terça-feira

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO (Take the money and run, 1969, Palomar Pictures, 85min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Lester Shorr. Montagem: Paul Jordan, Ron Kalish. Música: Marvin Hamlisch. Direção de arte/cenários: Fred Harpman/Marvin March. Produção executiva: Sidney Glazier. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Janet Margolin, Marcel Hillaire, Jacquelyn Hyde, Lonny Chapman. Estreia: 18/8/69

Woody Allen não era nenhum novato nas telas de cinema quando dirigiu seu primeiro longa-metragem, em 1969. Seu inconfundível rosto já havia sido visto em "Qque é que há, gatinha?" (65) - cujo roteiro ele também escreveu - e "Cassino Royale" (a versão cômica de 1967, não o filme de James Bond estrelado por Daniel Craig). Insatisfeito com ambas as experiências, ele resolveu que era hora de fazer o seu próprio filme. Com a recusa de seu ídolo Jerry Lewis em dirigir "Um assaltante bem trapalhão" (título genérico que lembra os filmes de Renato Aragão), o comediante de stand-up deu então seu primeiro passo em direção a uma carreira brilhante de cineasta. E quem hoje acusa seu humor de ser elitista ou sofisticado demais para o grande público tem a obrigação de dar ao menos uma olhada em sua estreia atrás das câmeras: ao mesmo tempo que faz rir com um instantâneo humor visual, Allen também brinda o espectador com tiradas hilariantes, em especial com a narração em off, que dá ao filme a honra de ser o primeiro "mockumentary" (falso documentário) lançado em grande escala nos cinemas - e que alcançaria um de seus maiores representantes em outro filme do mesmo diretor, o genial "Zelig" (83).

Dividindo com o protagonista a sua própria data de nascimento (01 de dezembro de 1935), Allen conta a errante trajetória de Virgil Starkwell (vivido por ele mesmo) no crime, através de depoimentos de seus pais (escondidos atrás de máscaras de Groucho Marx por causa da vergonha que sentem do filho bandido), professores e de várias pessoas que passaram por sua vida, como médicos psiquiatras e diretores de presídio. A narrativa começa com a infância de Starkwell, que iniciou-se na vida de fora-da-lei roubando balas e se mantém até seus dias como uma mente criminosa mais sofisticada (ou o mais perto disso), quando resolve passar a assaltar bancos. Logicamente, sob o ponto de vista satírico de Allen, todo o caminho do aspirante a meliante esbarra em situações surreais - como o medicamento em teste que como efeito colateral transforma o paciente em rabino - e vira do avesso até mesmo as convenções românticas (Starkwell se apaixona ao tentar roubar uma bolsa e nem mesmo apaixonado abandona seus intentos por um bom tempo).

Criando seu filme em formas de sketchs cômicos unidos por uma história bastante tênue - que, segundo o cineasta, foi salvo pela edição inteligente de Ralph Rosenblum, que tornou-se um colaborador assíduo em suas obras seguintes - Allen demonstra já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras o gosto pelo humor sardônico, de situações normais transformadas em momentos de grande resultado histriônico. "Um assaltante bem trapalhão" não é uma comédia de altas gargalhadas - como não o é a maioria dos trabalhos do diretor - e sim um filme que extrai sua graça do absurdo do dia-a-dia. Sem apelar para piadas de baixo calão ou para o humor escatológico, Allen faz rir com coisas simples - o assalto ao banco, por exemplo, que é barrado pela burocracia e pela letra ilegível de seu bilhete ameaçador, ou a fuga com um revólver feito de sabão que é frustrada pela chuva que o dissolve na hora H - e tira proveito de sua persona naturalmente desajeitada para conquistar a empatia do público.

"Um assaltante bem trapalhão" não é uma obra-prima. Marinheiro de primeira viagem, Allen ainda não havia burilado suficientemente seu estilo de humor e cinema - coisa que progressivamente faria até a consagração com os Oscar de filme, direção e roteiro de "Noivo neurótico, noiva nervosa", oito anos mais tarde. Mas em seu cerne já estão explícitas muitas das características que lhe seriam a marca registrada daí em diante, como o senso de humor inteligente e irônico, o despojamento no modo de filmar e a tendência a ridicularizar temas até então tidos como intocáveis pela comédia, como a psicanálise (tema frequente de vários futuros filmes) e a família. Desde então, tendo mudado o final previsto para sua história - substituindo o trágico pelo engraçado por sugestão do editor - o cineasta nova-iorquino oficializou um gênero em si: seus filmes não são comédias, dramas ou musicais, são "filmes de Woody Allen". Os cinéfilos de bom-gosto agradecem.

segunda-feira

A NOITE DOS DESESPERADOS

A NOITE DOS DESESPERADOS (They shoot horses, don't they?, 1969, ABC/Palomar Pictures, 129min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe, Robert E. Thompson, romance de Horace McCoy. Fotografia: Philip H. Lathrop. Montagem: Fredrick Steinkamp. Música: John Green. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Frank McKelvey. Produção executiva: Theodore B. Sills. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis. Estreia: 10/12/69

9 indicações ao Oscar: Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Gig Young), Atriz Coadjuvante (Susannah York), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Gig Young)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Gig Young)

Um dos mais cruéis e chocantes retratos da desumanização que veio em consequência da Grande Depressão americana, o amargo "A noite dos desesperados", baseado em romance de Horace McCoy mantém até hoje, 45 anos depois de seu lançamento, a dúbia honra de ser o filme com maior número de indicações ao Oscar sem ter sido lembrado na categoria principal. Indicado em nove categorias - incluindo diretor, atriz e roteiro adaptado - o filme deu a Gig Young a estatueta de melhor ator coadjuvante, mas, visto à luz do tempo, merecia ter tido mais atenção dos eleitores. Forte, contundente e frequentemente dotado de uma ironia tão fina e sutil que muitas vezes passa despercebida, o filme de Sydney Pollack se mantém muito atual nessa época em que realities show pipocam a cada esquina, borrando a linha entre a dignidade e o desespero.

Pollack, que manteve uma carreira que flutuava entre sucessos comerciais de qualidade - "Tootsie" (82) - êxitos de prestígio e Oscars - "Entre dois amores" (85) - e filmes simplesmente medíocres - "Havana" (90) - provavelmente nunca dirigiu um filme tão poderoso quanto este, tanto em termos visuais quanto em termos de densidade psicológica. Ao fazer uma dura crítica à indiferença das classes privilegiadas em relação àqueles menos favorecidos através de uma aparentemente inocente maratona de dança, Pollack utilizou todas as ferramentas do bom cinema para construir uma obra extraordinária em todos os sentidos: a sintonia entre roteiro, direção, elenco e técnica dá à trágica e melancólica trama um revestimento de arte mesmo quando o âmago do que é contado é negro, doloroso e feio. A feiúra do que é contado encontra eco na alma dúbia de alguns personagens, mas Pollack brilhantemente enfeita o lixo com uma poesia que jamais deixa com que seu filme descambe para o dramalhão hipócrita ou falsamente panfletário. O tom seco da narrativa é o acerto final em uma obra simplesmente imperdível.


Jane Fonda - que dois anos depois ganharia seu primeiro Oscar por "Klute, o passado condena" - está fascinante na pele de Gloria Beatty, uma aspirante a atriz desencantada com a vida e a profissão que, no fundo do poço financeiro e pessoal, entra em uma maratona de dança que pagará 1.500 dólares ao par vencedor. Perdendo seu acompanhante na hora da inscrição, ela se une ao jovem e inocente Robert (Michael Sarrazin) na disputa cruel e desumana do concurso, cujas regras rígidas e violentas os impede de dormir mais do que poucos minutos por dia, os faz comer em pé e sem parar de dançar e, vez ou outra, lança mão de uma corrida que elimina os últimos colocados. Dias após o início da maratona - que é assistida por um público que escolhe seus favoritos enquanto come pipoca e aplaude sem muito interesse nas consequências físicas da disputa - Gloria começa a ver outros candidatos perderem o pouco que resta de suas dignidades pessoais. Entre eles estão Alice (Susannah York), que também sonha em ganhar Hollywood e vai perdendo sua razão dia-a-dia, um velho marinheiro (Red Buttons) que mente a idade para manter-se como concorrente e até mesmo uma jovem mulher grávida, Ruby (Bonnie Bedelia, que depois faria a ex-esposa de Bruce Willis em "Duro de matar") que não abre mão do prêmio mesmo correndo o risco de perder o bebê ou morrer. No comando de tudo, está o animador do concurso, o frio e manipulador Rocky (Gig Young, vencedor do Oscar).

Relatado de forma fria e paradoxalmente angustiante, "A noite dos desesperados" mostra um Sydney Pollack no auge da criatividade. Utilizando-se de flashforwards que dão uma pista do final trágico e de certa maneira previsível (mas nunca anticlimático) e de um ritmo que intercala dramas pessoais com momentos eletrizantes reforçados pela edição inteligente de Fredric Steinkamp - como as corridas, capazes de deixar o público na beira da poltrona - o filme também se beneficia de uma reconstituição de época caprichada e de uma história forte o bastante para falar por si. Confiando nessa força, o roteiro prescinde de artifícios que fujam do cenário único, concentrando todo o foco em Gloria, Robert e seus companheiros de dor e de cruz. Uma opção correta que fortalece um dos mais potentes dramas sociais realizados por Hollywood na década de 60.

domingo

UM CAMINHO PARA DOIS

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the road, 1967, 20th Century Fox, 111min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Frederic Raphael. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Madèleine Gug, Richard Marden. Música: Henry Mancini. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Stanley Donen. Elenco: Audrey Hepburn, Albert Finney, Eleanor Bron, William Daniels, Claude Dalphin, Nadia Gray, Jacqueline Bisset. Estreia: 27/4/67

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Para TT...

Perdido entre vários filmes adorados pelos fãs de Audrey Hepburn - principalmente "Bonequinha de luxo" e "My fair lady" - a comédia romântica dramática "Um caminho para dois" quase nunca é mencionado como um favorito. Sofisticado dramaturgicamente e dotado de uma melancolia que perpassa inclusive seus inúmeros momentos cômicos, o filme de Stanley Donen - um dos homens por trás do sucesso de "Cantando na chuva" - é um retrato doloroso e realista do declínio de um relacionamento aparentemente indestrutível, que só não é mais angustiante por conta da química entre Hepburn e Albert Finney, pela edição inteligente e pelo tom bem-humorado que o afasta da indigesta catarse no qual poderia se transformar em mãos menos hábeis.

Contado através de três linhas temporais que se intercalam graças à edição ágil e esperta de Madèleine Gug e Richard Marden, "Um caminho para dois" conta a história de amor, decepção, traição e momentos inesquecíveis entre Joanna (Hepburn) e Mark (um jovem Albert Finney). Quando se encontram, durante uma viagem à Europa, ela é uma corista em busca da realização profissional e ele um arquiteto iniciante. Os dois se apaixonam perdidamente e se envolvem em um casamento repleto de momentos de eletrizante felicidade, mesmo quando precisam contar moedas e passam por situações constrangedoras devido à falta de dinheiro. Conforme o tempo passa e a família aumenta, os problemas também começam a mostrar sua cara, o que os leva fatalmente a crises cada vez mais sérias, em oposição à ascensão de Mark em sua carreira. Quando o filme começa, eles estão a caminho de uma festa na França, onde terão que finalmente decidir que rumo tomar em suas vidas - fato este que os faz também relembrar todos os bons e maus dias de seu relacionamento.


O roteiro de Frederic Raphael, indicado ao Oscar da categoria, é um primor de sensibilidade e inteligência, equilibrando com especial maestria cenas do mais divertido humor visual com a ironia certeira de diálogos mais apurados e sofisticados, além de alcançar as notas certas também nas sequências mais dramáticas. Sua estrutura, fundamentada basicamente em três road-movies simultâneos contados fora de ordem cronológica - fato que a princípio pode confundir um pouco o espectador mas depois mostra-se crucial para a apreciação do panorama geral proposto pela sinopse - é rica em ironia, ao comparar, frequentemente, um passado financeiramente difícil mas feliz, com a realização monetária acompanhada de crises na relação. Por mais que pareça apontar uma espécie de simplismo com essa opção (como se o dinheiro fosse o culpado pelos males do casamento), a trama de Raphael não se deixa cair nessa armadilha, apontando outros fatores para o desgaste sem nunca abdicar de deixar bem claro o amor que une os protagonistas.

E, se o roteiro bem escrito e a direção leve de Donen - que sai-se melhor nos momentos alegres, traindo seu currículo anterior - são dignos dos mais rasgados elogios, a química perfeita entre Hepburn e Finney não fica atrás. Hepburn, que aceitou o papel apenas depois de ler o roteiro inteiro - antes ela havia recusado por medo de fazer mais um filme que rompia com as regras estabelecidas pelo cinema comercial americano como havia sido seu mal-sucedido "Quando Paris alucina" - era uma atriz cheia de nuances, todas elas exploradas com carinho pela direção: durante o filme, vemos sua Joanna apaixonada, decepcionada, triste, feliz, raivosa, arrependida e esperançosa, sem que nunca caia na mesmice ou na repetição. Finney - que ficou com um papel oferecido a Paul Newman e Michael Caine e cobiçado por Tony Curtis - demonstra maturidade e desenvoltura em criar um Mark que deixa transparecer seu amadurecimento sem perder sua essência. São Audrey e Finney quem sustentam todas as bases do roteiro, que dão respaldo a cenas emocionantes (quando lembram da distância que percorreram entre seu primeiro dia juntos e o impasse de seu casamento, quando se identificam com casais que ficam em silêncio durante as refeições, quando veem sua praia particular destruída pelo progresso representado por um prédio construído pelo próprio Mark) e que elevam o status do filme a mais do que simplesmente uma comédia romântica.

"Um caminho para dois" merecia estar entre os filmes mais populares de Audrey Hepburn. É deliciosamente engraçado, comoventemente romântico e dolorosamente triste, tudo na medida certa. É preciso mais que isso?

sábado

FREUD, ALÉM DA ALMA

FREUD, ALÉM DA ALMA (Freud, 1962, Universal International Pictures,140min) Direção: John Huston. Roteiro: Charles Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Ralph Kemplen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Doris Langley Moore. Direção de arte: Stephen B. Grimes. Produção: Wolfgang Reinhardt. Elenco: Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks, Susan Kohner, Fernand Ledoux. Estreia: 12/12/62

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original

Uma das mais importantes personalidades da história científica mundial, o austríaco Sigmund Freud poucas vezes foi representado nas telas de cinema, especialmente de forma a mostrar ao grande público o nascimento de suas teorias - violentamente refutadas em sua época, mas amplamente influentes conforme a comunidade médica foi percebendo seu alcance no tratamento de neuroses e outras patologias psicológicas. Suas tentativas de criar um método de cura para seus pacientes psicóticos são a base na qual se sustenta "Freud, além da alma", em que o respeitado cineasta John Huston retrata o pai da psicanálise como um homem profundamente dedicado à sua ciência a ponto de buscar dentro de si mesmo as respostas para as difíceis questões que lhe atravessam o caminho para o sucesso. Esse lado torturado do protagonista encontra eco na atuação de um dos atores mais intensos da Hollywood da década de 60: Montgomery Clift.

Em seu segundo trabalho com Huston - depois do polêmico e complicado "Os desajustados" - Clift encontrou um diretor bastante diferente daquele do primeiro contato. Enquanto durante as filmagens do faroeste tardio estrelado também por Marilyn Monroe e Clark Gable, o atormentado ator teve contato com um cineasta paternalista e carinhoso que relevava seus problemas com álcool e tranquilizantes, em seu reencontro com ele as coisas foram bastante diferentes. Segundo declarações de membros da equipe, Huston pressionava Clift frequentemente a respeito de sua enrustida homossexualidade, utilizando vários conceitos do próprio Freud em sua tentativa de arrancar do ator uma atuação ainda mais potente. Se os métodos do cineasta não foram exatamente simpáticos, porém, é impossível negar que, em termos artísticos eles funcionaram perfeitamente. Com seu olhar profundo e uma interpretação que equilibra momentos de excitação e dúvida, Montgomery Clift apresenta um dos melhores trabalhos de sua carreira - e o penúltimo dela.


A trama de "Freud, além da alma" começa em 1885, mostrando Freud no início de seus estudos sobre hipnose como forma de tratamento psicológico. De maneira a criar um arco dramático adequado, o roteiro de Charles Kaufman - uma vez que o script do filósofo Jean-Paul Sartre foi descartado por ser extenso demais - condensa vários pacientes (de sintomas variados) em uma única personagem, a neurótica Cecily Koertner (Susannah York), uma mulher que sofre de histeria profunda, repressão sexual e fixação paterna. Conforme vai se aprofundando nas consultas com Cecily - que já foi paciente de um amigo seu e teve por uma obsessão romântica - Freud vai criando um método novo de tratamento, chegando ao âmago de cada problema através de uma série de regressões psicológicas que remetem à infância e que também o leva a questionar sua relação com o próprio passado, que tenta manter esquecido no fundo da memória.

A atuação memorável de Montgomery Clift encontra respaldo no cuidado de John Huston com os detalhes da encenação. A fotografia em preto-e-branco de Douglas Slocombe (que depois seria o diretor de fotografia dos primeiros filmes da série "Indiana Jones") mescla o realismo seco do dia-a-dia dos personagens com filtros que remetem às alucinações de Cecily e os pesadelos constantes do protagonista, dignos dos mais assustadores filmes surrealistas de Luis Buñuel. Entre tudo isso, há o roteiro quase didático mas extremamente eficiente, a direção criativa de Huston e a competente reconstituição de época que remete o espectador à Viena do final do século XIX. O enorme sucesso do filme - fato que fez a Universal desistir de processar Clift pelos atrasos nas filmagens - mostrou que a personalidade polêmica de Sigmund Freud não era coisa do passado.

sexta-feira

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS (Jules et Jim, 1962, Les Films du Carrosse, 105min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault, romance de Henri-Pierre Roché. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Claudine Bouché. Música: Georges Delerue. Figurino/Direção de arte: Fred Capel. Produção executiva: Marcel Berbert. Produção: François Truffaut. Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Bassiak, Sabine Haudepin. Estreia: 23/01/62

Em seu filme "Uma mulher é uma mulher", lançado em 1961, o cineasta Jean-Luc Godard - que, assim como François Truffaut era um dos críticos da prestigiosa revista "Cahiers du Cinéma" - faz com que o personagem vivido por Jean-Paul Belmondo encontre com a atriz Jeanne Moureau (no papel dela mesma) e pergunte a ela "Como está indo 'Jules e Jim'?" Essa pequena brincadeira entre amigos (frequentemente os diretores colaboravam nos projetos do outro) é a primeira menção feita no cinema àquele que se tornaria um dos mais conhecidos, amados e reverenciados filmes franceses de todos os tempos. Terceiro filme de Truffaut - depois do memorialista "Os incompreendidos" (59) e do quase experimental "Atire no pianista" (60) - o drama romântico "Jules e Jim, uma mulher para dois" se baseia no romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché para contar a história de um triângulo amoroso libertário que encontrou na juventude revolucionária dos anos 60 sua audiência perfeita. Uma pena que o próprio Roché tenha morrido antes de ver na esplendorosa fotografia em preto-e-branco de Raoul Coutard a personificação de sua Catherine na bela e fascinante Jeanne Moreau.

A trama tem início antes da Primeira Guerra Mundial, quando o alemão Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), inseparáveis e amantes da arte, da vida boêmia e dos prazeres mundanos que Paris lhes pode oferecer, conhecem a independente Catherine (Jeanne Moreau), que logo conquista a ambos com sua vivacidade, beleza e uma certa dose de amoralidade. Sentindo-se irresistivelmente atraída a Jules, ela acaba se casando e tendo uma filha com ele. Separados pela guerra - e pelo medo paralisador de matarem um ao outro sem o saber - os dois amigos ficam anos sem encontrar-se, comunicando-se apenas por cartas. O final do conflito, porém, volta a aproximá-los apenas para que Jim perceba que o relacionamento entre Jules e Catherine não é mais o mesmo, tendo sido abalado pelo tempo, por traições e pela rotina. Apaixonando-se novamente pela mulher do amigo, Jim se surpreende quando é convidado por ele a morar com a família. A ideia de Jules é simples: sabendo que não tem mais o amor da esposa, aceita que ela se envolva com o rapaz, como forma de não perdê-la de uma vez por todas.


Tido por muitos jovens de sua época como uma espécie de ode ao amor livre, "Jules e Jim" é, no entanto, o exato oposto dessa ideia, por mais excitante que ela possa parecer. Com suas imagens icônicas e sempre lembradas pelos fãs de cinema - a corrida dos três amigos em uma ponte, Jeanne Moreau vestida de homem, com direito a bigodinho e tudo - François Truffaut traduziu, para toda uma geração, a ansiedade em relação aos próprios sentimentos. Mesmo com todo o glamour da primeira parte do filme, quando todo um universo está disponível aos personagens, fica claro, em sua metade final, de que arriscar-se no amor é um jogo de azar e que, por mais modernos e descolados que as pessoas sejam, a dor é uma possibilidade bastante grande. Apesar disso, no entanto, o cineasta tem o bom gosto de mostrar isso de maneira poética e sutil, contando para isso com a jovialidade de seu talento e seu elenco excepcional - em especial a inesquecível Jeanne Moreau.

Se Oskar Werner e Henri Serre serão eternamente lembrados como os dois amigos enfeitiçados pelos encantos de uma sereia francesa de olhar penetrante e sorriso misterioso, é Jeanne Moreau quem domina o filme com seus encantos, sua voz sedutora - que inclusive canta graciosamente em uma sequência agradável e leve que remete aos primórdios de sua relação a três, antes que ela se tornasse mais complicada do que deveria - e seu carisma. Apaixonado pela atriz à época das filmagens, Truffaut dá a ela, visualmente, o status de uma divindade, inalcançável e paradoxalmente acessível. Moreau - que ajudou inclusive a financiar o filme quando o dinheiro inicialmente disponível acabou - sorri e faz com que o espectador sorria com ela. É difícil de condenar Jules e Jim por amá-la. É difícil não se apaixonar pela Catherine de Jeanne Moreau. E esse magnetismo é impossível fingir!

quinta-feira

LOLITA

LOLITA (Lolita, 1962, MGM Pictures/Seven Arts Productions,152min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Vladimir Nabokov, romance homônimo de sua autoria. Fotografia: Oswald Morris. Montagem: Anthony Harvey. Música: Nelson Riddle. Direção de arte: Bill Andrews. Produção: James B. Harris. Elenco: James Mason, Peter Seller, Shelley Winters, Sue Lyon. Estreia: 12/6/62

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Antes de consagrar-se como um dos mais importantes e influentes cineastas norte-americanos de todos os tempos com seus "2001: uma odisséia no espaço" (68) e "Laranja mecânica" (71), Stanley Kubrick brincou com fogo ao adaptar um dos mais polêmicos romances do século XX. Escrita por Vladimir Nabokov e publicado pela primeira vez em 1955, a saga de um homem de meia-idade obcecado por uma menina de 12 anos a ponto de casar-se com a mãe dela para manter-se por perto tornou-se maldita por tocar em um assunto ainda hoje motivo de controvérsia: a pedofilia. Por não julgar seu protagonista e, mais corajosamente ainda, torná-lo também o narrador da história, com direito inclusive a um senso de humor que muitos consideraram inapropriado, Nabokov logo viu seu livro tornar-se um proscrito em países como a Inglaterra e a França. Isso não impediu que Kubrick, vindo do sucesso de crítica de seu "Spartacus" (60), se munisse da ousadia necessária para transferir a trama das páginas de um livro polêmico para as telas de cinema. Chamando o próprio autor do romance para escrever o roteiro - mesmo que depois tenha o modificado bastante - o cineasta partiu atrás de seu elenco, sabendo que seria uma tarefa bastante árdua.

Conscientes do risco que o papel do obssessivo Humbert Humbert poderia representar para uma carreira, vários atores consagrados não tiveram a coragem de aceitar o convite de Kubrick. Foi o caso de Marlon Brando, Cary Grant, Laurence Olivier, Peter Ustinov e David Niven, que por um motivo ou outro, pularam fora do projeto. Até mesmo o outrora galã Errol Flynn chegou a ser cotado, mas morreu antes mesmo que o filme fosse realizado. Sorte de James Mason, primeira escolha do cineasta que, depois de ter sido impedido de aceitar o trabalho por compromissos com o teatro, ficou com um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Sua construção de Humbert é um meio-termo entre o patético e o quase cômico. Ao contrário do que poderia acontecer - tornar-se um protagonista asqueroso e rejeitado pelo público - ele cria um homem tão perdido em uma paixão avassaladora e sem esperanças que só resta ao espectador acompanhar sua trajetória à espera da próxima queda.


Interpretada pela novata Sue Lyon, que bateu 800 candidatas, a Lolita do filme de Kubrick é um pouco mais velha do que a personagem do romance, por razões óbvias (diminuir a sugestão de pedofilia). Esse detalhe, somado ao fato de Lyon aparentar ainda mais idade, atenua bastante o impacto do filme, especialmente nos dias de hoje, onde seu pretenso erotismo velado soa quase pueril. Lolita - diminuitivo de Dolores - é a filha única de Charlotte (Shelley Winters), uma viúva alegre e levemente vulgar que aluga um quarto para o estudioso de literatura Humbert Humbert (James Mason). Ciente do impacto de sua sexualidade latente e no limiar da adolescência na seriedade sóbria do novo hóspede, Lolita não hesita em provocá-lo, até que ele, em um impulso, acaba se casando com sua mãe apenas para ficar por perto. A relação entre eles, porém, ainda vai sofrer muitas reviravoltas, principalmente quando entra em cena outro velho conhecido da menina, o roteirista Clare Quilty (Peter Sellers, brilhante em um papel aumentado no roteiro).

Mesmo que esteja longe do brilhantismo das obras mais famosas de Stanley Kubrick, "Lolita" conquista o espectador graças principalmente a seu clima decadente e às sutilezas impostas pelo diretor no desenrolar de uma trama que tinha todas as possibilidades de escorregar no ridículo. Enquanto Peter Sellers dá um show em cada aparição, James Mason se esforça em arrancar da plateia um mínimo de simpatia para um personagem fadado à repulsa - a opção do roteiro em deixar de lado sua história pregressa, que envolve uma paixão do passado que de certa forma justifica sua obsessão por Lolita, chega a ser questionável nesse ponto. Mas a maneira inteligente com que Kubrick dribla o óbvio - toda a relação entre os protagonistas no segundo ato é mantida propositalmente dúbia - é sensacional, dando ao filme uma densidade que não seria possível se todas as cartas estivessem na mesa.

Refilmado de forma menos feliz por Adrian Lyne em 1997, "Lolita" colocou o fleumático Jeremy Irons no papel de Humbert Humbert e Melanie Griffith como Charlotte Haze, além de ter lançado a carreira da então promissora Dominique Swain. Mesmo com considerável maior liberdade com o tema, no entanto, Lyne não obteve o mesmo resultado de Kubrick, sendo praticamente ignorado por público e crítica.

quarta-feira

OS INOCENTES

OS INOCENTES (The innocents, 1961, 20th Century Fox, 100min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: William Archibald, Truman Capote, John Mortimer, romance "A volta do parafuso", de Henry James. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: James Clark. Música: Georges Auric. Figurino: Motley. Direção de arte: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Albert Fennell. Produção: Jack Clayton. Elenco: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Pamela Franklin, Martin Stephens. Estreia: 24/11/61

Quarenta anos antes do chileno Alejandro Amenabar conquistar crítica e público com seu assustador "Os outros" - um dos mais fascinantes e inteligentes representantes do gênero terror no século XXI - um outro filme que divide com ele a atmosfera lúgubre e a sugestão em detrimento do explícito, estreava na Inglaterra. Baseado no livro "A volta do parafuso", de Henry James (ou mais precisamente na peça de teatro de 1950, adaptada por William Archibald da obra de James), "Os inocentes" diferia radicalmente dos filmes de terror do estúdio Hammer (também inglês), que na mesma época fazia sucesso usando e abusando de monstros clássicos da literatura e do cinema. Elegante, sutil e muito mais tétrico do que qualquer Frankenstein ou lobisomem, o filme de Jack Clayton ficou marcado da memória de muita gente: Deborah Kerr o considera seu melhor trabalho, a cantora Kate Bush compôs uma música inspirada no filme, o exigente François Truffaut declarou-o o melhor filme feito na Inglaterra pós-Hitchcock e Guillermo Del Toro (diretor dos ótimos "A espinha do diabo" e "O labirinto do fauno") o tem na lista de seus seis filmes de terror prediletos. A questão é: por que tanto auê?

É simples responder: partindo de uma premissa simples e aparentemente banal e lugar-comum, "Os inocentes" acaba se desviando, em seu percurso, para um apavorante e perturbador conto gótico que ousa em utilizar as crianças do enredo não apenas como escada para os sustos, mas sim como componentes essenciais de uma tragédia romântica. Tudo aquilo que hoje é considerado clichê nos filmes do gênero funciona à perfeição aqui, conduzindo o espectador a um torvelinho de chocantes conclusões, que fogem radicalmente do que poderia ser considerado previsível. A trama é tão radical que o próprio diretor não permitiu que as crianças do elenco lessem o roteiro inteiro - por motivos que, quando se assiste ao resultado final, ficam bastante claros. Jack Clayton - cuja direção levou Simone Signoret ao Oscar por "Almas em leilão" e ainda dirigiria outro filme de terror elogiado, "Todas as noites às nove", e a adaptação de "O grande Gatbsy" estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - faz de sua obra um sóbrio estudo sobre amor e obsessão. Se o medo surge no caminho é porque ele sabe exatamente que notas tocar para que isso aconteça.


E as notas começam a ser tocadas logo no começo, quando a Srta. Giddens (Deborah Kerr, ótima) chega à mansão do interior da Inglaterra vitoriana, onde passará a trabalhar como governanta: em seus primeiros passos na imensa propriedade, ela já ouve vozes femininas chamando a pequena Flora (Pamela Franklin), uma das sobrinhas de seu empregador - e uma das duas crianças de quem ela deve cuidar. Não demora muito para que Giddens conquiste a simpatia da menina e da outra empregada da casa, que, mesmo não querendo, acaba contando a ela a trágica história de amor que matou dois funcionários da mansão, um ano antes. A volta para casa de Miles (Martin Stephens), irmão de Flora que foi expulso por motivos obscuros da escola a que frequentava deflagra de vez acontecimentos até então tidos pela governanta como pura imaginação: ela passa a ver fantasmas, ouvir vozes e perceber mudanças repentinas no comportamento dos meninos. Depois de decidir chamar um padre, porém, ela decide resolver pessoalmente a situação.

A resolução da trama pouco tem de convencional, surpreendendo justamente por desviar dos atalhos do clichê. A forma como os fantasmas se manifestam, seus motivos e a maneira como Clayton ilustra seu conto assombroso são uma festa para os olhos e ouvidos. A fotografia de Freddie Francis - que mescla dias luminosos com penumbras arrepiantes - e a trilha sonora de Georges Auric, que inclui uma tétrica canção antes mesmo do logo da Fox (produtora do filme) são pontos altos da produção, que também conta com uma dupla exemplar de atores mirins e um clima sufocante de tensão e medo. Sem mostrar mais do que ligeiras aparições fantasmagóricas nas horas certas e um final que vai contra toda e qualquer regra atual, "Os inocentes" é terror de primeira, daqueles de tirar o sono.

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon ...