quinta-feira

SINDICATO DE LADRÕES


SINDICATO DE LADRÕES (On the waterfront, 1954, Columbia Pictures, 108min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Budd Schulberg, história de Malcolm Johnson. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Gene Milford. Música: Leonard Bernstein. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint, Lee J. Cobb, Rod Steiger. Estreia: 28/7/54

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), Ator Coadjuvante (Lee J. Cobb, Karl Malden, Rod Steiger), História e Roteiro Originais, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 8 Oscar: Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz Coadjuvante (Eva Marie Saint), História e Roteiro Originais, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Direção de Arte

Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme Drama, Diretor (Elia Kazan), Ator/Drama (Marlon Brando), Fotografia em preto-e-branco

No início dos anos 50, o cineasta Elia Kazan estava em maus-lençóis. Rechaçado pelos colegas que o consideravam um delator por ter citado nomes nos malfadados depoimentos ao senador Joseph McCarthy na chamada "caça às bruxas" anti-comunista cuja paranóia atingia seu ápice nos anos 50, ele dirigiu "Sindicato de ladrões" quase como uma explicação para seus atos. Julgamentos éticos à parte, a única certeza que fica no final dos 108 minutos do filme é a seguinte: se todas as justificativas de atos moralmente dúbios fossem iguais a esta seria muito mais fácil perdoar os erros de quem quer que fosse. Mesmo visto hoje, mais de cinquenta anos depois de seu lançamento, "Sindicato de ladrões" ainda mantém o mesmo vigor estético, a mesma força dramática e continua tão relevante quanto antes.

A história se passa nas docas de Nova York, cujos trabalhadores - escolhidos diariamente, a dedo - são dominados pelo poderoso Johnny Friendly (Lee J. Cobb), que de amigável tem apenas o nome: corrupto, violento e amoral, ele não aceita ser desafiado ou questionado e quem tem a coragem de ir contra suas regras acaba invariavelmente mal. Quando o filme começa uma de suas vítimas acaba de ser jogado do alto de um prédio por ter ido à justiça testemunhar contra seus desmandos. Sentindo-se culpado pela tragédia - por ter virtualmente levado o rapaz ao encontro de seus algozes - o ex-lutador de boxe Terry Malloy (Marlon Brando) passa a questionar os métodos de Friendly, especialmente porque se apaixona por Edie (Eva Marie Saint), a irmã do rapaz assassinado. Incentivado pelo padre Barry (Karl Malden), que pretende ajudar os trabalhadores das docas, pelo amor que sente por Edie e pelo sentimento de culpa, Malloy acaba enfrentando seu irmão Charley (Rod Steiger), braço-direito do chefão, e é obrigado, por sua consciência, a ir ao banco das testemunhas, mesmo arriscando sua vida, suas amizades e suas possibilidades de trabalho.


O que mais impressiona em "Sindicato de ladrões" é a forma apaixonada com que Kazan conta sua história, dando o mesmo peso ao drama político-social que envolve os trabalhadores quanto ao romance entre as personagens de Brando e Marie-Saint (ambos premiados com o Oscar de 1954). Na verdade é o excelente roteiro que contrabalança as duas tramas com equilíbrio magistral, dando estofo a suas personagens, extremamente bem construídas e inteligentemente interpretadas. Nem mesmo as personagens secundárias são deixadas de lado, sendo sempre tratadas com cuidado e verossimilhança. O elenco de apoio escolhido por Kazan também merece louvores: não há um rosto dentre todos os que aparecem em cena que não sejam expressivos, fortes, reais, dando um tom quase documental àquele que é provavelmente seu trabalho mais maduro. As cenas em que os trabalhadores lutam pela possibilidade de um dia de salário são um retrato realista de uma época bastante dura para a economia americana do pós-guerra e são filmadas com uma sobriedade que foge do piegas. A bela fotografia em preto-e-branco de Boris Kaufman (também vencedora de um Oscar) acentua a atmosfera enovoada que circunda as personagens (e provavelmente suas consciências). E nem mesmo a mais dramática das cenas do filme (uma conversa emocionante entre Terry e Charley no banco traseiro de uma limousine onde Brando larga sua famosa "Eu poderia ter sido alguém!") apela para as lágrimas fáceis, comprovando o talento de Kazan de arrancar belas atuações sem cair nas armadilhas de atuações exageradas de seus atores.

A julgar pelos 8 Oscar conquistados por "Sindicato de ladrões" (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro, fotografia, montagem e direção de arte) a Academia de Hollywood entendeu e perdoou os atos considerados "de traição" do cineasta. No entanto, na cerimônia de entrega dos prêmios em 1999, Kazan foi homenageado pela Academia e arrancou tantos aplausos quanto silêncios de muitos espectadores, ainda ultrajados por suas ações. Se o que ele fez - dar o nome de alguns colegas investigados à comissão de McCarthy - foi certo ou não é uma discussão muito mais séria que merece muito mais espaço e considerações mais elaboradas. O que é inegável é que, tendo bom ou mau caráter, era, sem sombra de dúvida, um cineasta dos maiores de sua época, como bem o comprova a perenidade de boa parte de sua obra.

domingo

DISQUE M PARA MATAR


DISQUE M PARA MATAR (Dial M for murder, 1954, Warner Bros., 105min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Frederick Knott, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams. Estreia: 29/5/54

Quase sessenta anos antes de "Avatar" quebrar recordes de bilheteria e revolucionar o modo de fazer cinema (mas não de melhorá-lo qualitativamente), o mestre do suspense já brincava com a tecnologia de 3D. Em 1954 estreava "Disque M para matar", que, baseado em uma peça de teatro de Frederick Knott, utilizava - com bastante parcimônia - efeitos poucas vezes vistos nas telas de cinema na época. A crucial diferença entre sua ambição no momento e o que acontece atualmente nos multiplexes é que antes de focar-se em "revoluções visuais", Alfred Hitchcock concentrava-se na história de seus filmes, em trabalhar o suspense de suas cenas e dar verossimilhança a seus protagonistas, por mais ambíguos que eles fossem.

A personagem central de "Disque M" é Tony Wendice (Ray Milland), um ex-tenista profissional que abandonou a carreira em prol de um vantajoso casamento com a bela Margot (Grace Kelly na primeira de suas três colaborações com o cineasta). Sabendo-se traído por ela, que mantém um romance com o escritor de livros policiais Mark Halliday (Robert Cummings), ele tece um mirabolante plano para livrar-se dela e consequentemente ficar com sua herança. Para tal, ele contrata um antigo colega de escola com uma longa ficha de processos por estelionato. Na hora marcada para o crime, no entanto, as coisas não saem como o esperado e quando Grace passa de vítima a algoz seu marido aproveita para mudar seus planos, acusando-a de assassinato.


O mais interessante em "Disque M para matar" nem é a tentativa de Hitchcock em utilizar-se de recursos óticos "modernos" para contar sua história e sim a maneira com que ele conduz a trama, repleta de surpresas e reviravoltas. Por ser baseado em um texto teatral - uma origem que necessariamente prende a ação em poucos cenários - o filme não apresenta cenas de ação ou externas muito elaboradas (pelo contrário, sempre que aparece a rua é de maneira um tanto artificial). O diretor se contenta em mostrar à audiência apenas o que está acontecendo no momento, sem apelar para flashbacks ou outros recursos que desviariam a atenção. Essa opção em ser extremamente econômico em malabarismos de câmera propicia ao público um sentimento de voyeurismo que o mantém ligado na história mesmo quando ela descamba para um ato final um tanto forçado.

É inegável que "Disque M para matar" perde o pique no seu terceiro ato, quando Tony Wendice está prestes a ser desmascarado. Talvez por não contar com a presença luminosa de Grace Kelly ou por contar apenas com uma conclusão pouco satisfatória em termos de suspense, não se tem, em seus últimos vinte minutos, a concisão e o ritmo de seu princípio - em especial as cenas que antecedem o crime propriamente dito. Ainda assim, como sempre na obra do cineasta, é imperdível por ser de uma elegância rara, em que até mesmo um assassinato é filmado, segundo palavras do francês François Truffaut "como uma cena de amor".

PS - Em 1998, o diretor Andrew Davis (de "O fugitivo") realizou uma nova versão de "Disque M para matar", intitulada "Um crime perfeito", estrelada por Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen, mais fiel ao texto teatral e surpreendentemente interessante.

sábado

A TORTURA DO SILÊNCIO


A TORTURA DO SILÊNCIO (I confess, 1953, Warner Bros., 95min) Direção e produção: Alfred Hithcock. Roteiro: George Tabori, William Archibald, baseado em uma peça teatral de Paul Anthelme. Fotografia: Robert Burks. Montagem: Rudi Fehr. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, O.E. Hasse, Dolly Haas. Estreia: 22/3/53

As primeiras imagens de "A tortura do silêncio" mostram placas sinalizadoras em Quebec. São todas setas indicando um caminho em linha reta. E retidão é a palavra mais correta para definir a personalidade do Padre Michael Logan (Montgomery Clift), protagonista do único filme de Alfred Hitchcock filmado no Canadá. Honesto e íntegro, Logan é mais um dos protagonistas do mestre do suspense que se vê envolvido em situações extremas sem que as tenha chamado para si. No caso do filme em questão, ele é acusado de um crime que não cometeu, correndo o risco de ser condenado à morte.

A primeira cena de "A tortura do silêncio" mostra o corpo de um homem, assassinado em casa, enquanto o culpado, vestido de padre, abandona o local do crime e é visto por duas adolescentes. O assassino é Otto Keller (O.E. Hasse), um refugiado alemão que trabalha como faz-tudo na casa paroquial onde vive Logan. Sentindo-se culpado pelo homicídio, Keller confessa o crime ao padre, que não pode trair um segredo de confissão. Estaria tudo relativamente bem se a vítima do assassinato não fosse, no entanto, um advogado mau-caráter que estava fazendo chantagem com Ruth Grandfort (Anne Baxter), antiga namorada de Logan antes de sua ordenação. Vilette, o chantagista, agora morto, ameaçava contar sobre o relacionamento do padre com uma mulher casada (uma relação que na verdade não mais existia) e quando o Inspetor Larrue (Karl Malden) fica sabendo do detalhe escabroso, junta a pista aos fatos do assassino estar vestindo uma batina e de Logan não ter um álibi concreto e o indicia pelo crime. Para salvar sua pele, Logan tem apenas a opção de revelar um segredo que não pode, por ética, ser revelado.


A bem da verdade é necessário que o público entenda o dilema de Logan, ou seja, é crucial que a audiência acredite que um homem, mesmo na situação extrema do protagonista, seja capaz de manter em segredo o que pode lhe salvar a vida. Talvez esse seja o motivo pelo qual "A tortura" não está entre os mais festejados filmes de Hitchcock. Baseado em uma peça de teatro francesa, de Paul Anthelme (que o próprio diretor considerava ruim), o filme é talvez a obra mais carregada de simbolismos católicos de sua filmografia (cruzes, imagens e principalmente a temática são explícitos sinais de uma religiosidade bastante forte no cineasta, que estudou em colégio jesuíta). Filmado nas montanhas do Canadá - e portanto fugindo de seus tradicionais locais de filmagens - "A tortura do silêncio" apresenta também uma grande atuação - mais uma - de Montgomery Clift, que novamente aproveita sua própria personalidade torturada para criar o angustiante retrato de um homem a caminho de seu calvário pessoal por manter intactos seus ideais religiosos e éticos.

"A tortura do silêncio" não é dos melhores Hitchcocks. Tem um final anti-climático, um par romântico que não tem uma química das melhores (Anne Baxter não era a primeira escolha do cineasta e, por melhor atriz que fosse, não estava em seus melhores dias) e um conflito central que exige do público bem mais do que o corriqueiro. Ainda assim, é dono de belas cenas, tem uma história interessante - apesar de forçar algumas coincidências - e conta com Montgomery Clift no papel principal, o que já lhe confere uma força acima da média.

quarta-feira

CANTANDO NA CHUVA


CANTANDO NA CHUVA (Singin' in the rain, 1952, MGM, 103min) Direção: Gene Kelly, Stanley Donen. Roteiro: Adolph Green, Betty Comden. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Adrienne Fazan. Figurino: Walter Plunkett. Produção: Arthur Freed. Elenco: Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O'Connor, Jean Hagen, Cyd Charisse, Rita Moreno. Estreia: 27/3/52

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Donald O'Connor)

Se é que existe uma imagem icônica dentre todos os musicais produzidos por Hollywood - em especial nos áureos tempos do gênero (a saber, anos 40 e 50) - ninguém há de discordar que essa imagem é a de Gene Kelly, no auge de seu vigor, dançando encharcado, feliz e realizado de amor em "Cantando na chuva". A cena, realizada com Kelly queimando em febre e feita com uma chuva que misturava leite com água, é até hoje o símbolo maior de um período mágico para os musicais e uma das mais contagiantes manifestações de felicidade já mostradas pelo cinema. E apesar de muita gente só lembrar do filme por causa dessa cena, é preciso lembrar que, antes e depois dela, "Cantando na chuva" é uma engraçadíssima narrativa sobre os bastidores do mundo do cinema.

O período retratado no filme co-dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen - a transição do cinema mudo para o falado - já havia sido parte do combustível para o genial "Crepúsculo dos deuses", mas, ao contrário do mostrado no filme de Billy Wilder - onde a mudança leva atores admirados a um ostracismo que beira a crueldade - aqui o tom é bem outro. Irônico na medida certa e carinhoso sem soar nostálgico em demasia, o roteiro de Adolph Green e Betty Comden - escrito para encaixar-se às músicas, o contrário do que normalmente é feito - conta uma história de amor ingênua e simples que usa o mundo da sétima arte como pano de fundo.

O ano é 1927. Astro do cinema mudo, o ator e galã Don Lockwood (Gene Kelly) começa a perceber que filmes falados são o futuro de sua carreira. Ao lado de sua constante companheira de cena, a bela mas fútil Lina Lamont (Jean Hagen) ele planeja transformar seu fracassado projeto, "O cavaleiro andante" em um musical, uma vez que a primeira versão do filme resultou em um desastre técnico. No entanto, ele e seu melhor amigo, Cosmo Brown (Donald O'Connor), esbarram em um grande problema: a voz estridente de Lina, que funciona como atriz de cinema mudo, mas é um desastre falando. Para resolver o impasse, eles chamam a nova namorada de Lockwood, a aspirante a atriz e bailarina Kathy Selden (Debbie Reynolds) para dublar a famosa estrela. Logicamente, quando o filme estreia e torna-se um grande sucesso, a veterana atriz recusa-se a permitir que a verdade venha à tona.


A bem da verdade a história de amor entre Don Lockwood e Kathy Selden (vivida por uma Debbie Reynolds com apenas 17 anos de idade que sofreu horrores nas mãos do tirano Gene Kelly) é apenas um pretexto para números musicais que, ao contrário do que muitos espectadores avessos ao gênero alegam, são divertidos, funcionais e dinâmicos. Donald O'Connor está brilhante em "Make 'em laugh", assim como, ao lado de Kelly e Reynolds, em "Good morning". É belíssima também a cena em que o apaixonado Lockwood se declara à jovem Selden, cantando "You were meant for me" (regravada por Sting no final dos anos 90 para o filme "A razão do meu afeto") em um set cinematográfico, revelando ao público alguns dos truques que fazem a ilusão do cinema. E nem precisamos falar novamente de "Singin' in the rain", uma das músicas mais famosas das telas (reutilizada anos depois no pesadelo kubrikiano "Laranja mecânica", mas em contexto bastante diferente).

"Cantando na chuva" é, além de um musical que não aborrece em momento algum - a possível exceção talvez seja o número "Melodia na Broadway", que conta com a presença de Cyd Charisse e, por ser um tanto longo, com mais de 12 minutos, pode incomodar aos menos pacientes - é uma comédia divertidíssima, com diálogos inteligentes e repletos de auto-ironia. Sendo assim, um casal de Hollywood, dentro do filme, "é um exemplo: são casados há dois meses e ainda são felizes..." e Lina Lamont, em um acesso de estrelismo, se descreve, usando palavras de um jornalista, como "não uma pessoa, mas sim uma brilhante estrela no firmamento do entretenimento..."

São esses pequenos detalhes que fazem de "Cantando na chuva" bem mais do que um musical clássico, daqueles que passam de madrugada na TV na época do Natal e do Ano-novo. Ver e rever Gene Kelly dançando na chuva é e sempre será uma imagem imortal.

sexta-feira

UMA RUA CHAMADA PECADO


UMA RUA CHAMADA PECADO (A streetcar named desire, 1951, Warner Bros., 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Tennessee Williams, baseado em sua peça de teatro homônima. Fotografia: Harry Stradling. Música: Alex North. Produção: Charles K. Feldman. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Estreia: 18/9/51

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Direção de Arte

Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Hunter)

Adaptações de peças de teatro para o cinema sempre correm o grande risco de tornarem-se aborrecidos exercícios de overactings. É preciso muito talento e/ou experiência para transformar uma bem-sucedida montagem teatral em um igualmente bem-sucedido produto cinematográfico. E talento e experiência são qualidades que não faltam a Elia Kazan e já não faltavam quando ele lançou "Uma rua chamada pecado", em 1951. Ao levar para as telas a obra-prima de Tennessee Williams que ele mesmo havia dirigido na Broadway, o polêmico cineasta não só conseguiu a proeza de criar um novo parâmetro para adaptações teatrais como ainda lançou oficialmente um ator que se tornaria um ícone absoluto do cinema: Marlon Brando. Tudo bem que "Uma rua" não é o primeiro filme de Brando (o título pertence a "Espíritos indômitos", do ano anterior) mas é inegável que foi a partir de sua interpretação vulcânica como Stanley Kowalski que Brando iniciou seu caminho rumo a tornar-se um dos mitos mais duradouros do planeta Hollywood.

"Uma rua chamada pecado" (título fantasioso menos interessante do que o original "Um bonde chamado desejo") se passa em uma espécie de cortiço em Nova Orleans, onde vive a dona de casa Stella (Kim Hunter) e seu marido, o truculento Stanley (Brando). Sua vida sem maiores emoções além de noitadas de pôquer e boliche - temperadas com algumas brigas bastante violentas - se transforma com a chegada de sua irmã mais velha, a misteriosa Blanche DuBois (Vivien Leigh, loura e aparentemente à beira de um ataque de nervos). Blanche chega para passar alguns dias com a irmã e o cunhado, mas esconde as verdadeiras razões pelas quais abandonou a propriedade da família e o emprego de professora. Seus modos delicados logo batem de frente com a falta de polidez de Kowalski, que de imediato não simpatiza com aquela mulher cheia de histórias mal-contadas e que parece ter prazer em jogar sua esposa contra ele. A tensão sexual entre os dois aumenta ainda mais quando Blanche conhece um amigo de Stanley, o tímido Mitch (Karl Malden), que ainda vive com a mãe e busca a companhia de uma mulher que divida com ele suas rígidas regras morais. O passado de Blanche, no entanto, acaba vindo à tona, abalando sua frágil estrutura mental e emocional.


É impossível ficar impassível a "Uma rua chamada pecado". Seja pela atmosfera sexual que envolve cada cena ou seja pela complexidade psicológica de suas personagens, o texto de Williams tem a inteligência de nunca deixar nada óbvio a sua audiência. Tudo é revelado nas entrelinhas - em sons do passado, em olhares assustados, em silêncios reveladores -, de maneira a proporcionar ao público o prazer extra de descobrir junto com as personagens todos os desdobramentos de sua história, por si só bastante intensa e adulta. O roteiro não tem medo de tocar em assuntos controversos - sedução de menores, estupro, violência doméstica - e é defendido por garra por um elenco espetacular.

Apesar de não ser a primeira opção para o papel de Blanche Dubois (foi escolhida apenas por ser mais popular do que Jessica Tandy, que defendeu a personagem nos palcos), Vivien Leigh toma posse de sua personalidade quase de forma espírita, deixando para trás a imagem mundialmente conhecida de Scarlett O'Hara. Seu olhar quase psicótico, seus trejeitos de mulher presa em um mundo particular, sua maneira de enganar a si mesma são brilhantes. Sua química com Brando é palpável: é impossível não reconhecer a tensão sexual entre os dois, que culmina em uma das cenas mais fortes do filme.
Kim Hunter e Karl Malden pontuam com sutileza o embate entre Leigh e Brando, repetindo na tela seus trabalhos na Broadway. Como Stella e Mitch, eles acabam sendo as vítimas inocentes do bonde chamado desejo, que, sem freio, atropela os quatro protagonistas e os arrasta em um caminho sem volta rumo à tragédia.

Curiosamente, dos quatro atores principais do filme apenas Marlon Brando não levou o Oscar (que ficou com Humphrey Bogart, por "Uma aventura na África"). Mas não há espectador que não concorde que é seu Stanley Kowalski, com sua sexualidade à flor da pele - reiterada em constantes imagens de seu musculoso corpo suado e em suas atitudes de macho primata - quem se apropria de todo o filme. Basta Brando entrar em cena para que tudo pareça gravitar à sua volta, tamanha a força de sua atuação. O ator até pode ter ganho dois Oscar em seu caminho posterior (nos espetaculares "Sindicato de ladrões" e "O poderoso chefão"), mas é aqui, nos primórdios de sua carreira que ele marca, a ferro e fogo, seu nome na história do cinema.

quinta-feira

UM LUGAR AO SOL


UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951, Paramount Pictures, 122min) Direção: George Stevens. Roteiro: Michael Wilson, Harry Brown, baseado no romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser. Fotografia: William C. Mellor. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: George Stevens. Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Keefe Brasselle, Raymond Burr. Estreia: 14/8/51

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (Montgomery Clift), Atriz (Shelley Winters), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama

Este é o filme que o mestre Charles Chaplin descreveu como "o melhor filme já feito em toda a história!". Este é o filme que inspirou Janete Clair a escrever a novela "Selva de pedra", um de seus maiore sucessos. Este é o filme que apresentou Elizabeth Taylor a Montgomery Clift, que se tornaram grandes amigos até a morte do ator, em 1966. E este filme também é mais uma das inúmeras injustiças que a Academia de Hollywood cometeu em suas premiações. Tudo bem que levou 6 estatuetas pra casa (diretor, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora e figurino em preto-e-branco), mas perdeu a principal para o insosso "Sinfonia de Paris" (e isso em um ano que tinha entre seus concorrentes o igualmente fenomenal "Uma rua chamada pecado", de Elia Kazan).

"Um lugar ao sol" é uma brilhante adaptação do extenso romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser, que originalmente se passa nos anos 20. Ao transferir a ação para os anos 50, Stevens criou não só um belo melodrama romântico mas também um retrato feroz e nada delicado de um mundo em constante desequilíbrio social, que empurra os indivíduos além de seus códigos de ética e conduta. Seu protagonista, o jovem e ambicioso George Eastman não é apenas um anti-herói que se torna vítima de seu desejo de ascensão social: ele é também e principalmente a imagem do americano médio, que, nos primeiros anos do pós-guerra se vê dividido entre o que é certo moralmente e o que é necessário para se atingir um nível decente de vida.

George Eastman (vivido magistralmente por Montgomery Clift em seu mais icônico papel) é um jovem pobre que, fugindo de uma vida sem recursos ao lado da mãe, uma mulher religiosa ao extremo, vai trabalhar na empresa de confecções de seu tio. Lá, ele conhece e começa a namorar uma colega de trabalho, a simplória Alice (Shelley Winters). A proximidade com a família milionária de seu tio, cercada de luxo e glamour, logo passa a despertar seu desejo de ascensão social, que fica ainda mais acentuado quando ele se apaixona pela bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor). Milionária, ela representa,para o rapaz acostumado com a mediocridade de uma vida sem maiores recursos, o brilho de uma existência sem preocupações financeiras. As coisas se complicam quando Alice revela que está grávida e passa então, por sua cabeça, livrar-se dela e consequentemente de seus problemas.

Ao contrário do que faria cinco anos depois com seu grandiloquente "Assim caminha a humanidade", que fotografava a vasta amplidão do Texas quase como um personagem a mais, em "Um lugar ao sol" George Stevens usa e abusa dos closes, criando tanto uma atmosfera claustrofóbica quanto extremamente calorosa. É impressionante como a mesma técnica funciona de maneiras tão distintas no filme. Quando George está com Angela a proximidade da câmera sublinha de forma inequívoca um sentimento inebriante de paixão, de amor, de urgência (e ajuda muito a beleza impressionante de Taylor, aos 17 anos e em seu primeiro papel adulto). Quando as cenas do protagonista são com Alice a mesma distância quase inexistente da câmera dá a plena sensação de sufoco, de falta de ar, de escuridão, como se estivéssemos assistindo tudo através dos olhos torturados de Eastman. Não é à toa que a fotografia de William C. Mellor arrebanhou o Oscar, tal é a sua importância em transmitir em imagens os pensamentos de seu protagonista.


O protagonista, aliás, merece um parágrafo à parte. Que belo personagem é George Eastman! Dividido entre a responsabilidade de uma paternidade indesejada - e a consequente mediocridade de uma vida da qual deseja fugir desesperadamente - e a possibilidade de uma vida longe de seu passado miserável - ao lado da mulher que verdadeiramente ama - ele é sem dúvida um dos mais complexos protagonistas do cinema dos anos 50. A escolha de Montgomery Clift para interpretá-lo foi uma jogada de gênio. Com seu belo rosto a serviço de uma personalidade torturada, Clift (um dos atores mais subapreciados de Hollywood, sempre sendo relegado a segundo plano em comparações com Marlon Brando e James Dean) oferece ao público um trabalho primoroso, onde transmite com igual competência assombro, paixão, desespero e angústia, sem nunca deixar de ser, nas cenas finais, o mesmo homem simplório e deslumbrado das primeiras. Uma tour de force das mais inspiradas do cinema, fascinante e de partir o coração.

"Um lugar ao sol" merece seu status de um dos melhores filmes de todos os tempos. Além do roteiro preciso, da fotografia perfeita e da sublime direção de George Stevens, contar com duas atrizes como Elizabeth Taylor e Shelley Winters para coadjuvar Montgomery Clift não é pra qualquer um. Cada uma dentro do seu estilo, elas representam os diferentes mundos que disputam a alma do protagonista. Linda, etérea e fascinante, Taylor veste Edith Head (figurinista de quem tornou-se grande amiga) com uma naturalidade invejável. E como imagem da mediocridade, Winters é insuperável, chegando a justificar o desejo homicida de George.

Obrigatório em todos os sentidos, "Um lugar ao sol" é uma influência ainda nos dias de hoje, como bem o comprova Woody Allen que o emula com maestria em "Match point". Feito há quase 60 anos, a obra de George Stevens se mantém tão atual hoje em dia quanto na época de seu lançamento, tamanha a genialidade que grita em cada fotograma.

PACTO SINISTRO



PACTO SINISTRO (Strangers on a train, 1951, Warner Bros, 101min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, Ben Hetch, baseado no romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Robert Burks. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Patricia Hitchcock. Estreia: 03/7/51

Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia em P&B

"Quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme." Essa regra primordial ditada pelo cineasta inglês Alfred Hitchcock encontra em "Pacto sinistro" uma prova irrefutável. Bruno Anthony, o vilão do filme, vivido com gosto por Robert Walker, é um dos mais interessantes antagonistas da vasta obra do cineasta e por causa dele - e da direção inspirada do mestre do suspense, é claro - o filme deixa de ser uma obra banal para tornar-se um grande entretenimento.

Baseado em um romance de Patricia Highsmith (autora também da série de livros com a personagem Tom Ripley, e que ficou possessa com a quantia irrisória paga pelos direitos de filmagem - dizem que apenas U$ 750), o filme começa no vagão de um trem onde o playboy Bruno Anthony conhece o tenista profissional Guy Haines (Farley Granger), de quem é fã incondicional. Sabendo que o jogador anda tendo problemas em conseguir o divórcio de sua primeira mulher (que o traiu e mudou de ideia quanto à separação por puro interesse financeiro), o misterioso Anthony explica a seu novo amigo seu plano para um assassinato perfeito: troca de crimes. Atônito, Guy o escuta sem acreditar, dizer que ele poderia matar sua mulher se ele matasse seu pai, que o mantém sob uma rígida proteção monetária. Tudo não passaria de teoria se Anthony não cometesse o primeiro homicídio e passasse a perseguir o jovem tenista, cobrando que ele cumpra sua parte no plano. Constantemente vigiado pela polícia, Guy tem que se livrar de seu perseguidor, provar sua inocência e não perder o amor da noiva, Ann Morton (a fraca Ruth Roman), filha de um influente senador de Washington.


Apesar da premissa original ser extremamente forte e instigante, "Pacto sinistro" é muito mais do que um jogo de gato e rato. O autor de romances policiais Raymond Chandler foi o primeiro contratado para roteirizar o filme, mas diferenças artísticas com Hitchcock o afastaram do projeto. Seria de imaginar se o resultado ficaria ainda melhor, mas do jeito que está, o filme já é um espetáculo de suspense da maior qualidade. Assim como em grande parte de sua vasta filmografia, Hitchcock usa e abusa de detalhes visuais para reiterar suas ideias. Cada cena, cada fotograma, cada close é importante para sua narrativa. Transitando com propriedade entre a tensão suprema e a ironia sutil, Hitchcock dá uma aula de como manter o espectador grudado na cadeira do início ao fim de sua história. Ideias geniais de enquadramento abundam em "Pacto sinistro" (o primeiro assassinato, por exemplo, é visto pela audiência através das lentes do óculos da vítima, caído no chão) e o diretor se diverte tanto quanto o público, dando vida a cenas que muitos "autores" do cinema atual morreriam para criar.

Exemplos? Quando Guy está em Washington, ele vê, em uma escadaria totalmente branca, o vulto de Bruno Anthony, como uma sombra maligna. Durante uma partida de tênis, Anthony é o único espectador que não mexe a cabeça acompanhando a bola. Antes de assassinar a mulher do tenista, o vilão explode o balão de uma criança com o cigarro e depois do crime cometido, ajuda um cego a atravessar a rua, como um bom cidadão. O mestre não tem medo nem mesmo de arriscar uma perigosa cena de ação no clímax do filme, passado em um carrossel de parque de diversões.

"Pacto sinistro" trata de um dos temas preferidos do diretor: a transferência de culpa. Assim como em toda a sua obra, o clima claustrofóbico permeia toda a narrativa, levando ao público a angústia de Guy, mesmo que ele seja interpretado por um Farley Granger aquém do papel (o diretor preferia William Holden em seu lugar, especialmente por seu porte físico). O subtexto homoerótico passou despercebido quando o filme estreou, mas é bastante claro quando assistido nos dias de hoje. Bruno Anthony é logicamente apaixonado por Guy Haines - e é dominado, ainda que discretamente, pela mãe, assim como Norman Bates de "Psicose". Aliás, é Robert Walker quem se destaca gritantemente do resto do elenco do filme.

O Bruno Anthony de Walker é um dos vilões mais memoráveis da filmografia de Hitchcock. Delicado, quase cínico, bem-educado e discreto, ele foge do estereótipo do bandido óbvio e é tão bem construído que em certos momentos quase se tem a vontade de torcer por ele, pra que ele consiga finalmente se livrar do jugo de seu pai. Infelizmente "Pacto sinistro" foi o penúltimo filme do ator (que foi casado com Jennifer Jones antes dela casar-se com David O. Selznick), que morreu de reação alérgica a um medicamento durante as filmagens de seu projeto seguinte. Em todo caso seu trabalho como o psicótico Bruno Anthony felizmente está registrado em celulóide, para que as devidas homenagens sejam prestadas sempre que necessário.

PS - O ator Danny de Vito fez sua estreia como cineasta dirigindo a comédia de humor negro "Joga a mamãe do trem" em homenagem explícita a "Pacto sinistro". No filme, ele vive um aspirante a escritor que tenta convencer seu professor (Billy Cristal) a matar sua mãe despótica (Anne Ramsey, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e em troca, se oferece para assassinar sua ex-mulher, que roubou os manuscritos de seu livro. Vale a pena conferir!

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...