domingo

TE AMAREI ATÉ TE MATAR

TE AMAREI ATÉ TE MATAR (I love you to death, TriStar Pictures, 97min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: John Kostmayer. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Anne V. Coates. Música: James Horner. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Grillo, Charles Okun. Produção: Jeffrey Lurie, Ron Moller. Elenco: Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves, Phoebe Cates, Heather Graham. Estreia: 06/4/90

Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.

Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.


A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.

Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.

sábado

JUSTIÇA CEGA

JUSTIÇA CEGA (Internal affairs, 1990, Paramount Pictures, 115min) Direção: Mike Figgis. Roteiro: Henry Bean. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Robert Estrin. Música: Brian Banks, Mike Figgis, Anthony Marinelli. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Pierre David, René Malo. Produção: Frank Mancuso Jr.. Elenco: Richard Gere, Andy Garcia, Nancy Travis, Laurie Metcalf, William Baldwin, Annabella Sciorra, Richard Bradford, Michael Beach, John Kapelos, Xander Berkeley. Estreia: 12/01/90

O ano de 1990 foi particularmente feliz para os atores Andy Garcia e Richard Gere. O ator cubano, que já havia sido notado como um dos intocáveis de Brian DePalma e foi o parceiro de Michael Douglas em "Chuva negra" (89), de Ridley Scott, arrancou elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como o sobrinho bastardo de Michael Corleone (Al Pacino) em "O poderoso chefão, parte 3". E Gere, que havia estreado no cinema no final dos anos 70, se tornado símbolo sexual graças a filmes como "Gigolô americano" (80) e entrado em um período de estagnação na carreira, voltou a brilhar intensamente como par romântico de uma bela prostituta (Julia Roberts) sob a visão Disney no megassucesso "Uma linda mulher". Além disso, ambos lideraram o elenco de "Justiça cega", um thriller policial brilhante, dirigido pelo independente Mike Figgis e que remetia diretamente aos exemplares do gênero realizados por Hollywood na década de 70 - obras mais cerebrais que tiravam partido do estado de paranoia pós-Nixon. Inesperado sucesso de crítica, o filme praticamente deu aos dois atores as chances de que precisavam para serem notados (ou redescobertos) pelo grande público.

Mike Figgis - o diretor que cinco anos mais tarde concorreria ao Oscar da categoria pelo deprimente "Despedida em Las Vegas" - constroi, com base no roteiro enxuto e conciso de Henry Bean, um excitante jogo de gato e rato entre dois policiais de Los Angeles que são postos em lados opostos em uma investigação de corrupção na força. Como integrante da Comissão de Assuntos Internos da polícia, o novato Raymond Avila (Andy Garcia) se vê às voltas com uma série de irregularidades relacionadas ao veterano Dennis Peck (Richard Gere) - sem saber que, além de corrupto, ele é também responsável por armar cenas de crimes para justificar sua violência latente, manipular seu antigo parceiro Van Stretch (William Baldwin) e pular da cama da esposa para a da ex-mulher e até para a fragilizada companheira de seu colega. Com a ajuda da parceira Amy Wallace (Laurie Metcalf), Avila aos poucos começa a desbaratar a quadrilha liderada por Peck, que, sentindo-se acuado, apela para os sentimentos latinos e viris de Avila, insinuando um caso com sua mulher, Kathleen (Nancy Travis).


Assumindo um papel recusado por Kurt Russell e Mel Gibson, Richard Gere poucas vezes esteve tão bem nas telas. Bem dirigido por Figgis - que soube usar em seu favor as limitações de Gere como intérprete, mantendo sempre uma aura de mistério e perigo ao redor de seu personagem - o ator, que vinha de uma sucessão de fracassos de bilheteria, mostrou-se digno da confiança depositada nele, entregando uma performance que, se não é digna de um Oscar, ao menos enfrenta de igual pra igual o vulcão sempre em vias de erupção que é o volátil personagem de Garcia. O cineasta também não deixa de aproveitar o status de símbolo sexual de Gere, dando a ele a oportunidade de desfilar o charme cafajeste que lhe deu fama - sem, no entanto, deixar que essa face da personalidade de Peck assuma a protagonização do filme até que seja a mola-mestra do conflito entre os dois policiais. E é justamente quando isso acontece que "Justiça cega" fica ainda mais empolgante.

O terço final do filme, quando Avila passa a desconfiar de um romance entre sua esposa e Peck, é o ponto alto da trama, talvez porque é o momento em que Andy Garcia tem mais chances de mostrar o quão talentoso ele é. Aproveitando que sua relação com Gere durante as filmagens não foram das mais amistosas, Garcia explode em cena, explorando o sangue quente de sua origem cubana em cenas repletas de uma tensão que apenas acrescenta ao filme: é genial, por exemplo, quando ele confronta Kathleen em um restaurante lotado e passa a ofender-lhe em espanhol (ideia do próprio ator muito bem aceita por Mike Figgis). Sua mente torturada por imagens entre sua esposa e Peck em tórridos momentos é que acaba por levá-lo a um confronto sangrento, que só não é ainda melhor pela necessidade quase irresistível do cinema americano policial de terminar suas histórias de maneira um tanto quase previsível. Mesmo assim, tudo é mantido em um nível de tensão superior a qualquer congênere. Vale mais do que uma espiada. Vale aplaudir o duelo entre Gere e Garcia, dois nomes que no início dos anos 90 pareciam ter todos os apetrechos para dominar a década.

sexta-feira

MUITO MAIS QUE UM CRIME

MUITO MAIS QUE UM CRIME (Music box, 1989, Carolco Pictures, 124min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Patrick Blosssier. Montagem: Joelle Van Effenterre. Música: Philippe Sarde. Figurino: Rita Salazar. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Erica Rogala. Produção executiva: Joe Eszterhas, Hal W. Polaire. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Michael Hooker, Donald Moffat, Lukas Haas. Estreia: 22/12/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)

Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.

Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.


Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.

"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!

quinta-feira

CONDUZINDO MISS DAISY

CONDUZINDO MISS DAISY (Driving Miss Daisy, 1989, Zanuck Company, 99min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Alfred Uhry, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Peter James. Montagem: Mark Warner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Crispian Sallis. Produção executiva: David Brown. Produção: Lili Fini Zanuck, Richard D. Zanuck. Elenco: Morgan Freeman, Jessica Tandy, Dan Aykroyd, Patti Lupone, Esther Rolle. Estreia: 13/12/89

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Morgan Freeman), Atriz (Jessica Tandy), Ator Coadjuvante (Dan Aykroyd), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Jessica Tandy), Roteiro Adaptado, Maquiagem
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Morgan Freeman), Atriz Comédia/Musical (Jessica Tandy) 

Ardoroso fã de uma polêmica de alcance mundial, o cineasta afro-americano Spike Lee - diretor de petardos controversos como "Faça a coisa certa", elogiado pela crítica, mas praticamente ignorado pela Academia, recebendo apenas duas indicações à estatueta - não poupou verbo ao descrever o grande vencedor do Oscar 1990, a comédia dramática "Conduzindo Miss Daisy": segundo ele, o filme estrelado por Morgan Freeman e Jessica Tandy não passava de uma "evocação nostálgica e racista de um passado em que os negros não podiam fazer nada senão submeter-se aos brancos." Discussões de racismo à parte, a adaptação da premiada peça teatral off-Broadway de Alfred Uhry, inspirada nas memórias que guardava de sua avó pegou todo mundo de surpresa quando, surgindo praticamente do nada, bateu o favorito "Nascido em 4 de julho", estrelado por Tom Cruise, na batalha pelo Oscar de melhor filme - principalmente porque seu diretor, o australiano Bruce Beresford não chegou nem mesmo a concorrer em sua categoria (fato raro, mas não inédito na história do prêmio). Contando apenas com o aval do National Board of Review e posteriormente do Golden Globe, "Conduzindo Miss Daisy" enfrentou corajosamente o drama de guerra de Oliver Stone e saiu da festa com 4 prêmios no bolso, incluindo também as láureas de roteiro adaptado e atriz para a veteraníssima Jessica Tandy, que estabeleceu o recorde, aos 81 anos, como a mais idosa atriz a levar o Oscar de sua categoria.

Conhecida por seu passado em Hollywood - trabalhou com Hitchcock em "Os pássaros" (63), por exemplo - e por ter sido esnobada quando Elia Kazan levou "Uma rua chamada pecado" para o cinema, e escalou Vivien Leigh para interpretar a Blanche Dubois que ela encarnava há anos nos palcos, Tandy viu-se finalmente reconhecida pelo público, pela crítica e pela Academia no papel de Daisy Werthan, uma judia viúva, ranzinza e teimosa que, a princípio a contragosto, inicia um relacionamento de confiança e amizade com seu chofer negro, Hoke (Morgan Freeman), contratado por seu filho Boolie (Dan Aykroyd) depois que ela destrói o próprio carro ao tentar dar um simples passeio pela cidade. Em papel sob medida para exibir sua experiência e técnica, Tandy quase não deixou chance para suas rivais na disputa pelo Oscar - entre elas a bela Michelle Pfeiffer por "Susie e os Baker Boys" e Jessica Lange por "Muito mais que um crime". Mesmo ignorada por todas as associações de críticos dos EUA, ela saiu-se consagrada graças à infalível equação que soma um bom trabalho ao conjunto da obra e a um toque de sentimentalismo com a possibilidade de premiar uma veterana nunca antes reconhecida.


"Conduzindo Miss Daisy" - que chegou a ser montada no Brasil depois do filme, com Nathalia Thimberg e Milton Gonçalves nos papeis centrais - é um filme fácil de se gostar, graças ao ritmo fluente da narrativa, do talento de seus atores e da reconstituição de época caprichada. Porém, sofre de alguns problemas que o impedem de ser um grande filme - e consequentemente de ter sido aplaudido com mais ênfase pela crítica quando levou seus Oscar. A direção de Bruce Beresford, por exemplo, é burocrática e sem brilho, o que de certa forma explica sua exclusão da lista dos indicados pela Academia. O roteiro, apesar de nunca cair no tédio ou no sentimentalismo (mesmo em cenas de maior estofo dramático, como aquelas que tratam das relações entre a branca Miss Daisy e o negro Hoke em plena efervescência dos movimentos pelos direitos civis dos anos 60), também peca em não buscar um aprofundamento maior para nenhum dos protagonistas, cujo relacionamento se dá apenas em conversas bem interpretadas mas um tanto ocas. A falta de uma marcação de passagem de tempo também prejudica o total entendimento da trama, especialmente para quem não tem conhecimento da história americana e pode ficar perdido diante de alguns acontecimentos sociais cuja data não fica explícita à plateia. Sabe-se, por exemplo, que a história começa em 1953 por causa de uma narração vinda de um rádio na cozinha dos Werthan e, posteriormente, só fica claro que a história já está em 1963 devido a um pequeno calendário quase escondido no cenário - e por causa da maquiagem, claro.

No ano em que "Nascido em 4 de julho" reiterava a obsessão de Oliver Stone pela guerra do Vietnã, que "Meu pé esquerdo" revelava ao grande público o talento de Daniel Day-Lewis e "Sociedade dos poetas mortos" mostrava que o talento dramático de Robin Williams se comparava a seu inimitável estoque de piadas, dar o Oscar de melhor produção a um trabalho apenas banal como "Conduzindo Miss Daisy" não deixou de ser mais uma prova de que a Academia não necessariamente escolhe o melhor filme e sim aquele que mais convém a seu ideal de gosto médio. Não é um produto que fira suscetibilidades (talvez a de Spike Lee, mas o que não o faz?), assim como também não fascina e encanta a ponto de tornar-se inesquecível. É um bom filme, mas nunca o melhor de 1989.

quarta-feira

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA

O TIRO QUE NÃO SAIU PELA CULATRA (Parenthood, 1989, Universal Pictures, 124min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Ron Howard, Babaloo Mandel, Lowell Ganz. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Daniel Hanley, Michael Hill. Música: Randy Newman. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Todd Hallowell/Nina Ramsey. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo. Produção: Brian Grazer. Elenco: Steve Martin, Jason Robards, Mary Steenburgen, Dianne Wiest, Tom Hulce, Rick Moranis, Harley Kozak, Martha Plimpton, Keanu Reeves, Joaquin Phoenix. Estreia: 31/7/89

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest), Canção Original ("I love to see you smile")

Uma doce e terna homenagem às benesses da paternidade - título-original massacrado pelo absurdamente idiota e sem sentido "O tiro que não saiu pela culatra" - a comédia de Ron Howard que acompanha as aventuras e desventuras de uma família tipicamente americana (mas que poderia tranquilamente ser brasileira, italiana, francesa ou japonesa, com suas diferenças culturais à parte, obviamente) nasceu da conclusão de Howard (juntamente com o produtor Brian Grazer e os roteiristas Babaloo Mandel e Lowell Ganz) de que o fato mais importante que lhes aconteceu na vida foi terem sido pais. Relembrando situações embaraçosas, tristes ou engraçadas pelas quais passaram, eles conceberam a história de um clã tão disfuncional quanto caloroso, repleto de problemas mas igualmente cercado de carinho e compreensão, os Buckman. Representados por um elenco excepcional que tem em mãos um roteiro recheado de diálogos deliciosos e poeticamente realista, os Buckman são um retrato bastante fiel da plateia, que deixou nas bilheterias americanas cerca de 100 milhões de dólares e colocou Ron Howard no mapa dos diretores altamente comerciais de Hollywood - status que havia conquistado com "Splash, uma sereia em minha vida" (84) e perdido momentaneamente com o relativo fracasso de "Willow, na terra da magia" (88), um projeto pessoal que naufragou nas bilheterias.

Contado em forma de anedotas cotidianas interligadas por uma história tênue e de uma simplicidade extremamente eficiente, "O tiro que não saiu pela culatra" concentra-se principalmente em Gil Buckman (Steve Martin, explorando todo o seu timing cômico em papel recusado por Dan Ayckroyd, Michael Keaton, Jeff Golblum e Tom Hanks), o segundo filho do patriarca Frank (Jason Robards), um homem que passou a vida dedicado ao trabalho e deixou a família de lado. Gil é casado com a doce Karen (Mary Steenburgen), luta para ser reconhecido profissionalmente e lida diariamente com seus três filhos - sendo que o mais velho, Kevin (Jasen Fisher), para surpresa dos pais, é considerado um garoto-problema na escola e precisa frequentar uma psicóloga. Sua irmã mais velha, Helen (Dianne Wiest), é separada de um ex-marido ausente e luta para ter uma relação afável com os filhos adolescentes, a rebelde Julie (Martha Plimpton) - que namora o desnorteado Todd (Keanu Reeves) - e o misterioso Garry (Joaquin Phoneix, ainda com seu nome real, Leaf, posto por seus pais hippies). A terceira irmã, Susan (Harley Kozak), é casada com o neurótico Nathan (o ótimo Rick Moranis), que quer transformar a filhinha de seis anos em um Einstein de saias e o irmão caçula, Larry (Tom Hulce) - de certa forma o preferido de Frank - pega toda a família de surpresa quando retorna de uma viagem acompanhado de um adendo inesperado: um filho pequeno que teve com uma dançarina de Las Vegas.


Com essa galeria de tipos idiossincráticos mas bastante próximos da realidade do espectador - tanto em termos emocionais quanto familiares -  Ron Howard cria uma pequena pérola do cinema mainstream, equilibrando com sensibilidade momentos de humor (como a hilariante cena em que Gil descobre, sem querer, o que consola sua irmã Helen em suas noites solitárias) com sequências banhadas em uma delicadeza quase europeia (sempre que Gil tem a chance de questionar as escolhas de sua vida e dá de cara com a estrutura familiar que construiu com Karen e os filhos). A trilha sonora de Randy Newman pontua com precisão as escolhas sutis de Howard, comentando a ação de forma discreta - sua canção-tema, "I love to see you smile", chegou a ser indicada ao Oscar da categoria. E o elenco é um show à parte, equilibrando atores já consagrados com os nomes mais quentes do humor cinematográfico americano da época - não deixa de ser injusto que apenas Dianne Wiest tenha sido lembrada pela Academia por seu desempenho como a solitária Helen (um papel no qual ela é especialista, haja visto pelo menos dois trabalhos sob o comando de Woody Allen, "A era do rádio" (87) e "Hannah e suas irmãs" (86), que lhe rendeu uma estatueta.

Se Steve Martin de certa forma comanda o espetáculo com seu Gil Buckman, ele encontra ao seu lado um grupo de atores em plena forma. Jason Robards transmite com exatidão as dúvidas de seu Frank, que descobre na velhice o quanto perdeu da juventude dos filhos e tenta remendar os erros passando a mão na cabeça do caçula irresponsável. Mary Steenburgen vive com placidez uma personagem sempre no meio do redemoinho mas sempre com a cabeça pronta para diminuir as tempestades. Dianne Wiest brilha como Helen, especialmente em seus duelos com a filha Julie (a ótima e eterna "goonie" Martha Plimpton). E Rick Moranis - popularíssimo nos EUA nos anos 80 e depois praticamente esquecido pelo público e pela indústria - quase rouba a cena como o alucinado pai com grandes expectativas intelectuais em relação ao rebento. Juntos, essa família de ótimos atores transforma o texto quase simples de "O tiro que não saiu pela culatra" (que alguns críticos consideraram pasteurizado e digno de sitcoms e não de um filme de um grande estúdio) em um trunfo do cinema familiar. É simples, é quase ingênuo e é também, reconheçamos, quase esquecível. Mas é, ao mesmo tempo, uma delícia como um grande pedaço de bolo de chocolate.

terça-feira

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA

MEU PAI, UMA LIÇÃO DE VIDA (Dad, 1989, Amblin Entertainment, 117min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de William Wharton. Fotografia: Jan Kiesser. Montagem: Eric A. Sears. Música: Howard Shore. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Frank Marshall. Produção: Gary David Golberg, Joseph Stern. Elenco: Jack Lemmon, Ted Danson, Olympia Dukakis, Ethan Hawke, Kathy Baker, Kevin Spacey, J.T. Walsh. Estreia: 10/11/89

Indicado ao Oscar de Maquiagem

A maior expectativa em torno de "Meu pai, uma lição de vida" era uma indicação ao Oscar de melhor ator para Jack Lemmon, um dos grandes astros dos anos 50 e 60 e que, sob o comando de Billy Wilder, já havia legado ao cinema americano obras-primas como "Quanto mais quente melhor" (59) e "Se meu apartamento falasse" (60) - além de ter ganho duas estatuetas, por "Mr. Roberts" (55) e "Sonhos do passado" (73). Quando a lista de indicações saiu, porém, apenas o trabalho de maquiagem do filme foi lembrado pela Academia. Injustiça? Talvez, uma vez que a interpretação de Lemmon é, mais uma vez, sensacional. Mas o fato de a obra de Gary David Goldberg parecer mais um produto televisivo de "doença da semana" do que um produto cinematográfico de qualidade provavelmente pesou na hora h e o veterano ator - assim como sua colega de cena Olympia Dukakis, também soberba - acabou sendo deixado de lado. Porém, mesmo com o fracasso de seu principal objetivo, "Meu pai" merece ser assistido, nem que seja para comprovar o talento acima da média de seu protagonista - se é que ainda possa existir alguma dúvida quanto a isso.

Baseado em romance de William Wharton, "Meu pai, uma lição de vida" busca a emoção do público ao retratar o relacionamento entre pai e filho que são obrigados a conviver novamente depois que a velhice chega inexoravelmente à sua família. Tudo começa quando a ativa Bette Tremont (Olympia Dukakis) sofre uma parada cardíaca em pleno supermercado, o que a leva imediatamente ao hospital. O fato muda a rotina de sua família, uma vez que é ela, sozinha, quem cuida do dia-a-dia do marido, Jake (Jack Lemmon), de saúde frágil e dependente da atenção da esposa. Enquanto Bette permanece internada, é seu filho mais velho, John (Ted Danson) quem passa a pajear o pai, com quem mantém uma relação de certa distância emocional. Durante esse período, porém, surge entre eles uma inesperada amizade e o próprio Jake passa a tomar um pouco as rédeas de seus dias. Quando Bette retorna ao lar, no entanto, é seu marido quem sofre um derrame e entra em coma - do qual ressurge ainda mais ativo e saudável. Essa nova fase surpreende a todos (não exatamente de forma positiva, já que Bette é obrigada a lidar com uma desconhecida face do marido) e faz com que John perceba que está perdendo a juventude do próprio filho, o adolescente Billy (Ethan Hawke).


Experiente em programas de televisão - como "Caras e caretas" e "Spin City", dos quais foi roteirista e de onde tirou a facilidade em impor ritmo a suas narrativas - o diretor Gary David Golberg tropeça justamente no ponto que deveria, em tese, ser seu maior trunfo, e oferece ao espectador um roteiro sem um foco específico, que muda de direção a cada novo lance dramático (e eles são em número suficiente para que tudo soe como exagero). A relação entre John e seu pai - a princípio o ponto principal da trama - é frequentemente interrompida com novas tragédias, o que dá a impressão de tratar-se de um compêndio médico sobre as mazelas da velhice. Tal opção - que é também culpa do romance original - esvazia bastante a premissa inicial, resumindo o filme a um dramalhão familiar fácil e sentimentaloide, valorizado basicamente por seu elenco, que faz o possível para manter o interesse por uma história que a cada cena vai ficando mais e mais previsível - e até Kevin Spacey entra no jogo, em um de seus primeiros papéis de relativa importância, como o genro de Lemmon e Dukakis.

Então quer dizer que no final das contas "Meu pai, uma lição de vida" é uma bomba? Não, não é pra tanto. Nenhum filme que conte com Jack Lemmon e Olympia Dukakis em papéis importantes pode ser considerado ruim, uma vez que eles são atores superlativos, capazes de engrandecer qualquer texto. Mas Gary David Goldberg perdeu a oportunidade de criar um grande filme justamente por não conseguir impor limites ao dramalhão desbragado que toma conta dela a partir da metade da narrativa - que ainda por cima apresenta uma nova e desnecessária doença ao protagonista, que desvia mais uma vez o rumo da história, a tornando mais longa do que o recomendável. Com alguns defeitos que enfraquecem suas qualidades, é uma obra irregular, mas palco de mais um show de Jack Lemmon, um dos maiores atores de todos os tempos.

segunda-feira

O CÉU SE ENGANOU

O CÉU SE ENGANOU (Chances are, 1989, TriStar Pictures, 108min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Perry Howze, Randy Howze. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Harry Keramidas. Música: Maurice Jarre. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Robert R. Benton. Produção executiva: Andrew Bergman, Neil Machlis. Produção: Mike Lobell. Elenco: Robert Downey Jr., Cybill Sheperd, Mary Stuart Masterson, Ryan O'Neal, Christopher McDonald, Josef Sommer. Estreia: 10/3/89

Indicado ao Oscar de Canção Original ("After all")


A vida não poderia estar indo melhor para o jovem advogado Louie Jeffries (Christopher McDonald): sua carreira está no rumo certo, é feliz em seu casamento com a bela Corinne (Cybil Sheperd) - apesar de saber que seu melhor amigo (Ryan O'Neal) é apaixonado por ela, conforme ele mesmo confessou no dia da cerimônia - e acaba de descobrir que será pai pela primeira vez. Sua imensa felicidade, porém, acaba no capô de carro, que o atropela a caminho de sua comemoração de um ano de casamento. Desesperada, sua alma chega ao céu implorando para que seja mandada de volta - além de sua linda esposa, seu fiel amigo e seu futuro bebê, ele também tem como provar um caso de corrupção envolvendo um juiz de Direito que pode decidir o futuro de um caso seu. Em sua pressa, ele não percebe que, mesmo furando a enorme fila que se forma no local, não irá voltar à Terra no mesmo corpo e na mesma personalidade e sim, reencarnado em outra pessoa. Sem tomar uma vacina que o faria esquecer sua vida anterior, Louie volta como Alex Finch. Vinte anos mais tarde, Alex, formado como jornalista (e na pele de Robert Downey Jr.), tenta um lugar ao sol e conhece a bela e determinada Miranda (Mary Stuart Masterson), estudante de Direito que se apaixona por ele. Na primeira visita à casa dela, porém, Alex se vê relembrando de cada detalhe da residência e leva um susto a descobrir que ela é filha de Corinne, ou seja, de si mesmo. Decidido a reconquistar a mulher que ama, ele precisa convencê-la do absurdo de sua história e afugentar a liberada Miranda (ao mesmo tempo em que também tem que lidar com o fato de ter uma filha disposta a tudo para seduzir o homem por quem é apaixonada).

Essa história, absurdamente fantasiosa mas deliciosamente leve e simpática, é a trama de "O céu se enganou", comédia romântica dirigida pelo mesmo Emile Ardolino que pegou Hollywood de surpresa com o êxito de "Dirty dancing, ritmo quente" (87) e depois faria ainda mais sucesso comandando Whoopi Goldberg em "Mudança de hábito" (90). Sem tentar inventar a roda e contando principalmente com o carisma e o talento ainda em fase de lapidação de Robert Downey Jr. - muitos anos antes que ele se tornasse o garoto-problema de Hollywood e depois desse a volta por cima como o Homem de Ferro - o cineasta, que morreu aos 50 anos em 1993, vítima de complicações relativas à AIDS trata sua história com naturalidade e bom-humor, em um estilo narrativo que muito lembra as comédias despretensiosas dos anos 40. Tal opção reflete-se também na escolha acertada da trilha sonora - que conta com a bela canção-título na voz de Johnny Mattis, a já clássica "Forever young", de Rod Stewart e "After all", balada indicada ao Oscar interpretada por Cher e Peter Cetera - e na escalação da bela Cybill Sheperd para o papel principal feminino.

Sheperd, ex-musa de Peter Bogdanovich em "A última sessão de cinema" (71) e então protagonista da telessérie "A gata e o rato" - que revelou Bruce Willis e estava em sua última temporada - está bela e etérea na pela de Corinne Jeffries, desfilando pela tela com a graça e a elegância das estrelas da antiga Hollywood. Não é difícil acreditar que tanto Downey Jr. quanto Ryan O'Neal sejam apaixonados por ela, mesmo que o roteiro por vezes trate sua personagem com certa leviandade. E o roteiro, como não poderia deixar de ser, esconde suas falhas na química perfeita entre o elenco, o tom despretensioso da direção e alguns momentos de humor realmente engraçados, principalmente quando se trata das tentativas desesperadas de Alex em fugir de Miranda e conquistar Corinne. O inegável talento de Robert Downey Jr. para o humor físico, que em boa parte lhe ajudou a conquistar o papel-título de "Chaplin" (92), pelo qual foi merecidamente indicado ao Oscar, está evidente em cada sequência, demonstrando claramente que sua ascensão rumo à realeza do cinema americano era iminente - ascensão esta interrompida por suas constantes lutas com a justiça e retomada com louvor com o sucesso reconquistado a partir de "Trovão tropical" (08).

"O céu se enganou" é mais uma sessão da tarde de categoria. Simples, divertida e ligeira, ela é também uma mostra do início da carreira de Downey Jr. e uma das poucas chances de testemunhar a beleza de Cybill Sheperd antes que ela desaparecesse das telas grandes e só voltasse a atuar com destaque em outro seriado de TV, que levava o seu nome e ficou no ar entre 1995 e 1998. Juntos, eles - coadjuvados com correção por Ryan O'Neal e Mary Stuart Masterson - são a principal atração do filme, que não machuca ninguém e ainda consegue entreter sem fazer muita força.

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