quarta-feira

RUAS DE FOGO


RUAS DE FOGO (Streets of fire, 1984, Universal Pictures, 93min) Direção: Walter Hill. Roteiro: Larry Gross, Walter Hill. Fotografia: Andrew Laszlo. Montagem: Jim Coblentz, Freeman A. Davies, Michael Ripps. Música: Ry Cooder. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John Vallone/Richard C. Goddard. Casting: Judith Holstra, Marcia Ross. Produção executiva: Gene Levy. Produção: Lawrence Gordon, Joel Silver. Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan, Rick Rossovich, Bill Paxton, Mykelty Williamson, Ed Begley Jr. Estreia: 01/6/84

Algumas ideias dos estúdios hollywoodianos acabam se espatifando no caminho de tornarem-se mais do que ideias. Um desses insights que nunca passaram de projetos era o de uma trilogia de ação noir protagonizado por Michael Paré na pele do mercenário cool Tom Cody, o herói de "Ruas de fogo". O fracasso retumbante do filme inicial da trilogia, dirigido por Walter Hill, jogou a possibilidade em uma gaveta dos engravatados do estúdio, onde permanece até hoje, mesmo depois do filme ter-se tornado, com o tempo, uma espécie de cult-movie.

Passado em um lugar e uma época não identificados pelo roteiro, "Ruas de fogo" - título tirado de um verso de Bruce Springsteen - começa com o sequestro da estrela do rock Ellen Aim (uma jovem Diane Lane dublada vergonhosamente nas cenas musicais) por um grupo de motoqueiros vândalos e violentos, liderados por Raven Shaddock (Willem Dafoe). Para resgatá-la, seu empresário e atual namorado, Billy Fish (Rick Moranis) contrata o atraente e cínico Tom Cody (Michael Paré), sem saber que ele e a cantora tiveram um apaixonado caso romântico que acabou quando o rapaz foi pra guerra. Acompanhado da durona McCoy (Amy Madigan), Cody invade a vizinhança barra-pesada de Raven, dando início a uma guerra sem tréguas.

Batizado com o subtítulo de "Uma fábula do rock'n'roll", "Ruas de fogo" não agradou o público à época de seu lançamento, apesar de ter várias semelhanças temáticas e visuais com um sucesso anterior do diretor Walter Hill, "Warriors, os selvagens da noite". Deixando de lado o humor que foi o diferencial em sua maior bilheteria, "48 horas", estrelado pelo então ascendente Eddie Murphy, Hill ficou em um constrangedor meio do caminho. O roteiro de "Ruas" não se aprofunda em desenvolvimento de personagens, não tem senso de humor e nem ao menos apresenta cenas de ação antológicas. Por que então ainda permanece firme e forte no imaginário de uma boa parte da geração que assistia a filmes nos anos 80?


Basicamente, o charme maior de "Ruas de fogo" reside em sua vibrante trilha sonora, composta por Ry Cooder depois que três versões de James Horner foram descartadas pelo diretor. Não apenas pontuando a ação - em um roteiro fraquinho e sem grandes qualidades -, a música é parte integrante e fundamental na história de amor entre Cody e Ellen Aim. Canções como "Tonight is what means to be young" e "Nowhere fast" tornaram-se clássicas e são o maior destaque do filme, sobrevivendo na memória da audiência mais do que os diálogos clichê e as personagens mal delineadas do roteiro, co-escrito por Walter Hill e Larry Gross. Não é à toa que sempre que as músicas são o centro da atenção no filme, ele cresce e torna-se mais orgânico.

"Ruas de fogo" faz parte daquele rol de filmes que eram reprisados volta e meia nas tardes globais na segunda metade da década de 80 e como tal se mantém como uma espécie de relíquia quase sentimental, ainda que seja bastante fraco em termos artísticos. Tom Cody não vingou, assim como a carreira de Michael Paré. Mas ele sempre será lembrado por quem tem trinta e poucos anos..

terça-feira

INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO


INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO (Indiana Jones and the temple of doom, 1984, Paramount Pictures, 118min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz, história de George Lucas. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Elliot Scott/Peter Howitt. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff, Mary Selway Buckley. Produção executiva: George Lucas, Frank Marshall. Produção: Robert Watts. Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Jonathan Ke Quan, Amrish Puri. Estreia: 23/5/84

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


Depois do monumental sucesso de bilheteria de “Caçadores da Arca Perdida” só mesmo uma pessoa extremamente fosse pouco afeito a dar continuidade a suas obras (é bom lembrar que isso foi antes de "Jurassic Park"...) Mas como o personagem central do filme, o arqueólogo Indiana Jones se prestava a novas aventuras por que não utilizá-lo em mais um espetacular passeio de montanha-russa? A partir desse raciocínio bastante esperto surgiu "Indiana Jones e o templo da perdição", que utilizava inclusive ideias deixadas de lado no filme original.

A nova aventura de Jones se passa antes da primeira e como o filme original, começa com uma cena sem ligação direta com a história que vem adiante. A seqüência inicial se passa na Shangai de 1939, onde Spielberg brinca de dirigir um musical e apresenta a personagem feminina da vez, Wllie Scott, vivida por Kate Capshaw, que será não apenas o interesse romântico do herói mas também a responsável pelo alívio cômico de uma obra, que, ao contrário do primeiro filme, tem cenas bastante violentas e tensas, o que acabou prejudicando seu desempenho nas bilheterias, afinal crianças também vão aos cinemas, certo?

E são crianças o centro da trama, dessa vez. Indo parar em um vilarejo indiano graças um de seus vários desafetos, Indiana Jones acaba sendo confundido como um enviado de Deus para recuperar as crianças do local, aprisionadas em um templo, hipnotizadas e maltratadas por um assustador seguidor de uma seita que exige sacrifícios humanos. Acompanhado de Willie e de seu fiel seguidor, o pequeno Short Round (Ke Huy Quan), Jones entra em cena disposto a ajudar no que for preciso e presenteia a platéia com algumas das melhores seqüências que o cinema de entretenimento pode proporcionar. Enquanto “Caçadores da Arca Perdida” tinha um ar mais despretensioso e alma de matiné, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” pega pesado em cenas assustadoras e de uma tensão palpável. Felizmente os momentos de humor são suficientes para aliviar e não tornar uma diversão familiar em um filme de horror.


Criticado por seu tom sombrio, "O templo da perdição" não tem medo em mostrar uma violência que em "Caçadores" era apenas imaginada e mostrada de forma escapista e com censura livre. Aqui, o vilão arranca o coração das vítimas com as próprias mãos, crianças são chicoteadas impiedosamente e todos os perigos que os protagonistas encaram soam realmente arriscados. A fantasia divertida é substituída por uma tensão constante e o que isso acrescenta em qualidade tira em alcance. O próprio Spielberg não gosta muito do resultado final de "Perdição", preferindo lembrar dele como o responsável por seu contato com Kate Capshaw, com quem viria a se casar tempos depois. Capshaw, inclusive, é a responsável por proporcionar o alívio cômico através do qual o público respira entre cenas extremamente empolgantes para os fãs dos filmes de ação.

"Indiana Jones e o templo da perdição" não é tão delicioso de se assistir quanto "Os caçadores da arca perdida" - até mesmo sua fotografia acompanha a escuridão que permeia o roteiro. Mas surpreende pela ousadia em não se deixar levar pela mesmice e não fica nada a dever ao primeiro em termos técnicos. Digamos que é o irmão mais sério de "Os caçadores"...

segunda-feira

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.


Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.

domingo

BROADWAY DANNY ROSE


BROADWAY DANNY ROSE (Broadway Danny Rose, 1984, Orion Pictures, 84 min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Nick Apollo Forte. Estreia: 27/01/84

2 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original

Depois de ser extremamente elogiado com "Zelig", um dos melhores filmes de sua carreira, Woody Allen resolveu que queria fazer uma comédia italiana ao estilo dos anos 50. Contando com o apoio de seu habitual diretor de fotografia Gordon Willis - que compreendeu exatamente o sentido da coisa toda, em termos pictórios - ele realizou então "Broadway Danny Rose", um feliz encontro entre a latinidade passional dos "carcamanos" com a intelectualidade sarcástica dos nova-iorquinos típicos.

Danny Rose (interpretado por Allen com a costumeira eficácia) é um agente de talentos cujos clientes estão longe de ser superstars: um escultor de balões, um hipnotizador ineficiente e um maestro de passarinhos estão em seu rol de contratados. Sua maior dedicação, no entanto, é ao cantor Lou Canova (Nick Apollo Forte), que teve seu momento de glória no passado e deseja voltar aos holofotes. Justamente na noite em que irá fazer uma apresentação que poderá devolver-lhe ao sucesso, Lou tem uma briga homérica com sua amante, a egoísta Tina Vitale (Mia Farrow) e exige que Danny a convença a assistir ao show, mesmo sabendo que sua mulher estará presente. Na tentativa de convencer a irredutível Tina, o agente acaba sendo confundido como seu amante pela vingativa família italiana de um apaixonado pela moça. Perseguido por gângsters e tentando arrastar a amante de seu agenciado para seu show, ele nem de longe desconfia que está sendo traído por ele, que, por intermédio de Tina, tenciona trocá-lo por um agente mais bem-relacionado.



Apesar de não ser um dos mais brilhantes trabalhos de Woody Allen, "Broadway Danny Rose" seduz por seu humor inteligente e pela imprevisibilidade de seu roteiro. Ao contar duas histórias paralelas - sua aventura com Tina e a traição de Lou - o cineasta/roteirista mistura gêneros com uma familiaridade invejável. Ainda que nem sempre funcione à perfeição - as cenas de ação soam um tanto forçadas - o desenvolvimento da história contada por ele (através da narração de um grupo de agentes que conheceu o protagonista) é suficientemente interessante para não deixar a peteca cair em momento algum - e para isso colabora muito a química perfeita entre ele e Mia Farrow.

Assim como acontecia com Diane Keaton em seus filmes anteriores, Allen encontrou em Farrow a musa perfeita de sua obra. Na pele de Tina Vitale, a atriz entrega um trabalho de composição que foge do seu padrão de atuação até então. Espalhafatosa, vulgar e sem um pingo de classe, sua Tina é uma espécie de mãe da Linda Ash que Mira Sorvino defendeu em "Poderosa Afrodite", dez anos mais tarde. Munida de um indefectível par de óculos escuros e um penteado exagerado, Farrow brilha como nunca e eleva a qualidade do filme, assim como Allen e um surpreendente Nick Apollo Forte - em um papel para o qual o cineasta pensou em Sylvester Stallone.

Dentre tantas obras-primas criadas por Woody Allen, "Broadway Danny Rose" quase se perde. Mas não deixa de ser admirável perceber que mesmo em seus filmes menos brilhantes ele consegue manter um nível de excelência com que a maioria dos cineastas apenas sonha

sábado

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.


Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

quinta-feira

ZELIG



ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.


Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...