sexta-feira

QUERO MATAR MEU CHEFE

QUERO MATAR MEU CHEFE (Horrible bosses, 2011, New Line Cinema, 98min) Direção: Seth Gordon. Roteiro: Michael Markowitz, John Francis Daley, Jonathan Goldstein, estória de Michael Markowitz. Fotografia: David Hennings. Montagem: Peter Teschner. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Carol Ramsey. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Jan Pascale. Produção executiva: Richard Brener, Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny. Produção: Brett Ratner, Jay Stern. Elenco: Jason Bateman, Jason Sudeikis, Charlie Day, Kevin Spacey, Jennifer Aniston, Colin Farrell, Jamie Foxx, Donald Sutherland, Julie Bowen. Estreia: 08/7/11


A primeira lembrança que vem à mente é a comédia semi-clássica “Como eliminar seu chefe”, a pérola kitsch estrelada por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton na já longínqua década de 80. Porém, apesar do título nacional e da temática semelhante, não há como comparar a quase inocência do filme de Fonda com a coragem desbragada de “Quero matar meu chefe”, lançado pelo cineasta Seth Gordon no rastro do imenso sucesso das chamadas “comédias adultas” que encheram os cofres dos estúdios a partir de “Se beber, não case” e “Missão madrinha de casamento”. Grandes êxitos comerciais e até, condescendentemente, de crítica – o primeiro levou um Golden Globe e o segundo chegou a concorrer a dois Oscar – os filmes que deram suporte a atores como Bradley Cooper e Melissa McCarthy foram os sinalizadores de um tipo de humor que parecia ter ficado no passado, em detrimento de filmes menos agressivos à suscetibilidade de um público cada vez mais conservador – paradoxalmente, enquanto as comédias encaretavam cada vez mais, as produções com doses cavalares de violência extrema tornavam-se progressivamente mais virulentas. Aproveitando o que parecia ser uma certa permissividade em relação ao que poderia ou não soar engraçado aos olhos e ouvidos de uma plateia média, “Quero matar meu chefe” acertou em cheio, misturando em doses exatas piadas no limiar do mau-gosto, humor físico e uma ironia fina – cortesias de um roteiro equilibrado, um ritmo admirável e, a cereja do bolo, um elenco coadjuvante de primeira linha. Não é de surpreender que tenha deixado os executivos da Warner com um sorriso de orelha a orelha – a ponto de uma continuação muito inferior ter surgido dois anos depois.
Enquanto no filme de 1981, as moçoilas vividas por Fonda, Tomlin e Parton eram secretárias que, cansadas das humilhações diárias impostas por seu patrão imaginavam maneiras de eliminá-lo dentro de um humor ingênuo e apropriado à fama de suas atrizes centrais, em “Quero matar meu chefe” a sutileza dá lugar ao escracho puro e simples, em uma sucessão de tiradas hilariantes que não poupam nada nem ninguém – e dá-lhe citações a filmes famosos (“Pacto sinistro”, de Hitchcock, à frente), personagens de quadrinhos (“Demita o Professor Xavier!”, dispara o cruel Colin Farrell, referindo-se a um funcionário cadeirante) e diálogos sem meias-palavras travadas entre a até então pudica Jennifer Aniston e seu assistente tímido e apavorado com o assédio. Tendo como um dos produtores o também cineasta Brett Ratner – de “X-Men: o confronto final”, entre outros – o filme de Gordon faz rir tanto aqueles que preferem um humor verbal menos óbvio quanto aqueles que buscam na comédia uma forma de desligar o cérebro para rir das próprias desgraças. Em outras palavras, é um filme sem contra-indicações.



Nick (Jason Bateman, com ótimo timing cômico) vive para o trabalho, tendo abdicado de toda e qualquer outra atividade há oito anos, com o claro objetivo de ser promovido e melhorar a qualidade de vida. Seus planos vão por água abaixo, porém, quando seu chefe, Harken (Kevin Spacey), resolve dar o cargo de vice-presidente de vendas a ele mesmo – acumulando assim duas funções e dois salários, não sem antes humilhar o funcionário e chantageá-lo com a ameaça de destruir seus futuros planos profissionais. Kurt (Jason Sudeikis) é um mulherengo contumaz que adora o trabalho em uma indústria química e o patrão (Donald Sutherland), mas quando este morre e deixa como herdeiro seu único filho, o agressivo, viciado em cocaína e egoísta Pellit (Colin Farrell), sua rotina vira de cabeça pra baixo – o novo diretor da empresa não hesita em contratar serviços mais baratos nem que tenha que sacrificar trabalhadores escravos, e deseja cortar as gorduras nos gastos da companhia (“Demita os gordos!”, declara sem pena). E Dale (Charlie Day, irresistível) é um rapaz romântico que acaba de ficar noivo e que sofre com o violento assédio sexual que sofre da patroa, a ninfomaníaca (Jennifer Aniston), que não hesita em deixar bem claro que, caso eles não transem antes do casamento, a cerimônia pode nem mesmo acontecer. Dale, coitado, nem mudar de emprego consegue: fichado na polícia como criminoso sexual por ter urinado em um parque infantil à noite (com o local deserto!!), ele é incapaz de arrumar uma posição melhor do que assistente de dentista.
Sofrendo com suas vidas profissionais, os três amigos resolvem, então – depois de chegarem à conclusão de que buscar um novo posicionamento no mercado é algo pouco encorajador em sua idade – tomar uma atitude drástica: assassinar seus patrões. A idéia, surgida no meio de uma bebedeira, toma ares de um plano real quando eles procuram um “assessor para assassinatos”, o misterioso Motherfucker Jones (Jamie Foxx), que lhes dá as diretrizes básicas do projeto: cada um irá matar o chefe do outro, para afastar suspeitas. E é aí que começa a bagunça: as particularidades de cada uma das possíveis vítimas vão sendo arquivadas mentalmente pelo trio de homicidas novatos e, como se poderia esperar de uma comédia, nada sai conforme o planejado e sequências divertidíssimas acompanham a aventura dos pobres assalariados: desde a invasão da casa de Pellit – quando eles encontram uma decoração absurdamente cafona e uma quantidade bizarra de cocaína – até o encontro acidental entre Dale e Harken na frente de sua mansão, que culmina com um bizarro caso de ressuscitação médica, Seth Gordon entrega ao público uma sucessão de situações bem amarradas e sinceramente engraçadas, capaz de fazer rir até o mais cínico espectador – e nem mesmo o final pouco criativo consegue diminuir a qualidade do filme.
Mas, como não poderia deixar de ser, um roteiro inspirado não seria o bastante se o elenco não correspondesse a ele. Se o trio de protagonistas demonstra uma química admirável – Charlie Day, da série “It’s Always sunny in Philadelphia” rouba todas as cenas em que aparece – o mesmo pode ser dito dos coadjuvantes, um grupo de atores consagrados que demonstra uma bem-vinda e corajosa dose de autogozação. Jennifer Aniston deixa de lado as mocinhas sofridas de suas comédias românticas e constrói uma Diana quase cruel em sua obsessão de traçar o empregado quase pueril – Aniston não tem medo de recitar diálogos cabeludos ou de fazer cenas francamente a um passo do vulgar (como aquela em que tenta seduzir Kurt apenas comendo alimentos de formato fálico). Colin Farrell abandona o porte de galã e ator sério ao encarar com deboche consumado o egocêntrico Pellit, construído visualmente de forma a deixar o ator irlandês a milímetros do grotesco – uma careca disfarçada por fios penteados para o lado, olhos arregalados de paranoia, um barrigão proeminente. E Kevin Spacey faz de seu Harken um canalha impenitente que somente ele é capaz de fazer sem o menor esforço: Spacey, um dos melhores atores americanos de sua geração, faz do personagem uma espécie de primo do executivo de cinema que ele interpretou em “O preço da ambição” (1994) e um ensaio para o venal protagonista de série “House of cards”. Não bastasse esse trio de ouro, Donald Sutherland, Jamie Foxx e Ioan Gruffud – da primeira versão de “Quarteto fantástico”, em participação especial como o primeiro profissional contratado pelos protagonistas e que se revela outro tipo de trabalhador – completam o elenco de uma comédia que tem a mais importante característica de um exemplar do gênero: não tem medo de ser engraçada.
Em uma época em que as comédias se dividem entre a fina ironia dos filmes de Woody Allen e a franca grosseria de coisas como “As bem-armadas”, “Quero matar meu chefe” se situa em um inteligente meio-termo: não ofende a inteligência do espectador nem tampouco exige dele uma série de elocubrações e referências intelectuais. É diversão pura e simples, valorizada por um elenco acima de qualquer crítica e uma direção com senso de ritmo. Uma das melhores comédias de sua temporada.

quinta-feira

SEX AND THE CITY 2

SEX AND THE CITY 2 (Sex and the city, 2010, New Line Cinema/HBO Pictures, 146min) Direção: Michael Patrick King. Roteiro: Michael Patrick King, livro de Candance Bushnel, série de TV criada por Darren Star. Fotografia: John Thomas. Montagem: Michael Berenbaum. Música: Aaron Zigman. Figurino: Patricia Field. Direção de arte/cenários: Jeremy Conway/Lydia Marks, Lee Sandales. Produção executiva: Richard Brener, Toby Emmerich, Marcus Viscidi. Produção: Michael Patrick King, John Melfi, Sarah Jessica Parker, Darren Star. Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Catrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Chris Noth, John Corbett, David Eigenberg, Evan Handler. Estreia: 27/5/10

A crítica caiu matando, mas vamos e venhamos; quem vai assistir a "Sex and the city 2" para prestar atenção em movimentos de câmera, elocubrações psicológicas complexas, preocupações sociais e/ou atuações densas provavelmente escolheu o filme errado. O fato é que a segunda parte das aventuras cinematográficas de Carrie Bradshaw (agora Preston) e suas amigas é um filme feito única e exclusivamente para fãs de extinta e saudosa série de TV e, como tal, é um presente luxuoso e vistoso. Pode não ter profundidade, mas será que mulheres que se derretem ao ver uma bolsa Birkin ou uma roupa Dior estavam preocupadas com isso quando lotaram os cinemas?

Antes que as feministas reclamem do sexismo da afirmação acima é preciso que elas assistam ao filme. Poucas vezes o cinema foi tão, mas tão mulherzinha quanto em "SATC 2". Closes de corpos masculinos sarados, homens viris e sedutores, figurinos extravagantes, situações românticas/sentimentais/sexuais vistas pelo âmbito feminino são os ingredientes aqui. Tudo bem, também o eram na série, mas menos exagerados do que aqui. A boa notícia é que, pra quem gosta do gênero em geral e da série em particular não há nada do que reclamar (talvez apenas da cara feia dos namorados, que provavelmente vão detestar cada um dos 146 minutos de sua duração).


Para quem assistia à série e correu aos cinemas para ver o primeiro filme sabe como a história começa: Carrie (Sarah Jessica Parker) está casada há dois anos com o grande amor de sua vida, Mr. Big, já denominado corretamente de John Preston (Chris Noth) e passa por um período de tédio em seu relacionamento; Samantha (Kim Cattrall, surpreendentemente a mais rejuvenescida do filme) está no período da menopausa, engolindo hormônios como se fossem feijão e buscando a libido perdida; Miranda (Cynthia Nixon) está em crise profissional e pede demissão; e Charlotte (Kristin Davis) finalmente está começando a perceber que a vida doméstica não é tão cor-de-rosa quanto ela imaginava, além de sofrer com a possibilidade de ver a babá de suas filhas seduzindo seu marido. No meio de todos esses tormentos, quando surge a oportunidade de todas elas viajarem - com tudo pago - para o Oriente Médio, elas não pensam duas vezes e embarcam para um merecido descanso de uma semana. Lá, em meios ao exotismo de uma nova cultura - cuja gritante diferença com o Ocidente proporciona algumas ótimas piadas -, Carrie dá de cara com Aidan (John Corbett), seu ex-namorado, que a balança novamente.

Assim como aconteceu na primeira parte cinematográfica da saga de Carrie e suas comparsas, "SATC 2" é um episódio bastante alongado da série - ainda que a viagem para Abu-Dabi de certa forma descaracterize o formato original, onde Nova York era a quinta protagonista. Mas, fora isso está tudo aqui; o humor politicamente incorreto, o luxo e o glamour dos figurinos de Patricia Field, as participações especiais (Myley Cyrus e Penelope Cruz) a excelência da química entre as protagonistas, as inúmeras referências ao universo feminino/gay (até Liza Minelli tem um momento de brilho...). Pra quem gosta é um prato cheio. Pra quem não tem paciência, é uma experiência torturante. Escolha seu time!

quarta-feira

O CÓDIGO DA VINCI


O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code, 2006, Columbia Pictures, 149min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Richard Roberts. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Audrey Tautou, Jean Reno, Ian McKellen, Paul Bettany, Alfred Molina, Jurgen Prochnow. Estreia: 19/5/06

E alguém duvidava que o décimo-primeiro livro mais vendido do mundo (ao toque de 80 milhões de cópias contabilizadas) chegaria às telas de cinema? É claro que não. A grande questão, respondida na abertura do Festival de Cannes de 2006 era bem outra: conseguiria o roteiro do oscarizado Akiva Goldsman fazer justiça ao romance do americano Dan Brown e repetir junto aos ávidos frequentadores de cinema o interesse do livro? Afinal de contas, o que fazia do thriller de Brown um produto acima da média em termos de literatura de ficção era justamente a mistura bem azeitada entre suspense, história, arte e religião que fazia com que os consumidores simplesmente devorassem a obra vorazmente. Porém, esse equilíbrio, que consistia em páginas e mais páginas de explanações sobre segredos do Vaticano divididos com momentos de ação e mistério e funcionava à perfeição nas páginas, tropeça nas telas. A versão para o cinema de "O código Da Vinci" é tecnicamente perfeita, mas não cumpre tudo que promete.

Tudo começa já na escolha do ator principal. Por mais talentoso que seja, Tom Hanks talvez não seja a opção mais adequada para viver Robert Langdon, o simbologista que é jogado de uma hora pra outra em uma arriscada aventura que põe sua própria vida em jogo: a apatia do ator é perceptível em cada cena, tirando muito do entusiasmo que a trama poderia suscitar e nem mesmo as inspiradas atuações de Ian McKellen, Paul Bettany e Jean Reno conseguem apagar a má impressão. Somado a um roteiro que para a ação em momentos cruciais para a inserção de longos monólogos explicativos - fato que não chega a ser exatamente culpa de Goldsman, uma vez que tais cenas são imprescindíveis para a compreensão da história - o trabalho quase medíocre de Hanks tira muito o brilho do filme.



Filmado com locações dentro do Museu do Louvre, em Paris - onde a trama tem início de forma violenta - "O código Da Vinci" é uma produção caprichada, como se espera de um filme com o orçamento gigantesco de 125 milhões de dólares. Fotografado e editado com cuidado e precisão, ele não consegue, no entanto, deixar a impressão de que é mais longo do que seus demorados 149 minutos de duração. Enquanto o livro passava rapidamente diante dos olhos dos leitores, que viravam suas páginas enlouquecidamente para saber o que viria a seguir, a versão live-action dirigida quase no piloto automático por Ron Howard (vindo do Oscar por "Uma mente brilhante") nunca chega a empolgar, conduzindo o público a uma intriga bastante interessante revelada de forma preguiçosa. É surpreendente que um roteirista tarimbado como Akiva Goldsman não saiba transformar o livro em um produto cinematográfico adequado, ficando preso em demasia à sua estrutura em detrimento a dotá-lo de um ritmo próprio.

Por outro lado, nem tudo são pedras. Quem não leu o romance de Dan Brown - cuja continuação "Anjos e demônios", que se passa antes deste também virou filme nas mãos da mesma equipe - provavelmente irá se surpreender com a história criada pelo escritor, que causou polêmica junto à Igreja católica graças às teorias que levantou. Segundo o livro, o artista plástico Leonardo Da Vinci deixou, escondidas em suas obras, inúmeras pistas relativas a um ancestral segredo que diz respeito à linhagem sagrada de Jesus Cristo e Maria Madalena. São essas pistas que levam o simbologista vivido por Hanks - em papel disputado quase a tapa pelos maiores astros de Hollywood - a correr atrás do assassino de um velho amigo, assassinado no Museu do Louvre e que lhe deixou mensagens criptografadas. Ao lado da neta da vítima, Sophie Neveu (Audrey Tautou), ele parte em busca de respostas a questões que nem sabia existir e encontra pelo caminho o assustador monge Silas (Paul Bettany).

É inegável que a história engendrada por Dan Brown é inteligente, intrigante e bastante relevante. Mas é visível também que sua adaptação para o cinema não chegou nem perto de suas imensas possibilidades. Mesmo assim, é acima da média no gênero e, assistido com paciência e boa vontade, pode render uma bela sessão, principalmente pela história e pelas atuações de Ian McKellen e Paul Bettany.

FERRUGEM E OSSO

FERRUGEM E OSSO (De rouille et d'os, 2012, Why Not Productions, 120min) Direção: Jacques Audiard. Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain, estória de Craig Davidson. Fotografia: Stéphane Fontaine. Montagem: Juliette Welfling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Virginie Montel. Direção de arte/cenários: Michel Barthélémy/Boris Piot. Produção: Jacques Audiard, Martine Cassinelli, Pascal Caucheteux. Elenco: Marion Cottilard, Mathias Schonaerts, Armand Verdure, Céline Sallette. Estreia: 17/5/12 (Festival de Cannes)

Quando um cineasta acerta em cheio com uma obra, que deslumbra críticos e conquista os fãs de cinema, sempre existe aquele medo silencioso de que o sucesso tenha sido apenas um lapso de genialidade. Certamente era essa dúvida que cercava o francês Jacques Audiard depois do êxito merecido de seu "O profeta" - que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e chegou a concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. Será que o homem que contou com tanta propriedade a história da formação de um criminoso dentro da cadeia conseguiria se reinventar ou se manteria na zona de conforto, assim como muitos de seus colegas de profissão americanos? Felizmente a primeira opção mostrou-se a correta: "Ferrugem e osso", seu filme seguinte, é, acreditem ou não, uma bela e delicada história de amor que em nada lembra seu filme mais famoso. E melhor ainda, é um filme que acompanha o espectador um bom tempo depois do término da sessão.

Baseado em dois contos do escritor canadense Craig Davidson - cujo protagonista masculino mudou de sexo quando Audiard achou que já tinha homens demais em "O profeta" e quis mudar o foco da trama - "Ferrugem e osso" fala de perdas, de recomeços e da coragem de enfrentar de frente problemas bastante graves sem perder a esperança. O ótimo Matthias Schoenaerts interpreta Ali, que chega à casa de sua irmã acompanhado do filho de cinco anos para recomeçar a vida. Logo que arruma emprego como segurança de uma boate ele conhece a bela Stéphanie (Marion Cottilard, perfeita como sempre), que trabalha como adestradora de baleias em um espetáculo local. Algum tempo depois, eles voltam a se encontrar em circunstâncias bem diferentes: ele está envolvido em lutas de quintal de boxe tailandês para ganhar dinheiro e ela perdeu as duas pernas em um acidente com um dos animais de seu show. Depois de se tornarem amigos eles acabam se envolvendo romanticamente, apesar da resistência dele em assumir compromissos.


Ao contrário dos romances hollywoodianos, onde as personagens enfrentam problemas risíveis ou absolutamente inverossímeis, no filme de Audiard os caminhos que separam e unem Ali e Stéphanie soam reais e dolorosamente próximos da audiência. As cenas de sexo - delicadas e fotografadas com discrição - não buscam excitar o público e sim ilustrar a tristeza e a urgência das personagens e é exemplar o uso da luz solar nos momentos em que Stéphanie consegue sair da escuridão de sua situação para relembrar seus dias de felicidade e plenitude física e a forma como o cineasta conduz a trama sem deixá-la previsível e oca. O terço final do filme - depois que Ali é obrigado mais uma vez a mudar de vida - consegue até mesmo deixar o espectador com o coração na mão, em uma situação apavorante que comprova sem sombra de dúvidas o quanto o roteiro conseguiu driblar as armadilhas propostas pela proposta inicial (que poderia facilmente descambar para o dramalhão) para envolver o público com gente de verdade, com sentimentos muito mais reais do que ele está acostumado a ver no escurinho do cinema. E para isso ele conta também com um elenco formidável.

Se Marion Cottilard mais uma vez dá um banho de coragem e entrega com sua Stéphanie - cuja história trágica jamais busca a compaixão leviana da audiência e que arrancou aplausos entusiasmados no último Festival de Cannes - seu parceiro de cena não fica atrás. Desconhecido no Brasil, Matthias Schoenaerts conquista pela sutileza com que compõe seu Ali, um homem que alterna momentos de extrema ternura com rasgos de uma violência que encontra origem em uma vida difícil e sem maiores espaços para delicadeza. Sempre que os dois contracenam o filme cresce, mostrando o talento de Audiard na direção de atores e sua força em extrair deles atuações gigantescas. É impossível manter-se incólume quando os dois estão juntos e essa talvez seja a maior das várias qualidades de um filme poderoso o bastante para confirmar que um raio pode sim cair duas vezes no mesmo lugar. Jacques Audiard caminha com determinação para tornar-se um dos maiores cineastas franceses de sua geração.

terça-feira

50%

50% (50/50, 2011, Summit Entertainment, 100min) Direção: Jonathan Levine. Roteiro: Will Reiser. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Zene Baker. Música: Michael Giacchino. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: Annie Spitz/Shane Vieau. Produção executiva: Nathan Kahane, Will Reiser. Produção: Evan Goldberg, Ben Karlin, Seth Rogen. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Anjelica Huston, Philip Baker Hall, Bryce Dallas Howard. Estreia: 12/9/11 (Festival de Toronto)

Passar por um câncer raro na coluna provavelmente não é exatamente uma das experiências mais agradáveis da vida, mas há quem consiga ver um lado bom até nisso. É o caso do roteirista Will Reiser, que utiliza suas lembranças da doença como matéria-prima de "50%", comédia dramática que arrancou elogios da crítica e até foi cotado para conquistar uma vaga entre os candidatos ao Oscar de roteiro original de 2011.  A maior qualidade do filme dirigido por Jonathan Levine? A forma franca e direta com que trata o tema, equilibrando com inteligência momentos de cortar o coração com um senso de humor que o afasta do dramalhão sentimentaloide.

Amparado pela bela atuação do cada vez melhor Joseph Gordon-Levitt - que substituiu James McAvoy dois dias antes do início das filmagens - o filme de Levine acompanha a trajetória do jornalista Adam Learner, de 27 anos, depois que ele descobre que tem um tipo raro de câncer (de origem genética) na coluna.  Atordoado com a notícia (como não poderia deixar de ser), ele conta com a ajuda do melhor amigo Kyle (Seth Rogen) para lidar com as consequências da doença. Entre sessões de terapia com a jovem médica Katherine (Anna Kendrick) e quimioterapia com o veterano paciente Alan (Philip Baker Hall), Adam precisa também superar a crise em seu relacionamento com a artista plástica Rachael (Bryce Dallas Howard) e recuperar sua relação com os pais, em especial a mãe superprotetora Diane (Anjelica Huston, dando olé em cada cena que aparece).


Realizado de forma independente com um orçamento irrisório de 8 milhões de dólares (que se transformaram em mais de 30 somente nos EUA), "50%" surpreende também pela forma não-romantizada com que trata a situação central da história, não derrapando na tentação de partir para clichês de autoajuda. Ainda que seja positivo, não esconde também o lado pesado da situação vivida pelo protagonista, interpretado com simpatia por Gordon-Levitt (indicado ao Golden Globe de melhor ator): para cada momento de humor (genuíno, inteligente e irônico) há uma cena capaz de emocionar (delicadamente, sem exageros), lembrando à audiência que, apesar das risadas, a história que está sendo contada não é um pastelão inconsequente.

Embora a opção do roteiro em não estigmatizar a doença através do humor possa ser considerada de mau-gosto por uma parcela mais conservadora do público, é inegável que a leveza com que Reiser revestiu sua triste (mas esperançosa) história é muito mais palatável à plateias contemporâneas do que o petardo emocional "Laços de ternura", citado nominalmente em um diálogo do filme. "50%" é muito melhor do que sua aparência de filme indie e metido a modernoso. Embalado por uma irresistível trilha sonora (que une Roy Orbison a Eddie Vedder) e interpretado por um elenco em dias inspirados (inclusive o bobalhão Seth Rogen, provando que por trás do comediante exagerado existe um ator de grande potencial), é uma das gratas surpresas da temporada, infelizmente lançada diretamente em DVD no Brasil (em mais uma prova da falta de visão das distribuidoras).

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon ...