terça-feira

MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11

5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem

“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?

Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.

Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.


Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.


A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.

Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.

segunda-feira

A PELE QUE HABITO

A PELE QUE HABITO (La piel que habito, 2011, El Deseo S/A, 120min) Direção: Pedro Almodovar. Roteiro: Pedro Almodovar, Agustín Almodovar, romance "Tarantula", de Thierry Jonquet. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: José Salcedo. Música: Alfredo Iglesias. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Antxon Gómez/Vicente Díaz. Produção: Agustin Almodovar, Esther García. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo. Estreia: 19/5/11 (Festival de Cannes)

Em poucas cinematografias contemporâneas o sublime e o bizarro convivem tão em paz quanto na obra do espanhol Pedro Almodovar. Com mais intensidade em alguns filmes (“Maus hábitos”, “O que fiz eu para merecer isto?”, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Kika”) e mais sutil em outros (“A flor do meu segredo”, “Volver”, “Abraços partidos”), essa mistura aparentemente impossível é uma das características mais marcantes do cineasta, já premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro (por “Tudo sobre minha mãe”) e roteiro original (por “Fale com ela”) e que é normalmente apontado como um especialista em personagens femininas de grande força dramática. Em “A pele que habito”, porém, ele mostra que é plenamente capaz de criar um protagonista masculino igualmente potente, além de experimentar, pela primeira vez em sua carreira, o mergulho em um filme de suspense. Tudo bem que “Matador” e “Má educação” tinham momentos que flertavam com o gênero, mas nenhum deles era tão ostensivamente cruel e sufocante quanto essa adaptação livre do romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet, que mistura elementos de “Frankenstein”, de Mary Shelley e “O colecionador”, de John Fowles, para contar uma história de obsessão e vingança que, no fim das contas, combina à perfeição com a obra que o diretor vem construindo desde a década de 80.
A primeira ligação de “A pele que habito” com o passado de Almodovar vem com o reencontro com Antonio Banderas, ator-fetiche de seus primeiros filmes e com quem não trabalhava desde “Ata-me”, de 1990. Mais velho e mais maduro como ator – ainda que vez por outra escorregue no overacting – Banderas vive Robert Ledgard, um cirurgião plástico respeitado pelos colegas e pelos pacientes que dedica seu tempo ao desenvolvimento de uma pele sintética capaz de resistir a quaisquer tipos de agressão. Suas experiências polêmicas (e contra a lei) tem origem no trauma que viveu com a morte da esposa, vítima de um acidente de carro que a deixou desfigurada e resultou em seu suicídio. A tragédia – que teve ainda uma outra consequência devastadora envolvendo sua única filha – o faz tornar-se um homem obcecado por vingança, que acaba por envolver um jovem Vicente(Jan Cornet) em uma dedicada e violenta experiência.         
Com uma narrativa que usa e abusa de flashbacks que dão ao público a exata noção de causa/consequência dos atos de Robert, “A pele que habito” destoa um tanto dos filmes mais famosos de Almodovar por demorar a estabelecer a real história que deseja contar. É somente aos poucos que o roteiro vai oferecendo à plateia os elementos essenciais à compreensão da extensão da vingança de seu protagonista, um homem que, ao contrário do que dita a cartilha do cinema hollywoodiano, está longe de ser um herói assim como tampouco pode ser considerado um vilão: essa dualidade de seu personagem principal é um dos principais méritos do filme de Almodovar, que mais uma vez confere propriedades humanas a suas criações, livrando-as do maniqueísmo fácil e preguiçoso que domina boa parte do cinema comercial. Robert Ledgard pode ter suas razões para buscar uma vingança, mas a certo ponto da narrativa – graças principalmente à recusa do diretor em injetar uma culpa explícita em ... – é impossível que a plateia não fique em dúvida se tudo não está indo longe demais. E, acreditem, nem Almodovar nem seu protagonista parecem dispostos a poupar ninguém de seu pesadelo estético/sexual, que inclui a bela Vera (Elena Anaya).


O bom-humor tão louvado na obra de Almodovar – que sempre conseguiu alternar riso e lágrimas sem prejuízo do conjunto – praticamente inexiste em “A pele que habito”. Quando tenta dar uma aliviada ao tom extremamente sombrio e doentio da história, acaba por tropeçar – Zeca, o filho brasileiro de Marília (Marisa Paredes, outra habitual colaboradora do cineasta), empregada de Robert e sua aliada/cúmplice, chega à mansão do médico fantasiado de tigre, em uma desnecessária pretensão à comicidade distorcida de seus filmes anteriores. Apesar da presença de Zeca ser o catalisador de eventos que empurram a ação – e dão origem às reminiscências que finalmente explicam os motivos das atitudes do cirurgião – tal artifício soa fora de lugar. Em “Kika” funcionaria. Em “Mulheres à beira de um ataque de nervos” sublinharia o tom debochado. Em “A pele que habito” deixa a impressão de uma piada sem graça e fora de hora. É o único escorregão de um filme que, afora isso, é sufocante e desconfortável como uma visita ao dentista.
Sublinhado pela música tonitruante de Alberto Iglesias e pela cenografia inesperadamente asséptica – uma surpresa em se tratando de uma espécie de embaixador da estética kitsch – “A pele que habito” conduz o espectador a uma viagem por um labirinto de sensações conflitantes e de uma tensão nunca vista antes na obra do diretor. Sem medo de pegar pesado no suspense, Almodovar utiliza todo o seu talento na construção de um pesadelo incomodamente verossímil, apesar do aparente exagero da trama central. Se desperta o riso, é um riso nervoso, reação à crueldade da vingança de Roberto e à forma com que ela é realizada. Nem mesmo quando flerta descaradamente com o melodrama – gênero no qual o diretor é mestre – o filme deixa de ser desconcertante, prova do gênio de seu criador, um cineasta incapaz de gerar um filme medíocre mesmo quando se propõe a testar seus limites.
A crítica não foi tão generosa com “A pele que habito” como foi com as obras-primas de Almodovar – a saber, “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Carne trêmula”, “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela” – e fez malabarismos para ver em seu filme defeitos que em produções hollywoodianas não parecem ser problema algum. Talvez a expectativa gerada pela reunião de Almodovar/Banderas/Marisa Paredes tenha sido seu maior algoz. Mas um dia provavelmente sua incursão no lado mais negro do ser humano até hoje será vista como o excelente filme que é, apesar de seus pecadilhos. “A pele que habito” não é um Almodovar típico – a despeito de seu final irônico - mas é um grande Almodovar.

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon ...