sábado

CINDERELA EM PARIS


CINDERELA EM PARIS (Funny face, 1957, Paramount Pictures, 103min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Leonard Gershe. Fotografia: Ray June. Montagem: Frank Bracht. Figurino: Edith Head, Givenchy. Produção: Roger Edens. Elenco: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson. Estreia: 13/02/57

4 indicações ao Oscar: Fotografia, História e Roteiro Originais, Figurino, Direção de Arte

Em 1952, Stanley Donen co-dirigiu "Cantando na chuva", que, estrelado por Gene Kelly, legou ao mundo alguns dos mais encantadores momentos da história dos musicais no cinema. Cinco anos depois, foi a vez de comandar outro ícone absoluto da dança, Fred Astaire. Enquanto "Cantando" homenageava com humor e sarcasmo os bastidores do cinema, "Cinderela em Paris" alfinetava - de leve como convinha - o mundo da moda. Ao contrário do primeiro filme, no entanto, que intercalava cenas hilariantes com números de dança excitantes, a colaboração de Donen e Astaire não empolga tanto quanto deveria. E isso que, além de Astaire, o filme tem como protagonista a fulgurante Audrey Hepburn.

A ideia de juntar Hepburn - então no auge do sucesso - e Astaire - um símbolo da velha guarda dos musicais - não é nada má. Audrey já tinha ganho um Oscar por "A princesa e o plebeu" e fascinado as plateias com "Sabrina" e o bom e velho Fred ainda era adorado pela audiência. Mas na verdade a parceria quase não aconteceu. O primeiro nome cotado para viver a protagonista foi a da habitual parceira de Astaire, Cyd Charisse. No entanto, logo depois de ler o roteiro, a própria Audrey se interessou pelo projeto, mesmo contra seu agente da época. Para convencer os astros a assinarem os contratos, os produtores então utilizaram uma velha tática: asseguraram a atriz que Astaire já havia assinado com o filme e fizeram o mesmo com ele. Contratos assinados, era correr pro abraço. E não deu outra: o filme fez um grande sucesso, mesmo que não resista tão bem ao tempo quanto "Cantando na chuva".

A comparação de "Cinderela" com "Cantando" não é arbitrária. Além do diretor e do gênero, os dois filmes dividem a mesma intenção: contar uma história de amor tendo como pano de fundo um universo de glamour e sofisticação. E sofisticação é o que não falta quando o assunto é Audrey Hepburn. Aqui, ela vive Josephine Stockton, uma simples vendedora de livros, fascinada por filosofia e absolutamente desinteressada por tudo que se relaciona à moda e beleza. Um belo dia, durante o trabalho, acaba despertando o interesse do fotógrafo Dick Avery (Astaire), que vê nela tudo que é necessário para torná-la o rosto da mais nova campanha da revista onde trabalha ao lado da poderosa Maggie Prescott(Kay Thompson): personalidade, inteligência e charme. Para convencê-la a aceitar o trabalho, ele a convida para ir com a equipe para a capital francesa - onde ela pretende conhecer o líder de um movimento filosófico chamado "enfaticalismo" (uma sacada bastante engraçada). Lá, sob um cenário deslumbrante, entre visitas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo, os dois, como era de se esperar, acabam se apaixonando.


"Cinderela em Paris" é adorável quando foca sua atenção no rosto absurdamente belo de Audrey Hepburn (vestida mais uma vez pelo estilista Givenchy), mas torna-se um tanto aborrecido em diversos momentos, quando abandona a engraçada crítica à moda e ao existencialismo francês (em voga na época) para apresentar intermináveis números musicais. É preciso ser fã das coreografias elaboradíssimas de Astaire para envolver-se completamente com o filme, uma vez que boa parte de sua duração é preenchida com seus passos de dança (sozinho, com Hepburn, com Thompson). Ainda que seja uma delícia de vê-lo desafiando as leis da gravidade em cenários bonitos por natureza, não deixa também de ser um pouco cansativo, uma vez que, ao invés de ajudar a contar a história, tais cenas apenas servem para demonstrar os dotes do ator e dançarino.

Fosse um pouco mais curto e um pouco mais parcimonioso em seus excessivos números musicais, "Cinderela em Paris" poderia ser tão delicioso quanto "Cantando na chuva". Mas, mesmo com seus pequenos defeitos (principalmente para aqueles que não são entusiastas do gênero), é inesquecível graças ao carisma de seus atores principais. Afinal, quem resiste ao rosto choroso de Audrey Hepburn vestida de noivo em um belo cenário campestre em Paris?

sexta-feira

O HOMEM ERRADO


O HOMEM ERRADO (The wrong man, 1956, Warner Bros., 105min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Maxwell Anderson, Angus MacPhail. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrmann. Elenco: Henry Fonda, Vera Miles, Anthony Quayle. Estreia: 22/12/56

Está certo que Norman Bates, o protagonista de "Psicose" (1960) é inspirado em Ed Gein, que realmente existiu na década de 50. Mas, levando-se em consideração que o roteiro do filme se baseava no livro de Robert Bloch - por sua vez uma obra de ficção - não é incorreto afirmar que "O homem errado" é o único filme de Alfred Hitchcock baseado em uma história real. Aliás, baseado apenas não. Em um fato inédito em sua carreira, o mestre do suspense realizou filmagens em alguns dos verdadeiros locais onde a história ocorreu e, mais impressionante ainda, utilizou algumas das testemunhas do caso em pequenas participações. Apesar de soar como um documentário, no entanto, "O homem errado" está bem longe disso, sendo um dos filmes mais contundentes e sérios de Hitch.

Aqui, Henry Fonda é o ator principal. Ele usa seu rosto anguloso e expressivo para dar vazão à toda angústia e perplexidade que toma conta de sua personagem, envolvida inesperadamente em um pesadelo kafkiano dos mais aterradores. Ele vive Christopher Emmanuel Balestrero, um músico casado, pai de dois filhos pequenos e em dificuldades financeiras que vê sua vida virar do avesso quando é preso inesperadamente, acusado de assalto à mão armada. Reconhecido por várias testemunhas e incapaz de fornecer um álibi concreto, ele acaba sendo julgado por um crime que não cometeu, enquanto sua mulher, Rose (Vera Miles) passa a sofrer de um sério desequilíbrio emocional.

Hitchock não brinca em serviço em "O homem errado". Ao deixar de lado as cores elegantes de seus filmes imediatamente anteriores, ele conta com a sombria fotografia de Robert Burks para dar ênfase ao turbilhão pessoal de Balestreros, que, ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, percebe que tudo parece ser inútil. É exemplar a maneira com que o cineasta filma a prisão e os primeiros momentos do protagonista como prisioneiro. Como Balestreros está sentindo-se humilhado e desrespeitado em seus direitos como cidadão, a câmera focaliza quase que apenas o chão, os pés, as algemas (como se estes estivessem sendo realmente focalizados pelos olhos da personagem). O clima de claustrofobia presente nas cenas após a prisão do protagonista é acentuado por close-ups intimidantes e uma música discreta mas retumbante de Bernard Herrmann. O olhar apavorado de Henry Fonda e sua delicadeza fisica (sua figura esguia, seus modos delicados) ajudam a aproximá-lo do público, que, sabendo de antemão de sua inocência, sofre junto com ele (um golpe de mestre de Hitchcock).


Criticado por não decidir-se entre as linguagens de ficção e documentário, "O homem errado", no entanto, é um dos mais consistentes dramas de Hitchcock. O roteiro (que não foi escrito por John Michael Hayes, colaborador habitual do cineasta por questões financeiras) não dá espaço para o corriqueiro senso de humor de sua filmografia, recorrendo ainda a elementos e simbolismos católicos para atingir seus objetivos de prender a atenção da audiência e alertar para uma história tão chocante quanto verdadeira. Talvez seu esforço em dar vida a uma trama tão intensa tenha sido o responsável para que logo em seguida ele embarcasse em um projeto tão profundo quanto: "Um corpo que cai", uma de suas maiores obras-primas.

quarta-feira

PALAVRAS AO VENTO


PALAVRAS AO VENTO (Written on the wind, 1956, Universal Pictures, 99min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: George Zuckerman, baseado em romance de Robert Wilder. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Russell F. Schoengarth. Música: Frank Skinner. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone. Estreia: Dezembro/56

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Stack), Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone), Canção Original ("Written on the wind")
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone)


Em 2002, o cineasta Todd Haynes dirigiu "Longe do paraíso", um dramalhão à moda antiga que deu à Julianne Moore uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Elogiadíssimo pela crítica, o filme foi esnobado pelo público, provavelmente porque - assim como a comédia romântica "Abaixo o amor", estrelado por Renée Zellweger e Ewan McGregor - exigia da plateia um entendimento de sua proposta mais do que seu resultado final. Enquanto "Abaixo" homenageava os romances bobinhos de Rock Hudson e Doris Day, a obra de Haynes emulava os melodramas de Douglas Sirk, que, nos anos 50, serviu ao público americano uma série de filmes com histórias que, sob uma aparência de folhetins telenovelescos, escondia uma contundente crítica à sociedade hipócrita e preconceituosa da época.

Dentre seus filmes, um dos mais significativos - e dos mais bem-sucedidos em suas intenções estéticas e ideológicas - é justamente "Palavras ao vento", baseado em um romance de Robert Wilder. Em um tom absolutamente melodramático, Sirk conta a trágica história de uma família incapaz de lidar com seus problemas de ordem pessoal e sentimental, o que leva todos a uma tragédia que deixaria qualquer grego de orelhas em pé.

O filme centra seus dramas em quatro personagens envolvidos em um quadrilátero amoroso: Kyle Hadley (Robert Stack, que décadas depois faria "Apertem os cintos, o piloto sumiu" e assumiria de vez sua veia de canastrão) é um jovem milionário inseguro que nutre um misto de admiração e inveja por seu melhor amigo, Mitch Wayne (Rock Hudson, no auge da carreira, em talento e beleza). Por julgar-se inferior ao amigo de infância - a quem julga mais merecedor do amor de seu pai, inclusive - ele se entregou à bebida, fazendo da garrafa sua companhia mais constante. Tentando mudar de vida, ele se casa com a bela Lucy Moore (Lauren Bacall), mesmo desconfiando que Mitch é apaixonado por ela. O casamento dos dois é fadado ao fracasso, uma vez que Kyle nem ao menos tenta manter uma relação madura. Mesmo tentando manter-se fiel ao marido, Lucy acaba se aproximando de Mitch, o que desperta o ciúme doentio de Marylee (Dorothy Malone), irmã caçula de Kyle que passa seus dias envolvendo-se sexualmente com desconhecidos mas que nutre uma paixão doentia por Mitch. Quando ela começa a desconfiar que seu amado está envolvido com a cunhada, ela não hesita em criar uma intriga que os leva à violência e à morte.

A impressão que se tem quando se assiste a "Palavras ao vento" é que a trama é apenas um pequeno elemento dentre todo um conjunto de estilo do cineasta. Quase grotescamente fake, os cenários, os figurinos e até mesmo a trilha sonora contribuem para o clima opressivamente pré-fabricado que cerca suas personagens. Nada no filme soa real ou verossímil, estando sempre a um passo do exagero quase caricatural. Não deixa de ser um paradoxo bastante interessante, no entanto, que seu elenco atue assumindo valentemente sua condição de dramalhão, ou seja, as emoções parecem verdadeiras, ainda que vividas em um cenário claramente de mentira. Sirk parece querer dizer que em sua época as pessoas sofrem, sim, mas escondem seu sofrimento em um castelo de plástico lindamente decorado. Não é de se admirar que até mesmo o cineasta tenha deixado de lado o "detalhe" da homossexualidade latente de Kyle, bastante clara no livro e inexistente no filme - ao menos no sentido mais óbvio.

"Palavras ao vento" é mais que um filme, é uma experiência de estilo. Alguns adoram, outros rechaçam violentamente. Mas é inegável que tem importância capital dentro da história do cinema americano, uma vez que pode ser considerado quase um precursor de obras-primas como "Beleza americana", que também desvendava a fragilidade das aparências em relação aos sentimentos. Visto por esse ângulo, é um filme que merece ser conhecido e admirado, além de reconhecido como uma inteligente crítica aos valores morais de sua sociedade.

domingo

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956, Warner Bros., 201min) Direção: George Stevens. Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseado no romance de Edna Ferber. Fotografia: William C. Mellor. Montagem: William Hornbeck. Música: Dimitri Tiomkin. Produção: Henry Ginsberg, George Stevens. Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Carroll Baker, Sal Mineo. Estreia: 24/11/56

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (James Dean e Rock Hudson), Atriz Coadjuvante (Mercedes McCambridge), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor do Oscar de Melhor Diretor (George Stevens)


Mais que um Estado americano, o Texas é um estado de espírito. Pelo menos é isso que depreende-se de "Assim caminha a humanidade", terceiro e derradeiro capítulo do que foi convencionado pela crítica chamar de "trilogia" e que dava seguimento a "Um lugar ao sol" e "Os brutos também amam". São necessárias muitas elocubrações intelectualóides e psicossociais para tentar entender a razão de alocá-los em um mesmo conjunto ideológico, mas não é preciso pensar muito para ter uma certeza absoluta: cada um, dentro de seu gênero e de suas ambições, é uma obra-prima indiscutível.

Seguindo um rumo oposto à quase instrospecção visual e psicológica de "Um lugar ao sol", "Assim caminha a humanidade" - baseado em um livro de Edna Ferber - é um épico grandioso, imponente e ambicioso, narrando a vida de uma família texana através de 25 anos, confrontando-a com problemas racias, a guerra e a mudança de mãos de poder e de dinheiro - graças, no caso, à exploração de petróleo. Contando com a vasta paisagem do Texas como uma personagem a mais em sua narrativa, Stevens criou uma saga fascinante, que, a despeito de sua longa duração (mais de três horas) em nenhum momento se torna cansativa, desnecessária e/ou anacrônica. Ao contrário de muitos dos filmes feitos em sua época, "Assim caminha..." ainda mantém intactas suas principais qualidades: o roteiro forte, a contundente crítica social e principalmente o notável elenco, em atuações impecáveis.

Último filme que James Dean fez antes de espatifar seu Porsche em uma estrada da Califórnia, "Assim caminha a humanidade" deu ao ator sua segunda indicação póstuma ao Oscar, que ele disputou com seu colega de elenco, Rock Hudson, então entrando no auge de sua carreira (no mesmo ano ele estaria em "Palavras ao vento" e começaria em breve uma bem-sucedida parceria com Doris Day em uma série de comédias românticas). E se Elizabeth Taylor já estava na estrada há tempos, uma vez que começou sua carreira ainda criança, aqui ela atinge a maturidade necessária para firmar-se como atriz adulta (e levaria seu primeiro Oscar em 4 anos, por "Disque Butterfield 8"). Juntos, eles dão a exata noção de porque ainda são considerados mitos absolutos da sétima arte. Lutando pelo amor da estonteante Liz Taylor através de mais de duas décadas, o gigantesco Hudson e o diminuto Dean se imortalizaram na retina e no coração de legião de fãs. É impossível desviar o olhar da tela quando qualquer um deles está em cena. E levando-se em consideração que os três são os protagonistas absolutos do longa-metragem, são 200 minutos de puro deleite, com o que de melhor Hollywood poderia oferecer em 1956, em termos de espetáculo e conteúdo.


A afirmação inicial deste texto, de que o Texas é um estado de espírito, é a primeira conclusão de Leslie Lynton (Taylor), uma quase dondoca sofisticada e de temperamento forte quando chega à casa do marido, o rústico Jordan Benedict II (Hudson). Dono de uma fazenda gigantesca, Reata, que dirige ao lado da irmã solteirona, Luz (Mercedes McCambridge, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Benedict tem ideias muito próprias a respeito de como tratar as mulheres, os amigos e principalmente os empregados, quase todos mexicanos e tratados com quase desprezo. Indignada com o que presencia, Leslie aos poucos passa a tentar mudar o pensamento do marido, buscando tratar os criados com delicadeza, respeito e dando-lhes o mínimo de assistência médica. Seus atos incomodam seu marido, mas a aproximam de Jett Rink (Dean), que trabalha na fazenda graças à proteção de Luz, que o tem como um filho. Quando Luz morre depois de um acidente e deixa um pedaço de terra a Jett a relação entre ele e Jordan (chamado carinhosamente de Bick pela esposa) fica ainda mais difícil, chegando a ficar insustentável depois que Jett descobre petróleo em sua propriedade. Muitos anos depois, novos problemas ameaçam a estabilidade da família Benedict. Enquanto Jett fica a cada dia mais rico, Bick é obrigado a lidar com os fatos de que seu único filho homem (Dennis Hopper) pretende cursar medicina e cuidar das famílias carentes da região - além de casar-se com uma mexicana - e que sua caçula, Luz II (Carroll Baker) está interessada romanticamente no seu maior inimigo.

É difícil acreditar que "Assim caminha a humanidade" tenha perdido o Oscar de Melhor Filme para "Volta ao mundo em 80 dias". Aliás, é difícil acreditar que, de suas dez indicações, apenas George Stevens tenha levado um prêmio pra casa. Ainda que absolutamente merecida, sua estatueta não reflete com exatidão a qualidade insuperável do filme (não que ganhar Oscar seja garantia de alguma coisa, com bem o sabem os fãs de bom cinema). Fotografada com precisão por William C. Mellor (que dá à vastidão quase desértica do Texas a importância de um quarto protagonista), a saga da família Benedict é pontuada ainda com uma belíssima trilha sonora de Dimitri Tiomkin e com uma edição enxuta (ainda que seja bastante extenso, o filme não desperdiça nenhuma cena, utilizando cada enquadramento para fortalecer suas ideias). Até mesmo seu posicionamento a favor da tolerância racial soa moderno nos politicamente corretos dias de hoje, sem que apele em momento algum para a emoção fácil ou force uma empatia com qualquer das personagens.

E o que dizer das personagens? Poucas vezes se viu um épico com as proporções de "Giant" com tanto cuidado no desenvolvimento de suas personagens. Leslie Lynton, Jett Rink e Bick Benedict são tão críveis em seu amadurecimento (ou não, no caso de Rink, que nunca consegue abandonar o sentimento de inferioridade, mesmo com todo o dinheiro que ganha) que é difícil não envolver-se com seus dilemas, suas dúvidas e até mesmo com suas certezas. Leslie é uma mulher criada no conforto que precisa adaptar-se a um mundo novo depois de casar-se - e se sai admiravelmente bem! Jett Rink precisa encarar as próprias limitações que sua origem social lhe impusera para subir na vida e sentir-se "digno" do amor da mulher por quem é apaixonado (mesmo que décadas depois isso tenha que vir com a filha dela). E Bick Benedict se vê forçado a engolir seu preconceito e racismos incutidos pela mentalidade arcaica de sua família quando percebe que não conseguirá deter o destino e que seus filhos aceitariam morrer por ele... mas não viver por ele!

Apesar do cuidado do roteiro e da direção com as personagens secundárias (e isso inclui principalmente a irmã de Bick, a solitária Luz), é em seu elenco principal que "Assim caminha a humanidade" se sustenta. Irradiando carisma, garra e sex-appeal, Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor provam sem espaço para dúvidas que para se fazer um épico é preciso mais do que ambição: é imprescindível que se tenha talento.

sábado

OS DEZ MANDAMENTOS


OS DEZ MANDAMENTOS (The ten commandments, 1956, Paramount Pictures, 220min) Direção e produção: Cecil B. DeMille. Roteiro: Aeneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: Anne Bauchens. Música: Elmer Bernstein. Elenco: Charlton Heston, Yul Brinner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne de Carlo, John Derek, Vincent Price, Nina Foch. Estreia: 05/10/56

7 indicações ao Oscar: Melhor filme, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Os dez mandamentos" é um exagero! Exagero de intenções, de tempo de duração (mais de três horas e meia), de tempo de filmagem (cerca de cinco anos), de elenco (mais de 70 personagens com falas) e de orçamento (U$ 13 milhões em 1956). É também a despedida de seu diretor e produtor Cecil B. DeMille do cinema e o seu legado para as gerações posteriores. Pro bem e pro mal, é o filme que melhor representa o estilo grandiloquente da obra do cineasta, e só isso já o torna obrigatório para os fãs de cinema.

Com os dois pés fincados na estética kitsch - provavelmente antes mesmo que o termo passasse a ser usado em referência à cinema -, deMille construiu, em "Os dez mandamentos" quase uma ópera religiosa, fugindo das atuações naturalistas que ameaçam enterrar a "velha Hollywood". Em cena, diálogos empolados, quase teatrais, contrastam com os maneirismos que atores como Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift começavam a tornar populares. É difícil crer que "Os dez mandamentos" tenha sido lançado praticamente junto com "Juventude transviada", tamanha a distância entre suas intenções e resultados. Em comparação com o que o cinema americano começava a almejar - falar sobre problemas sociais, aproximar-se da realidade de seu público, por exemplo - o filme de DeMille chega a ser um retrocesso, tanto em termos plásticos quanto políticos. Beira a cafonice em vários momentos, e sua religiosidade levada quase ao limite do fanatismo (culpa do catolicismo exarcebado do diretor) incomodam justamente porque o filme não parece ser um produto de seu tempo. Se soava antiquado em 1956, imaginem agora.

Deixando de lado suas implicações sociais, políticas e/ou religiosas, é impossível negar que "Os dez mandamentos" tem algumas qualidades redentoras. Se os efeitos visuais - premiados com o Oscar da categoria - hoje parecem fakes, é preciso lembrar que na década de 50, eles ainda estavam engatinhando, buscando seu lugar ao sol na indústria do cinema. E são eles - mais do que qualquer outro aspecto do filme - é que são lembrados hoje em dia pela maioria do público. Cenas como aquela em que o Mar Vermelho se abre para a passagem dos hebreus em direção à Terra Prometida não deixam de ser impressionantes, principalmente se levado em conta o fato de que foram realizadas quase meio século antes do advento da computação gráfica. Isso também pode ser dito e louvado quando se percebe a multidão arrebanhada por DeMille em algumas de suas cenas: aquelas pessoas realmente estavam ali e não foram adicionadas na pós-produção, como normalmente se faz hoje em dia. Admirável, no mínimo!

No entanto, "Os dez mandamentos" sofre - e muito - com a megalomania de seu diretor. Uns bons 90 minutos poderiam tranquilamente ter sido deixados na mesa de edição, especialmente quando se percebe que o cineasta preferiu dar importância exagerada ao romance entre Josué (John Derek) e Lilia (Debra Paget), ao invés de concentrar-se em fatos determinantes da história - as pragas que assolam o Egito são apenas citadas em off quando deveriam ter sido mostradas. E pensando bem, a história só começa realmente depois de mais de 2 horas de projeção, quando finalmente Moisés (Charlton Heston, se preparando para ganhar o Oscar por "Ben-hur", três anos depois) assume seu posto como o Libertador do povo judeu e começa a desafiar o poder de Ramsés (Yul Brynner). Até então, é impossível negar que o filme é um tanto aborrecido, forçado, antigo mesmo. Não foi à toa que, apesar de seu sucesso de bilheteria, dividiu a crítica e nem teve o êxito que se esperava nas cerimônias de premiação do ano - indicado ao Oscar de Melhor Filme (mas não de Diretor), saiu apenas com a estatueta de Efeitos Visuais, um raro acerto da Academia, que nesse mesmo ano, esnobou "Assim caminha a humanidade", dando o prêmio máximo a "A volta ao mundo em 80 dias".

Gostar de "Os dez mandamentos" de forma incondicional diz muito sobre seu caráter religioso. Como cinema, impressiona em alguns momentos e decepciona em outros tantos. Como discurso teológico emociona os convertidos, mas dificilmente convence ateus. É uma bela história, sem dúvida, contada com tanto luxo que chega às raias do brega. Mas é também um bocado arrastado, com um ritmo lento e algumas atuações bastante antiquadas. É um filme que se pretendia uma obra-prima, mas que ficou no meio do caminho rumo a suas intenções. Ainda assim, é o testamento de um cineasta dos mais importantes da história do cinema.

quinta-feira

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS


O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (The man who knew too much, 1956, Paramount Pictures, 120min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: John Michael Hayes. Fotografia: Robert Burks. Montagem: George Tomasini. Música: Bernard Herrman. Figurino: Edith Head. Elenco: James Stewart, Doris Day, Daniel Gélin, Christopher Olsen, Brenda De Banzie, Bernard Miles. Estreia: 16/5/56

Vencedor do Oscar de melhor canção ("Que será, será")

Em 1934, ainda na sua fase inglesa, Alfred Hitchcock lançou um filme chamado "O homem que sabia demais". Mais de vinte anos depois, já consagrado em Hollywood, ele achou que podia contar novamente a mesma história, desta vez "como profissional". Contando com seu amigo pessoal James Stewart no papel principal, assim como com todos os seus colaboradores habituais (Robert Burks na fotografia, George Tomasini na edição e John Michael Hayes como roteirista), o cineasta britânico partiu então para o Marrocos e para Londres, para realizar um de seus filmes mais famosos - e ele estava absolutamente certo quando declarou que a nova versão não era mais coisa de amador.

Tudo começa no Marrocos, onde a tradicional família McKenna está passando alguns dias, aproveitando uma viagem a trabalho de seu chefe, o médico Benjamin (James Stewart). Fascinados com os costumes locais, logo eles fazem amizade com outro casal ocidental, os Drayton (Brenda De Banzie e Bernard Miles), e com o misterioso francês Louis Bernard (Daniel Gèlin). O que era para ser uma viagem tranquila, no entanto, passa a assumir a forma de um pesadelo quando Bernard morre assassinado em pleno mercado público, não sem antes revelar a Benjamin que um importante líder de estado será assassinado em Londres. A ideia de Benjamin é contar tudo à polícia, mas os responsáveis pela morte de Bernard e pela conspiração descoberta por ele sequestram seu filho pequeno, Hank (Christopher Olsen), para impedí-lo de fazer qualquer denúncia. Sentindo-se desprotegidos, o médico e sua mulher, a ex-cantora Josephine (Doris Day) partem para Londres, dispostos a reaver o filho e evitar a tragédia prevista pelo francês, que eles descobrem que trabalhava para o FBI.

"O homem que sabia demais" é uma obra típica de Hitchcock, onde ele, mais uma vez, volta a tratar de pessoas comuns sendo obrigadas a lidar com situações adversas e das quais não conseguem sair de maneira convencional. Dessa vez, ao invés de apenas um homem jogado no centro do furacão, ele vai ainda mais longe, fazendo tremer as estruturas de uma família inteira (e uma família cuja mãe é Doris Day, a epítome do mainstream, do suburbano, do trivial). Aliada a James Stewart (escolhido por Hitchcock principalmente por representar o homem comum), Day cria um núcleo familiar com o qual qualquer espectador pode tranquilamente se identificar. E é justamente essa identificação com o público médio que leva "O homem..." a uma esfera quase inédita na obra do diretor. Na grande maioria de seus filmes anteriores, os protagonistas lutavam sozinhos, e para salvar a própria pele. Aqui, há muito mais em jogo: a união da família, a sobrevivência e até mesmo a possibilidade de salvar a vida de um importante líder.


Apesar das elocubrações estilísticas e psicológicas, no entanto, o que vale em "O homem que sabia demais" é o gênio de Hitchcock em construir exemplarmente grandes sequências de suspense. Desde as primeiras cenas, quase idílicas, de uma família em viagem de férias, há um clima de tensão sutil. Sob o comando de Hitchcock, até mesmo coisas simples assumem um ar de claustrofobia - e para isso também contribui magistralmente seu inegável talento em escolher visuais marcantes para os coadjuvantes: ninguém no elenco de "O homem que sabia demais" tem um rosto trivial. Todos parecem saídos de um sonho ruim, felliniano, sufocante, o que contrasta ainda mais com os saudáveis rostos americanos de Stewart e Doris Day.

E isso que nem vale a pena citar a sequência de doze minutos, quase sem diálogos, que se passa em um concerto no Albert Hall (com a luxuosa participação especial do compositor Bernard Herrman como ele mesmo). Hitchcock constrói meticulosamente a tensão crescente que precede o atentado ao Primeiro-ministro inglês de forma impecável, onde cada minuto exerce, sobre o espectador, exatamente o efeito que ele deseja exercer. Se isso não é o domínio absoluto de seu ofício, então o que seria?

"O homem que sabia demais" foi praticamente ignorado na cerimônia do Oscar de 1957. Sua única indicação - que foi convertida em estatueta, diga-se de passagem - foi para canção original. Doris Day detestava a música, "Que será, será", cantada em um momento crucial do filme, mas ela acompanhou-a por toda sua carreira, sendo uma de suas mais populares marcas registradas. Logo em seguida ela começaria uma extremamente bem-sucedida série de comédias românticas com Rock Hudson e se tornaria uma das mais requisitadas estrelas de Hollywood, até tornar-se tão "fora de moda quanto o charleston", como diria Nelson Rodrigues. Mas sua colaboração com o mestre Hitchcock comprova que, se não lhe davam papéis mais consistentes, isso era problema dos produtores. E do público, que não teve a oportunidade de acompanhar a maturidade de seu talento dramático.

quarta-feira

RASTROS DE ÓDIO


RASTROS DE ÓDIO (The searchers, 1956, 119min) Direção: John Ford. Roteiro: Frank S. Nugent, baseado no romance de Alan LeMay. Fotografia: Winton C. Hoch. Montagem: Jack Murray. Música: Max Steiner. Produção executiva: Merian C. Cooper. Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Vera Miles, Henry Brandon. Estreia: 13/3/56

Gênero americano por excelência, o western tinha no cineasta John Ford seu representante máximo e no ator John Wayne sua imagem absoluta. Apesar de terem trabalhado juntos por diversas vezes, é "Rastros de ódio", lançado em 1956, que mantém-se como a obra máxima de sua colaboração. Acusado de racista à época de seu lançamento, é hoje considerado a obra-prima de Ford, o diretor mais vezes premiado com o Oscar da categoria (quatro vitórias, nem todas por faroestes, mas todas por filmes unanimemente incensados por crítica e público).

"Rastros de ódio" já começa antológico. A porta de um rancho se abre, a silhueta de uma mulher é recortada contra um belo pôr-do-sol e Ethan Edwards (John Wayne) entra em cena. Estamos no Texas em 1868 e apesar da Guerra de Secessão já ter acabado uns bons anos antes recém o soldado da Confederação está regressando para a família. A família, no caso, é seu irmão, Aaron (Walter Coy), a cunhada Martha (Dorothy Jordan, esposa do produtor Merian C. Cooper), as duas sobrinhas Debbie e Lucy e Martin Pawley (Jeffrey Hunter), um mestiço cherokee que ele mesmo salvou depois do massacre de sua tribo. Logo depois de seu retorno, no entanto, uma tragédia acontece: a casa de seu irmão é incendiada, suas sobrinhas sequestradas e o casal violentamente morto. Ele tem certeza de que foram índios comanches que perpetraram tamanha desgraça e resolve partir em busca de vingança. A princípio junto com um grupo de soldados e depois contando apenas com Pawley, ele passa anos em busca da única sobrevivente da chacina, sua sobrinha Debbie. Seu objetivo, no entanto, não é resgatá-la e sim, matá-la, por considerar que ela já assumiu a personalidade de uma índia.


Levando em consideração as intenções de Ethan e seus pensamentos bastante preconceituosos, se vistos com os olhos de hoje, as acusações de racismo até fazem certo sentido. Mas quem há de negar que o ranço politicamente correto que hoje contamina a produção cinematográfica vem emburrecendo e deixando de tocar em assuntos pertinentes por medo de ser crucificada pelo povo médio? Em 1868, ano em que a história do filme começa (logo após a Guerra de Secessão que opôs o norte abolicionista e o sul escravagista) não havia melindres de nenhum tipo - negros eram negros, índios eram índios e os conceitos de masculinidade eram bem definidos (taí a imagem intocada de Wayne como exemplo de uma virilidade talvez anacrônica hoje em dia, mas extremamente valorizada em um Oeste selvagem e violento).

É inegável o cuidado de Ford com o visual de sua obra. A fotografia espetacular de Winton C. Hoch (ajudada pela beleza natural do famoso Monument Valley e pelas paisagens de Alberta, no Canadá) é quase uma personagem a mais da trama, acompanhando a odisséia de Ethan e Pawley em sua busca desenfreada por justiça (ou vingança, qualquer adjetivo aqui é acertado). O uso exemplar de tomadas à distância e da música grandiloquente de Max Steiner colaboram em criar o clima de épico que "Rastros" esbanja em cada fotograma. E o roteiro, adaptado de um romance de Alan LeMay, ainda encontra espaço para aliviar a tensão da caçada, com uma subtrama que envolve um namoro à distância entre o jovem Pawley e a bela Laurie (Vera Miles). Apesar de engraçado no início, esse desvio do rumo principal é o responsável pela única quebra de ritmo do filme (a briga entre Pawley e seu rival toma diversos e preciosos minutos, em uma desnecessariamente longa sequência).

"Rastros de ódio" é a quintessência do western, a fórmula do gênero em seu máximo grau de qualidade e forma. É também um perfeito exemplo de entretenimento sério e, a despeito das suas hoje equivocadas maneiras de ver os índios e as mulheres, o maior legado da dupla Ford/Wayne ao cinema.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...