terça-feira, 29 de novembro de 2016

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS (Jurassic World, 2015, Universal Pictures/Amblin Entertainment/Legendary Pictures, 124min) Direção: Colin Trevorrow. Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly, estória de Rick Jaffa, Amanda Silver, personagens criados por Michael Crichton. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Kevin Stitt. Música: Michael Giacchino. Figurino: April Ferry, Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Ed Verreaux/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Steven Spielberg, Thomas Tull. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall. Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Nick Robinson, Jake Johnson. Estreia: 2/5/15 (Paris)

Em 1993, o que parecia uma aposta arriscada - lançar um filme de verão sem grandes astros no elenco e calcado basicamente em efeitos visuais e na garantia de qualidade com que o nome de Steven Spielberg acenava - transformou-se rapidamente em um dos maiores sucessos da história do cinema, batendo até mesmo o idolatrado "E.T, o extra-terrestre" (82) na bilheteria. O impressionante êxito, os três Oscar - efeitos visuais, som, efeitos sonoros - e o burburinho em torno de "Jurassic Park: parque dos dinossauros" não deixava dúvidas de que uma sequência viria em seguida. Em 1997, ela veio - com o título "Jurassic Park: O Mundo Perdido" - e voltou a fazer estardalhaço nos cofres da Universal Pictures, ainda que praticamente repetisse a trama do primeiro capítulo. Foi somente em 2001 que a série começou a dar sinais de cansaço: com Joe Johnston na direção, "Jurassic Park III" foi o episódio com menor renda (e ainda assim chegou perto de 200 milhões de arrecadação só nos EUA) e não entusiasmou ninguém, apesar de marcar o retorno de um dos atores do original, Sam Neil. Quatorze anos se passaram até que Spielberg, já com dois Oscar de melhor diretor na prateleira, voltasse a demonstrar interesse nos bichanos: acreditando que já estava na hora de apresentá-los a uma nova geração, assumiu a cadeira de produtor executivo de "Jurassic World: O mundo dos dinossauros", entregou a direção nas mãos do praticamente desconhecido Colin Trevorrow - do praticamente ignorado "Sem segurança nenhuma" (2012) - e correu para contar os dividendos. Não deu outra: logo em seu lançamento, o filme tornou-se a maior bilheteria no fim-de-semana da estreia de toda a história do cinema, com uma arrecadação de 208,8 milhões de dólares contra um custo estimado de 150 milhões. Como ficou bastante claro, o público ainda se mantém fascinado pelo universo criado pelo escritor Michael Crichton.

Um pirralho de treze anos de idade na ocasião da estreia do primeiro filme - a que assistiu na primeira sessão do primeiro dia - o ator Chris Pratt acabou com o principal papel masculino dessa nova incursão às aventuras jurássicas. Seu personagem, Owen Grady, é um jovem veterano do Exército contratado pelos novos donos do Jurassic World - que ao contrário do parque original abrange também shows aquáticos de dinossauros marinhos ao lado de outras atrações inéditas, criadas geneticamente pelo cientista Henry Wu (BD Wong) - para treinar velociraptors e mantê-los sob controle. O talento de Grady é percebido pelo ambicioso Vic Hoskins (Vincent D'Onofrio), que vê a possibilidade de utilizar os animais como armas militares. Enquanto isso, o parque temático, supervisionado pelas empresas do milionário Simon Masrani (Irrfan Khan) se prepara para revelar ao público sua nova atração, o temível Indominus Rex, cuja mistura genética é mantida em segredo de estado, e a gerente do local, a dedicada Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), recebe a visita de seus dois sobrinhos - que estão passando por uma severa crise doméstica. Como não poderia deixar de ser, o imprevisível Indominus acaba fugindo de sua cerca de segurança máxima, obrigando Grady e Claire (que já tiveram um relacionamento problemático) a se unirem para salvar as crianças e impedir uma nova tragédia de grandes proporções.


Praticamente uma reedição do primeiro filme - com crianças em perigo, dinossauros assustadores e fora de controle atacando sem dó nem piedade e efeitos especiais de primeira categoria - "Jurassic world" acrescenta algumas poucas novidades à receita. A primeira é o tom de tensão sexual entre Grady e Claire, valorizando a juventude e a química entre Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. A segunda é a violência bem mais radical em relação ao original: dessa vez o diretor não hesita em mostrar sangue e tornar os ataques bem mais realistas, ao contrário do tom quase censura livre da produção de 1993. Talvez ciente de que a molecada de hoje em dia está mais do que acostumada à exposição a vísceras e mutilações - em filmes, games e quadrinhos - Colin Trevorrow usa e abusa de sequências bem pouco prováveis de resistir aos cortes na versão dirigida por Spielberg (sempre preocupado em realizar obras para toda a família). É óbvio que não há exagero, mas é perceptível que Trevorrow é partidário assumido de mostrar mais do que sugerir, ao contrário do que fez Spielberg na primeira parte da franquia - e isso faz toda a diferença, já que em "Jurassic world" não há nenhuma cena marcante ou exatamente inovadora. Até mesmo o clímax, que reúne os velociraptors, o Tiranossauro Rex e o infame Indominus Rex, chega com certo sabor de dèja-vu, ainda que seja tecnicamente impecável. Mas faz falta a tensão crescente impressa por Spielberg em "Jurassic Park", quando elevou a curiosidade da plateia a níveis insuportáveis com artifícios simples e certeiros, como um copo d'água sentindo a chegada do gigantesco vilão - momento inesquecível da magia do entretenimento puro e simples.

Utilizando-se da música inconfundível de John Williams apenas como apoio - a trilha sonora é assinada por Michael Giacchino - e explorando sem pudor todos os clichês possíveis herdados dos primeiros filmes da série, "Jurassic world" é uma sessão da tarde de extrema competência. Apresenta tudo aquilo que fez a fama de Spielberg como Midas do cinema-pipoca (famílias em crise, redenções finais, senso de humor adequado, sequências de ação alternadas com cenas dramáticas) e as reinventa de maneira respeitosa e um tantinho modernizada. Conquista a plateia adolescente e infantil com os personagens de sua faixa etária - donos de uma das melhores cenas - e chama o público jovem com o carisma de Chris Pratt, um ídolo do cinema de ação que tem mais talento e mais cérebro do que seus colegas de gênero. Não à toa, tem uma continuação engatilhada para estrear em 2018. Alguém duvida que novamente fará o chão tremer?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

JULIETA

JULIETA (Julieta, 2016, El Deseo S/A, 99min) Direção: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar, contos de Alice Munro. Fotografia: Jean Claude Carrieu. Montagem: José Salcedo. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Federico G. Cambero. Produção: Agustin Almodóvar, Esther Garcia. Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Inma Cuesta, Rossy de Palma, Dario Grandinetti, Michelle Jenner, Pilar Castro, Nathalia Poza, Susi Sánchez, Joaquín Notario, Priscilla Delgado. Estreia: 08/4/16

Depois de flertar com o suspense psicológico em "A pele que habito" (2011) e voltar às origens debochadas com "Os amantes passageiros" (2013), o cineasta espanhol Pedro Almodóvar estava devendo aos fãs um novo mergulho no denso universo feminino do melodrama - gênero que lhe proporcionou os maiores sucessos de crítica da carreira, como "Tudo sobre minha mãe" (99) e "Volver" (06), e do qual estava afastado desde "Abraços partidos" (09). Pois foi somente no Festival de Cannes de 2016 que ele presenteou o público com mais uma pequena obra de arte, um filme delicado e sensível sobre a alma humana e seus desvãos: inspirado em três contos da escritora canadense Alice Munro, "Julieta" saiu da Riviera Francesa sem nenhum prêmio, mas reconquistou o carinho da plateia graças à sua extrema delicadeza e força dramática. Ainda um exímio diretor e roteirista implacável, Almodóvar se debruça sobre a tristeza e a melancolia para contar as desventuras da personagem-título - interpretada com segurança por Emma Suárez e Adriana Ugarte - em meio a seus belíssimos enquadramentos e suas características cores vivas.

Renunciando totalmente ao humor podreira do início de sua carreira e que vez ou outra dava as caras em suas produções mais sérias, dessa vez Almodóvar resolveu apostar sem medo no drama explícito, sem espaço para respiros. Ainda mantém o flashback como peça fundamental de sua narrativa - algo que faz como poucos - e jamais abandona o cuidado extremo com o visual de suas cenas, valorizado pela fotografia de Jean Claude Carrieu, discreta o bastante para não chamar mais atenção do que a trama que se desenrola diante do espectador. O uso impactante do vermelho também continua parte indissociável de sua personalidade artística, bem como sua inacreditável capacidade de transformar o mais banal drama doméstico em um poderoso estudo sobre as emoções humanas. Amor, culpa, ciúme, inveja, solidão e desejo estão presentes em cada momento do filme, misturados pelas mãos mágicas do cineasta e interpretados por uma dupla de expressivas atrizes dividindo o papel central. Assim como todos os seus filmes anteriores, "Julieta" não é drama de uma única emoção - e Almodóvar faz com que o espectador sinta cada uma delas sem que para isso precise apelar para lágrimas e sorrisos fáceis.


A trama, aparentemente simples, começa quando Julieta (Emma Suárez), uma ex-professora de literatura grega em vias de deixar Madri com o namorado, o escultor Lorenzo (Dario Grandinetti, de "Fale com ela", também de Almodóvar), reencontra, na rua, a jovem Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua única filha, Antía. O reencontro mexe profundamente com Julieta, que não vê nem tem notícias da filha há anos, desde que esta viajou para um retiro espiritual e nunca mais procurou a mãe. Desistindo de sair do país e voltando para o apartamento onde morava com a menina, Julieta entra em uma jornada através do tempo, relembrando sua história de amor e perda com Xoan (Daniel Grao), iniciada em uma viagem de trem e terminada tragicamente, de forma a deixar marcas indeléveis em sua alma. Dessas memórias - quando é interpretada por Adriana Ugarte - fazem parte outros personagens importantes, como a empregada doméstica Marian (Rossy de Palma, presença constante na obra do diretor) e a escultora Ava (Inma Cuesta), que, de um modo ou outro, são fundamentais no rumo dos acontecimentos.

Magistralmente executado - sem excessos e dotado de uma elegância quase inédita na carreira do cineasta - "Julieta" é um filme de notas menores, uma surpresa quando se trata do normalmente excêntrico Almodóvar. Apresentando emoções contidas e represadas, sua trama aposta no minimalismo, como refletindo o silêncio da protagonista diante de seu constante desespero. Ao fugir de sua zona de conforto e evitar catarses grandiosas, o diretor segue o caminho inverso de sua obra até aqui e surpreende positivamente, mostrando (mais uma vez) que, por trás do rebelde e escandaloso autor de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (88) existe um homem de sensibilidade rara quando se trata de conhecer a alma humana - em especial a feminina. Até mesmo o final - anti-climático para alguns, emocionante para outros - é quase uma antítese do Almodóvar histriônico ao que se está acostumado. E é sempre refrescante e empolgante perceber que um grande artista ainda tem o poder de se reinventar com tanta genialidade. Bravo, Almodóvar! Mais uma vez.

sábado, 26 de novembro de 2016

O CONVITE

O CONVITE (The invitation, 2015, Gamechanger Films, 100min) Direção: Karyn Susama. Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi. Fotografia: Bobby Shore. Montagem: Plummy Tucker. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Alysia Raycraft. Direção de arte/cenários: Almitra Corey/Ben Plunkett. Produção executiva: Nate Bolotin, Dan Cogan, Wendy Ettinger, Mynette Louie, Tony Mancilla, Julie Parkr Benello, Aubin Paul. Produção: Martha Griffin, Phil Hay, Matt Manfredi, Nick Spicer. Elenco: Logan Marshall-Green, Emayatzy Corinealdi, John Carroll Lynch, Tammy Blanchard, Michiel Huisman, Mike Boyle, Michelle Krusiec, Jordi Vilasuso, Jay Larson, Marieh Delfino, Toby Huss. Estreia: 13/3/15

As cenas iniciais, tensas e com um certo ar de estranhamento, já dá uma pista do que virá: em direção a um jantar na casa de amigos, o casal Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) atropela um cervo, e, sem outra opção em vista, o rapaz é obrigado a sacrificar o animal com uma das ferramentas do carro. É esse tom de angústia e tensão que irá se desenvolver e aprofundar por todos os 100 minutos de duração de "O convite", primeiro longa-metragem da nova-iorquina Karyn Susama depois do terror adolescente "Garota infernal" (09). Amadurecida como cineasta e de posse de um material infinitamente mais rico e promissor, ela faz de seu filme um exercício constante de desconforto, enfatizado por uma fotografia opressiva e um elenco que, mesmo sem astros conhecidos, oferece ao espectador um senso de perigo iminente que vai crescendo cada vez mais, até o final aterrador e chocante.

Acostumada a lidar com protagonistas femininas - são dela também "Boa de briga" (2000), com Michelle Rodriguez, e "Aeon Flux" (05), com Charlize Theron - Susama dessa vez centra sua atenção no personagem de Logan Marshall-Green, do elenco de "Prometheus" (12) e idêntico à Tom Hardy em certos momentos. Com uma atuação minimalista e corajosa ao romper com os clichês do gênero, ele empresta a seu Will tintas de tristeza e sofrimento que o afastam do estereótipo de herói inabalável. Contando a história sob seu atormentado ponto de vista, a cineasta o aproxima do espectador sem apelar para artifícios desonestos, utilizando-se apenas de seus conflitos internos para transformá-lo em uma pessoa de carne e osso, falível e propensa a crises de desespero e solidão - mesmo quando rodeado de gente. Will, o protagonista de "O convite", é um personagem de tragédia perdido em meio a uma trama de suspense - uma espécie de Cassandra de calças, incapaz de fazer com que as pessoas enxerguem o óbvio destino reservado a elas.


Will é um homem com um passado traumático. Seu casamento com Eden (Tammy Blanchard) naufragou depois da morte acidental do filho pequeno, um golpe pesado demais para que eles se mantivessem juntos de maneira saudável. Dois anos depois de perder contato com a ex-mulher, ele recebe o convite para juntar-se a ela, a seu novo marido, David (Michiel Huisman), e a um grupo de antigos amigos em um jantar na casa onde viviam anteriormente. Acompanhado da nova companheira, Kira, ele aceita participar da reunião, mas tão logo chega no local passa a sentir uma estranha energia vinda de seus anfitriões. Suas dúvidas em relação às intenções do convite, porém, não são compartilhadas pelos demais convidados, que se sujeitam tranquilamente a todas as brincadeiras e testes propostos para animar a noite. Tranquilos e aparentemente felizes, Eden e David não se cansam de propalar os benefícios de um culto que conheceram durante uma viagem ao México - um simulacro de religião que a ensinou a lidar com a dor da perda e mudou sua vida. Convencido de que o encontro tem muitas ligações com tal culto, Will tenta alertar os amigos, mas ninguém dá ouvidos a seus avisos.... até que ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade mental.

Um suspense psicológico que substitui com eficiência a violência gráfica pelo clima claustrofóbico e aflitivo, "O convite" vai construindo sua tensão gradualmente, mergulhando o público em um caldeirão de estranheza que vai ficando mais aguda conforme o tempo passa. De inocentes jogos de salão até revelações melancólicas, a noite alegre vai se tornando um círculo de paranoia crescente, que leva a plateia consigo até explodir em um clímax sangrento que não apenas cumpre o que promete desde seus primeiros minutos, como também critica contundentemente a forma como alguns tipos de religião se aproveitam da dor alheia para promover a violência e o desespero. Desviando com esperteza dos clichês que inundam o gênero, Karyn Susama entrega um filme de horror que prescinde de assassinos mascarados para promover o medo e a agonia. Com os dois pés bem fincados na realidade, ela conquista a audiência e levanta questionamentos relevantes em dias de obscurantismo religioso. De quantos filmes de terror pode-se dizer a mesma coisa?

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

INDIGNAÇÃO

INDIGNAÇÃO (Indignation, 2016, RT Features/X-Filme Creative Pool, 110min) Direção: James Schamus. Roteiro: James Schamus, romance de Philip Roth. Fotografia: Christopher Blauvelt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Jay Wadley. Figurino: Amy Roth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Philippa Culpepper. Produção executiva: Stefanie Azpiazu, Jonathan Bronfman, Avy Eschenazy, Logan Lerman, Sophie Mas, Woody Mu, Lourenço Sant'Anna, Lisa Wolofsky. Produção: Anthony Bregman, James Schamus, Rodrigo Teixeira. Elenco: Logan Lerman, Sarah Gadon, Danny Burnstein, Tracy Letts, Linda Emond. Estreia: 24/01/16 (Festival de Sundance)

Um dos mais celebrados escritores norte-americanos, Philip Roth não teve a mesma sorte das livrarias quando adaptado para o cinema. Dono de uma prosa contundente e sofisticada, ele viu seu mais famoso romance, "A marca humana", chegar às telas sob a direção de Robert Benton em uma versão apenas morna estrelada por Anthony Hopkins e Nicole Kidman chamada "Revelações" (04) e "O animal agonizante" ganhar o mundo sem muito alarde como "Fatal", dirigido por Isabel Coixet e estrelado por Ben Kingsley e Penelope Cruz em 2008. Normalmente explorando em sua premiada literatura o universo da imigração judaica nos EUA e a luta do homem contra seus instintos sexuais, Roth é um autor que exige a compreensão absoluta de um dos elementos mais difíceis de traduzir na tela: estados de espírito. Seus personagens, frequentemente torturados por pensamentos angustiados e grande senso crítico em relação ao mundo em que vivem, não encontravam eco fora das páginas até que James Schamus - produtor de importantes filmes de Ang Lee, como "Tempestade de gelo" (97) e "O tigre e o dragão" (2000) - resolveu que era hora de mudar esse cenário. Surge "Indignação", a melhor e mais tocante transposição do universo de Philip Roth para a sétima arte.

Com uma estreia discreta no Festival de Sundance de 2016 e um lançamento pouco ambicioso depois de passar por uma série de outros festivais de cinema, "Indignação" é um drama poderoso e emocionante, que toca em diversos nervos da sociedade norte-americana, movida a hipocrisias e preconceitos, ao contar uma história que começa como romance juvenil para se transformar em uma dramática trama sobre escolhas e obrigações morais. Com uma surpreendente atuação do jovem Logan Lerman - revelado na série de filmes "Percy Jackson" - no papel principal e uma reconstituição de época impecável mas discreta, o filme convida o espectador a mergulhar em um mundo claustrofóbico de regras brutais e machistas, capazes de ressonâncias eternas e excruciantes dores na alma. Não é o que se pode chamar de um entretenimento leve, mas Schamus conduz seu roteiro com o máximo de leveza possível, erguendo pouco a pouco, cena por cena, um muro de preceitos aparentemente simples que só mostrará sua extensão nos minutos finais - sutis, mas ensurdecedores.


Valorizando ao máximo os longos diálogos criados por Philip Roth - em especial uma brilhante sequência entre o protagonista e o reitor de sua universidade, a respeito de religião - o roteiro de James Schamus não subestima a inteligência do espectador lhe oferecendo soluções fáceis ou óbvias. A jornada do personagem central rumo à maturidade emocional é repleta de percalços que contrastam com sua natureza pura e honesta, consequência de uma criação com rígidos valores morais que, paradoxalmente, irão ser os responsáveis pelos mais dramáticos momentos de sua vida adulta, quando é obrigado a decidir entre manter seus princípios ou criar outros, mais benevolentes e de acordo com sentimentos até então inéditos e desconhecidos. Lerman, até então um ator pouco explorado - seu trabalho mais impactante havia sido em outro retrato de um rito de passagem, o belo "As vantagens de ser invisível" (2012) - transmite com sensibilidade todas as nuances de um personagem difícil, cuja ação interior é tão ou mais importante quanto a exterior. Nunca seu olhar assustado e frágil coube tão bem quanto na sua personificação de Marcus Messner, o tímido filho de um açougueiro judeu de Nova Jersey que entra na universidade de Ohio, em 1951 para descobrir que o mundo é muito mais opressivo, com seus códigos não-escritos de conduta, do que a rotina enfadonha de atender aos clientes de seu pai.

Resistindo bravamente quanto a juntar-se aos outros (poucos) judeus da universidade, que insistem em tentar recrutá-lo em uma espécie de confraria, Marcus tampouco aceita com serenidade a obrigação de participar das missas católicas do local - que tem tanta importância quanto seu desempenho curricular. Em suas tentativas de respirar, ele conhece a bela Olivia Hutton (Sarah Gadon), que o surpreende com uma liberalidade sexual e sentimental além de qualquer experiência anterior. Repentinamente, porém, os rumos de sua relação passam a ser ditados pela hipocrisia da sociedade que os envolve - com sua absoluta falta de pudores quando o assunto é sexo, Olivia se torna uma ameaça aos planos de Marcus, o que os encaminha a uma possível tragédia. Mas será que o rapaz terá força o bastante para impedir tal destino? Ou os desígnios da falsa moralidade são maiores do que seus sentimentos? Com tais questionamentos na mesa, Philip Roth construiu uma trama urdida com base na dor do amadurecimento e na certeza da impotência frente ao preconceito, e James Schamus honra tal obra com um filme adulto, sério, elegante e principalmente respeitoso com a fonte original, desde o tom quase cerimonioso até a escalação certeira do elenco. Valorizado ainda pela bela música de Jay Wadley, "Indignação" é uma pérola escondida, pronta para ser descoberta pelos fãs do bom cinema.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)

06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som

Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.

Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.


Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.

Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

HERÓIS IMAGINÁRIOS

HERÓIS IMAGINÁRIOS (Imaginary heroes, 2004, Signature Pictres, 111min) Direção e roteiro: Dan Harris. Fotografia: Tim Orr. Montagem: James Lyons. Música: Deborah Lurie. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Rick Butler/Mila Khalevich. Produção executiva: Rudy Cohen, Jan Fantl. Produção: Illana Diamant, Moshe Diamant, Frank Hubner, Art Linson, Gina Resnick, Denise Shaw. Elenco: Sigourney Weaver, Jeff Daniels, Emile Hirsch, Michelle Williams, Kip Pardue, Deirde O'Connell, Ryan Donowho, Suzanne Santo. Estreia: 14/9/04 (Festival de Toronto)

A princípio, tem-se a nítida impressão de que "Heróis imaginários" é uma versão modernizada de "Gente como a gente", estreia de Robert Redford como cineasta, que ganhou os Oscar de melhor filme e direção de 1980: uma família já com uma saudável cota de problemas precisa lidar com o suicídio do primogênito enquanto o caçula, ainda adolescente, tenta encontrar o equilíbrio necessário para sobreviver em um mundo pouco hostil. Porém, não precisa-se de muito tempo para perceber, com uma dose de alívio, que o filme de Dan Harris pode até ter se inspirado na produção estrelada por Donald Sutherland e Mary Tyler Moore, mas tem personalidade própria. Em seu primeiro longa-metragem como diretor - em seu currículo já constava o roteiro de "X-Men 2" (2003) - Harris, com 35 anos à época do lançamento do filme, demonstra maturidade surpreendente ao falar de luto, desajuste social e angústias de todo tipo sem cair na armadilha do sentimentalismo barato nem mesmo quando ameaça descambar para o dramalhão.

Apesar de ser Sigourney Weaver o grande nome do elenco, o real protagonista de "Heróis imaginários" é o jovem Emile Hirsch, que quatro anos mais tarde se consagraria no papel central de "Na natureza selvagem", dirigido por Sean Penn. Hirsch interpreta Tim Travis, o filho mais novo de uma família aparentemente normal que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o primogênito, Matt (Kip Pardue), comete suicídio. Exímio nadador e orgulho do pai, Ben (Jeff Daniels), Matt só consegue manifestar sua infelicidade crônica com a vida dando um tiro na cabeça. Sua morte violenta e inesperada joga toda a família em uma espiral de angústia da qual cada um só consegue emergir da própria maneira. Ben, o pai, passa a andar a esmo pelas ruas e faltar ao trabalho. A mãe, Sandy (Sigourney Weaver), apela para pequenas transgressões, como fumar maconha e flertar com rapazes mais jovens. A filha universitária, Penny (Michelle Williams dando início a uma série de filmes dramáticos que passariam a lhe dar prestígio), passa a frequentar cada vez menos o lar. E Tim, que teve o azar de encontrar o corpo do irmão, luta para enfrentar os problemas da adolescência ao mesmo tempo em que procura encaixar-se em um núcleo familiar cada vez menos atraente e significativo.


Emprestando a Tim seu talento em parecer vulnerável e introvertido, Emile Hirsch cabe como uma luva no papel do protagonista, sem carregar nas tintas dramáticas nem quando segredos de família e a verdade sobre sua relação com o irmão surgem com a força de um caminhão desgovernado. Amparado pela atuação sensível e discreta de Sigourney Weaver - responsável por alguns dos melhores momentos do filme - o jovem ator alcança a rara façanha de criar um personagem melancólico na medida certa, sem forçar a compaixão da plateia ou buscar o caminho mais fácil de conquistar sua simpatia. Seu Tim é repleto de nuances - todas exploradas com delicadeza e bom senso, graças ao roteiro do diretor - e é louvável como o cineasta consegue atingir todas as notas de sua trama mesmo quando opta por revelar todos os seus elementos aos poucos, como uma jornada de autodescoberta dolorida mas imprescindível. Como em todos os bons filmes sobre a difícil travessia da infância para a vida adulta, "Heróis imaginários" tem em seu caminho decepções, alegrias e uma bem-vinda dose de otimismo que dá o equilíbrio exato entre a tristeza das perdas e a felicidade de se estar vivo.

Sem pretensões a tornar-se retrato de uma geração, "Heróis imaginários" é o recorte de um ritual de passagem, pura e simplesmente. Torna-se especial graças ao roteiro sensível, à direção inspirada de um cineasta ainda bastante jovem e antenado e a um elenco em estado de graça, capaz de transformar sentimentos comuns em matéria-prima de uma história que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer classe social ou qualquer tipo de família. É a essência de "Gente como a gente", mas tornada mais acessível a uma plateia jovem e com valores um tanto diferentes daqueles revelados por Redford no final da década de 70 - um exemplo disso são as relações de Tim com sua namorada, Steph (Suzanne Santo) e com seu melhor amigo e vizinho, Kyle (Ryan Donowho), bem mais ousadas do que no filme oscarizado. O conteúdo principal ainda é forte e contundente, mas a forma é mais moderna e atraente para as novas plateias. Vale ser descoberto e apreciado por quem procura bons dramas familiares, mas sua despretensão o impede de ser ainda melhor.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III (Back to the future - Part III, 1990, Universal Pictures, 118min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Margie Stone McShirley, Jim Teegarden. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan. Estreia: 25/5/90

Quando Robert Zemeckis e Bob Gale resolveram que o sucesso estrondoso de "De volta para o futuro" (85) merecia uma continuação, se depararam com uma situação atípica dentro da indústria hollywoodiana: ao invés de experimentarem um bloqueio criativo, eles foram brindados com uma profusão de ideias, que expandiam o universo de viagens no tempo a ponto de dar material não apenas para uma, mas duas sequências. Então, com o aval da Universal Pictures, entusiasmada com a centena de milhares de dólares arrecadados pelo primeiro filme, diretor e roteirista tomaram a decisão então inédita de rodar dois filmes simultaneamente, para que estreassem com o intervalo de um ano entre um e outro. Assim, a história do adolescente que precisava voltar trinta anos no passado para garantir que sua existência não fosse apagada acabava por se transformar em uma trilogia das mais amadas de sua época, repleta de personagens adoráveis, diálogos bem escritos e cenas que entraram para o inconsciente coletivo. Uma pena que seu encerramento, "De volta para o futuro - parte III" seja o menos empolgante da série, deixando no ar uma ligeira sensação de anti-clímax.

Depois de dedicar os dois primeiros filmes à família de Marty McFly (Michael J. Fox) - tanto em 1955 quanto em um 1985 alternativo - o roteiro do terceiro capítulo volta seus olhos para o outro protagonista da história, o cientista Emmett Brown (Christopher Lloyd, sempre ótimo), dessa vez remetendo os personagens para o Velho Oeste, mais precisamente para o ano de 1885, onde Brown está levando uma vida pacífica e tranquila, segundo uma carta escrita de próprio punho para ele mesmo, no futuro. A complicação começa, porém, quando ambos descobrem, em 1955, que apenas uma semana depois de ter escrito a carta, o cientista será assassinado por um conhecido criminoso local. Para impedir que tal tragédia ocorra, Marty convence o amigo a deixá-lo retornar no tempo mais uma vez. É assim que ele chega a uma Hill Valley em seus primórdios e, assumindo o pseudônimo de Clint Eastwood, conhece seus antepassados, Seamus (também Michael J. Fox) e Maggie McFly (Lea Thompson), o apavorante "Mad Dog" Tannen (Thomas F. Wilson) e a professora Clara Clayton (Mary Steenburgen), que, tão logo chega no local, desperta uma inesperada paixão no solitário Emmett Brown.


Como uma grande homenagem a um dos gêneros mais queridos de Hollywood, "De volta para o futuro - parte III" abarca uma infindável coleção dos maiores ícones do western. Do nome adotado por Marty quando chega à Hill Valley até o clímax em uma estrada de ferro, todos os elementos mais clássicos do faroeste desfilam pela tela, de forma mais ou menos explícita. Há o saloon onde se encontram os valentões e McFly dá de cara com Mad Dog pela primeira vez; há os bailes ao ar livre onde a comunidade confraterniza em momentos de paz; há os figurinos típicos, com direito a um extravagante conjunto vestido pelo protagonista ("Deve ter roubado de algum chinês morto!"); há ataques indígenas e, finalmente, há a moldura esplendorosa do Monument Valley, cenário arquetípico facilmente reconhecível até mesmo por aquela plateia que jamais ouviu falar em John Ford. Para aproximar-se de um público mais jovem e menos afeito à nostalgia, Zemeckis reveste todos esses ingredientes com um atraente senso de humor e aventura que disfarça sua real intenção: realizar um faroeste à moda antiga, mas com os recursos da (então) moderna tecnologia cinematográfica. Ao mesmo tempo em que brinca com os demais filmes da série - com cenas e situações que dialogam diretamente com os capítulos anteriores - o diretor injeta sangue novo à mitologia do enredo, mostrando a construção da torre do relógio (peça-chave nos três filmes), apresentando os pioneiros McFly nos EUA e o início da rivalidade entre a família do protagonista e os Tannen - que um século mais tarde ainda estará bem viva, como mostram as brigas entre George e Biff. Sem perder em momento algum o senso de humor e a coerência interna com o universo criado em 1985, o filme só não é perfeito por estender-se demais.

Com uma trama sem a quantidade de acontecimentos dos dois primeiros filmes - tão movimentados que chegavam a dar um nó na cabeça do espectador - e a história principal centrada no romance entre Brown e Clara Clayton, "De volta para o futuro - parte III" se ressente de uma edição mais enxuta, capaz de limar alguns excessos. O clímax do filme, por exemplo, em um trem à toda velocidade, mais cansa o público do que o encanta, e o desfecho da história, mesmo que necessário, estende-se mais do que deveria: não deixa nenhuma ponta solta, o que é admirável, mas demora a ponto do quase tédio. Por mais que o público goste de Marty McFly e Emmett Brown, sua despedida poderia ser bem mais ágil e divertida. É um final agradável, simpático e coerente, mas que não chega a estar à altura dos dois primeiros filmes, o que, de certa forma, era uma missão quase impossível.

domingo, 20 de novembro de 2016

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II (Back to the future - Part II, 1989, Universal Pictures, 108min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Linda De Scenna. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan, Billy Zane. Estreia: 22/11/89

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

Depois do acachapante - e de certa forma inesperado - sucesso de "De volta para o futuro" (85), era até previsível que sua equipe (o diretor Robert Zemeckis, o roteirista Bob Gale e o produtor Steven Spielberg) caísse na tentação de realizar uma continuação. A novidade, contudo, surgiu quando a Universal Pictures anunciou que, para economizar custos e dar conta da enorme quantidade de ideias que surgiam na mente de seus criadores, seriam realizados, de uma só vez, duas sequências para a divertida história do adolescente Marty McFly e suas viagens pelo tempo. Os dois filmes seriam lançados com um espaço de tempo de apenas seis meses entre eles e formariam, no final, uma trilogia que contava, segundo os próprios Zemeckis e Gale, uma única história em três partes. Ocupado com as demoradas filmagens de seu premiado "Uma cilada para Roger Rabbit" (88), o cineasta deu tempo de sobra para que Bob Gale desenvolvesse os dois capítulos finais da série - separados também por tons e ambientações diferentes - e os produtores lidassem com os problemas relativos a contratos e negociações. E em uma série de filmes com roteiros tão complexos, jamais poderia imaginar que a maior dificuldade de levar "De volta para o futuro - parte II" para os cinemas fosse cair justamente no elenco coadjuvante.

Mesmo com todos os atores tendo assinado contratos para eventuais continuações do primeiro filme, a produção de "De volta para o futuro - parte II" emperrou de cara quando Crispin Glover, que no primeiro filme interpretou George McFly, o pai do protagonista, decidiu que não iria participar das sequências por não concordar com o salário oferecido - segundo ele, apenas metade do que receberiam outros membros do elenco de apoio, como Lea Thompson (sua mulher, Lorraine) e Thomas F. Wilson (seu rival, Biff Tannen). Rodadas de negociações foram gastas até que o estúdio resolvesse que Glover não estava sendo minimamente razoável e desistisse de contar com sua participação, substituindo-o por um dublê em todas as cenas em que fosse imprescindível sua presença. Outro problema no elenco dizia respeito à Claudia Wells, que vivia Jennifer, a namorada de Marty no original - e que era, de acordo com as cenas finais, parte importante do enredo do segundo filme, relacionado aos filhos do protagonista. Com a mãe diagnosticada com câncer, Wells abandonou a carreira de atriz e deixou os produtores com um abacaxi a descascar. Felizmente, nesse caso as coisas foram mais fáceis: Elisabeth Shue - que seis anos depois concorreria ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Despedida em Las Vegas" - assumiu o papel e deixou aliviados todos aqueles que esperavam ansiosamente para voltar a um dos mais queridos filmes dos anos 80.

A trama de "De volta para o futuro - parte II" começa exatamente onde acabou o original: o Dr. Emmett Brown (Christopher LLoyd, ainda mais à vontade no papel) procura o adolescente Marty McFly (Michael J. Fox) procurando ajuda para resolver um problema com seus filhos no ano de 2015. Arrastando uma atônita Jennifer junto com eles, a dupla chega ao futuro para tentar impedir que o filho de McFly, Junior (novamente Fox), seja preso e condenado devido à má influência de Griff Tannen (Thomas F. Wilson), filho de Biff, inimigo declarado da juventude de seu pai. A questão demora um pouco a ser resolvida - e faz com que Marty tenha contato ainda com sua filha, Marlene (Fox em terceiro papel), com Jennifer mais velha e com ele mesmo em uma rotina pouco entusiasmante. A situação sofre um baque, porém, quando, em 2015, Biff descobre o segredo do DeLorean máquina do tempo e, em um lance de mestre, viaja para o passado para entregar a ele mesmo jovem um almanaque com todos os resultados esportivos do século. Quando retorna a 1985, então, Marty e Brown precisa lidar com uma devastadora realidade alternativa, onde Biff é um milionário ao estilo Donald Trump e casado com sua mãe. Para evitar essa tragédia, ele convence Brown a voltar mais uma vez a 1955 e impedir o encontro dos dois Biffs - enquanto tenta impedir também um encontro consigo mesmo, o que pode causar irreparáveis danos à linha temporal.


Apostando na inteligência da plateia e entregando uma trama repleta de detalhes que vão se completando no decorrer da narrativa, "De volta para o futuro - parte II" consegue ser tão divertido e empolgante quanto o primeiro filme, por mais que tenha perdido o sabor de novidade. Ao recriar sequências do original - como a corrida de skate (dessa vez voador) - Zemeckis conduz a plateia à sua própria viagem no tempo, em especial quando recria detalhadamente o baile "Encanto submarino" e faz com que o protagonista fique sempre a um passo de esbarrar em uma outra versão de si mesmo, em um delicioso suspense no qual o espectador embarca sorridente e seduzido. Brincando também com situações banais transformadas em piadas - "Tubarão 19", anuncia a marquise do cinema, com um realista monstro em 3D assustando os transeuntes e Biff Tannen uma cópia idêntica de Donald Trump quase trinta anos antes que o milionário fosse eleito presidente - e com um roteiro que não dá trégua em seu vai-e-volta, o diretor faz uso exemplar dos efeitos visuais indicados ao Oscar (a cena da reunião familiar é sensacional) e não perde jamais o fio da meada, demonstrando total domínio de seus personagens e sua história.

Apontado por alguns como confuso demais para um filme de verão, "De volta para o futuro - parte II" é, na verdade, a prova irrefutável de que não é necessário subestimar a inteligência da plateia para conquistá-la. Exigindo mais do público do que a vasta maioria das produções a chegar às telas no meio do ano nos EUA - sempre a temporada mais lucrativa - o filme de Zemeckis consegue alcançar o equilíbrio perfeito entre ação, comédia e ficção científica, sem que para isso tenha que sacrificar a coerência interna da história ou a complexidade de seus personagens. É uma continuação exemplar, que honra seu primeiro capítulo e abre a porta para seu final com o máximo de respeito e ousadia possíveis. Não é à toa que Robert Zemeckis é um dos mais bem-sucedidos diretores de sua geração.

sábado, 19 de novembro de 2016

OS FANTASMAS CONTRA-ATACAM

OS FANTASMAS CONTRA-ATACAM (Scrooged, 1988, Paramount Pictures, 101min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Mitch Glazer, Michael O'Donoghue, inspirado em romance de Charles Dickens. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp. Música: Danny Elfman. Figurino: Wayne Finkelman. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Produção executiva: Steve Roth. Produção: Richard Donner, Art Linson. Elenco: Bill Murray, Karen Allen, John Forsythe, John Glover, Bobcat Goldthwait, Carol Kane, Robert Mitchum. Estreia: 17/11/88

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Publicada pela primeira vez em 1843, "Um conto de Natal", do inglês Charles Dickens, é uma das histórias mais conhecidas do mundo, e, consequentemente, teve inúmeras versões para o cinema e a televisão. Nenhuma, no entanto, atingiu o tom sardônico e mordaz de "Os fantasmas contra-atacam", uma inclemente adaptação dirigida por Richard Donner em 1988 que substituía a emoção do conto original pelo humor cruel e politicamente incorreto que coube como uma luva em seu protagonista, Bill Murray. Afastado das telas desde o fiasco de "O fio da navalha" (84) - um filme no qual investiu dinheiro e dedicação e que naufragou nas bilheterias - e seriamente tentado a abandonar a carreira, Murray resolveu voltar aos holofotes com um papel sob medida, e testando seu poder de fogo como protagonista absoluto. Em seu último sucesso, "Os caça-fantasmas" (84), ele havia dividido as atenções com um grupo de talentos que incluía Harold Ramis, Dan Aykroyd e Sigourney Weaver, mas como Frank Cross, a versão moderna e cômica do famigerado Scrooge, ele não apenas enfeitaria os créditos em primeiro lugar: ele carregaria o filme nas costas. E foi exatamente o que aconteceu.

Com liberdade para improvisar sobre o roteiro adaptado com extrema acidez por Mitch Glazer e Michael O'Donoghue, Murray entregou uma performance vitoriosa, repleta de todas as nuances que sempre o destacaram entre seus humoristas contemporâneos. Com poder para fazer alterações no script, foi ele quem solicitou aos autores a expansão da trama romântica em detrimento das cenas familiares e, mesmo que seu relacionamento com Richard Donner tenha sido um tanto quanto problemático durante as filmagens, é inegável que a personalidade do ator é que dá o gostinho especial que o filme tem em seu resultado final. O desafio de transformar um emocionante e amado clássico natalino em uma comédia desvairada acabou dando certo: "Os fantasmas contra-atacam" (um título no mínimo inadequado) tornou-se um das maiores bilheterias de 1988 e chegou a concorrer ao Oscar de maquiagem - e boa parte do mérito se deve ao casamento mais que perfeito entre ator e personagem.


Em uma jogada de mestre, o roteiro de "Os fantasmas contra-atacam" moderniza a trama de Charles Dickens e a situa no competitivo mundo dos bastidores da televisão. É lá que vive Frank Cross (Bill Murray), presidente de uma emissora que, na véspera de Natal, planeja transmitir uma adaptação da obra do escritor britânico. Egocêntrico, frio e incapaz de demonstrar qualquer tipo de sentimento mais nobre, Cross é capaz de demitir funcionários mesmo nas festas de final de ano, proibir a secretária de acompanhar o filho pequeno ao médico e dar apenas uma toalha corporativa ao único irmão - isso sem falar em maus-tratos aos animais e a absoluta falta de talento em lidar com as pessoas. Maltratando a quem passa por seu caminho, ele tem uma experiência redentora quando é visitado por três fantasmas, que irão lhe mostrar três Natais distintos que definiram sua vida. O primeiro (David Johansen) surge na forma de um taxista desbocado que o leva a revisitar sua infância infeliz. A segunda (Carol Kane), agressiva e violenta, lhe acompanha pelos preparativos para o Natal presente. E é somente quando ele percebe que, a menos que se transforme em uma boa pessoa, irá morrer solitário e triste, é que Cross resolve dar uma chance a um amor antigo, Claire (Karen Allen).

Visualmente criativo, com diálogos divertidos e um elenco que inclui veteranos em participações especiais (Roobert Mitchum, Lee Majors, Miles Davis, John Houseman), "Os fantasmas contra-atacam" é um antídoto contra a sacarose típica das produções natalinas que invadem os cinemas e a televisão no final de cada ano. Sem medo de ofender suscetibilidades, o roteiro, a direção e Bill Murray exploram cada ângulo da história de Dickens sob a perspectiva do humor mais radical possível para um filme de grande estúdio (no caso a Paramount Pictures) e o resultado é um festival de gargalhadas que jamais fere a obra original e a atualiza de forma inteligente e coerente com seu espírito. Um acerto dos grandes na carreira de Donner e Murray.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AMIGAS PARA SEMPRE

AMIGAS PARA SEMPRE (Beaches, 1988, Touchstone Pictures, 123min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Mary Agnes Donoghue, romance de Iris Rainer Dart. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Richard Halsey. Música: Georges Delerue. Figurino: Robert De Mora. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Michael Bird, Garrett Lewis. Produção executiva: Teri Schwartz. Produção: Bonnie Bruckheimer-Martell, Bette Midler, Margaret Jennings South. Elenco: Bette Midler, Barbara Hershey, John Heard, Spalding Gray, Lainie Kazan, James Read. Estreia: 21/12/88

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Indicada ao Oscar de melhor atriz logo em sua estreia nas telas, com o musical "A rosa" (79), biografia disfarçada de Janis Joplin dirigida por Mark Rydell, Bette Midler tornou-se, na segunda metade da década de 80, sinônimo de sucesso dentro da Touchstone Pictures. Protagonista de três êxitos incontestáveis na sequência - "Um vagabundo na alta roda" (86), "Por favor, matem minha mulher" (86) e "Cuidado com as gêmeas" (88) - ela conquistou as plateias com seu humor histriônico e frequentemente excessivo que deixava de lado seu talento dramático e seus dons musicais. Disposta a mudar esse cenário, ela encontrou no romance "Beaches", de Iris Rainer Dart, o material ideal para voltar a ser lembrada por seus dotes como intérprete séria. Assinando também como produtora, Midler escolheu uma companheira de cena acima de qualquer suspeita - Barbara Hershey, que acabara de ser vista nos cinemas como a Maria Madalena de Scorsese, em "A última tentação de Cristo" (88) - e um cineasta, Garry Marshall, que, apesar de não ter uma personalidade artística das mais marcantes, emplacaria um megasucesso dois anos depois, o romântico "Uma linda mulher" (90). De olho principalmente no público feminino, "Amigas para sempre" não repetiu o mesmo sucesso do filmes anteriores da estrela, mas para os menos exigentes funciona como um bom drama lacrimoso - e que sim, explora todos os seus talentos.

A história, como não poderia deixar de ser, é puro clichê: ainda crianças, em Atlantic City, a mimada e sofisticada Hillary Whitney e a rebelde com vocação artística CC Bloom se conhecem e se tornam amigas, apesar de suas diferenças sociais e de criação. Apesar de distantes fisicamente uma da outra, elas continuam mantendo uma assídua correspondência, até que finalmente, anos mais tarde, se reencontram quando CC (já vivida por Bette Midler) está iniciando uma bem-sucedida carreira nos palcos e Hillary (Barbara Hershey com excesso de botox) dedicando-se a trabalhar como advogada para causas sociais. Elas passam a morar juntas no apartamento decrépito de CC e é justamente seu empresário, John Pierce (John Heard), que irá detonar a primeira crise entre as amigas - que passarão as décadas seguintes em constante instabilidade emocional e profissional, brigando e fazendo as pazes enquanto passam por momentos cruciais de suas vidas. É somente depois que Hillary tem uma filha pequena, no entanto, que o maior problema surge em seu caminho: uma doença rara e incurável que irá por em xeque seu relacionamento.

Com um roteiro bastante superficial, que não explora a contento a profundidade dos sentimentos entre as protagonistas, que passam o filme basicamente brigando e se reconciliando, "Amigas para sempre" é nitidamente um veículo para o brilho de Bette Midler. É ela quem tem as melhores e mais importantes cenas, é ela quem tem a chance de equilibrar momentos dramáticos com sequências cômicas, e, para confirmar seu status de estrela maior, canta em diversos números musicais - alguns interessantes, outros bastante enfadonhos e que atrapalham o ritmo do filme, tornando-o desnecessariamente longo. Hershey, uma atriz de grande capacidade, fica relegada quase sempre a um segundo plano melancólico, sendo desperdiçada com uma personagem mal desenvolvida que serve, aparentemente, como escada para o espetáculo de Midler - que deita e rola mesmo quando sua personagem ultrapassa o limite do suportável, com um egocentrismo que só não a transforma em alguém totalmente desprezível graças ao carisma da atriz, que mesmo assim não agrada a todos. É preciso um mínimo de simpatia por ela para se gostar do filme.

Indicado ao Oscar de direção de arte, "Amigas para sempre" é uma sessão da tarde lacrimosa, mas agradável o suficiente para manter o interesse do público até seus minutos finais, embalados pela bela "Wind beneath my wings", cantada (obviamente) por Bette Midler. Com interessantes referências aos bastidores do mundo do teatro, do cinema e da música, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis, mesmo que force a barra no terceiro ato, quando substitui a leveza de uma história sobre amizade pelo drama fácil de uma doença terminal. Pode levar às lágrimas, mas é longe de ser inesquecível - e pelo menos deu à Bette Midler a chance de sair um pouco das comédias escrachadas e provar a extensão de seu talento.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O FIO DA SUSPEITA

O FIO DA SUSPEITA (Jagged edge, 1985, Columbia Pictures, 108min) Direção: Richard Marquand. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Sean Barton, Conrad Buff. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Peter J. Smith. Produção: Martin Ransohoff. Elenco: Glenn Close, Jeff Bridges, Peter Coyote, Robert Loggia, Lance Henriksen, James Karen, Marshall Colt. Estreia: 05/9/85 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Loggia)

A cena é típica: em uma mansão à beira-mar de São Francisco, uma mulher é surpreendida durante o sono por um homem vestido com uma máscara que lhe esconde o rosto. Violentamente, o invasor a mata a facadas, mutilando-a e utilizando seu sangue como tinta, para escrever na parede uma ofensa final. Assim começa o filme "O fio da suspeita", do mesmo Richard Marquand que também dirigiu o ultra bem-sucedido "O retorno de Jedi" (83), e se a sequência parece familiar é porque seu criador é o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem", realizado em 1992. Usando os mesmos elementos que usaria para escrever o maior sucesso de sua carreira - uma boa história, personagens interessantes e reviravoltas até os últimos minutos - Eszterhas conquistou o público, graças à elegância da direção de Marquand (em seu penúltimo filme) e ao elenco impecável, que dá credibilidade e legitimidade a uma trama policial que, mesmo sem maiores novidades, prende o espectador de seu instigante começo até o desfecho climático - que, ao contrário do que foi dito à época de seu lançamento, não foi alterado e sim tornado mais claro depois das primeiras exibições.

No filme, a vítima da primeira cena é a milionária Page Forrester, que morre e deixa toda a sua fortuna para o marido, Jake (Jeff Bridges), que, logicamente, passa a ser o principal suspeito do crime. Quando uma faca similar à arma do crime é encontrada em seu armário no clube, Jake é imediatamente indiciado e somente uma boa defesa pode impedí-lo de uma condenação pelo júri popular. Entra em cena então a competente Teddy Barnes (Glenn Close), que abandonou o Direito Penal depois de uma decepção profissional, mas que acaba seduzida pelo charme irresistível do réu. Enquanto trabalha na defesa do jovem milionário, Teddy entra em confronto com o venal promotor Thomas Krasny (Peter Coyote) - com intenções de ascender politicamente graças ao caso - e se vê envolvida sentimentalmente pelo cliente, que jura inocência. Para deixar tudo ainda mais confuso, Teddy começa a receber bilhetes anônimos, escritos à máquina e que afirmam a inocência do acusado.


Confiante em seu elenco e na história que tinha em mãos, Richard Marquand acertou em cheio em não tentar inventar a roda, preferindo apostar em uma narrativa linear e simples, pontuada aqui e ali com algumas surpresas para manter o interesse do público e o ritmo da trama. Equilibrando com maestria tanto o lado romântico do enredo quanto seu ângulo policial, o cineasta explora com inteligência o talento de seus dois protagonistas, ambos com atuações sutis e que deixam espaço para o brilho de seus colegas de cena - que o diga Robert Loggia, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho como Sam Ransom, investigador que auxilia Teddy em sua busca pela verdade. Também optando por uma interpretação sem excessos, Loggia quase rouba a cena, com um personagem à margem de todo o jogo de poder e sedução que se desenrola à sua volta. O mesmo pode ser dito de Peter Coyote, que mesmo com um personagem um tanto clichê em mãos, o transforma em uma pessoa de carne e osso. Glenn Close - em papel oferecido a Jane Fonda e Kathleen Turner e que quase foi rejeitada pelo produtor Martin Ransohoff por ser considerada feia - está elegante e sóbria, transmitindo todas as nuances de sua personagem antes de encarar as duas vilãs que marcariam sua carreira (e lhe dariam indicações ao Oscar), em "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88). E Jeff Bridges, no personagem mais sedutor de sua carreira, segura com unhas e dentes o personagem dúbio herdado de Michael Douglas - coincidentemente ou não, o protagonista de "Instinto selvagem".

Inteligente, elegante e dotado de todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de filmes policiais passados em tribunais, "O fio da suspeita" agrada a qualquer espectador que se disponha a acompanhar uma história bem contada, com atores competentes e um final coerente e lógico. Sem apelar para as estripulias eróticas de "Instinto selvagem" e "Jade" (95), seus filmes mais famosos, Eszterhas brinda a plateia com um roteiro coeso e fluente, que jamais perde o foco e de quebra mantém o suspense mesmo quando tudo parece se encaminhar para o óbvio. Seu final - que pode ou não agradar aos mais exigentes - pode não ser brilhante, mas pelo menos não ofende a inteligência do público como muitos suspenses que se pretendem surpreendentes e acabam por cair no inverossímil. Um belo filme policial dos anos 80 que sobrevive muito bem ainda hoje.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O FEITIÇO DE ÁQUILA

O FEITIÇO DE ÁQUILA (Ladyhawke, 1985, 20th Century Fox, 121min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Mankiewicz, estória de Edward Khmara. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Stuart Baird. Música: Andrew Powell. Figurino: Nanà Cecchi. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger. Produção executiva: Harvey Bernhard. Produção: Richard Donner, Lauren Schuller. Elenco: Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Matthew Broderick, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina. Estreia: 12/4/85

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Quando Richard Donner resolveu assumir a batuta de "O feitiço de Áquila", fábula medieval com toques de romance, aventura e humor, ele já era um diretor conhecido e com no mínimo dois enormes sucessos comerciais no currículo, "A profecia" (76) e "Superman, o filme" (78). Cineasta competente, capaz de transitar com tranquilidade por vários gêneros - em 1987 começou a série "Máquina mortífera", que catapultou a carreira de Mel Gibson - Donner não viu nenhuma espécie de problema em comandar uma trama que pudesse exigir do espectador uma dose extra de boa-vontade, por fugir do tradicional esquema dos grandes estúdios e apostar na fantasia como principal ingrediente. Talvez devesse ter pensado melhor: seu filme acabou ignorado pelo público e desprezado pela crítica, arrecadando pouco mais de 18 milhões de dólares e lhe deixando em uma situação nada invejável, já que seu trabalho anterior, a comédia "O brinquedo" (82) - feito para capitalizar em cima da popularidade do ator Richard Pryor - também não havia sido exatamente um êxito financeiro. Foi somente com o tempo - esse fator tantas vezes cruel com a arte - que o público foi descobrindo as qualidades de seu filme, que tornou-se cult depois de seu lançamento em vídeo e de diversas apresentações na televisão. Hoje, "O feitiço de Áquila" é, sem dúvida, um dos filmes mais famosos de Donner - e um clássico dos anos 80.

Passada na Itália do século XIV, a trama de "O feitiço de Áquila" gira em torno do amor proibido e da maldição que envolve o Capitão Etienne Navarre (Rutger Hauer) e a bela Isabeau (Michelle Pfeiffer, deslumbrante e antes de virar estrela de primeira grandeza em Hollywood): por artes do invejoso e vil Bispo de Áquila (John Wood, em papel pensado para o roqueiro Mick Jagger), o par de amantes está condenado a jamais consumar seu romance de forma plena. Em um ato de vingança contra a rejeição de Isabeau, o Bispo fez um pacto com as trevas que transforma a jovem em um falcão durante o dia e o soldado em lobo durante a noite. Sempre juntos mas nunca em forma humana ao mesmo tempo, os dois tentam encontrar uma maneira de reverter a maldição: enquanto Navarre acredita que somente matando o Bispo com a espada de sua família isso pode acontecer, porém, um velho monge chamado Imperius (Leo McKern) - responsável por parte da tragédia - surge com uma alternativa, que só pode acontecer em uma data específica, quando um eclipse solar impedirá o sol de transformar Isabeau e pássaro. Para chegarem ao castelo, no entanto, eles irão precisar da ajuda de Phllipe Gaston, o Rato (Matthew Broderick), ladrão de galinhas que foi o único a conseguir escapar da masmorra do palácio.





Realizado antes que os efeitos digitais tomassem conta da indústria de cinema - o que fica bastante claro nas sequências em que os protagonistas sofrem suas metamorfoses - e com uma trilha sonora bastante inadequada de Andrew Powell, "O feitiço de Áquila" encontra redenção na verdade com que os atores se entregam à trama, oferecendo um tom de realismo a uma história cujo tom de fantasia é o principal elemento. Matthew Broderick é quem sai-se melhor, na pele do esperto Rato - uma espécie de ensaio para seu inesquecível Ferris Bueller de "Curtindo a vida adoidado" (86) - e é difícil imaginar que nomes tão díspares quanto Sean Penn e Dustin Hoffman tenham sito cotados para o papel. Aliás, o elenco parece tão coeso que soa estranho imaginar como seria se os atores inicialmente imaginados por Donner realmente tivessem assinado seus contratos: além de Penn e Hoffman, outros absurdos foram cogitados, como escalar Sean Connery para interpretar o galã - que, antes da decisão do diretor de escalar Hauer (ator holandês mais conhecido então por "Blade Runner, o caçador de androides" (82), estava nas mãos de Kurt Russell, que desistiu do filme poucos dias antes do começo das filmagens na Itália - em três castelos de propriedade da família do cineasta Luchino Visconti.


Para quem é fã de produções fantásticas, com histórias que equilibram romance e aventura, "O feitiço de Áquila", com todos os seus "defeitos" especiais, é uma pequena obra-prima. A fotografia do veterano Vittorio Storaro é deslumbrante e capta com perfeição o visual exuberante exigido pelo roteiro, que usa e abusa de todos os clichês do gênero sem soar reverente ou debochado. O respeito de Donner pelo material e a seriedade com que ele se dedica a criar um universo plausível mesmo diante de um enredo fantasioso é um dos grandes méritos do filme, que é valorizado também pelos atores e pelo ar de nostalgia que permite ao espectador deixar passar seus pecados nem tão imperceptíveis assim. Enfim, é uma sessão da tarde clássica, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O FIEL CAMAREIRO

O FIEL CAMAREIRO (The dresser, 1983, Columbia Pictures, 116min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Kelvin Pike. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Rosemary Burrows. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Produção: Peter Yates. Elenco: Albert Finney, Tom Courtenay, Edward Fox, Zena Walker, Eileen Atkins, Michael Gough. Estreia: 06/12/83

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Yates), Ator (Tom Courtenay), Ator (Albert Finney), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Tom Courtenay) 

 Poucas vezes o cinema tratou com tanto respeito e realismo os bastidores de uma companhia teatral como "O fiel camareiro". Baseado em uma premiada peça teatral escrita por Ronald Harwood - que inspirou-se em sua experiência como assistente do veterano ator inglês Donald Wolfit - e dirigido por Peter Yates, o filme de mesmo nome agradou em cheio a Academia de Hollywood, que, sempre atraída por histórias que giram em torno do mundo artístico, lhe indicou em cinco categorias de grande importância, como melhor filme, direção e roteiro adaptado. Além disso, conquistou um feito raro, colocando seus dois intérpretes masculinos na corrida pelo Oscar de melhor ator. Em desempenhos nunca aquém de fascinantes, Albert Finney e Tom Courtenay acabaram perdendo a estatueta para Robert Duvall ("A força do carinho"), mas é difícil dizer quem está melhor em cena. Em um duelo de interpretações dos mais empolgantes, os dois grandes atores dão um espetáculo à parte em um filme que é o sonho de consumo para qualquer fã de artes cênicas.

Lançada nos palcos ingleses em março de 1980, a peça de Ronald Harwood - que ganharia o Oscar de roteiro adaptado por "O pianista" (2002) - já começou sua carreira acumulando elogios e prêmios. Quando chegou à Broadway, dois anos mais tarde, sempre com Tom Courtenay na pele do dedicado Norman, já era considerada dona de um dos texto mais inteligentes da temporada. Não demorou para que uma versão para o cinema fosse considerada, assim como o nome de Courtenay para o papel que havia consagrado nos palcos. Com roteiro do próprio dramaturgo, "O fiel camareiro" manteve também o alto nível do texto original, repleto de citações à obra de Shakespeare e detalhes saborosos sobre os bastidores do mundo teatral, com um equilíbrio perfeito entre a veneração à arte e a ironia fina de que somente os ingleses são capazes quando falam de si mesmos. Longe de ser uma obra sustentada por uma trama forte e recheada de reviravoltas, o filme de Peter Yates é um filme movido a sentimentos como admiração e dedicação - e amor incondicional ao teatro.


Passada durante a II Guerra Mundial, a trama de "O fiel camareiro" gira em torno de um veterano ator dos palcos britânicos, chamado pelos colegas simplesmente de "Sir" - em uma atuação milagrosa de Albert Finney. Líder de uma companhia teatral shakespereana, ele conta sempre com a prestimosa e abnegada assistência do incansável Norman (Tom Courtenay, impecável em sua criação repleta de nuances), que, além de auxiliá-lo nas trocas de roupa e maquiagem, agora se vê diante de uma nova missão: cuidar da saúde mental do brilhante intérprete. Com a idade avançada, Sir está confundindo os papéis, trocando as falas e, além de tudo, disposto a escrever uma autobiografia. Desacreditado pelos colegas, ele é blindado por Norman, que o vê como ídolo absoluto e intocável mesmo quando acaba sendo vítima do egocentrismo do astro.

Quem aprecia um bom jogo de cena, com atuações brilhantes e um texto irretocável não pode perder "O fiel camareiro". Porém, é bom que se diga que, para um público menos disposto a mergulhar no universo proposto pelo roteiro, a experiência provavelmente será menos rica: tanto os diálogos de Harwood quanto a direção de Yates valorizam basicamente o duelo entre Finney e Courtenay, dando pouco espaço para os coadjuvantes e seus dramas pessoais. Mesmo quando volta seu foco para anedotas de bastidores - como o hilariante mutirão para providenciar uma tormenta digna do nome em uma sessão de "Rei Lear" - o filme sempre privilegia as reações de Sir em relação ao que lhe rodeia e, consequentemente, como isso afeta a vida de Norman, um homem cuja vida se resume unica e exclusivamente às coxias e palcos. São dois personagens e tanto, defendidos com garra e talento por atores em estado de graça. Um filme para quem gosta da arte da atuação, dentro e fora dos palcos e das telas.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

VICTOR OU VICTORIA

VICTOR OU VICTORIA (Victor Victoria, 1982, MGM, 132min) Direção: Blake Edwards. Roteiro: Blake Edwards, conceito de Hans Hoemburg, roteiro original de Reinhold Schunzel. Fotografia: Dick Bush. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Henry Mancini. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Rodger Maus/Harry Cordwell. Produção: Tony Adams, Blake Edwards. Elenco: Julie Andrews, James Garner, Robert Preston, Lesley Ann Warren, Alex Karras, John Rhys-Davies, Graham Stark. Estreia: 16/3/82

7 indicações ao Oscar: Atriz (Julie Andrews), Ator Coadjuvante (Robert Preston), Atriz Coadjuvante (Lesley Ann Warren), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/ Comédia ou Musical (Julie Andrews)

A cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 1982 teve uma particularidade até hoje não igualada pelos conservadores eleitores da Academia de Hollywood: quatro dos intérpretes indicados à estatueta viviam personagens que brincavam com as identidades de gênero. Dustin Hoffman concorreu ao prêmio de melhor ator por "Tootsie"; John Litghow foi lembrado como coadjuvante pelo travesti que criou para "O mundo segundo Garp"; e Julie Andrews e Robert Preston chegaram à reta final por seus desempenhos na comédia musical "Victor ou Victoria", dirigida por Blake Edwards. Ok, nenhum dos quatro saiu vencedor - Hoffman perdeu para Ben Kingsley ("Gandhi"), Adrews para Meryl Streep ("A escolha de Sofia") e tanto Preston quanto Lithgow foram deixados para trás por Louis Gosset Jr. ("A força do destino") - mas não deixa de ser uma coincidência bastante interessante, que demonstra que, de vez em quando, os sérios votantes do Oscar também conseguem perceber a excelência mesmo quando ela vai contra seus princípios.

O fato é que, enquanto "Tootsie" (cujo protagonista se vestia de mulher para conseguir um emprego como atriz) chegou a ser indicado nas categorias principais - filme, direção, ator e roteiro - "Victor ou Victoria" (cuja personagem central também tem uma crise profissional como empurrão para a mentira) não tem medo de ir mais fundo na sexualidade, deixando bem claro, desde suas primeiras cenas, que um dos protagonistas, o falido cantor Toddy Todd (Robert Preston), é um gay assumidíssimo, que vive de fazer shows em boates destinadas à comunidade homossexual e, por falta de opção, é explorado pelo amante mais jovem. Se o roteiro puxa o freio de mão em determinado momento - quando o galã interpretado por James Garner se declara à Julia Andrews DEPOIS que ela confessa ser uma mulher e não um travesti - é porque o cineasta Blake Edwards, cioso dos 20 milhões de dólares gastos na produção do filme, preferiu não correr riscos junto à plateia menos liberada. O resultado foi um sucesso de público e crítica, que aclamou a mistura bem sucedida entre comédia de erros, musical e uma história de amor à moda antiga. Tão antiga que surgiu pela primeira vez na Alemanha, em 1933.

"Viktor und Viktoria", um filme alemão que também foi lançado como "George e Georgette" em uma versão francesa, em 1934, foi a origem de tudo. Em 1935, uma refilmagem americana recebeu o nome de "Mulher antes de tudo" e em 1957 a Alemanha retomou os direitos de fazer um outro remake. Achando que o público ainda não havia descoberto a trama, Blake Edwards - já com um currículo recheado de sucessos, como "Bonequinha de luxo" e "A pantera cor-de-rosa" - resolveu dirigir a sua própria versão da história, ainda nos anos 70. A protagonista seria sua esposa, Julie Andrews - cuja experiência com musicais era notória - e Peter Sellers estaria no elenco como o melhor amigo/empresário da talentosa cantora de sexualidade misteriosa. A morte de Sellers, em 1980, não impediu que a produção continuasse de pé. Robert Preston assumiu seu lugar - com louvor - e "Victor ou Victoria" estreou em 1982 com uma bela trilha sonora de Henry Mancini, uma reconstituição de época brilhante (indicada ao Oscar de direção de arte) e um humor delicioso que, a despeito de seu tema ousado, jamais descamba para a vulgaridade ou excessos de qualquer espécie. Mérito da direção elegante de Edwards e da química perfeita de seu elenco.

Julie Andrews está bela e luminosa como Victoria Grant, uma cantora de grande talento e carisma que, na Paris de 1934, tenta sobreviver com pequenos golpes em restaurantes enquanto luta pelo reconhecimento profissional. É durante um desses cambalachos que ela conhece Toddy (Robert Preston, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), que acaba de ser demitido do local onde se apresentava, depois de revidar o pouco caso do rapaz com quem tinha um caso. Depois de uma noite regada a uma longa conversa, Toddy tem uma ideia genial quando vê Victoria com a roupa de seu ex-amante: criar, junto com ela, uma personagem estrangeira que possa conquistar as exigentes plateias francesas. Surge então Victor Grazinski, um conde polonês que, expulso de casa por ser travesti, inicia uma carreira fulgurante nos palcos da cidade-luz. Seu sucesso chama a atenção de King Marchand (James Garner), um americano metido em negócios com a máfia e que não consegue resistir a seus encantos - para desgosto de sua amante perua, Norma (Lesley Ann Warren, também candidata ao Oscar de coadjuvante).

Sustentando sua trama basicamente sobre os equívocos que resultam do mirabolante plano de Tddy e Victoria, o filme de Edwards brinda o espectador com um visual requintadíssimo e um timing cômico admirável. Cortesia de uma deslumbrante Julie Andrews - cuja indicação ao Oscar foi mais que justa - e de um impecável Robert Preston, o humor de "Victor ou Victoria" reside nos enganos, nas sutilezas, nas entrelinhas de um roteiro que respeita estilos de vida alternativos e os trata com carinho, oferecendo à plateia não apenas uma comédia com momentos divertidíssimos mas também um musical de formato clássico, com todo o glamour a que o gênero tem direito. Com figurinos caprichados e um visual belíssimo, o filme encanta os olhos e o cérebro, enquanto faz rir e questionar preconceitos. Não é pouco para um mero filme - que, apesar de se arrastar um bocadinho em sua reta final, ainda consegue cativar seu público sem fazer muito esforço.

domingo, 13 de novembro de 2016

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO

SONHOS ERÓTICOS DE UMA NOITE DE VERÃO (A midsummer night's sex comedy, 1982, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Carol Joffe. Produção executiva: Charles H. Joffe. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer, Julie Hagerty, Tony Roberts, Mary Steenburgen. Estreia: 16/7/82

Em 1982, o prestígio de Woody Allen, conquistado pelos Oscar de filme, roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77) já não era mais o mesmo, principalmente entre crítica e público, que não aderiram com o mesmo entusiasmo a seus filmes seguintes. O denso "Interiores" (78), o poético mas pouco compreendido à época "Manhattan" (79) e o onírico e surreal "Memórias" (80) haviam afastado a plateia das salas de cinema, e o cineasta nova-iorquino parecia ter perdido o caminho para reconquistá-la. Antes que "Zelig" (83) - o falso documentário sobre um homem com a capacidade de transmutar-se em qualquer coisa que estivesse perto de si - recuperasse parte de seu sucesso, porém, Allen teve de enfrentar outro revés artístico: a comédia "Sonhos eróticos de uma noite de verão", que não apenas passou praticamente em branco pelas telas como amargou uma pouco agradável indicação ao Framboesa de Ouro de Pior Atriz para Mia Farrow - então em sua primeira colaboração com o diretor, com quem viveria até 1992 e faria ao todo 13 filmes.

Farrow, aliás, não era a primeira escolha para o papel que lhe coube, e só entrou no projeto porque a atriz inicialmente escalada, Diane Keaton, foi obrigada a abdicar do papel quando as filmagens foram adiantadas. Na verdade, "Zelig" - este sim com Farrow no papel principal feminino - deveria chegar às telas antes, conforme o combinado com a Orion Pictures, estúdio responsável pela produção. Uma série de problemas técnicos, porém, adiaram o lançamento por um ano, o que fez com que Allen, devendo um filme para estrear ainda em 1982, resolvesse criar um novo roteiro, despretensioso e leve, para ser filmado simultaneamente e lançado antes. Surgia, então, "Sonhos eróticos de uma noite de verão", com o título original inspirado em Shakespeare e o roteiro calcado em outra referência do cineasta, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), de Ingmar Bergman. Com um elenco enxuto para dar conta de apenas oito personagens, o filme foi rodado no interior de Nova York e, com a fotografia sempre iluminada de Gordon Willis e as belas paisagens a serviço da trama, é uma lufada de ar fresco em uma filmografia que estava em um período de severa transição entre o humor popular e a busca pelo respeito artístico.

A trama, simples e repleta de um humor inteligente e sem as elocubrações intelectuais costumeiras na filmografia de Allen gira em torno de três casais e sua constante busca pela realização amorosa e sexual no início do século XX. O cenário é uma bucólica casa no interior, onde mora o inventor Andrew (Woody Allen) e sua esposa, Adrian (Mary Steenburgen), que passam por uma crise de vácuo sexual em seu relacionamento. É durante esse doloroso processo que eles resolvem receber a visita do respeitado professor Leopold (Jose Ferrer), que está a dias de casar-se com a jovem Ariel (Mia Farrow), filha de uma família de políticos e que teve, no passado, uma história mal resolvida com Andrew. Não bastasse esse reencontro inesperado, Ariel também chama a atenção de Maxwell (Tony Roberts), um médico mulherengo, amigo de Andrew, que chega à propriedade na companhia de sua nova conquista, Dulcy (Julie Hagerty). A ciranda de romance entre esses seis personagens é que move a trama, com elementos que remetem ao dramaturgo Anton Tchekov e um clima pastoril radicalmente oposto às características urbanas do diretor.

Mesmo fazendo parte do grupo de filmes menos louvados e conhecidos de Woody Allen, "Sonhos eróticos de uma noite de verão" apresenta alguns momentos de pura poesia visual e diálogos saborosos de que apenas o cineasta é capaz. As discussões entre os personagens a respeito de amor e sexo ficam no meio-termo entre a profundidade de suas obras mais densas e o deboche de suas comédias puras, valorizadas pelo elenco à vontade diante de um dos textos mais acessíveis de Allen - e isso inclui a própria Mia Farrow, cuja indicação ao Framboesa soa um tanto injusta. Mesmo que seja um pouco difícil de engolir o fato de sua personagem despertar tantas paixões, ela sai-se bastante bem em sua primeira incursão no grupo de colaboradores habituais do cineasta, como o ator Tony Roberts, que trabalhou com ele sete vezes em sua carreira e parece não ter a menor dificuldade em encarnar os personagens criados pelo amigo. É ele o maior destaque do elenco, fazendo uma dupla e tanto com Allen, em especial quando ambos se dedicam a disputar o amor de Ariel - uma situação que ameaça terminar em tragédia mas, graças ao bom humor do roteiro, leva a um desfecho inesperado e poético. Um filme que merece ser redescoberto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.