domingo

AS BRUXAS DE EASTWICK


AS BRUXAS DE EASTWICK (The witches of Eastwick, 1987, Warner Bros, 118min) Direção: George Miller. Roteiro: Michael Cristofer, romance de John Updike. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Hubert C. De La Bouillerie, Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Mark Mansbridge. Casting: Wally Nicita. Produção executiva: Rob Cohen, Don Devlin. Produção: Neil Canton, Peter Guber, Jon Peters. Elenco: Jack Nicholson, Cher, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer, Richard Jenkins, Veronica Cartwright. Estreia: 12/6/87

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora, Som

Quem diria que o diretor de um filme tão classudo quanto “As bruxas de Eastwick”, que usa até ópera em sua trilha sonora e é baseado em um livro do famoso e conceituado John Updike é o mesmo casca-grossa responsável por “Mad Max”? Mas o fato é que George Miller, o cineasta australiano que lançou Mel Gibson ao estrelato é realmente quem assina essa divertida produção, que mistura romance, comédia e terror em medidas exatas, ajudado por um elenco de sonhos e uma produção de primeira linha. Não foi o êxito impressionante que deveria, mas entretém como poucos.

A pequena cidade de Eastwick é um tédio só. Nada acontece em seus dias monótonos e sempre iguais. Os únicos momentos divertidos nas vidas das amigas Sukie (Michelle Pfeifffer), Alexandra (Cher) e Jane (Susan Sarandon) são aqueles em que elas saem de suas vidinhas medíocres para rir, encher a cara, fofocar e sonhar com o homem perfeito. Um belo dia, a cidade é sacudida com a chegada do milionário Daryl Van Horne (Jack Nicholson). Misterioso e recluso, logo o novo habitante vira objeto de curiosidade entre as três amigas, apesar dos histéricos avisos de uma religiosa local (Verônica Cartwright), que pressente o mal vindo da mansão comprada pelo visitante.

Uma a uma as amigas acabam sendo seduzidas por Van Horne. Alexandra, uma escultora viúva é a primeira a cair na sua nada sutil rede de sedução. A tímida e retraída professora de violino Jane descobre sua sexualidade reprimida depois de um encontro musical bastante atípico. E a fértil Sukie, uma jornalista mãe de seis filhos pequenos, também se deixa levar pelo ar cavalheiro de Van Horne. Os quatro formam então uma bela família, até que Van Horne começa a mostrar que, por trás de seus modos gentis se esconde o próprio demônio. As três começam então a pensar em uma maneira de livrar a cidade e suas vidas do seu tão sonhado homem perfeito.


É difícil classificar “As bruxas de Eastwick”. Ora uma comédia de costumes defendida por um elenco impecável, ora um filme de terror quase escatológico, com cenas de vômitos de cerejas, a obra de Miller pode-se no entanto ser facilmente identificada como uma das mais inteligentes de sua época. Ao levar a guerra dos sexos ao seu limite máximo, o roteiro brinca de misturar gêneros, proporcionando ao público uma experiência bem mais rica e desconcertante do que o normalmente oferecido em uma época em que as fórmulas estão mais desgastadas do que nunca. E colocar Jack Nicholson como o diabo em pessoa não atrapalha em nada.

Além disso, não se pode deixar de mencionar o excepcional elenco feminino escalado pelo cineasta: donas de sensualidades e belezas diferentes entre si, Cher (que abocanharia o Oscar no mesmo ano de "Bruxas" por "Feitiço da lua"), Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer enfeitam o filme com suas presenças luminosas, encantando tanto Van Horne quanto a plateia. Apesar do roteiro repleto de diálogos iluminados e da direção inspirada de George Miller, é o elenco que faz toda a diferença em "As bruxas de Eastwick"...

sexta-feira

OS INTOCÁVEIS


OS INTOCÁVEIS (The untouchables, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Mamet, inspirado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: William A. Elliott/Hal Gausman. Casting: Mali Finn. Produção: Art Linson. Elenco: Kevin Costner, Robert DeNiro, Sean Connery, Andy Garcia, Charles Martin Smith, Billy Drago, Patricia Clarkson, Richard Bradford. Estreia: 03/6/87

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Sean Connery), Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Sean Connery)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sean Connery)


Quatro anos depois do violento “Scarface”, Brian de Palma voltou a lidar com o tema do gangsterismo, dessa vez contando uma história mezzo verdadeira mezzo ficção. Baseado na extinta série de TV dos anos 60, “Os intocáveis” é diversão de primeira grandeza e ainda provou uma expressiva maturidade de seu diretor.

Sem deixar muito espaço para tramas paralelas, o que enfraqueceu “Scarface”, o roteiro do dramaturgo David Mamet parte logo pro assunto, mostrando a que veio: na Chicago dos anos 20, em pleno vigor da Lei Seca, o chefão do crime organizado, Al Capone (em mais uma caracterização impecável de Robert De Niro) manda e desmanda na cidade, utilizando de violência sempre que lhe é conveniente. Para tentar acabar com seus desmandos, surge Eliott Ness (um Kevin Costner jovial e promissor), que, como bom chefe de família incorruptível e honesto, resolve formar uma brigada em prol de sua prisão. Para isso une-se ao veterano policial Jim Malone (Sean Connery), o ambicioso George Stone(Andy Garcia) e o contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith), que é quem tem a ideia mais eficaz contra o criminoso: processá-lo por sonegação do imposto de renda.


A luta travada entre Capone – capaz de comprar um corpo de jurados inteiro – e Ness e seus asseclas, os “intocáveis” do título faz do filme de De Palma o que ele é: um impactante e empolgante filme de gângster, com lados bem divididos e claros, com mocinhos de um lado e bandidos de outro. Com uma edição enxuta e ágil e uma reconstituição de época brilhante, além de uma das mais marcantes trilhas sonoras de Enio Morricone, “Os intocáveis” consegue o que parecia impossível: superar sua origem, desatacando seu quase maniqueísmo e louvando-o como uma qualidade. Em tempos cínicos nada como um pouco de nostalgia, é o que parece gritar cada fotograma de Stephen H. Burum. Sequências de uma beleza plástica inegáveis caminham lado a lado com uma violência muitas vezes inesperadas.

E nostalgia é o que não falta a “Os intocáveis”, uma vez que De Palma consegue arrumar espaço inclusive para uma bela e justa homenagem a uma das seqüências mais memoráveis da história do cinema. Praticamente copiando quadro a quadro a cena da escadaria de Odessa do alemão “Outubro”, de Serguei Eisenstein, o cineasta criou um dos mais tensos e exemplares momentos do cinema de ação dos últimos anos, que deixa a platéia com a respiração suspensa por alguns dos minutos mais recompensadores das suas duas horas de projeção.

E se Kevin Costner é o herói e Robert De Niro o vilão não pode-se deixar de notar o elenco coadjuvante. O cubano Andy Garcia parece sempre prestes a roubar as cenas de que participa e o baixinho Charles Martin Smith dá o tom cômico sem exageros. Mas foi Sean Connery, o eterno James Bond quem mais chamou a atenção da crítica. Deixando para trás a maldição de um único papel, ele chegou a levar o Oscar de coadjuvante por seu trabalho em um papel feito sob medida: na pele do policial irlandês Malone, Connery injeta humanidade e experiência a um projeto elegante e adulto. Um filme como poucos!

quinta-feira

CORAÇÃO SATÂNICO


CORAÇÃO SATÂNICO (Angel heart, 1987, TriStar Pictures, 113min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, romance "Falling angel", de William Hjorstberg. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Trevor Jones. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Robert J. Franco, Leslie Pope. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Elliott Kastner, Alan Marshall. Elenco: Mickey Rourke, Robert DeNiro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling. Estreia: 06/3/87

Uma das experiências mais apavorantes do cinema dos anos 80, “Coração satânico” não é apenas um filme de terror. Filmes de terror assustam (ou não) e quando acabam são facilmente esquecíveis. Esta obra-prima do inglês Alan Parker não dá um único susto em suas mais de duas horas de duração, mas em compensação angustia, incomoda, e o que talvez seja mais importante: fica na memória por um bom tempo.

Baseado em um romance pouco conhecido de William Hjorstberg, “Coração satânico” já começa bem pela atmosfera lúgubre e escura, que perpassa todo o filme. Passada nos anos 50, a trama gira em torno de Harry Angel (Mickey Rourke, ótimo), um detetive particular que recebe a incumbência de encontrar Johnny Favorite, um músico de jazz que deve favores a seu empregador, o misterioso Louis Cypher (Robert De Niro, apavorante). Seguindo a pista de Favorite, Angel vai parar em New Orleans, onde se depara com rituais de vudu e magia negra e se envolve com a dúbia Evangeline Proudfoot (Lisa Bonet), que aparenta saber bem mais do que quer revelar. Enquanto vai se enredando cada vez mais nas investigações, o detetive acaba sendo o suspeito de inúmeros crimes que acontecem sempre que ele está por perto. Para salvar a própria pele, ele vai mais a fundo no caso e acaba descobrindo uma verdade aterradora sobre seu cliente e sobre si mesmo.


É difícil dizer o que é mais acertado em “Coração satânico”. O roteiro, escrito pelo próprio Alan Parker é intrincado e assustador na medida certa, entregando aos poucos a verdade sobre seus personagens, defendidos por atores em plena forma. Se Robert De Niro não precisa provar nada a ninguém, é Mickey Rourke quem se destaca, na atuação de sua vida - um papel oferecido a Jack Nicholson, Al Pacino e ao próprio DeNiro. O tom sombrio da fotografia devidamente úmida e escura de Michael Seresin combina à perfeição com a música perfeita de Quincy Jones, que buscou nas raízes do gospel a inspiração para seu trabalho.

Repleto de metáforas óbvias e outras nem tão óbvias assim, “Coração satânico” é um dos mais angustiantes trabalhos do cinema de suspense da história. Sujo, desagradável e sem concessões ao comercial, o filme de Parker é cinema com C maiúsculo, um exercício para se ver e rever inúmeras vezes. E ficar chocado sempre.

quarta-feira

A LEI DO DESEJO


A LEI DO DESEJO (La ley del deseo, 1987, El Deseo SA, 102min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Angel L. Fernandez. Montagem: José Salcedo. Figurino: Cossio. Direção de arte/cenários: Javier Fernandez/Ramón Moya. Produção executiva: Miguel A. Perez Campos. Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Bibi Andersen. Estreia: 07/02/87

Já em seus primeiros filmes, ainda longe da sofisticação de suas mais famosas obras, o espanhol Pedro Almodóvar apresentava suas obsessões. Religião, sexo e uma queda para o kitsch estão óbvios em “A lei do desejo”, um de seus filmes menos conhecidos e talvez um dos mais ousados. Sujo, visualmente pouco atraente e sem concessões ao comercial, “A lei do desejo” serve para apresentar o talento ainda em estado bruto do diretor.

Eusébio Poncela vive Pablo Quintero, um diretor de cinema famoso e consagrado, que tem uma relação complicada com seu jovem amante Juan (Miguel Molina), que esconde sua homossexualidade da família. Durante uma viagem do jovem, encontra e inicia um relacionamento doentio com um fã, Antonio (Antonio Banderas), que é obcecado por ele. Enquanto fica dividido entre seus dois amantes, o cineasta ainda tem que lidar com sua irmã Tina (Carmen Maura), que tem um segredo do passado escondido em meio a um trauma.


Em "A lei do desejo", Almodovar utiliza elementos do mais absoluto melodrama (segredos do passado, cartas trocadas, amores não correspondidos) a seu favor. Seu roteiro - que soaria um tanto absurdo em mãos menos capazes - alterna momentos de pura lascívia e sexo com discussões sobre família, arte e religião - ingredientes que se tornariam moeda corrente em sua filmografia. É um filme que não agrada a todos os públicos, mas que demonstra claramente o que o cineasta espanhol poderia fazer - e o fez - no futuro. E Antonio Banderas, um de seus mais frequentes colaboradores em seus primórdios cinematográficos mostra porque foi importado com tanta voracidade por Hollywood nos anos 90, entregando uma de suas atuações mais ousadas.

Não há dúvida que o universo de Pedro Almodóvar é muito particular e isso fica absolutamente claro em qualquer cena de “A lei do desejo”. Seja nas vidas sexuais dos personagens ou até mesmo em suas roupas e atos - e na trilha sonora propositadamente exagerada, em que cabe até uma canção da brasileira Maysa -, o mundo criado pelo diretor e roteirista tem sua marca registrada, pro bem ou pro mal. Para alguns, sinal de personalidade, para outros apenas exageros estilísticos, o fato é que seu filme não deixa ninguém indiferente. E de quantas obras se pode dizer isso em dias de filmes tão pasteurizados como a em que vivemos?

terça-feira

A ERA DO RÁDIO


A ERA DO RÁDIO (Radio days, 1987, Orion Pictures, 88min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Les Bloom, Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Seth Green, Mia Farrow, Dianne Wiest, Danny Aiello, Wallace Shawn, Julie Kavner, Mike Starr. Estreia: 30/01/87

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Direção de arte/cenários

Nada como um bom Woody Allen engraçado e nostálgico! Emulando o Fellini de "Amarcord", o cineasta nova-iorquino, acostumado a presentear seus fãs com sofisticadas e neuróticas comédias de costumes e/ou densos e profundos dramas psicológicos mostra, em "A era do rádio", que sabe como poucos ter também a saudável melancolia que as memórias de infância sempre proporcionam. "A era do rádio" é um dos mais deliciosos filmes de Allen, mesclando um humor inocente com um delicado retrato de uma época que, apesar dos pesares - e uma grande guerra mundial está entre eles - legou à humanidade muitos talentos artísticos.

O alter-ego de Allen em "A era do rádio" é Joe, um garotinho judeu criado com dificuldades econômicas mas muito amor pelos pais e pela numerosa família, que inclui a casadoira tia Bea (Dianne Wiest, colaboradora constante do cineasta). Vivido por Seth Green - que na década de 90 ficaria conhecido como Scott Evil na série "Austin Powers" - com um misto de ingenuidade e deslumbramento, Joe é testemunha de fatos marcantes (ao menos para seu universo restrito), como a tragédia que envolve uma menina presa em um bueiro e os programas radiofônicos que encantavam sua família. É Joe - adulto, e em uma narração inteligente - que conta também a história de Sally White (Mia Farrow), uma vendedora de cigarros que sonha com o estrelato.


"A era do rádio" é nostalgia pura! Ao evocar um período específico de tempo, Woody Allen destrincha carinhosamente os sentimentos das pessoas da época, retratando a família de Joe de forma emocionante e extremamente engraçada - graças principalmente aos diálogos geniais e o elenco em ótima forma. Apesar de não haver exatamente um protagonista em cena, o diretor dá espaço a excelentes coadjuvantes e participaçõe especialíssimas: rapidamente aparecem no filme Diane Keaton, Jeff Bridges e Danny Aiello, entre outros. Até mesmo o Brasil é homenageado no filme: Denise Dummont aparece cantando "Tico-tico no fubá" e uma cena alto-astral ouve-se a voz de Carmen Miranda...

"A era do rádio" é mais uma pequena obra-prima de Woody Allen, para se assistir com um enorme sorriso no rosto e talvez uma ou outra lágrima nos olhos...

segunda-feira

PLATOON


PLATOON (Platoon, 1986, Orion Pictures, 120min) Direção e roteiro: Oliver Stone. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Claire Simpson. Música: Georges Delerue. Direção de arte: Bruno Rubeo. Casting: Pat Golden, Warren McLean, Bob Morones. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Arnold Kopelson. Elenco: Charlie Sheen, Tom Berenger, Willem Dafoe, Keith David, Forest Whitaker, Kevin Dillon, Johnnny Depp. Estreia: 19/12/86

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger, Willem Dafoe), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Montagem, Som
Festival de Berlim: Melhor Diretor (Oliver Stone)
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tom Berenger)


Até 1986, a visão do público americano frequentador de cinema sobre a guerra do Vietnã havia sido do teor intimista de Michael Cimino e do estilo lisérgico de Francis Ford Coppola. Foi preciso que um ex-combatente de nome Oliver Stone (vencedor de um Oscar de roteiro por "O expresso da meia-noite") comandasse um filme sobre o assunto para que finalmente a plateia tivesse uma visão realista do conflito. Os elogios rasgados da crítica, o sucesso de bilheteria e os 4 Oscar conquistados (inclusive de filme e direção) por seu "Platoon" mostraram que já estava mais do que na hora.

Utilizando de sua experiência em combate e de suas lembranças pessoais, Stone carregou "Platoon" de um humanismo e uma violência física e psicológica que, ao contrário de filmes como "O franco-atirador" e "Apocalypse now" não busca subterfúgios românticos ou psicodélicos: seu ponto de vista da guerra mais vergonhosa perdida pelos EUA é seco e contundente, ainda que não totalmente desprovido de uma espécie de sentimentalismo que fala direto ao coração do público - em especial o americano.

"Platoon" é narrado através do ponto de vista do novato Chris Taylor (Charlie Sheen em papel que ecoa o trabalho de seu pai Martin em "Apocalypse"), um jovem voluntário que, tão logo chega ao Camboja, em setembro de 1967, vê o tamanho da encrenca em que se meteu. A princípio descrevendo o tédio e os horrores que dividem seu tempo em cartas à avó, ele desiste de mantê-la informada da real face da guerra quando percebe que, mais do que um violento conflito entre dois países, ele está testemunhando um drama bem mais pessoal: uma rixa pessoal entre o beligerante Sargento Barnes (Tom Berenger) e o ético Sargento Elias (Willem Dafoe).


O mais inteligente no roteiro de "Platoon" é a sua capacidade de equilibrar a disputa entre Barnes e Elias pela "alma" de Taylor e a maneira com que o rapaz vai tomando contato com toda a truculência e inutilidade da guerra. Cenas de grande impacto visual e emocional são apresentadas por Stone sem sentimentalismo, em tom quase documental, conduzindo o espectador a uma viagem sem escalas rumo a um inferno real e, pior ainda, quase palpável, graças à fotografia de Robert Richardson. A edição, também premiada com um Oscar, dá um ritmo angustiante à narrativa, assim como a trilha sonora escolhida pelo cineasta, que dialoga magistralmente com as imagens ora úmidas ora sufocantes captadas pela câmera nervosa de Stone.

Mas é em seu elenco que "Platoon" brilha ainda mais intensamente. Espertamente, Oliver Stone embaralhou as cartas na hora de escolher seus protagonistas, oferecendo ao galã Tom Berenger o papel mais odioso - um homem raivoso, cheio de cicatrizes e impiedoso - e ao normalmente vilão Willem Dafoe a compreensiva e honrada personagem que retratava o bem. Nitidamente à vontade, os dois conquistaram indicações ao Oscar por seu trabalho, e fascinam a audiência sempre que estão em cena.

"Platoon" é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema - e abriu a trilogia do diretor sobre o Vietnã (completada com "Nascido em 4 de julho" e "Entre o céu e a terra"). Feito com o coração mais do que com a técnica, é uma experiência que transcende o gosto da platéia pelo gênero: é cinema da mais alta qualidade.

domingo

A COR DO DINHEIRO


A COR DO DINHEIRO (The color of the money, 1986, Buena Vista Pictures, 119min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Richard Price, romance de Walter Tevis. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Boris Leven/Karen A. O'Hara. Casting: Gretchen Rennell. Produção: Irving Axelrad, Barbara De Fina. Elenco: Paul Newman, Tom Cruise, Mary Elizabeth Mastrantonio, Helen Shaver, John Turturro, Forest Whitaker, Bill Cobbs. Estreia: 08/10/86

4 indicações ao Oscar: Ator (Paul Newman), Atriz Coadjuvante (Mary Elizabeth Mastrantonio), Roteiro Adaptado, Direção de arte
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Paul Newman)


Filmes sobre sinuca - ou bilhar ou qualquer assemelhado - normalmente não são sucessos de bilheteria nem fascinam as plateias que frequentam as salas de cinema. Por isso não é de se estranhar que "A cor do dinheiro", que deu o merecido Oscar de melhor ator a Paul Newman em 1986 não tenha tido uma brilhante carreira comercial, apesar do apelo jovem de um Tom Cruise ainda em sua fase de ídolo adolescente - status que ele começaria a mudar aqui e em "Rain Man" e confirmaria com "Nascido em 4 de julho". No entanto, rotular "A cor do dinheiro" como um filme de sinuca é o mesmo que restringir "Touro indomável" a um filme sobre boxe. Não é à toa que ambos os filmes sejam dirigidos pelo mesmo Martin Scorsese, que, com seu talento indiscutível, sempre conta histórias de homens lutando contra si mesmos.

Na verdade "A cor do dinheiro" é uma espécie de continuação de "Desafio à corrupção", lançado em 1961 e que também tinha como protagonista o mesmo Eddie Felson que Newman revive aqui. No filme de Scorsese, Felson é um jogador aposentado de uma variação de sinuca chamada "Bola 9", que vive da venda de bebidas alcóolicas. Seu passado de glória no esporte volta a lhe assombrar quando ele conhece o jovem Vincent Lauria (Tom Cruise), dono de um talento inegável, mas também de uma arrogância que apenas a inexperiência é capaz de construir. Empolgado com o rapaz, Eddie propõe a ele e sua ambiciosa namorada, Carmen (Mary Elizabeth Mastrantonio) que eles se unam para ganhar muito dinheiro em uma competição em Atlantic City. O trato - Felson entraria com seus meandros e malandragem e Vincent com o talento e a disposição - começa a dar errado quando Vincent passa a não dar ouvidos aos conselhos de seu mentor, julgando-se capaz de vencer sozinho. Logo eles acabam sendo obrigados a jogar um contra o outro.

Conforme dito antes, é característica da obra de Scorsese colocar seus protagonistas diante do pior de seus inimigos: ele mesmo. Em "A cor do dinheiro" ele faz isso duplamente. Eddie Felson precisa lutar contra seu passado, contra o tempo que já não lhe é mais complacente e contra seus próprios princípios. O jovem Vincent necessita aprender a lidar com seu exibicionismo, com a sua efusividade juvenil, com a ambição e a pressa típicas de sua idade. E ambos são forçados também a lutar um contra o outro: como dois espelhos, eles se enxergam no parceiro... e provavelmente não gostam muito do que veem.


Como filme, "A cor do dinheiro" não está no mesmo patamar das obras-primas de Scorsese: tem alguns problemas de ritmo e, deixando de lado a atuação excepcional de Newman, não tem um protagonista carismático e/ou repulsivo como seus melhores trabalhos. No entanto, seduz o espectador com uma imprevisibilidade rara - o roteiro do escritor Richard Price foge dos clichês admiravelmente e ainda tem a ousadia de terminar em aberto - o que, para um filme sem pretensões de tornar-se o primeiro capítulo de uma série é uma temeridade comercial sem tamanho. E é inegável perceber o cuidado do cineasta em filmar cada sequência do esporte da maneira mais empolgante possível - e nessas cenas a edição de sua colaboradora habitual Thelma Schoonmaker é, como sempre, destaque absoluto.

Mas é Paul Newman o dono do filme. Sua interpretação delicada, discreta mas extremamente forte domina cada cena em que ele aparece, dando aulas prestimosas a Cruise, que em seguida tentaria direcionar sua carreira para escolhas de maior prestígio do que "Negócio arriscado" e "A lenda". Mais do que levar um Oscar por respeito a sua carreira sensacional, ele foi premiado pela qualidade altíssima de seu trabalho. Um prêmio absolutamente merecido!

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...