Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
quarta-feira
SIMPLESMENTE COMPLICADO
SIMPLESMENTE COMPLICADO (It's complicated, 2009, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Nancy Meyers. Fotografia: John Toll. Montagem: Joe Hutsching, David Moritz. Música: Hans Zimmer, Heitor Pereira. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Beth Rubino. Produção executiva: Suzanne Farwell, Ilona Herzberg. Produção: Nancy Meyers, Scott Rudin. Elenco: Meryl Streep, Alec Baldwin, Steve Martin, John Krasinski, Rita Wilson, Mary Kay Place, Zoe Kazan. Estreia: 10/12/09
É impressionante como Alec Baldwin conseguiu transformar o que parecia uma carreira acabada em uma bem-sucedida sucessão de prêmios, indicações e elogios da crítica e do público. Desde que foi indicado ao Oscar de coadjuvante por "The cooler", em 2004, o ex-marido de Kim Basinger colecionou Golden Globes e troféus afins graças a sua atuação na ótima série "30 Rock". Uma prova de sua boa fase? Ele rouba descaradamente a cena de Steve Martin em "Simplesmente complicado", de Nancy Meyers, e só não pega o filme e bota no bolso porque quem está a seu lado é Meryl Streep e ainda está pra estrear no cinema alguém que seja capaz disso.
Em "Simplesmente complicado", Baldwin e Streep vivem um ex-casal, divorciado há dez anos e pais de três jovens. Enquanto ele, Jake, seguiu sua vida, casando-se novamente, com uma mulher muitos anos mais nova e mãe de um pirralho insuportável de cinco anos, ela, Jane, tentou recomeçar como pode. Abriu uma confeitaria, tem boas amigas e finalmente está prestes a iniciar uma esperada reforma em sua casa, apesar de ter uma vida romântica e sexual nula. As coisas começam a mudar quando o arquiteto de sua reforma, o também divorciado Adam (Steve Martin) passa a dar sinais de que está interessado nela justamente quando seu ex-marido descobre, do nada, que ainda a ama. Sem saber exatamente o que fazer, Jane, que nutre por Jake sentimentos dúbios de amor e rancor, se entrega a um relacionamento ilícito e secreto com o pai de seus filhos.
Parece sério, e no fundo é. O roteiro de Nancy Meyers toca em assuntos sensíveis - divórcios doloridos, solidão, medo da velhice - mas o faz de maneira tão divertida que é difícil não abrir o coração e dar boas risadas. Assim como o fez divinamente em "Alguém tem que ceder", a diretora conta uma história de amor entre pessoas que fogem dos padrões de juventude e beleza impecável. As cenas de amor entre Meryl Streep e Alec Baldwin não são envoltas em fumaça, filtros de luz e lençóis esvoaçantes e sim, são instrumentos que ela utiliza para contar sua história e provocar gargalhadas saudáveis e legítimas - e não são apenas gargalhadas femininas, como normalmente acontece em filmes assim, "de mulherzinha". A química entre os protagonistas é impecável, o que relega Steve Martin a um surpreendente segundo plano - se bem que, sumido como estava, até foi uma boa oportunidade para ele voltar à ativa.
"Simplesmente complicado" rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias americanas, o que comprova que ainda existe gente que gosta de filmes que que falam a pessoas normais acima de 18 anos (pelo menos mentalmente acima de 18 anos). Seu sucesso é, também e acima de tudo, merecido. É uma comédia romântica, sim, e não se deve exigir dela muito mais do que ela pode oferecer, mas é inteligente, realmente engraçada - com alguns diálogos especialmente hilários - e interpretada por quem entende de verdade do negócio (o genro de Streep no filme é vivido por John Krasinski, da hilariante série "The office"). Comédia é coisa séria! E que bom que Meryl Streep consegue brindar seu fiel público cada vez mais com papéis luminosos ao lado de petardos como "Dúvida".
terça-feira
QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (Slumdog millionaire, 2008, Fox Searchlight Pictures, 120min) Direção: Danny Boyle. Roteiro: Simon Beaufoy, romance "Q & A", de Vikas Swarup. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Chris Dickens. Música: A.R. Rahman. Figurino: Suttirat Anne Larlarb. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: Tessa Ross, Paul Smith. Produção: Christian Colson. Elenco: Dev Patel, Frieda Pinto, Anil Kapoor. Estreia: 30/8/08 (Festival de Teluride)
10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho", "O Saya"), Mixagem de Som, Edição de Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Danny Boyle), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Jai Ho"), Mixagem de Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Drama, Diretor (Danny Boyle), Roteiro, Trilha Sonora Original
Às vezes é bastante difícil entender o que se passa pelas cabeças dos membros da Academia de Hollywood. Frequentemente acusada de premiar obras menores – leia-se filmes que não ameacem o status quo ou provoquem polêmicas – ela, vez ou outra, acaba surpreendendo com suas escolhas. Foi o que aconteceu na cerimônia do Oscar 2009. Enquanto o belo “O curioso caso de Benjamin Button” aparecia como grande favorito, com 13 indicações, um azarão foi, aos poucos, ganhando a preferência dos eleitores. Dirigido por um escocês, filmado na Índia e estrelado por atores locais desconhecidos do grande público ocidental, “Quem quer ser um milionário?” chegou de mansinho e abocanhou oito Oscar – incluindo as cobiçadas estatuetas de melhor filme, diretor e roteiro adaptado – deixando pra trás seu ambicioso, caro e espetacularmente hollywoodiano concorrente estrelado por Brad Pitt. Mas por que será que a saga do jovem Jamal comoveu tanto a Academia a ponto de transpor a barreira da cultura, da língua (20% do filme é falado em hindi, o idioma oficial da Índia) e dos próprios produtores que chegaram a cogitar a hipótese de lançar o filme diretamente em dvd?
Em primeiro lugar é preciso que se saiba que o diretor responsável por essa ousadia comercial é o escocês Danny Boyle, que começou sua carreira da melhor forma possível, com os sucessos “Cova rasa” e “Trainspotting, sem limites” e depois foi perdendo a mão em fracassos críticos e comerciais como “Por uma vida menos ordinária” e “A praia” – no qual trocou seu tradicional protagonista Ewan McGregor pelo hypado Leonardo DiCaprio e deu com os burros n’água – literalmente. Exímio contador de histórias (fato que já não era tão óbvio graças a seus filmes menos felizes), Boyle encontrou no romance de Vikas Swarup, “Q&A”, o material perfeito para que ele pudesse utilizar sua criatividade sem a pressão de um grande estúdio (o filme foi financiado pelo braço independente da Warner) e, melhor ainda, explorar artisticamente uma cultura riquíssima e pouco conhecida pelos frequentadores de cinema que lotam as salas para ver atrocidades como “Transformers”. Livre das amarras que um grande orçamento e grandes astros fatalmente trariam, o cineasta voltou à sua melhor forma e, se não criou um legítimo filme como aqueles que a indústria indiana de cinema, a Bollywood – capaz de lançar centenas de filmes por ano, sempre seguindo a mesma e bem-sucedida fórmula – ao menos fez uma bela e competentíssima homenagem.
A história imaginada por Swarup sofreu consideráveis alterações em seu caminho para as telas graças à imaginação do roteirista inglês Simon Beaufoy, que mudou o nome do protagonista, sua trajetória e incluiu na trama uma história de amor bastante diferente da contada no livro. Aqueles que leram o livro e esperam fidelidade de sua adaptação cinematográficas devem ter espumado de raiva, mas o fato é que, da maneira como é contado por Beaufoy e Danny Boyle, “Quem quer ser um milionário?” consegue a proeza de ser engraçada, romântica e comovente – e também mostrar uma chocante realidade de diferenças sociais que não difere muito do Brasil.
E qual é essa história que tanto agradou à Academia? Bem, quando o filme começa, o jovem Jamal (interpretado por Dev Patel, que depois chegou a trabalhar em Hollywood, no filme “O excêntrico Hotel Marigold”) está sendo brutalmente espancado e torturado em um escritório. Ele está a um passo de tornar-se milionário ao responder corretamente as perguntas de um programa de tv chamado justamente “Quem quer ser um milionário?” e seus algozes, não acreditando que um rapaz com pouco estudo e de uma classe social tão baixa possa estar chegando tão perto do grande prêmio de um milhão de rúpias. A partir daí, Jamal passa a recordar toda a sua vida, desde a infância passada nas favelas até o momento em que chegou ao programa de tv – dando especial importância a seu relacionamento amoroso com a bela Latika (Frieda Pinto, também roubada por Hollywood, onde fez “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”, de Woody Allen), que, afinal de contas, é a principal razão pela qual ele está passando por tantos apuros.
Utilizando a narrativa fora de ordem cronológica como uma ferramenta a mais para contar sua história e não como simples artifício de cineastas ansiosos por demonstrar seu talento e criatividade, Boyle embaralha suas cartas de maneira a prender a atenção do espectador até a sequência final – talvez a maior influência do cinema de Bollywood em seu filme – que encerra uma história de amor e superação com um contagiante bom-humor. Não foi à toa que “Quem quer ser um milionário?” seduziu o mundo todo. Com seu perfeito equilíbrio entre ousadia e uma história que (apesar da diferença geográfica) faz sentido em qualquer parte do mundo, é um filme que mostra que nem só de super-produções vive a Academia de Hollywood. O único senão disso tudo é que o extraordinário “O curioso caso de Benjamin Button” teve que contentar-se com apenas 3 Oscar técnicos. Coisas da vida!
E qual é essa história que tanto agradou à Academia? Bem, quando o filme começa, o jovem Jamal (interpretado por Dev Patel, que depois chegou a trabalhar em Hollywood, no filme “O excêntrico Hotel Marigold”) está sendo brutalmente espancado e torturado em um escritório. Ele está a um passo de tornar-se milionário ao responder corretamente as perguntas de um programa de tv chamado justamente “Quem quer ser um milionário?” e seus algozes, não acreditando que um rapaz com pouco estudo e de uma classe social tão baixa possa estar chegando tão perto do grande prêmio de um milhão de rúpias. A partir daí, Jamal passa a recordar toda a sua vida, desde a infância passada nas favelas até o momento em que chegou ao programa de tv – dando especial importância a seu relacionamento amoroso com a bela Latika (Frieda Pinto, também roubada por Hollywood, onde fez “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”, de Woody Allen), que, afinal de contas, é a principal razão pela qual ele está passando por tantos apuros.
Utilizando a narrativa fora de ordem cronológica como uma ferramenta a mais para contar sua história e não como simples artifício de cineastas ansiosos por demonstrar seu talento e criatividade, Boyle embaralha suas cartas de maneira a prender a atenção do espectador até a sequência final – talvez a maior influência do cinema de Bollywood em seu filme – que encerra uma história de amor e superação com um contagiante bom-humor. Não foi à toa que “Quem quer ser um milionário?” seduziu o mundo todo. Com seu perfeito equilíbrio entre ousadia e uma história que (apesar da diferença geográfica) faz sentido em qualquer parte do mundo, é um filme que mostra que nem só de super-produções vive a Academia de Hollywood. O único senão disso tudo é que o extraordinário “O curioso caso de Benjamin Button” teve que contentar-se com apenas 3 Oscar técnicos. Coisas da vida!
segunda-feira
NOVIDADES NO AMOR
NOVIDADES NO AMOR (The rebound, 2009, The Film Company, 95min) Direção e roteiro: Bart Freundlich. Fotografia: Jonathan Freeman. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Clint Mansell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Ford Wheller/Carolyn Cartwright. Produção executiva: Michael Goguen, Neil Sacker. Produção: Bart Freundlich, Mark Gill, Robert Katz, Tim Perell, Mario Zvan. Elenco: Catherine Zeta-Jones, Justin Bartha, Art Garfunkel, Joanna Gleeson, Sam Robards. Estreia: 16/9/09 (México)
Tirando o fato de que parte de uma premissa um tanto absurda - Catherine Zeta-Jones como uma mulher traída pelo marido - a comédia romântica "Novidades no amor" não deixa de ser um passatempo competente para quem gosta do gênero. Quem não tem paciência para mais uma história de amor com pitadas de humor, porém, provavelmente irá se aborrecer nos primeiros trinta minutos. Mesmo simpático e conduzido com mão leve pelo diretor e roteirista Bart Freundlich (que por trás das câmeras também atende por Sr. Julianne Moore), o filme não acrescenta nada ao gênero, apresentando sem vergonha todos os clichês possíveis - e muitos deles inclusive utilizados também em "Terapia do amor", com Meryl Streep e Uma Thurman, com quem compartilha a narração de um romance entre uma mulher mais velha com um jovem judeu que não consegue sair da barra da saia da mãe.
"Novidades no amor" já começa com o desmoronamento da vida perfeita de Sandy (Zeta-Jones, bela e luminosa), que descobre a infidelidade do marido com quem mantinha um casamento de comercial de margarina. Decepcionada e extremamente magoada, ela resolve tentar um recomeço em Nova York (onde mais?), levando a tiracolo os dois filhos pequenos. Logo que arruma um emprego (sem maiores dificuldades, o que já compromete um pouco a verossimilhança da trama), ela passa a contar com a ajuda de uma surpreendente babá: o jovem Aram (Justin Bartha, o noivo de "Se beber, não case"), que trabalha no café localizado debaixo do apartamento onde passa a morar. As crianças adoram o rapaz, que sofre com a pressão dos pais (a ótima Joanna Gleason e o músico Art Garfunkel) para encontrar um emprego decente e que lhe deixe com um melhor status. Machucado pelo fim de seu casamento - a noiva queria apenas um green card - Aram dedica quase todo seu tempo livre cuidando dos filhos de Sandy, até que o inevitável (e previsível) acontece: os dois se apaixonam perdidamente.
É difícil não simpatizar com "Novidades no amor". Mesmo que cada cena dê a impressão de já ter sido vista antes - apenas com outros atores - o roteiro leve e bem-humorado de Freundlich consegue anular o fato de que, a bem da verdade, nele não existe nada de novo. Porém, é inegável que a química entre Justin Bartha e os atores mirins é verdadeira e que o romance entre os protagonistas, apesar da previsibilidade, convence, graças ao esforço dos atores. Bartha cria um Aram apaixonante e Zeta-Jones mostra, mais uma vez, que por trás de uma beleza estonteante, existe uma atriz capaz de transitar entre o drama e a comédia com a mesma desenvoltura. Mesmo quando Sandy começa a questionar o futuro de seu novo relacionamento - e o filme ameaça assumir uma seriedade da qual parecia fugir - a ex-mulher de Michael Douglas sai-se muito bem, dando a medida exata de cada sentimento.
Sério candidato a frequentador assíduo de futuras sessões da tarde, "Novidades no amor" é um passatempo agradável, que não ofende a inteligência nem tampouco busca ser reconhecido como um grande filme. É só mais uma história de amor tendo Nova York como cenário. Para muitos espectadores é o que basta.
sexta-feira
NINE
NINE (Nine, 2009, The Weinstein Company, 118min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella, musical de Arthur Kopit, Maury Yeston, original de Mario Fratti. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Claire Simpson, Wyatt Smith. Música: Andrea Guerra. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gordon Sim. Produção executiva: Kelly Carmichael, Michael Dreyer, Ryan Kavanaugh, Tucker Toooley, Bob Weinstein. Produção: John DeLuca, Rob Marshall, Marc Platt, Harvey Weinstein. Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Nicole Kidman, Penelope Cruz, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Fergie Duhamel. Estreia: 03/12/09
4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Take it all")
4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Penelope Cruz), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Take it all")
Tinha tudo para ser um espetáculo irretocável. Na direção, o
homem responsável por carimbar o passaporte dos filmes musicais em direção às
boas graças definitivas da crítica, do público e da Academia com o genial
“Chicago”. Na liderança do elenco, um dos mais prestigiados e admirados atores
de sua geração, Daniel Day-Lewis. Como as mulheres que o rodeiam desde a
infância, uma seleção das melhores e mais importantes atrizes em atividade
(desde as veteranas Judi Dench e Sophia Loren até a cantora pop Fergie,
passando pelas oscarizadas Nicole Kidman, Penélope Cruz e Marion Cottilard).
Como cenário, a velha Itália dos anos 60, em especial a antológica Cinecittá –
palco dos maiores clássicos cinematográficos do país. E como trama, a adaptação
de um sucesso da Broadway que homenageia um dos filmes mais aplaudidos do
incensado Federico Fellini, o autobiográfico “8 ½”. Por que, então, com todos
esses elementos infalíveis à disposição, o esperado “Nine” resultou tão morno?
Tido como um dos favoritos ao Oscar 2010 antes mesmo de sua estreia, o filme de
Rob Marshall – que fez barba, cabelo e bigode com seu “Chicago”, na cerimônia
de 2003 – acabou decepcionando ao ficar de fora da lista nas categorias
principais e, pior ainda, nem de longe repetir o êxito do musical anterior de
seu diretor. Quando se assiste ao filme, porém, é impossível não perceber seu
calcanhar de Aquiles. Apesar de plasticamente deslumbrante, “Nine” falha
justamente no ponto central de um musical: suas canções.
Sem o
deboche e a ironia que inundavam cada número musical de “Chicago”, Rob Marshall
segue o caminho consagrado pelos palcos da Broadway e imprime a “Nine” um tom
de seriedade nostálgica e auto-penitente que, não estivessem presentes em um
musical, poderiam fazer do filme uma obra-prima. O problema é que, sempre que
alguém começa a cantar – mesmo quando é Penélope Cruz exalando sensualidade ou
Marion Cottilard injetando profundidade e angústia em uma personagem pouco
desenvolvida por um roteiro que também peca pela superficialidade – o ritmo é
seriamente comprometido. A edição – precisa em alguns momentos e seriamente
equivocada em outros, quando desvaloriza algumas coreografias que precisavam
ser mostradas na íntegra como forma de encantar a audiência – não dá conta em
costurar todos os retalhos de memória de seu protagonista, truncando a
agilidade da narrativa ao invés de empurrá-la para a frente. Diante disso, nem
mesmo a brilhante direção de arte e os figurinos luxuosos (ambos merecidamente
lembrados pela Academia) conseguem disfarçar a sensação de monotonia que
percorre boa parte da projeção – a despeito de seu elenco empolgante e
esforçado.
Daniel
Day-Lewis, por exemplo, está mais uma vez estupendo. Ele vive Guido Contini, um
cineasta consagrado que, em vias de começar seu novo trabalho – o nono junto
com seu fiel produtor, daí o título original – se vê diante de uma situação até
então inédita para ele: um colossal bloqueio criativo. Seu filme já tem título
definido – “Itália” – uma protagonista escolhida – a bela e popular Claudia
Jenssen (Nicole Kidman) – e uma equipe técnica pronta a começar os trabalhos,
mas Guido, pressionado pelos executivos da indústria, pela amante casada ,
Claudia (Penélope Cruz) e pela esposa amorosa, Luisa (Marion Cottilard), não
consegue nem ao menos começar a escrever o roteiro ou pensar em uma trama. Seu
dilema – o mesmo que o personagem de Marcello Mastroianni vivia em “8 ½” –
acaba por levá-lo a uma viagem inconsciente para dentro de suas memórias, o que
fatalmente o põe diante de personagens femininas fortes e formadoras de sua
personalidade, como a prostituta Saraghina (Fergie) – que encantava seus dias
de criança – e sua calorosa mãe (Sophia Loren).
Não há nada de errado na forma como a trama intercala a
realidade de Guido (um personagem torturado pela culpa católica e ao mesmo
tempo incapaz de resistir às tentações libidinosas que cruzam seu caminho) com sua
imaginação delirante – a atuação de Daniel Day-Lewis, aliás, é formidável,
arriscando-se mais uma vez em um gênero até então inédito em sua carreira – nem
mesmo o médico mulherengo de “A insustentável leveza do ser” (1988) era capaz
de esconder, por medo da danação religiosa, o crucifixo de uma pensão barata na
hora de transar com a amante. Porém, não há, no repertório do filme, nenhuma
canção forte o bastante para empolgar a plateia, como havia, por exemplo, em
“Chicago”. Marshall mantém seu extremo bom-gosto na ambientação de seu trabalho
– a fotografia de Dion Beebe é um desbunde, sempre surpreendendo o público com
ângulos e iluminações sofisticadas e classudas – mas frequentemente perde a mão
no ritmo que impõe à sua narrativa. Mais uma vez ele recorre ao artifício
(inteligente e eficaz) de situar os números musicais dentro da mente do
protagonista – e como aqui trata-se de um cineasta, nada mais natural que ele
veja tudo com luxo e glamour – mas dessa vez não há a ironia marota com que
Roxy Hart enxergava as coisas em “Chicago”. E isso faz uma tremenda falta,
ainda que a proposta de “Nine” seja, a rigor, bastante distinta de seu irmão
mais velho.
Mas seria
injusto falar em “Nine” sem destacar suas (muitas) qualidades. Mesmo que o
elemento principal (a música) seja um tanto quanto enfadonho, o visual
elaborado por Marshall e seus colaboradores é espantoso. Filmado na própria
Cinecittá, “Nine” tem, em seu visual e seu espírito, a elegância e a sutileza
do cinema europeu do período que retrata, seja no guarda-roupa detalhista ou
nos cenários meticulosos capazes de encher os olhos da mais descolada plateia. Todos
as apresentações musicais (aquelas mesmas que a edição por vezes picota para
imprimir agilidade e acaba por enfraquecer) são bem coreografadas e
interpretadas por atrizes tão talentosas que extraem o melhor de cada
personagem para apresenta-las ao público como figuras interessantes (até a
veneranda Judi Dench canta e dança, na pele de Lily, figurinista e confidente
de Guido). Nicole Kidman – cujos dotes vocais já foram vistos e aprovados
anteriormente em “Moulin rouge: o amor em vermelho” – está linda e delicada
como a atriz desejada pelo diretor. Penélope Cruz quase rouba a cena como a
amante sexy que dança lençóis de seda e tenta o suicídio (foi indicada ao Oscar
de coadjuvante). Kate Hudson (na única personagem um tanto avulsa da trama) tem
o número mais animado do filme, “Cinema italiano”. E Fergie usa e abusa de seus
dotes de cantora pop para fazer das cenas de sua amante profissional um
espetáculo energético e de extrema competência visual. Mas é Marion Cottilard
quem dá o que falta a boa parte do vistoso filme de Rob Marshall: alma.
Dona de
olhos expressivos e uma beleza delicada, a francesa Cottilard – que se
transfigurou na cantora Edith Piaf e ganhou um Oscar merecidíssimo de melhor
atriz por isso – serve como o contraponto romântico e pé no chão a seu
artístico marido. Na pele de uma mulher que abandonou a carreira de atriz para
viver para um marido pouco afeito à fidelidade conjugal, ela é dona de dois
números musicais (uma das canções, “Take it all”, feita especialmente para o
filme, concorreu ao Oscar) e de alguns dos diálogos mais fortes do filme –
“Obrigada por me fazer ver que não sou especial!”, ela vomita ao perceber que
nem mesmo os gestos românticos do início da relação entre eles eram exclusivos
dela. Cottilard dá substância e emoção real à “Nine”, lembrando ao espectador
que, mesmo por baixo da suntuosidade e da pompa criada pelo cinema, os
sentimentos ainda são a melhor matéria-prima para uma boa história.
quinta-feira
O MENSAGEIRO
O MENSAGEIRO (The messenger, 2009, Oscilloscope Laboratories, 113min) Direção: Oren Moverman. Roteiro: Oren Moverman, Alessandro Camon. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Alex Hall. Música: Nathan Larson. Figurino: Catherine George. Direção de arte/cenários: Stephen Beatrice/Cristina Casanas. Produção executiva: Steffen Aumuller, Claus Clausen, Ben Goldhirsh, Christopher Mapp, Shaun Redick, Glenn M. Stewart, Matthew Street, David Whealy, Bryan Zuriff. Produção: Mark Gordon, Lawrence Inglee, Zach Miller. Elenco: Ben Foster, Woody Harrelson, Jena Malone, Samantha Morton, Eamonn Walker, Steve Buscemi, Brendan Sexton III. Estreia: 19/01/09 (Festival de Sundance)
2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Woody Harrelson), Roteiro Original
O tema de "O mensageiro" é, de certa forma, a guerra do Iraque. No entanto, ela não aparece em nenhum fotograma. Ela é, isso sim, um fantasma que assombra suas personagens, afetadas direta ou indiretamente por sua aura violenta e absurda. O protagonista do filme é o jovem Sargento Will Montgomery (em uma assombrosa atuação de Ben Foster, injustamente esquecido em cerimônias de premiação). Depois de um acidente em combate - que lhe prejudica a visão - ele recebe a missão dolorosa de, ao lado do Capitão Tony Stone (Woody Harrelson, indicado ao Oscar de coadjuvante), ser o responsável por dar as trágicas notícias de baixas na guerra aos familiares das vítimas. Sem saber como lidar friamente com todas as cenas tristes que passa a testemunhar e trocado pela namorada (Jena Malone), ele acaba se envolvendo emocionalmente com Olivia Pitterson (a sempre ótima Samantha Morton), viúva de um soldado e mãe de um filho pequeno. Enquanto luta com essa questão ética, não percebe que seu colega voltou a se entregar ao alcoolismo.
Como dito anteriormente, "O mensageiro" é um filme de guerra sem cenas de batalha. As únicas guerras mostradas na obra são aquelas travadas dentro da cabeça de seus protagonistas, que, humanamente, não sabem como acostumar-se à dor e ao desespero. A luta pela sanidade é quase inglória, que os leva ao álcool, à auto-destruição e à carência extrema. É um filme de silêncios, de dramas íntimos, construído em detalhes e grandes atuações. As cenas em que os dois protagonistas dão as tristes notícias às famílias são exemplos de sutileza e elegância. Emocionam e nunca caem no piegas.
E o elenco merece um capítulo à parte. Enquanto Woody Harrelson tenta dar um novo impulso à carreira vivendo uma personagem distante de seus adoráveis bobalhões e Samantha Morton mais uma vez mostra porque é uma atriz ainda subaproveitada, é Ben Foster que domina o filme, com um trabalho impecável. Seu olhar, seu jeito de andar, sua voz, tudo é instrumento para que ele assuma a personalidade de Will Montgomery, um jovem envelhecido pelas atrocidades de uma guerra desnecessária e cruel e que tenta encontrar uma razão para seguir a vida.
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