terça-feira

CABO DO MEDO

CABO DO MEDO (Cape fear, 1991, Amblin Entertainment, 128min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Wesley Strick, roteiro original de James E. Webb, romance de John D. MacDonald. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Henry Bumstead/Alan Hicks. Casting: Ellen Lewis. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Barbara De Fina. Elenco: Robert DeNiro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Ileana Douglas. Estreia: 13/11/91

2 indicações ao Oscar: Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Juliette Lewis)

Martin Scorsese é o cara! Quando lança um projeto pessoal - como "Taxi driver", "Touro indomável" ou "Os bons companheiros" - se supera em técnica e paixão. E até mesmo quando trabalha praticamente sob encomenda, deixa no chinelo qualquer um que se considere cineasta. "Círculo do medo", realizado em 1962, e dirigido por J. Lee Thompson é um belo suspense. Mas empalidece consideravelmente em comparação à refilmagem comandada por Scorsese. "Cabo do medo", a reinvenção produzida pela Amblin Entertainment de Steven Spielberg, é uma das experiências mais angustiantes dos anos 90, amparada por um assustador Robert DeNiro.

Na verdade o próprio Spielberg é quem tinha interesse em refilmar "Círculo do medo" e, depois que ele deixou o filme de lado para realizar "Hook, a volta do Capitão Gancho", teve que praticamente implorar a Scorsese que comprasse a ideia. Contando com a valiosa ajuda de DeNiro, o diretor de "ET" finalmente foi feliz - mas só depois que o roteiro inicial de Wesley Strick sofreu profundas transformações. Nas mãos de Scorsese a banal luta entre advogado e cliente vingativo tornou-se um claustrofóbico embate entre dois homens dispostos a qualquer coisa para atingir seus objetivos. Com elementos novos adicionados à mistura - como sexualidade reprimida, adultério e uma personalidade bem menos unidimensional a seus protagonistas - o filme tornou-se a maior bilheteria da carreira do cineasta até "Os infiltrados", de 2006.

Quando "Cabo do medo" começa, Max Cady (Robert DeNiro, indicado a mais um Oscar por uma atuação apavorante) está saindo da cadeia, depois de passar 14 anos preso por estupro. Analfabeto à época de sua condenação, o violento agressor utilizou seu período de condenação para aprender a ler e estudar, descobrindo, nesse meio-tempo, que seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte em papel oferecido a Harrison Ford e Robert Redford) escondeu documentos que poderiam ter lhe amenizado o veredicto - ou até mesmo absolvê-lo. No momento de sua libertação, então, só o que lhe passa pela doentia mente é vingar-se de Bowden e, para isso, ele inicia um processo de violência psicológica contra ele e sua família, formada pela esposa, Leigh (Jessica Lange) e pela filha adolescente Danielle (Juliette Lewis). Passando por uma crise - despertada pela infidelidade conjugal de Sam - a estrutura familiar aparentemente sólida começa a ruir diante da fúria de Cady, que não mede esforços em direção a realizar sua missão.

A diferença entre "Cabo do medo" e dezenas de outros suspenses que fazem a festa dos programadores dos sábados televisivos é justamente o comando certeiro de Martin Scorsese. Dono de uma sensibilidade ímpar e de uma inteligência acima da média - além de uma cultura cinematográfica de cair o queixo - Scorsese imprime em seu filme uma personalidade inconfundível. Além de assustar o espectador em diversos momentos - afinal, um filme de suspense pede por isso - ele acrescenta à história uma densidade quase palpável. A trilha sonora tonitruante de Elmer Bernstein - que utiliza trechos da obra que Bernard Herrmann criou para o filme original - é tensa, forte e marcante, surgindo sempre como uma ameaça, um comentário ou um aviso de que Max Cady, com todo o seu ódio, está à espreita. A fotografia quente de Freddie Francis localiza com perfeição a trama no sul dos EUA - um lugar onde o medo já é costume, como bem diz uma personagem acostumada a sua terra natal. E o fato da família Bowden dessa nova versão não compartilhar da mesma felicidade de margarina do primeiro filme proporciona ao espetáculo um senso de realidade e modernidade que, ao contrário de distorcer a ideia inicial do romance de John D. MacDonald, apenas colabora em lhe dar mais profundidade.


E a profundidade do roteiro de Strick encontra no elenco escolhido por Scorsese um amparo espetacular. Enquanto DeNiro dispensa qualquer tipo de comentário, com uma atuação que supera qualquer expectativa - apesar de algumas críticas terem-no considerado um pouco exagerado. Nick Nolte transmite a angústia e a perplexidade de Sam Bowden com a segurança que seus vários anos de carreira lhe garantem e Jessica Lange vive uma Leigh equilibrada entre a fragilidade feminina e a força absoluta da maternidade. Gregory Peck e Robert Mitchum, atores da primeira versão do filme, participam em pequenas cenas, em uma homenagem carinhosa dos produtores. Mas é Juliette Lewis quem se destaca mesmo diante de seus consagrados colegas de cena. Indicada ao Oscar de coadjuvante aos 17 anos, ela abiscoitou o papel para o qual foram testados nomes como Reese Witherspoon, Jennifer Connelly e Winona Ryder e se revelou uma das grandes promessas do início da década de 90. A cena em que sua Danielle Bowden é praticamente seduzida por Cady em um cenário de peça de teatro infantil é um primor de sutileza, tensão e erotismo, uma ambivalência que perpassa todo o filme.

"Cabo do medo" pode ser assistido como um filme de suspense dos bons - com uma força crescente a cada sequência. Mas psicologicamente ele vai anda mais longe, discorrendo, ainda que discretamente, sobre complexo de Édipo, taras sexuais, frustrações eróticas e o suave equilíbrio entre o certo e o errado. É uma experiência única, como somente um diretor do porte de Scorsese é capaz de proporcionar.

segunda-feira

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA

THE COMMITMENTS, LOUCOS PELA FAMA (The Commitments, 1991, 20th Century Fox, 118min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Roddy Doyle, Dick Clement, Ian La Frenais, romance de Roddy Doyle. Fotografia: Gale Tattersall. Montagem: Gerry Hambling. Música: Wilson Pickett. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Karen Brookes. Casting: John Hubbard, Ros Hubbard. Produção executiva: Armyan Bernstein, Souter Harris, Tom Rosenberg. Produção: Lynda Myles, Roger Randall-Cutler. Elenco: Robert Arkins, Andrew Strong, Angeline Ball, Maria Doyle Kennedy, Dave Finnegan, Michael Aherne, Bronagh Gallagher, Félim Gormley, Glen Hansard, Dick Massey, Johnny Murphy, Ken McCluskey, Colm Meaney. Estreia: 14/8/91

Indicado ao Oscar de Montagem

"Os irlandeses são os negros da Europa. E os dublinenses são os negros da Irlanda. E os irlandeses do Norte são os negros de Dublin. Então digam isso, e digam alto: sou negro com orgulho!" É com essas palavras que o jovem Jimmy Rabbitte (Robert Arkins) incentiva seu grupo de soul, chamado The Commitments, a descobrirem o ritmo dentro deles, como forma de mudarem de vida e levar boa música aos trabalhadores das áreas menos favorecidas de Dublin. E é também "The Commitments, loucos pela fama" que se chama o filme do inglês Alan Parker baseado no romance de Roddy Doyle que devolve o diretor ao universo dos musicais, depois de "Fama" (1980) e "Pink Floyd: the wall" (1982). Energético, pulsante como o soul e encantador, o filme - estrelado por jovens desconhecidos e transformados em excelentes atores por Parker - foi uma injeção de vida em um gênero praticamente morto na época de seu lançamento. Não fez um sucesso comercial estonteante, mas agradou a crítica e teve uma sobrevida interessante quando o grupo fictício viajou pelo mundo em uma bem-sucedida tour.

Jimmy Rabbitte, o protagonista do filme, é um jovem desempregado que vive com uma numerosa família em um subúrbio de Dublin. Ao receber de uma dupla de amigos que cantam em casamentos - um deles vivido por Glen Hansard que ganharia um Oscar de melhor canção por "Apenas uma vez" anos depois - o convite para ser seu empresário, ele decide criar uma banda que misture o ritmo quente do soul com a dura realidade de suas vidas. Com muita dificuldade e lutando contra a descrença de todos, aos poucos o grupo vai se formando, com operários, estudantes e trabalhadores exaustos. Quando estão em vias de subir um degrau mais alto, porém, os egos começam a se chocar, diferenças pessoais tornam-se incontornáveis e o sonho começa a dar sinais de que nunca passou realmente de ilusão.


O maior acerto de Alan Parker, em "The Commitments", foi de escalar um elenco de amadores para seus papéis principais. Os rostos de todos são extremamente verdadeiros, reais, sem a sensação plástica da maioria dos filmes de Hollywood, o que dá ao filme uma consistência rara de honestidade. Enquanto acompanha a trajetória da banda, Parker nunca deixa que a plateia esqueça que eles são todos pessoas que existem no meio de dificuldades financeiras e pessoais - o que a ambientação na real Dublin reitera com força a cada momento. Não existe a preocupação artificial de embelezar nada na maneira com que o cineasta vê suas personagens em busca não da fama em seu sentido mais fútil, mas sim como maneira de escapar de uma existência medíocre e triste. E é justamente essa despreocupação de procurar belezas ocas e clichês que faz com que "The Commitments" seja extremamente belo. Despojado de ambições estéticas exageradas, o filme concentra-se nos seres humanos que retrata. E são eles, ao lado de uma trilha sonora pra lá de caprichada que deixa tudo fascinante.


Repleto de standards da soul music - como "Mustang Sally" e "Try a little tenderness" - a trilha sonora de "The Commitments" merece um capítulo à parte. Como nos melhores musicais da história, a música não chega para atrapalhar o andamento da história e sim faz parte - de maneira indelével - dela. A voz poderosa de Andrew Strong na pele do vocalista Deco ajuda Parker a ilustrar a trajetória de Rabbitte e seus empresariados de forma ágil e comovente. Mas felizmente o veterano cineasta nunca deixa sua inteligência de lado e em momento algum apela para a emoção fácil. Apesar da atmosfera um tanto depressiva que perpassa todo o filme - e é brilhantemente disfarçada pela música e pela edição primorosa - o diretor não tenta fazer chorar nem busca críticas sociais panfletárias. Ele mostra uma realidade, como que testemunhando a mesma e dividindo suas impressões com o público, empolgado e atento.

Com um roteiro dono de um irresistível e imprevisível senso de humor - em especial na sua primeira metade - e uma despretensão que sempre é bem-vinda no cada vez mais mercenário cinema comercial, "The Commitments, loucos pela fama" é um dos melhores filmes de Alan Parker, que não à toa declarou que realizá-lo foi uma de suas melhores experiências como cineasta. E se ele gostou, quem somos nós para discordar?

domingo

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, O JULGAMENTO FINAL (Terminator 2, the judgment day, 1991, Carolco Pictures, 137min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, William Wisher. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Joseph P. Lucky/John M. Dwyer. Casting: Mali Finn. Produção executiva: Gale Anne Hurd, Mario Kassar. Produção: James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Xander Berkeley. Estreia: 01/7/91

6 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Maquiagem, Som, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais 

Muito se reclamava, em 1991, da quantidade de dinheiro que se gastava em filmes de ação. O diretor James Cameron fez ouvidos de mercador à gritaria e gastou absurdos 100 milhões de dólares na continuação de seu "O exterminador do futuro", feito em 1984 com alguns trocados. O resultado, tanto em termos financeiros quanto de qualidade, calou a boca dos detratores: "O exterminador do futuro 2, o julgamento final" é, sem a mais remota dúvida, um dos filmes mais espetaculares já realizados em Hollywood, mostrando tudo de melhor que a indústria do entretenimento pode oferecer quando a questão é diversão.

Enquanto no primeiro filme Arnold Schwarzenegger era o vilão agora ele é o herói. Dono de uma popularidade enorme na época do lançamento do filme, Schwarza - que hoje todos sabemos, almejava vôos políticos - não poderia repetir o papel de exterminador do primeiro capítulo da saga criada por Cameron. O resultado disso ficou melhor que a encomenda. Desta vez, T-800 é enviado à Los Angeles de 1991 não para matar o jovem John Connor (Edward Furlong), futuro líder da resistência ao domínio das máquinas depois de um holocausto nuclear, mas sim para protegê-lo de um robô ainda mais perigoso e indestrutível, T-1000 (Robert Patrick), um modelo mais adiantado, capaz de auto-regenerar-se, transmutar-se em outras formas e, mais importante ainda, totalmente dedicado à sua missão. Acompanhado de Connor e de sua mãe, a corajosa e determinada Sarah (Linda Hamilton, musculosa ao extremo), o modelo de exterminador previamente programado para matá-los irá ajudá-los a livrar-se da ameaça de uma morte violenta.

É difícil dizer o que funciona mais em "O exterminador 2". O roteiro de Cameron e William Wisher tem um senso de ritmo admirável, que não deixa o espectador respirar mais que alguns minutos entre uma sequência de ação e outra - sendo que todas são nunca menos do que espetaculares. A parte técnica - que fez a festa na cerimônia do Oscar de 92 - é impecável e de deixar qualquer plateia de queixo caído ainda hoje. É de tirar o fôlego, por exemplo, a longa sequência em que John Connor encontra T-800 pela primeira vez e fica sabendo, através de uma violenta perseguição pelas ruas de Los Angeles, que está seriamente ameaçado de morrer. A relação entre o adolescente e a máquina de matar, aliás, é o trunfo secreto de James Cameron. Enquanto se delicia com os efeitos visuais embasbacantes criados para o filme, o público também se deixa envolver pela história de amizade e admiração entre um ser humano e um robô. Tudo isso sem sentimentalismos baratos ou lágrimas forçadas.

"O exterminador do futuro 2" merece o lugar de destaque que ocupa entre os melhores filmes de ação de todos os tempos. Inteligente, tecnicamente impecável, emocionante em vários níveis e revolucionário - além de ser um dos mais caros filmes da história, o que fica fácil de perceber com seu cuidado com os detalhes - o segundo capítulo de uma série que foi se desgastando com o tempo ainda é um perfeito exemplo de bom cinema. Até mesmo os mais intelectuais fãs de cinema são obrigados a aplaudir a história contada por James Cameron e Arnold Schwarzenegger.

sábado

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 2 1/2

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ 2 1/2 (The naked gun 2 1/2: the smell of fear, 1991, Paramount Pictures, 85min) Direção: David Zucker. Roteiro: David Zucker, Pat Profit. Fotografia: Robert Stevens. Montagem: Chris Greenbury, James Symons. Música: Ira Newborn. Figurino: Taryn Dechellis. Direção de arte/cenários: John J. Lloyd/Mickey S. Michaels. Casting: Mindy Marin. Produção executiva: Jim Abrahams, Gil Netter, Jerry Zucker. Produção: Robert K. Weiss. Elenco: Leslie Nielsen, Priscilla Presley, George Kennedy, O.J. Simpson. Estreia: 28/6/91

O sucesso de "Corra que a polícia vem aí", em 1988, provou aos estúdios de Hollywood que o público precisava rir. Não em comédias intelectuais e sofisticadas como as de Woody Allen e nem tampouco em bobagens adolescentes com temática puramente sexual como as da série "Porky's". O público queria rir sem pensar muito e aprovou com louvor o filme de David Zucker. Uma continuação, portanto, era só questão de tempo. E o tempo passou, fazendo com que Zucker entregasse o segundo capítulo das desventuras do atrapalhado Tenente Frank Drebin (vivido com propriedade pelo sempre hilário Leslie Nielsen).

Enquanto no primeiro capítulo Drebin deitava e rolava enquanto tentava impedir um atentado contra a Rainha Elizabeth, dessa vez ele precisa lidar com uma ameaça contra o meio-ambiente. Tentando superar a separação da mulher que ama, Jane (Priscilla Presley, com o timing cômico intocado), ele descobre que os líderes que detem os domínios sobre a distribuição de energia nos EUA tem um plano de sequestrar um cientista que pretende mudar as regras do jogo e substituí-lo por um sósia. Ao lado dos colegas de equipe, o capitão Ed Hocken (George Kennedy) e o detetive Nordberg (O.J. Simpson), Drebin fica sabendo ainda que o mentor do plano, o empresário Quentin Hapsburg (Robert Goulet) é o novo namorado de Jane, o que o incentiva ainda mais a acabar com o plano maligno.



Assim como acontecia no primeiro filme, a história é apenas um pretexto para que Leslie Nielsen desfile pela tela com sua aparência mais tranquila, enquanto causa atrocidades sem dar-se conta disso. Um exemplo claro é a sequência inicial, em que espanca a então primeira-dama Barbara Bush durante um jantar cerimonioso - em que até uma batata vai parar no turbante de Winnie Mandela. Sim, não há limites para o humor de Zucker e companhia, que são capazes de provocar risadas com piadas inteligentes e com gags visuais que beiram o infame. Mais uma vez são tantos os detalhes nonsense em cada cena que é preciso ter uma atenção redobrada para não deixar escapar nada.


"Corra que a polícia vem aí 2 1/2" é mais do mesmo, sim. Mas é engraçadíssimo ainda assim, reiterando o poder criativo de seus autores e o talento inegável de Leslie Nielsen no papel mais marcante de sua carreira. Para ver e dar muitas gargalhadas sempre.

sexta-feira

TUDO POR AMOR

TUDO POR AMOR (Dying young, 1991, 20th Century Fox, 111min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Richard Friedenberg, romance de Marti Leimbach. Fotografia: Juan Ruiz Anchia. Montagem: Robert Brown, Jim Prior. Música: James Newton Howard. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Cricket Rowland. Casting: Mary Goldberg. Produção: Sally Field, Kevin McCormick. Elenco: Julia Roberts, Campbell Scott, Vincent D'Onofrio, Colleen Dewhurst, David Selby, Ellen Burstyn. Estreia: 21/6/91

Depois de ter seduzido plateias do mundo inteiro com uma comédia romântica e dois suspenses, Julia Roberts achou que faltava algo para demonstrar sua versatilidade. Nada melhor, portanto, do que investir em um românce ao estilo "Love story". Produzido por sua mãe no choroso "Flores de aço", Sally Field, o drama "Tudo por amor" reuniu a linda mulher ao diretor Joel Schumacher, de "Linha mortal", mas não fez o barulho esperado. Era a primeira mostra de que a estrela de Julia estava começando a apagar-se - o que iria acontecer ainda na primeira metade dos anos 90, para depois ressurgir com força total.

Na verdade a culpa do semi-fracasso de "Tudo por amor" - semi porque o filme tem seus fãs inveterados - é o fato de contar uma história bastante triste e deprimente, que quase anula a maior qualidade de Roberts: sua vivacidade. Ainda que altere consideravelmente o final do livro em que é baseado - na verdade o romance acaba um pouco adiante do que é mostrado nas telas - o filme de Joel Schumacher é suficientemente melancólico para afastar o público que apaixonou-se pelo largo sorriso da atriz. E ter Schumacher, um cineasta não exatamente criativo ou ousado, por trás das câmeras não ajuda muito no resultado final. A maior qualidade de "Tudo por amor" é justamente a tentativa de seu elenco em transformar uma montanha de clichês em algo minimamente interessante.



Julia Roberts - menos bela e sedutora do que o normal - vive Hilary O'Neil, uma jovem que, depois de sair da casa onde vivia com o namorado infiel, atende um anúncio de jornal procurando uma enfermeira. Mesmo sem ter nenhuma experiência no assunto, suas belas pernas e a ajudam a conseguir o emprego como acompanhante 24h de Victor Geddes (Campbell Scott), um rapaz de 28 anos que tem leucemia desde a adolescência. A princípio assustada com as reações adversas do jovem a seu tratamento de quimioterapia, ela aos poucos começa a realmente cuidar dele e ajudá-lo em sua recuperação. Quando eles viajam para a praia para que ele termine sua tese de doutorado, eles se descobrem apaixonados, mas a doença volta a ser uma ameaça à sua felicidade.

Enquanto Roberts não parece à vontade com sua personagem, é Campbell Scott quem se destaca no difícil papel de Victor, um rapaz dividido entre a tentativa de uma vida normal e a cura de sua doença. Sem apelar para a lágrima fácil, o filho do grande ator George C. Scott consegue ser sedutor, agressivo, frágil e apaixonante. Não é à toa que a linda mulher cai de amores por ele...

quinta-feira

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).



"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

terça-feira

THE DOORS

THE DOORS (The Doors, 1991, Carolco Pictures, 140min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, J. Randal Johnson. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Cricket Rowland. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção executiva: Nicholas Clainos, Brian Grazer, Mario Kassar. Produção: Bill Graham, Sasha Harari, A. Kitman Ho. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley, Kevin Dillon, Michael Madsen, Billy Idol, Kathleen Quinlan, Debi Mazar, Mimi Rogers, Crispin Glover. Estreia: 23/02/91

Só mesmo um cineasta como Oliver Stone conseguiria realizar um filme como "The Doors". Ainda cheio de moral devido ao sucesso de seus filmes sobre a guerra do Vietnã, Stone conseguiu convencer os produtores a bancarem um projeto de quase 40 milhões de dólares sobre um roqueiro polêmico, sem um grande astro como chamariz de bilheteria e, pior ainda, com grandes possibilidades de desagradar os fãs e os familiares do protagonista. Quando finalmente o filme estreou, no início de 1991, algumas das previsões se mostraram corretas: o filme não pagou seu custo dentro dos EUA, a família de Pamela Courson (namorada da personagem principal) não gostou do resultado final (assim como Ray Manzarek, integrante do grupo) e a crítica se dividiu perante a visão do diretor sobre Jim Morrison e sua banda. Apenas um  fator foi quase unanimidade entre crítica, público e fãs ocasionais: o trabalho meticuloso de Val Kilmer como Morrison.

Na pele de Jim Morrison - o vocalista, líder e sex-symbol da banda de rock "The Doors", que morreu de ataque cardíaco aos 27 anos em 1971 - Kilmer apresenta a atuação de sua vida. Dedicado ao extremo ao papel, a ponto de viver como Morrison por quase um ano antes mesmo do início das filmagens, o ator de coisas tão díspares quanto "Top Secret" (1984) e "Willow, na terra da magia" (1988) praticamente metamorfoseou-se no cantor. O jeito de andar, de falar, de dançar e de se movimentar de Morrison está todo na interpretação de Kilmer. O problema maior de tudo é que, para os não-fãs da banda em particular, em dado momento, todo esse perfeccionismo acaba tornando-se um pouco chato por um motivo bastante simples: Jim Morrison não era uma pessoa exatamente agradável - ao menos é o que depreende-se do filme de Stone - e àqueles para quem os Doors não representam nada mais do que um grupo de rock como os outros as mais de duas horas de projeção beiram uma tortura.

Tudo começa quando Morrison ainda é uma criança e testemunha um acidente de carro que vitima um grupo indígena. Não seria importante se anos depois, já famoso como líder da banda "The Doors" - assim batizada em homenagem a Adouls Huxley e suas "Portas da percepção" - ele não assumisse, vez ou outra, um espírito xamânico (ou seja, entrava em um transe que lhe permitia ter contato com a natureza, seres de outras dimensões, etc e tal). Apresentado a esse mundo pela jornalista Patricia Kennealy (Kathleen Quinlan), de quem torna-se amante, Morrison o utiliza em sua arte. Ex-estudante de Cinema na Universidade da Califórnia, ele une-se a Ray Manzarek (Kyle MacLachlan), Robby Krieger (Frank Whaley) e John Densmore (Kevin Dillon) para formar sua própria banda de rock. Porém, conforme o sucesso do grupo vai aumentando, o total desprezo de seu líder pelo convencional e pelo pré-determinado começa a minar a união entre eles. Alcóolatra, drogado, mulherengo e com tendências auto-destrutivas, Morrison escandaliza a sociedade americana dos anos 60, mesmo estando ela em plena efervescência cultural pré-Woodstock, inclusive sendo preso durante um show, acusado de comportamento obsceno.



A forma com que Oliver Stone conduz sua homenagem a um grupo que idolatra é bastante coerente com a própria obra da banda. O visual imposto por Stone e seu diretor de fotografia Robert Richardson é perfeito no que se propõe, dando a nítida impressão do psicodelismo e da distância da realidade com que Morrison vivia sua trajetória errática. Apesar de cansar em alguns pontos - e até diminuir o impacto de algumas cenas, como a que Jim quase mata a namorada Pam (Meg Ryan) queimada - a forma encontrada pelo diretor de traduzir em imagens distorcidas a mente de seu protagonista não deixa de ser criativa e admirável - ainda que ele tenha alcançado resultado melhor em "Assassinos por natureza" (1994). E ao dar importância suprema a Val Kilmer e seu show particular, Stone relega a segundo plano algumas atuações que mereciam um pouco mais de atenção.


Meg Ryan, por exemplo, é pouco lembrada por seu trabalho como Pamela Courson, a namorada de longo prazo e muitas aventuras de Jim Morrison. Quando fez "Em carne viva", em 2003, a imprensa logo fez questão de destacar sua nudez e sua coragem em romper com a imagem de "namoradinha da América" que havia construído em suas comédias românticas. No entanto, em "The Doors", ela já demonstrava que é capaz de bem mais do que fazer caras e bocas ao lado de Tom Hanks. Não é uma atuação sensacional, mas que prova que o brilho intenso de Kilmer no filme fez sombra a todas as qualidades do filme.

E "The Doors" tem inúmeras delas. Desde a parte técnica impecável (a edição caprichada já é marca registrada de Stone) até a trilha sonora apropriada (Doors do início ao fim, sempre com a música certa na hora certa) tudo no filme funciona para os aficcionados da banda, que não se cansam de assistí-lo. No entanto, para quem não nutre o mesmo entuasiasmo por Morrison e seus companheiros, é apenas um filme bem realizado, apaixonado e criativo, que parece longo demais.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO

ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. M...