terça-feira

CARTAS PARA JULIETA

CARTAS PARA JULIETA (Letters for Juliet, 2010, Summit Entertainment, 105min) Direção: Gary Winick. Roteiro: José Rivera, Tim Sullivan. Fotografia: Marco Pontecorvo. Montagem: Bill Pankow. Música: Andrea Guerra. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Alessandra Querzola. Produção executiva: Ron Schmidt. Produção: Ellen Barkin, Mark Canton, Caroline Kaplan. Elenco: Amanda Seyfried, Vanessa Redgrave, Gael Garcia Bernal, Franco Nero, Christopher Egan. Estreia: 25/4/10 (Tribeca Festival)

Escrita no século XVI pelo inglês William Shakespeare, a tragédia romântica “Romeu e Julieta” ainda parece ser, quase quinhentos anos depois, um manancial inesgotável de inspiração para o cinema. Não apenas adaptações fiéis da obra (como a de Franco Zefirelli, lançada em 1968), releituras musicais (“Amor, sublime amor”, vencedor de dez Oscar em 1960) e versões de ousadia visual (a interpretação lisérgica apresentada pelo australiano Baz Luhrmann em 1996) surgem volta e meia para conquistar novas plateias, mas também variações sobre o mesmo tema confirmam a influência indelével à cultura popular do drama adolescente que contrapõe a pureza do amor aos malefícios do ódio cego. Um exemplo claro e inequívoco dessa afirmação é o simpático e doce “Cartas para Julieta”, que, a rigor, não tem nada a ver com o texto do mais famoso bardo do teatro mundial, mas deve a ele seu mote central – e com ele divide o belo cenário italiano.
Dirigido por Gary Winick – especialista em comédias românticas que comandou o divertido “De repente 30” – “Cartas para Julieta” não é exatamente criativo e/ou imprevisível, mas tem a seu favor o carisma de sua atriz central (Amanda Seyfried, a filha de Meryl Streep em “Mamma mia” e estrelinha do açucarado “Querido John”) e o talento sempre impressionante de uma coadjuvante de luxo que valoriza qualquer filme, a intensa Vanessa Redgrave. São as duas atrizes – a juventude contagiante de uma e a competência imponente da outra - que dão consistência a um conto sobre a busca pelo amor e a imortalidade dos sentimentos. Tendo em mãos um roteiro simples e bem-humorado – um de seus autores, José Rivera, concorreu ao Oscar por “Diários de motocicleta” – e o estonteante visual do interior da Itália com suas paisagens deslumbrantes, Winick não tem muito trabalho em conquistar a plateia, especialmente aquela formada pelos românticos de plantão que sempre fazem a glória do gênero. 



A protagonista do filme é Sophie (Amanda Seyfried), que trabalha como pesquisadora na revista New Yorker e tem como maior ambição tornar-se escritora – ainda que não seja levada a sério por seu editor (Oliver Platt) e passe os dias checando fatos para reportagens alheias. Quando o filme começa, Sophie está saindo de férias com o noivo, Victor (Gael García Bernal), para uma espécie de lua-de-mel antecipada, já que o rapaz está em vias de abrir um restaurante e passa os dias dedicado aos preparativos para o evento. O desejo de Sophie de passar uma temporada romântica com Victor em Verona é frustrado logo que o casal chega na Itália: obcecado com trabalho, o rapaz sai de degustações de queijos e vinhos para reuniões e visitas profissionais ao interior do país. Mesmo decepcionada com a situação, a jovem incentiva o amado em suas excursões, mas resolve usar seu tempo em outros programas. Um deles a leva até à Casa de Julieta, um sobrado que há anos serve de cenário para procissões de jovens enamoradas que, inspiradas pela famosa personagem shakespereana, deixam em suas paredes, cartas pedindo conselhos e ajuda em seus dramas amorosos. Curiosa, Sophie descobre que todas as cartas com endereço são respondidas por um grupo de voluntárias e de repente vê-se unindo-se a elas na função. Para sua surpresa, logo ela encontra uma carta escrita em 1951 por uma inglesa desesperada por estar se separando do homem que amava – italiano – por questões familiares. Dotada de um vigoroso espírito romântico, Sophie responde a carta.
Para surpresa de todas as voluntárias, porém, a resposta acaba por acarretar uma inesperada consequência: poucos dias depois, chega ao local a delicada Claire Smith (Vanessa Redgrave), a autora da carta, que, incentivada pelas palavras de Sophie, decidiu voltar à Itália depois de cinquenta anos com a intenção de procurar o homem que deixou para trás, o seu amado Lorenzo. Excitada com a ideia de acompanhar Claire em sua busca – e escrever sua história – Sophie bate de frente com o ranzinza Charlie (Christopher Egan), neto da velha senhora que não vê com bons olhos a ideia da avó correndo atrás de um passado tão remoto. As faíscas que surgem entre Sophie e Charlie não passam despercebidas por Claire, que, mesmo incansável em sua missão de reencontrar Lorenzo – uma missão nada desprezível, já que vários homônimos cercam a região – não deixa de questionar a decisão da jovem amiga em manter o noivado com um homem que não parece dedicar a ela todo o tempo e carinho que deveria.
Não se deve esperar grandes profundidades psicológicas ou debates sérios em “Cartas para Julieta”. O objetivo do filme é unica e simplesmente divertir o espectador, fazendo-o viajar pelas fotogênicas estradas italianas enquanto conta duas histórias de amor simultâneas, capazes de encantar duas gerações distintas da plateia. Em contraponto ao amor imortal e reprimido entre Claire e Lorenzo (interpretado pelo marido de Redgrave na vida real, o ator Franco Nero), o roteiro apresenta o nascente romance entre Sophie e Charlie, que começa com uma certa antipatia – um clichê que sempre funciona às mil maravilhas – e vai se tornando, com o passar do tempo, em uma paixão dócil e suave que contrasta com o relacionamento quase fraterno entre a jovem e Victor. Mesmo que o filme se estenda mais do que o necessário e insista em um ato final que apela para o pouco criativo artifício de um mal-entendido para dificultar o final feliz que todos sabem que virá, é um exemplar digno de um gênero que não costuma produzir obras muito marcantes. O único senão é o sub-aproveitamento de Gael García Bernal, um ótimo ator que não tem muito o que fazer em cena, relegado a um ingrato papel de coadjuvante pouco interessante. De resto, um romance sem contra-indicações para quem acredita no amor.

segunda-feira

AMOR & OUTRAS DROGAS

AMOR & OUTRAS DROGAS (Love & other drugs, 2010, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Charles Randolph, Edward Zwick, Marshall Herscovitz, livro "Hard sell: the evolution of a Viagra salesman", de Jamie Reidy. Fotografia: Steven Fierberg. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Patti Podesta/Meg Everist. Produção executiva: Arnon Milchan, Margaret Riley. Produção: Pieter Jan Brugge, Marshall Herscovitz, Charles Randolph, Scott Stuber, Edward Zwick. Elenco: Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt, Hanz Azaria, Judy Greer, Gabriel Match, Josh Gad, George Segal, Jill Clayburgh. Estreia: 04/11/10

Levando-se em consideração que no currículo do cineasta Edward Zwick contam produções ambiciosas e grandiosas como “Tempo de glória” (89), “Lendas da paixão” (95) e “O último samurai” (03), não deixa de ser uma surpresa ver seu nome assinando “Amor & outras drogas”, um filme com elementos bastante díspares daqueles a que ele está acostumado. Baseado em uma história real e misturando comédia, romance e drama em doses bastante equilibradas, o filme, adaptado do livro de Jamie Reidy, acabou decepcionando nas bilheterias, a despeito de sua ascendente dupla central de atores – Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – e dividiu a crítica, que viu com reservas a mistura de gêneros proposta pelo diretor. No entanto, com o tempo é bem provável que o público vá finalmente perceber as inúmeras qualidades de um filme que consegue ser ao mesmo tempo doce, engraçado, triste e dotado de algumas cenas de sexo bastante ousadas – mas que jamais ultrapassam os limites do bom-gosto.
Gyllenhaal vive Jamie Randall, personagem inspirado no autor do livro que deu origem ao filme, “Hard sell: the evolution of a Viagra salesman". Randall começa a trama como um vendedor de aparelhos de som que usa e abusa de seu charme e de seu bom papo para não apenas ser um ótimo negociante mas também para seduzir todas as mulheres que cruzam seu caminho. Demitido depois de seduzir a esposa do chefe e ser flagrado em pleno ato, ele arruma emprego como representante de uma indústria farmacêutica – o que o deixa em posição desconfortável dentro da própria família, que não consegue deixar de vê-lo como alguém desperdiçando seu talento em algo aquém de suas possibilidades. É nessa posição de vendedor de remédios – em busca sempre de uma promoção que o faça vender produtos mais desejados do que os simples antidepressivos com que trabalha – que Jamie conhece a bela Maggie Murdock (interpretada pela bela Hathaway), que além de linda e insaciável, é uma artista plástica talentosa que o surpreende com seus modos pouco convencionais: independente e decidida, ela entra sem medo em um relacionamento baseado unicamente em sexo casual. Aos poucos, porém, Jamie passa a sentir algo único em sua vida: completamente apaixonado, ele leva um choque ao descobrir que o alvo de seu afeto sofre do Mal de Parkinson – ainda inicial, mas já suficientemente capaz de fazer seus estragos.



É a partir dessa descoberta – e de suas consequências logicamente dramáticas – que “Amor & outras drogas” assume um viés completamente distinto de seus dois primeiros terços, banhados em sensualidade e um senso de humor despretensioso (em boa parte graças às intervenções de Josh Gad, no papel do irmão de Jamie): transformando seu filme em um romance ao estilo “Love story”, Edward Zwick corria o sério risco de esbarrar no dramalhão deslavado, mas, para surpresa de muitos e com a ajuda de seus atores, escapa bravamente do piegas. Aproveitando a química impecável entre Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway – casados anteriormente em “O segredo de Brokeback Mountain” – o diretor evita o sentimentalismo barato fugindo de cenas exageradamente dramáticas e apostando no carisma da dupla, em dias inspirados. Gyllenhaal deita e rola com um papel que explora ao máximo sua versatilidade: o jovem ator sai-se bem tanto nos momentos cômicos quanto naqueles que exigem dele mais emoção, e brinda os fãs com cenas pra lá de quentes com Hathaway, que, por sua vez, mostra que é uma das atrizes mais completas de sua geração – vale lembrar que o filme é anterior a seu Oscar de coadjuvante por “Os miseráveis”. Apostando na sutileza, Hathaway rouba a metade final de “Amor & outras drogas”, até então dominado por Gyllenhaal, e o carrega até o final como uma história de amor que equilibra em doses certeiras drama, humor e uma sensualidade das mais excitantes.
Demonstrando um conforto inesperado no comando de uma trama desprovida de cenas épicas de ação, Edward Zwick relembra, em “Amor & outras drogas”, seus tempos como diretor de “Sobre ontem à noite”, que retratava o tortuoso relacionamento entre o então jovem casal Demi Moore e Rob Lowe em 1986. Com uma obra plasticamente atraente e uma trilha sonora adequada e moderna, Zwick conquista a plateia pela simpatia e pela leveza: é impossível não se deixar cativar pela bela e inusitada história de amor entre Jamie e Maggie – que, além de tudo, é real. Uma bela dica para os fãs de Gyllenhaal e Hathaway e para todos que acreditam em um bom romance.

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon ...