ALGUÉM MUITO ESPECIAL (Some kind of wonderful, 1987, Hughes
Entertainment/Paramount Pictures, 95min) Direção: Howard Deutch.
Roteiro: John Hughes. Fotografia: Jan Kiesser. Montagem: Bud Smith,
Scott Smith. Música: John Musser. Figurino: Marilyn Vance-Straker.
Direção de arte/cenários: Josan Russo/Linda Spheeris. Produção
executiva: Michael Chinich, Ronald Colby. Produção: John Hughes. Elenco:
Eric Stoltz, Mary Stuart Masterson, Lea Thompson, Craig Sheffer, John
Ashton, Elias Koteas. Estreia: 27/02/87
Em 1986, o
diretor-símbolo dos filmes adolescentes da década, John Hughes, lançou o
badalado "A garota de rosa-shocking", onde voltava a oferecer a seu
público-alvo o coquetel de dúvidas existenciais, triângulo amoroso e
trilha sonora descolada que marcou sua carreira. Apesar do sucesso do
filme, porém, Hughes não gostou do resultado final: ele preferia o
desfecho original, diferente da versão que chegou às salas de cinema e
que havia sido imposto pelo estúdio depois de exibições-teste. Frustrado
com a situação, ele fez o que pessoas criativas fariam - remodelou um
pouco sua história, disfarçou um pouco as situações, maquiou os
personagens e praticamente refez o mesmo filme, modificando o sexo do
protagonista... e logicamente terminando a trama a seu bel prazer, mesmo
com a direção entregue a Howard Deutch (que já havia visitado o
universo do roteirista em "Gatinhas e gatões"). Foi assim que surgiu
"Alguém muito especial", mais um exemplar da longa série de filmes
juvenis que fizeram a alegria da garotada romântica dos anos 80. O que é
mais irônico na história, porém, é que, apesar de em tese ser uma
espécie de revisita à "A garota de rosa-shocking", "Alguém muito
especial" é superior a ele.
Para quem já assistiu a
algum filme de John Hughes, a história não é nenhuma novidade, muito
pelo contrário: Keith Nelson (Eric Stoltz) é um esforçado estudante
secundarista que trabalha como mecânico em um posto de gasolina e vive
pressionado pelo pai para escolher uma carreira e deixar de lado sua
vida um tanto sacrificada. Keith sonha em se tornar artista plástico - o
que não agrada muito sua família - e é apaixonado por Amanda Jones (Lea
Thompson), que, apesar de morar nas redondezas, é uma das garotas mais
populares da escola - além de namorar o cobiçado Hardy Jenns (Craig
Sheffer). Sua paixão por Amanda o faz ignorar os sentimentos de sua
melhor amiga, Watts (Mary Stuart Masterson), uma garota com jeito de
rapaz, baterista e pouco afeita às frescuras que atribui ao sexo
feminino. Quando Amanda, depois de uma briga com Hardy aceita um
encontro com Keith, as coisas começam a mudar de lugar: o rapaz passa a
ser visto com outros olhos pela casta social da escola - o que pode lhe
afastar definitivamente de Watts.
O diferencial entre
"Alguém muito especial" e todos os outros filmes com os quais divide o
DNA está no elenco. Eric Stoltz é um bom ator (apesar de ter sido
demitido de "De volta para o futuro" depois de algumas semanas de
filmagens por não parecer adolescente) e Mary Stuart Masterson brilha na
pele de Watts, uma personagem que guarda semelhanças cruciais com outra
popular criação sua, a protagonista de "Tomates verdes fritos" (91). Se
Lea Thompson não convence como a garota mais popular e disputada da
escola por ser comum demais, ao menos não decepciona como atriz,
oferecendo nuances variadas à uma personagem que poderia facilmente
manter-se na caricatura rasa e unidimensional (nessa época ela já era
conhecida como a mãe de Marty McFly no mesmo "De volta para o futuro" do
qual Stoltz foi ejetado). E no elenco coadjuvante se destaca o ótimo
Elias Koteas, que surge em cena como Duncan, um aluno-problema que acaba
se tornando um dos melhores amigos de Keith - e que surpreende o
público com uma inesperada dose de sensibilidade ao final da história.
Conhecido
também como o filme que marcou o fim da relação profissional entre John
Hughes e Molly Ringwald - que recusou o papel de Amanda e desagradou o
cineasta com a decisão - "Alguém muito especial" conquista pela
simplicidade do roteiro, pelo carisma dos atores e pela maneira precisa
com que lida com as mesmas questões dos trabalhos anteriores do diretor
sem ranços paternalistas. O maior mérito dos filmes de Hughes - e que
fica bastante claro aqui - é tratar os adolescentes como eles realmente
são, não julgando ou aprovando suas atitudes, simplesmente as
testemunhando com uma câmera e apresentando sob um viés poético e
romântico. Eles - os adolescentes de ontem, hoje e sempre - agradecem
emocionados.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
sexta-feira
quinta-feira
A FORTALEZA
A
FORTALEZA (Fortress, 1985, HBO Films, 85min) Direção: Arch Nicholson.
Roteiro: Everett De Roche, romance de Gabrielle Lord. Fotografia: David
Connell. Montagem: Ralph Strasser. Música: Danny Beckerman. Direção de
arte: Philip Warner. Produção executiva: Hector Crawford, Ian Crawford,
Terry Stapleton. Produção: Raymond Menmuir. Elenco: Rachel Ward, Sean
Garlick, Elaine Cusick, Laurie Moran, Marc Gray, Rebecca Rigg, Richard
Terrill. Estreia: 24/11/85
Hoje em dia é comum que produções televisivas alcancem níveis de qualidade compatíveis com aqueles realizados para o cinema, graças especialmente a emissoras como a HBO. Algumas décadas atrás, no entanto, filmes feitos especificamente para a TV não tinham o mesmo status, sendo frequentemente ligados a atores e diretores cujas carreiras não tinham o mesmo prestígio de antes. "A fortaleza", rodado na Austrália e estrelado por Rachel Ward - que havia arrancado suspiros da ala masculina com sua atuação em "Paixões violentas" (84) - faz parte dessa época, mas é impressionante como, mesmo com as limitações impostas pelo veículo, consegue prender a atenção e proporcionar à audiência um espetáculo que, se não chega a ser brilhante, ao menos é competente e eficiente a ponto de contar bem uma história envolvente e imprevisível.
Ward, em seu primeiro papel pós-"Paixões violentas" está convincente como Sally Jones, a professora não muito satisfeita de uma pequena cidade rural da Austrália que mora com os pais de um aluno e não vê a hora de acabar o ano letivo para buscar novos objetivos profissionais. Sua tranquila e tediosa rotina se vê drasticamente modificada, no entanto, em um dia que começa aparentemente igual a todos os outros: um grupo de quatro homens mascarados invade a escola e a sequestra, juntamente com seus oito alunos (cujas idades variam dos seis aos quatorze anos). Com a intenção de pedir um resgate por suas vidas, os criminosos os escondem em uma caverna, mas nenhum dos reféns - a começar pela professora e pelo rebelde Sid (Sean Garlick) - pretendem resignar-se à sua condição e começam a engendrar um plano de fuga que os colocará em rota de colisão com a violência e a truculência de seus sequestradores.
Dirigido por Arch Nicholson, um veterano em produções televisivas, que assinou episódios de séries como "Missão impossível" (a versão anos 80) e que morreu em 1990 aos 49 anos de idade, "A fortaleza" tem a seu favor um roteiro conciso e interessante, baseado em uma história real acontecida em 1972, quando quatro homens sequestraram uma professora e sua classe e descobriram, tarde demais, que o grupo havia conseguido fugir apesar da densa floresta que os cercava. O filme, por sua vez, expande a história original, dando à relação entre Sally e seus alunos um viés mais familiar, com um arco dramático mais rico do que aconteceu na vida real: não apenas a professora passa a sentir-se mais próxima dos alunos com quem mantinha um certo distanciamento emocional como as próprias crianças descobrem dentro de si uma coragem desconhecida - além de uma tendência para a violência e a crueldade que só explode nas sequências finais.
Fosse direcionado para o cinema e tivesse no comando um diretor mais ousado e criativo, certamente "A fortaleza" teria um impacto muito maior em seu resultado final. Apesar disso - e das restrições inerentes ao veículo, especialmente nos anos 80, quando o limite entre o que podia ou não ser mostrado na televisão ainda era muito mais apertado - o filme de Nicholson consegue sobressair-se de seus congêneres graças ao trabalho de Rachel Ward e do roteiro, que flui com bom ritmo e senso de clímax. É um divertimento correto, levando-se em consideração as circunstâncias de sua realização, e pode tranquilamente servir como um entretenimento ligeiro.
Hoje em dia é comum que produções televisivas alcancem níveis de qualidade compatíveis com aqueles realizados para o cinema, graças especialmente a emissoras como a HBO. Algumas décadas atrás, no entanto, filmes feitos especificamente para a TV não tinham o mesmo status, sendo frequentemente ligados a atores e diretores cujas carreiras não tinham o mesmo prestígio de antes. "A fortaleza", rodado na Austrália e estrelado por Rachel Ward - que havia arrancado suspiros da ala masculina com sua atuação em "Paixões violentas" (84) - faz parte dessa época, mas é impressionante como, mesmo com as limitações impostas pelo veículo, consegue prender a atenção e proporcionar à audiência um espetáculo que, se não chega a ser brilhante, ao menos é competente e eficiente a ponto de contar bem uma história envolvente e imprevisível.
Ward, em seu primeiro papel pós-"Paixões violentas" está convincente como Sally Jones, a professora não muito satisfeita de uma pequena cidade rural da Austrália que mora com os pais de um aluno e não vê a hora de acabar o ano letivo para buscar novos objetivos profissionais. Sua tranquila e tediosa rotina se vê drasticamente modificada, no entanto, em um dia que começa aparentemente igual a todos os outros: um grupo de quatro homens mascarados invade a escola e a sequestra, juntamente com seus oito alunos (cujas idades variam dos seis aos quatorze anos). Com a intenção de pedir um resgate por suas vidas, os criminosos os escondem em uma caverna, mas nenhum dos reféns - a começar pela professora e pelo rebelde Sid (Sean Garlick) - pretendem resignar-se à sua condição e começam a engendrar um plano de fuga que os colocará em rota de colisão com a violência e a truculência de seus sequestradores.
Dirigido por Arch Nicholson, um veterano em produções televisivas, que assinou episódios de séries como "Missão impossível" (a versão anos 80) e que morreu em 1990 aos 49 anos de idade, "A fortaleza" tem a seu favor um roteiro conciso e interessante, baseado em uma história real acontecida em 1972, quando quatro homens sequestraram uma professora e sua classe e descobriram, tarde demais, que o grupo havia conseguido fugir apesar da densa floresta que os cercava. O filme, por sua vez, expande a história original, dando à relação entre Sally e seus alunos um viés mais familiar, com um arco dramático mais rico do que aconteceu na vida real: não apenas a professora passa a sentir-se mais próxima dos alunos com quem mantinha um certo distanciamento emocional como as próprias crianças descobrem dentro de si uma coragem desconhecida - além de uma tendência para a violência e a crueldade que só explode nas sequências finais.
Fosse direcionado para o cinema e tivesse no comando um diretor mais ousado e criativo, certamente "A fortaleza" teria um impacto muito maior em seu resultado final. Apesar disso - e das restrições inerentes ao veículo, especialmente nos anos 80, quando o limite entre o que podia ou não ser mostrado na televisão ainda era muito mais apertado - o filme de Nicholson consegue sobressair-se de seus congêneres graças ao trabalho de Rachel Ward e do roteiro, que flui com bom ritmo e senso de clímax. É um divertimento correto, levando-se em consideração as circunstâncias de sua realização, e pode tranquilamente servir como um entretenimento ligeiro.
quarta-feira
A GAROTA DE ROSA-SHOCKING
A GAROTA DE ROSA-SHOCKING (Pretty in pink, 1986, Paramount
Pictures, 96min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak
Fujimoto. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino:
Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito,
Bruce Weintraub. Produção executiva: Michael Chinich, John Hughes.
Produção: Lauren Shuler. Elenco: Molly Ringwald, Andrew McCarthy, Jon
Cryer, Harry Dean Stanton, James Spader, Annie Potts. Estreia: 28/02/86
Musa absoluta do diretor John Hughes e da vasta maioria dos adolescentes frequentadores das salas de cinema e das videolocadoras dos anos 80, a ruiva Molly Ringwald considera "A garota de rosa-shocking", sua terceira colaboração com Hughes - depois de "Gatinhas e gatões" (84) e "Clube dos cinco" (85) - como a sua preferida. Antes de romper profissionalmente com o cineasta ao recusar um papel em seu "Alguém muito especial" (87), Ringwald era a cara de sua geração, algo assim como o James Dean feminino dos anos 80 - sem sua rebeldia e o carisma imortal, no entanto. Suas personagens, sempre estudantes do colegial lidando com problemas típicos de sua idade, refletiam nas telas as angústias de seu tempo, rodeadas por pôsteres de bandas, vestidas com figurinos inacreditavelmente cafonas sob o ponto de vista atual e sonorizadas por nomes icônicos como The Smiths, Eccho & The Bunnymen, New Order e OMD. E esse seu trabalho com o diretor-símbolo do gênero não foge à regra, mostrando definitivamente que em time que está ganhando não se mexe: "A garota de rosa-shocking" mais uma vez usa e abusa dos clichês das comédias românticas adolescentes sem ao menos ter vergonha disso. E justamente por isso funciona mais uma vez.
Agora Ringwald interpreta Andie Walsh, uma jovem pobre que vive sozinha com o pai desempregado (Harry Dean Stanton dando credibilidade ao projeto) e trabalha em uma loja de discos ao lado da amiga mais velha, Iona (Annie Potts). Inteligente e criativa a ponto de criar suas próprias roupas - e ser prodigamente ridicularizada por isso pela ala das patricinhas de sua escola - Andie não é exatamente a mais popular das garotas, mas isso não impede que Blane (Andrew McCarthy), o rapaz dos seus sonhos, a convide para sair. O surpreendente convite deixa Andie nas nuvens, mas acaba sendo uma enorme decepção para Duckie (Jon Cryer, da série "Two and half men"), seu melhor amigo, que é apaixonado por ela desde a infância mas tem medo de declarar-se. A relação entre Andie e Blane, porém, irá esbarrar em outros empecilhos: além de Duckie não estar nem um pouco feliz com a história e de Steff (James Spader), amigo de Blane, não poupar esforços para destruir o romance nascente, eles precisam lidar com suas diferenças sociais e inseguranças.
O roteiro de "A garota de rosa-shocking" talvez seja o mais fraco dentre os clássicos de John Hughes, o que não acaba de jeito nenhum com o prazer de assistí-lo (ou revisitá-lo, vez ou outra). A inocência característica da obra do diretor permanece uma delícia, diante de tantas comédias contemporâneas que insistem na escatologia e na baixaria para conquistar o espectador. O romantismo, que pode soar datado mas permanece terno e íntegro, ainda é um dos seus pontos altos, estabelecendo como base da trama um triângulo amoroso que causou polêmica já em seu lançamento: o final que chegou aos cinemas é diferente daquele imaginado por Hughes, que não foi bem aceito nas exibições-teste e substituido mesmo contra a sua vontade - e que o levou a lançar "Alguém muito especial" (aquele filme que Ringwald não topou fazer) no ano seguinte. Especula-se que, caso o elenco escolhido tivesse sido diferente (Robert Downey Jr. fez teste para viver Duckie e Charlie Sheen para interpretar Blane), essa situação poderia ter sido invertida, mas o fato é que, como está, o filme marcou uma geração e é difícil imaginar um final diferente, quer se concorde com ele ou não.
Tendo moldado, junto com outros filmes similares, toda uma geração de cinéfilos adolescentes que ainda não eram obrigados a uma dieta de filmes de super-heróis, "A garota de rosa-shocking" ficou na mente de seu público-alvo graças a algumas cenas inesquecíveis, como o encontro entre Andie e Blane no baile do final (ao som da clássica "If you leave", da banda OMD) e à interpretação sempre na medida certa de Molly Ringwald - que infelizmente não teve a mesma sorte na carreira de atriz adulta. Pode não ser um grande filme, não ter ganho Oscar e não fazer parte da lista das obras que mudaram a sétima arte, mas tem lugar garantido no coração dos fãs, que não se emocionaram à toa com as confusões sentimentais de sua adorável protagonista.
Musa absoluta do diretor John Hughes e da vasta maioria dos adolescentes frequentadores das salas de cinema e das videolocadoras dos anos 80, a ruiva Molly Ringwald considera "A garota de rosa-shocking", sua terceira colaboração com Hughes - depois de "Gatinhas e gatões" (84) e "Clube dos cinco" (85) - como a sua preferida. Antes de romper profissionalmente com o cineasta ao recusar um papel em seu "Alguém muito especial" (87), Ringwald era a cara de sua geração, algo assim como o James Dean feminino dos anos 80 - sem sua rebeldia e o carisma imortal, no entanto. Suas personagens, sempre estudantes do colegial lidando com problemas típicos de sua idade, refletiam nas telas as angústias de seu tempo, rodeadas por pôsteres de bandas, vestidas com figurinos inacreditavelmente cafonas sob o ponto de vista atual e sonorizadas por nomes icônicos como The Smiths, Eccho & The Bunnymen, New Order e OMD. E esse seu trabalho com o diretor-símbolo do gênero não foge à regra, mostrando definitivamente que em time que está ganhando não se mexe: "A garota de rosa-shocking" mais uma vez usa e abusa dos clichês das comédias românticas adolescentes sem ao menos ter vergonha disso. E justamente por isso funciona mais uma vez.
Agora Ringwald interpreta Andie Walsh, uma jovem pobre que vive sozinha com o pai desempregado (Harry Dean Stanton dando credibilidade ao projeto) e trabalha em uma loja de discos ao lado da amiga mais velha, Iona (Annie Potts). Inteligente e criativa a ponto de criar suas próprias roupas - e ser prodigamente ridicularizada por isso pela ala das patricinhas de sua escola - Andie não é exatamente a mais popular das garotas, mas isso não impede que Blane (Andrew McCarthy), o rapaz dos seus sonhos, a convide para sair. O surpreendente convite deixa Andie nas nuvens, mas acaba sendo uma enorme decepção para Duckie (Jon Cryer, da série "Two and half men"), seu melhor amigo, que é apaixonado por ela desde a infância mas tem medo de declarar-se. A relação entre Andie e Blane, porém, irá esbarrar em outros empecilhos: além de Duckie não estar nem um pouco feliz com a história e de Steff (James Spader), amigo de Blane, não poupar esforços para destruir o romance nascente, eles precisam lidar com suas diferenças sociais e inseguranças.
O roteiro de "A garota de rosa-shocking" talvez seja o mais fraco dentre os clássicos de John Hughes, o que não acaba de jeito nenhum com o prazer de assistí-lo (ou revisitá-lo, vez ou outra). A inocência característica da obra do diretor permanece uma delícia, diante de tantas comédias contemporâneas que insistem na escatologia e na baixaria para conquistar o espectador. O romantismo, que pode soar datado mas permanece terno e íntegro, ainda é um dos seus pontos altos, estabelecendo como base da trama um triângulo amoroso que causou polêmica já em seu lançamento: o final que chegou aos cinemas é diferente daquele imaginado por Hughes, que não foi bem aceito nas exibições-teste e substituido mesmo contra a sua vontade - e que o levou a lançar "Alguém muito especial" (aquele filme que Ringwald não topou fazer) no ano seguinte. Especula-se que, caso o elenco escolhido tivesse sido diferente (Robert Downey Jr. fez teste para viver Duckie e Charlie Sheen para interpretar Blane), essa situação poderia ter sido invertida, mas o fato é que, como está, o filme marcou uma geração e é difícil imaginar um final diferente, quer se concorde com ele ou não.
Tendo moldado, junto com outros filmes similares, toda uma geração de cinéfilos adolescentes que ainda não eram obrigados a uma dieta de filmes de super-heróis, "A garota de rosa-shocking" ficou na mente de seu público-alvo graças a algumas cenas inesquecíveis, como o encontro entre Andie e Blane no baile do final (ao som da clássica "If you leave", da banda OMD) e à interpretação sempre na medida certa de Molly Ringwald - que infelizmente não teve a mesma sorte na carreira de atriz adulta. Pode não ser um grande filme, não ter ganho Oscar e não fazer parte da lista das obras que mudaram a sétima arte, mas tem lugar garantido no coração dos fãs, que não se emocionaram à toa com as confusões sentimentais de sua adorável protagonista.
terça-feira
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion
Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet
Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak.
Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld.
Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção:
John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia,
John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee
Richardson. Estreia: 13/6/85
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
segunda-feira
A MOSCA
A MOSCA (The fly, 1986, SLM Productions/Brooksfilms/20th Century
Fox, 96min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Charles Edward Pogue,
David Cronenberg, conto de George Langelaan. Fotografia: Mark Irwin.
Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise
Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Elinor Rose Galbraith.
Produção: Stuart Cornfeld. Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John
Getz, Joy Boushel. Estreia: 15/8/86
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.
A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.
Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.
Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.
"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Em 1958, uma aterrorizante ficção científica estrelada por Vincent Price, "A mosca da cabeça branca", tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de seu estúdio (20th Century Fox). Quase trinta anos mais tarde, o conto de George Langelaan que a inspirou voltou a assustar - ou mais precisamente enojar - a audiência: com mais recursos de tecnologia, um cineasta inclinado a exagerar no horror visual, mais dinheiro que seu antecessor e rebatizado simplesmente como "A mosca", a reinvenção do canadense David Cronenberg da história de Langelaan novamente levou multidões aos cinemas (custou estimados 15 milhões de dólares e rendeu mais de 40 somente no mercado doméstico), rendeu uma continuação inferior e deu ao ator Jeff Goldblum o papel mais marcante de sua carreira - e que quase foi parar nas mãos de Michael Keaton - além de dar à sua então namorada Geena Davis um de seus primeiros papéis importantes.
A história de "A mosca" é bem típica dos clichês das ficções científicas paranóicas dos anos 50, mas recheada com efeitos visuais e de maquiagem extremamente eficientes (a maquiagem de Chris Walas chegou a levar o Oscar da categoria) e refogada com uma violência gráfica que trai a presença de Cronenberg por trás do projeto (como seria o filme sob o comando de Tim Burton, o primeiro diretor a ser considerado, é uma incógnita). Substituindo os sustos por sequências de nojeira explícita - característica que havia abandonado em seu filme anterior, "A hora da zona morta" (83) - o cineasta leva o espectador a uma viagem pelo pesadelo maior de qualquer cientista (tornar-se vítima involuntária do próprio trabalho) sem pausas para respirar. E poucas vezes o conceito de cientista maluco foi levado a circunstâncias tão extremas como as mostradas na trágica história do cientista maluco (e não o são todos?) Seth Brundle.
Brundle é, como todos os cientistas retratados na ficção, um ser antissocial, dedicado quase que às raias da obsessão por sua nova experiência: uma máquina de teletransporte que irá, segundo ele mesmo, revolucionar a ciência mundial. Registrando suas experiências lado a lado com a jornalista Veronica Quaife (Geena Davis) - com quem eventualmente acaba se relacionando também amorosamente - ele esbarra em algumas dificuldades técnicas, como a impossibilidade de teletransportar seres vivos (em uma de suas tentativas ele acaba virando um babuíno literalmente pelo avesso). Suas experiências, porém, começam a dar resultado e, em uma noite em que está alcoolizado e enciumado da relação de Veronica com um ex-namorado que também é seu editor, Brundle resolve testar seus experimentos nele mesmo. Sem que perceba, junto com ele na máquina de teletransporte entra uma mosca. Em seguida, depois de considerar a experiência um êxito, ele começa a perceber mudanças em seu organismo (força física avantajada, fòlego maior, exagerada necessidade de açúcar e pelos duros que crescem através de um ferimento nas costas). Quando as coisas começam a sair do controle - ele começa a perder os dentes e as unhas, por exemplo - ele investiga o registro de suas atividades no computador e descobre estarrecido que suas moléculas foram fundidas às do inseto, o que acabará por levá-lo a uma metamorfose completa.
Se até então o filme de Cronenberg apenas flertava com o horror, a partir daí não existe mais limites para sua fascinação pelo doentio. O diretor aproveita o roteiro para expor sem subterfúgios algumas das cenas mais nojentas do cinema da década de 80 (e quiçá de muito tempo depois): babuínos eviscerados, vômitos, pus, membros podres, fraturas expostas... tudo que pode servir à trama enquanto perturba a plateia é utilizado por ele que, no entanto, em momento algum deixa de lado sua preocupação em manter a coerência interna da história, principalmente em termos de personagens: mesmo quando se vê em vias de transformar-se de vez em uma mosca, Brundle ainda tem laivos de ser humano, apaixonado por Veronica e preocupado com o bebê que ela espera. Ela, por sua vez, se vê dividida entre manter a lealdade ao homem que ama mesmo quando ele não passa mais de um arremedo do que foi (e passa a ameaçá-la com mais uma de suas ideias radicais). Para isso, conta muito a química entre Jeff Goldblum e Geena Davis (um casal de verdade à época das filmagens) e o talento inquestionável do cineasta em arrancar de seus atores interpretações convincentes mesmo em situações que beiram o surreal - característica que ele ainda exploraria muito mais futuramente, em filmes bastante controversos.
"A mosca" é um grande filme de ficção científica por vários motivos. Primeiro, porque se leva a sério, coisa que muitas produções contemporâneas não fazem. Depois, porque é tecnicamente competente a ponto de ainda hoje impressionar pelos efeitos e pela maquiagem. E por fim, tem uma história forte e personagens críveis, que não soam como estereótipos mal-desenvolvidos, além de contar com bons atores defendendo seus papéis. O fracasso de sua continuação não chega a surpreender, uma vez que não tem todos esses elementos. Melhor ficar com a primeira parte e se impressionar em como se mantém atual apesar da tecnologia.
domingo
A DIFÍCIL ARTE DE AMAR
A DIFÍCIL ARTE DE AMAR (Heartburn, 1986, Paramount Pictures,
108min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, livro de Nora
Ephron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Sam O'Steen. Música:
Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Tony
Walton/Susan Bode. Produção: Robert Greenhut, Mike Nichols. Elenco: Jack
Nicholson, Meryl Streep, Jeff Daniels, Maureen Stapleton, Stockard
Channing, Richard Masur, Catherine O'Hara, Kevin Spacey, Joanna Gleason,
Mercedes Ruehl. Estreia: 25/7/86
Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.
Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.
Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.
Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.
Segundo trabalho de Meryl Streep sob o comando de Mike Nichols e um roteiro de Nora Ephron - o primeiro foi "Silkwood, o retrato de uma coragem" (83), que lhe deu uma indicação ao Oscar - "A difícil arte de amar" é a adaptação de um livro da própria Ephron, que pôs no papel, em forma de ficção, a real história de seu casamento com o jornalista Carl Bernstein, o mesmo que, junto com Bob Woodward, expôs o escândalo Watergate e obrigou a renúncia do presidente Richard Nixon (e foi vivido por Dustin Hoffman no filme "Todos os homens do presidente" (86)). Mais conhecido pela bela canção-tema de Carly Simon, "Coming around again", o filme de Nichols é uma amarga e cínica análise de um relacionamento pouco saudável, que aposta no texto ácido de Ephron e no talento de Streep e Jack Nicholson para transformar o que poderia facilmente se tornar uma longa diatribe contra a instituição do casamento em um drama realista, ainda que com a mordacidade típica da roteirista e a elegância de sempre da direção de Nichols.
Quando o filme começa, a escritora nova-iorquina Rachel Samstat (Meryl Streep) e o jornalista Mark Formn (Jack Nicholson, substituindo Mandy Patinkin depois de dois dias de filmagens) se conhecem no casamento de um amigo em comum. Mesmo já tendo passado por relacionamentos não muito felizes, ambos acabam se apaixonando e, depois de deixar as reservas a respeito do assunto de lado, resolvem também subir ao altar. Como todo casal apaixonado, eles compram uma casa - que mais os estressa do que os deixa felizes, graças à sua interminável reforma - e tentam administrar a relação, já que ele continua trabalhando, mas ela abandonou o emprego para mudar-se com ele para Washington. A familia não demora a aumentar, mas nem mesmo a filha pequena impede Mark de embarcar em um caso extraconjugal que ameaça jogar tudo por terra. Traída, Rachel acaba por perdoar o marido, mas a confiança abalada mostra-se cada vez mais ameaçadora à tranquilidade do casal, especialmente com uma segunda gravidez na jogada.
Não é de surpreender que o roteiro de Ephron, assim como o livro que lhe deu origem, ponha a maior parcela de culpa no fracasso do casamento entre Rachel e Mark no jornalista, uma vez que a trama é contada quase do ponto de vista da personagem de Streep (que, mais uma vez, está soberba), mas é preciso admirar a forma como Nichols tenta fugir da tentação de apontar qualquer dedo, mostrando que em qualquer relação existe dois lados a considerar. Ter Jack Nicholson como a segunda metade do casal não atrapalha em nada, apesar do eterno ar cínico do ator complicar quando seu personagem tenta convencer Rachel - e por contrapartida a audiência inteira - de seu arrependimento. Mark Forman não é um papel simpático, e Nicholson faz o que pode para que a alta dose de maniqueísmo imposta pelo roteiro não prejudique sua comunicação com o público - não foi à toa que Dustin Hoffman recusou o papel, talvez também para não reviver com Meryl Streep um casamento fracasso como o que viveram em "Kramer x Kramer" (79). Segundo o roteiro, não existe algoz mais fatal para uma relação do que o adultério, mesmo que o tédio, a frutração profissional e a falta de tesão também estejam na equação, e esse quase simplismo acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme.
Com o talento de Ephron em tirar humor das mais trágicas e sérias situações - talento esse que ficaria patente com o sucesso de suas comédias românticas "Sintonia de amor" (93) e "Mensagem pra você" (98) - seria de esperar que "A difícil arte de amar" fosse um tanto menos pessimista. No entanto, como forma de catarse, é inegável que a radiografia da relação estragada entre Rachel e Mark funciona às mil maravilhas. Com diálogos escritos com extrema fluência - característica de Ephron - e interpretados por um elenco de sonhos que inclui ainda Jeff Daniels, Stockard Channing, o cineasta Milos Forman e um estreante Kevin Spacey em uma ponta impagável, o roteiro tem ritmo, consistência e um senso de verdade que somente uma história real que não apela para o sentimentalismo de doenças terminais consegue, o filme de Mike Nichols ainda por cima tem a luxuosa participação da trilha sonora charmosa de Carly Simon, que comenta a história com sua voz inconfundível e delicia o espectador. É ela um dos principais motivos para se assistir ao filme - se é que preciso motivos além de Meryl Streep e Jack Nicholson.
sábado
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS (St. Elmo's fire, 1985,
Columbia Pictures, 110min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Joel
Schumacher, Carl Kurlander. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem:
Richard Marks. Música: David Foster. Figurino: Susan Becker. Direção de
arte/cenários: William Sandell/Robert Gould, Charles M. Graffeo.
Produção executiva: Bernard Schwartz, Ned Tanen. Produção: Lauren
Shuler. Elenco: Emilio Estevez, Rob Lowe, Andrew McCarthy, Demi Moore,
Judd Nelson, Ally Sheedy, Mare Winningham, Martin Balsam, Andie
MacDowell. Estreia: 28/6/85
Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.
Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.
Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.
Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!
Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.
Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.
Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.
Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!
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