domingo

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (Summer of '42, 1971, Warner Bros, 103min) Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Herman Raucher. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Folmar Blangsted. Música: Michel Legrand. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Richard A. Roth. Elenco: Jennifer O'Neill, Gary Grimes, Jerry Houser, Oliver Conant, Katherine Allentuck, Christopher Norris, Lou Frizzell. Estreia: 09/4/71

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Uma década antes das escatologias de "Porky's" e quase trinta anos à frente do sucesso comercial de "American Pie", um outro filme,  que também tratava da busca adolescente pelo santo graal da perda da virgindade chegava às telas de cinema. Porém, sem vulgaridade de nenhuma espécie e banhado em pureza, ingenuidade e poesia, "Houve uma vez dois verões", baseado em uma história real vivida pelo roteirista Herman Raucher - que chegou a ser indicado ao Oscar da categoria - ficou marcado na memória dos apaixonados espectadores como um dos mais belos retratos da perda da inocência masculina já mostrados pela sétima arte. Lembrado principalmente pela extraordinária trilha sonora de Michel Legrand, que embalou toda uma geração e pela beleza delicada de Jennifer O'Neill, o filme de Robert Mulligan ainda é capaz de seduzir a audiência cínica dos blockbusters de hoje graças ao perfeito balanço entre comédia e drama atingido por seu diretor.

Assim como deixa bem claro o título original do filme, "Houve uma vez um verão" tem sua ação situada em 1942, em uma ilha americana onde o adolescente Harmie (Gary Grimes) passa a temporada juntamente com sua familia e seus amigos, em especial o indiscreto Oscy (Jerry Houser), cujo maior objetivo nas férias é perder a virgindade. Tímido e desajeitado, Harmie acaba acompanhando seu amigo em suas tentativas de completar sua missão, mas não consegue deixar de lado a atração irresistível que sente por Dorothy, uma mulher mais velha que mora em uma casa distante do centro da cidade: linda e delicada, ela é casada com um soldado que está na guerra e acaba se aproximando do rapaz quando ele a auxilia a carregar suas compras e surge entre eles uma espécie de amizade - que ele tenta esconder de sua turma como um tesouro raro e precioso. Dividindo seu tempo entre idas ao cinema, encontros fortuitos com meninas de sua idade - e uma hilariante visita à farmácia para comprar preservativos - Harmie não demora a perceber que está apaixonado pela primeira vez na vida.


Escrito inicialmente como uma homenagem à memória de Oscy - que na vida real morreu na Guerra da Coreia no dia do aniversário do escritor - "Houve uma vez um verão" acabou transformando-se, de maneira orgânica, na relação entre Harmie (alter-ego do autor Herman Raucher) e Dorothy, e na forma indelével com que ela ficou marcada em sua história. Apesar de na vida real a relação de amizade entre os dois ter sido mais longa do que a retratada no filme, Raucher fez questão de manter intactos no roteiro os nomes dos personagens e até mesmo algumas situações de seu inesquecível verão - que acabou tornando-se inesquecível também para as plateias. Filmado com leveza por Robert Mulligan - consagrado por "O sol é para todos" (62) - o filme mescla com parcimônia momentos de extrema beleza romântica (no que a trilha sonora ajuda lindamente) e cenas engraçadíssimas, como a já citada sequência na farmácia e as cenas em que Harmie e Oscy tentam decifrar os códigos de um livro sobre sexo roubado da estante de um amigo. É um humor puro, que, a despeito de seu tema, jamais ofende ou constrange o espectador e ainda por cima reflete com exatidão como se vivia à época.

A história real de "Houve uma vez um verão" - que acabou sendo homenageado pelo cineasta Jorge Furtado em seu primeiro longa, "Houve uma vez dois verões", de 2002 - não termina quando os créditos finais sobem na tela. A julgar por uma entrevista de Raucher, o que veio a seguir daria um outro e excelente filme. Segundo ele, assim que o filme foi lançado ele recebeu centenas de cartas de mulheres que se diziam a Dorothy do filme - de quem ele, por incrível que pareça, nunca perguntou o sobrenome. Depois de passar por situações bastante tristes na vida - como a morte do futuro cunhado, de Oscy e de seu pai no prazo de pouquíssimo tempo - ele só veio a ter notícias da verdadeira Dorothy em 1971. Ela perguntava, em sua carta, se havia cometido um crime psicológico contra ele após o verão de 42. O escritor até pode achar que "é melhor deixar quietos os fantasmas daquela noite", mas sem dúvida nenhuma criou um pequeno clássico moderno com sua bela história de amor e crescimento.

sábado

CABARET

CABARET (Cabaret, 1972, Allied Artists Pictures/ABC Pictures, 124min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Allen, estórias de Christopher Isherwood, musical de Joe Masteroff, John Van Druten. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: David Bretherton. Música: John Kander. Figurino: Charlotte Flemming. Direção de arte/cenários: Rolf Zehetbauer/Jurgen Kiebach. Produção: Cy Feuer. Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Joel Grey, Marisa Berenson, Helmut Griem, Fritz Wepper. Estreia: 13/02/72

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 8 Oscar: Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey)

Pode uma obra ser indicada a 10 estatuetas do Oscar elevar oito delas sem ficar justamente com a mais importante, a de melhor filme? Sim, especialmente se concorrer diretamente com a saga da família Corleone. Foi isso que aconteceu na cerimônia de 1973, quando a transposição para o cinema de "Cabaret", famoso e consagrado musical da Broadway viu suas esperanças de sair com todas as suas indicações convertidas em prêmios acabarem com a vitória de "O poderoso chefão" como melhor filme, ator e roteiro adaptado (a outra categoria em que tinha chances). Hoje em dia talvez seja inadmissível que a obra-prima de Francis Ford Coppola não tenha sido campeã também em número de Oscar, mas basta apenas uma sessão do filme de Bob Fosse para que se perceba que, a despeito da qualidade inimitável da primeira parte da história de Michael Corleone, "Cabaret" é realmente um grande filme, uma obra de arte que mistura com poesia sátira política, liberdade sexual, música e uma forte crítica social à decadente Alemanha pré-II Guerra. Não é pouco para um musical aparentemente inocente.

A trama se passa na Berlim de 1931, onde chega o estudante inglês Brian Roberts (Michael York) para terminar seus estudos. Ele se hospeda na mesma pensão onde mora a americana Sally Bowles (Liza Minnelli), uma das atrações do cabaret Kit Kat Club, uma casa noturna decadente cujo palco é liderado por um sinistro Mestre de Cerimônias (Joel Grey, defendendo na tela o mesmo papel que o havia consagrado nos palcos, nos anos 60). Alegre e despachada - e com muitos sonhos de vencer na vida - Sally torna-se a referência de Brian na Alemanha prestes a mergulhar no nazismo. Sua relação torna-se ainda mais próxima quando ambos se descobrem interessados no mesmo homem, o milionário Barão Maximiliam von Heune, que os acena com uma vida de prazeres luxuosos. Enquanto o triângulo nem tão amoroso assim se desenvolve, uma outra história de amor, verdadeira, acontece sob a sombra do nacionalismo de Hitler e envolve dois alunos de Brian, a judia Natalia Landauer (Marisa Berenson) e o católico Fritz Wendel, que esconde um segredo que pode modificar suas vidas.


Equilibrando números musicais fascinantes que, ao invés de atrapalhar o desenvolvimento da história, a ajuda com comentários irônicos e/ou informativos, Bob Fosse mostrou que sabia como ninguém construir uma narrativa criada para os vastos palcos da Broadway em formato de cinema, provando-se à altura do compromisso de dirigir um filme recusado por Gene Kelly e Billy Wilder. Coreógrafo experiente e dono de um olhar extremamente crítico e sagaz, ele ousa contar sua história sem nenhum tipo de julgamento moral, limitando-se a, no máximo, deixar que a música fale por ele. E ela é excepcional. Apesar de apenas cinco números do espetáculo terem sobrevivido na versão para as telas, a trilha sonora de "Cabaret" é envolvente e contagiante, com algumas canções já tornadas clássicas ("Money, money" e a música-título, em especial) interpretadas com verve e dinamismo por Joel Grey - que ganhou o Oscar mesmo disputando com três atores de "O poderoso chefão" - e Liza Minnelli, merecida vencedora do Oscar de melhor atriz. Filha de Judy Garland e do cineasta Vincent Minnelli, Liza é, até hoje, a única oscarizada da história a ter os dois pais também premiados pela Academia. Mas, como ela mesma declarou ao receber a estatueta, os méritos são realmente dela.

Na pele de Sally Bowles, Liza consegue ser transgressora, delicada, romântica, cínica e engraçada, além de cantar e dançar com uma desenvoltura raras. Não foi à toa que o escritor Christopher Isherwood - que criou a personagem em um conto - declarou que a única falha da atriz na sua composição foi fazer de Bowles uma artista tão talentosa, uma vez que a original era apenas medíocre. Na tela, Minnelli é uma explosão de talento, conquistando a plateia com seu humor particular, suas idiossincrasias e especialmente sua carência de amor, explicitadas em sua relação com Brian. As cenas em que ambos são obrigados a tomar decisões cruciais para seu futuro são de partir o coração, e até nesses momentos fica claro o cuidado de Fosse em não se deixar cair no piegas. Assim como não há excessos no humor do roteiro também não o há no drama. Esse perfeito equilíbrio - que ainda encontra espaço para comentar discretamente a situação política da Alemanha e sua iminente transformação em inimiga do mundo - é que dá a "Cabaret" sua aura de eterno.

sexta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MEDO

SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw dogs, 1971, ABC Pictures, 113min) Direção: Sam Peckinpah. Roteiro: David Zelag Goodman, Sam Peckinpah, romance "The siege of Trencher's farm", de Gordon M. Williams. Fotografia: John Coquillon. Montagem: Paul Davies, Tony Lawson, Roger Spotiswoode. Música: Jerry Fielding. Direção de arte/cenários: Ray Simm/Ken Bridgeman. Produção: Daniel Melnick. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, T.P. McKenna, Del Henney, Jim Norton, Donald Webster, Len Jones, Peter Arne. Estreia: 93/11/71

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Não é à toa que Sam Peckinpah recebeu o apelido de Mestre da Violência. Se em "Meu ódio será tua herança" (69) ela ainda aparecia de certa forma estilizada e quase poeticamente, em "Sob o domínio do medo", seu filme seguinte, nada disfarça a forma cruel e inexorável com que ela invade a vida e a consciência de um homem pacato e até então avesso a qualquer tipo de manifestações crueis. Um dos filmes mais polêmicos dos anos 70 - que chegou a ver seu lançamento em vídeo e DVD banido na Inglaterra entre os anos de 1984 e 2002 - também coloca um dos atores-símbolo da época, Dustin Hoffman, em um papel atípico em sua carreira. Avesso a qualquer tipo de violência, Hoffman sempre assumiu que aceitou o papel de David Sumner apenas por dinheiro - ficando com um papel que foi considerado para Donald Sutherland, Jack Nicholson e até Sidney Poitier e que até hoje é lembrado como um dos mais importantes de seu currículo. Sua presença física diminuta e quase desconfortável diante dos caipiras gigantescos que transformam sua vida não poderia ter sido melhor aproveitada por Peckinpah, que filma sua metamorfose de cidadão comum em um vingador ensandecido e truculento com a dose certa de voyeurismo e sadismo. Esse ângulo da questão - que convida o espectador a testemunhar e torcer pela violência - talvez seja o aspecto mais controverso do filme. E é também o mais interessante.

David Sumner (Hoffman em seu melhor estilo "gente como a gente") é um matemático americano que acaba de chegar à cidadezinha da Inglaterra litorânea que é a terra de sua jovem e desejável esposa, Amy (Susan George). O que ele deseja é paz de espírito e tranquilidade para terminar um livro, mas logo percebe que as coisas não serão exatamente como ele espera: logo de cara ele conhece um ex-namorado de Amy, Charlie Venner (Del Henney), que demonstra claramente ter esperanças de reconquistar a amada. Sempre acompanhado de dois primos mal-encarados, Charlie acaba sendo contratado por David para fazer os reparos necessários na fazenda onde o casal está se instalando. Aos poucos, fica evidente que a relação entre David e Amy está passando por uma fase difícil, o que facilita a aproximação de Charlie - que passa a perseguir o matemático e, em uma ocasião em que o afasta de casa, estupra Amy, junto com um colega. Amy esconde o fato do marido, mas não consegue esquecer a violência - que ela acredita ter causado, uma vez que encorajava a aproximação do ex-namorado.


Tudo se transforma em uma descida ao inferno logo em seguida, porém, justamente na noite em que a igreja local oferece uma festa aos moradores. O deficiente mental da cidade, Henry Niles (David Warner) - praticamente proscrito por acusações de pedofilia - acidentalmente mata uma jovem adolescente e, em sua fuga, é atropelado por Donald, que, sem saber do ocorrido, o leva para casa. Enfurecido com a tragédia, Charlie e um grupo de homens armados fica sabendo da localização do ex-presidiário e cerca a propriedade de David, forçando-o a entregá-lo ao que fica claro tratar-se de um provável linchamento. Ciente das consequências de tal ato, o matemático recusa-se a ceder e precisa, então, defender sua casa, sua vida e sua mulher de uma escalada de violência cada vez maior à sua volta. Nesse meio-tempo, ele precisa, também, contar com a ajuda de Amy, que não tem tanta certeza que manter Niles a salvo será bom para eles.

O ato final de "Sob o domínio do medo", quando Peckinpah finalmente mostra suas armas, é de arrepiar. Se até então o cineasta apenas insinuava a crueldade e a beligerância de seus personagens - através de atos covardes como a morte de um gato e um estupro que, a princípio, parecia sexo consensual - em seus trinta minutos finais ele solta as amarras e entrega à audiência um suspense de primeira linha, tanto em termos visuais quanto psicológicos. É especialmente hipnotizante a sequência em que Amy, traumatizada com a violência sofrida, não consegue separá-la da festa religiosa a que está presente, quase como se Peckinpah estivesse preparando o público para o festival de sangue que virá a seguir. A transformação de David Sumner em um bárbaro violento e vingativo é mostrada com coerência e não é difícil prever que boa parte dos espectadores compartilha de sua mudança e de seu desejo de vingança. Quanto mais violência vem a seu encontro, mais capaz de atos quase desumanos ele é, em um processo de desumanização - ou volta à barbárie - que é, ao mesmo tempo, chocante e fascinante. Não é de se estranhar, portanto, que no final do filme ele mesmo assuma que não sabe mais o caminho de volta para casa - ou para o seu antigo "eu", pacífico e contemporizador.

Visto hoje, uma época em que qualquer filmeco de terror apresenta esquartejamentos sem o menor pudor para plateias que os assistem enquanto comem pipoca, "Sob o domínio do medo" pode parecer quase pueril. Mas ainda é, para os fãs do verdadeiro cinema, uma aula de narrativa de suspense e violência - tanto que virou refilmagem nas mãos de Rod Lurie ("A conspiração"), estrelada por James Marsden. A iniciativa de apresentar a história às novas gerações é louvável. O resultado ainda deixa muito a desejar em relação ao original.

quinta-feira

KLUTE, O PASSADO CONDENA

KLUTE, O PASSADO CONDENA (Klute, 1971, Warner Bros, 114min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis, David E. Lewis. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Carl Lerner. Música: Michael Small. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John Mortensen. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi, Dorothy Tristan, Rita Gam. Estreia: 23/6/71

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jane Fonda)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jane Fonda)

No início dos anos 70, poucas atrizes eram consideradas tão "perigosas" quanto Jane Fonda. Suas ideias fortes e polêmicas a respeito de temas controversos como o movimento feminista e os protestos contra a guerra do Vietnã - que chegaram a lhe render o apelido nada elogioso de "Hanoi Jane" -  não apenas deixavam sua já difícil relação com seu pai Henry, um notório conservador, ainda mais complicada, como também lhe rendiam muitas antipatias. Por esse motivo, havia uma certa aura de apreensão na noite de 10 de abril de 1972, quando foram entregues as estatuetas do Oscar aos melhores do ano de 1971. Era esperado que a então caçula do clã Fonda, uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz por seu desempenho no policial "Klute, o passado condena", fosse fazer um discurso político se levasse o prêmio. Porém, se no filme de Alan J. Pakula ela não decepcionou ninguém - nem aos produtores, que a viram sagrar-se vencedora - seu discurso provavelmente deixou muita gente surpresa. Contrariando todas as expectativas, Jane foi concisa e elegante: "Há muita coisa a ser dita, mas eu não as direi hoje esta noite."

Por mais que em muitas de suas pautas políticas Jane estivesse coberta de razão, ela não poderia ter sido mais feliz em sua discrição na entrega do Oscar. O que estava sendo celebrado aquela noite era seu trabalho fascinante como Bree Daniel, uma garota de programa de luxo que comandava a ação do policial cerebral de Alan J. Pakula, um cineasta que como poucos de sua geração, conseguiu captar com perfeição o espírito paranoico de seu tempo - após "Klute" ele assinaria ainda os contundentes "A trama" e "Todos os homens do presidente", que deixariam claro ao público sua inclinação em desvendar o que se passa por trás das portas fechadas não só de pessoas comuns mas também daqueles que governam o país mais influente do mundo. Bree, a personagem de Fonda, é uma mulher que procura na prostituição uma forma de ganhar a vida enquanto não se acerta como atriz ou modelo e não faz disso um drama - ainda que tente equilibrar suas dúvidas existenciais com uma terapeuta. Sua vida aparentemente tranquila sofre uma reviravolta inesperada, porém, quando ela conhece John Klute (Donald Sutherland), um detetive particular que chega até ela em busca de um possível cliente seu misteriosamente desaparecido.


Klute é interpretado por Sutherland - vindo do sucesso da comédia de guerra "MASH", dirigida por Robert Altman - em notas sutis. Na pele de um detetive do interior, desacostumado a maiores violências e pouco à vontade com o ritmo acelerado de Nova York, o ator foge do exagero, preferindo seguir um minimalismo que combina à perfeição com o clima sóbrio e quase claustrofóbico imposto por Pakula. O roteiro não se prende à tentativa de criar um suspense convencional, revelando o criminoso bem antes do final, optando por contar mais a história da relação entre o sóbrio Klute e a sensual e insegura Bree - que a princípio assustada com a aproximação do investigador, que chega a grampear seus telefonemas, logo se vê atraída por suas maneiras delicadas e gentis. A diferença radical entre seus protagonistas e a forma com que eles lidam com ela é que segura "Klute, o passado condena" e o afasta do rótulo fácil de filme policial. Os elementos do gênero estão todos presentes (assassinatos misteriosos, telefonemas assustadores, suspeitos mal-intencionados), mas interessa mais ao cineasta o estudo de seus personagens do que viradas espetaculares na trama.

E, para sorte de Pakula, o que não falta em "Klute" são bons atores. Se Sutherland está discreto, pontuando com eficiência e sensibilidade um espetáculo que tem a violência como tema (mas não como chamariz) e Roy Scheider mostra porque era um dos vilões preferidos dos diretores de sua época pré-"Tubarão", Jane Fonda brilha radiante em mais uma atuação irretocável. Dona de um estilo de interpretação que valoriza mais os pequenos detalhes que criam a personagem do que gestos espalhafatosos, Fonda conquista o espectador pelo olhar, que diz coisas diferentes a cada momento: angústia em suas sessões de terapia, audácia em seus primeiros encontros com Klute e fragilidade logo adiante e principalmente uma certa desesperança em perceber como seus sonhos de estrelato fogem de suas mãos a cada audição frustrada. Seu Oscar foi mais do que merecido, embora o filme possa decepcionar a quem procura uma trama policial comum. Se não for esse o caso, é um belo drama de suspense que vale a pena conferir - nem que seja para aplaudir Jane, uma ausência cada vez mais sentida na tela grande.

quarta-feira

OS RAPAZES DA BANDA

OS RAPAZES DA BANDA (The boys in the band, 1970, Cinema Center Films, 118min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Mart Crowley, peça teatral homônima de sua autoria. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Gerald Greenberg, Carl Lerner. Figurino: W. Robert La Vine. Direção de arte/cenários: John Robert Lloyd/Phil Smith. Produção executiva: Dominick Dunne, Robert Jiras. Produção: Mart Crowley. Elenco: Kenneth Nelson, Frederick Combs, Cliff Gorman, Laurence Luckinbill, Keith Prentice, Peter White, Reuben Greene, Robert La Tourneaux, Leonard Frey. Estreia: 17/3/70

Aqueles que conhecem o William Friedkin cinemático de "Operação França"(71) - que lhe rendeu um Oscar - e "O exorcista"(73) - um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos - talvez tomem um susto ao dar de cara com "Os rapazes da banda", realizado por ele um pouco antes de tornar-se um dos mais confiáveis cineastas comerciais de Hollywood. O possível susto não é devido à qualidade do filme - uma adaptação febril de um sucesso da Broadway - mas sim a seu assunto. Em uma América pré-AIDS e muito antes da onda de correção política e certa liberalidade temática no cinema americano, "Os rapazes da banda" é um retrato sem filtros e sem medo da polêmica do estilo de vida gay do final da década de 60, ainda que centrado em um grupo de personagens que dificilmente podem ser chamados de simpáticos e/ou agradáveis. Controverso justamente por apresentar gays em severas crises de identidade e em um tom de agressividade comparável a "Quem tem medo de Virginia Woolf" - a peça de Edward Albee e o filme de Mike Nichols - o filme acabou por ser defendido por Friedkin com uma frase que deixa explícito o que se pode esperar da trama: "Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme."

E, realmente, feliz é o último adjetivo que pode ser aplicado a qualquer um dos personagens da peça de Mart Crowley, que chegou às telas com o mesmo elenco da produção teatral, fato raro mas exigido pelo produtor/autor. Todos os personagens retratados em cena sofrem de algum tipo de problema pessoal, em maior ou menor grau, o que vai ficando mais e mais claro conforme a história vai se desenrolando. Como acontece normalmente em um bom texto teatral, cada personagem vai se revelando gradualmente até o clímax, onde diversas catarses finalmente os fazem deixar cair as máscaras que porventura ainda estivessem usando mesmo em um ambiente amigável. E seguindo o texto ao pé da letra, Friedkin dirige seus atores praticamente com uma lente de aumento, captando cada nuance, cada sorriso ambíguo e cada fantasma de dentro de cada um com sensibilidade e neutralidade. Essa ausência de um julgamento moral é que faz do filme o sucesso que ele é em termos dramáticos: por mais desprezíveis que alguns atos sejam ou pareçam, pela lente de Friedkin eles se transformam em atitudes perdoáveis, por um motivo ou outro.

A trama se passa durante uma única noite, no apartamento de Michael (Kenneth Nelson), um duplex com terraço localizado em Nova York. É aniversário do venenoso Harold (Leonard Frey), um de seus melhores amigos, e Michael reúne um grupo de amigos, todos homossexuais - ou, como ele mesmo descreve, "um grupo de sete rainhas escandalosas" - para a comemoração. O que deveria ser apenas uma noite comum regada a bebida, música disco e risadas - incrementadas pela presença de um jovem michê imitando Jon Voight em "Perdidos na noite" (Robert La Tourneaux) - se transforma repentinamente em uma sessão de análise indesejada com a presença de Alan (Peter White), um colega de faculdade de Michael, que se diz heterossexual e, com seu preconceito, deflagra uma violenta reação por parte do anfitrião - que tem sérias dúvidas a respeito da sexualidade do antigo amigo. Conforme a noite vai avançando (e com uma tempestade os impedindo de sair do local), Michael sugere um jogo que vai definitivamente selar o destino de todos os convidados. É assim que o casal formado pelo promíscuo Larry (Keith Prentice) e pelo sério Hank (Laurence Luckinbill) - que acabou de divorciar-se por amor ao novo parceiro - põe em pratos limpos sua relação, o afeminado Emory (Cliff Gorman) e o discreto Bernard (Reuben Greene) revelam as frustrações amorosas que os assombram e Harold finalmente põe Michael contra a parede, obrigando-o a lidar com suas próprias dúvidas a respeito de sua vida sexual. Nem mesmo o pretenso heterossexual Alan escapa impunemente do desvario da histeria de Michael.


Servindo quase como o olhar da audiência, é o discreto Donald (Frederick Combs) quem permanece incólume frente à tempestade, testemunhando a deteriorização da noite festiva em um velório de silêncios mortos que ressuscitam violentamente. O ato final do filme, que substitui o humor ferino e mordaz de seu começo - que faz o público rir com tiradas repletas de um sarcasmo tipicamente gay - serve como palco para seus atores demonstrarem seus dotes dramáticos, até então mantidos em fogo brando. Ironicamente, cinco dos atores centrais do filme morreram de AIDS até o início da década de 90, o que dá à obra um tom ainda mais urgente, mais contundente e mais triste. Os homossexuais retratados na história, como bem disse Friedkin, não são aqueles homossexuais normalmente frequentes nas telas de cinema - nem à época nem agora. Mesmo que Emory pareça o alívio cômico da trama com seus trejeitos exagerados e Harold pontue o roteiro com tiradas genialmente irônicas - "Eu sou uma bicha judia feia de 32 anos, com a cara esburacada, e que precisa de horas para decidir se vale a pena por a cara na rua!" - o tom geral do filme é de desilusão, de melancolia, como se fosse uma espécie de previsão dos anos torturantes que a comunidade encararia em pouco tempo, com a epidemia da AIDS batendo à porta violentamente. E é mérito do cineasta e de seu elenco que tudo não seja ainda mais deprimente.

"Os rapazes da banda" não é exatamente um retrato fiel do mundo gay em geral. Fugindo da generalização ao fazer um recorte muito específico de um grupo quase homogêneo - sem se preocupar com outras várias nuances do povo homossexual - o roteiro faz um jogo de contrastes entre aparências e a realidade que poderia facilmente se passar em universo heteronormativo sem maiores prejuízos. O cerne da trama - os conflitos interiores e as lutas pessoais contra os instintos e a favor da individualidade - é forte o bastante para conquistar espectadores de quaisquer orientações sexuais. E Friedkin, que aqui mostra uma direção segura que amadureceria ainda mais em seus filmes seguintes, voltaria à temática gay uma outra vez mais na carreira - e novamente causando polêmica - com o policial "Parceiros da noite". Outro enfoque, mas novamente um filme instigante e marcante.

terça-feira

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO (Take the money and run, 1969, Palomar Pictures, 85min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Lester Shorr. Montagem: Paul Jordan, Ron Kalish. Música: Marvin Hamlisch. Direção de arte/cenários: Fred Harpman/Marvin March. Produção executiva: Sidney Glazier. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Janet Margolin, Marcel Hillaire, Jacquelyn Hyde, Lonny Chapman. Estreia: 18/8/69

Woody Allen não era nenhum novato nas telas de cinema quando dirigiu seu primeiro longa-metragem, em 1969. Seu inconfundível rosto já havia sido visto em "Qque é que há, gatinha?" (65) - cujo roteiro ele também escreveu - e "Cassino Royale" (a versão cômica de 1967, não o filme de James Bond estrelado por Daniel Craig). Insatisfeito com ambas as experiências, ele resolveu que era hora de fazer o seu próprio filme. Com a recusa de seu ídolo Jerry Lewis em dirigir "Um assaltante bem trapalhão" (título genérico que lembra os filmes de Renato Aragão), o comediante de stand-up deu então seu primeiro passo em direção a uma carreira brilhante de cineasta. E quem hoje acusa seu humor de ser elitista ou sofisticado demais para o grande público tem a obrigação de dar ao menos uma olhada em sua estreia atrás das câmeras: ao mesmo tempo que faz rir com um instantâneo humor visual, Allen também brinda o espectador com tiradas hilariantes, em especial com a narração em off, que dá ao filme a honra de ser o primeiro "mockumentary" (falso documentário) lançado em grande escala nos cinemas - e que alcançaria um de seus maiores representantes em outro filme do mesmo diretor, o genial "Zelig" (83).

Dividindo com o protagonista a sua própria data de nascimento (01 de dezembro de 1935), Allen conta a errante trajetória de Virgil Starkwell (vivido por ele mesmo) no crime, através de depoimentos de seus pais (escondidos atrás de máscaras de Groucho Marx por causa da vergonha que sentem do filho bandido), professores e de várias pessoas que passaram por sua vida, como médicos psiquiatras e diretores de presídio. A narrativa começa com a infância de Starkwell, que iniciou-se na vida de fora-da-lei roubando balas e se mantém até seus dias como uma mente criminosa mais sofisticada (ou o mais perto disso), quando resolve passar a assaltar bancos. Logicamente, sob o ponto de vista satírico de Allen, todo o caminho do aspirante a meliante esbarra em situações surreais - como o medicamento em teste que como efeito colateral transforma o paciente em rabino - e vira do avesso até mesmo as convenções românticas (Starkwell se apaixona ao tentar roubar uma bolsa e nem mesmo apaixonado abandona seus intentos por um bom tempo).

Criando seu filme em formas de sketchs cômicos unidos por uma história bastante tênue - que, segundo o cineasta, foi salvo pela edição inteligente de Ralph Rosenblum, que tornou-se um colaborador assíduo em suas obras seguintes - Allen demonstra já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras o gosto pelo humor sardônico, de situações normais transformadas em momentos de grande resultado histriônico. "Um assaltante bem trapalhão" não é uma comédia de altas gargalhadas - como não o é a maioria dos trabalhos do diretor - e sim um filme que extrai sua graça do absurdo do dia-a-dia. Sem apelar para piadas de baixo calão ou para o humor escatológico, Allen faz rir com coisas simples - o assalto ao banco, por exemplo, que é barrado pela burocracia e pela letra ilegível de seu bilhete ameaçador, ou a fuga com um revólver feito de sabão que é frustrada pela chuva que o dissolve na hora H - e tira proveito de sua persona naturalmente desajeitada para conquistar a empatia do público.

"Um assaltante bem trapalhão" não é uma obra-prima. Marinheiro de primeira viagem, Allen ainda não havia burilado suficientemente seu estilo de humor e cinema - coisa que progressivamente faria até a consagração com os Oscar de filme, direção e roteiro de "Noivo neurótico, noiva nervosa", oito anos mais tarde. Mas em seu cerne já estão explícitas muitas das características que lhe seriam a marca registrada daí em diante, como o senso de humor inteligente e irônico, o despojamento no modo de filmar e a tendência a ridicularizar temas até então tidos como intocáveis pela comédia, como a psicanálise (tema frequente de vários futuros filmes) e a família. Desde então, tendo mudado o final previsto para sua história - substituindo o trágico pelo engraçado por sugestão do editor - o cineasta nova-iorquino oficializou um gênero em si: seus filmes não são comédias, dramas ou musicais, são "filmes de Woody Allen". Os cinéfilos de bom-gosto agradecem.

segunda-feira

A NOITE DOS DESESPERADOS

A NOITE DOS DESESPERADOS (They shoot horses, don't they?, 1969, ABC/Palomar Pictures, 129min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe, Robert E. Thompson, romance de Horace McCoy. Fotografia: Philip H. Lathrop. Montagem: Fredrick Steinkamp. Música: John Green. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Frank McKelvey. Produção executiva: Theodore B. Sills. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis. Estreia: 10/12/69

9 indicações ao Oscar: Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Gig Young), Atriz Coadjuvante (Susannah York), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Gig Young)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Gig Young)

Um dos mais cruéis e chocantes retratos da desumanização que veio em consequência da Grande Depressão americana, o amargo "A noite dos desesperados", baseado em romance de Horace McCoy mantém até hoje, 45 anos depois de seu lançamento, a dúbia honra de ser o filme com maior número de indicações ao Oscar sem ter sido lembrado na categoria principal. Indicado em nove categorias - incluindo diretor, atriz e roteiro adaptado - o filme deu a Gig Young a estatueta de melhor ator coadjuvante, mas, visto à luz do tempo, merecia ter tido mais atenção dos eleitores. Forte, contundente e frequentemente dotado de uma ironia tão fina e sutil que muitas vezes passa despercebida, o filme de Sydney Pollack se mantém muito atual nessa época em que realities show pipocam a cada esquina, borrando a linha entre a dignidade e o desespero.

Pollack, que manteve uma carreira que flutuava entre sucessos comerciais de qualidade - "Tootsie" (82) - êxitos de prestígio e Oscars - "Entre dois amores" (85) - e filmes simplesmente medíocres - "Havana" (90) - provavelmente nunca dirigiu um filme tão poderoso quanto este, tanto em termos visuais quanto em termos de densidade psicológica. Ao fazer uma dura crítica à indiferença das classes privilegiadas em relação àqueles menos favorecidos através de uma aparentemente inocente maratona de dança, Pollack utilizou todas as ferramentas do bom cinema para construir uma obra extraordinária em todos os sentidos: a sintonia entre roteiro, direção, elenco e técnica dá à trágica e melancólica trama um revestimento de arte mesmo quando o âmago do que é contado é negro, doloroso e feio. A feiúra do que é contado encontra eco na alma dúbia de alguns personagens, mas Pollack brilhantemente enfeita o lixo com uma poesia que jamais deixa com que seu filme descambe para o dramalhão hipócrita ou falsamente panfletário. O tom seco da narrativa é o acerto final em uma obra simplesmente imperdível.


Jane Fonda - que dois anos depois ganharia seu primeiro Oscar por "Klute, o passado condena" - está fascinante na pele de Gloria Beatty, uma aspirante a atriz desencantada com a vida e a profissão que, no fundo do poço financeiro e pessoal, entra em uma maratona de dança que pagará 1.500 dólares ao par vencedor. Perdendo seu acompanhante na hora da inscrição, ela se une ao jovem e inocente Robert (Michael Sarrazin) na disputa cruel e desumana do concurso, cujas regras rígidas e violentas os impede de dormir mais do que poucos minutos por dia, os faz comer em pé e sem parar de dançar e, vez ou outra, lança mão de uma corrida que elimina os últimos colocados. Dias após o início da maratona - que é assistida por um público que escolhe seus favoritos enquanto come pipoca e aplaude sem muito interesse nas consequências físicas da disputa - Gloria começa a ver outros candidatos perderem o pouco que resta de suas dignidades pessoais. Entre eles estão Alice (Susannah York), que também sonha em ganhar Hollywood e vai perdendo sua razão dia-a-dia, um velho marinheiro (Red Buttons) que mente a idade para manter-se como concorrente e até mesmo uma jovem mulher grávida, Ruby (Bonnie Bedelia, que depois faria a ex-esposa de Bruce Willis em "Duro de matar") que não abre mão do prêmio mesmo correndo o risco de perder o bebê ou morrer. No comando de tudo, está o animador do concurso, o frio e manipulador Rocky (Gig Young, vencedor do Oscar).

Relatado de forma fria e paradoxalmente angustiante, "A noite dos desesperados" mostra um Sydney Pollack no auge da criatividade. Utilizando-se de flashforwards que dão uma pista do final trágico e de certa maneira previsível (mas nunca anticlimático) e de um ritmo que intercala dramas pessoais com momentos eletrizantes reforçados pela edição inteligente de Fredric Steinkamp - como as corridas, capazes de deixar o público na beira da poltrona - o filme também se beneficia de uma reconstituição de época caprichada e de uma história forte o bastante para falar por si. Confiando nessa força, o roteiro prescinde de artifícios que fujam do cenário único, concentrando todo o foco em Gloria, Robert e seus companheiros de dor e de cruz. Uma opção correta que fortalece um dos mais potentes dramas sociais realizados por Hollywood na década de 60.

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