quinta-feira

UM PEIXE CHAMADO WANDA


UM PEIXE CHAMADO WANDA (A fish called Wanda, 1988, MGM Pictures, 108min) Direção: Charles Crichton. Roteiro: John Cleese, história de John Cleese e Charles Crichton. Fotografia: Alan Hume. Montagem: John Jympson. Música: John Du Prez. Figurino: Hazel Pethig. Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Stephanie McMillan. Casting: Priscilla John. Produção executiva: Steve Abbott, John Cleese. Produção: Michael Shamberg. Elenco: John Cleese, Jamie Lee Curtis, Kevin Kline, Michael Palin, Maria Aitken. Estreia: 07/7/88

3 indicações ao Oscar: Diretor (Charles Crichton), Ator Coadjuvante (Kevin Kline), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Kevin Kline)


Nada como um time de gênios ingleses para criar uma comédia inteligente e que não apela para palavrões, adolescentes tarados e mulheres nuas. Boa parte da equipe dos enlouquecidos membros do Monthy Phyton esté por trás de “Um peixe chamado Wanda”, uma das mais espetaculares comédias de todos os tempos. E não, não existe um único adolescente em todos os 108 minutos de projeção.

O filme começa com um aparentemente bem-sucedido roubo a uma joalheria. Aparentemente porque o mentor do crime, o inglês almofadinha George Thomason acaba preso, delatado por sua amante, a bela e sexy americana Wanda (Jamie Lee Curtis, deitando e rolando com sua personagem amoral). Wanda na verdade tem um tórrido caso amoroso com Otto (Kevin Kline), que ela mente ser seu irmão, e quer o produto do roubo, uma carga de diamantes só pra eles. O problema é que a única pessoa que pode saber onde estão as jóias é o advogado do mandante, o rígido e desajeitado Archie Leach (o hilariante John Cleese). Aproveitando-se do fascínio que desperta no advogado, Wanda resolve seduzi-lo, para desespero do ciumento Otto, que tem a missão de vigiar o outro integrante do grupo, o gago Kevin (Michael Palin).


O humor de "Um peixe chamado Wanda" é inteligente mas nunca hermético. É anarquista mas nunca político. É sexy, mas nunca vulgar. E é, acima de tudo, uma vitória do humor inglês, sempre sarcástico e irônico. Seja na relação complicada entre Wanda e Archie, com seus encontros desastrados, seja na conduta incoerente de Otto, que lê Nietzsche mas não entende o essencial, seja nas tentativas frustradas de Kevin de eliminar a principal testemunha ocular do roubo, todas as subtramas do roteiro de John Cleese (perfeito em seu constrangimento tipicamente britânico) confluem para uma coesão rara no gênero.

É difícil dizer o que funciona melhor nessa verdadeira obra-prima do humor. O roteiro, impecável, aproveita todas as brechas possíveis para fazer rir, seja nas gritantes diferenças culturais entre americanos e ingleses, seja nas inúmeras reviravoltas que a históra sofre, sempre levando a trama para um final pouco óbvio e absurdo. O elenco beira a perfeição: se os integrantes do Monthy Phyton há muito tempo não precisam provar que sabem fazer humor como poucos são os americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline que surpreendem. Jamie usa e abusa dos recursos que sua personagem, distante anos-luz de sua baby-sitter de “Halloween”, lhe proporciona e Kline, um respeitado ator canadense de teatro brinca com a própria imagem de sedutor e acabou levando o merecido Oscar de ator coadjuvante, batendo nomes como Alec Guiness e Martin Landau.

O único problema de “Um peixe chamado Wanda” é que, quando ele acaba fica-se com a sensação de que todas as outras comédias que Hollywood insiste em produzir são extremamente sensaboronas.

UMA CILADA PARA ROGER RABBIT


UMA CILADA PARA ROGER RABBIT (Who framed Roger Rabbit?, 1988, Amblin Entertainment/Touchstone Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Searman, romance "Who censored Roger Rabbit?", de Gary K. Wolf. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Roger Cain, Elliot Scott. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg. Produção: Frank Marshall, Robert Watts. Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Joanna Cassidy. Estreia: 21/6/88

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Direção de arte/cenários, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais e Especial de Animação


Filmes noir são um gênero à parte dentro do cinema americano. Desde que surgiu, nos anos 40, seus elementos foram utilizados à exaustão pelos cineastas do mundo todo, com resultados tão díspares quanto as personalidades de seus complexos personagens. Por isso não deixa de ser curioso e até irônico que seu mais legítimo representante no final do século XX seja um filme cujo protagonista nem humano é.

Exatamente. O protagonista de “Uma cilada para Roger Rabbit”, como seu próprio nome sugere, é um coelho. Mas não um coelho qualquer. Na Hollywood dos anos 40, em um mundo à parte onde seres humanos convivem com cartoons, Roger é um astro de cinema, popular e querido graças principalmente a sua participação em filmes com o amado Baby Herrman, que nos bastidores é um boçal grosseiro e cheio de vícios. Casado com a bela Jessica Rabbit, Roger é invejado e admirado, mas quando o filme começa está passando por uma crise sem precedentes. Preocupado com um de seus maiores investimentos, o dono do estúdio onde o coelho trabalha contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, genial em cada cena) para que siga a bela esposa de Roger. Quando o “amante” de Jessica é assassinado, o coelho passa a ser o principal suspeito e pede ajuda ao detetive para provar sua inocência. Nem um pouco disposto a colaborar com um personagem de cartoon, uma vez que seu irmão e ex-parceiro foi assassinado por um, Valiant acaba mudando de idéia ao descobrir uma conspiração orquestrada pelo sinistro Mr. Doom (Christopher Lloyd), que quer exterminar a raça de atores de animação.


Espetacular em cada cena, a obra de Robert Zemeckis é um primor da sétima arte. Engraçado como poucos, inteligente como ainda mais raros, o roteiro, baseado em um livro desconhecido fora dos EUA, brinca de forma admirável com os clichês do gênero noir, com ambientações soturnas, personagens cheios de mistérios e uma fotografia brilhante de Dean Cundey, que ressalta ainda mais o clima de mistério da trama rocambolesca e intrincada.

Mas nada é melhor em “Uma cilada para Roger Rabbit” do que a perfeita interação entre atores reais e desenho animado. Utilizando uma técnica descoberta nos filmes de Walt Disney das antigas (“Você já foi à Bahia?”, por exemplo) da forma mais criativa e polidimensional possível, a equipe responsável pelos efeitos visuais (merecidamente premiados com o Oscar da categoria) dá um verdadeiro show de talento e competência. É inacreditável em alguns momentos como a realidade impossível torna-se palpável, principalmente graças ao excepcional trabalho de Bob Hoskins, que teve que trabalhar sozinho em grande parte das filmagens e criou um Eddie Valiant crível e real.

Divertidíssimo da primeira à última cena, “Roger Rabbit” é um tributo ao talento de seus realizadores e ainda por cima cria dois personagens inesquecíveis: o protagonista, dublado pelo mesma voz do Pernalonga e sua sensual esposa, Jessica Rabbit, um dos mais surpreendentes símbolos sexuais surgidos ultimamente e dublada por Kathleen Turner e Amy Irving. Sua força é tão notável que já houve a ideia de um novo filme estrelado apenas pelos dois. Vida longa ao casal Rabbit!

quarta-feira

MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS


MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988, El Deseo SA, 90min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Bernardo Bonezzi. Figurino: José Maria de Cossío. Direção de arte: Emilio Cañuelo, Félix Murcia. Produção executiva: Agustin Almodovar. Produção: Pedro Almodovar. Elenco: Carmen Maura, Antonio Banderas, Julieta Serrano, Maria Barranco, Rossy de Palma, Kit Manver, Guillermo Montesinos, Chus Lampeavre. Estreia: 23/3/88

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Se em “A lei do desejo”, de 1986, o diretor espanhol Pedro Almodóvar não agradou a gregos e troianos, usando e abusando de suas obsessões por sexo, religião e personagens bizarros, com seu filme seguinte ele atingiu um novo patamar em sua carreira ainda jovem: sucesso de bilheteria e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Mulheres à beira de um ataque de nervos" já apontava para uma maturidade precoce e um futuro que já parecia bastante promissor. Se ele abandonou duas de suas marcas (o sexo e a religião) não economizou em personagens bizarros. Poucas vezes se viu tantos personagens deliciosamente insanos reunidos em um mesmo roteiro, saídos da mente quase doentia de um diretor que utiliza o deboche como arma contra a hipocrisia.

A dubladora e atriz Pepa (Carmen Maura, soberba como sempre) entra em pânico quando descobre-se grávida do amante casado Ivan (Fernando Guillen), que, se não bastasse, acaba de abandoná-la para viajar com outra mulher. Tentando comunicar-se com o desaparecido colega de trabalho e cama, ela nem percebe a loucura que começa a desenhar-se a sua volta: sua amiga Candela (Maria Barranco) muda-se para seu apartamento, apavorada com a possibilidade de seu ex-namorado, um terrorista xiita, derrubar um avião de passageiros conforme um plano que ela acaba de descobrir; a enlouquecida esposa de seu amante, Lucía (a ótima Julieta Serrano), recém saída de um hospital psiquiátrico, tenciona matá-la; o filho de seu amante, Carlos (o ator habitual de Almodóvar, Antonio Banderas) e sua noiva Marisa (Rossy de Palma) querem alugar sua cobertura, sem sequer desconfiarem da ligação entre os dois e a advogada feminista que ela procura para ajudar Candela, Paulina Morales (Kiti Manver) está mais interessada em viajar com seu novo amor do que colaborar com as duas.


Somando dois policiais a essa turma de enlouquecidos personagens, Almodóvar criou sem dúvida uma das comédias mais inteligentes e sideradas que já cruzaram as telas. Transitando em cenários kitsch, repletos de cores berrantes e vestindo roupas inacreditavelmente bizarras, as mulheres imaginadas pelo cineasta recitam diálogos engraçadíssimos e surreais, em situações absurdas que, paradoxalmente, fazem todo o sentido do mundo dentro do universo insano de Pedro Almodóvar, que magistralmente citou a si mesmo e a seu filme em "Abraços partidos", em uma homenagem carinhosa e hilariante.

Não deixa de ser apavorante, no entanto, imaginar a refilmagem proposta por Jane Fonda - e que felizmente até hoje nunca se concretizou. Por mais perfeito que seja o roteiro do diretor espanhol, sem sua presença atrás das câmeras é pouco provável que as mulheres que ele imaginou à beira de um ataque de nervos sejam tão deliciosamente passionais.

terça-feira

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (The unbearable lightness of being, 1988, The Saul Zaentz Company, 171min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, Jean-Claude Carrière, romance de Milan Kundera. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Vivien Hillgrove, Michael Magill, Walter Murch. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Bertil Ohlsson. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek De Lint, Stellan Skarsgard. Estreia: 05/02/88

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia


Há duas maneiras de se julgar essa adaptação cinematográfica de “A insustentável leveza do ser”, obra-prima do tcheco Milan Kundera. A primeira, e menos favorável é compará-la com sua versão literária, best-seller absoluto de qualidade inquestionável. A segunda, e aí pode-se fazer elogios rasgados, é como um filme independente de sua origem editorial.

O livro de Kundera, repleto de disgressões filosófico-existenciais é um prato cheio para quem gosta de uma leitura mais profunda e menos romântica. O filme, dirigido com elegância e classe por Philip Kaufman (de “Os eleitos”) não se presta a questões mais intelectuais e, mesmo flertando abertamente com temas políticos e mais discretamente com o quase elogio ao amor livre, conta simplesmente uma bela história de busca pela felicidade, seja ela ideológica, sexual e/ou sentimental.

A trama gira em torno do romance entre o médico Thomas (o ótimo Daniel Day-Lewis) e a garçonete e posteriormente fotógrafa Teresa (uma Juliette Binoche juvenil e encantadora). Ele é um conquistador nato, incapaz de manter um relacionamento estável nem mesmo com a fiel Sabina (Lena Olin), de quem se sente mais próximo. Ela é uma jovem insegura, apaixonada e que sai de sua cidade do interior para ficar com ele, mesmo sabendo que ele não é exatamente um modelo de fidelidade. O triângulo amoroso formado então acompanhará as mudanças políticas da Tchecoslováquia – a história começa às vésperas da primavera de 1968 – revelando às próprias personagens nuances até então nunca percebidas em suas personalidades.

É inegável que o roteiro, escrito pelo diretor Kaufman e pelo habitual colaborador de Roman Polanski, Jean-Claude Carrière, tem uma inteligência e uma sutileza raras e que fazem jus à sua origem literária, o que talvez o tenha colocado em uma espécie de limbo cultural: os fãs do livro, que procuram uma adaptação fiel provavelmente ficarão decepcionados e os cinéfilos que buscam uma história de amor como as que estão acostumados certamente também ficarão perdidos. Com personagens complexos, com atos não exatamente previsíveis e uma trama que deixa muito à inteligência de sua platéia, “A insustentável leveza do ser” é um filme melancólico – o final é de uma beleza pungente – e um meio-termo entre filmes de arte europeus e romances hollywoodianos, o que o fato lamentável de ser falado em inglês só reitera.

No entanto, com uma fotografia belíssima, cortesia de Sven Nykvist, o preferido de Woody Allen e Ingmar Bergman, uma trilha sonora inspirada – reparem em uma versão alemã de “Hey Jude”, dos Beatles – e um elenco impecável, garante seu lugar entre as melhores adaptações cinematográficas já realizadas.

segunda-feira

SETEMBRO


SETEMBRO (September, 1987, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne Wiest, Jack Warden, Sam Waterston, Elaine Stritch. Estreia: 18/12/87

É inegável que, como diretor e roteirista de comédias sofisticadas e inteligentes, Woody Allen é imbatível. No entanto, seu lado mais sombrio, profundo e melancólico muitas vezes agrada a crítica mas afugenta a audiência. Foi assim com "Interiores", de 1978 e o mesmo repetiu-se com "Setembro", feito quase uma década depois. Filmado quase como uma peça de teatro - sem muitos closes e com muitos planos longos - o 18º longa da carreira de Allen é um de seus menos louvados. Injustamente!

A trama de "Setembro" se passa em uma casa de praia em Vermont, no final de verão particularmente desgastante emocionalmente para a frágil Lane (Mia Farrow), que, recém-saída de uma profunda crise nervosa se apaixona pelo escritor Peter (Sam Waterston), que alugou a casa para escrever seu novo livro. Assediado pela mãe de Lane, a ex-modelo Diane (Elaine Stritch) - cujo passado conta com uma tragédia que abalou a vida da filha - para que escreva sua biografia, Peter se encanta com Stephanie (Dianne Wiest), a melhor amiga de Lane, uma mulher casada e romanticamente confusa. Enquanto tenta lidar com sua problemática relação com a mãe e tenta conquistar o amor de Peter, Lane desperta a paixão de um vizinho mais velho, Howard (Denholm Elliott).

A ciranda amorosa-romântica criada por Allen até pode lembrar alguns de seus filmes anteriores, mais notadamente "Hannah e suas irmãs", também estrelado por Farrow e Wiest. Mas em "Setembro" o senso de humor do cineasta é deixado de lado, o que colabora para o clima quase claustrofóbico imposto pela sóbria fotografia de Carlo Di Palma. As personagens, aqui, não relaxam frequentando museus ou visitando o Central Park. Na opressiva trama escrita por Allen na casa de verão de sua então mulher Mia Farrow, viver é complicado, tomar decisões é sacrificante, encarar a realidade é difícil. Lane tem que conviver com um trauma do passado, que praticamente destruiu sua vida, e a impede de ter uma relação saudável com sua mãe, que, em contrapartida, não deixa que nenhum problema a atinja com a devida força. Stephanie luta contra o desejo por Peter, porque não quer magoar Lane nem destruiur seu próprio casamento. E Howard, apaixonado por Lane, deseja arrancá-la da tristeza e da prostação emocional, mas esbarra na fragilidade da própria moça.

Woody Allen filmou "Setembro" duas vezes por achar a primeira versão insatisfatória. Substituiu Maureen O'Sullivan (mãe de Farrow na vida real) por Elaine Stricht (que entregou uma performance bastante distinta de sua personagem), Charles Durning por Denholm Elliot e Sam Shepard por Sam Waterston (sendo que Shepard já substituía Christopher Walken). Ainda achando que o filme não estava à altura do que imaginava, pensou em refilmar uma terceira versão. Ainda bem que não o fez!

"Setembro" tem diálogos belíssimos, interpretações intensas e uma melancolia deslumbrante. Não é para ser assistido em momentos de crise emocional, mas é um trabalho fascinante de um diretor extremamente inteligente e talentoso.

domingo

FEITIÇO DA LUA


FEITIÇO DA LUA (Moonstruck, 1987, MGM Pictures, 102min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: John Patrick Shanley. Fotografia: David Watkin. Montagem: Lou Lombardo. Música: Dick Hyman. Figurino: Theoni V. Aldredge. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg. Casting: Howard Feuer. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Nicolas Cage, Vincent Gardenia, Olympia Dukakis, John Mahoney. Estreia: 18/12/87

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Atriz (Cher), Ator Coadjuvante (Vincent Gardenia), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Atriz/Comédia ou Musical (Cher), Atriz Coadjuvante (Olympia Dukakis)


Como é bom perceber que mesmo dentro de um gênero em tese tão repleto de clichês e armadilhas como as comédias românticas ainda é possível ser criativo, delicado e surpreendente! Premiado merecidamente com o Oscar de roteiro original, "Feitiço da lua", dirigido pelo normalmente seríssimo Norman Jewison é uma simpática história de amor, dona de um humor passional e repleta de diálogos brilhantes. Mesmo fugindo da ambição de ser inesquecível, é um filme que conquista pela inteligência, pelo bom-humor e pelo elenco impecável. Não foi à toa que Cher e Olympia Dukakis também levaram suas estatuetas para casa, por entregarem luminosas performances.

Ficando com o papel originalmente escrito com Sally Field em mente, Cher provou-se como atriz séria - e não apenas uma cantora exótica e frequentemente espalhafatosa - na pele de Loretta Castorini, uma contadora descendente de italianos que vive no Brooklyn e que há muito deixou de acreditar em coisas como romances. Precocemente viúva, ela é pedida novamente em casamento por Johnny Cammameri (Danny Aiello), um homem mais velho e também longe de ser um exemplo de romantismo. Ao viajar para a Itália a fim de acompanhar os dias finais de vida de sua mãe, ele pede a Loretta que entre em contato com seu irmão, com quem ele rompeu anos antes, para uma reaproximação. Obediente, Loretta vai até o raivoso Ronny (Nicolas Cage), um padeiro que não tem uma das mãos e que culpa o irmão por isso. Ao tentar convencê-lo a ir à cerimônia, Loretta acaba se apaixonando por ele.


A qualidade do roteiro de John Patrick Shanley é inegável. Além de contar a história do belo romance entre Loretta e Ronny - que explode ao som de "La Boheme" - Shanley aproveita para criar personagens complexos e interessantes na família Castorini. Vincent Gardenia conquista pela simpatia com que conduz a aventura extra-conjugal de seu Cosmo, que busca reconquistar a juventude perdida envolvendo-se com outra mulher. E Dukakis mereceu seu prêmio de coadjuvante graças a seu trabalho delicado como Rose, uma mãe de família tentando entender a força que a lua cheia dá a seus familiares.

Ao brincar com a lenda que dá à comunidade italiana a fama de romântico/passional, "Feitiço da lua" oferece a seu público bem mais do que simplesmente uma comédia romântica: é simpático, encantador e deliciosamente sedutor. O trabalho de Cher é sutil, mas irrepreensível - até mesmo seu sotaque e seu jeito exagerado de falar e gesticular soam naturais e verdadeiros. E não há como não se deixar envolver por um filme cujos créditos de abertura apresentam a bela "That's amore" na voz de Dean Martin. Para ver com um sorriso no rosto!

sábado

NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA


NOS BASTIDORES DA NOTÍCIA (Broadcast news, 1987, 20th Century Fox, 133min) Direção e roteiro: James L. Brooks. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Richard Marks. Música: Bill Conti. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Jane Bogart. Casting: Ellen Chenoweth. Produção executiva: Polly Platt. Produção: James L. Brooks. Elenco: William Hurt, Holly Hunter, Albert Brooks, Lois Chiles, Joan Cusack, Jack Nicholson, Robert Prosky. Estreia: 16/12/87

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (William Hurt), Atriz (Holly Hunter), Ator Coadjuvante (Albert Brooks), Roteiro Original, Fotografia, Montagem

Tudo bem que o Oscar de 1987 já tinha dono desde o início, com "O último imperador", de Bernardo Bertolucci sendo o favorito desde sempre. Mas é difícil entender os motivos que levaram a Academia a escolher "Nos bastidores da notícia" como um dos cinco indicados a seu prêmio máximo. Ainda que bastante correto, com diálogos inteligentes e um elenco adequado, o filme de James L. Brooks não encanta em momento algum, longe das grandes emoções de seu trabalho anterior - e este sim multi-oscarizado - "Laços de ternura".

"Nos bastidores da notícia" usa o mundo dos telejornais como pano de fundo para uma comédia romântica e uma crítica ácida às pessoas obcecadas com o sucesso profissional - além de também cutucar sem muita delicadeza a superficialidade que ronda o por trás das câmeras de uma emissora de televisão. A protagonista é Jane Craig (vivida com delicadeza por Holly Hunter, que substituiu Debra Winger poucos dias antes do início das filmagens e concorreu a seu primeiro Oscar), a talentosa e dedicada produtora de um programa jornalístico de Washington. Dada a choros repentinos e incontroláveis, Jane é uma control-freak absoluta que nem desconfia que desperta a paixão enlouquecida de Aaron Altman (Albert Brooks), seu colega de trabalho, um homem inteligente, culto e sensível que sofre por não ter o visual apropriado para ser âncora de telejornal. "O mundo não seria perfeito se insegurança e desespero nos tornassem atraentes?", dispara ele em uma de suas conversas íntimas com ela.

A relação amigável entre Jane e Aaron sofre um abalo quando entra em cena Tom Granick (William Hurt), um jornalista galã que tem tudo que Aaron deseja: sucesso, mulheres e uma aparência que lhe abre todas as portas. Apesar de não ser exatamente um gênio, Tom acaba conquistando o amor de Jane, e o triângulo amoroso formado por eles acaba chegando à sua vida profissional.


Assim como já havia feito em "Laços de ternura", em "Nos bastidores da notícia" James L. Brooks aposta todas as suas fichas nas relações inter-humanas entre seus protagonistas, que, mais uma vez são extremamente verossímeis, repletos de qualidades e defeitos. Incoerentes como boa parte das pessoas reais, as personagens criadas por Brooks encontram nos atores escalados por ele intérpretes à altura da responsabilidade. Não foi à toa que não apenas Hunter concorreu ao Oscar, mas também William Hurt e Albert Brooks. Hurt deita e rola na pele do sedutor Tom Granick e Brooks entrega uma atuação perfeita em sua insegurança como o sensível Aaron. Juntos, os três valem a sessão do filme. No entanto, não deixa de ser um exagero as suas generosas sete indicações ao Oscar.

Inteligente e simpático, "Nos bastidores da notícia" ainda conta com a participação especialíssima de Jack Nicholson (em atuação não-creditada) e a inspirada atuação da ótima Joan Cusack. Pode não ser uma obra-prima, mas é acima da média.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...