick. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, James Earl Jones. Estreia: 29/01/64

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Ator (Peter Sellers), Roteiro Adaptado

No início dos anos 60, a II Guerra Mundial já era passado para os estúdios de Hollywood, que demorariam algumas décadas até voltarem a utilizá-la como matéria-prima para suas produções mais ambiciosas. A bola da vez no começo da década do flower power era a possibilidade cada vez menos remota de um conflito nuclear, especialmente com o assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963 e a Rússia se tornando uma potência mundial. Com esse panorama político à frente, a Columbia Pictures não hesitou em lançar, em 1964, não apenas um, mas dois filmes com temática similar - mas com pontos de vista bastante distintos. Quando "Limite de segurança", dirigido por Sidney Lumet e estrelado por Henry Fonda - um thriller sufocante e tenso - chegou às telas, em setembro, o público e a crítica já haviam visitado o assunto por um viés satírico, exagerado e surreal, dirigido por um cineasta pouco afeito ao convencional: o inglês Stanley Kubrick. Com base no livro "Alerta vermelho", de Peter George, um romance sério a respeito da iminência de uma nova guerra entre americanos e soviéticos, Kubrick virou a trama de pernas para o ar, alterando substancialmente o tom alarmista do original para criar uma comédia alucinada e quase nonsense. O resultado, "Dr. Fantástico: ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba" acabou por transformar-se em um grande sucesso crítico e comercial, a ponto de ser indicado aos Oscar de melhor filme, diretor, ator (Peter Sellers) e roteiro adaptado e passar a ser considerado uma das melhores comédias da história do cinema, graças ao American Film Institute - que o colocou em terceiro lugar entre as maiores do gênero.

A ideia de Kubrick em transformar o livro de Peter George em uma sátira não agradou muito ao autor do original, que, no entanto, não se recusou ao crédito de corroteirista, ao lado do diretor e de Terry Southern, que só entrou no projeto quando o cineasta inglês percebeu o potencial humorístico do material que tinha em mãos. Com um roteiro repleto de humor negro e críticas nada veladas ao governo americano - e às paranoias relacionadas à incipiente Guerra Fria - a Columbia viu que o melhor a fazer seria escalar alguém que pudesse fazer jus a todas as possibilidades da história. Surgia então o nome de Peter Sellers, com quem Kubrick já havia trabalhado - e com grande êxito - na versão cinematográfica de "Lolita" (62), de Vladimir Nabokov. Como já havia acontecido no filme anterior, Sellers voltaria a interpretar múltiplos personagens - mais precisamente três, o que de certa forma contrariava os interesses do estúdio, que sonhava com um quarteto de caracterizações - e, para isso, recebeu um polpudo pagamento de 1 milhão de dólares, o que representava mais da metade do orçamento do filme inteiro. O investimento valeu a pena: não apenas Sellers roubou a cena como recebeu uma merecida indicação ao Oscar de melhor ator - prêmio que perdeu para Rex Harrison, no ultrapremiado "My fair lady".





As ironias de "Dr. Fantástico" já começam na escalação do elenco. Na pele do paranoico General Jack D. Ripper, obcecado por fantasias de uma possível invasão "vermelha" e responsável por enviar um avião norte-americano em direção à Rússia com o objetivo de bombardear o país, está o ator Sterling Hayden, notório militante do Partido Comunista à época das filmagens. É seu personagem que dá início à história, mantendo o oficial da Força Aérea Britânica Lionel Mandrake (Peter Sellers) em seu poder enquanto espera o desfecho de seu ato de rebeldia. Atônito com a situação, o presidente dos EUA, Merkin Muffley (também vivido por Sellers), resolve tentar, de todas as maneiras possíveis, impedir que tal desgraça aconteça, o que poderia causar o início de uma III Guerra Mundial. Para isso, chama à Sala de Guerra do Pentágono - reconstruída em estúdio na Inglaterra, de onde Peter Sellers não poderia sair devido a problemas com seu divórcio - o General Buck Turgidson (George C. Scott), o embaixador soviético Sadesky (Peter Bull) e o exótico cientista Dr. Strangelove (o terceiro personagem de Sellers), que tem ideias próprias a respeito de como resolver o problema. Em uma terceira linha narrativa, a tripulação do avião mandado por Ripper em direção à Rússia encontra dificuldade em comunicar-se tanto com seu comandante quanto com a sala de controle que pode lhe impedir de dar continuidade à missão.


Ao optar pelo exagero em todos os setores da produção - desde a direção de arte claustrofóbica e com tons de pesadelo até a interpretação de seus atores, o que causou estranheza ao veterano George C. Scott, que não compreendia as intenções do diretor até ver o filme finalizado - Stanley Kubrick acabou por criar um dos filmes de guerra mais contundentes da história. Retratando os detentores do poder de criar ou acabar com um conflito mundial não como heróis, mas como poltrões dominados por suas amantes, suas paranoias e seus interesses pessoais, o roteiro joga por terra o patriotismo americano que tanto serviu de base para produções hollywoodianas nas décadas seguintes e, de quebra, ridiculariza os dois lados da questão, com diálogos absurdos e situações visuais que beiram o patético - tombos, brigas, um cientista sem controle da própria mão mecânica. Em uma filmografia que não tinha muito espaço para o humor, Kubrick fez de "Dr. Fantástico" uma obra única e que, de uma forma tortuosa, serviu de alerta para um período de grande tensão política - por uma coincidência macabra, sua exibição-teste estava marcada justamente para o dia da morte de Kennedy, um dos mais importantes eventos na história ocidental do século XX e que muito interferiu no desenrolar da Guerra Fria. Mais uma vez, por obra do acaso, o cinema de Kubrick nunca pareceu tão antenado com sua realidade.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MARNIE - CONFISSÕES DE UMA LADRA

MARNIE: CONFISSÕES DE UMA LADRA (Marnie, 1964, Universal Pictures, 130min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Jay Presson Allen, romance de Winston Graham. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Direção de arte/cenários: Robert F. Boyle/George Milo. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Martin Gabel, Louise Latham, Diane Baker. Estreia: 09/7/64

Em 1962, uma das notícias mais quentes e surpreendentes que rolavam nos bastidores de Hollywood dizia respeito a uma possível volta de Grace Kelly às telas. Casada desde 1956 com o Príncipe Rainier III, do Condado de Mônaco, a bela e talentosa musa vencedora do Oscar por "Amar é sofrer" (54) estava em negociações com o cineasta Alfred Hitchcock - com quem havia realizado os inesquecíveis "Janela indiscreta" (54), "Disque M para matar" (54) e "Ladrão de casaca" (55) - para um retorno não definitivo, mas muito esperado pelo público, saudoso de uma das mais populares atrizes de sua época. Interessada no roteiro e disposta a dividir seu tempo entre as filmagens e suas responsabilidades como princesa, Kelly acabou desistindo da ideia, para tristeza dos fãs e alívio de todos que a cercavam no principado - que, como mostra o filme "Grace de Mônaco" (2014), de Olivier Dahan, passava por uma grave crise financeira e política e não via com bons olhos tal "excentricidade". É possível, também, que os conselheiros de Rainier não estivessem muito entusiasmados com a ideia de sua princesa voltar aos cinemas interpretando uma cleptomaníaca frígida e com traumas de infância bem pouco compatíveis com sua imagem pública. Era o fim de um sonho - e Kelly nunca mais faria nenhum outro filme.

A saída de Grace Kelly do elenco de "Marnie, confissões de uma ladra" não chegou a ser uma surpresa para Hitchcock, que, apesar de sua amizade com a atriz, sabia dos empecilhos que a impediam de aceitar seu convite. Com o papel principal sem dona, o cineasta começou, então, uma sofrida procura por alguém capaz de interpretar todas as nuances da personagem - e que aceitasse seus métodos algumas vezes heterodoxos de direção. Nomes como Eva Marie Saint - com quem ele havia trabalhado em "Intriga internacional" (59) - e Vera Miles - com quem o diretor mantinha uma relação de amor e ódio desde que ela havia engravidado pouco antes de começar a filmar "Um corpo que cai" (58) - foram levantados como hipóteses plausíveis, e até mesmo Marilyn Monroe foi cogitada, depois de ter demonstrado interesse no projeto. No final das contas, depois de estudar diversas possibilidades, Hitchcock acabou recorrendo à protagonista de seu filme anterior, "Os pássaros" (63) - e ofereceu à Tippi Hedren a maior personagem de sua carreira. Mesmo que pelo período de filmagens ela e o cineasta tenham se estranhado constantemente, o resultado final acabou por compensar qualquer problema: nunca a mãe de Melanie Griffith esteve tão bem em cena quanto nesse atípico drama de suspense, com conotações sexuais ousadas até mesmo para os liberais anos 60.


Baseado em um romance de Winston Graham - que declarou posteriormente que teria cedido da graça os direitos de sua obra à Hitchcock, dada a sua importância na história do cinema - "Marnie" começou a ser adaptado pelo mesmo Joseph Stefano que havia assinado "Psicose", um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. O roteiro de Stefano (com Grace Kelly em mente para a personagem-título) era mais próximo da obra original, mas acabou sendo deixado de lado quando a princesa deixou o projeto. Entre as alterações mais significativas do novo texto, sob o comando de Jay Presson Allen, estava a eliminação de um personagem crucial (um psiquiatra que ajudaria Marnie a enfrentar seus fantasmas do passado) e um segundo pretendente ao coração da protagonista, transformado, no filme, na cunhada de Mark (Sean Connery), a dedicada Lil (papel que foi cobiçado por Jane Fonda mas que acabou nas mãos de Diane Baker). Tendendo muito mais para o drama psicológico do que para o suspense, o roteiro final de "Marnie, confissões de uma ladra" acabou oferecendo à Hedren a chance de mostrar outra faceta de seu talento - e de comprovar Hitchcock como um cineasta capaz de buscar elementos de gêneros diversos para mesclar a seu universo particular.

O filme conta a complexa e estranha história de amor entre Marnie Edgar (Tippi Hedren), uma cleptomaníaca com sérios problemas de relacionamento com mãe, Bernice (Louise Latham), e o milionário Mark Rutland (Sean Connery já tentando ser mais do que James Bond, em papel cogitado para Paul Newman, Marlon Brando e Peter O'Toole). Sabendo dos problemas de Marnie, Mark se casa com ela ao invés de denunciá-la, mas descobre, na lua-de-mel, que roubar é o menor dos males da jovem esposa: acontecimentos traumáticos em seu passado a levam a recusar qualquer tipo de toque, além de ter ataques histéricos sempre que vê a cor vermelha. Disposto a ajudá-la a superar seus dramas, Mark lhe propõe repor tudo que ela roubou, desde que ela aceite ser analisada. Equilibrando cenas de puro suspense - um roubo de Marnie quase sendo descoberto por uma faxineira, por exemplo - com momentos que traem a tendência da época em utilizar-se da psicanálise como instrumento narrativo, Hitchcock abandona sua zona de conforto ao criar um protagonista masculino de índole dúbia - Mark praticamente estupra Marnie na lua-de-mel - e uma heroína tragicamente presa a um passado violento e brutal. Ao oferecer ao casal uma chance de redenção, o cineasta mostra que, no fundo, por trás de seu quase cinismo, ainda existia um romântico. A seu modo tortuoso, "Marnie, confissões de uma ladra" é, no fim das contas, um romance torturado e angustiante como somente Hitch conseguiria realizar.

domingo, 16 de outubro de 2016

O PROFESSOR ALOPRADO

O PROFESSOR ALOPRADO (The nutty professor, 1963, Paramount Pictures, 107min) Direção: Jerry Lewis. Roteiro: Jerry Lewis, Bill Richmond. Fotografia: W. Wallace Kelley. Montagem: John Woodcock. Música: Walter Scharf. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Sam Comer. Produção: Ernest D. Glucksman. Elenco: Jerry Lewis, Stelle Stevens, Del Moore, Kathleen Freeman. Estreia: 04/6/63

Em 1996, o ator Eddie Murphy reencontrou o caminho das bilheterias milionárias com "O professor aloprado", uma comédia dirigida por Tom Shadyac que explorava ao máximo seu talento em transformações físicas e no humor escatológico. O filme não apenas recuperou o sucesso comercial de Murphy, como também levou pra casa um justíssimo Oscar de maquiagem e, mais importante ainda, relevou a uma nova geração de espectadores o filme original, um dos mais populares e importantes da carreira de Jerry Lewis. Lançado em 1963, no auge de seu sucesso como autor total de seus filmes - ele atuava, dirigia, escrevia o roteiro e produzia - "O professor aloprado" brincava com o conceito Dr. Jekyll e Mr. Hyde criado por Robert Louis Stevenson em "O médico e o monstro" para fazer uma severa crítica à valorização oca da beleza física em detrimento de sentimentos mais nobres. Parece um discurso sentimentaloide, mas nas mãos de Lewis, especialista em desconstruir os mais sérios discursos com a delicadeza de uma marreta, tudo é desculpa para uma série de gags - que se dividem entre as bem-sucedidas e as que não conseguem chegar lá.

Dotado do visual camp inconfundível dos anos sessenta, "O professor aloprado" apresenta Lewis como seu personagem arquetípico, o desajeitado, sem graça e fracassado amorosamente Julius Kelp, um mestre de química que, apesar da inteligência acima da média, não consegue nem mesmo o respeito de seus alunos, que não se cansam de debochar de seu visual, de sua voz esganiçada e de seu sorriso dentuço. Vítima constante de bullying até dentro de sala de aula e apaixonado pela delicada Stella Purdy (Stella Stevens), ele resolve mudar de vida, mas quando até suas tentativas de enfrentar uma rotina de exercícios de musculação não dão resultado, ele apela para uma fórmula secreta que lhe transforma - depois de muitas experiências mal-sucedidas - em um galã de fala mansa mas um tanto agressivo e sedutor. Buddy Love, com seu jeito galanteador de quinta categoria, acaba por seduzir Stella, sem dar chance à real personalidade de Kelp de mostrar suas qualidades.


Segundo as más-línguas, Jerry Lewis criou o antipático e canastrão Buddy Love inspirado em seu ex-parceiro de palco e telas Dean Martin - embora tenha semelhanças também com o líder do grupo de amigos de Martin, o cantor Frank Sinatra. Verdade ou não, é fato que a divisão do ator em dois personagens tão díspares apenas comprova sua versatilidade e capacidade de deixar de lado a persona infantiloide que tanto encantava o público infantil e os franceses em geral. Apaixonados pela obra de Lewis - muito mais do que seus conterrâneos, que frequentemente não valorizavam seus esforços artísticos - os críticos da França o viam como um autor do mesmo nível de Charles Chaplin, ao contrário dos norte-americanos, que menosprezavam seu trabalho como algo puramente comercial. O fato de que o astro não era exatamente uma pessoa de fácil convivência ajudava a relegá-lo a uma espécie de limbo profissional, em que era adorado pelos fãs mas detestado por todos que o rodeavam - e talvez isso deixe claro que Buddy Love era apenas uma faceta do próprio Lewis, que ele preferia esconder do grande público enquanto fazia suas pataquadas. Psicologismos à parte, "O professor aloprado" é, hoje, um filme que parece não ter resistido muito ao teste do tempo.

Além do visual sessentista - charmoso mas um tanto desconfortável pelo excesso de cores fortes que lhe dão um ar psicodélico hoje um tanto anacrônico - e de um ritmo por vezes claudicante, o filme de Jerry Lewis se arrasta mais do que deveria, demorando a apresentar a segunda personalidade do protagonista até quase metade da projeção. O roteiro - escrito e reescrito diversas vezes - não chega a empolgar, sempre dando a impressão de ser um fiapo de história feito com o objetivo de ligar várias cenas onde o ator pode exercitar seu egocentrismo (e, convém dizer, seu talento). Os atores coadjuvantes são outro problema, jamais fazendo jus ao esforço de Lewis em dar consistência a um conjunto não muito bem estruturado. A impressão de que o show é unicamente do ator é nítida, e, apesar de ele conseguir manter a atenção até o final da narrativa, seus exageros nem sempre funcionam como deveriam. Apesar disso, é uma comédia que é a cara de sua época, e um exemplo mais que perfeito do que Jerry Lewis era capaz em seu apogeu. Uns (como os franceses) veneram. Outros se aborrecem. Basta escolher um lado.

sábado, 15 de outubro de 2016

A PANTERA COR-DE-ROSA

A PANTERA COR-DE-ROSA (The Pink Panther, 1963, MGM Pictures, 115min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Maurice Richlin, Blake Edwards. Fotografia: Philip Lathrop. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry Mancini. Direção de arte/cenários: Fernando Carrere/Reginald Allen, Arrigo Breschi, Jack Stevens. Produção: Martin Jurow. Elenco: Peter Sellers, David Niven, Robert Wagner, Capucine, Claudia Cardinale. Estreia: 18/12/63 (Itália)

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original

Em Hollywood, acontece dessas coisas: "A pantera cor-de-rosa" era para ser um veículo para o britânico David Niven apresentar seu novo personagem, o fleumático ladrão de joias Charles Lytton, sério candidato a tornar-se protagonista de uma série de outros filmes, algo assim como uma versão cômica e fora-da-lei de James Bond. Para surpresa de todos, no entanto, quem acabou conquistando as plateias e a crítica não foi seu elegante larápio - apesar de sua atuação sempre exata - mas sim um personagem coadjuvante que, graças à inspiradíssima interpretação de seu ator, roubou a cena e ganhou, ainda no mesmo ano 1963, um filme só para si. O atrapalhado Inspetor Clouseau, que caiu nas mãos de Peter Sellers depois da deserção do ator original, Peter Ustinov, agradou tanto ao público que voltou meros três meses depois da estreia do primeiro filme, já como protagonista absoluto, no igualmente bem-sucedido "Um tiro no escuro" (64), que, por sua vez, rendeu outras três continuações e, até a data, duas refilmagens (com Steve Martin) e uma produção caça-níqueis estrelada pelo histérico Roberto Benigni.

A entrada de Peter Sellers no elenco de "A pantera cor-de-rosa" - cujos emblemáticos créditos de abertura contam com a música inconfundível de Henry Mancini e com a genial animação criada por David H. DePatie e Fritz Freleng - aconteceu quase por acaso, justamente devido a problemas de pré-produção tão comuns quanto providenciais. Contratado para viver o desastrado Inspetor Clouseau, o premiado Peter Ustinov já estava em Roma para começar as filmagens quando saiu abruptamente do projeto. Uma versão da história diz que o fato teve a ver com o processo movido pela Mirsch Company - que foi afastada da produção pelo ator - mas a que parece mais apetitosa (e a que foi mais divulgada com os anos) envolve fofocas de bastidores com gente mais graúda. Segundo sua autobiografia, Janet Leigh havia sido convidada para interpretar Simone Clouseau, a esposa do inspetor que caça um ladrão de joias pela Europa, mas declinou do convite por ter se casado recentemente (com seu quarto marido, Robert Brandt) e não ter a intenção de viajar. Os produtores, então, ofereceram o papel à Ava Gardner, que aceitou a proposta. Duas semanas antes do início das filmagens, porém, uma radical mudança de ideia alterou todos os planos: temendo que os caprichos de Gardner (e seu salário acima da média para um filme de orçamento modesto) pudessem complicar a vida de todos os envolvidos, a produção achou melhor optar por algo menos ambicioso e substituiu "o animal mais lindo do mundo" pela bela e (bem) menos famosa Capucine.


Tal substituição, em tese, não teria agradado à esposa de Ustinov, que via nela uma considerável diminuição nas ambições artísticas e comerciais do filme. Sendo assim, o ator pulou fora do barco, deixando espaço para o então desconhecido Peter Sellers, que agarrou a chance com unhas e dentes. Já durante as filmagens a equipe - e o diretor Blake Edwards - viram o potencial do personagem, expandido graças ao talento imenso de Sellers em improvisar em cima do material que lhe era oferecido. Com total liberdade para criar em cena, o ator acabou por transformar um coadjuvante engraçadinho em um dos maiores e mais famosos personagens da comédia norte-americana, com um humor estabanado e ingênuo que fazia rir mesmo em silêncio. Basta que se assista às suas cenas para que se perceba claramente que, apesar do roteiro inteligente e do elenco afiado, "A pantera cor-de-rosa" só resiste bravamente ao tempo por causa das palhaçadas do Inspetor Clouseau - em especial a genial sequência em que sua mulher tenta esconder dele, em um pequeno quarto de hotel, seu amante (David Niven) e o sobrinho (um jovem Robert Wagner), que está lutando para seduzí-la: é um momento genial do humor, que faz rir tanto pelo absurdo da situação quanto pelo talento dos seus atores em torná-la crível e extremamente divertida.

A história de "A pantera cor-de-rosa" é quase uma desculpa para o desfile de gags de Sellers e da elegância de David Niven, destilando seu charme inglês a cada cena. No filme, ele vive Sir Charles Lytton, um cavalheiro britânico que, sem que a polícia desconfie, é na verdade o procurado ladrão de joias conhecido como Fantasma. Quando a história começa, ele está planejando o grande golpe de sua carreira, o espetacular roubo da Pantera Cor-de-Rosa, um diamante de propriedade de uma princesa indiana (Claudia Cardinale) que está passando uma temporada em Roma. Na capital italiana, Lytton começa a por seu plano em prática, mas sem levar em consideração a perseguição do Inspetor Clouseau (Sellers), um policial francês cuja esposa, Simone (Capucine), é sua amante. A chegada à Roma de George (Robert Wagner), sobrinho do criminoso, complica ainda mais as coisas - especialmente quando Simone se revela parte do esquema armado por Charles. Todas as situações levam ao mesmo clímax: uma grande festa onde finalmente a polícia conseguirá (ou não) caçar um de seus maiores desafetos.

Com um roteiro caprichado nas mãos e um timing excepcional para comédias - o que demonstrava sua versatilidade, uma vez que vinha do denso e poderoso "Vício maldito" (62) - o diretor Blake Edwards deu o pontapé inicial em uma das mais populares séries cômicas do cinema americano e em uma parceria certeira com Peter Sellers, que também rendeu o impecável "Um convidado bem trapalhão" (68). Com seu brilhante senso de humor e confiança na inteligência da plateia, Edwards mostrou que fazer rir também é uma arte. E o público, agradecido, lotou as salas de cinema e deu vida longa ao atrapalhado Inspetor Clouseau.