segunda-feira

MANHATTAN



MANHATTAN (Manhattan, 1979, United Artists, 96min ) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Michael Murphy, Mariel Hemingway, Meryl Streep, Anne Byrne. Estreia: 25/4/79

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mariel Hemingway), Roteiro Original

Por incrível que pareça, um dos produtos mais bem-acabados da carreira do ator, roteirista e diretor Woody Allen é um do qual ele gosta tão pouco que chegou a sugerir à United Artists que nunca o lançasse, propondo inclusive dirigir um filme totalmente de graça para que isso acontecesse. Felizmente, o estúdio nem cogitou a possibilidade e proporcionou ao público um dos filmes mais queridos da carreira de Allen. Mesmo já tendo Oscar em casa por “Noivo neurótico, noiva nervosa”, é em “Manhattan” que ele demonstra a maturidade e o equilíbrio que marcariam os melhores momentos de sua trajetória como um dos mais íntegros e coerentes cineastas de sua geração. Filmado quase como uma declaração de amor à Nova York – a primeira de várias que se seguiriam -, “Manhattan” apresenta uma gloriosa fotografia de Gordon Willis como pano de fundo para a história de um quadrilátero amoroso encenado sob uma trilha sonora impecável, recheada de standards de um jazz da mais alta qualidade, em especial Gershwin.

Assim como em “Noivo neurótico”, Allen é quem lidera o elenco, na pele de Isaac Davis, um escritor de programas de televisão que não nutre exatamente um grande amor pela profissão. Na verdade, ele passa por uma crise, uma vez que foi abandonado pela esposa (Meryl Streep em uma participação pequena mas fundamental), que, além de trocá-lo por outra mulher ainda está terminando de escrever um livro contando detalhes de sua intimidade. Só quem o salva de seus problemas é seu namoro com a bela Tracy (Mariel Hemingway), uma jovem estudante de apenas 17 anos de idade e sua amizade com o professor universitário Yale (Michael Murphy), que tem um caso extra-conjugal com Mary (Diane Keaton). Enquanto dá apoio à bela e cultíssima Mary, que sofre com as dificuldades de seu romance impossível, Isaac acaba se apaixonando por ela, deixando de lado seu relacionamento com quem ele considera jovem demais.


Apesar de conter todas as características que definiriam o “estilo Woody Allen” para todo o sempre, “Manhattan” pode e deve ser visto como um romance à moda antiga, vestido com uma roupagem ainda moderna. Sim, os diálogos repletos de referências eruditas estão presentes, assim como o senso de humor neurótico e judeu. Mas poucas vezes o roteirista/diretor criou personagens tão densos e reais como os criados aqui, defendidos com unhas e dentes por atores excepcionais. Curiosamente, a mais fraca intérprete do elenco, Mariel Hemingway (em um papel que quase ficou com Jodie Foster) foi quem recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante – perdido para sua colega de elenco Meryl Streep, por sua atuação em “Kramer X Kramer”. Sua fragilidade como atriz fica ainda mais evidente na última cena do filme, de uma sensibilidade e uma preciosidade ímpares, que entraria certamente em qualquer antologia romântica caso tivesse uma atriz de verdade. Bela ela realmente era - a ponto de ser citada na lista que Isaac faz dos motivos pelos quais vale a pena viver - mas como atriz faltava-lhe substância.

“Manhattan” ainda é uma pequena obra-prima de um artista acostumado a criá-las. Para entrar na lista dos preferidos do diretor.

domingo

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.


Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

sábado

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.


O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.

sexta-feira

O EXPRESSO DA MEIA-NOITE


O EXPRESSO DA MEIA-NOITE (Midnight express, 1978, Columbia Pictures, 121min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Oliver Stone, basedo no livro de William Hayes e William Hoffer. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/Evan Hercules. Produção executiva: Peter Guber. Produção: Alan Marshall, David Puttnam. Elenco: Brad Davis, John Hurt, Randy Quaid, Irene Miracle, Paolo Bonacelli, Mike Kellin. Estreia: 06/10/78

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan Parker), Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 6 Golden Globes: Filme/Drama, Ator Coadjuvante (John Hurt), Roteiro, Trilha Sonora, Estreia masculina (Brad Davis), Estreia feminina (Irene Miracle)

Depois que se assiste a “Expresso da meia-noite” fica-se com um nó na garganta. Não por tristeza, mas talvez por revolta. Inacreditavelmente baseado em uma história real, o filme do inglês Alan Parker é um petardo emocional e sensorial que dificilmente pode ser esquecido ou tido como entretenimento simples e fácil. Se a história do americano Billy Hayes é sofrida e deprimente, ao menos originou um dos melhores filmes de 1978 e talvez o melhor da carreira do cineasta.

Billy Hayes, vivido no filme por um impressionante Brad Davis, é um jovem americano de classe média que é preso na Turquia com um carregamento de haxixe. Acusado de tráfico de drogas, ele é preso imediatamente e condenado a seis anos de cadeia, sem dar muitas chances ao advogado contratado por seu pai. Às vésperas de sua soltura, porém, como forma de fazer dele um exemplo aos EUA - com quem não tem a mais amigável das relações - o governo turco transmuta sua sentença para prisão perpétua. Uma vez condenado, Hayes é trancafiado em uma prisão assustadora, violenta e sem muita noção do que significam as palavras Direitos Humanos. Sua única chance de sobreviver ao inferno é fugir com alguns companheiros de cela no que eles chamam de Expresso da Meia-noite, ou seja, um túnel. Para isso, ele terá que testemunhar uma truculência inimaginada em seus dias na América.


Poucas vezes se viu no cinema uma obra tão abertamente brutal como “Expresso da meia-noite”. Sem medo de chocar e/ou afugentar seu público, Alan Parker mergulha seu protagonista em um buraco de racismo, dor e violência. Para isso conta com o inspirado roteiro de Oliver Stone (premiado com o Oscar): mesmo alterando substancialmente algumas passagens do livro escrito pelo próprio Hayes - as passagens do livro que se referem a sua experiência homossexual dentro da prisão foi deslavadamente modificadas, o que tira um pouco de sua credibilidade, o script do futuro diretor dá a exata noção do pesadelo no qual um jovem saudável, amado pela família e pela namorada é jogado de uma hora para outra. O filme não faz julgamentos morais a respeito de seu protagonista, que no entanto, depois de tanto sofrimento, acaba conquistando a simpatia do público, mesmo longe de ser um exemplo a ser seguido.

Muito dessa conquista se deve ao trabalho de Brad Davis, que transmite em cada olhar de dor e revolta todos os sentimentos complexos de seu personagem. Lembrando alguns trejeitos de James Dean - principalmente na forma como lida com a injustiça e a revolta - ele foi mais um jovem talento que morreu cedo - Davis morreu de AIDS aos 41 anos em 1991. Contando com a ajuda de colegas de elenco como John Hurt e Randy Quaid, como dois prisioneiros que unem-se a ele em sua trajetória rumo à liberdade ainda que tardia, Davis foi uma revelação das mais empolgantes do final da década de 70, causando polêmica com seu trabalho em "Querelle", de 1982.

Não se pode esperar que “Expresso da meia-noite” seja um filme para divertir. É cinema sério, de denúncia, mas que jamais esquece de seu principal objetivo: contar uma boa história, com personagens fortes e um roteiro bem estruturado. Contando ainda com uma fotografia opressiva de Michael Seresin e uma trilha sonora de Giorgio Moroder que já tornou-se clássica, é um filme que dificilmente abandona a memória.
O único alívio que se tem ao assisti-lo é saber que, mesmo sendo uma história verdadeira, não aconteceu conosco.

quinta-feira

INTERIORES


INTERIORES (Interiors, 1978, United Artists, 93min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Ralph Rosenblum. Figurino: Joel Schumacher. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Mario Mazzola. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Geraldine Page, Diane Keaton, Mary Beth Hurt, E.G. Marshall, Kristin Griffiths, Maureen Stapleton, Sam Waterston, Richard Jordan. Estreia: 02/8/78

5 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Atriz (Geraldine Page), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Direção de arte

Depois de sair consagrado da festa do Oscar com os prêmios de roteiro e direção por "Noivo neurótico, noiva nervosa", Woody Allen seguiu o único caminho que poderia surpreender os fãs de seu estilo: abandoná-lo e fazer um filme completamente diferente. Inspirado claramente na obra do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos seus maiores ídolos, "Interiores" pegou todo mundo - crítica e público - de surpresa, ao contar uma história sem o menor epaço para qualquer senso de humor e com um ritmo de cinema europeu. Desnecessário dizer que sua bilheteria foi ínfima.

No livro de entrevistas "Conversas com Woody Allen", de Eric Lax, o cineasta afirma que hoje em dia conseguiria fazer de "Interiores" um filme melhor. A questão é: por que? Do jeito que está, o nono filme de sua carreira é uma hipnotizante e sensível, ainda que muitas vezes árdua, história sobre as relações (ou a falta delas) entre pessoas da mesma família, que frequentemente não conseguem expressar a contento suas emoções. Com atuações sublimes de seus protagonistas e um roteiro que foge do lugar comum durante toda a sua projeção, "Interiores" é uma das mais bem-acabadas obras de Allen dentro de sua "fase bergmaniana".

É bastante provável que aqueles que se tornaram fãs do diretor devido a suas geniais comédias lançadas anteriormente se decepcionem com "Interiores", justamente porque ele é o extremo oposto da sua filmografia anterior, repleta de ironia e sarcasmo. Aqui a coisa é muito séria: depois de ser abandonada pelo marido - que cansou de levar uma vida tediosa e certinha - a dona de casa Eve (Geraldine Page) passa a dedicar-se a decorar a casa da filha do meio, Joey (Mary Beth Hurt), uma mulher indecisa quanto ao rumo a tomar em sua vida profissional. Temendo ferir os sentimentos da mãe, ela não para de dar-lhe esperanças sobre um possível arrependimento de seu pai. Essa tática não é aprovada por Renata (Diane Keaton), a filha mais velha, uma escritora relativamente bem-sucedida que tem um relacionamento conflituoso com o também escritor Frederick (Richard Jordan), que, em uma noite de exagero etílico tenta estuprar a cunhada caçula, a atriz Flyn (Kristin Griffith). A fragilidade psicológica de Eve entra em colapso quando seu ex-marido, Arthur (E.G.Marshall) anuncia seu casamento com a duplamente viúva Pearl (Maureen Stapleton).


Nada em "Interiores" é fácil, clichê e/ou de fácil assimilação. Allen não poupa sua plateia de mergulhar dentro dos pensamentos de personagens sofridos, densos, complexos e incapazes de lidar com suas próprias emoções. A fotografia em tom pastel - assim como os figurinos e os cenários - apenas reitera a total falta de passionalidade de suas personagens, trancadas em uma redoma de inseguranças e inaptidão em lidar com suas vidas. Nem mesmo as cenas de maior emoção do filme são exageradas, sendo apresentadas sempre em um tom médio, que remete diretamente à frieza estética do cinema sueco que inspirou seu roteiro e sua direção. Quando Flyn é quase violentada, não há uma música grandiloquente ou lágrimas derramadas a rodo. Todos ali são elegantes, sofisticados, empedernidos. Por dentro, no entanto, sofrem um turbilhão de sensações, nem todas elas agradáveis.

Acertadamente, Woody Allen declarou que as falas de "Interiores" soam mais como legendas do que diálogos naturais - ingrediente básico em suas comédias. Mas é inegável que essa ausência de naturalismo imposta por ele em seu roteiro empurra o resultado final mais para um drama discreto e quase silencioso do que para um catártico e emocional melodrama hollywoodiano. O público não gostou. A crítica, em sua maioria, aplaudiu vigorosamente.

E um dos motivos para esses aplausos merecidos da crítica atende pelo nome de Geraldine Page. Herdando um papel oferecido inicialmente a Ingrid Bergman - que o recusou porque iria fazer "Sonata de outono", dirigido pelo mestre de Allen - Page tem uma atuação exemplar, de uma economia inteligente e adequada. A cena em que ela tem um ataque de choro por achar que sua vida não tem nada de interessante é de arrepiar, assim como seu diálogo final com Joey, capaz de emocionar sem soar óbvio.

E é justamente por fugir do óbvio - em todos os sentidos - que "Interiores" é um dos filmes mais interessantes de Woody Allen. Não é para qualquer público, mas aqueles que se arriscam a assisti-lo sabendo de suas intenções tem pouquíssimas chances de se decepcionar.

quarta-feira

GREASE - NOS TEMPOS DA BRILHANTINA


GREASE, NOS TEMPOS DA BRILHANTINA (Grease, 1978, Paramount Pictures, 110min) Direção: Randal Kleiser. Roteiro: Bronté Woodard, adaptado por Allan Carr do musical de Jim Jacobs e Warren Casey. Fotografia: Bill Butler. Montagem: John F. Burnett. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Phil Jefferies/James Berkey. Casting: Joel Thurm. Produção: Allan Carr, Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Didi Conn. Estreia: 16/6/78

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Hopelessly devoted to you")

Nada como um sucesso atrás do outro... Clássico absoluto entre os musicais dos anos 70, “Grease, nos tempos da brilhantina” foi um dos responsáveis, ao lado de “Embalos de sábado à noite”, de transformar John Travolta em símbolo sexual graças a seu gingado de bailarino. Ao contrário de “Embalos”, no entanto, que tinha a cara de sua época, esta adaptação de um musical da Broadway de autoria de Jim Jacobs e Warren Casey, recorre aos dourados anos 50 para contar uma história de amor açucarada e sem pretensões outras a não ser divertir a plateia durante suas quase duas horas de duração. "Grease" é uma deliciosa sessão da tarde, para ser assistida de preferência com um balde de pipoca, refrigerante no copo e o barulhinho de uma tarde de domingo chuvosa.

A trama se passa em 1959, em uma escola secundarista da Califórnia. Travolta vive Danny Zucko, um playboyzinho que vive cercado de seus amigos metidos a galãs. Sua imagem de conquistador sofre um abalo quando ele reencontra a bela Sandy (Olívia Newton-John, linda e graciosa), uma jovem australiana que ele havia conhecido nas férias e que passa a estudar em sua escola. Cada um deles conta uma versão diferente de sua história de amor e isso dificulta sua relação, principalmente quando a invejosa e liberal Rizzo (Stockard Channing) se intromete entre eles, tentando reconquistar Danny, com quem teve um relacionamento breve.


É inegável que a química entre Travolta e Newton-John é a peça-chave do sucesso do filme, que rendeu milhões nos cinemas pelo mundo afora, mas a trilha sonora, repleta de canções agradáveis e conhecidas também tem seu papel no formidável desempenho do filme do irregular Randal Kleiser. As ritmadas “Summer nights” e “You’re the one that I want”, por exemplo, sobrevivem tranquilamente sem as imagens, assim como as belas “Hopelessly devoted to you” (indicada ao Globo de Ouro) e “There are worst things I could do”, que longe de serem apenas músicas para preencher o tempo, são trabalhos pop de qualidade inegável e que, em conjunto com a caprichada reconstituição de época, fazem de “Grease” um simpático passatempo, quase alienado e por isso mesmo tão fácil de se gostar.

Não há, em "Grease", nenhuma intenção de falar de assuntos sérios ou levantar qualquer tipo de polêmica: até mesmo quando surge uma certa discussão sobre a maneira com que as mulheres eram vistas na época, ela aparece envolta em um bom-humor que logo lhe impede de buscar maiores profundidades. E apesar de algumas feministas terem subido nas tamancas devido ao final do filme - quando Sandy muda de personalidade para conquistar Danny - elas não lembram de que ele também tentou mudar para seduzí-la, envolvendo-se com esportes, em uma sequência bastante engraçada.

No final das contas, "Grease" é um divertido espetáculo feito para encantar os olhos e os ouvidos. E como tal atinge seus objetivos sem muito esforço.

terça-feira

OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE


OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE (Saturday night fever, 1977, Paramount Pictures, 118min) Direção: John Badham. Roteiro: Norman Wexler, baseado no artigo de Nik Cohn. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: David Rawlins. Música: Bee Gees. Figurino: Patrizia Von Brandenstein. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/George Detitta. Casting: Shirley Rich. Produção executiva: Kevin McCormick. Produção: Robert Stigwood. Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller, Joseph Cali, Paul Pape, Donna Pescow, Fran Drescher, Martin Shakar. Estreia: 14/12/77

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (John Travolta)

Em 1977, o jornalista Nik Cohn escreveu uma matéria chamada "Tribal rites of the new Saturday night", onde descrevia como jovens entediados e sem maiores perspectivas de futuro tornavam-se pessoas mais divertidas e admiradas quando saiam para dançar nas discotecas dos subúrbios nova-iorquinos. Anos mais tarde, ele confessou que sua "matéria de não-ficção" era pura invenção, mas aí já era tarde e o estrago já estava feito. Adaptado para o cinema com o nome de "Embalos de sábado à noite", seu artigo já havia sido o responsável pelo "boom" das discotecas no mundo todo e transformado a imagem de John Travolta fazendo seus passos de dança vestido com um paletó branco em um ícone inestimável para toda uma geração de cinéfilos.

Desde a primeira cena de "Embalos...", onde somos apresentados ao malemolente Tony Manero, fica impossível dissociar a personagem do ator e da persona John Travolta (já famoso nos EUA devido ao filme "O garoto da bolha de plástico", feito para a TV americana). Dono de um ritmo próprio de andar, com sapatos bem cuidados e uma ginga malandra, Manero é o retrato típico da juventude descrita por Cohn em seu artigo e pelo roteiro de Norman Wexler. Aos 19 anos, trabalhando em uma loja de tintas e sem maiores ambições na vida, ele é apenas mais um filho de uma família de italianos falastrões cujo maior orgulho é o filho padre. Quase ignorado em casa, Manero é praticamente um deus quando, aos sábados, chega na discoteca 2001 Odissey e, na pista de dança, transforma-se no mais desejado dos homens. Egocêntrico e auto-suficiente, ele é, naquele microcosmo, tudo que deveria ser no dia-a-dia mas não consegue devido à sua falta de instrução e interesse.

Tony é, em seus momentos de sub-celebridade, um hedonista, capaz de renegar friamente as investidas da doce Annette (Donna Pescow), apaixonada por ele e disposta a qualquer sacrifício para ser sua parceira de dança ("você transa com elas e elas logo querem te arrastar pra pista de dança", reclama ele, em uma das frases mais luminosas do roteiro). Tony não quer amar, ele quer ser amado e admirado mais do que tudo e por isso, quando encontra a igualmente ambiciosa Stephanie (Karen Lynn Gorney) sua vida sofre uma espécie de revés. Ao contrário do que sempre acontece, dessa vez é ele quem tem de convencê-la a ser seu par no concurso de dança. É ele quem se sente diminuído perante o quase esnobismo dela. E é ele começa a se perceber como uma pessoa sem maiores atrativos além daqueles mostrados ao som da música disco.


A música, aliás, é quase uma personagem central do filme, dirigido por John Badham. As inúmeras canções compostas pelos Bee Gees para ele (desde a clássica "Stayin' alive" dos créditos iniciais até a melancólica "How deep is your love" pro final) comentam a ação tanto quanto linhas de diálogo, dando ao público explicações sobre os sentimentos dos protagonistas e a oportunidade de ouvir uma das trilhas sonoras mais vendidas da história. Subvertendo as regras dos musicais tradicionais, onde as personagens param tudo e começam a cantar, aqui a música faz parte do conjunto, sendo inseparável do roteiro, do figurino antológico e das belas sequências de dança - que transformaram John Travolta em astro e lhe deram uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor ator.

De certa forma, no entanto, a indicação de Travolta ao Oscar é a comprovação de que realmente ele é a alma do filme. Ao assistir-se a "Os embalos..." fica difícil acreditar que foi durante suas filmagens que o ator passou por um dos momentos mais tristes de sua vida pessoal: a morte da então namorada Diana Hyland, vítima de câncer. E fica também difícil crer que o diretor queria mostrar as elaboradas coreografias apenas em close (depois de treinar arduamente por meses a fio, Travolta convenceu-o do contrário, para alegria das festas de embalo que se seguiriam mundo afora após o lançamento do filme).

"Os embalos de sábado à noite" tem um roteiro frágil, que não sustenta uma olhada mais detalhada - apesar de tentar se aprofundar em personagens secundários, nunca chega a dar material para seu elenco de apoio. Mas é a cara de seu tempo, um filme sem maiores pretensões que ficou marcado no inconsciente coletivo e também o que mudou a forma como as trilhas sonoras eram vistas no mercado musical. Levando tudo isso em conta - e mais o fato de que inspirou o sucesso da novela global "Dancin' days" - é inegável sua importância, ainda que mais comercial do que artística, à história do cinema de entretenimento.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...