sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

quinta-feira

ZELIG



ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.


Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

quarta-feira

FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO


FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO (Flashdance, 1983, Paramount Pictures, 95min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Tom Hedley, Joe Eszterhas, história de Tom Hedley. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Walt Mulconery, Bud Smith. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Marvin March. Casting: Gretchen Rennell. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson. Estreia: 15/4/83

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("Flashdance... what a feeling", "Maniac")
Vencedor do Oscar de Canção ("Flashdance... what a feeling")
Vencedor de 2 Golden Globes: Trilha Sonora, Canção ("Flashdance... what a feeling")


É impressionante como, ao contrário da coragem e da ousadia do cinema americano dos anos 70, a filmografia da década de 80 conseguiu esvaziar - e muito - seu conteúdo psicológico e temático. Filmes como "Taxi driver" e "Amargo pesadelo" jamais teriam sido feitos se dependesse da visão oca de produtores como Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que, na primeira metade da década entregaram aos frequentadores de cinema sucessos de bilheteria que não eram nada mais do que histórias de densidade dramática nulas embrulhadas em um visual atraente. Um exemplo claro disso é "Flashdance, em ritmo de embalo", que, apesar da fotografia caprichada e da trilha sonora pop cuidadosamente selecionada - e que vendeu mais de 700 mil cópias - é tão desprovido de inteligência que chega a ser constrangedor pensar que fez tanto sucesso.

"Flashdance" conta a história - se é que se pode chamar algo assim de história - de Alex Owens (Jennifer Beals com 18 anos que aparentam 25), uma jovem que sonha em ter uma carreira de dançarina e ganha a vida como soldadora (!!!). Incentivada por uma veterana bailarina, Hannah (Lilia Skala), e por uma dupla de amigos que aguardam o sucesso enquanto trabalham em bares e restaurantes, ela deseja inscrever-se em um curso profissionalizante. Enquanto isso não acontece ela inicia um romance com seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri). E o filme é só isso.


Quase metade do filme de Adrian Lyne (que se especializaria em projetos visualmente interessantes mas artisticamente capengas) é formado por sequências de dança, todas elas extremamente bem fotografadas, ainda que com a cara um tanto cafona dos anos 80. De cinco em cinco minutos a plateia é bombardeada com Beals e cia dançando de forma sexy em palcos, academias, em casa ou em ringues de patinação, ao som de uma trilha sonora marcante que apresenta inclusive a vencedora do Oscar cantada por Irene Cara. Os conflitos das personagens chegam a ser risíveis e é tudo tão, mas tão previsível e forçado que tem-se a impressão que o filme realmente não é pra ser levado a sério. Mas o problema é que é!

O roteiro de Joe Ezsterhas - que no início dos anos 90 ficaria rico com "Instinto selvagem" - não se dá ao trabalho de aprofundar nenhuma relação entre suas personagens, fazendo-as rasas e sem muito carisma. Nem mesmo a protagonista é suficientemente bela e/ou sensual para angariar a simpatia por méritos físicos. Não foi à toa que a carreira de Beals não decolou (sorte de Demi Moore, que quase ficou com o papel) e que Michael Nouri também não teve muito êxitos de bilheteria na sequência (e seu papel esteve em vias de ser interpretado por Kevin Costner...)

"Flashdance, em ritmo de embalo" é, na verdade, o tipo de filme que lembra uma época, que tem valor nostálgico, que serve de piada e que pode servir de telão de fundo em uma festa temática anos 80. Mas enquanto cinema não convence em momento algum. Pelo menos serviu de inspiração para Jennifer Lopez criar o vídeo-clipe "I'm glad", bem mais sensual e interessante.

terça-feira

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

segunda-feira

APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU 2


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU II (Airplane II: The Sequel, 1982, Paramount Pictures, 85min) Direção e roteiro: Ken Finkleman. Fotografia: Joe Biroc. Montagem: Tina Hirsch, Dennis Virkler. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould. Casting: Lisa Freiberger. Produção: Howard W. Koch. Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Lloyd Bridges, Peter Graves, William Shatner, Raymond Burr, Rip Torn. Estreia: 10/12/82

Entusiasmados com o enorme sucesso de seu filme "Apertem os cintos, o piloto sumiu", lançado em 1980, seu trio de diretores conhecido por ZAZ (Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker) imediatamente concordou com a ideia de uma sequência - fato que não era ainda a febre que é hoje. Quando eles desistiram do projeto, no entanto, a ideia não foi descartada. Com Ben Finkleman no comando, "Apertem os cintos 2" estreou com bem menos estardalhaço do que seu capítulo original, o que jogou no lixo a pretensão de uma trilogia. Apesar disso, seu fracasso comercial não deixa de ser injusto, uma vez que mantém o tom debochado e o humor nonsense do primeiro filme, ainda que sem os seus lampejos de criatividade e o senso de novidade. No final das contas, é um filme bastante divertido, um entretenimento passageiro capaz de animar uma tarde chuvosa sem exigir muito do cérebro.

Enquanto o filme original lidava com um envenamento alimentar que impedia a tripulação de um avião a continuar a viagem, obrigando um veterano de guerra a assumir o controle da aeronave, dessa vez a trama gira em torno do primeiro vôo comercial terrestre em direção à Lua. O protagonista do primeiro filme, Ted Striker (Robert Hays) se vê novamente no comando da situação quando uma pane na fiação do avião o força a reviver o pesadelo que de certa forma separou-o da mulher que ama, a comissária de bordo Elaine (Julie Hagerty), agora promovida a assistente de informática da nave e noiva de um comandante que deseja vê-la como dona de casa.


"Apertem os cintos, o piloto sumiu 2" é mais do mesmo. Piadas verbais intraduzíveis - e muitas vezes engraçadíssimas - dividem espaço com gags visuais que acontecem até mesmo em segundo plano. Atores conhecidos tiram sarro da própria imagem (Lloyd Bridges repete o papel do primeiro filme e William Shatner rouba a cena sempre que aparece). Situações absurdas se equilibram com piadas tão infames que chegam a ser brilhantes. E citações a sucessos de bilheteria estão presentes a toda hora (de cara nota-se referências a "ET", "Rocky", "Star wars", "Star trek" e "2001").

Mesmo que jamais possa ser considerado uma obra-prima - até mesmo porque, como já foi dito, não tem o mesmo sabor de novidade do primeiro filme - "Apertem os cintos 2" é um passatempo ligeiro que cumpre exatamente o que promete: boas risadas politicamente incorretas em pouco menos de uma hora e meia de duração.

domingo

GANDHI


GANDHI (Gandhi, 1982, Columbia Pictures, 191min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley. Fotografia: Ronnie Taylor, Billy Williams. Montagem: John Bloom; Música: Ravi Shankar. Figurino: Bhanu Athaiya, John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Casting: Susie Figgis. Produção executiva: Michael Stanley-Evans. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Nigel Hawthorne. Estreia: 08/12/82

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte, Maquiagem, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Richard Attenborough), Ator (Ben Kingsley), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de arte
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme Estrangeiro, Ator/Drama (Ben Kingsley), Diretor (Richard Attenborough), Roteiro, Melhor Estreia Masculina (Ben Kingsley)


Mahatma ("Grande Espírito") Gandhi foi uma das personaliades mais fascinantes do mundo, um advogado inteligente e sensível que, baseado em sua filosofia de não-violência liderou a batalha pela independência da Índia das mãos do império britânico. Assassinado em 1948, tornou-se símbolo da luta pela paz e pela igualdade. E é a personagem principal da cinebiografia que, dirigida por Richard Attenborough, foi um dos maiores papa-Oscar da década de 80. Disputando o prêmio máximo com obras como "ET", de Steven Spielberg e "Tootsie", de Sydney Pollack (ambos grandes sucessos de bilheteria), "Gandhi" levou a a estatueta de Melhor Filme e foi premiado em outras sete categorias. Prova tanto do poder de seu gênero - cinebiografias épicas - em fascinar a Academia quanto da beleza e da importância de sua história.

Projeto de estimação do diretor inglês Attenborough (que dez anos mais tarde comandaria o menos bem-sucedido "Chaplin"), a biografia do pacifisita indiano não despertou muito interesse dos estúdios hollywoodianos, o que o obrigou a recorrer a artifícios variados, como vender sua parte dos direitos sobre a peça de teatro "A ratoeira", de Agatha Christie. Além de comprometer-se em dirigir outros dois filmes para o produtor Joseph E. Levine, ele contou com a ajuda do amigo e produtor executivo Jake Eberts e de companhias de cinema inglesas. O custo do filme, de 22 milhões de dólares foi coberto - principalmente depois dos Oscar, quando sua bilheteria chegou perto de 53 milhões. Comparando com "ET", por exemplo, que rendeu mais de 300 milhões não chega a ser uma marca impressionante, mas o é levando-se em consideração vários aspectos de sua natureza.



Primeiro, "Gandhi" não é um filme de puro entretenimento. Apesar de ser tranquilamente recomendável para qualquer idade, uma vez que não abusa de violência desnecessária nem tampouco utiliza de sexo e palavrões para conquistar uma audiência menos intelectualizada, o filme de Attenborough é bastante lento (dura mais de três horas), tem um assunto um bocado específico (e muitas vezes exige um certo conhecimento histórico do público) e foge do tradicional "final edificante e moralizador", uma vez que o filme todo passa uma mensagem de paz e tolerância. "Gandhi" é um filme adulto, feito para adultos e com intenções bem mais nobres do que simplesmente angariar fortunas. E nesse objetivo ele acerta magistralmente.

Tecnicamente "Gandhi" é uma maravilha. Belissimamente fotografado e com uma reconstituição histórica e épica impecáveis, é um trabalho cuidadoso, feito notadamente com um carinho e uma dedicação raras. Narrado de forma quase didática, a trajetória de seu protagonista em direção a uma Índia mais igualitária e menos opressiva tenta seduzir sua audiência pela beleza, pela delicadeza, pela sinceridade, e para isso conta com uma atuação irretocável de Ben Kingsley, ele próprio descendente de indianos. Ao ficar com o papel cobiçado por Alec Guinness, Anthony Hopkins, John Hurt e até mesmo Dustin Hoffman (!!) ele entregou uma interpretação quase mediúnica de Gandhi, um trabalho inesquecível e comovente.

"Gandhi" não é um filme perfeito. Muitas vezes um tanto cansativo - culpa talvez do roteiro que insiste em mostrar prisões e greves de fome de sua personagem central repetidas vezes -, é uma obra que exige de sua plateia uma dedicação e uma entrega maiores do que o que acontece normalmente. Mas é, sem sombra de dúvida, um filme que precisa ser visto e aplaudido, pelo que ele é e principalmente pela personalidade que retrata.

sábado

BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES


BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDROIDES (Blade Runner, 1982, Warner Bros, 117min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples, conto "Do androids dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Gillian L. Hutsching. Música: Vangelis. Figurino: Michael Kaplan, Charles Knode. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Hampton Francher, Brian Kelly. Produção: Michael Deeley. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, M. Emmet Walsh, Joanna Cassidy. Estreia: 25/6/82

2 indicações ao Oscar: Direção de arte, Efeitos Visuais

Definitivamente, quando o assunto é cinema, o tempo é um santo remédio. Quando estreou nos EUA, em 1982, o filme "Blade Runner, o caçador de androides" foi um fiasco de bilheteria (mesmo estrelado pelo Indiana Jones em pessoa Harrison Ford) e praticamente expulso das salas de exibição devido a críticas negativas. Mesmo tornando-se cult por parte do público, entraria para a história como um dos maiores fracassos da história se, no final da década não fosse descoberta a cópia de uma outra versão do filme, sem as interferências do estúdio no trabalho de seu diretor, Ridley Scott. Essa nova versão tornou-se quase uma lenda urbana, e dez anos depois de sua estreia, voltou às telas de cinema e finalmente recebeu os aplausos que sempre mereceu. Hoje já é reconhecido como uma das obras-primas de seu gênero.

Gênero, aliás, é algo não extremamente rígido em se tratando de "Blade Runner". Apesar de ser nitidamente uma ficção científica - com tudo que isso lhe dá de direito - a visão de Scott (vindo direto do sucesso de "Alien, o oitavo passageiro") dialoga diretamente com os filmes noir que fizeram a glória do cinema americano dos anos 40. Tudo devido ao excelente roteiro inspirado livremente no conto "Do androis dream of eletric sheep?", de Philip K. Dick, que mistura elementos de uma trama policial a uma visão distópica da sociedade do futuro. Passado na Los Angeles de 2019 (ao contrário do conto original, que situava sua trama em 1992), "Blade Runner" mostra uma Terra ultrapovoada, úmida e claustrofóbica que há muito já coloniza outros planetas, através de escravos criados com as principais características humanas, mas com sua força e agilidade redobradas. Esses robôs são chamados "replicantes" e um motim deles deflagra uma caçada violenta e impiedosa, uma vez que suas mortes não são chamadas de assassinato e sim de "aposentadoria". Essa rebelião faz com que um grupo de replicantes volte à Terra e um antigo caçador de androides, Deckard (Harrison Ford) seja chamado para eliminá-los. Em seu caminho, ele conhece a bela Rachael (Sean Young), secretária da imponente Tyrrell Corporations - que fabrica os replicantes - e se apaixona por ela, mesmo sabendo que ela não é humana. Ao mesmo tempo que lida com isso, ele chega mais e mais perto do líder da rebelião dos robôs, o temido Roy Batty (Rutger Hauer) e passa a questionar sua missão.


O mais impressionante no resultado final de "Blade Runner" é que, qualquer que seja a versão a ser assistida ele continua sendo magicamente fascinante. A narração em off da versão lançada em 1982, mesmo sendo desprezada por Harrison Ford, acrescenta um toque a mais de noir à trama e só peca por seu final feliz exigido pela Warner. A versão do diretor é mais "artística", com o acréscimo de alguns detalhes que fomentam a discussão crucial do filme: afinal de contas Deckard era ou não um replicante, também? Nenhuma conclusão definitiva pode ser considerada, uma vez que nem mesmo os criadores do filme chegam a um consenso. É preciso ver, rever e examinar com cuidado cada cena criada por Scott e companhia para que se tente chegar a um veredicto. Mas será que isso realmente importa?

"Blade Runner", mais do que um filme sobre um homem caçando androides em um futuro nada auspicioso, é uma bela reflexão sobre os elementos que fazem o ser humano ser "humano", sobre a liberdade, sobre o amor e principalmente sobre a ambição dos homens em brincar de Deus. Ao inserir filosofia em uma trama que normalmente passaria como uma ficção científica com o objetivo de arrecadar fortunas, o inglês Ridley Scott brindou os fãs de cinema com um um filme de uma perenidade inegável. A bela trilha sonora de Vangelis, sua direção de arte high-tec mas nunca exagerada e a fotografia quase palpável de Jordan Cronenweth o elevam acima do corriqueiro. E não deixa de ser saudável perceber que, no mesmo ano em que "ET" - um filme puramente de entretenimento que utilizava elementos de ficção científica para emocionar sem exigir demais do cérebro - foi lançado, tenha chegado às telas um petardo como este, que não apenas faz pensar como ainda não busca a emoção fácil.

"Blade Runner" é, sim, uma obra-prima. Independente da leitura que se faça de suas intenções, é um filme que conseguiu sair do limbo dos fracassos comerciais para o paraíso do reconhecimento tardio. Afinal, nunca é tarde para reconhecer-se erros de julgamento...

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...