sábado

VELUDO AZUL


VELUDO AZUL (Blue velvet, 1986, De Laurentiis Entertainment Group, 120min) Direção e roteiro: David Lynch. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Duwayne Dunham. Música: Angelo Badalamenti. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Edward 'Tantar' LeViseur. Casting: Pat Golden, Johanna Ray. Produção executiva: Richard Roth. Produção: Fred Caruso. Elenco: Isabella Rosselini, Kyle MacLachlan, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, Hope Lange, Brad Dourif. Estreia: 19/9/86

Indicado ao Oscar de Diretor (David Lynch)

O “american way of life”, tão louvado em filmes de diretores como Frank Capra sofreu um duro golpe, pelo menos da maneira como estamos acostumados a vê-lo, em 1986. E quem fez a plateia perceber que por trás de cada cerca branca dos subúrbios americanos pode-se esconder muito mais do que podemos imaginar foi um diretor que concorreu ao Oscar por um filme em preto-e-branco chamado “O homem elefante” e que, ao contrário do que se poderia supor, não se deixou levar pelo mainstream. Em “Veludo azul” David Lynch fez um filme sobre aparências. E parece que sua intenção era apenas desmascará-las.

O jogo de aparências de “Veludo azul” já começa em sua estrutura. Aparentemente, é um filme noir, com mocinhos honestos, vilões crudelíssimos e mulheres fatais. Na verdade, é bem mais complexo em termos de certo e errado do que supõe a vã filosofia do espectador acostumado a maniqueísmos típicos do gênero. O herói da história, Jeffrey Beaumont (vivido por Kyle MacLachlan) é um jovem que chega a cidade onde vive sua família para visitar seu pai, vítima de um enfarte. Por mais bizarro que possa parecer (e bizarro é uma palavra que pode definir “Veludo azul” como um todo), Jeffrey encontra em um terreno baldio uma orelha humana. Essa orelha o levará, com a ajuda de Sandy (Laura Dern), a filha do chefe de polícia do local, até a cantora Dorothy Vallens (a bela Isabella Rossellini, gélida e enlouquecida como convém), cujo relacionamento doentio com o misterioso Frank (Dennis Hopper, em um dos mais assustadores vilões da década de 80) ultrapassa todos os limites da normalidade.

À primeira vista, Jeffrey é o herói do filme. Mas, ao contrário do que normalmente se espera em filmes assim, ele não é exatamente um santo. Enquanto inicia um tímido romance com Sandy, ele também fica fascinado pela beleza misteriosa de Dorothy e por seus traumas psicológicos que a levam a exigir violência durante o ato sexual. E Dorothy, aparentemente uma dama fatal, não deixa de ser a principal vítima de uma rede de obsessões, perversidades e medo.

Em uma cena do filme, Jeffrey diz que o mundo é estranho. Tudo bem, de certa forma ele está certo. Mas é inegável que um mundo dirigido por David Lynch (que recebeu nova indicação ao Oscar por este filme) é ainda mais estranho. Afinal, em que mundo considerado normal alguém (mesmo que seja um exageradamente maquiado Dean Stockwell) começa, do nada a dublar Roy Orbison e um maníaco seja tarado por um pedaço de veludo azul? O mundo de David Lynch é muito estranho... e nós gostamos dele!

sexta-feira

CONTA COMIGO


CONTA COMIGO (Stand by me, 1986, Columbia Pictures, 89min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Raynold Gideon, Bruce A. Evans, conto "The body", de Stephen King. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Robert Leighton. Música: Jack Nietzsche. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Richard D. Kent. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção: Bruce A. Evans, Raynold Gideon, Andrew Scheinman. Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Jerry O'Connell, Kiefer Sutherland, John Cusack, Richard Dreyfuss. Estreia: 08/8/86

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

O nome do escritor Stephen King nos créditos de “Conta comigo” não deixa de ser enganador. Ao ver seu nome atrelado a produções de terror normalmente bem abaixo da média, King nunca deixou que seus trabalhos em outros gêneros viessem à tona. Baseado em um conto chamado “The body”, o filme de Rob Reiner sobre a perda da inocência é quase uma pequena obra-prima de sensibilidade e melancolia.

Passado no início dos anos 60, quando os EUA ainda não haviam passado pelos traumas da guerra do Vietnã e do assassinato de Kennedy, o filme conta a aventura de quatro amigos em vias de passar da infância para a pré-adolescência, quase como o país.
Ao embarcar em uma viagem em busca do corpo de um jovem morto por um trem, os amigos embarcam também em uma jornada de auto-conhecimento, em que o objetivo passa ser menos importante do que o caminho.

O criativo Gordie (Will Wheaton) não consegue provar aos pais seu talento, sempre sufocado pela lembrança do irmão mais velho morto tragicamente (vivido em flashback por um jovem John Cusack). O rebelde Chris Chambers (River Phoenix, em uma atuação delicada e inesquecível) também vive à sombra do irmão, mas pelos motivos opostos, uma vez que ele não é exatamente um motivo de orgulho. O traumatizado Teddy (Corey Feldman) sofre de maus-tratos domésticos cometidos por seu pai, veterano da Guerra da Coréia e o gordinho Vern (Jerry O’Connell) tem em sua forma física motivos suficientes para considerar-se à margem. Juntos, os quatro partem em busca de fama e glória ao encontrarem o cadáver de um conterrâneo. Em seu encalço está uma gangue de transviados liderados por Ace Merrill (Kiefer Sutherland iniciando uma carreira de vilões).

Como já foi dito antes, a viagem dos amigos é mais importante que seu destino. Enquanto conversam sobre suas vidas, fogem de cães raivosos e trem desatinados e revelam seus segredos, Gordie e seus companheiros constroem uma amizade forte e perene, mesmo que sem maiores ambições de seguir com ela no final dos seus dias de aventura. O tom melancólico da obra de King atinge um nível emocionante graças ao roteiro indicado ao Oscar, à trilha nostálgica (em especial a bela canção que dá título ao filme) e ao inspirado elenco jovem. E pensar que River Phoenix morreu menos de dez anos depois deixa o ar menos respirável ainda quando o escritor vivido por Richard Dreyfuss, em participação especial termina de contar sua bela e triste história.

quinta-feira

ALIENS, O RESGATE


ALIENS, O RESGATE (Aliens, 1986, 20th Century Fox, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, história de James Cameron, David Giler e Walter Hill, personagens criados por Dan O'Bannon e Ronald Shusett. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Emma Porteous. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Crispian Sallis. Produção executiva: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill. Produção: Gale Anne Hurd. Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Lance Henriksen, Paul Reiser, Bill Paxton, William Hoppe. Estreia: 18/7/86

7 indicações ao Oscar: Atriz (Sigourney Weaver), Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais


Em 1979, o filme "Alien, o oitavo passageiro" empolgou plateias do mundo inteiro ao misturar com equilíbrio perfeito elementos de ficção científica com ingredientes de filmes de terror. O resultado foi uma bilheteria espantosa, sucesso de crítica e um inevitável segundo capítulo. Dirigida por James Cameron - vindo do grande êxito de "O exterminador do futuro" - , a continuação do filme de Ridley Scott abandonou a sensação claustrofóbica do original, substituindo-a pelas melhores cenas de ação que o dinheiro poderia comprar. Perdeu em tensão, mas ganhou em adrenalina. Os fãs do gênero formaram filas enormes, profundamente satisfeitos.

A trama desse segundo filme se passa cerca de 50 anos depois dos acontecimentos que levaram a Tenente Ripley (Sigourney Weaver) a testemunhar a aniquilação de seus companheiros de tripulação por um alienígena truculento e aparentemente invencível. Encontrada por uma nave de resgate, logo ela fica sabendo que o planeta que originou o monstro está colonizada pela Terra e, quando todo e qualquer contato com os humanos que o habitam é perdido, ela é enviada para descobrir o que aconteceu e, se for necessário, exterminar os algozes dos colonizadores.


Tudo em "Aliens, o resgate", é grande. A duração (mais de duas horas), os efeitos visuais, a violência. Navegando tranquilamente em sua tradicional mania de grandeza, Cameron oferece ao espectador um verdadeiro espetáculo de entretenimento. Seguindo a linha oposta ao trabalho de Ridley Scott - que optou pela sugestão em detrimento do explícito - o futuro vencedor do Oscar por "Titanic" não tem medo de orquestrar sequências de ação eletrizantes e de apavorar o público com criaturas asquerosas em número suficiente para justificar o Oscar de efeitos visuais que acabou conquistando. E além de tudo ainda encontra tempo para sentimentalismos, ao criar uma personagem que dá a Ripley um lado humano que lhe cai muito bem: uma menina órfã que vê na protagonista a figura materna que necessita para manter-se viva e amada.

É fato notável que a relação entre Ripley e sua pequena "filha" dá um gás novo e uma nuance inesperada que permite a "Aliens, o resgate" fugir da maldição das continuações. Humanizar Ripley foi um golpe de mestre de Cameron, que a aproxima mais da plateia antes de fazê-la barbarizar seus antagonistas, além, é claro, de permitir a Sigourney Weaver maiores vôos dramáticos de atuação - não à toa, ela foi surpreendentemente indicada ao Oscar por seu trabalho em um gênero que normalmente não é muito afeito a dramas pessoais.

"Aliens, o resgate" é o mais bem-sucedido comercialmente da série lançada em 1979, mas fica aquém do original no quesito suspense. É um extraordinário filme de ação, realizado com uma competência assustadora e talentos criativos inegáveis, que deixaria o mundo com água na boca, esperando um terceiro capítulo que, lançado em 1992, decepcionou público e crítica mesmo voltando às origens claustrofóbicas de sua origem.

quarta-feira

CURTINDO A VIDA ADOIDADO


CURTINDO A VIDA ADOIDADO (Ferris Bueller's day off, 1986, Paramount Pictures, 103min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Paul Hirsch. Música: Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Casting: Janet Hirshensen, Jane Jenkins. Produção executiva: Michael Chinich. Produção: John Hughes, Tom Jacobson. Elenco: Matthew Broderick, Mia Sara, Alan Ruck, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward. Estreia: 11/6/86

Só mesmo a pessoa mais azeda da face da Terra, que nunca sonhou em matar um dia de aula para divertir-se com os amigos pode não gostar de "Curtindo a vida adoidado", uma hilariante comédia do mestre para filmes para adolescentes dos anos 80, John Hughes. Reprisada à exaustão na televisão, ainda assim é um dos filmes mais queridos daqueles que curtiram a década mais cafona da história através do cinema e da TV. Não é à toa que todos que o assistiram sempre terminam o diálogo com "toda vez que passa na televisão eu assisto...)

Para quem não sabe, o filme conta a história de Ferris Bueller (Matthew Broderick, no papel de sua vida), um adolescente comum, mas extremamente carismático, que resolve tirar um dia de folga da escola para aproveitar o sol ao lado do melhor amigo, o angustiado Cameron (Alan Ruck) e da namorada, a bela Sloane (Mia Sara). Para isso, ele finge uma doença, para desespero de sua irmã Jeanie (Jennifer Grey), que o conhece muito bem e sabe da verdade. Nada seria muito grave se Ferris não estivesse pendurado em número de faltas e não passasse a sofrer a perseguição implacável do diretor de alunos da escola, o atrapalhado Ed Rooney (Jeffrey Jones), disposto a tudo para não deixar um aluno lhe enganar.


Com essa história simples, Hughes ganhou a simpatia de milhões de espectadores. Com um humor genial e ingênuo, personagens de extrema empatia e uma edição competente, o filme diverte sem maiores pretensões, o que faz dele um programa perfeito para quem deseja apenas um bom par de horas de bom-humor. Para quem duvida, faça o teste de tentar ficar incólume à cena (já clássica) em que Ferris Bueller sobe em um carro na parada de Chicago para dublar “Twist and shout”, dos Beatles. Tarefa das mais inglórias, uma vez que é impossível não ficar com um sorriso bobo na cara...

O personagem de Ferris Bueller - que desperta em todos os espectadores um lado irresponsável e irreverente - caiu como uma luva em Broderick, ótimo ator, mas que no entanto, até hoje é um escravo do seu sucesso como adolescente. Sua simpatia, seu carisma e seu sorriso cativante fazem com que Ferris Bueller seja o ídolo perfeito de todos aqueles que querem curtir a vida adoidado, mesmo que por uma tarde apenas. Uma obra-prima incontestável!

terça-feira

9 1/2 SEMANAS DE AMOR


9 1/2 SEMANAS DE AMOR (9 1/2 weeks, 1986, MGM Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Sarah Kernochan, Zalman King, Patricia Louisianna Knop, romance de Elizabeth McNeill. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Caroline Biggerstaff, Ed Hansen, Tom Rolf, Mark Winitsky. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Ken Davis/Christian Kelly. Casting: Nan Dutton, Vicki Huff, Mary Jo Slater, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Keith Barish, Frank Konigsberg. Produção: Mark Damon, Sidney Kimmel, Zalman King, Antony Rufus-Isaacs. Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski, Karen Young. Estreia: 21/02/86

Adrian Lyne é um cineasta que, a julgar por seus filmes, dispensa um bom roteiro se puder contar com um visual interessante. Exemplo disso é "9 1/2 semanas de amor", um dos filmes ícones dos anos 80, que foi um fracasso de bilheteria nos EUA, mas virou cult no resto do mundo, deflagrando o que convencionou-se chamar de “estética de videoclip”, da qual também fazem parte produtos como “Top Gun, ases indomáveis” e “Flashdance, em ritmo de embalo”, este último sintomaticamente comandado pelo mesmo Adrian Lyne.

Na verdade, o fracasso comercial do filme justifica-se plenamente pela fragilidade do roteiro, inspirado em um livro desconhecido de Elizabeth McNeill, que parte de uma premissa quase inacreditável e segue sem rumo certo por duas horas de projeção. Se não vejamos: a bela e sexy Elizabeth (homônima da autora do livro, o que de certa forma sugere um alter-ego mal disfarçado) trabalha numa galeria de arte – uma profissão “cool” - e, tirando seu ex-marido, que ela deselegantemente passa para uma colega, tem uma vida sexual bem pobrezinha. Um dia ela encontra na rua com o misterioso e charmoso John (Mickey Rourke, ainda em forma e em vias de transformar-se em promessa de astro). Depois de relutar um pouco – bem pouco, na verdade – ela acaba entregando-se em uma relação baseada em puro sexo e submissão. Aos poucos, no entanto, ela começa a temer por sua segurança física e emocional, uma vez que seu amante não lhe dá nenhum tipo de segurança fora dos domínios sexuais.


E a história resume-se a isso. Entre as – justiça seja feita – extremamente bem fotografadas e excitantes cenas de sexo, o casal não parece, em momento algum, personagens de um filme romântico e sim de um pornô light e com ambições à clássico. Kim Basinger, que não está particularmente bonita e Mickey Rourke têm uma química invejável, apesar dos boatos de que não se suportaram durante as filmagens - o ator preferia Isabella Rosselini para o papel e nunca fez questão de esconder a preferência. Também não ajudou em nada o fato de Lyne proibir os dois de se falaram fora dos sets de filmagem - se bem que, a julgar pela declaração de Basinger de que beijar Rourke causava a mesma sensação de levar um cinzeiro aos lábios nem mesmo os dois atores faziam questão de um relacionamento social...

Mas a definição de que é um filme que analisa os limites da sexualidade da mulher é balela. Nem adiantou Lyne tentar profundidades subliminares como vestir Elizabeth de roupas escuras quando encontra John, em oposição a suas roupas claras nas outras cenas. O que fica depois de uma sessão de “9 ½ semanas de amor” são as lembranças de sua adequada trilha sonora e de duas ou três cenas quentes e bem coreografadas. Não é muito para um filme que fez a cabeça de muitos casais de sua época. Mas provavelmente os fãs não estão nem aí pra isso...

segunda-feira

HANNAH E SUAS IRMÃS


HANNAH E SUAS IRMÃS (Hannah and her sisters, 1986, Orion Pictures, 103min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/Cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Max Von Sydow, Maureen O'Sullivan, Julia Louis-Dreyfus, Carrie Fisher, J.T. Walsh, John Turturro. Estreia: 07/02/86

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original, Montagem, Direção de arte/cenários
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Michael Caine), Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Comédia/Musical


Um ano depois do emocionante “A rosa púrpura do Cairo”, o cineasta Woody Allen volta às origens com “Hannah e suas irmãs”, onde apresenta seus tradicionais elementos de estilo em um filme que pode tranqüilamente constar na lista de seus melhores trabalhos. Ao misturar com equilíbrio invejável o drama e a comédia fina, Allen criou um espetáculo adulto e verdadeiro, sem os apelos emocionais e fantasiosos de seu excelente trabalho anterior.

Mia Farrow novamente é a protagonista, se é que pode-se dizer que existe um protagonista. Hannah é uma atriz que está de volta aos palcos depois de um retiro opcional. Dedicada à família, ela nem sequer percebe que seu marido, Elliot (um Michael Caine exemplar, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) está caindo de amores por sua irmã caçula, a perdida Lee (Barbara Hershey), que vive com um artista plástico mais velho e isolado (Max Von Sydow). Enquanto Elliot e Lee vivem seu hesitante caso extra-conjugal, Hannah tem que lidar também com a falta de rumo profissional de sua irmã do meio (Dianne Wiest, impecável e premiada com o Oscar de atriz coadjuvante) e a busca de seu ex-marido (o próprio Allen), que, ao julgar-se fatalmente doente, parte em busca de uma nova religião que lhe dê as respostas que ele procura.


"Hannah e suas irmãs" é um filme delicioso, um drama leve que usa e abusa de seu elenco formidável e da veia cômico/dramática de Allen, em um momento inspiradíssimo de sua carreira. Ao optar por ser um coadjuvante e abrir espaço para um trio de atrizes espetaculares, ele mostra sua generosidade e talento em criar personagens complexas e verossímeis, além de nunca abandonar a ironia característica de seus melhores trabalhos. E a química invejável entre Mia Farrow (dona do apartamento de Hannah na vida real), Barbara Hershey (em papel oferecido a Brooke Shields) e Dianne Wiest transforma a experiência de assistir ao filme em uma delícia.

Sem buscar alcançar objetivos maiores do que um bom par de horas com diálogos inteligentes e personagens bem delineados, Allen mostra mais uma vez sua força em escrever roteiros. Não à toa, ele também levou seu Oscar na categoria, o que prova que filmes adultos, bem escritos e dirigidos também têm seu lugar garantido entre os fãs de cinema. E uma prova da qualidade de seu roteiro é o fato do mesmo ter sido considerado para um Pulitzer, o que nunca aconteceu com scripts cinematográficos até hoje. Prestígio merecido!

domingo

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.


As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...